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domingo, 4 de outubro de 2020

AS ANDANÇAS DA TETEIA

 

Antônio Gomide - Cenário na praia (Arquivo Arte)

    Tudo o que eu registro a respeito da Teteia faz parte do talento, da sina de fuxiqueiro do amigo João Brilhante. Sei que teria muito mais novidades no gênero caso fosse mais vezes visitá-lo, mas o tempo anda corrido. Até ele percebeu isso ao me perguntar anteontem: “Quando você vai se aposentar para poder vir mais vezes aqui para podermos prosear mais, Zé?”

                Depois da penúltima conversa, quando me informou da volta à velha "compensação pecaminosa" por parte da Teteia, a nossa conhecida de anos ("Eu não vejo então, por acaso, ela passar uma vez por semana, no rumo da roça do Chico Mergulhão?”), o amigo apresentou a novidade de uma estratégia mais salutar para sublimar os anseios dos assim nomeados por ele de "desejos pecaminosos da nossa amiga". Segundo o nosso "reparador de tudo", ela continua saindo bem cedo, mas agora para uma caminhada por mais de hora beirando a rodovia: "Creio que ela vá sempre até a Figueira e volta naquele passo de Teteia que você bem sabe como é. Mas vai!". 

     "É uma boa, mesmo, João! Você sabia que até o padre Anchieta recorreu a isso para escapar das tentações sofridas em Yperoig, em 1563, quando ficou como refém aqui, onde hoje é Ubatuba? É que durante a caminhada, suando muito, vendo outras coisas e se cansando, o corpo acalma, doma temporariamente seus desejos. Você imagina o coitado, recém chegado ao Brasil, coberto com seu hábito sacerdotal, parecendo um urubu encardido, mostrando apenas cabeça, mãos e pés, totalmente rodeado por indígenas pelados, notando nas mulheres e homens todos os seus atributos? O primeiro cronista do Brasil, Pero Vaz de Caminha, fez questão de dizer que as mulheres desta terra eram dotadas de uma formosura inigualável. O dó do Anchieta! Pobre do padre!Para livrar-se das tentações, a fim de que seus votos de castidade não viessem a ser quebrados, ele cansava seu corpo em longas caminhadas, segundo as palavras da saudosa Idalina Graça. Em relação ao espírito, tal condição resultou na composição, nas areias de Yperoig, em latim perfeito, lindos e fervorosos versos em louvor à Virgem Santa. E, assim, pôde sair ileso do pecado, passar os longos dias aguardando o retorno do companheiro jesuíta, o padre Nóbrega".

     "Se é assim, A Teteia está certa!", exclamou o João. Eu completei: "Também penso isso como sendo a melhor alternativa. O nosso amigo Zico Tranquilo, solteirão aposentado, faz isso também a cada manhã. Depois da volta, cumpridas as tarefas domésticas, ele se ocupa tocando violão sozinho, na pequena casa onde mora desde quando eu o conheci. De vez em quando avisto ele dedilhando as cordas no grupo que anima os cantos na igreja mais próxima". 

    Assim, com gente nas caminhadas, animando ambientes com seus instrumentos, se exercitando nas academias ao ar livre, proseando em bancos nas praças etc., o espaço caiçara vai adquirindo outras feições. 


Em tempo: para saber um pouco do pintor modernista Antônio Gomide, que viveu seu último tempo de vida em Ubatuba, recomendo: 

http://arnaldochieus.blogspot.com/2016/03/gomide-artista-primordial.html


 

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CULTURAS E CAMINHOS

Festa para Tobias e Carminha (Arquivo JRS)



     Eu digo que trabalho, devoção e festa sempre estiveram em igual proporção na vida do povo caiçara. O trabalho era questão de resistência, criatividade e sobrevivência. A devoção sustentava a esperança e era alento nos temores. A festa sempre foi manifestação da alegria, agrado a alguém e agradecimento pela vida. "Não havia preguiça para festa alguma. Nem que fosse depois da derradeira serra ninguém esmorecia quando a festa era anunciada", me contou um dia o Dito Neves, marido da Joaninha, em cujo terreiro chupei muitos cajus  no tempo de criança.
    
     De vez em quando acontecia de alguém ter motivo para falar mal de alguma festa. O "velho" França, depois que passou um tempo em Santos, servindo em quartel, voltou para Ubatuba recebendo um salário sem precisar trabalhar. Era como se fosse uma aposentadoria de militar. Não sei o porquê, nem quem arranjou isso para ele. Só me lembro dele dizer que o nosso povo era muito folgado, fazia muitas festas etc. Alguém, já naquele tempo, me fez ver o seguinte: tem gente que vive às custas de quem trabalha, mas fala mal dos trabalhadores. Notei isso quando o saudoso Herondino esculachou o "velho" França: "Alguém como você é gente sem vergonha na cara. Bastou alguns anos vivendo entre os soldados para poder viver o resto da vida recebendo sem trabalhar. Eu, no seu lugar, me retiraria numa dessas grotas para deixar de inticar com os outros que seguem no suor pelo pão de cada dia". 

    Eu confesso que, nas poucas oportunidades em que avistei o "intiqueiro" em momentos de festa do nosso povo, ele estava sempre de lado, sem ninguém nem para prosear. Nem sei como conseguiu se casar. Resumindo, no dizer do tio Francolino: "O França cutuca mais que ispim de brejaúba. Vivendo sem esforço, só mamando, agora não para de inchar. Está quase um baiacu de ispim, sem ninguém fazendo questão de ficar do lado dele".

    Hoje, depois de tanto tempo, consigo identificar a condição do pensamento do "velho" França: ele foi envolvido por uma ideologia, por ideias de gente rica que tem a necessidade de desmerecer os mais pobres. Causando o rebaixamento de muitos, alguns poucos se dão bem. É assim que essa moral é cultivada para oprimir e extinguir formas culturais diversas, tal como a nossa. O Dito França e tantos outros servem como exemplos de aliados dos ricos, de gente que precisa oprimir para existir. Se vivemos situações de miséria cultural e material, se não valorizamos devidamente a nossa cultura hoje, é porque não fizemos as leituras necessárias em outros tempos. Basta! Vou parando de inticar por aqui!

(Em tempo: a filha do França vive ainda nos dias atuais recebendo o salário que era do finado pai. Pode isso?).

domingo, 13 de setembro de 2020

SINA DE FUXIQUEIRO

 


                                                                     Entardecer na praia (Arquivo JRS)

                A saudosa vovó Martinha tinha fama de fuxiqueira. Na verdade, era mesmo! Só que eu prefiro ainda hoje considerá-la como uma informante exagerada. Ela, em suas caminhadas ao amanhecer, via coisas até desnecessárias, mas geradoras de conjecturas que muitas vezes se confirmavam. Realidades e fantasias sempre estavam nos seus roteiros de fala. Era um leva-e-traz constante o cotidiano dela. Apenas o João Brilhante se emparelhava, poderia competir com ela. Por isso eu sempre o chamei de João, o Fuxiqueiro. Ainda o chamo assim. E ele gosta, até dá risada! Chegou a velhice, está diabético, mas se mantem na mesma vivacidade, sempre “antenado”, prestando atenção, principalmente em coisas que não lhe dizem respeito. Depois, assim como a vovó, faz impressionantes comentários, só que é mais seletivo, escolhe para quem vai compartilhar as novidades. Ultimamente, depois que enviuvou, parece estar mais afinado em seu velho talento. De vez em quando vou visitar o João e me fazer ouvinte de suas prosas. A vantagem é que vou adquirindo mais assuntos para escrever. Ao chegar no portão dele já escuto mais ou menos isto: “Ainda bem que você chegou, Zé! Estou em dívida com umas histórias faz tempo. Entra e senta que eu lhe conto umas boas. Antes vamos tomar um café com um queijo que comprei na feira, dos caipiras de Catuçaba”.

                Numa ocasião ele disse coisas inesperadas a respeito da Teteia, a companheira do Totonho. Lembrei-me da prosa agora porque acabei de vê-la no caminho, indo para o serviço pedalando afobadamente. Não tem como não se impressionar com o João. É o meu fuxiqueiro-mor. Como sempre, após o café, a inesperada narrativa:

“Sabe que a nossa amiga Teteia tem sofrido com essa vida de viagens do Totonho. Já tem anos que o homem só dorme uma ou duas noites em casa. Não desejo vida dessa para ninguém, nem sendo inimigo dos piores.  Que vida triste leva a Teteia! Se ela não ouvisse o conselho da Maura Pernuda, o Totonho já tinha enfeite pontudo na cabeça. Enfezado que é, parecendo sarna brava, você já imagina o que ele seria capaz de fazer!? Sabe o que ela aprendeu para compensar  a ausência do macho dela? Se distrai com mandioca. Quando não tem, se vira com banana nanica verde. Coisa triste isso. Por sorte, de um ano para cá ela conseguiu emprego em casa de gente rica, uma tal de Dona Zilda, no Itaguá.  Tal como a empregada, a patroa passa por angústia parecida. Mas, cá entre nós, você acha que gente rica  vai recorrer à banana, mandioca ou coisa assim? Claro que não! Ela, segundo a Teteia, ‘tem uns aparelhos de sex shop, de tamanhos de fazer inveja’. O melhor lhe conto agora: a ricaça percebeu, pelo brilho nos olhos, o interesse da coitada pelo mostruário sob a cômoda. Escutou a história dela, se compadeceu. Acabou escolhendo uma peça da admirável coleção, colocou dentro de uma sacola e lhe presenteou. Segundo o ditado, ‘não precisa muita coisa para alegrar pobre’.  Desse jeito, Teteia, graças à madame, se modernizou para sentir prazer na ausência do marido. Só que, você sabe, essa gente crente pensa muito em pecado. E por azar, num culto ela ouviu uma pregação desfavorável, servida para reforçar a sua culpa. O que fez Teteia? Pegou o apetrecho e endereçou a um velho desafeto da família. Isso confirma novamente um dizer dos antigos: ‘Alegria de pobre dura pouco’. Por que tem de ser assim as coisas? O que vai fazer a coitada? Não tenho nenhuma dúvida que ela já retornou aos recursos de antes. Por que tenho certeza disso? Eu não vejo então, por acaso, ela passar uma vez por semana, no rumo da roça do Chico Mergulhão?”.

                Parafraseando a criançada: “Viaja esse João!”. O que há de se fazer? Desde que eu o conheço é assim, tem assunto de onde você nunca espera. Mais uma vez confirma o apelido de Fuxiqueiro, não é mesmo?



sábado, 12 de setembro de 2020

CAPITÃO DE CANOA

 


 

Frente ao mar, no Masssaguaçu (Arquivo JRS)

          Aristeu, caiçara da Ilha do Tamanduá, tinha boa memória, gostava de prosas em rimas. Em qualquer ocasião puxava da oralidade e da tradição, quase sempre num ponteado de cavaquinho. Dele escutei a respeito de um velho capitão, vindo de outras terras.

 

Passou por aqui, meu amigo Zé,

Um velho capitão, desses do mar.

Como eu reconheci? Ele nos contou!

“Tenho mais dias de água salgada do que de vida”.

Logo debulhou todos os lugares,

E contou seus tantos amores.

Mas foi neste lugar que apoitou:

Ali no Morro da Tinticuia morreu.

Em lugar de quase água nenhuma,

O homem de tantas águas se findou;

Sem posse alguma além das histórias...

Ele saudades deixou.

 

Quando chegou trazia só um saco de lona,

Um pito no canto da boca

E o cachorro Tristão.

Achamos graça do jeito de falar:

Era estrangeiro de lugar estranho.

“Eu me criei em Granadinas, terra cercada de mar”.

Riscou no chão seu lugar: Canouan.

No sarro da nossa gente era:

O capitão que veio de Canoa.

Logo Capitão Canoeiro ficou.

Muita gente sabe das suas histórias

Desde cada serão que contou.



sexta-feira, 4 de setembro de 2020

OLHAR DE PESCADOR

Canoas de caiçaras em Ubatuba (Arquivo JRS)


O vento passou forrando o chão de folhas
As pegadas ficaram pela areia
No pedra do Canto Bravo Tio Lindo sentou.
Os olhos espreitaram
As narinas se abriram
Ele parou ali pouco tempo.

No cheiro da maresia
Continuava mais um dia.

Ao seu lado o cachorro  Satélite
Preá e Branquelo chegaram depois
Bichos brincam como nós
Tio Lindo pensa com ondas aos pés.

Enxergar além do mar é questão de olhar
Cardume é brilho que tremeluz
Pode ser pequeno ou valer a pena
É coisa grande pelo vulto
Só é miuçalha quando salta
O olhar se afina.

Na esperança da pescaria
Saiu ele em correria.

sábado, 29 de agosto de 2020

É COISA ANTIGA, ESTAIS VENDO?

Prainha do Doca, entre as praias Dura e Vermelha (Arquivo JRS)



Herança dos antigos (Arquivo JRS)


                É costume meu, sobretudo quando estou nas minhas caminhadas, prestar mais atenção nas coisas. No meio do mato, então, reparo ainda mais em tudo! Tem detalhes interessantes nesses caminhos, nas trilhas deste chão caiçara, pelos lugares que ainda estão preservados dos invasores, das ocupações humanas. Tem ruínas de antigas fazendas, tem divisas de terras... É possível avistar árvores que imagino serem ainda do tempo dos tupinambás, grutas de pedras que podem ter vestígios da pré-história... Tenho certeza que essa nossa exuberante mata, com seus frutos, aves e animais, além de nos equilibrar, guardam remédios essenciais a serem descobertos.

                Quando eu me aventuro em caminhadas, sobretudo pelos caminhos de servidão, busco sinais de antigas ocupações, de cavas de casas e de árvores frutíferas. São os sinais mais evidentes de que outras gerações passaram por ali. E quase sempre me atenho ao chão, buscando restos de alguma coisa capaz de revelar algo mais.  Influências? Sim, quando crianças, ao ir com o meu pai cortar bambus na Prainha do Doca para a construção da nossa casa no morro da Fortaleza, me entusiasmei com o único morador dali. Ele nos levou mais para dentro da mata, de onde vinha um rio capaz de me encantar como todos os rios daquele tempo. Depois de um poço (onde o correr das águas, com o tempo formou um lugar fundo), ele nos conduziu a um espaço plano (uma cava no morro), com tijolos ainda inteiros e cacos de telhas. “É coisa antiga, estais vendo?”, esclareceu ele. “Algumas telhas lá de casa foram daqui. De vez em quando, quando preciso de tijolos, venho aqui buscar. Dentro do poço, ali embaixo, existe cacos interessantes, mostras do que possuía e fazia uso alguém que viveu aqui”. Meu pai também achou interessante tudo aquilo. Passamos aquele dia ali, cortando bambus, pois na semana seguinte o Getúlio, um caminhoneiro que buscava mensalmente as cargas de bananas nas praias (Brava e Fortaleza), distante uma légua dali, faria o favor de levar os bambus para o nosso trabalho, a nossa obra. No final, o pessoal terminaria a nossa nova moradia num animado pitirão.

                Daquela nossa casa não restou nada porque era pobre e outra lhe tomou o lugar. Somente uma mangueira plantada por papai deve estar ainda como sinal da nossa vivência naquele lugar, no morro da Fortaleza, onde começava a Badeja do Tio Custódio. Só posso dizer que, aquela fala do Doca, a sua empolgação para com os sinais na mata da sua prainha, me marcaram para sempre. Espaço de algumas das minhas heranças dos antigos. O que será agora de tudo aquilo?

sábado, 22 de agosto de 2020

NÃO É CUSPARADA!

Galhada de rena (Arquivo JRS)


                Eu sempre tive facilidade para guardar nomes, sobretudo de pessoas marcantes. O primeiro Parada encontrei na praia das Sete Fontes, em Ubatuba. Era sobrinho do Velho Jaime; casou-se com a estimada Zilda Peralta, a prima. Até o final da vida todos se referiam a ele como simplesmente Parada do Peralta. Como todos daquele lugar naquele tempo (décadas de 1970/1980), Parada era pescador que parecia suportar todas as adversidades, sempre estava disposto no enfrentamento do mar, ao costurar suas redes e a contar passagens da sua vida. Em dias assim, quando a natureza parece se converter em água e um frio causa preguiça de sair de casa, me recordo daqueles pescadores encharcados, mas nunca deixando de visitar suas redes e mostrando seus pescados frescos como recompensa de cada dia. Mesmo molhados, com frio, eles mostravam corpos curtidos pelo sol. Seus olhares, assim que surgia a aurora, passeavam primeiramente pelo mar, pelas condições que pareciam difíceis ou mais fáceis. Boas lembranças do Parada e de toda a parentalha da Sete Fontes!

                O segundo Parada era um turista que fiz amizade na praia da Lagoinha. Ele passava uma temporada numa casa em estilo modernista, localizada na boca-da-barra, onde até hoje as marés certamente lambem o gramado. Era Guss Parada, um artista nascido na Dinamarca, cujo pai foi um migrante lusitano. Me aproximei dele atraído por uma escultura que estava sendo trabalhada na varanda do imóvel. Como sou intrometido, logo estava junto dele. Parecia ser gente boa. Conversamos algumas vezes porque ele também era bom de prosa. Enquanto permaneceu em terra caiçara, o seu entretenimento era  criar obras de artes a partir de coisas encalhadas, trazidas pelo mar. Ou seja, a sua inspiração estava ali e pelas redondezas. Logo o seu entorno tinha troncos, raízes, conchas... Não demorou nada para alguns caiçaras também contribuírem com o Guss. “Trouxe para o senhor porque achei diferente, bonito. Sei que o senhor vai olhar e ver outra coisa, transformar para ficar mais bonito ainda”. Certamente que, pelo mundo afora, esculturas nascidas ali, no canto da Lagoinha, estão por salões de artes, em casas chiques. Eu tenho como lembrança dele uma pequena peça. Ele mesmo deu o nome: “Galhada de rena”. E não é que parece mesmo!?!
               
                 Quando eu disse ao amigo João Tãozinho que tinha conhecido o Guss Parada, ele reagiu: "Cusparada? Você acha que tem neste mundo gente com nome de cusparada?" Corrigi na hora riscando bem forte no chão G-U-S-S  Parada. "Ah! Então não é cusparada!""

                A esta altura da vida, eu que já tenho a barba toda branca, sei que os dois já se foram. Nem o mar e nem os tocos encalhados na praia lhes interessam agora. Parada Peralta e Guss Parada poderiam ser parentes, pois suas raízes eram lusitanas. Para mim ficaram as memórias de suas labutas, de seus talentos. Creio que suas obras seguem resistindo ao tempo. A pequena galhada está na parede a me recordar. Salve, Parada! Salve, Guss Parada!


quarta-feira, 22 de julho de 2020

SÓ TEM TAMANHO!

         
O nosso cachorro (Arquivo JRS)

           "Amanhã cedo você não põe roupa no varal porque eu senti um cheiro forte de sabão, vai ser preciso dar mais uma enxaguada, senão depois ninguém aguenta usar”.  Esta recomendação da minha companheira me levou a pensar a respeito de sabão. Jorge, o nosso grande amigo baiano, certa vez nos contou que a sua mãe e outras mulheres de Iaçu faziam sabão a partir de restos de animais e cinzas. “Andavam pelos campos em busca de animais mortos. Depois ferviam tudo e acrescentavam cinzas. E ficava pronto o sabão usado para tudo lá em casa”.

            Tal como as matriarcas baianas, vovó Martinha, caiçara de outro tempo, também usava cinza na química do sabão usado por nós. Só que, em vez de gordura animal, ela quebrava os caroços de nogueira (as nogas), juntava aquela massa à cinza e logo estava pronto para ser usada na composição. A netalhada, gente miúda, ajudava na catação das nogas no terreiro da tia Rita Carlota, onde o sombreado maior era de duas enormes e frondosas nogueiras no areal.  A referida massa também servia como combustível  nas candeias. “Bastava um pavio enfiado nela. Depois que acendia, durava muito tempo aquela luz”.  Coisas assim retidas na memória voltam a despertar quando são estimuladas. Por exemplo: é só passar na estrada das Toninhas, no lugar onde nasceu o meu amigo Rubens Prado Gil,  ao avistar as grandes nogueiras plantadas pelo Velho Gil, já me lembro do sabão da vovó. 

           Afirmei à minha Gal que eu não senti cheiro algum ao passar perto das roupas lavadas. “O seu nariz não vale nada, só tem tamanho!”. Então me defendi alegando que é por causa do excesso de pimenta. Se espantou? Pois é! Os antigos caiçaras diziam que não se podia dar comida apimentada aos cachorros. O motivo? Estraga o faro deles. Vovô Armiro constantemente ralhava conosco: “Nada de comida com pimenta para o Peri. Ele tem faro aguçado e é bom caçador. Por isso não me estraguem esse cachorro”.

sábado, 18 de julho de 2020

CLARO QUE É O MESMO MAR!


Praia da Maria Godói (Arquivo JRS)

Praia da Maria Godói (Arquivo JRS)


        O saudoso João de Souza, um dos melhores contadores de causos que conheci, era filho do Velho Rita e da Dona Josefa, ambos caiçaras de gerações. Sebastião Rita era da margem do rio Acaraú, no morro do Tenório. Dona Josefa era gente da pequena praia entre a Toninhas e o Boqueirão, conhecida pelo nome de Maria Godói. Pouca gente a conhece porque o acesso foi dificultado pelo condomínio da Ponta das Toninhas. Agora só resta uma trilha a partir da prainha do Canto do Góis, na Enseada. Passa o Tapiá, a Pixirica e a Xandra. A última é ela. É de lá que vem o causo do João:

          “Na Godói moravam apenas três ou quatro famílias. Eram todos parentes, gente nossa e dos Firmes. Todos tinham os mesmos costumes, naquela vida simples do tempo que a minha mãe nasceu. Tiago, Leôncio e Moisés eram os três primos dela que sempre estavam juntos no serão, na Pedra do Canto. Conversavam, sonhavam e riam até o escurecer, hora de descansar para o outro dia. Todo aquele pessoal era gente mansa, sem pressa para nada a não ser na saída e chegada de canoa, quando o mar estava bravo, arrebentando nos caraguatás. A respeito desses primos, a minha mãe contava que, numa ocasião, quase teve uma desavença entre eles. Foi assim: numa prosa, Leôncio garantiu que o mar daqui era o mesmo que o mar da África. Os outros dois só escutaram. No serão seguinte, no mesmo ritual, o Moisés, após ter matutado o dia inteiro, discordou da afirmação do primo feita no dia anterior. Mas não levaram em frente o desentendimento. Foram-se embora. No terceiro dia, assim que chegou o serão, conforme o costume, lá foram eles no assento da pedra, debaixo de um grande abricoeiro que ainda deve existir. Nessa ocasião, o primo Tiago que havia só escutado antes, tomou uma atitude:  ‘Se for para a gente ficar em discórdia assim, eu já me vou’. Imagine só, Zé! Sabe quando eles iriam brigar? Nunca!”.

         Quando escutei esta história, me lembrei de um fato histórico parecido: em 1512, o rei de Portugal enviou uma mensagem para o rei do Congo. Era uma mensagem boa, cheia de agrados porque daquela terra vinha muitas riquezas. Dizem que o soberano africano guardou a carta como relíquia e até hoje é preservada por seus descendentes. E aqui vem o espantoso: a resposta dele para o monarca português chegou em 31 de março de 1515, toda afável também. Se admirou da lentidão? Era normal naquele tempo.

       “Imagine só! Claro que é o mesmo mar!”. E assim foi fechada a questão pelo primo Tiago Firme: “Se não fosse o mesmo mar, como os portugueses chegariam aqui carregados de negros africanos como escravos?”. Era o fim do quarto dia. Se fez escuridão. Tudo voltou à calmaria na nossa graciosa prainha. Hoje, se você for lá, certamente vai encontrar aquele mesmo quadro de antes, mas sem gente morando há muito tempo. 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

SAI DEBAIXO DO SOL, DITO!

Arte nos pontos. Tiano, o cabeludo. (Imagem da internet selecionada pelo amigo Carlos)


                Agora: tempo de pandemia, tempo de ficar em casa. Não precisaria demorar tanto tempo isolado se as recomendações dos pesquisadores, dos cientistas, fossem levadas a sério. Mas o que fazer se um jumento puxa a carroça com roda quebrada?

                Neste tempo, apenas uma vez por semana, nós deixamos a nossa casa para comprar algumas coisas. O trabalho em casa nunca acaba, mas sempre arranjo um intervalo para escutar um fandango dessa  caiçarada maravilhosa. Também aprecio umas composições do Ostinho, uns poemas do mano Mingo etc. Além de estar atento às plantas, também não perco a atenção às coisas de arteiros que vivem no apelo, espalhadas por prateleiras e caixas. Vou me virando nessa bagunça organizada. Adoro as nossas saídas para ver gente, o mar e me inspirar. Dias desses, passando por um bairro vizinho, avistei o Tiano e seu parceiro em mais uma pintura de ponto de ônibus. Não tem como não admirar seus traços, suas imagens coloridas... Coisas da gente! Olhando o Tiano, parei. Passou o tempo! Aquele menino da Odete cresceu, se devotou à arte... Continua crescendo. Valeu por suas obras a encher nossas vistas e nossos corações, menino grande caiçara!

                No mesmo dia encontrei, no centro da cidade, o Dito. (Para quem não sabe, ele é um grande dançador caiçara, do sertão do Ubatumirim). Eu, próximo, mas  á sombra da loja, porque o Sol estava ardido, reparei quando ele parou junto à parede branca da Casa Paroquial, naquele sol que Deus deu. Era o aparelho, o celular no bolso avisando que tinha uma mensagem. E ali ficou parado o nosso Dito, com atenção na telinha. Pergunto sempre: quem consegue, debaixo de tamanha luminosidade, ver alguma coisa na tela de um celular? Fiquei só olhando as manobras que ele fazia no intuito de ler a mensagem. Passou o tempo. O estimado Dito, do tronco do saudoso Antônio Clemente, do Sertão do Pasto Grande, ali continuou por mais de dez minutos. Virava de um lado, virava de outro; tentava fazer sombra no celular com as mãos, mas tudo inútil naquele clarão, com reflexos de todo lado. Quanto tempo a mais ficaria ele ali, naquelas manobras, caso não passasse naquele momento o compadre Rolim, com a sugestão salvadora? “Parece que não pensais, Dito. Por que não atravessais a rua para ficar na sombra da Igreja? Lá se consegue ver bem o que tem aí nessa coisa. Sai debaixo do Sol, Dito, senão é só miolo derretido e olhos escorrendo, sem resolver nada. E se apresse para não perder a condução”. Eu, só observando enquanto a esposa escolhia uns produtos, ri sozinho. Rolim, Dito, Laureana... Tanta gente boa! A propósito, termino este com uma mensagem da Mestra Laureana, direto do Morro da Esperança, no Prumirim: “Estamos separados dos outros por causa dessa doença que está ai, mas ela vai passar”.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

VISÃO DO ALTO DO MORRO

À sombra da bananeira (Arquivo JRS)

Outro poema do mano Mingo para ilustrar o meu último trabalho: "À sombra da bananeira, do alto do morro, a gente avistava o mar"


Eu sei, desde os tempos de menino,
que a gente vive por teimar,
pois quem nasce à beira-mar
tem o destino escrito na areia
e se a onda vem e apaga tudo,
e se não der peixe na linhada,
e se vier pouco peixe no espinhel
ainda tem a rede armada
no pesqueiro do parcel.
Esse mar está cheio de vida,
(mas já teve mais!)
esse mar ainda é generoso
(mas já foi mais!)
Quando a gente chegava do mar
com uma fieira de peixes na mão,
vovó  nos abençoava e dizia:
"Quando Jesus andou no mundo
procurando seguidores,
escolheu só os melhores
no meio dos pescadores."

Quer mais? Vai lá: barbatuba.blogspot.com

segunda-feira, 23 de março de 2020

O POVO DO ALTINO E O FESTIVAL XONDARO


Altino e esposa (Arquivo Casa de Reza)

Juventude guarani (Arquivo JRS)

A família cresce (Arquivo JRS)



                A Tekoá Jaeexaa Porã, a aldeia Boa Vista está em festa! Cinquenta anos de resistência Guarani Mbya: Altino e Marcos estão orgulhosos de seu povo! Eu me orgulho por tê-los em minhas raízes. A festa continua! Marcos Tupã explicou o que seria o Xondaro. Eu espero conseguir ser fiel ao máximo na sua explanação.

                “Xondaro é a arte dos guerreiros, dos nossos guerreiros. Envolve canto, dança e luta. Também na Casa de Reza se pratica o xondaro, pois envolve vigilância sobre a nossa saúde como um todo, de corpo e mente. A dança e o canto alivia o corpo: o corpo fica livre... a mente se liberta. É por isso que a primeira apresentação, o coral da juventude, é xondaro. Meninos e meninas vão se comprometendo com a aldeia, com o povo guarani, com a nossa garantia de continuar existindo, fazendo sentido nesta Terra. A segurança da aldeia depende dos praticantes dessa arte que vem dos tamoios , dos nossos ancestrais, e persevera até hoje. Daí a importância de ser iniciado desde criança, no coletivo.  Cuidamos deste jardim para que ele continue bonito. A dança e o canto são os primeiros movimentos do xondaro para os sentidos se desenvolverem melhor. Um xondaro está sempre atento, guarda o nosso povo. Assim, um Festival Xondaro demonstra a vitalidade do nosso povo, dá mais força ainda, né?

                Xondaro é aquecimento para resistir à opressão, ao desgaste a qual estamos  submetidos no cotidiano. Alimenta nossas forças e é também diversão. Nos impulsiona a combater todos aqueles que perseguem os indígenas e as lutas indigenistas”.

                Em seguida, dando prosseguimento ao evento, Marcos chamou os representantes das famílias para acertar alguns detalhes da luta, do Xondaro. É isso! Podemos dizer que Xondaro é uma arte marcial genuína dos guaranis! Porém, muito pouco conhecida. Pode ser que falte respeito à maioria das pessoas para importantes valores das culturas indígenas. Pode ser mesmo!

                Nosso desconhecimento, nossa discriminação, nossa apatia, nossa indiferença pelas causas indígenas pode estar como mais uma energia que oprime, bem o oposto de xondaro. 
Altino, o líder guarani (Arquivo JRS)

                Valeu, Altino! Valeu Povo do Altino! Que o Xondaro seja mais uma força contra a pandemia que assola o mundo!

                 No momento atual, pelo desgoverno que temos, podemos gritar como guarani mbya:

            “Tereo juma Bolsonaro “ (Fora Bolsonaro).

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

ERA TIO ISAURINDO, DEPOIS...


Capa de certidão (Arquivo JRS)

        Hoje o Dito Costa já é falecido. Nem sei dizer qual o rumo na história da sua esposa. Acredito que seus filhos, netos e bisnetos estejam bem, por aí. É assim… a vida segue... O que vou contar agora aconteceu já faz tempo, quando o referido casal e a criançada moraram no morro da Fortaleza, na nossa casa que ficou desocupada após nos mudarmos para o Perequê-mirim.

        Humilde como ele só, numa tarde, assim que me viu passando pelo terreiro, me pediu: “Avise o seu pai que hoje está para chegar o meu tio Isaurindo, mas não deve se demorar por aqui. Vem de Santos descansar e visitar a gente, trabalha lá, no porto, mas já está perto de se aposentar”. "Pode deixar, Seo Dito". Achei estranho, era a primeira vez que escutava nome assim. Na verdade, foi a única! De fato, no dia seguinte, lá estava o parente do Dito, bem diferente do sobrinho. Era conversador, sem nenhuma timidez, corado, cheirando a banho tomado… Brincava e caçoava como um bom caiçara. (Só que era caipira). Não sei o porquê, mas eu queria saber a razão do nome dele. Bem diferente, né? “Será que a mãe é Isaura e o pai Florindo?”, “E se for Isaltina com Laurindo?” etc. Fiquei pensando nisso pouco tempo, coisa de nada, pois criança tem coisas mais importantes para se ocupar. Alguém duvida?

       Bem mais tarde, já adolescente, quando eu trabalhava num bar, reencontrei o Isaurindo, aposentado, cheio de cabelos brancos e de rugas, bem avançado na idade. Então, na primeira oportunidade lhe perguntei: “O senhor poderia me esclarecer uma coisa: Isaurindo tem ligação com Isaura? Por acaso, Isaura era o nome da mãe do senhor?”. Ou seja, cresci mas não deixei o costume de perguntar sempre. “Menino especulador, que quer meter o bebelho em tudo”, segundo a mamãe. No mesmo momento, ele pegou um pedaço de papel de pão que estava por ali, me pediu uma caneta e escreveu: E X A U R I N D O. Assim mesmo, em letras bem grandes! E emendou: “Não tem nada com Isaura! O meu nome é único e é lindo!”. “Nossa! Agora que complicou mesmo!”. Com muita paciência ele tentou me explicar. “Exaurir é perder forças, se desgastar. Esgotar-se e outras palavras significando mais ou menos isso. O meu finado pai - que Deus o tenha! - me disse que eu ganhei este nome depois de ele ter escutado uma conversa de dois amigos brincalhões, meio que parentes dele, nossos. A fala do meu papai – que Deus o tenha! - foi esta: O Tonico e o Andrelino comentavam que o doutor Leão Nagib, deixou de lado a viuvez de muitos anos e se casou com uma mulher muito mais nova do que ele. Rindo demais os dois, esta foi a parte que diz respeito ao seu nome: ‘Ele está muito cansado, baqueado de dar dó. Quem não sabe que bainha nova não se dá com canivete velho? É certo que ela o está exaurindo. Quem não vê isso?’. Naquele dia, pelas mãos da comadre Donária, você nasceu. E aquela palavra, a tal de exaurindo, que eu achei muito bonita, me acompanhou até o lugar onde você foi registrado. O Elizur, dono do cartório da nossa Ubatuba, quis criar caso por causa do seu nome, mas até deu uma gargalhada depois que eu contei essa história, que era a justificativa; logo sacudiu os ombros, preencheu a papelada e me entregou a certidão válida na República dos Estados Unidos do Brasil. Após 'o referido é verdade e dou fé', ele assinou”.

    Que interessante! Na época, fiquei feliz e agradeci pela explicação. Não demorou muito para o Tio Isaurindo, digo Seo Exaurindo, nos deixar. Posso dizer que o Exaurindo se exauriu?

domingo, 15 de dezembro de 2019

EU PRECISO MESMO?

       
Mariposa azul (Arquivo JRS)
              "Cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele" (Carlos Ruiz Zafón)

         Uma amiga que me conhece muito bem vive recomendando: “Você deveria procurar um especialista, tipo psicólogo, para resolver alguns embaraços da sua cabeça”. Será mesmo? “É bom, amigo. Gente assim se preparou para isso, pode orientá-lo para viver melhor, sem se angustiar por coisas desnecessárias”. Então fui.

         Cheguei ao local do atendimento faltando dez minutos antes do horário marcado (dez horas, de um dia ensolarado). Um grupo de quatro pessoas já se encontrava ali conversando, amizade antiga talvez. Imaginei que eles seriam atendidos antes, pensei que me atrasaria nos outros compromissos. Assim que avistou o relógio em meu pulso, um deles perguntou:

          - Que horas são, senhor?
          - Quase dez horas.
         - Ah, bom. A nossa atividade será às treze horas, mas a gente chega antes para conversar um pouco.

          Me admirei do adiantamento deles, não me lembro de ter visto nada igual antes, mas tudo bem. Olhando umas mensagens no celular, mesmo sem nenhum esforço, fui acompanhando o papo dos amigos (três mulheres e um homem).

           - Em que mês nós estamos?
           - Agosto, né?
           - Não, acho que já é setembro.

             Na dúvida, se voltam para mim. Afirmo que é dezembro.

           - Já é dezembro?!?
           - Então logo é Natal!

            O homem, rapaz novo:

          - O meu filho faz aniversário antes do Natal, em março, no dia seis.

            E acrescentou:

          - Eu também faço em março, dia dezesseis ou vinte e cinco, não lembro mais.

          Nossa! Pensei: essa gente precisa de ajuda mesmo! De repente, uma das mulheres, longe de ser magra, olhando para a outra sentada na cadeira da frente:

         - Eu era gorda como ela, mas agora emagreci de perder roupas.

           E eu escutando tudo. Logo, a outra, se referindo à colega ao lado :

         - Ela tem menos de trinta anos, mas o marido diz que ela é fria. Quem me contou foi ela mesma.

         Nossa! Será que estou escutando isso mesmo?!? O assunto estava bom, eles variavam. O grupo estava tão concentrado que nem percebeu o momento que fui chamado para a consulta. Ainda na porta, olhando para quem me recepcionou, eu hesitei: “Será que eu preciso mesmo? É bom se cuidar, né? Ainda bem que eu vim!”

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

NÃO PAGA A PENA!

Tié  piranga ou tié sangue (Arquivo JRS)

Correntes (Arte: Victor Harabura)

            Totonho do Rio Abaixo não pensa direito, faz coisas sem calcular as condições. Do burro velho puxando charrete, degrau por degrau, chegou a condução de carroceria grande. Agora depende disto, vive de cargas pra lá e pra cá, num vai e vem de tudo.  Brinquei com ele, insinuando que estava ganhando muito dinheiro, “lavando a égua”, conforme dizem.   “É, é sim. Mas não basta”.

          Foi nessa ocasião que eu disse a ele que cobiça é pecado social. O danado só sacudiu os ombros, sinal de pouco importa. “Ah, que se dane”. Avisar eu avisei. Ele virou os olhos desencontrados e só faltou dizer que se conselho fosse bom não era dado, mas sim vendido.

          Tempos desses, mais de ano acho, perguntei da sua terra, no município vizinho. “Agora ninguém mora lá, Seo Zé. Grande parte dos morros virou mata de eucalipto, o restante tá tomado pela braquiária pra uns poucos bois. Quase todo mundo fez como eu, veio para Ubatuba. Lá é lugar que não cresce não. Aqui sim! Olhei aquilo tudo por lá… Agora também não me dou com trabalho duro”. É, eu sei. Ele pensa que eu não vejo as suas pilantragens e que não escuto das outras tantas que apronta por aí? 

         “O dinheiro move o mundo, Seo Zé. Agora sou crente”. 

        A fé, a religiosidade do povo simples também virou negócio aos oportunistas. Isto escutei: “A minha irmã está como missionária na Espanha, se casou lá. Fala muito bem, tem o dom da palavra. Os filhos são espanhóis. Logo segue para a África do Sul. Está bem de vida, é dona de quatro casas aqui no Brasil”. E pensa que Totonho não cobiça isso de ganhar dinheiro usando a oratória?!? Quando ele me fez tal revelação, eu recomendei que estudasse ao menos uma língua estrangeira, pois não tem como almejar tamanho voo sem antes diminuir o tamanho da ignorância. E ele, que mesmo arregalando os olhos não me convence, deu a seguinte resposta: “Estudar? Eu tenho de estudar? Então não paga a pena alimentar esse sonho!”.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

PARA O NOSSO BOM DIA

Cacho maduro no quintal (Arquivo JRS)


Rosa linda (Arquivo JRS)

Artes da minha Gal (Arquivo JRS)

Artes da minha Gal (Arquivo JRS)
              Tem coisa melhor do que, logo cedo, olhar os frutos dos nossos esforços, do trabalho feito com tanto esmero pela companheira querida?

              Tem coisa melhor em saber que nossa filha e nosso filho estão fazendo seus caminhos na busca da felicidade verdadeira?
  
                Tem coisa melhor que estar vivo e ter mais uma chance de avivar nossos sonhos?

                   Tem coisa melhor do que ter você como amigo, como amiga?

                    Tem coisa melhor em saber que, após um dia intenso, alguém o espera ansiosamente em casa?



terça-feira, 24 de setembro de 2019

MAIS ARTE EM CASA

Sistema solar da minha Gal (Arquivo JRS)
                               Tesouras, feltros, panos, botões e outros adereços resultam, tudo costurado em plena madrugada, num sistema solar sobre a mesa. Ah! Como se sentirá a criança ao receber tal presente? Parabéns, minha Gal!

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

ARTES EM CASA

Arte da minha Gal (Arquivo JRS)
                     Não tem como deixar de publicar imediatamente este mapa do mundo confeccionado em feltro e pano, com seus animais desenhados, cortados e costurados com muita habilidade e paciência pela minha Gal!  Foram horas de dedicação.  Não está terminado, mas já é madrugada. Conforme escreveu Nietzsche, "temos a arte para não morrer da verdade".

                  Abraços e beijos aos meus artistas!

quarta-feira, 24 de julho de 2019

FÓRUM DE SABERES ARTESANAIS DE UBATUBA






               Quanto honra poder participar do Primeiro Fórum de Saberes Artesanais da minha cidade! Será no próximo final de semana (dias 27 e 28 de julho), com oficinas, exposição e vendas de artesanatos do povo, na área da "Praça da Baleia",  do Aquário. Legal, né?  

               Eu e minha família estaremos presentes, na maior torcida para o sucesso do evento. Levaremos algumas das nossas artes para que mais gente poder apreciar. O forte será a cestaria de jornal, mas as bonecas de pano e os livros interativos também chamarão as atenções. Acho que alguns desenhos dos filhos também marcarão presença. Por isso, todo tempo está tomado para últimos acertos nas peças. Contamos com a torcida de vocês. Eu prometo fotografar e escrever depois. Abraços. Até.
              


quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

LENDA DA SEREIA (II)

Sereia  sob encomenda (Arte: Maria Eugênia - Arquivo JRS)


               Na prosa de Idalina, Moisés, continuando o assunto da sereia:

               “O tempo foi passando... O jovem pescador caiçara retomou o gosto pela vida, se casou com Emília, novamente se empolgou pela pescaria. Numa noite, em tempo de tainha encostando, vindo do Sul, o vento fez os pescadores, que estavam no correr da linha da Ponta Grossa, procurarem o rumo da praia  do Itaguá. Foi quando ouviu-se um canto monótono, mas suavíssimo, chamando por um amor ausente. Os homens, extasiados, procuravam distinguir através da escuridão, de onde vinha o som tão doce e suave.
               A ‘Norma’, assim chamava-se a canoa do Guilherme, foi ficando para trás, e Brás, endiabrado com sempre, gritou: - ‘Ouve, Guilherme! Tu já esqueceste da mulher-peixe? Olha que ela está te chamando!’.
               O rapaz não respondeu, Se os seus companheiros pudessem enxergar na escuridão, veriam que, pelas faces do moço pescador, as lágrimas desciam lentamente, enquanto seus dedos crispados, comprimiam contra a palma da mão um pequeno amuleto contendo uma oração da Virgem Maria, para que ela protegesse contra o desejo da sereia, escapando do encantamento. Tinha sido um presente da esposa, apavorada com o que o Brás, muito em segredo lhe contara. E ela, devota de Nossa Senhora, entregara seu noivo nas mãos de Deus e de sua bendita Mãe... A partir dessa noite, os pescadores não mais contaram com Guilherme para a pesca da tainha. Renunciou de vez. Jamais retornou ao mar”.

               Idalina, indagou curiosa: -  ‘E de que ele foi viver depois, Moisés?’.

               Moisés, todo sorridente explicou: - ‘Foi trabalhar na roça, teve muitos filhos. Depois de velho contava histórias aos netinhos. Olha, dona: o mais moço dos filhos dele foi meu avô. Só que nunca teve a sorte do Guilherme. Nem ele nem eu. Falta de sorte, dona! Também meu pai e eu sempre fomos feios como o diabo! Nenhuma sereia cantaria para nós!’.

               E Idalina confessa que disse isto para agradá-lo:   - ‘Até que não. Se você continuar contando lindas histórias como esta, vai ver como ainda fica bonito'."