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| Calçada de pedras - Arquivo JRS |
Eu, à deriva na cidade, passei a reparar onde estava pisando: tinha espaços esburacados, com mato; outros receberam bom acabamento para pedestres andarem sem medo; havia também aqueles obstruídos por lixeiras, materiais de construção etc. Assim, sem zelar pelo bem das nossas vias, é a quase totalidade dos gestores públicos mantidos por nossos impostos. Porém, me detive num trecho ímpar, num pavimento de enormes pedras, do tempo antigo mesmo! Pensei: "Trabalho de escravos, de gente sofredora". Fotografei e segui adiante. No outro dia, refletindo a partir da imagem, pensei naquela moça de outro tempo, mais de trinta anos passados, quando a levei para conhecer uma comunidade caiçara. Foram dias maravilhosos convivendo entre minha gente. Ela, encantada por tudo (acolhimento, alimentação, natureza preservada, prosas, danças etc.), quis voltar outras vezes. "Esta cultura, esta forma de viver não pode desaparecer nunca, Zé!".
Outro caso, de um tempo mais distante ainda (da minha infância na praia do Perequê-mirim), me conduziu à convivência de férias, quando alguns meninos ricos corriam morros e brincavam conosco. Para eles era um "banho de comunidade". Um deles me marcou ao expressar isto: "Ninguém tem o direito de se apossar dessas paisagens, desses espaços maravilhosos, desses caminhos cheio de histórias. Esse seu pessoal é tudo de bom, Zé!".
Depois de anos sei dizer algumas coisas desses dois personagens: ela se tornou professora e ele é herdeiro, possui uma mansão no morro da Santa Rita, avista todo o mar. Os dois estão no lado político oposto ao meu, defendem o fim dos programas sociais, das medidas que abrandam os sofrimentos do meu povo. Ele é industrial, rico. Ela é professora, pobre!
Olho a calçada, vejo vidas.

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