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domingo, 18 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (IV)

 

Tinha uma pedra no meio do caminho (Arquivo JRS)

               

A MOÇA ENCANTADA

               Meu tio contava que na pedreira onde trabalhou, ele sempre ouvia vozes muito estranhas que parecia vir de muito longe. Mas era uma voz bonita, até parecia voz de alguém chamando.

                Um dia ele resolveu chamar meu pai para ir lá no meio das pedras para ver o que era aquele barulho ou aquela voz. Meu pai falava para ele que lá tinha uma moça encantada e que era uma loira muito bonita. Um dia, escondido do meu pai, ele resolveu ir sozinho. Quando ele se aproximou das pedras ele falou: “se for uma moça bonita, apareça para mim, que eu quero ter ver de perto, porque eu não acredito que você é encantada”. Se aproximou mais e foi até o oco das pedras, quando um raio de sol iluminou tudo tão forte que ele ficou atordoado e foi atacado por muitas abelhas. O estranho é que naquele lugar nunca existiu abelha. As abelhas eram  só um sinal para que ninguém invadisse aquele local.

Meu pai sempre falava que havia um encanto entre as pedras.

(Autora: V. J. S. E)

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (III)

 

Pintura na pedra (Arquivo JRS)

COMPADRE LOBISOMEM

                Durante muito tempo meu vizinho estava sentido falta de galinhas a cada manhã. No começo ele achava que era raposa e encheu sua espingarda de chumbo para  ficar espreitando a danada. Nesse dia ele avisou a comadre que iria ficar a noite no galinheiro e que ela não se assustasse se ouvisse algum tiro.

                Então ele ficou escondido no galinheiro. Era uma bonita noite de lua cheia. De repente as galinhas começaram a cacarejar e ele colocou a espingarda em punho, pronto para dar cabo da condenada da raposa. Daí apareceu na frente dele uma criatura estranha: meio lobo, meio homem. Ele ficou todo arrepiado e lembrou-se da história de lobisomem que o pai dele contava. O pior é que a fera lembrava alguém conhecido, por isso ele não atirou. Mas deu uma boa paulada nas costas do bicho que fez o tal sair correndo e uivando de dor.       Assustado, ele correu para sua casa e contou tudo para a sua mulher, só não falou que ele desconfiou do seu compadre Manezinho. Nessa noite não conseguiu pegar no sono.

                Na manhã seguinte ele foi até a casa do seu compadre. Chegando lá, para sua surpresa, ele encontrou o compadre Manezinho andando torto e se queixando de dor nas costas, bem onde tinha acertado a paulada. Então, mais uma vez ele se lembrou do seu pai e do avô e nada falou para a comadre, porque o lobisomem mata quem descobre a sua triste sina. Desde esse dia em diante ele organizou o galinheiro, falou para o compadre Manezinho que ele ia aprontar uma armadilha para raposa, pois teve um dia que ele ficou esperando a danada, dormiu e sonhou com uma coisa muito esquisita, que com certeza não existe de verdade.

                Ele guardou esse segredo e nunca mais deixou nenhum filho sem batizar com medo do lobisomem comer, porque o lobisomem come criança pagã.

                Esta história foi contada pelo meu bisavô (vô Arlindo, pai da mãe do meu pai).

(Autora: J.A.L)


domingo, 11 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (II)

Chuva de ouro florida no quintal (Arquivo JRS)

    

 BRINCANDO COM O DESCONHECIDO

    Naquela noite, após o jantar, Seo Antônio sentou-se à mesa e falou para sua esposa: "me traz um papel". Ela não entendeu qual seria sua brincadeira naquela noite, pois Seo Antônio gostava de brincar com o desconhecido.

    Ele pegou o papel e fez um círculo com sete cobras e, no meio desse círculo desenhou um rosto muito estranho e falou que esse rosto era o capeta. Ele desafiou o desconhecido e falou: "só acredito que o capeta tem poder se eu colocar fogo no papel e queimar todas as cobras e o rosto dele escapar sem fogo". Em seguida ele colocou fogo e se assustou quando viu todas as cobras serem queimadas e o rosto do homem que ele dizia ser o capeta ficar sem queimar. Ele ficou assustado.

    Na noite seguinte, ele deitava-se para dormir quando, de repente, olhou no telhado e viu sete cobras. Ele pegou um pedaço de pau e matou seis cobras. Uma fugiu. Então ele se lembrou do desafio que tinha feito na noite anterior. Ele pensou: "se eram sete cobras e eu consegui matar seis, então a sétima que escapou era o capeta".

    Ele jura que é verdade. Hoje ele não mora mais nesse sítio, que está abandonado.

(Autora: M F N L)

sábado, 10 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (I)

 

Noite de causos (Arquivo JRS)

    No ano de 2006, a minha esposa iniciou uma atividade com alunos adultos durante as aulas de História. A proposta era trabalhar a contação oral e escrita de causos, estimulando a convivência entre eles. Assim aconteceu: contaram histórias, falaram  de suas vidas, suas experiências, medos, crenças, valores, ou seja, cada um expôs um pouco de si mesmo perante os colegas, revivendo a tradicional contação de causos da tradição caiçara.  "A atividade de contar histórias faz as pessoas se identificarem com os outros não somente pelas experiências, valores e temores, mas sobretudo pela própria condição tão humana de narradores", diz a minha Gal.

    A partir de hoje, ainda que de forma lacunar, darei minha contribuição no objetivo de levar os textos deles a outras pessoas, a leitores reais, que todos tinham em mente quando escreveram suas histórias. Infelizmente, no momento, não temos como acessar os autores dos causos para agradecer, noticiar a minha iniciativa e deixá-los mais orgulhosos ainda da obra final deles. Ela se perpetua, continua se expandindo mundo afora. Parabéns e obrigado pela produção maravilhosa! Conforme forem acessando, tomando conhecimento, repassem aos demais, por favor. Espero que apreciem a  Farra de Causos.


ASSOMBRAÇÃO NO FUSCA

    Minha cunhada morava com um mecânico em um sobrado ao lado da casa da minha comadre. Na parte de baixo do sobrado, no fundo do quintal era uma oficina, cheia de carros velhos.

    Então, um belo dia, minha cunhada brigou com o marido e eles se separaram. Ela foi morar na parte de cima e ele ficou em baixo. Ele gostava muito de beber. Um dia, ele saiu para beber e encontrou com um amigo que havia acabado de sair do presídio e convidou esse amigo para morar e trabalhar com ele. O amigo ficou trabalhando e morando nesta oficina durante seis meses.

    Passando esse tempo, ninguém sabia nada a seu respeito. Ele passou a beber e acabou falecendo dentro dessa casa. As pessoas que moravam lá tentaram contato com os familiares dele sem sucesso, então o enterraram assim mesmo. Após o enterro do rapaz, sete dias certinho, minha comadre saiu no quintal e viu dentro de um fusca velho velas acesas. Ela foi olhar se eram mesmo velas e quando chegou perto viu que não havia nada dentro do carro, nem um pingo de vela.

    Passaram-se mais sete dias e aconteceu novamente. Então ela achou que seu cunhado havia bebido e estava com palhaçada. Ela foi olhar na casa dele e ele não estava lá. Aí ela ficou preocupada.

    A mesma coisa aconteceu três vezes seguidas. Na quarta vez, ela viu o rapaz que havia falecido dentro do carro e o carro estava pegando fogo. Só que quando ela se aproximou, tudo sumiu.

    Minha comadre então mandou rezar missa para ele durante quatro domingos em seguida e ele não voltou a aparecer mais. 

(Autora: LF)

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A LAVOURA

 

Bito Madalena (Arquivo JRS)

             Escrever sobre lavoura no chão caiçara é enxergar ainda os espaços cultivados. Era assim na minha infância, quando a especulação imobiliária engatinhava no litoral paulista. Em época desta, quando chegava a primavera, as roças novas recebiam as primeiras atenções, sobretudo no controle do mato que sempre vinha com muita força. As saúvas também exigiam vigilância constante. Na  várzea do Sapê, vovô Estevan plantava arroz e milho entremeados com as bananeiras. No morro da Fortaleza se cultivava muita mandioca nas posses do vovô Armiro.  Me lembro sempre de uma prosa em outro tempo com o estimado Bito Madalena, no alto do morro do Saco dos Morcegos, quando ele me explicava: 

         "Todo esse mato daí, por esses morros todos, na metade do ano era preparado para novos plantios. Tudo era descultivado nessa época. Só ficavam livres as capoeiras que descansavam anos até chegar outro tempo para mexer nelas. Era chão de pousio. 

       Todos precisavam da lavoura. Quem vivia sem farinha? Quem passava sem banana, cará, batata,cana e outras coisas mais? Eu, meus parentes... todos tinham de fazer isso para garantir uma parte do sustento da família. A outra parte vinha da pesca e da caça. Todo mundo vivia dessa maneira. Sinto dó da gente de hoje porque quase tudo precisa ser comprado na cidade. De uns tempos para cá o nosso pessoal foi se acomodando em outras formas de viver, de ganhar dinheiro. Veja tudo isso! Naquele tempo quase não se avistava mata fechada assim; era plantação disso, plantação daquilo. E quantas casas desapareceram  engolidas pelo mato!? Os mais novos se foram e os velhos que ainda vivem não têm forças para enfrentar a lida da roça, dos bananais. Agora, repare bem, veja a quantidade de casas surgindo pelos morros e badejas. Tudo isso já foi chão descultivado, teve posseante zelando, cultivando de tudo um pouco. Logo ali em frente, do Teófilo para baixo, até alcançar a cachoeira, o Rio do Inhame, foi o pessoal de casa - meu finado pai e nós, os filhos - que descultivamos. Tudo virou um bananal só. Os barcos saíam carregados de cachos, levavam para Santos. É por isso que este lugar adiante, até a virada de lá, tem o nome de Saco das Bananas. Antes era só Prainha do Frade".

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

APETITE DE CAVALO

Praia do Camaroeiro-Caraguatatuba (Arquivo JRS)


    Há mais de vinte anos eu tive a honra de conhecer o caiçara Marino Garrido, de Caraguatatuba. Passei uma tarde proseando na casa dele, bem no centro da cidade. Agradeço por Priscila, sua neta, me proporcionar a oportunidade ímpar.

    Marino escreveu um livro sobre a Fazenda dos Ingleses. Foi vereador e era muito querido por todos. Uma das histórias dele foi em torno de uns cavalos que comeram uma canoa. Na prosa dele aparece um pescador (Zé Lopes) que tinha um rancho de canoa na praia do centro, quase chegando no Camaroeiro, onde a atração principal é a beleza da paisagem formada nas marés baixas. 

    Era um rancho muito velho, querendo cair a qualquer momento, mas servia de proteção à velha canoa de capurubu. "Era melhor do que ficar no tempo, pegando sol e chuva". Um primo desse, o Bernardo Amaral, morador ali perto, onde é a praça hoje, bem defronte ao mar, tinha um costume que sempre foi comum no pessoal daqui: se encostar em alguma parede ou árvore para coçar as costas. É  natural naqueles que sempre vivem expostos ao sol: a pele se renova  com mais rapidez; por isso a coceira se manifesta tanto. E aqui é que vem o miolo do causo: num entardecer, depois de ajudar a puxar a canoa no rancho, os dois primos ficaram por ali em prosa. E, conforme o hábito, Bernardo se ajeitou no esteio de taquiúva do velho rancho para se coçar, sem considerar a lastimável condição notória para todos. Tudo desabou como era esperado há muito tempo. O coitado pediu desculpas, se ofereceu para construir outro ali mesmo, mas nunca que o rancho foi refeito. A canoa, velha demais, com remendos até se remontando, ficou exposta ao tempo. Naquela época uns cavalos viviam pastando por ali. O Zé Lopes deu azar, pois os animais acharam bom lamber e roer as bordas da canoa que guardavam sal. Só sei dizer que não demorou nada para se acabar desse jeito a embarcação que a tantas e tantas pescarias tinha conduzido o Zé Lopes. Ou seja, virou comida dos cavalos a velha canoa tirada de um majestoso capurubu.

sábado, 19 de setembro de 2020

SE NÃO HOUVER CHIFRE EM CASA

 

Coentro, hortelã, cebolinha...Nosso espaço (Arquivo JRS)


       De onde vem todo esse conhecimento de mato, de ervas, que a cultura caiçara tem? "Tem mato para tudo", diziam os mais antigos. "É sabedoria dos caiporas, dos pretos e da portuguesada". Assim como antigamente, as mulheres continuam à frente nesta particularidade de conhecer os matos e as suas funções na culinária e como medicamento. Em toda a minha vida eu conheci várias benzedeiras caiçaras, mas apenas um benzedor: o Velho Mariano, do Ubatumirim, que veio findar seus dias no bairro da Estufa. Após o ritual deles e as rezas, ninguém deixava o lugar sem levar uma braçada de mato para fazer remédio. A cura se completava assim

             Nossos quintais eram repletos desses matos, dessas plantas que não podiam faltar porque sempre havia precisão para usar na comida, fazer um chá, um emplasto etc. Quase sempre um cercado de bambu (ou de aproveitamento de pano de rede velha) protegia nossas ervas, sobretudo das galinhas ciscadeiras. Era o espaço das hortelãs (gordo e de bicha), dos coentros (miúdo e do mato) , da alfavaca, da melissa, do capim cidrão, do poejo, do guaco, da cidreira, do alecrim, do favacão, da arruda, do manjericão... Entre elas, ocupando o mesmo espaço se via couve, cebolinha, tomate, pimenta, salsa e por aí vai. Entre as flores do terreiro e pelos caminhos também abundavam dessas plantas que nasciam levadas pelo vento, por bichos e por nós também. Era comum avistar alguém fincando galhos ou jogando sementes nos locais das nossas andanças. E tinha toda aquela riqueza de plantas que abundavam na capoeira, depois do cisqueiro. A gente, a bem dizer, tropeçava em caninha do brejo, pariparoba, urtiga, aperta ruão, malícia, sete sangria, quebra pedra, gervão, melãozinho, prumera, boldo de todo tipo, erva baleeira, ervas diversas (cavalinha, de bicho, de São João, de Santa Luzia etc.).

               Nunca podia faltar algumas folhas de alfavaca no preparo de qualquer espécie de cação. Na carne de galinha, o sabor que realçava era do hortelã gordo. Coentro do mato entrava em quase todos os tipos de peixes que fossem cozinhados. "Zezinho, vá lá fora e me traga três folhas de coentro. Escolha das maiores". Assim, a partir da mãe, das avós e com tanta gente mais, fomos aprendendo disso tudo. De vez em quando se escutava frases do tipo: "Comadre, tendes aí hortelã, daquela de bicha [lombriga]? É que tenho reparado no Tãozinho que se encontra muito aíbo, empalamado. É só bater a vista que se nota. Deve ser ataque de bicha. Na semana que começa amanhã, irei preparar chá de hortelã com pó de chifre para ele beber de tarde". E por que tinha de ser na parte da tarde? Vovó Martinha me explicou: "É que, depois de atacar a comida do almoço, as bichas ficam desesperadas de sede, dando até coxa nas tripas. Só que, em vez de água, quem conhece faz elas tomarem chá de hortelã nas fuças. Se tiver fervido com um punhado de chifre torrado aí que resolve mesmo! Pode ser usado sementes de mamão moído se não houver chifre em casa e nem na vizinhança".

                    Talvez por tudo isso, eu, assim que me levanto a cada manhã, dou uma volta no quintal para apreciar as nossas ervas, o nosso mato. "Um pedaço da Mata Atlântica no terreno", conforme o dizer da mana Ana.

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

ESGOTO COMO OFERTA?



            Para quem não sabe, a capela da Santa Rita se localiza na praia da Enseada, mas foi trazida há mais de setenta anos da praia da Santa Rita, em Ubatuba. Por interesses imobiliários, algumas poucas pessoas sem escrúpulos se aproveitaram da ingenuidade dos poucos moradores, negociaram com o pároco e transferiram a Santa Rita para uma nova capela, deixando o campo livre para toda a praia ser imediatamente vendida. “A nossa santa foi desterrada. Os poucos moradores dali seguiram para as praias vizinhas. Tudo aquilo virou deserto, o mato tomou conta das roças, as casas se acabaram no abandono. Foi um acordo do padre com o Maciel, o Bráulio Santos e mais alguém que eu não sei do nome”, assim me contou a Dona Santa, uma pescadora que se casou com o Argemiro, gente que findou seus dias no Perequê-mirim. “A capela era movimentada, tinha reza sempre. Muita gente comparecia na festa da Santa. Agora, ali é de gente rica, de ricaços da capital”. Recentemente, lendo uma denúncia do Peter (canoadepau.blogspot.com), tudo vai confirmando o que alertamos faz tempo: o mar vai virando esgoto. Vou postar a notícia (do dia 06 de agosto de 2020):

Oferta à santa (Arquivo Peter)

VARRENDO ESGOTO PRA DEBAIXO DO BUEIRO
Agosto de 2020, Praia da Enseada, Rua Santa Rita, Ubatuba - SP
INACREDITÁVEL!!
Nos últimos dias vários caminhões do tipo limpa fossa estão descarregando esgoto diretamente no bueiro da esquina da Rua Luzia Maciel Leite com a Rua Santa Rita (foto). Tudo isso está indo diretamente para o mar que está a 50 metros de distância. Existe um emissário irregular nesta rua que já não dá mais conta do volume normal, imagine de vários caminhões.

            Já escrevi em outra ocasião que, no começo da década de 1980, a pedido do Jorge e Dona Maria, zeladores da capela linda da fotografia, eu e papai fizemos o forro todo. É o que existe até hoje, sob cuidados de Nelson de Góis, segundo o amigo Elder Giraud. Foi a nossa oferta naquela ocasião, bem diferente do que agora está sendo ofertada à Santa e ao lugar de tanta gente nossa. Vale a pena conferir a beleza do lugar, o aconchego do recanto reservado à Santa Rita desterrada. O que não vale é o descaso de tanta gente com a linda praia da Enseada e à natureza em geral. Parabéns Peter por estar atento!


sexta-feira, 29 de maio de 2020

ERA UM FIIIIIUUUUUU CORTANTE

Mãe-da-lua (Arquivo Mary)
Nenê Chiéus (Arquivo JRS)


                Quem passa às margens da BR 101 (Rodovia Rio- Santos), nas cercanias da ponte sobre o rio Tavares, avista casas e pontos comerciais que ladeiam a estrada. Só isso! Não consegue imaginar que, até a década de 1970, era um imenso canavial que ocupava aquela área. Tudo aquilo, que hoje é Jardim Carolina e região, era a Fazenda Velha, dos irmãos Chiéus. Em 2013, tive a oportunidade de conversar com o saudoso Nenê, o último deles, cujo ritual era se deslocar todos os dias do coração da cidade para passar horas no local da antiga sede da cachaça Ubatubana, na estrada para o Monte Valério. Já escrevi a esse respeito, mas sempre escapa algum detalhe da prosa que depois aparece. Naquele agradável dia, após saborear um vinho na pequena casa mantida para esse ritual diário, o Nenê falou muitas coisas, contou muitas histórias. Afinal, desde a década de 1940 eles produziram a famosa pinga. Por ter feito muitas caçadas, imaginei que ele teria alguma história de assombração. Então, cutuquei o homem.

                “Eu vou contar a verdade: não acredito em assombração. Acho que tudo é coisa das cabeças das pessoas. Ali em frente, no Morro da Berta, o pessoal costumava dizer que sempre via e sentia coisas estranhas. De tanto escutar essas coisas, a gente parece até ficar impressionado, querendo evitar passar por esses lugares que têm tantas histórias. Mas comigo aconteceu também. Foi assim: num mês de agosto ou setembro, subi no serão com o Alcides Nunes para caçar;a gente tinha uma seva boa, que não era tão longe. O plano era estar de volta antes do amanhecer. No dia seguinte seria domingo e teria uma festa na cidade porque um deputado estaria visitando seus puxa-sacos. Nem eu e nem o Alcides se importava com isso. Ficamos na espera, no juréu, até depois da meia-noite sem dar um tiro. De repente vem a bulha, parecia um vento quebrando árvores. Mas não era porque nada se balançava por ali. Junto vinha um ronco forte que a gente nunca tinha ouvido igual. De vez em quando assobiava um fiiiiiuuuuuuu cortante e prolongado, mais apavorante que piado de mãe-da-lua. Não chegava embaixo de nós, parecia circular o lugar onde estávamos, num grande jacatirão. Ficamos parados, sem atirar em nada porque nada se via. Ficou quase vinte minutos nisso, rodeando só num sentido. Era barulhento aquilo; não se afastou. Apenas parou de repente, voltando tudo ao normal na mata escura. Tudo era paz. Esperamos, esperamos... Nada de aparecer mais nada. Quase uma hora depois, avistando as Três Marias bem em cima de nós, resolvemos descer. Fomos devagar imaginando que o bicho estivesse por ali. Nada! Mas uma coisa pudemos confirmar: era coisa grande e forte. Um círculo perfeito estava feito em torno da árvore onde estávamos. Era como um carreiro largo, quase uma trilha bem usada. Não conversamos nada até chegar no Morro da Berta. Os dois estavam nervosos porque, certamente, era coisa medonha. Perto da Bica da Onça, novamente o mesmo barulho aparece. Aí eu me arrepiei todo. Aquilo parecia correr rente da estrada, nos acompanhava. Veio vindo assim até a Lagoa dos Patos, onde morava o Zabeu. Eu até falei em parar ali para esperar o dia amanhecer, mas o Alcides tinha outra opinião. Continuamos andando em silêncio. Só no meio do canavial nosso é que voltamos a conversar normalmente. Foi a única vez que vi coisa estranha no mato. Depois dessa, só voltei a caçar mais uma vez, mas não naquele lugar. Então, ali, depois do Vicentão, já chegando no Sertão das Cotias, passou a ser o Rodeado. Quem duvidava da nossa história ia até lá pra ver”.

domingo, 1 de dezembro de 2019

MORCEGOS DAS LAPAS, VALEI-NOS

Descanso (Arquivo JRS)
Balaios (Arquivo JRS)



              Era tarde, tardinha, quase serão, quando o tio Dito me convidou: 

          - Vamos até o fim do loteamento, onde foram construídos os chalés. Já estão funcionando. 

           - E o esgoto, como resolveram?

           - É isso que eu quero que você veja.

         De longe eu avistei, onde começava a nossa vargem, uma espécie de tanque, bem grande, onde revoavam morcegos. 

               - O que é aquilo?

        - É pra onde segue o esgoto dos sobrados, dos chalés. Naquele tipo de tanque enorme, toda tarde ajunta um monte de morcegos. Eles vêm para se alimentar dos pernilongos dali que voam. Imagine só a quantidade de mosquitos que se gera ali. Ainda bem que os morcegos deixam as lapas e rumam para aquele lugar!

            - Mas será que eles dão conta de tudo? 

        - Creio que não, mas já abranda. Imagine só se eles não viessem!

           - E dali o esgoto segue para onde?

          - Ganha a vala, vai pro rio do Boi, se espalha pela vargem toda. É por isso que já não há lambaris, nem bagres, nem mussuns, nem sururus, nem cágados e nenhum dos outros seres que dependiam da água limpa. Faz tempo que eu não encontro  nenhum deles por aqui.

          - E depois?

          - Depois o quê?

          - O esgoto se finda na vargem?

           - Lógico que não! Depois, correndo até onde era a casa do João Firmino, essa porcariada se encontra com o rio do Sertão e vai para o mar.

        - Então é por isso que nem sapinhauá se encontra mais na praia da Maranduba!

           - É! E o que fazer?

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A CRUZ... A LENDA

A Cruz de Ferro (Arquivo JRS)


               Meu tio Salvador sempre gostou de cantar umas músicas singulares, dessas que raramente escutamos por aí. Ele tem prazer em continuar repassando aquelas músicas que contém letras interessantes, que falam de fatos históricos e de causos da nossa gente. Foi por uma cantoria dele que eu me interessei pela Cruz de Ferro, na subida da serra, em Ubatuba. Hoje dizem que é lenda. 
               
        O caminho, por onde passava gente e tropas, hoje virou a rodovia denominada  Oswaldo Cruz. Por ela passam carros dia e noite. Oito quilômetros dela é serra íngreme. Pela metade desta distância está a Cruz de Ferro, venerada desde o tempo dos tropeiros. Em sua base está uma história de vingança. Foi o lugar em que o cruel Basílio assassinara Juca, o tropeiro.

               Tudo começou longe dali, no município de Cunha, quando Basílio, também tropeiro, iludiu e levou embora a esposa de Juca, a Maria, deixando em casa apenas o pequeno Gregório, o Gorinho ainda bebê. O honesto  tropeiro caiu na tristeza, mas não se omitiu na tarefa de pai. Para a criança, a sua mãe tinha morrido. Cresceu acreditando nisso. Porém, Basílio de vez em quando aparecia para lhe fazer desfeita, causando muita vergonha a Juca. Na verdade, a intenção dele era matar o homem, o primeiro amor da sua companheira. Foi por isso que, mesmo não largando a vida de tropeiro, Juca se mudou com o menino para Ubatuba, perto do mar. Ele continuava sempre triste, mas o menino logo se adaptou à cidade e ao mar. De caipira virou caiçara. Só não era pescador. Era tropeiro como o pai.
               Numa das viagens, subindo com uma tropa de tecidos para São Luiz do Paraitinga, bem no meio do caminho, na serra encharcada pela chuva da véspera, um homem descarregou em Juca a sua garrucha, ferindo o mortalmente e fugindo. Era Basílio. O coitado do Juca, percebendo a morte certa, contou ao rapaz, o seu filho tão amado, a sua história, a história deles, pedindo que um dia o vingasse. E ali expirou. Uma cruz de cabreúva marcou por muito tempo o local. Diz a história que após quinze anos, Gorinho esperou na mesma subida e acertou as contas com o assassino de seu pai. Uma punhalada bem dada deu fim ao bandido, ao destruidor de uma família honesta. O corpo ficou largado para que os animais dessem um fim. O rapaz apenas tirou a camisa ensanguentada e levou até a cruz, agora de ferro, que substituíra a de cabreúva. “ Meu pai, o senhor está vingado”. E colocou na cruz a camisa do maldito. E, enquanto viveu, uma vez por semana Gorinho subia a serra para acender velas e rezar ao pé da cruz. O milagre, diz a história, é que do nada surgiu uma roseira vermelha que sempre viveu abraçada à cruz após a morte de Gorinho. Eis a Lenda da Cruz de Ferro. E até hoje pessoas devotas param ali para suas orações.

sábado, 2 de junho de 2018

VENTO SALGADO

Canoa grande da praia Mansa (Arquivo Rê)


               Olhando a fotografia, parece que foi ontem a minha despedida da praia Mansa, na Ilhabela, onde uma comunidade caiçara me acolheu tão bem, com tanto carinho. Numa ocasião anterior, foi a mesma coisa com um grupo de jovens, estudantes que me acompanhavam, todos da escola “Aurelina”, no bairro da Estufa, em Ubatuba. Por alguns dias, puderam ouvir e conviver com pessoas que viviam bem distantes de tudo (das facilidades do progresso), cultivando banana, mandioca, batata doce, cana, feijão e milho;  dependendo do mar em muitas coisas; festando sempre que uma oportunidade aparecia. Ali, fazendo parte de quase tudo, estava o amigo Pedro, o professor, cidadão de São Luiz do Paraitinga que se acaiçarou há muito tempo. 
Praia Mansa  e escola(Arquivo Rê)

         Na escolinha, no jundu, ficamos protegidos e alimentados por alguns dias. Assim que a noite chegava, conversávamos a respeito de tudo, sobretudo daquilo que estávamos vivendo. Conforme fala recente do Cláudio do Juquinha, um daqueles jovens da citada experiência: “Não tem como a gente se esquecer dos dias que ali vivemos. Devemos muito a você pela oportunidade”. É, já está completando vinte e cinco anos. Saudações a todo mundo que encarou o desafio, que enfrentou frio e chuva, que tomou banho na cachoeira gelada, que deu gostosas risadas, foi solidário e sentiu o que é solidariedade. Abraço forte a vocês!

               Na fotografia acima está o momento em que embarquei de volta,  na ocasião seguinte, deixando por lá pessoas muito estimadas. “Vamos, Zé. Vamos no rumo do porto da Ilha. Você vai gostar de sentir o vento salgado”.  Creio que foi a única vez que deixei de enfrentar a trilha dos Castelhanos, de sete horas bem caminhada, até o porto principal de embarque e desembarque da Ilhabela. 
Ponta da Cabeçuda. Lá em cima a Pedra Cortada (Arquivo Rê)

       Na embarcação, fui escutando, entre berros (porque o motor era muito barulhento), detalhes dos lugares (praias, costeiras, lajes etc.) e de causos da Ilha: “Aquela é a Ponta da Cabeçuda. Dizia o meu finado pai que, bem antigamente, um velho morava ali. Ninguém sabia de onde veio porque ele não falava. Diziam que se tratava de um sobrevivente de um navio que afundou perto da costeira, por ali mesmo. O coitado passava a maior parte do tempo olhando o mar, como se esperasse a chegada de alguém, possivelmente de algum lugar do estrangeiro. Nunca pareceu ninguém para lhe dar essa alegria. Até que num belo dia, o avistaram sem vida na Pedra Cortada. Ali mesmo, na cepa do coqueiro indaiá, ele foi sepultado. Seus ossos devem estar lá até hoje. De vez em quando alguém diz que avista um vulto olhando o mar no mesmo lugar onde ele morreu, na Pedra Cortada”.

               O ano em que escutei a história? 1993.

sábado, 29 de julho de 2017

A MULHER FANTASMA

         
A casa vai se ruindo (Arquivo JRS)
Olha as marditas aí, gente! (Arquivo JRS)

         A minha amiga Néia, caiçara do pé rachado, mora no mato, no caminho para a cachoeira. Defronte à sua casa tem um terreno grande, uma grande chácara, "quase uma fazenda". Um casal morava lá até pouco tempo, coisa de cinco anos atrás. Eram os caseiros, tomavam conta da propriedade. O dono ninguém conhece. Eram felizes ali, sempre cuidando da plantação e zelando pela limpeza do terreiro. Não tinham filhos. Com o passar do tempo alguma coisa aconteceu entre eles, a mulher começou a beber muito. O marido foi se entristecendo com aquela situação, pois a mulher depois de bêbada enchia a saco de todo mundo, ficava na porta do bar até fechar. Diziam que até batia no companheiro. Ninguém entendia porque ela foi se acabar assim.  "Uma tristeza que dava dó".
         Num dia chuvoso novamente ela encheu a cara até cair. "Tomou o rumo da casa em pandarecos", de acordo com a Néia. "Foi a mardita, né Zé?". A casa deles, feita de pau a pique, era no alto. "Um morrote antes da tiguera". Era uma subida ruim. "Em tempo chuvoso ficava tão liso quanto gudião da costeira". Ela foi subindo, escorregando, subindo, escorregando... de repente escorregou feio e bateu a cabeça numa pedra da beira do caminho. Morreu na hora. Do marido ninguém sabe contar nada. "Não era gente daqui". De lá para cá ninguém mora na casa. Na verdade, ninguém nem passa por aquele caminho. Muitos já viram, na pedra do acidente fatal, um fantasma. Dizem que todas as noites, naquele horário do acidente, a alma dela está por ali. É por isso ninguém mais entrou naquele terreno. Eu resolvi entrar lá por estes dias. Por um tempo fiquei na cozinha e imaginei os muitos momentos do casal ali.  Vi as marcas dos pobres que vão se esvaindo no tempo. Tudo vai se arruinando. É a vida, né?

terça-feira, 13 de junho de 2017

A LENDA DA GRUTA DO CURUÇÁ

"Entre o caminho e a prainha fica a Gruta do Curuçá"


O amigo Júlio me enviou a Lenda da Gruta do Curuçá, mas não consegui baixar a foto ilustrativa. Por isso, provisoriamente, vamos aproveitar a imagem de outra ocasião. No ponto I está o Buraco da Dita, no II a Toca de Jagoanharo.
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Mesmo que proibido, devido às crenças e superstições em torno daquele morro e que ali vivia o Boitatá , o menino tocador de flauta e outros curumins, depois de atravessarem a perigosa foz de Yperoig , chegaram à pequena e encantadora prainha do Curuçá . Entre brincadeiras de praia e de mar, Jagoanharo , o menino da flauta, observou um contínuo movimento de árvores e arbustos em certa parte da mata e que dali saia também um som suave. Curioso, convidou seus amigos para ver o que seria aquilo, mas com medo, ninguém o acompanhou. 
Jagoanharo era destemido, entrou na mata e descobriu uma gruta, de onde vinha o vento e o som. Apenas com sua inseparável flauta, dirigiu-se ao interior da caverna guiado por uma fosca luz que vinha de dentro; andou mais de duzentos passos e descobriu que o clarão vinha de cima, por uma brecha larga pela qual se enxergava o topo do morro; o túnel continuava, agora estreito, reluzente e “calçado” com pedras preciosas. Não arriscou em prosseguir, pegou sua flauta e pôs-se a tocar; a acústica maravilhosa fez o som ecoar por todas as brechas do morro, até a aldeia distante ouviu a música do menino. Voltou à praia onde seus amigos já não mais estavam. Andando pela costeira voltou à aldeia, onde seu pai, o índio Coaquira , o esperava com um cipó de timbopeva nas mãos..., mas não contou a ninguém a sua descoberta.
Ao amanhecer de certo dia, tocando sua flauta na praia de Yperoig, o menino pela primeira vez viu a “serpente” de fogo que saiu voando do alto do Curuçá, sumindo no horizonte. Intrigado com tal visão lembrou-se das pequenas chamas que avistara no interior da caverna: -Talvez sejam aquelas pequenas luzes, que juntas, esvoaçaram pela abertura no alto do morro? Pensou o pequeno curumim.
Aproveitou que a aldeia ainda dormia e da pequena canoa despojada na praia, em sua curiosidade e coragem remou até a prainha e mais uma vez entrou na gruta. Daquele ponto onde avistava cintilações de chamas, seguiu engatinhando o estreito túnel, até chegar a um lugar mais confortável, na qual pode ficar de pé; ali descobriu uma carcaça, esqueleto gigante de um animal que nunca tinha visto (provavelmente um Gliptodonte ). Mesmo amedrontado prosseguiu e, a menos de cem passadas sentiu uma corrente de ar mais fresco, o que fez continuar e tão logo se deparar com a “saída” do túnel , uma caverna mais ampla, que despojava a sua frente um exuberante manguezal. Percebeu então que o túnel atravessava todo o morro do Curuçá, pois dali conseguia avistar o majestoso Votuporanga (hoje chamado de Pico do Corcovado).
Diante de intensa mata e imenso manguezal, decidiu voltar; encheu o ajó da flauta com pedras preciosas e iniciou a volta.....
Na aldeia todos se assustaram, viram e ouviram a fúria do Boitatá; a “serpente” de fogo, desta vez chegou a incendiar o topo do Curuçá e, do curumim Jagoanharo, nunca mais se teve notícias, só se ouvia o som de sua flauta.
Talvez, por ser “de cascalho”, o estrondo abalou as estruturas do morro e ocorreu um deslizamento interno, prendendo o menino lá dentro da caverna.
Bem mais tarde, com a chegada dos portugueses e com a presença dos jesuítas José de Anchieta e Manoel da Nóbrega na aldeia de Yperoig, os catequistas também observaram o Boitatá e constantemente o som de uma flauta que vinha do Curuçá; sabendo do fato ocorrido com o pequeno índio e aproveitando o momento festivo da “Paz de Iperoig”, cravaram no alto do morro do Curuçá, uma CRUZ, que teve duas finalidade: firmar o catolicismo na terra Tupinambá e acalmar a “alma da onça”. 
A flauta silenciou, mas depois de algum tempo, voltou a ser ouvida... até hoje.
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Até então, Curuçá, pela característica geológica do local, significava lugar de abundante cascalho, seixo; após o som da flauta e do cruzeiro, Curuçá aderiu também o significado de: “lugar de muita música” e lugar da “Cruz Grande”. Ybyty Curuçá = Morro de cascado - Morro da música - Morro da cruz; hoje, Morro do Curuçá com a Gruta do Curuçá.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

ESTAMOS VIVOS!

Roteiro turístico 1951 (Arquivo JRS)

Boi em exposição na Fundart (Arquivo JRS)
   
                        Não tem como deixar de lado uma história que sempre está vindo à tona, como esta do Boi de Conchas! 

               Como é importante cada elaboração cultural! Imagine a sabedoria dos povos maias, na América Central, ser tão respeitada mesmo depois de tantos séculos da dominação dos povos europeus, das culturas de massas que dominam a mídia! Hoje estamos, de acordo com os conhecimentos dessa cultura indígena, iniciando um novo ciclo.
               É meu desejo que repensemos, neste novo ciclo, todo os nossos hábitos, sobretudo aqueles que são destrutivos em qualquer aspecto da vida. As culturas estão aí para nos ajudar. Cada lenda, cada causo, “cada palha de trança tem uma função”, conforme dizia a vovó Eugênia a fim de que caprichássemos nas escolhidas, esticadas, apertos e dobraduras. Então, já que o mundo continua, vamos nos apoiar no Júlio Mendes para avançar em...

               A lenda do  Boi de Conchas (II)

               Alguns adolescentes, numa manhã radiante, rente aos barcos no Saco da Ribeira, passaram a especular sobre a lenda do Boi de Conchas. O assunto surgiu porque, na rede social, alguém postou vagamente a respeito de cultura popular, de saci e de causos. A história do boi do Cipriano também apareceu, mas muito vagamente.  Eu, na convivência com o Júlio, depois de escutar suas músicas e as manifestações em tantas ocasiões, assim resumi aos alunos:
               A lenda do Boi de Conchas vem do boi do Cipriano, gente de ”Serra Acima”, de lugar que já pertence ao Vale do Paraíba.
 Depois de receber o nome de Ratambufe, lá no Bairro Alto, um lugar entre a Fazenda Santa Virgínia e Catuçaba,  de onde veio há muito tempo o “Seo Lica” e tantos outros que ajudaram a fazer a cidade de Ubatuba,  o animal começou a escutar as promessas de que um dia veria o mar.
               Ratambufe foi criando imagens fantásticas do mar e de seus seres, desde as conchas até as belas sereias com seus cantos. Vivia sonhando com o dia em que tudo aquilo se realizaria. Porém, tudo era “conversa pra boi dormir”. Afinal, o tropeiro Cipriano era comerciante e esperava lucrar bem com a beleza e o porte de muitas arrobas do Ratambufe. Por isso que, após o ocorrido, ele se arrependeu muito em ter trazido o boi da “Serra Acima”, do seu lugar. Custou muito tempo para aceitar que a sua mensagem, que as suas promessas foram as responsáveis pelo desastre com o animal. Sorte nossa!
               - Sorte nossa? Como assim? Vários dos presentes exigiram explicações.
               Digo que, com o acontecido, nós ganhamos mais uma contribuição para a nossa cultura. O que se conta hoje é que o boi, a partir de certo ponto, descendo pela rua principal da cidade, não obedecia mais aos comandos de seu dono. Tudo que parecia atraí-lo era o mar, o barulho de suas marolas e o seu cheiro. Chegando à Praia do Cruzeiro, estacou na areia grossa, como se tivesse hipnotizado. O seu dono berrava, querendo conduzi-lo ao  matadouro, mas de nada adiantava. Por quanto tempo ele ansiava por isso?!
               Muitos dizem que se ouvia uma espécie de canto de sereia atraindo o animal mar adentro. E assim se deu: Ratambufe, com a mesma tranquilidade de uma rês que  vai para o pasto, foi se enfiando nas águas claras daquele dia de outono. O mar, prazerosamente, o engoliu. “Não se sabe se morreu ou se nasceu”, dizia o vô Lindolfo, o seresteiro. Dele ninguém achou parte alguma.
               Foi o Zé Capão e o próprio vô Lindolfo os primeiros a darem prosseguimento no causo, na lenda do Boi de Conchas. Testemunharam, num fim de tarde, num serão,  a saída do animal do mar, no mesmo ponto por onde adentrou no território oceânico. Vinha coberto de conchas, todo radiante, ladeado por seres marinhos, sobretudo por cavalos marinhos. Uma melodia inigualável envolveu tudo enquanto ele permaneceu na linha do lagamar, inspirando os seresteiros daquele tempo (da primeira metade do século XX). Depois, na mesma tranquilidade, retornou com seu séquito ao Reino de Iemanjá, onde São Pedro provê o necessário aos pescadores.

 Ao afundar no belo mar, Ratambufe plantou o espanto, a admiração, as crenças e descrenças. Ainda resta hoje, cada vez mais forte,  um boi encantado pelo mar como fonte de inspiração aos nossos cantadores e contadores da cultura caiçara.

sábado, 30 de maio de 2015

FARINHA DA TERRA

Pescador atravessando ao largo. (Arquivo histórico)

Praia Mansa.  (Arquivo JRS)

               Numa dessas tarde, meio que apressado, ia eu pedalando em direção à praia quando avistei alguém que me despertou a atenção. Reconheci logo um velho caiçara que há tempos não encontrava para uma prosa. Avistei o João!
               Esse João é o João Quintino, primo do Aristeu, natural da Praia da Lagoa. Não conheci o seu pai, mas a mãe, a Dona Paulina, eu tive o prazer de conviver quando se mudou para a Praia da Ponta Aguda, juntamente com os filhos Zeca e Acácio. A boa velhinha aparecia sempre nos serões que a gente promovia debaixo da jabuticabeira, no terreiro da Dona Filhinha.
               O João, depois de velho, ficou melhor de prosa. Já faz tempo que trocou a Ponta Aguda pelo Massaguaçu. Agora não pesca mais e não caça, mas adora falar dessas atividades que por tanto tempo manteve. “No largo, no canal da ilha, puxei muitas caçoas. Quando queria pescar garoupa, era só ter uma embetara apodrecendo ou um peixe galo e ir na costeira. Não falhava. Sargo, pirajica e  robalinho eu pescava no parcel da Ponta Aguda e na Praia Mansa”.
               Curioso mesmo é escutar o João narrando suas caçadas. É o único caiçara que conseguiu se alvejar duas vezes: a primeira, espreitando paca, se atrapalhou num cipó e o tiro estragou o joelho. “Quem me socorreu foi o Aristeu. Ele tinha uma brasília branca. Me carregou do mato e me levou até o hospital das irmãs, em Caraguá. De lá me transferiram para São José dos Campos, onde fiquei internado quase três meses”. Na segunda vez, o nosso personagem perseguia uns porcos do mato. “O dia estava chuvoso. Eu escorreguei e o tiro saiu atravessando a barriga da perna. Só que dessa vez eu tive sorte porque não afetou o osso, nem músculo. Até hoje ainda tenho chumbo na carne”.
                - O que você está fazendo hoje em Ubatuba, João?
               - Eu só vim comprar um quilo de farinha da terra para dar de presente à mulher de um grande amigo meu. Ela é muito boazinha, sabe? Agora vou indo até o ponto para pegar o ônibus de volta para Caraguá.
               E lá se foi o João. Quanto esforço pela farinha da terra para a mulher boazinha!

[Em tempo: 1- farinha da terra é farinha de mandioca feita pelos caiçaras. Hoje predomina a produção do Sertão do Ubatumirim.     2- Caraguatatuba dista cinquenta quilômetros de Ubatuba].

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ZÉ BRÁZ E O FIM DO MUNDO


Arte Nossa (Arquivo JRS)
                  Em março de 2011, dei a conhecer esta contribuição de duas mulheres  caiçaras maravilhosas: Nilséa e Dona Santa. Agora, homenageando essas saudosas companheiras de outros tempos, vale a pena recordar.         
                   No ano de 2005, recordando-me de algumas  histórias  contadas  por dona Francisca "Santa",  da  praia  do  Perequê-mirim, senti  vontade  de   escutá-las   novamente. Telefonei para a sua filha Nilséa e marcamos um encontro. Foi   um   dia  maravilhoso! Saí encharcado pelo banho de cultura que as duas esbanjaram!
            Apresento, hoje, de forma resumida, a façanha do Zé Bráz. Desta família tradicional do lugar eu somente conheci o João Bráz. Os seus descendentes são poucos, e, por enquanto, não mostram interesse pela memória interessante de seus antepassados. Eis o causo:
            Há cem anos, mais ou menos, na praia do Perequê-mirim, morava um solteirão por nome de Zé Bráz. Muitos diziam que ele era meio tonto, desequilibrado, mas não é isso que se conclui depois de analisar os seus muitos feitos. É o contrário!  Ele era muito astucioso, capaz de elaborar os melhores planos com a intenção de pregar boas peças nas pessoas. Era um verdadeiro maroto!
            A história do fim do mundo é a sua mais famosa elaboração. Veja a engenhosidade dele: primeiramente divulgou uma história. Anunciava a todos que “no dia 25 de março o mundo vai acabar. Todos devem se preparar para perceber o principal sinal em cima do mar, pois ele vai pegar fogo e vai ser o fim de tudo”.
            Quando se aproximava a dita data, Zé Bráz preparou uma balsa com talos de bananeira e colheu muito capim seco. Depois, já no referido dia, com sua canoa rebocou pacientemente (bem escondido de todos!) aquela jangada até a costeira da ponta da praia da Santa Rita. Bem para lá da Pedra do Sino, num ponto bem distante da praia, de onde os moradores dos vários pontos e praias tinham uma boa visão.
             Naquele tempo as pessoas cumpriam um ritual no serão, ou seja, na chegada da noite todos iam até o porto (chegada dos caminhos no jundu) mais próximo para dar uma última olhada no mar. Até proseavam um pouco antes de se retirarem para o repouso da noite. Sabendo disso desde que arquitetou a ideia (que as pessoas estavam no lagamar admirando o crepúsculo), o astucioso acendeu a tal balsa. Aí, as pessoas, muitas delas já apreensivas e angustiadas por causa da história que era de domínio de todos, reconheceram o tão profetizado sinal: o incêndio no mar.
            Foi um desespero só! Gritavam, choravam, chamavam os filhos para ficarem juntos até o momento da morte.   É preciso lembrar que as pessoas eram simples e respiravam numa atmosfera de temor religioso? Isso bastou para tornar a armação bem verídica!
            A sorte foi que alguém percebeu a canoa do Zé Bráz nas proximidades do mar em fogo e matou a charada. Logo tudo voltou ao normal. E assim uma brincadeira tão distante de nós passa um pouco do ser caiçara: engenhoso, religioso, irreverente, contemplativo e astucioso.
Eis um comentário do querido amigo Diego:
Nossa! Fico emocionado ao ouvir e ler História da nossa terra,das nossas origens esquecida,que precisam ser resgatada. Lembro-me da saudosa "Dona Francisca",quantas histórias de Ubatuba,que Deus a tenha..Lembro muito das tardes de tantas histórias que jamais irei esquecer....

sexta-feira, 10 de abril de 2015

UM CAUSO DO EUGÊNIO - PARTE II

               


              Eugênio Inocêncio era negro dos olhos verdes. Viveu quase toda a vida nas ilhas. Era um caiçara-ilhéu.
                A partir daquela exclamação (“Como eu gostava daqueles grandalhões esbranquiçados!”), no jundu da Praia do Perequê-mirim, continuou o saudoso primo Eugênio:

                “Foi com um daqueles peixes-luas que aconteceu o fato que até hoje mais me impressionou. Era na metade da tarde, já perto do serão, quando eu jogava uma linhada na Pedra da Moreia. Três ou quatro salemas já estavam no balaio, mas eu insistia com isca de bonito moído na esperança de uma garoupa para a janta. Esperando bem paciente, notei que boiava um peixe grande. Vinha do fundão. Era peixe-lua. Parecia desassossegado, fora do normal. De repente vem mais coisa dos lugares remotos, das profundezas: eram lulas gigantes. Nem deu tempo de contar quantas eram porque num instante a água empretejou pela tinta que soltavam.
                Não sei dizer quando media ou pesava cada uma daquelas lulas, mas eram medonhas e estavam ali com a intenção de dar um fim no peixe-lua. Ele se desesperou em vão, pois eram muitos tentáculos que o abraçavam. Num instante o coitado parecia uma grande bola de fio grosso. E assim foi puxado para o fundo, naquela água enturvada. Eu só consegui  fazer uma coisa: rezar para nunca mais ver coisa assim.  Quando contei em casa, o meu pai apenas disse que não era a primeira vez que isso acontecia por ali. É, Zezinho, o mar manso é só ilusão. Cruz-credo!”.
               
            Agora, eu aqui no jundu da Praia da Cocanha... O Eugênio é parte de um antigo instante. E o mar bravio? Está reboante!