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terça-feira, 15 de setembro de 2020

A FORÇA DAS LENDAS

 

Grupo da Folia do Divino - Capela da Marafunda 2005 (Arquivo Luzia)


                No ano de 1267, numa cidade italiana, um frade mendicante faz um sermão através de uma história divertida e edificante, pertencente ao gênero literário conhecido por exemplum, retirada de um texto recém-concluído chamado Legendae sanctorum, vulgo histoira lombardica dicta. Seu autor também era um mendicante, Jacopo, nascido em 1226 na cidade de Varazze, próxima a Gênova.

                Autor de muitos sermões e de uma importante Crônica de Gênova escrita em 1293, sua grande obra, foi a coletânea hagiográfica que ficaria conhecida por Legenda áurea. Isto é, um conjunto de textos (legenda: aquilo que deve ser lido), também tinha o sentido de “leitura da vida de santos”) de grande valor (daí áurea, “de ouro”) moral e pedagógico. O objetivo imediato de Jacopo de Varazze era fornecer aos seus colegas de hábito, os dominicanos ou frades pregadores, material para a elaboração de seus sermões. Material teologicamente correto, isento de qualquer contágio herético, mas também compreensível e agradável aos leigos que ouviriam a pregação. E, detalhe, a atemporalidade dos fatos relatados, faz com que o conteúdo da sua obra principal – Legenda áurea – fosse recorrida ao longo dos séculos vindouros pela religião católica. Assim chegou até nós o evento da Exaltação da Santa Cruz, padroeira do município de Ubatuba, festejada no dia 14 de setembro.

               Da Legenda áurea  retirei um texto mínimo para que sintamos a força da legenda até os nossos dias. De legenda se origina a palavra lenda, uma história muito antiga que vai passando pelas gerações. As legendas (lendas) eram contadas para explicar aquilo que não se conhecia a causa. Portanto, não sabemos o que de fato é real numa lenda.

                A Exaltação da Santa Cruz é assim chamada porque neste dia a fé e a Santa Cruz foram especialmente exaltadas. Note-se que antes da paixão de Cristo a cruz era vulgar, por ser feita de madeira comum, infrutífera, plantada no Monte Calvário onde nada frutificava; era ignóbil, por ser destinada ao suplício de ladrões; era tenebrosa, por ser feia e sem qualquer ornato; era mortífera, pois os homens eram colocados nela para morrer; era fétida, por ser plantada no meio de cadáveres. Depois da Paixão, foi exaltada de diversas formas, passando de vulgar a preciosa [...] A Exaltação da Santa Cruz é celebrada solenemente pela Igreja porque graças a ela a fé foi exaltada.

                Em Ubatuba, pelo que eu sei, algumas capelas capelas homenageiam a cruz: Cambury, Puruba, Marafunda, Sapê, Toninhas... Todas elas irradiadas da Igreja Exaltação da Santa Cruz, no centro da cidade. Com toda certeza, colocar a inauguração da Matriz (no ano de 1886) no “Dia da Paz de Yperoig”, tinha somente o motivo de comemorar a vitória da fé (e da guerra!) dos “nossos pais portugueses” sobre os “gentios da terra”, os tupinambás (primeiros moradores deste chão). Na praia do Cruzeiro (Yperoig) a fé católica triunfou, os índios foram derrotados, a vila nasceu. Se a lenda dizia que a cruz sempre venceu, agora não poderia ser diferente.  Até recentemente, todas as praias em Ubatuba tinham o seu Porto do Cruzeiro, a sua cruz olhando para o mar, invocando a proteção aos moradores daqueles lugares habitados pelo povo caiçara.

domingo, 23 de agosto de 2020

CURIANGO DE SAUDADE

Lua minguante (Arquivo JRS)


                Na madrugada passada, além de escutar alguns galos cantando pelos arredores, no concerto habitual, também identifiquei um curiango, passarinho da noite. Julguei estar próximo, talvez no pé de carambola ou de uvaia. Fazia tempo que eu não escutava a fala dessa ave. Tempos atrás tinha uma coruja que era habitual visitante, mas sumiu, deixou de cantar por aqui.

                Houve tempo (morando em outras casas, em outros lugares, quando não havia iluminação pública), em que ouvir os sons da noite era uma ocupação regular para mim, pois sempre madruguei. Talvez uma herança da primeira infância, quando eu me levantava assim que percebia a movimentação na cozinha, com meu pai preparando o café e a marmita para enfrentar o dia no trabalho. Agora, com ruas iluminadas, cheias de barulhos (carros, motos, discussões...), faltando árvores etc., os sons dos pássaros noturnos são raros, os sapos e grilos também se manifestam apenas esporadicamente.

                No tempo em que morávamos no morro da Fortaleza, na Badeja do tio Custódio, os sons da noite nos seguravam em casa. Tal como os nossos antigos tupinambás, eram raros os barulhos da escuridão que não nos causavam sobressaltos. “Que foi isso, mamãe?”. "É curiabô falando na grota. Fiquem quietos". A gente se encolhia todo de medo. Havia uma coruja que parecia imitar uma criança nova chorando. Escutar o urutau era sinal de mau agouro. Mamãe também era medrosa. A cada canto do urutau, ela repetia: “Urutau, teu pai morreu. Que me importa! Urutau, tua mãe morreu. Que me importa!”.

                Ao me levantar para escrever algo, me fixei em algumas lombadas dos nossos livros ajeitados pelas prateleiras. Notei que cada um dos livros traz uma boa lembrança (de pessoas, de momentos...). De repente, não achei nenhum deles que passasse sem ser notado. Pode ser por isso que é tão difícil se desapegar deles. Desconfio que tenho muitos amigos que também passam por isto: é verdade que há mais lembranças do que livros em nossas estantes, pelas prateleiras de nossas casas. Que bom que você leu até aqui! Engraçado, né? Nem sei como eu parti dos sons da noite e cheguei nas vozes dos nossos livros.

domingo, 9 de agosto de 2020

PEDRO, PROFETA DA TERRA SEM MALES

         
Pedro Casaldáliga - 1928-2020 (imagem: metalúrgicos,org,br)

       Pedro Casaldáliga partiu. Porém, deixou o mundo melhor do que encontrou. Fez poesias, músicas...Escreveu lindos e convictos textos...Denunciou as injustiças e comemorou as lindas vitórias dos povos marginalizados e perseguidos. Pedro era catalão de nascimento, mas brasileiro de verdade! Um bispo coerente com aquilo que falava. A ditadura fez de tudo para expulsá-lo, mas ele  já era cidadão brasileiro em 1968.

                Eu conheci Pedro Casaldáliga faz tempo, por ocasião de uma palestra aos estudantes na primeira faculdade onde estudei. Era bispo católico, um dos expoentes da teologia da libertação, uma pedra no sapato de quem queria justificar a opressão aos pobres. Passou a vida sendo ameaçado pelos poderosos, pelos ricos fazendeiros do Brasil. Na ocasião da primeira palestra em que eu tive o prazer de participar, ele ainda estava muito sentido pela morte do padre João Bosco Burnier, um dos seus parceiros de luta e de fé. Os dois estavam juntos no momento do assassinato. Os pistoleiros foram contratados para matar ele, mas se confundiram. Segundo ele, “o padre Burnier era gordo e eu magro. Na certa, eles deduziram quem, pela aparência, era o bispo. Ouvimos os disparos, e logo estava no chão o meu irmão. Nós tínhamos ido até a delegacia para fazer uma denúncia”.

                Pedro Casaldáliga faz parte de uma geração de religiosos católicos que tiveram importantes ações na pastoral popular, na luta em defesa dos mais fracos. Fez parte do selecionado, atuava junto com Fragoso, Dorothy Stang, José Mahon, Clarice, Cláudio Hummes, José Maria Pires, Angélico Bernardino, Paulo Arns, Josimo, Alfredinho Kunz,  Margarida, Erwin, Tomás Balduino etc. Toda essa gente apostou que valia a pena e valia a própria vida viver o amor pela causa da justiça.

                Pedro Casaldáliga e seus parceiros Pedro Tierra e Martín Coplas compuseram o belo conjunto que recebeu o título de Missa da Terra sem males. Confesso que o adquiri assim que foi lançado, pois sabia do  tesouro que estava ali. Vale a pena ouvir tal preciosidade! Segue abaixo,  alguns endereços relacionados ao tema. Certamente tem muitos outros, mas tenta conseguir o original.


         Pedro Casaldáliga, parceiro dos pobres e dos indígenas nos deixou aos noventa e dois anos. Pedro: pai da esperança de nossas lutas! Pedro, parceiro de tantos Pedros, Marias, Josés, Margaridas.... 

      Pedro Casaldáliga, inspirador de tantos pais e mães. Pedro, profeta da Terra sem males. Memória, perdão e compromisso. Sua luta continua!


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

COBERTORES INFECTADOS

Quando o sol aparecer (Arquivo JRS)


                Quando chega o tempo de inverno, lembro-me de cobertores. Como é bom estar quentinho, debaixo de uma coberta que possibilita um bom descanso para se preparar ao novo dia! No tempo da minha infância, nós tínhamos uns cobertores ralos, curtos, do tipo que cobria a cabeça, mas descobria os pés. Cobertores de pobres, do tipo tomara que amanheça logo, ainda são abundantes por aí!

                Antes de entrar na escola, a palavra índio estava longe de nós, do mundo caiçara. Foi estudando que aprendemos sobre os tupinambás, os primeiros moradores deste território onde fica Ubatuba, das perseguições até a total dizimação por parte dos invasores europeus ávidos por lucros a qualquer custo. Graças a professores mais conscientes do ato de ensinar, a partir das verdades que eram censuradas, aprendi que muitas tribos indígenas desapareceram do Brasil porque recebiam roupas e cobertores contaminados, infectados com doenças letais a seus organismos. Em seus lugares brotaram latifúndios que, de geração em geração, dominam o país até hoje. Pior: continuam dizimando os poucos índios restantes para amealhar mais terras. A violência continua. Isso me revolta até hoje, está gravado em meu ser. Como pode isso? Isso continua podendo!

                Os mais pobres, os mais excluídos continuam fragilizados e ainda estão sendo atacados. Você não enxerga assim? Coisa ruim, sinal quase certo de que já está infectado por cobertores da morte! Vale relembrar esta frase do padre Júlio Lancelotti, um servidor do povo da rua na capital paulista: “Se neste mundo excludente, elitista, cheio de contrastes, você não tiver uma certa dose de rebeldia é porque você se adaptou, se domesticou a esse modelo”. Agora, em tempo de escolas particulares e outros querendo a volta às aulas porque seus lucros diminuíram demais, gente que apoia um presidente que continua ignorando as medidas capazes de controlar a pandemia do momento, resta denunciar a mesma história dos cobertores infectados usados contra os povos originários do nosso país, mas com uma atualização:  os professores serão vetores da Covid-19. Passando por diversas escolas, tendo contato com uma clientela bastante diversificada, enfrentado lotações em condições sempre inadequadas, os professores certamente serão cobertores infectados. Lógico que as crianças de posses, herdeiras em melhores condições de moradias, com pais e avós podendo usufruir de condições de tratamento em outros patamares, a doença pode passar sem deixar marcas. Só que, entre os nossos estudantes, sendo maioria das escolas públicas, vivendo em bairros que mal têm saneamento básico, habitando em casas onde se apertam em pequenos cômodos mais de uma geração, e, dependendo do sistema público de saúde, a morte pode se alastrar. Sem contar que cada docente tem seus familiares, inclusive membros do grupo de risco (idosos, diabéticos, cardíacos...), e, após a sua jornada diária, lá segue ele com uma possível carga mortífera às costas em direção ao lar.

                Encruzilhada; momento de decisão. Só tendo uma dose de rebeldia evitaremos prestar a esse papel exterminador de cobertores infectados, de cobertores da morte. Tomara que o dia amanheça!

quinta-feira, 18 de junho de 2020

TOTONHO E A JUSTIÇA

Em Silveiras, orgulho da mula (Arquivo JRS)


                Totonho do Rio Abaixo, famoso por pilantragens, insiste em ter a minha amizade. Dias atrás, para me agradar, falou: “Cadê o Queiroz?”. Mas é muito gado mesmo! Pensa que eu não sei que continua na dieta de capim e cloroquina? “Quer enganar quem?”.  Ele, no espírito das palavras do Bozo de Brasília, é o que poderíamos classificar de “terrivelmente evangélico”.  Agora, conforme o dizer do estimado baiano Bartolomeu, “a casa tá caindo”. É, não tem como continuar essa enganação. Mas faço questão de dizer que, na história, as falcatruas sempre estão para privilegiar quem já é privilegiado.

                O Poder Executivo, na sua instância máxima (STF), tem as suas preferências, sabe de qual lado se colocar. Por exemplo, tem processo favorável a quem está mais para o lado das classes populares que fica parado, esquecido até, mas...quando mexe com eles (Juízes) , tudo se movimenta bem rápido. Faz-me lembrar de uma escola, de um aluno terrível, cheio de malcriações para todos os professores, de arrumar confusões com os colegas etc. A cada reclamação de alguma coisa que ele aprontava, a coordenadora dizia: “Coitado dele. É porque ele é hiperativo” e coisas do gênero. Até que chegou um dia em que o tal menino disse um monte de coisas impróprias a ela. O que aconteceu? Bastou só aquela vez para ela correr atrás de outra escola para o dito cujo. Foi transferido na semana seguinte. Agora, aquelas coisas que eram evidentes para nós que procuramos ler coisas de gente sábia, de escutar coisas inteligentes e  de ver ações concretas na superação das injustiças sociais começam a ser comprovadas pelos “homens da justa”, na expressão do mesmo Bartolomeu. Espero que ele continue vivo e feliz na sua querida Pilão Arcado.

                Seo Filhinho explicava, numa ocasião, sobre a escravidão em Ubatuba:

                “Não é de hoje, meu jovem, que peixe graúdo tem proteção das leis, sempre escapa das redes. Há muitas histórias de chegada clandestina de escravos em Ubatuba. Tinha vários portos para esta falcatrua. Contavam de dois escravos que, no desespero, nadando mar afora, na Enseada de Bananal, foram resgatados pela escuna FLUMINENSE. Deram sorte de ser uma embarcação que cruzava a costa a serviço do governo, na fiscalização do tráfico negreiro em 1834. Houve tentativa de aplicação das leis, mas o tráfico continuava e era do conhecimento do Governo da Província.  A vacilação, o temor dos Juízes de Paz no cumprimento da Lei também era compreensível, pois aquela ilegalidade era exercida por argentários, pelos maiorais da terra, com os quais não seria prudente nem interessante criar qualquer animosidade. Mas imagine se fosse os parentes deles que estivessem sendo escravizados. Você imagina?”.

                É pena que tantos pobres não enxerguem as provas, mas acreditem nas evidências mentirosas para darem tiros nos próprios pés. Dá dó e raiva ver tanta gente enganada por lobo em pele de cordeiro, sabia Totonho?

terça-feira, 19 de maio de 2020

PROSA NO LAGAMAR

Porto do Paru (Arquivo JRS)



          O sol já tinha iluminado tudo, menos o lado do morro onde fica o território do “pessoal do Paru”. Eu, indo para a prainha da Xandra mariscar (porque era maré de Lua era cheia ) , encontrei o Argemiro com uma fieira de peixe. “Madrugou, homem?!?”. Essas pessoas mais antigas acordam antes do galo cantar e dão uma andada para olhar o mar. “Fui na costeira ver como as coisas andam. Aproveitei para ajudar o menino do Paru a puxar a canoa. Bateu um cardume de embetara no tresmalho, todas deste tamanho!”. E eram bonitas mesmo! Eu, que conhecia bem o Argemiro, sabia que ainda vinha história. Ele, tal como o Zezinho Rosendo, mesmo com pressa ainda ficava ao menos uma hora a mais. E ele veio com tudo! “Já que temos pressa, vamos sentar ali, naquela pedra lisa”.

                “No meu tempo de gente nova, como o essa criançada que anda por aí,  a nossa casa era na ponta do Tapiá, onde tinha uma água pequena, mas dava conta da nossa precisão. Era papai, mamãe, minha irmã, meu irmão e eu. Na Pixirica também tinha a família do Velho Bito João. Depois nós saímos dali, fomos de mudança para a Santa Rita porque a nossa roça maior era lá. E tinha a capela frequentada por tanta gente! A mamãe era muito devota da santa! Não demorou muito tempo, o padre resolveu trazer para a Enseada a capela e a santa. Dizem ainda hoje que teve um dedo do Macié e do Bráulio Santos nessa decisão porque eles queriam vender as posses daquela praia. Acredito que era verdade tudo aquilo que se escutava dessa história. Assim que nós saímos, também se mudou a família do Gusto, a família do Bastião Coimbra e a do Targino. Aquela terra toda foi comprada por um tal de Pirani, de São Paulo. O Nirso do Valentim, gente que morava no canto de lá [direito, da Enseada], foi contratado como empregado do ricaço. Agora já faz tempo que eu não ando por lá, mas dizem que tudo aquilo se encheu de casa, uma mais bonita que a outra. E nem quero ver mesmo! Acho que deve ter mudado tanto que eu posso até morrer se ver o lugar!”

                Me despedi confirmando um café para mais tarde, quando estivesse de volta da costeira. Agora o Argemiro já é falecido. Certamente que ele ficaria assustado se visse as transformações na sua Santa Rita, sobretudo em saber que todo aquele mar está poluído por esgoto e óleo dos barcos. Era bem capaz de morrer mesmo!

sábado, 18 de abril de 2020

O MUNDO É AÇÃO NOSSA

Canoas caiçaras - prova feminina, Itaguá (Arquivo JRS)


     "Quem cria a visão sacralizada e mágica do mundo? Somos nós mesmos! O nosso lugar é um lugar sacrossanto!" (Antônio Maior -  caiçara de Ubatumirim)

                Surgimos no mundo dentro de um processo evolutivo, desenvolvemos a cultura (que é uma adaptação necessária à vida na natureza e na sua transformação). O mundo é a nossa casa, daí ecologia, de oikos, casa. Cuidar da casa, cuidar do nosso lugar... do planeta que é a nossa casa maior.

                Nos distinguimos no mundo, mas temos consciência que ele é uma sopa cultural resultante de criações, combinações e recombinações constantes desde os primórdios da humanidade. Cada elemento particular nesta sopa tem sua razão de estar aí, significando o seu sabor específico, o seu tempero ímpar capaz de dar sentido à vida de alguém, à vida de muitos até. Eis a importância da diversidade cultural, das etnias abundantes. Quanto pode contribuir a cultura caiçara para um bem maior?

                Procurar respostas, questionar, propor olhar diferente a partir de sua etnia, de seu grupo cultural, é estar nesta casa (mundo) e abrir uma porta para iluminá-la, para arejá-la. É natural que os filhos, as novas gerações sejam atraídas por outras portas, por suas luzes e ares distintos.  Também não é de se espantar, ao ver pais  sem rumo, desnorteados pelas escolhas dos filhos. É evolução o nome disso. Daí a importância de grupos de estudos, de reflexão para entender novas portas que se abrem e assim desmistificar essas movimentações culturais, essas alterações na sopa cultural capazes de até mesmo gerar fanatismos fatais. Desse modo entenderemos as razões do nosso viver, explicitaremos as razões do nosso mundo. No fundo, essas manifestações revelam o componente de autonomia que temos em busca do conhecimento, do autoconhecimento, da realização do nosso ser, no nosso aperfeiçoamento pelo bem-estar corporal e mental. (Possivelmente componentes do que chamam de consciência cósmica?).

                Vamos chamar de espiritualidade essa busca de uma base que não seja materialista, aquilo que paira sobre tudo depois que as cinzas são dispersas no ar.  Muitos aspectos dessa espiritualidade transparecem nos ensinamentos de personagens de outros tempos, de vivências de outras comunidades, de anônimos do nosso cotidiano (Por exemplo: ao olhar um morador de rua, enxergo um ser que vive um desapego impressionante, uma penúria angustiante). Quando me deparo, por exemplo, com um seguidor de KRISHNA, me pergunto: como ele se relaciona com a sociedade, com a nossa sociedade? Quais questões me esclarecem com o seu modo de vida? Qual a luminosidade dele me socorre pelos caminhos? 

         Uma atenção, conforme já disse, numa tarde distante, o saudoso tio Clemente: “Se as portas são muitas, também são muitas as possibilidades de se perder, mas os caminhos são só dois: o do bem e do mal”. E o que é se perder? Creio que se resume em se afastar dessa dimensão (cósmica?) de felicidade, de bem maior que lateja em nós. "A minha casa está num lugar desse lugar maior, infinito?". É isso mesmo! Certo é que as nossas vivências podem nos colocar numa via contrária a essa realização e a essa autorrealização. Ao ver uma boa parcela da população apoiando ideais egoístas, de perseguição às minorias e aos mais pobres, não tem como omitir a percepção de que portas contrárias à felicidade ampla estão abertas e sufocando outras portas essenciais à nossa Humanidade, destruindo a diversidade cultural,  quebrando a possibilidade dessa fraternidade e corresponsabilidade pela vida em abundância. Enfim, arruinando com a casa maior, onde se enraízam as razões mais virtuosas da nossa cultura, das culturas diversas. Tenho dito.

sábado, 11 de abril de 2020

NO MESMO MAR, MAS EM DIFERENTES EMBARCAÇÕES

Estampas (Arquivo JRS)


                Estamos sujeitos a todos os contágios. Nós todos! Pode ser uma doença causada por seres microscópicos que se espalham pelo ar, ou uma ideia diferente que, de repente, surge no horizonte das nossas reflexões. Pode ser qualquer coisa! Por exemplo: a noção de justiça. Nesses dias, vivendo uma pandemia, vemos atitudes que, declaradamente, objetivam a exterminar os mais pobres, os marginalizados que "impedem" os lucros de uma minoria. É assim, bem declarado! Por isso os centros de atendimentos aos moradores de ruas e usuários estão sendo desativados, com violência policial aos que resistem às ordens das autoridades. Por isso também que os postos de assistências aos indígenas estão sendo desativados, que os médicos contratados de outros países foram mandados embora etc. E o que dizer dos auxílios milionários imediatos aos banqueiros e grandes empresários, enquanto que a quantia vergonhosa aprovada como esmola aos mais necessitados vai se esbarrando em barreiras ridículas, em argumentos falaciosos? Quem não vê que a justiça tem lado, que as injustiças grassaram porque o país agora tem um ser maldoso liderando, no comando porque uma potência externa assim direcionou? Quem votou no presidente que, desde sempre, estimulou o ódio contra as minorias deve se sentir culpado. Quem deixou de votar também tem parceria nisso porque deixou de sustentar um lado melhor. Os que sustentam esses absurdos governamentais até hoje são mais responsáveis ainda pelo retrocesso nas condições sociais tão notórias!

                Na nossa realidade de Ubatuba: onde erramos ao ver pobres migrantes sendo contra eles mesmos, contra irmãos mais pobres ainda? O que deixamos de fazer para chegar a esse ponto de tantos caiçaras serem tão tontos, apoiando as maldades institucionais que se fortaleceram? Atitudes assim vão afastando famílias, matando os laços de pertença a um grupo social e enfraquecendo a cultura. Não foi assim que a religiosidade indígena, totalmente atrelada aos valores da vida comunitária, foi apagada de nosso mapa cultural? Meu tio querido diz que estamos distantes agora, "um pouco longe um do outro". É verdade mesmo!  Seus filhos, ao votarem nessa coisa que aí está, compactuam com princípios de ódio, apoiam valores desvinculados da nossa raiz cultural e afirmam que o sucesso da economia é mais importante que as vidas a serem perdidas na atual pandemia. De onde vem essa formação? E continuam sendo católicos! Não, não quero estreitar distâncias com ideais assim! Imagino que, caso haja a possibilidade de questionamento, certamente ouvirei: “É a modernidade, Zezinho. Ela dificulta o diálogo. Tem que ter amor, ser paciente”. Se as condições para o diálogo é a negação do outro, dos injustiçados; se é a aceitação do abandono da justiça (porque a economia, o bem-estar de uma minoria deve prevalecer), eu me recuso até mesmo em reencontrar aqueles que são galhos da mesma árvore. Somos capazes de ser divinos. (Muitas ações, sobretudo nestes dias angustiantes, merecem gratidão e devem se reproduzir). O desafio é peregrinar em direção a uma divindade humilde. Esta sim nos livrará da violência entre irmãos e reavivará nossa fraternidade.  É isso que deve contagiar toda a Terra!


Ainda há esperança (Arquivo JRS)


quarta-feira, 25 de março de 2020

SOMOS UMA FORÇA INVENCÍVEL!

Grafite no túnel (Arquivo JRS)
Somos uma força! (Arquivo JRS)


           De acordo com a minha infância, no primeiro modelo de vida comunitária experimentado em família, na praia onde nasci e nas outras onde fui me criando, era natural uma referência de vida coletiva que estava em oposição, em muitos aspectos, ao modelo que hoje predomina entre nós, na sociedade atual, onde a ganância, o lucro a qualquer custo tem o maior valor, “merecem” ser idolatrados, são marcas da ideologia dominante.

                Hoje, o mercado e suas leis se tornaram absolutos em comparação à dignidade da vida, a solidariedade, o respeito à natureza. Os demais viventes da Terra são apenas figurantes nesse cenário, nem merecem a mínima consideração. Se a vida das pessoas pouco importa, a dos animais menos ainda! Por isso que, vez por outra, ao participar de ações que confrontam o sistema capitalista, neoliberal, assisto descasos por parte de muita gente, até de "caiçaras engajados", que escrevem "textos comprometidos com a cultura popular". Lógico que são uns coitados, que nem sequer têm consciência do tempo, da vida que “entregam” em benefício de poucos! Minha estimada amiga Egléia afirma que “estão idiotizados”. E é isto mesmo! “São uns cabeças-gordas, incapazes de um exercício mental para perceberem a alienação em que vivem!”. “Pois é! Ah se fizessem um mínimo de ginástica mental!”.

                Meus parentes, que vou chamar aqui de “João e Maria” cresceram também no clima comunitário nosso, de caiçaras pobres dependendo do mar e da roça; se desenvolveram graças ao peixe com banana e farinha. Só um detalhe: bem jovens se tornaram “crentes”, seguiram outra religiosidade diferente da católica, aprendendo a doutrina onde a realização econômica (acumular dinheiro e bens, ser rico) é identificada como “graça de Deus”. E seus filhos foram educados assim: “netos de caiçaras, mas agora apenas ubatubenses”. Agora, prestando mais atenção ainda: estando eu e vários outras pessoas vestidos à caráter, com cartazes, faixas etc. numa manifestação contra o sistema social que desmerece a vida da maioria, causando e mantendo a vivência miserável, ao passar por uma rua avistei alguns rostos indiferentes à nossa movimentação, como se não houvesse justificativa para isso, sendo natural essa coletividade que aí está matando, esse modelo tão injusto. Dentre esses alienados, avistei uns filhos de “João e Maria”. Um deles, o caçula, bem vestido e bem nutrido, me perguntou: “Que baianice é essa?”. (Notaram o preconceito contra nordestinos?). Eu, sem nenhuma paciência em perder tempo com o “menino”, respondi: “Eu sou caiçara, com muito orgulho! Para receber uma resposta a essa pergunta, você tem de procurar um baiano!”. (Será que alguém vai perder tempo para uma pergunta idiota dessa?). E me fui achegando aos outros que faziam parte do meu grupo, que se manifestavam a favor da vida para todos.

                Agora, em tempo de pandemia, os “meninos de João e Maria” devem ter notado que as leis do mercado, “os ditames capitalistas”, não os acudirão, pois só importa o lucro a qualquer custo. A solidariedade, as medidas verdadeiramente coletivas que se danem! “O Estado que cuide disso!”. Uns ricaços já se expressam assim: “Pra que se preocupar, deixar de trabalhar e de ir à escola? Vai morrer alguns milhares de pessoas, mas a economia será salva. E além do mais, só os velhos morrerão”. E tem pobre defendendo tal absurdo, inclusive católicos, parentes meus!

Ah, povo-gado! Diz a história que, por volta do ano 45, o imperador Cláudio, constatando uma alternativa de modelo de sociedade perigoso que se apresentava, “expulsou de Roma os judeus que em nome de Chresto provocavam continuamente tumultos”. Nos dias de hoje, seriam “baianices” segundo a fala do “menino-gado”, cujos avós eram simplesmente caiçaras cristãos se assim parecer melhor. 



      

sábado, 8 de fevereiro de 2020

OLHAR DOS SINOS

Olhar dos sinos (Arquivo JRS)

Olhar dos sinos (Arquivo JRS)

Olhar dos sinos (Arquivo Leandro)



          De vez em quando alguém me convida para falar alguma coisa da história de Ubatuba. De pronto digo que sei pouca coisa, mas que estou disponível para contribuir no que for possível. Na verdade, gosto mesmo é de escutar os outros contando causos e histórias. Mas o companheiro Leandro insistiu! Assim nos encontramos na igreja matriz, na praça Exaltação da Santa Cruz, no coração da cidade de Ubatuba. Uma companheira, Renata Takahashi, especialista em imagens, fez bonito. Vem pintando por aí um documentário dela sobre a nossa terra! Foi uma troca de ideias, conforme valorizou o persistente professor Leandro. Nem sei o quanto aproveitarão da minha fala, mas o eixo da prosa deveria ser a igreja, a religiosidade católica, o templo. Mas é lógico que demos voltas, falamos de tantas outras coisas!

           Sabemos que a tal “Paz de Yperoig” aconteceu em meados do século XVI, mas a Vila Nova da Exaltação da Santa Cruz do Salvador de Ubatuba é de 1637, criada da concessão da sesmaria da Condessa de Vimeiro, herdeira de Martim Afonso de Souza. Portanto, por volta de oitenta anos depois da traição aos indígenas no terreno na borda das “águas dos tubarões”, quando os tupinambás e aliados foram trucidados, oficialmente surgiu o embrião da futura cidade. No entanto, somente em 1700 aparece a preocupação do poder público com a manutenção do espaço religioso católico, o primeiro (que estava localizado onde bem mais tarde foi fundado o Ateneu Ubatubense, a primeira escola da cidade). Era a igreja da Nossa Senhora da Conceição, de onde vem a denominação da atual Rua Conceição. 

           As gerações dos séculos anteriores fizeram um grande esforço, mas o acabamento mais apurado se deu no século XX, recebendo até “contribuição” da igreja da irmandade da Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Esta acabou sendo demolida em prol da igreja matriz. “A coisa mais bela que temos é a parte do altar-mor que veio de lá”, segundo o Velho Sabá. “Não havia recursos para deixar as duas igrejas em pé; naquele tempo havia muita pobreza, não circulava dinheiro por aqui”. Por isso desapareceu a igreja dos negros. Hoje, seria interessante escavar a praça Nossa Senhora da Paz de Yperoig para recuperar partes desse monumento. Também ali deveria ser erigido um memorial com ao menos um evento anual.

            Afirmo que foram os frades franciscanos, presentes a partir da segunda metade do século passado, os reformadores e garantidores do atual estilo e beleza do templo. Pode ser que pelo fato de serem europeus (Tarcísio, José, Pio, Vitório, Angélico ...) e testemunharem o quanto um patrimônio cultural é valorizado e visitado, eles tomaram as rédeas das importantes reformas e de outras edificações. Eu particularmente acompanhei a grande reforma de 1980 empreendida por frei Angélico. Ela durou dois anos. A parte dos trabalhos em madeira coube ao saudoso Toninho Marques, filho do destacado carpinteiro português Antônio Marques do Vale, atuante em empreitada semelhante na primeira metade do século XX, parceiro do padre Reale. Profissionais mesmo! Também testemunhei o empenho do Jacó Meira, um construtor naval, na construção do altar em forma de barco. E me alegrei quando o Mestre Da Motta fixou a escultura de São Pedro sobre o proa do altar.

       Após os períodos inseguros, de crise na economia local, o turismo veio para ficar com a abertura das vias rodoviárias (Taubaté, na década de 1930, e, Caraguatatuba, na década de 1950). Assim, era conveniente ter um templo bonito, capaz de atrair visitantes e satisfazer fiéis veranistas. Só isto já justifica as constantes reformas. Agora, esperando dar a minha contribuição à Renata e ao Leandro, desejando muito sucesso à produção de um documentário acerca da Igreja Matriz, também vislumbrei um espaço museológico nos espaços laterais. Me asseguraram que o atual frei já sinalizou nesta direção. “Quem não vai querer, mediante taxa mínima, ver isso tudo que são partes da nossa história?”. 

       Ao me perguntarem da religiosidade caiçara, fiz questão de salientar que, coube aos freis brasileiros, da virada da década de 1970 em diante, a nova visão, dentro da teologia da libertação, onde os traços da nossa cultura caiçara e a defesa do nosso espaço foram incluídos na nossa mística, alimentando nossas lutas locais contra grilagem de terras, grandes projetos imobiliários e militares para a região. Desse tempo me recordo de, ao longo do ano, em cada festa pelas capelas, o meu povo vivia um prazeroso evento cultural, uma verdadeira festa popular.

           Por fim, ao finalizar os trabalhos, fomos à torre dos sinos. Não tem como não se emocionar! De lá, o meu olhar se tornou o olhar dos sinos!


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

FESTEJOS

Sertão da Quina e Sapê presentes (Arquivo JRS)

Mestre Pedro no comando  (Arquivo JRS)


         Quem não gosta de festa? Ainda não encontrei ninguém que se recusasse a participar de uma festa autêntica, com pessoas que a gente estima! O nosso povo é festeiro. Tudo se torna motivo para umas danças, umas músicas, uns comes e bebes. Creio que festejar é cimentar relações, fortalecer a vida em coletividade.

         As festas podem ser classificadas de profanas e sagradas, mas não concordo com isto. Na origem, as festas coletivas sempre se direcionavam ao sagrado: deus da colheita, deus da chuva, deus da fertilidade, deus da guerra etc. Naturalmente elas foram dando características aos lugares: em tal lugar se comemora, daqui a pouco, a divindade tal; daqui a quatro luas, vem a festa do abati maduro; agora, está acontecendo a festa do cambuci no alto da serra; afinem os instrumentos porque vem aí a festa de São Sebastião, na Grande do Bonete etc. Festa é festa, né gente?!?

        As festas da religiosidade popular, ao menos no Brasil, serviram para implementar a doutrina católica. As danças e os cantos visavam a exaltar um santo, popularizar um ensinamento bíblico, uma moral religiosa. Os leigos e suas irmandades supriam a carência de sacerdotes, motivavam o sincretismo religioso ao se adaptarem em seus contextos. Por isso, manifestações tais como a Folia de Reis, os Reisados, a Dança de São Gonçalo etc. têm ainda muita força nas classes populares no nosso município e pelo Brasil afora.

         Ontem, no coreto da Matriz, os grupos de cantoria de reis se encontraram para uma importante celebração, como há muito não se via. Só temos a agradecer ao pessoal que organizou esse belo espetáculo. Eu, em particular, me realizei com o meu pessoal do Sertão da Quina e Sapê. Quanta alegria tocar ao lado do Zeco Pedro! Como é bom relembrar as tantas madrugadas passadas em cantorias pelas casas do nosso pessoal! O pequeno grupo (Mané, Zeco Pedro, Antunes e Giovani) que se deslocou uma boa distância para se apresentar com os demais grupos também voltou contente para casa. No fim, eu e Estevan pedalamos ao nosso lar, contentes por rever e escutar o nosso povo cantando essa tradição de séculos. Valeu mesmo!

domingo, 22 de setembro de 2019

MEUS TIOS E MINHAS TIAS

Início da década de 1970 -  Retiro no Sertão -  Casa Emaús   (Arquivo JRS)


               Depois de ter passado quase sessenta anos nesta Terra, neste território caiçara, sou testemunho de muitas histórias da minha gente e de pessoas de outros lugares que aqui chegaram e se tornaram minha gente também. O Dito é um caso desses: nasceu em Santo André (SP), passou pelo distrito de Vargem Grande (Natividade da Serra) e “deu um escorregão na serra” até o Sertão da Quina (Ubatuba). De acordo com ele, “vim com a roupa do corpo, ajudando a trazer umas cabeças de gado até o Sertão, mas o que era para ser coisa de um fim de semana apenas, dura até hoje”. Agora, bem recentemente, eu lhe lancei o desafio de escrever a respeito da sua vivência (aproximadamente 40 anos) entre os caiçaras, convivendo com os Pais e Mães do Sertão (João Rosa, Catarina, Quito, Terezinha, Emídio, Fonfom, Guido etc.). “Ah! Pode deixar! São todos meus tios e minhas tias”. E assim...


               Homenagem aos meus tios e minhas tias

               Homenagear pessoas que nos foram boas é bem tranquilo, se torna mais fácil ainda quando elas já não se encontram entre nós. (Pelo menos visíveis e palpáveis). O motivo é simples: nós só temos ideia do que foram essas pessoas quando as perdemos.

               Falar das pessoas mais velhas do Sertão da Quina é muito prazeroso, pois a bondade dessas pessoas foi e é além do normal. Normal, que eu digo, é porque hoje as pessoas só se preocupam consigo mesmas e/ou com seus parentes próximos. (Coisa que nunca aconteceu comigo em nenhum momento desde aqui cheguei). Só tenho lembranças boas desses senhores e senhoras que me acostumei a chamar de tios e tias. Gente dessa terra que me recebeu como filho da terra, como se fosse um deles. Alguns, quando eu os cumprimentava, a resposta era: ‘Deus te abençoe, meu filho’. E lá ia eu todo contente, pois sabia o quanto era sincero.

               Falar individualmente é muito difícil porque tenho medo de ser injusto. Graças a Deus eles são muitos! Tenho histórias com todos esses meus queridos tios e tias. E todas boas! E são tantas que, se eu puxar pela memória, se tornam temas para um livro. (Quem sabe um dia!). Por enquanto vou falar de todos aqueles que, de alguma forma, me ajudaram a amar esse lugar, e, por que não dizer, essa cidade?!?

               Muitas vezes pensei em ir embora, porém bastava quinze minutos de papo com um desses meus tios e tias, e, pronto, desistia. Recebia conselhos dos mais diversos; hoje eu sei o quanto foram bons. Chego a dizer que alguns salvaram a minha vida. ‘Meu filho, tende paciência, tenha fé que tudo se resolve’. Perdi a conta de quantas vezes ouvi essas palavras. E, o melhor de tudo, é que eles estavam certos cem por cento das vezes.

               Quantas e quantas vezes, meio sem rumo, sem nada para fazer, de repente ouvia o seguinte: ‘Vamos almoçar lá em casa, tem azul-marinho...’. Ou então: ‘Vamos lá tomar café. Tem cará, tem banana da terra, mandioca, batata doce ...’. E tantas outras delícias que só quem conhece sabe o quanto é bom. Por essas ou outras coisas é que eu aceitei escrever essas poucas palavras, insuficientes para expressar minha gratidão por essas pessoas (meus tios e tias) e por essa terra que me adotou.

               Obrigado, Sertão da Quina! Obrigado, Ubatuba! Obrigado por terem me dado meus tios e minhas tias!
                                                                                                                                             Bendito Evangelista Filho (Galo)

domingo, 6 de janeiro de 2019

SANTOS REIS CAIÇARAS

Peixes adorando o menino (Arquivo JRS)



               Os festejos do catolicismo sempre foram bem observados pelos velhos caiçaras, quase tudo se organizava em torno dessas comemorações. Numa ocasião, entre o Natal e o Dia dos Santos Reis, quando eu passava uns dias na comunidade da praia do Puruba, entre os irmãos dali (Tio Dico, Tia Baía, Tia Zaíra e Tio Antônio. Tia Rosa ainda não viera da cidade), depois de muita prosa e risadas na noite, esta foi a versão dos reis magos:

Tia Baía:  - Os Santos Reis estão passando pelas casas. O grupo do sertão do Puruba, na sua cantoria, nos relembra a cada ano a história do menino Jesus. Desse modo nós aprendemos sobre a nossa fé desde os mais antigos.

Tia Zaíra:  - José e Maria passaram um sufoco. Diz a história que não havia lugar para se acomodarem decentemente e ainda precisaram fugir da perseguição de Herodes. Foi numa toca de pedra que Jesus nasceu.

Tio Dico:   - O pior foi enfrentar aqueles caminhos seguindo a estrela-guia. isso quer dizer que eles viajavam de noite. Nós sempre viajamos daqui até a cidade [distante 25 quilômetros] de noite, não é mesmo?!? Quando é tempo de Lua cheia até que não é tão difícil, mas em noite escura de breu só coruja se dá bem!

Tio Antônio:  - É desse jeito, Dico! Agora mesmo eu não estou sem a unha do dedão por causa de um escorregão na semana passada, na volta da madrugada da festa de encerramento da novena na praia Vermelha?!?.

Tia Baía:  - Ah! Mas o que aconteceu também teve a ajuda do tanto que você bebeu de consertada, ouviu Antônio?! É doce, é gostosa, mas também embebeda!

Tio Dico:  - É por isso que eu não bebo. Depois, Antônio, sempre tem alguém jogando essa verdade na  sua cara, está ouvindo? E você já imaginou aquele pessoal se embebedando pelos caminhos: os Santos Reis e a Sagrada Família subindo as grimpas do Léo e rolando naquela grota do Canto do Félix, depois das Conchas? Teriam que dormir na areia grossa, debaixo daqueles abricoeiros, antes da capela. Se apagariam ali! E qual balseiro toparia em atravessar toda essa gente tonta de cansaço e de outras coisas? Teriam que ir à bau primeiro o Indaiá e depois a barra da cidade, o rio Grande.

Tia Zaíra:  -  Que nada! Nem chegariam lá! É certo que seguiriam o caminho contrário, aquele ensinado pelo perverso rei Herodes.

Tio Dico:   - Iriam parar então em Paraty?

Tia Baía:  -  Deixem de falar disso. Não se brinca com coisa sagrada.

Tio Antônio:  -  Você acha, minha irmã, que coisa sagrada, que gente sagrada é diferente da gente? Que eles não precisavam correr no mato quando tinham as necessidades deles? Não se agachavam para tomar no rego quando batia a sede? Será que não pararam nenhuma vez para pedir um café com farinha e peixe seco assado?

Tio Dico:  -  O Antônio tem toda razão. Contam os mais velhos que quem fez caridade assim recebeu uma benção, se compadeceu do grupo que tinha muito ainda para andar, foi junto, seguindo eles até a cidade. A Maria era jovem, mas estava muito pesada e não conseguia andar depressa. Por sorte que a pensão do Braga, logo ali, perto da igreja, sempre dava um jeito de acomodar quem precisasse. Não sei se fosse igual à temporada de hoje, com tanta gente, seria possível isso.

Tia Zaíra:  -  É, isto é certo: iam devagar, no ritmo dela que estava quase na hora do parto. Confiavam que tudo daria certo.

Tio Dico:  -  O menino na barriga foi se sacudindo todo.

Tio Antônio:  -  A mãe, coitada, deve ter vomitado demais.

Tia Baía:   -  É mesmo, né?

Tio Dico:   -  Mas as Escrituras não diz que ela tinha a força do Espírito Santo?!? E os outros?

Tio Antônio:  -  Ah, Dico! Deixa disso! Os outros tinham a força da nossa comida! Eles não se alimentaram como nós? Não comeram do nosso peixe, da nossa farinha de mandioca? Você acha que ninguém deu um grosso biju para irem roendo na longa pernada? Além do mais, já era tempo de jaca e de goiaba maduras. Só não comeram muito para não se empaturrar e ter de parar.

Tia Baía:  -  Vamos deixar de prosa. Agora já é hora de ir para a capela porque o compadre Dito Fernandes, a comadre Mocinha, o Pedro Brandão, o Anastácio e mais gente do sertão estão chegando assim que o galo anunciar a madrugada. Depois da cantoria a gente desmonta o presépio e guarda para só montar de novo em dezembro.

Tio Antônio:  -  E, depois da comidoria, vamos para o tio Durval. Já está tudo pronto para o bate-pé no assoalho dele! É hoje que o Sol desponta na Justa com gente lascando tamanco! Viva os Santos Reis! Viva!!!

Todos (inclusive eu):  - Viva os Santos Reis!!!



domingo, 2 de setembro de 2018

A DANÇA DE MOÇAMBIQUE

Evolução em Moçambique  (Arquivo JRS)

Viva a resistência! (Arquivo JRS)


              
               Dias atrás, a partir de um convite especial, eu e minha esposa fomos até a cidade de Paraibuna para assistir uma Dança de Moçambique.

               Moçambique, a dança, é um bailado popular. Com pessoas numa indumentária própria, simples, com guizos nas pernas ou nos tornozelos. Ela se desenvolve numa coreografia bem movimentada, em filas ou arabescos, agitando, entrechocando os bastões, em lutas simuladas ou seguindo o desenho convencional, estrelas ou escadas, provas de equilíbrio, precisão e segurança, ao som, geralmente, de tambor, violão, rabeca e pandeiro. Vem do tempo dos escravos. Portanto, suas raízes estão na África. Por ser uma cultura popular, uma forma de resistência, foi nacionalizado, se adaptou à religião católica, ou seja, compõe a raiz da religiosidade popular brasileira. Então, pela origem negra, naturalmente honram São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, com letras da devoção popular. Lembremos que só assim os ritos dos negros, as  tradições africanas eram tolerados. Por isso que muitas vezes o bailado se apresentava como cumprimento de promessa. A vovó Martinha dizia: “Os pretos da Caçandoca dançavam o maçambique sempre”. Além da vovó, ouvi de muitos outros velhos caiçaras a denominação de maçambique. O saudoso tio Aristides, quando jovem, participava do grupo de moçambique do bairro da Estufa: “Eu dançava. Também dançavam o Tobias, o Ditão... Acho que até o Antônio fez parte daquele grupo. Tempo bom!”.  Até 1980, a Maria Charlot animava um grupo de dança semelhante no bairro do Taquaral. No centro da cidade, no coração de Ubatuba, o mestre moçambiqueiro era o Modesto. Não é preciso dizer que todos eram negros, descendentes de escravos que um dia foram arrancados da Mãe África, tal como a minha tataravó que viveu essa condição na praia do Lázaro.

               Ao assistir uma evolução dessa manifestação popular, você consegue ver além daquilo que se mostra, voltar no tempo para enxergar os negros se exercitando, ensaiando defesas e ataques no terreiro da senzala ou pelas capoeiras. Eram estratégias que alimentavam a resistência frente às agruras do Brasil que manteve por quase 350 anos a escravidão negra. Por isso que é triste escutar alguém dizer frases do tipo: “Quem disse que os descendentes dos escravos merecem reparação?”, “Eu sou contra a titulação de terras quilombolas” etc.

Quer ver uma mostra do grupo de Paraibuna? Então lá vai: https://www.youtube.com/watch?v=MkTditXI3Hw

terça-feira, 31 de julho de 2018

UMA PROMESSA

Eu, Josefina e o compadre Manezinho (Arquivo JRS)


               Ainda bem que levei meu filho para visitar os Mariano! Que honra poder ter como compadres o Mané e a Paulina! Quanto orgulho eu carrego por ter a amizade da batalhadora Josefina!

               Conheci todo esse pessoal em 1980, ao chegar ao bairro da Estufa, em Ubatuba.  Logo fui sabendo que os Mariano estavam na fundação da capela local. Foi o velho Manoel Mariano Lopes, caiçara paratiano, quem construiu a humilde casa de oração, a pedido do Frei Vitório Valentini, no final da década de 1950, conforme escutei um dia do saudoso Luís Albado. A motivação, de acordo com a Josefina,  veio de uma graça recebida, de um milagre.

               “Quem me contou a história, Zezinho, foi a própria dona que patrocinou a construção. Ela era da cidade de São Paulo. Tudo começou com um filho doente, quando apelou para que São Benedito intervisse na cura do menino que tinha pneumonia. Depois de passar por muitos médicos, de já estar desenganado, estando num leito de hospital, com muita febre e dores, ele recebeu a visita de um homem que chegou conversando, escutando seus lamentos e tentando animá-lo. Por fim, ao se despedir, impôs-lhe as mãos na cabeça por um pouco de tempo. Na hora a febre passou, o enfermo já não sentiu mais nada de dor. Logo começou a correr pelo quarto, brincando com algumas coisas que havia por ali, causando muito espanto na mãe quando chegou no horário da visita. Veio o médico, examinou a criança, ficou muito admirado; atestou que não havia mais nada da doença e que podia ir para casa. Ela chorou de tanta alegria e logo  se lembrou da promessa feita a São Benedito, procurando ocasião para cumpri-la.
               Essa devota mulher, moradora da capital, era proprietária de uma casa de veraneio na praia do Itaguá. Numa ocasião, tempo depois da cura do menino, estando de passeio por aqui, foi à missa na igreja matriz e levou junto o filho. Assim que entraram no templo, olhando para o lado esquerdo, onde estava o altar lateral, o pequeno gritou: ‘Ali, mãe! Foi aquele homem que me visitou no hospital, que pôs a mão na minha cabeça e acabou com a doença!’. No mesmo instante a mãe reconheceu São Benedito e se emocionou demais avistando o enfeitado altar do santo negro. Agora faltava cumprir a promessa (que era de construir uma capela e dar uma imagem do santo, onde seria o padroeiro). Após a missa, procurou o pároco e explicou toda a história. Frei Vitório a escutou e logo pensou na Estufa, um bairro próximo que ainda não tinha capela. Prometeu conversar com o prefeito, pedindo uma área. Sendo atendido, aguardou o retorno daquela caridosa senhora que imediatamente forneceu as condições materiais para a edificação. O frei conhecia o meu finado pai e tinha muita confiança na sua responsabilidade de bom católico, na sua boa vontade e em seu trabalho caprichoso de pedreiro. Prontamente ele aceitou a missão. Não demorou muito para a capela ficar pronta. Por fim, chegou a tão esperada imagem de São Benedito, tão pretinho como o meu saudoso pai. Uma missa solene marcou a inauguração da nossa capela. Esta história eu escutei daquela senhora bem em seguida desse evento, logo depois. Aquela capelinha cresceu até ser a Igreja de São Benedito que temos hoje, que acolhe tanta gente boa. Ah! Se meu pai fosse vivo ainda! Quanta saudade eu tenho dele!”.

               Agradeço à Josefina, ao compadre Mané Mariano e à comadre Paulina pela oportunidade de escutar mais uma vez a narrativa que é parte da memória do bairro da Estufa. Foi bom rever mais uma vez essa caiçarada, de passar mais um tempo na companhia deles numa prosa de dar prazer!