quarta-feira, 19 de agosto de 2015

HOJE LÁ É MUITO ESGOTO

Ruínas do Holanda Maia (Arquivo JRS, 2015)
Mulher lavando roupas no rio  Acaraú - B. Mary (1836)

Litografia retratando ponte sobre o rio Acaraú, na passagem para a casa da Jundiaquara (1836)

               Após, por indicação de amigos, conhecer as gravuras de Benjamin MARY, achei por bem reeditar um texto que já completou um ano.    Trata-se do trabalho científico de Heitor de Assis Júnior, sob o título de Litografias e obras artísticas na Flora Brasiliensis. Assim está escrito, mas só isso não revela o que nos interessa. Na verdade, é lendo os rodapés das gravuras de um viajante europeu do século XIX que vamos ter uma enorme surpresa; lá, lê-se, “Fig. 10: Modelo: MARY, Benjamin. Perto da propriedade de Jundiaquara no distrito de Ubatuba, 1836”.

              No centro da cidade de Ubatuba tem uma rua por nome de Maria Vitória Jean. De acordo com os registros de Washington de Oliveira, “Maria Victor Camilo Jean, mais conhecida por Maria Vitó, era filha de um daqueles franceses que em meados do século passado [1801-1900] vieram para o Brasil e acabaram radicando-se em Ubatuba”.
         Ao visitar a Casa da Jundiaquara, onde um desses franceses chegou  na primeira metade do século XIX, lembrei-me que alguém me disse o seguinte: “A Maria Vitória era descendente de Camille Jean, o fazendeiro francês da Jundiaquara. Foi quem construiu o primeiro casarão, depois  de aplainar uma parte do morro. Era um casarão muito bonito, onde acolhia sempre os visitantes franceses. O cônsul da Bélgica, um passagem por aqui, ficou hospedado lá. Também o famoso Debret, que fazia parte da Missão Cultural de D.João VI, foi acolhido ali. Da visão que se tinha do alto, ele fez algumas gravuras da nossa região, da natureza”.
     Dizem os historiadores que, além do fato da independência do Haiti, que expulsou os senhores franceses para outras terras, também ocorreu a guerra que envolveu a França contra a Prússia forçando os mais destemidos a buscarem outras paragens. Os franceses que chegaram a Ubatuba entre 1820 e 1850 eram dessas levas. Eram capitalistas buscando refúgio nas terras das Américas. No mesmo autor citado no início deste texto, encontramos: “Os que chegaram em Ubatuba adquiriram grandes extensões de terras e dedicaram-se à lavoura, muito especialmente na cultura do café”.

       Resumindo: as ruínas que visitei com os amigos são de época recente, construção do Holanda Maia, por volta de 1950, sobre os alicerces da primeira casa da fazenda (de Camille Jean). O nome Jundiaquara deriva da língua dos antigos moradores, dos índios tupinambás. É a Toca do Bagre (jundiá). Trata-se de uma enorme pedra mais para o interior, quase no Sertão da Sesmaria, onde passava o rio. Com essa denominação podemos deduzir que o local era cobiçado pelos pescadores de outros tempos. 
        Jundiaquara é ali, perto do trevo da Praia Grande. As ruínas recentes estão sobre o alicerce do primeiro casarão, onde Debret, Mary e outros foram hóspedes e produziram belíssimas imagens. Naquele tempo, o rio Acaraú era limpo. Hoje é esgoto a atingir nossos narizes, nossa flora e fauna... É uma água podre a dar a sua contribuição na destruição da nossa praia do Itaguá.
                 Agora, além do esgoto no velho rio, tudo é mato cobiçado para grilagem de terra, para devastação total de tantas riquezas naturais e culturais. Pois é! As assombrações que tanto medo causaram aos antigos caiçaras ainda persistem! Nunca que esses famosos viajantes europeus encontrariam inspiração para qualquer coisa em situação assim! 

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