quarta-feira, 3 de maio de 2017

HISTÓRIA DE AMOR

Juventino, Porfírio, Sérgio e Serginho (Arquivo Fátima)

Dona Clície

               A tradição oral dos caiçaras hoje se encontra enfraquecida, mas houve um tempo em que as rodas de causos no jundu, as histórias de serão e as prosas em família testemunhavam a nossa cultura e a reconstruíam a cada dia. Ou seja, alimentavam nossas almas. Meus filhos (Maria Eugênia e Estevan) carregam os nomes dos bisavós que mais contavam histórias. Assim nos formaram! Alguém duvida?
               Outro bom contador de histórias foi o saudoso Tio Izídio, um dos descendentes do Velho Antunes de Sá, da Fazenda Caçandoca. Na verdade, ele era casado com a minha tia-avó Luzia. Numa ocasião, tendo a atenção dos mais novos, assim começou:

               “Nós somos daqui desde muito tempo. Meu avô, o Velho Antunes de Sá comprou este lugar do Granadeiro, o fazendeiro da praia da Mococa. As terras da Fazenda Caçandoca começam na Pedra da Cruz, que fica na costeira da Maranduba, debaixo do Morro do Cemitério, depois corre pelo espigão da Serra da Caçandoca até na divisa com a Serra da Lagoa. Dali desce de novo para a costeira, na Pedra do Um, a outra divisa.
               Esse meu avô, o Velho Antunes, tinha uma filha muito bonita já em época de se apaixonar. Uma escrava bem jovem lhe servia de ama. Dizem as histórias que essa cativa gostava muito da sinhazinha. Era tanta a estima que até escondia do senhor a paixão da moça pelo filho do fazendeiro da praia da Lagoinha. Foi por isso que, no dia que descobriu a respeito do romance, o fazendeiro se preparou para castigar a ama que lhe omitiu a informação. Ao perceber que seria espancada, a negrinha correu pela casa, indo para a parte de cima do sobrado que ficava no areão [da praia da Caçandoca], na beira do rio. Acabou ficando encurralada, com o fazendeiro quase lhe alcançando. No desespero se jogou pelo janelão em direção ao terreiro. Foi quando aconteceu uma coisa fabulosa: o vestido se espalhou, igual a uma flor aberta, amortecendo a sua queda. Então ela saiu correndo pelo caminho bem conhecido da costeira do Pulso. Já era serão, escurecia, mas mesmo assim foi perseguida por gente da fazenda.  O que lhe valeu de esconderijo foi um oco numa grande timbuíba que existia quase chegando na Pedra do Cruzeiro, onde mais tarde morou o Velho Salomão. Só na madrugada criou coragem e foi bater na porta da fazenda da Lagoinha, onde morava o rapaz apaixonado pela sinhazinha. Foi acolhida, explicou tudo. Logo foi comprada pelo fazendeiro. Mais tarde, conforme a história prova, deu certo o namoro dos dois jovens. Após o casamento, a sinhazinha foi morar na Fazenda da Lagoinha e a escrava, sua antiga ama, continuou lhe servindo. Mais tarde ela também encontrou um parceiro e teve filhos. Gertrudes, Porfírio, Juventino e outros vieram do tronco desse casal de escravos”.

               Agora eu acrescento à fala do Tio Ezídio: 
            Depois Juventino se apaixonou por Dona Crície e.... Maria de Fátima, Serginho e tantos outros descendem dessa fugitiva da Fazenda Caçandoca. Não é uma bela história de amor?

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