domingo, 23 de março de 2014

RELEMBRANDO O ROGÉ

         
Casarão do Porto - Ubatuba (Arquivo JRS)

            De vez em quando, relendo uns textos, acho por bem reeditá-los. Deve ser saudade das pessoas que passaram por nossa vida e que deixaram suas marcas em nossa história. Este é em memória do saudoso Rogé, cujos pais eram donos da Praia das Sete Fontes, mas que venderam essa maravilhosa posse de terra e foram em busca de novas oportunidades de vida na Baixada Santista, na primeira metade do século XX. No entanto, o Rogé viveu a maior parte de sua vida muito pobremente entre os parentes caiçaras ubatubanos, circulando entre o Rio Escuro, a Estufa, o Ipiranguinha, a Praia da Fortaleza e outros lugares onde recebia acolhida.

       Rogério Mesquita, o Rogé, “anda por todo canto, sabe um monte de coisa só de escutar”. Foi o que eu escutei da minha vó Eugênia. E o Rogé sabia mesmo!
                Certa vez, enquanto olhava para o mar, ele contou do “sobrado velho” (que eu nem tinha ideia de onde era), porque era importante etc. Bem mais tarde eu descobri a referência: era o Casarão do Porto, antiga casa de Manoel Balthazar, na boca da barra do Rio Grande de Ubatuba. Hoje é parte da Fundart, mas desde 1959 foi tombado como patrimônio histórico e arquitetônico.
                De acordo com o Rogé, ele era moleque quando conheceu o lugar:
                “Naquele  lugá ali era o Hotel Boidapeste [Budapeste]. A gente mais velha dizia que aquela era a casa mais bonita da cidade. O primeiro dono foi um português que vendia e comprava;  dali despachava e arrecebia mercadoria. A língua do povo diz que o hómi enricou com café ainda no tempo que o Brasil tinha imperadô – que aparece em livro com barba branca! Esse portuga teve umas filha bonita pra perdê! Só que não era pra bico de pobre! Arrumaro marido, faiscaram daqui! Só uma ficô na nossa terra... terminô sua vida em Taubaté. A propósito, foi gente dessa cidade, o Guisado [Guisard] que mais tarde, adespois do tempo da revolução do Getulho [Getúlio], comprô  o velho prédio pros tempo de férias. Naquele trecho, entre a igreja e o sobrado, em tempo assim, ficava cheio de gente se tecendo: era um tal de querê vê gente de fora e querê sê visto também! Tinha gente nova na cidade por um tempo: tanto no frio como no tempo quente. O boato dizia que a maioria era empregado do dono do sobrado. Agora, se acreditá no que disse o Zequita [José Alves Barreto], vão fazê não sei o que lá de curtura. Acho que o sobrado velho tá sobrando”.

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