sexta-feira, 6 de outubro de 2017

BODOQUE CAIÇARA

                
Meu bodoque (Arquivo JRS)

Caiçara bodocando no Ubatumirim em 1974 (Arquivo Olympio)

             Bodoque não é arco de atirar flechas, mas parece, né? É um arco de atirar pedras. Coitados dos passarinhos!

                No meu tempo de criança os caiçaras aproveitavam muito as oportunidades para passarinhar. Era uma ocupação e também fazia parte de nossos hábitos alimentares o consumo de carne de passarinhos. Ainda bem que hoje não precisamos mais disso, nem há essa necessidade cultural (de seguir os passos dos nossos pais e avós caçadores).

                O bodoque era o que podíamos ter, a nossa arma anterior ao estilingue. Matéria-prima básica é madeira. Para a alça da pedra e os separadores das cordas qualquer corda ou embira bastava. Algumas madeiras tinham a preferência na confecção do arco. Por isso nossos olhares sempre estavam atentos à diversidade vegetal de nossas matas, identificava-se facilmente um cafeeiro do mato, uma vareta de cabreuva, um exemplar de marfim etc. De vez em quando até pitangueira e cafeeiro do entorno eram cortados. Na verdade, a gente só queria pau linheiro, madeira que tinha fibras retas, sem caroço para atrapalhar. Tio Tião Armiro era quem mais fazia bodoques na minha infância. E o danado tinha uma ótima pontaria! Hoje, o meu bodoque, presente do estimado Irineu, é feito de guatambu. Fica na parede pendurado; mata a curiosidade de alguns. Esse sim!

                Creio que vale a pena, a título de diversão, retomar a arte dos bodoques e treinar para um campeonato, onde teremos a oportunidade de admirar ótimos atiradores. Certeza mesmo serão as pedradas acertadas na própria mão, pois até acertar o jeito, muitos acidentes acontecem! O meu amigo Napoleão, do interior paulista, disse que lá ele também curtiu muito esse instrumento chamado bodoque.

Nenhum comentário:

Postar um comentário