quarta-feira, 9 de abril de 2014

COM QUANTOS PAUS... (I)


As ferramentas do português - Arte: Eudes Nunes

A  canoa caiçara vai ganhando espaço, se tornando um patrimônio cultural do território caiçara para o mundo. Saudações aos que lutam nessa intenção.
Na década de 1980, apesar de ter crescido vendo canoas sendo tiradas das matas,  conheci os primeiros textos que apresentavam os detalhes das etapas da construção canoa caiçara. Achei maravilhoso ter pessoas estranhas querendo conhecer  e dar ao mundo os segredos, os passos dessa arte tão nossa. 
Hoje, faço questão de apresentar parte de uma entrevista daquela época com o seu Ditinho, de Paraty. É parte de um trabalho etnográfico de publicação limitada.

Pesquisador: - Sr. Benedito Ricardo de Jesus (seu Ditinho), qual a melhor madeira para se fazer uma canoa?

Ditinho: Bom, a madeira especial pra se fazer canoa é o cedro.

P: Por quê?

D: Porque é um pau forte, que cresce roliço e que resiste bem na água e no sal. É leve, de pouco peso e dura muito. Tem umas canoinhas de cedro por aí que o senhor olha e não dá nada, mas vai ver, já tem uns 80 pra 100 anos.

P: Seu Ditinho, além do cedro, que outras madeiras o senhor usa para fazer canoa?

D: Depois do cedro vem a timbuíba, o goiti, ingá-de-flecha, ingá amarelo, canafístula, vinhático, jequitibá, guapurubu, canela, tarumã, cedrinho, figueira branca, arecurá, carquera da crespa. São madeiras apropriadas para fazer canoa.

Depois de escolhido o tipo de madeira, é preciso encontrar um tronco com tamanho e grossura que se deseja. Uma canoa bem proporcionada deve ter a medida do comprimento igual a sete vezes e meia a medida da largura.

D: Vamos supor, de acordo com a largura da canoa é o comprimento. Então é sete bocas e meia.

P: Como o senhor sabe a largura da boca da canoa pelo tronco da árvore?

D: Bem, aí é o seguinte, né? A gente mede o rodo dele com um cipó de imbé, depois dobra o cipó no meio e depois dobra novamente, o senhor tá me entendendo? Dobrou bem no meio e depois faz outra dobra e então é uma parte daquela, o que sobrou, é que dá a boca da canoa. Então, faz o comprimento. Sete pedacinhos e meio daquele total. Tá entendendo?

Ou seja, a boca (largura) da canoa é igual a um quarto da circunferência do tronco e o comprimento, sete vezes e meia a medida da boca. Escolhida a madeira e medido o tronco, temos de esperar pela lua nova, para evitar brocas e fungos. [...] Dependendo do tamanho do pau, abre-se em volta dele uma clareira no mato, fincam-se forquilhas de madeira (tarumã ou ingá, preferencialmente) aos pares, formando um corredor. Sobre elas colocam-se madeiras macias com o pati, o palmito ou a bananeira. São as “estivas” sobre as quais deverá tombar o tronco, para evitar rachaduras que o inutilizariam).

D: Bom, eu vou dizer para o senhor: nós derrubamos a árvore e aqui eu estou torando da ponta com o machado. A ponta de lá, que faz a popa.

P: Quer dizer que a proa fica do lado da raiz?

D: É, porque a proa tem que ser mais larga.

P: E depois?

D: Depois que eu atorei, eu tenho que procurar o jeito da tora, pra fazer a boca da canoa. Eu vou escolher o lado que tem chatura da madeira, que é pra arrasar pra fazer a boca. toda madeira tem um lugar mais chato. Ela não é perfeita, não é rolicinha. Tem um lado mais chato, que então eu vou arrasar. dei um arraso, aí então eu viro ele para cima e vou desbojar.

Um comentário:

  1. Impressionada com a sabedoria que se funde com cultura!
    Parabéns por esse blog.
    Encantada com seus posts!

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