quarta-feira, 15 de abril de 2015

INSATISFAÇÃO MORAL

Canto do Camaroeiro - Caraguá -  na maré baixa (Arquivo JRS)

                Eu e meus irmãos fomos privilegiados por termos vividos em comunidades pequenas, onde o conceito de família caiçara era mais abrangente e todos se sentiam no dever de contribuir com a nossa educação, de nos corrigir quando era necessário. Nossos pais nem precisavam ser notificados dessas correções/lições rotineiras.
                Quando os caiçaras mais velhos recomendavam atenção (“bote reparo”), era para entender que algo precisava ser corrigido, revisto em vista de um viver coletivo. Pensar no outro ainda é componente da nossa identidade. 
                          E hoje...
              Todos se sentem inconformados com os grandes escândalos divulgados nas mídias, mas poucos se atém aos pequenos deslizes e corrupções que preenchem o nosso cotidiano. Os infratores até chegam ao cúmulo de se fazerem de vítimas e de se acharem nos seus direitos.
                Um exemplo: há algum tempo, já tem mais de um ano, escutei  seguidamente um canto de passarinho que vinha da minha calçada. Sei que não é normal isso, sobretudo onde tem sempre gente circulando. Saí para ver e constatei a minha desconfiança: um vizinho se achou no direito de pendurar a gaiola no meu canteiro, no galho de resedá (ou minerva). Imediatamente eu pedi que a retirasse. “Eu não admito isso. Vai fazer o que você quiser no seu espaço”.
                Nesta semana que passou, depois de muito tempo, novamente a coisa se repetiu. De novo eu chamei o autor e pedi que retirasse a gaiola. Agora, preste atenção à sua fala: “Ó, me desculpe, eu não sabia que estava atrapalhando”.
              É lógico que está! Está porque sou eu quem cuida  e quem paga pelo espaço da calçada. Está porque foi reincidência, que já sabia que eu não compactuo com pássaros engaiolados. Está porque nem sequer imaginou, nem aprendeu que precisava solicitar o uso de espaço que não é dele.  Na verdade, as árvores que mantenho na calçada, são símbolos de resistência após tantos passantes que as maltratam no cotidiano, enquanto que a minha intenção ao plantá-las para oferecer sombras e flores a todos. Ainda bem que tem muita gente a reconhecer isso! Está desculpado  quem não foi ensinado, principalmente pelos pais, a respeitar o espaço alheio. Mas que não se repita essas pequenas corrupções. Está desculpado quem não teve uma comunidade, uma cultura estabelecida para seguir a recomendação de "botar reparo". Coitado daqueles que estão ao sabor da indústria cultural!
                São essas “pequenas corrupções” que me causam maior insatisfação moral. Então está certo o Walcyr Carrasco ao dizer que “a corrupção maior é apenas a expressão de um tipo de vida que achamos até normal”.

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