sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (III)

 

 

 

Fandangando - Arquivo Rogério 


    Viva os 15 anos do blog!


     Neste dia quem nos homenageia é o estimado Rogério Estevenel, cuja raiz materna está na praia das Toninhas. Ele é professor, sua cabeça está na Geografia, mas seu coração é devoto das tradições caiçaras. Hoje o tema é fandango e seus desdobramentos, mas mais adiante ele nos brindará com o tema dos Santos Reis. Quem nunca apreciou este caiçara em seus bate-pés não sabe o que está perdendo!

 

     O fandango caiçara é mais do que dança e música: é expressão viva de um modo de ser coletivo, tecido no espírito do mutirão, da partilha e da convivência comunitária. Em cada batida do tamanco, em cada ponteio da rabeca e da viola, pulsa uma tradição construída no entrosamento, na amizade e no respeito às pluralidades que compõem o universo caiçara. O baile é encontro, é conversa sem palavras, é aprendizado entre gerações, onde todos têm lugar e voz.

     Seus instrumentos — rabeca, viola, adufo, pandeiro e tamancos — não são apenas ferramentas sonoras, mas extensões da memória e da fé de um povo que dança em comunhão. No salão simples, sob luzes modestas, constrói-se um ambiente de acolhimento, onde o coletivo se sobrepõe ao individual e a alegria se faz disciplina, ritmo e pertencimento. 

     Entre os muitos ritos do fandango, o baile do Enterra Toco ocupa lugar singular. Realizado na terça-feira de Carnaval, é o último baile antes da Quaresma, encerrando-se rigorosamente às 23 horas e 59 minutos. À meia-noite, com o início do período quaresmal, os fandangueiros guardam seus instrumentos de costas para a parede e os desafinam simbolicamente, colocando-os em guarda devocional. Esse gesto representa o recolhimento espiritual e a memória dos quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se preparar para o martírio que se aproximava. 

     Durante toda a Quaresma, o silêncio dos instrumentos é sinal de respeito e de fé. Apenas no Sábado de Aleluia, em festa pela Ressurreição de Jesus, a tradição é retomada, e o som do fandango volta a ecoar como anúncio de vida nova. Mas o Enterra Toco não é apenas rito religioso: é também rito de afetos. Em tempos antigos, quando os pais não permitiam que suas filhas mantivessem contato com rapazes antes do casamento, o baile de fandango tornava-se espaço discreto de enamoramento. A última moda dançada na terça-feira de Carnaval funcionava como um aviso silencioso entre os casais interessados. O verdadeiro compromisso, porém, só se confirmava na retomada do fandango no Sábado de Aleluia, quando se dançava a primeira moda com a mesma pessoa da última dança carnavalesca — sinal de um interesse que, muitas vezes, culminaria em futuros casórios. Hoje, essa prática permanece como memória afetiva de outros tempos. Ainda assim, em tempos escassos de bons pretendentes, o velho rito do Enterra Toco continua a soar, com certa ironia e esperança, como uma forma eficaz de garantir o seu “toco” — não apenas de madeira, mas de amor, tradição e continuidade cultural.

 

Rogério Estevenel


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