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terça-feira, 13 de outubro de 2020

VAMOS DE SIRI PATOLA?

Rabeca do tio Dário (Arquivo JRS)

       Desde 2017 o meu filho Estevan é o guardião da rabeca do saudoso tio Dário Barreto.  Ela e ele andam por aí, nos fandangos da vida. Muita honra nos deram os primos Elias, Ditinho e Toninho nesse presente inigualável, que faz parte de mim desde criança. "Nossa! A rabeca do tio Dário!". A música segue seu caminho; a alegria está com eles: os festivos caiçaras. A poesia vem na onda da memória, quando a casa mais próxima da nossa era a do titio, onde eu passeava e ouvia os acordes na acolhedora sala daquele lar, naquele morro de paz.


Toninho bodocava por ali,

Vivia passarinhando sempre que podia.

Pegava a viola num instante.

Elias se abraçava com o cavaquinho

E tirava seus chorinhos.

Ditinho tinha um violão.

Tia Maria e tio Dário regiam tudo.

"Vamos de Siri patola?"

E daí logo emendava no Patieiro,

Na Flor do abacateiro 

E outras tantas músicas nascidas não sei de onde.


E por fim, depois de corrida tantas,

Tio Dário só.

O arco da rabeca ia e vinha,

Um som choroso se alastrava,

Tomava toda a casa,

Seguia porta afora.

Os filhos e eu fechávamos os olhos.

Enquanto isso,

Na voz da tia Maria,

As rezas ganhavam corpo,

Iam fechando tudo.


Lá fora... a noite chegando.


Um grito ao longe:

Mamãe me chamando.
 


 

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

EXISTÊNCIA NA FOTOGRAFIA

A casinha (Arquivo JRS)


Na beira do caminho,

Sempre a nos olhar,

Estava aquela casinha.


Era da Rosa?

Era da Maria?

Era da Cidinha.


Um dia, 

Pela pobreza dela,

Alguém por  pouco dinheiro a tinha.


De uma posse enorme,

Da sua pobre moradia,

Foi-se a amiga minha.


Hoje, nos morros de lá,

Há apenas pasto

E só o gado caminha. 


Aos poucos a casa morre;

Ninguém lhe dá vida.

Só resta a fotografia - Que sina!


sábado, 3 de outubro de 2020

O MENINO DA ENSEADA

 

Logo cedo, na praia (Arquivo JRS)

        Não faz tanto tempo assim que mais um dos antigos faleceu. Belinho nos deixou quase alcançando um século de vida caiçara. Lá se foi mais um menino da Enseada de outros tempos. O que eu posso fazer? Escrever partes das suas prosas!

    Belinho, da família Rocha era bom de prosa. Seus causos sempre me davam com muita satisfação. Por isso era comum, mesmo se estivesse com certa pressa, eu parar ao seu lado, sentar defronte a sua casa, na Rua Gastão Madeira, e ficar escutando suas narrativas.

    "Me chamam de Belinho desde menino, quando vivia na praia da Enseada. Bons tempos! Peixe era em fartura; cada puxada de rede na praia era uma montoeira de todo tipo de peixe, arraia, tartaruga... E no tempo de tainha então!?! O Macié, que negociava de tudo, pagava muitas pessoas para consertá peixe. Era na barra, perto da subida do morro dele, que alguns passavam o dia naquele trabalho. Era um trabalhão! Depois de alanhado e salgado, era tudo estendido no jirau para apanhar sol. Depois de seco, o barco que fazia viagem pra Santos comprava tudo para revender por aí afora, em outras cidades. A gente, criança ainda, vivia se tecendo, fazendo um trabalhinho aqui, outro ali. Sempre tinha alguém que pedia uma ajuda da gente. Em volta das casas, subindo morro acima, ficavam as roças. Mandioca e banana não podia deixar de ter. Cafeeiro era pouco, só para o gasto mesmo. Cana todo mundo usava para adoçar o café de cada dia porque açúcar era custoso. Depois viemos de mudança para a cidade. Logo fui contratado pela prefeitura, fazendo serviços por aí tudo. A cidade foi crescendo, ganhou campo de aviação; obras foram surgindo por todo quanto é canto. O comércio também cresceu porque a freguesia aumentou. Nem todos os comerciantes progrediram, mas a maioria se ajeitou de alguma maneira. E por falar nisso, agorinha mesmo passou um carro anunciando que é só até sábado uma tal de promoção naquela loja nova da Praça Nóbrega, onde antes tinha um chafariz bem grande, depois um relógio de Sol. Querem vender, né? Me faz lembrar de um reclame assim que vim para morar na cidade: 'Acudam ao armazém do Lindo Lipe porque chegou mercadoria nova!'. Eu, menino da Enseada, agora na cidade, também ficava curioso e passava por lá só para ver as novidades, as mercadorias novas. Ainda gosto das novidades! Por isso que eu gosto de me sentar neste lugar, ver o movimento de tanta gente passando, de carros...".

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

CONTEMPLAÇÃO

Beija-flor (Arquivo Anilsi)

Em dias de mentiras oficiais;

Chovendo ou não;

Com rumores ou silêncio:

Eu  busco oportunidade.


Olho pela vidraça,

Contemplo passarinho no ninho:

Coisa comum no mato,

Momento raro na cidade.


Um capricho natural,

Uma eternidade genética.

Desde sempre assim faz:

Técnica sem idade.


De repente, num voo veloz,

Foi-se a mãe de penas brilhantes.

À vista dois ovos acomodados:

Por um instante, numa brevidade.


Saiu a beijar flores,

Precisa se manter viva:

Tem compromisso com vidas;

Alerta a necessidade.


O retorno se dá num piscar de olhos:

Meu jardim é logo ali.

Acomoda-se em sua missão

Em beleza e felicidade.


Seres novos chegarão;

Há flores e seres esperando no tempo.

Eu, minha família, eles e as flores...Vidas.

Sigo espreitando, renascido na verdade.



sexta-feira, 18 de setembro de 2020

EM SERÃO

Cais de Ubatuba no serão (Arquivo JRS)

 


                  

Fim de tarde é serão;

Parei no Acari e Mariquinha.

Após prosa e café andei mais,

Fui me despedindo do dia.

Desde a Ubatubana tudo brilhava.

O Sol se pondo 

No cais muita gente se ajuntando.

Não há ninguém ao meu lado.


Depois do serão escurece logo.

Bebo água na bica; 

Piam curiabôs e grilos na grota.

Olho o balaio de peixes do Bié:

Sargo, garoupa e gudião.

À luz do Sol, todos dourados.

Contemplo aquilo tudo; 

Dali me vou no mar salgado.

sábado, 12 de setembro de 2020

CAPITÃO DE CANOA

 


 

Frente ao mar, no Masssaguaçu (Arquivo JRS)

          Aristeu, caiçara da Ilha do Tamanduá, tinha boa memória, gostava de prosas em rimas. Em qualquer ocasião puxava da oralidade e da tradição, quase sempre num ponteado de cavaquinho. Dele escutei a respeito de um velho capitão, vindo de outras terras.

 

Passou por aqui, meu amigo Zé,

Um velho capitão, desses do mar.

Como eu reconheci? Ele nos contou!

“Tenho mais dias de água salgada do que de vida”.

Logo debulhou todos os lugares,

E contou seus tantos amores.

Mas foi neste lugar que apoitou:

Ali no Morro da Tinticuia morreu.

Em lugar de quase água nenhuma,

O homem de tantas águas se findou;

Sem posse alguma além das histórias...

Ele saudades deixou.

 

Quando chegou trazia só um saco de lona,

Um pito no canto da boca

E o cachorro Tristão.

Achamos graça do jeito de falar:

Era estrangeiro de lugar estranho.

“Eu me criei em Granadinas, terra cercada de mar”.

Riscou no chão seu lugar: Canouan.

No sarro da nossa gente era:

O capitão que veio de Canoa.

Logo Capitão Canoeiro ficou.

Muita gente sabe das suas histórias

Desde cada serão que contou.



segunda-feira, 24 de agosto de 2020

OS DELICADOS FIOS DA VIDA

Gaivotas e urubus (Arquivo JRS)

As coisas são assim. O mundo é assim. A natureza é a prova mais evidente que tudo está numa interdependência, como um tecido: se puxar um fio, toda a trama está afetada. Entendemos melhor ao ler a poesia do mano Mingo.


É juntando os fios,
Cada qual com sua função,
Cada fio com sua cor,
Juntos por associação,
Que se constrói uma tapeçaria.
Se houver algum fio rompido,
a obra fica incompleta
e o tecido fica enfraquecido.
Assim é com a vida,
Cujos tecidos são os ecossistemas,
Cujos fios são os seres vivos,
Que convivem em equilíbrio,
Eu vivo, você vive e viva nós,
como acontece nos manguezais
Que só existe na foz
Onde o rio se encontra com o mar,
Onde muitos peixes e outros bichos
Vêm se reproduzir e se alimentar.
Ali a vida tem um equilíbrio tão delicado
Que se um louco cometer o pecado
De poluir, aterrar ou fazer o corte
Das águas, das margens, das plantas,
É uma sentença de morte
Para santos e pecadores,
Para peixes e pescadores.
Mas, por causa do ouro,
Os gananciosos não veem o tesouro
Que é a vida em abundância,
E destroem e matam
Por causa da ganância,
Como aconteceu de sul
Até ao centro de Ubatuba.
Por enquanto só escaparam da morte
os manguezais do norte.
Para eles destruir a Terra passou a ser um jogo,
Mas é um jogo terrível,
Do qual saímos todos perdedores,
Peixes e quelônios,
Caiçaras e loteadores,
Algas e corais...
Quem remendará a tapeçaria?
Quem salvará as plantas e os animais?
Quem deterá a extinção?
Eu, você... quem mais?

terça-feira, 18 de agosto de 2020

MODA DAQUI, CANTORIA DALI


    
Olha o bonito no muro! Salve o artista! (Arquivo JRS)
            Acordo cedo; desde a madrugada ouço os galos na vizinhança. Me levanto prestando atenção no quintal da minha casa, “um pedaço da Mata Atlântica”, conforme diz a mana Ana, pois aparecem muitos passarinhos. Nem todos se atrevem a cantar. Regular mesmo só a cantoria de sabiá-galinha (laranjeira). De vez em quando parece um trinca-ferro solitário no alto do ipê, um bonito (gaturamo verdadeiro) na jabuticabeira, um arcaide a brigar com a própria imagem no vidro e outros raros esporádicos visitantes. Rolinhas, sanhaços, beijas-flores, mariquitas e pardais fazem festa o tempo todo! Só que, ultimamente, tenho notado mais cantorias e mais espécies diferentes. Então passei a me perguntar o que pode estar acontecendo. Pensei na rotina de uns cinco meses para cá. Apenas duas coisas podem estar resultando nisso: tenho dado mais atenção ao comedouro deles, e, na varanda da cozinha, um aparelho de som está ligado bem discretamente a cada manhã com as músicas que eu gosto. Desconfio que é o que está estimulando a cantoria deles, a permanência por ali. Até o cachorro tem permanecido por perto, sem latido algum, como se estivesse gostando das melodias. Agora, por exemplo, cantam daqui, uma linda moda de viola (Vida no campo), os saudosos irmãos Pena Branca e Xavantinho:

O galo cantou, é de manhã
A barra do dia dourada vem surgindo
Clareou, a passarada acorda fazendo festa
E a natureza sorrindo

A vida no campo é fruta madura
Amizade é coisa pura, é mel no coração
Gado no curral, cuscuz com leite
Café com queijo, eu gosto de um requeijão
Vou lhe falar
Não troco essa vida por nada desse mundo
Não saio desse lugar

            E por aí vai a moda deles. Vale a pena ouvi-la inteira, apreciando a natureza que nos rodeia. Quando   termina a música, permaneço em silêncio. Estou encantado. A cinco metros, empoleirado num galho da laranjeira, um canário continua na cantoria dele.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

MÃES DA PESCARIA

Mamãe em Santos (Arquivo JRS)


Luzita e Gertrudes (Arquivo JRS)

O poeta do alto do morro do Cambury, Santiago Bernardes, na poesia abaixo, consegue dizer umas particularidades especiais das mulheres caiçaras, principalmente daquelas que viviam e ainda vivem no regime da pesca. Nós teríamos que passar muito tempo buscando as melhores palavras que ele apresenta em instantes de inspiração. Salve a arte que nos permite enfrentar as verdades! Grande Santiago!



Nas madrugadas de vento grande e de grandes ventos, 

as mulheres é que sabiam mais do mar do que os homens, 
menos apenas do que os peixes.


Elas sabiam costurar os caminhos na água para os barcos voltarem. 

Com palavras e silêncios, 
elas sabiam convencer as ondas a parar. 

Sabiam que as águas têm sede de almas às vezes e pelas almas dos 
filhos ofereciam as delas no lugar”. 

(O Livro do Mar – Santiago Bernardes)

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

POESIA NA PRAIA DA VILA

Traquete na Guaivira (Arte na telha - Arquivo JRS)

                      Quando criança, era comum escutar os mais velhos se referirem à cidade, ou melhor, à praia da cidade, como Praia da Vila. Depois eu aprendi que era Praia do Cruzeiro ou Yperoig. A Praia Grande, hoje a mais frequentada pelos turistas, era a Praia Grande da Vila, distinguindo assim da Praia Grande do Bonete.  Hoje me recordei disso, relendo Terra tamoia, da saudosa caiçara Idalina Graça. Então resolvi retransmitir um pouco mais dessa nossa gente de outros tempos.
                   
                  O dia amanheceu lindo. Alegremente arrumei um farto lanche e resolvi passar o dia fora. No portão, encontrei-me com um amigo que me perguntou rindo: "Vai viajar, Idalina?"
                     - Sim, ao país do sonho...
                     Ele parou, perguntando: "Você não quer me levar?"
           Sorri:   - Você nem saberia como desembarcar lá, materialista como é!
               Com um adeus amigável, separamo-nos. Ele para o trabalho, eu, para sonhar. Enfim, eis a praia branca e dourada por um sol de maio, que estende seus fúlgidos raios na relva verde e macia; o mar chorou melancólico sua eterna queixa, de encontro às rochas milenárias.
               Velas brancas [traquetes] tremulam sobre a superfície das águas; parecem bandos de gaivotas à procura de pouso seguro. Sobre minha cabeça, de um azul límpido e maravilhoso, o céu de Iperoig é um estandarte real. Em breve me encontro à porta da casinha, onde um pescador da Praia da Vila, como os antigos chamavam a nossa Iperoig, está sentado ao sol, consertando algumas redes. Ele canta em surdina uma terna canção.
               - "Aposto" digo sentando ao seu lado, que você não tinha esta no seu repertório caiçara.
                -  Ele riu com gosto, ao dizer me:   - Eu queria saber como a senhora adivinhou.
                  Correspondi sorrindo:   - Precisava que o conhecesse como o conheço.
                    Respeitoso, afastou-se e, fazendo um gesto amigável, respondeu:  - Sente-se aqui, e preste atenção à letra desta canção. Eu não sei porque, mas estava triste ontem. Então escrevi-a. Como a esquecer minha presença, cantou com sentimento, "O meu segredo":

                 Nas horas de desalento
                 que nem sei explicar,
                 Entendiado da vida,
                 procuro então disfarçar.
                 Sozinho no meu barquinho,
                 deslizo por sobre o mar.

                 Então, eu conto às vagas
                 as mágoas do coração.
                 Desabafo minhas queixas
                 Em uma terna canção.
                 Chego a trocar meu barco
                 pelo som de um violão.

                 Ligeiro salto na praia
                 e esqueço o meu tormento,
                 Vendo o mar de Iperoig
                 Desafiando o vento.
                 Eu canto melhor que ele,
                 em seu eterno lamento.

                 E a Lua, invejosa
                 desta louca serenata,
                 vem chegando de mansinho
                 em sua alvura de prata...
                 ...E o pobre pescador
                 sente uma angústia que mata.


           Como é bom ler! Melhor ainda é escrever os nossos sentimentos, as nossas visões dia após dia. No futuro alguém vai prestar atenção, recordar e aprender a partir daquilo que deixarmos registrados.


domingo, 19 de julho de 2020

PREFERÊNCIAS POÉTICAS



Minha querida Adriana Cabral (Arquivo JRS)
Rolinha na porta da sala (Arquivo JRS)



A poesia do mano Mingo me faz puxar por imagens. Algumas delas tão perto... outras lá longe. Então, conforme as preferências poéticas, vêm as preferências imagéticas.



Eu aprecio os poemas
com rumor de cachoeiras que cantam
que até as pedras mais ásperas
são suavizadas pela leveza das águas.

Eu gosto de poemas de cantigas de passarinhos
cantadas e aperfeiçoadas de geração em geração
nos galhos das fruteiras carregadas
e nem precisam ser poemas
com as palavras rimadas.

Eu prefiro os poemas que tresandam
a cheiro de capim orvalhado
às margens de um caminho
que não tem outra serventia
senão ligar-nos com o passado.



(Fonte: barbatuba.blogspot.com)

quarta-feira, 17 de junho de 2020

VISÃO DO ALTO DO MORRO

À sombra da bananeira (Arquivo JRS)

Outro poema do mano Mingo para ilustrar o meu último trabalho: "À sombra da bananeira, do alto do morro, a gente avistava o mar"


Eu sei, desde os tempos de menino,
que a gente vive por teimar,
pois quem nasce à beira-mar
tem o destino escrito na areia
e se a onda vem e apaga tudo,
e se não der peixe na linhada,
e se vier pouco peixe no espinhel
ainda tem a rede armada
no pesqueiro do parcel.
Esse mar está cheio de vida,
(mas já teve mais!)
esse mar ainda é generoso
(mas já foi mais!)
Quando a gente chegava do mar
com uma fieira de peixes na mão,
vovó  nos abençoava e dizia:
"Quando Jesus andou no mundo
procurando seguidores,
escolheu só os melhores
no meio dos pescadores."

Quer mais? Vai lá: barbatuba.blogspot.com

terça-feira, 16 de junho de 2020

MANO MINGO

Passarinhos que gostam do meu quintal (Arquivo JRS)


Começando o dia com uma poesia do mano Mingo. Quer mais? Visite barbatuba.blogspot.com.


Eu aprecio os poemas
com rumor de cachoeiras que cantam
que até as pedras mais ásperas
são suavizadas pela leveza das águas.

Eu gosto de poemas de cantigas de passarinhos
cantadas e aperfeiçoadas de geração em geração
nos galhos das fruteiras carregadas
e nem precisam ser poemas
com as palavras rimadas.

Eu prefiro os poemas que tresandam
a cheiro de capim orvalhado
às margens de um caminho
que não tem outra serventia
senão ligar-nos com o passado.

domingo, 24 de maio de 2020

POEMA DOS TEMPOS DIFÍCEIS



Frutos do quintal (Arquivo JRS)

Olha a borboleta! (Arquivo JRS)
Em tempos difíceis, o mano Mingo manda...


Poema dos tempos difíceis


Que as borboletas alegrem

as entrelinhas de toda as palavras,


que brotem também margaridas


no meio de todas as lavras.


Da mesma maneira


que um produto não vale pela embalagem,


não importa a prosa das pessoas,


o que vale são as poesias.


E um tapinha nas costas


nada vale sem uma ação amiga:não esqueçam do pão que


sustenta

a cigarra que canta para a formiga.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

O VOAR DO BEIJA-FLOR

    
Capela do Itaguá (Arquivo JRS)


Cantoria da cidade (Arquivo JRS)

Pé na jaca (Arquivo JRS)

Promirim (Arquivo JRS)

O primo Ostinho, agora mais do que nunca, continua produzindo seus fandangos. Logo logo essas letras estarão dançando, varando madrugadas com os dançadores e sua damas. Deixa só este tempo ruim passar! Amaaaaanheeeeece, meu povo!

O voar do beija-flor
Autor: Ostinho


Onde o meu amor nasceu
Eu plantei um pé de amora
É lá que eu faço versos
Ponteados na viola

Minha vida é um jardim
Cheio de flor amarela
Ela quem gosta de mim
E sou eu que gosto dela

Eu plantei no meu jardim
Um punhado de flor
Só pra ver a belezura
Do voar do beija-flor

Eu deixei a minha canoa
No clarão da lua cheia
Na areia da prainha
Onde canta uma sereia

Escrevi um verso novo
Pra cantar na lua nova
Pra filha de um violeiro
Eu dei um botão de rosa

Eu plantei...

Quando a lua foi embora
Ficou uma estrela no céu
Pra moça que mais dançou
Eu tiro o meu chapéu

Tá na hora de ir embora
Vou deixar minha lembrança
No ponteio da viola
Fica o canto e a dança.


domingo, 26 de abril de 2020

QUANTO VALE?

Praia Vermelha- Ilhabela (Arquivo Rê)
Cada canoa tem a sua história e o seu contexto de comunidade, de atividades, de amores, de conflitos contra a cultura que a criou etc. Hoje, a inspiração do Roberto seguiu neste rumo. Rema, amigo!

uma canoa feita do cerne do cedro
dura uma vida toda
carrega rede
gente, peixe

e também o Meu amor
sentada na proa
sorrindo pra mim
com as mãos no bordo
debruçada sobre imensidão
tão gentil
alcança o fio d'água
com gesto de suas mãos
de dedos compridos
que escorrem o mar
azul anil
como se essa fosse a essência do tempo
a própria dilatação da vida

uma canoa feita do cerne do cedro
dura uma vida toda
carrega rede
gente, peixe

leva
traz
dá condição

e uma só já basta

convívio indecifrável
de gente com um pedaço de pau
que na lógica do mercado
não existe
e nem tem aceitação

quanto vale a puxada
como se paga o mutirão?
E se tem balança
alguém pergunta
quanto pesa o meu quinhão?

Um tabuleiro de peixe
igual uma saudade
e o sorriso do meu amor
são medidas tão reais
quanto o palmo e a braça
ou discurso Brutal da propriedade

que dizima

Praia do Itaguá (Arquivo JRS)

quanta família se desfez quando ditaram valor na terra
por causa de metro
na precisão dura da cerca?

quanta família se desfez quando ditaram valor na terra?
quando atravessaram rodovia no quintal
na roça
no rancho?

no cotidiano de seus jardins
atravessaram uma rodovia que
carrega gente
leva
traz

e se uma só não basta
duplica-se

sábado, 25 de abril de 2020

É DA NOSSA NATUREZA


 
Galhetas, onde Ubatuba faz divisa com Caraguá (Arquivo JRS)
Roberto , bisneto do Velho Henrique e da Judith, da praia da Enseada, expressa que é da nossa natureza ter a Natureza em nós. Beleza, amigo!

Dentro de nós mesmos
Não estamos
Nem sequer permanecemos

Sem entender que
A vida é como uma ressaca
De estranhos acontecimentos de uma manhã tão cinza
E fria
Como o concreto
Mas sem a sua dureza
Ou forma fixa

A chuva fina que cai no começo da primavera
É o peso que enverga os galhos do Ingá
E amolece a terra
Onde a Sabiá caça despercebida
A terra molhada é a vida explodindo.
Pelos cantos crescem ervas daninhas
Mais verdes do que a baía do Flamengo
Ou o manto da Saíra.

Uma manhã de Sudoeste
É a vida te lembrando
Que ela é líquida
Escorre em cada fio d’água
E mesmo que isso lhe tome tempo
Infiltra

E enche as gamboas
E transbordam os rios
Que redefinem suas margens
Em si mesmados corpos d’água
Ainda te servem. Frágeis memórias
De que os rios que correm para o mar
São os mesmos que correm em suas veias
E que a violência do mar grosso
Invadindo o Lagamar
É o alimento específico da areia

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

CANÇÃO DO PESCADOR

Uma flor no caminho (Arquivo JRS)
Pescadores  na tela de Wilson Neves (Arquivo JRS)

Há alguns anos, José Kleber escreveu um livro de poesias intitulado Praia do Sono, nascido de seu encanto pelo lugar e pelo povo caiçara desse lugar tão bonito, no município vizinho de Paraty. Agora, escutando a chuva caindo, resolvi publicar um dos poemas desse homem tão singular. Massao Ohno, se referindo ao poeta, assim escreveu: "Morto Orfeu, porém, continua o seu corpo no canto dos rouxinóis".


CANÇÃO DO PESCADOR

Pescador, pescador
que não se perdeu
na superfície cruzada
e desembarcou
vitorioso de nada
no arquipélago cotidiano!

A rede de sonhos,
coroa de menino
agora já é tecida
por cabelos brancos.

E a fartura, que não é
milagre de multiplicação,
nas cestas de ferrugem e escama,
onde mil olhos desfilam
gananciosos.

Meu coração pescador,
jaz no fundo,
com um nome acorrentado.
O teu navega no peito,
tatuado em azul-marinho.
Meu cabelo é noite pura,
enquanto queima-se toda
na tua fronte amadurecida
ao sol que vem de bombordo.

Teu anzol e meu braço
ceifando profundidades
e ondas de viração.

No xiba perderam-se
tamanco e juízo.
A viola não fica tonta
como a gente,
e as vozes povoam cordilheiras
maciças de novas terras.

Pescador!
No lombo onde assentaste
o mastro do teu partir,
devassado e sem fim,
também joguei esperança,
meu bocado de paisagem
frente às ilhas e às enseadas
de ser e sentir.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

UM VEIO BAMBO DE OUTRAS TERRAS


 
Ubatubana  (Arquivo JRS)
Dito Preto,
Veio bambo,
Chegou não sei de onde.
Saudoso repetia um dizer:
“Quem sumiu cavaca?”.

Sempre bambo conheceu a Rosa;
No pé do morro se amaram
E se amaram...
E se amaram...

A Rosa não era negra.
O Dito Petro preto era.
Era comum ver bambo ele
Junto dela bamboleando também.
Culpa da Ubatubana que veio da cana,
A tão preferida dos dois.

O Dito foi primeiro...
A Rosa foi depois...
E hoje eu concluí que o Dito,
Um veio bambo de outras terras,
Que na terra dos pescadores aflorou,
Era vaqueiro.