sábado, 4 de abril de 2026

A FOME TEM PRESSA

 

Arco-íris no crepúsculo - Arquivo JRS 


     Tudo o que conseguimos e somos é resultado, para citar o cientista Sidarta Ribeiro, de “sonho noturno ou devaneio diurno”.

     A existência da breve existência da sociedade humana na Terra, nessa teoria, nessa dinâmica noturna e diurna, se deu – e segue! – cavando caminhos (criação de ferramentas, desenvolvimento da comunicação, invenção de máquinas, organização de instituições e leis etc.). Se detendo no contexto mais atual, no mais de meio século que eu me entendo por gente, posso afirmar que são as narrativas que resultam em modelos sociais mais egoístas ou mais solidárias; mais injustas e com pouquíssimos privilegiados ou mais justas e mais fraternas, que garantam felicidade ampliada à humanidade.

   Eu penso que a nossa vida pode ser relacionada a uma viagem variável conforme os contextos, as condições: quando criança arriscamos passos sem pensar, quando a idade vai pesando medimos as nossas possibilidades, os nossos limites para até mesmo uma simples caminhada. Tememos ficar pelo caminho devido uma lesão ou mesmo por fraqueza natural nos músculos e órgãos.

   Comparando a nossa vivência a um deslocamento, a uma viagem de ônibus, por exemplo, pode ser que o veículo enguice na estrada, sendo inevitável o nosso desembarque, a tomar outra condução, seguir um trajeto alternativo para chegar ao destino almejado. Pode ser que sejamos levados a rever/refazer o projeto, o plano do início. Pode ser! Tal como é possível de acontecer numa viagem, passageiros podem ficar pelo caminho, decidir por um atalho, dar uma volta maior, escolher ou descartar companhias etc. Mediante os imprevistos alguém pode dizer: “Posso demorar, mas hei de chegar lá, não vou desistir”. Também pode acontecer de alguém desistir, se arrepender da jornada: “Desisto porque acho que não vou conseguir”.

   A nossa viagem nesta humanidade continua se sustentando nos fracassos e sucessos. Tem momentos da esperança estar mais forte, mas há instantes de esmorecimentos. O cientista brasiliense acima citado nos ajuda com uma passagem do seu livro O oráculo da noite:

   A expansão gradual da capacidade de contar histórias e viajar mentalmente no tempo foi o combustível da explosão cultural humana nos últimos milênios [...] O fato é, que em algum momento da nossa história recente, começamos a ser capazes de formular narrativas de futuro com base no passado.

  Portanto, se no passado tivemos exemplos cruéis de sociedades, por que repeti-los?  Se determinados perfis políticos tendem brigar por um modelo excludente, perverso, por que elegê-los para nos representar? Qual a nossa atitude ao estar convicto de que “a impunidade torna os maus ainda piores”, conforme escreveu Platão há dois milênios e meio? Ainda bem que os bons são a maioria!

   Betinho, que dizia que a fome tem pressa, numa mensagem ao seu saudoso irmão Henfil escreveu isto: “Você vai torcer aí do Céu e nós vamos votar aqui na Terra para ver se a democracia funciona para melhorar a vida de nossa gente”. Eu quero que a minha parte na viagem seja feliz e alimente positivamente a esperança da nossa gente: esta é a minha espiritualidade. Amém nós todos!

sexta-feira, 3 de abril de 2026

EU NASCI NO SAPÊ

 

Tio Antônio do Prado - Arquivo Marcos

Maranduba e loteamento - Arquivo Ubatuba


    Lendo um texto e vendo imagens postadas pelo primo Marcos, descendente do tio Basílio, da praia do Pulso, chão que também viu nascer vovó Martinha no começo do século passado, senti uma vontade de escrever em torno de algumas lembranças que tenho da praia do Sapê, onde eu e mais irmãos nascemos pelas mãos dessa mesma vó, a parteira da região na época.

   A nossa casa, vizinha do Andrelino e Jorgina, do outro lado do areião da tia Rita Carlota, em cuja casa eram ministradas aulas para as meninas, era bem simples, como todas daquele tempo. Outros vizinhos mais próximos: tia Livina, Nié, Zé Balio e Deolindo. Um pouco mais longe moravam João Paulo, tio Totô, Dioclécio, Tonico, João Firmino, tio Chico, Jonas, Paulo e Tião Plácido. Meu pai foi o construtor da nossa primeira moradia, contando com ajuda do João Oliveira e outros parentes. Nela nós nascemos e passamos alguns anos da infância, mas mamãe, que se engraçou com papai enquanto trabalhava no Hotel Picaré, na barra do rio Maranduba, sentia a necessidade de estar perto dos pais, moradores na praia da Fortaleza. A solução foi vender a propriedade e se mudar. Quem comprou? O tio Antônio do Prado, da tia Santa. A nossa primeira casa se tornou o lar deles. Assim deixamos o chão do Sapê, onde moravam nossos avós (Estevan e Martinha). Não me recordo do preço, mas sei que  por alguns meses meu pai se deslocava da Fortaleza até o Sapê para receber uma quantia nas notas promissórias. Era o tio Ângelo, cuja venda no Largo do Sapê competia com o armazém do João Pimenta, quem efetuava o pagamento pelo concunhado. No  morro da Fortaleza foi construída a nossa segunda moradia. Lá do alto, entre roçados, avistávamos o grande mar, as ilhas e as praias mais próximas. Foi onde nasceu o mano Clóvis.

     Naquele tempo, meados de 1960, já estava consolidado o primeiro loteamento na praia da Maranduba. Meu pai se referia a um tal de Nagib como responsável no empreendimento. O rio todo sinuoso, com um farto manguezal onde meu povo caçava guenzo e outros seres para comer, foi tornado reto a fim de mais lotes surgirem. Posso dizer que ali se formaram os primeiros pedreiros, os construtores caiçaras. Hoje tudo está tomado pelas edificações, sobretudo aquelas destinadas aos turistas. A região, sem rede de esgoto, resulta em grande parte da sujeira rompendo fossas, seguindo para o rio e o mar. Sem dúvida nenhuma que a feiura e os crimes ambientais imperam!  Afirmei à amiga Carolina, preste a lançar um livro mostrando anciãos caiçaras seguindo mantendo práticas artesanais, que a abertura das rodovias (Ubatuba-Taubaté, Ubatuba-Caraguatatuba e Ubatuba-Paraty) foram as responsáveis pelas enormes mudanças na cultura local, no modo de vida dos caiçaras. Antes disso, para conseguir melhores condições de sobrevivência, meu povo se dirigia à Baixada Santista com o objetivo de ser contratado para trabalhar no porto ou nos bananais. Éramos migrantes lá - a nossa Meca! - tal com segue sendo a nossa Ubatuba para os mineiros, nordestinos e outros em tempos mais atuais.