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| Capa de livro - Arquivo JRS |
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| Capa de livro - Arquivo JRS |
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| Saco das Bananas - Arquivo JRS |
Depois de um dia de muita correria, com a minha querida filha hospitalizada devido a um tombo na rua, me detive na imagem acima que tem mais de três décadas. Na ocasião, eu me encontrava na praia do Saco das Bananas, era hóspede do saudoso casal Dito Madalena e Constantina. No mar estavam as embarcações usadas nas pescarias e no transportes em geral (banana, farinha, materiais de construção, turistas etc.). Um pouco mais longe eu divisava a praia do Simão, também conhecida como Brava do Frade. Nesse tempo já nenhum caiçara habitava a paisagem do Simão, apenas vestígios ficaram como restos de histórias. João Araújo, os irmãos Quintino e Luiz Januário se foram por últimos. Os descendentes dos Garcêz e da Maria Jacinta saíram mundo afora entre os primeiros. No Saco das Bananas até a escola deixara de ter quem ensinasse as primeiras letras. As poucas crianças agora precisavam andar longa distância num péssimo caminho até a praia da Caçandoca para receberem a instrução básica. Gregório Crispim levou toda família para habitar longe de sua origem, à margem do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. Teófilo e Palmira eram falecidos. Só a lembrança da acolhedora casinha deles entre bananeiras me deixava saudoso.
No dia distante dessa imagem, sem nenhuma companhia, fui até o Morro do Inhame para contemplar pela última vez os sinais, entre matos, de uma sala de aula, mas que também servia a outros eventos para a vizinhança (missa, bate-pé, reunião...). Uma carteira escolar, daquelas de dois lugares, ficara no capinzal como testemunha. Raras fotografias de uma comunidade que existia ali, preservadas por gente querida, me emocionarão pelo resto da vida.
Pois é! A experiência de cada pessoa é única! Tia Livina costumava repetir esta máxima: "Quem viveu viveu. Quem não viveu ouvirá contar".
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| Nossa turma - 1971 - Perequê-mirim - Arquivo Valda |
O ano era de 1972, eu estudava na
terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do
Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com
mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se
encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira
nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano
escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo
substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como
quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o
curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.
No ano de 1972 o país estava sob o
regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas
tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram
abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da
área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração
aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo
se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de
partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz
Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade
(onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem
cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento.
Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em
cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção
em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas
nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do
Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.
Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974,
quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava
postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava
Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação
estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem
verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou
morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo
aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.
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| Isaías Mendes, Jairo e João de Souza - Museu Caiçara - Arquivo Inês |
| Embarreamento do Rancho Caiçara - Arquivo JRS |
A minha
família morava na praia do Perequê-mirim, na década de 1970. Eu era criança de
tudo, estava no primeiro ano primário, aluno da professora Olga Ribas, quando ouvi uma
prosa bem interessante em torno de telhados. Os dois, Dico Barreto e Nequinho
Valentim, citavam algum conhecimento a respeito de telhas: para um deles a melhor
telha era a plana, a famosa telha francesa (fabricada no Vale do Paraíba, na
cidade de São José dos Campos, por Paulo Becker, um alemão naturalizado
brasileiro. Diziam os mais velhos que ele veio para o Brasil a fim de se curar
de um reumatismo. Não me perguntem como antigos caiçaras sabiam disso. Bem mais
tarde, um de seus descendentes veio a ser presidente da Fundação de Arte e
Cultura, em Ubatuba), já na opinião do Dico, as telhas mais antigas eram as
preferidas porque não necessitava de um enripamento rigoroso, pois elas não
tinham garras, bastava ir espalhando sem deixar brechas, ajeitando o
alinhamento só no beiral. “Tem também as telhas francesas que vêm de
Caçapava, dos irmãos Quirino. São boas também”, completou o Nequinho. E por
aí seguiu a prosa. Faz tempo que ambos, caiçaras estimados, são falecidos.
Hoje, recordando
dessa prosa ocorrida há mais de cinquenta anos, lembrei-me da tia Maria
Mesquita, do tio Genésio, quando contou do maior sonho de quem queria se casar:
ter uma canoa e uma casa de telha. Por quê? Porque a canoa, além de essencial
na atividade pesqueira dos caiçaras, também era um meio de transporte muito
necessário num tempo em que havia poucas estradas e quase nada de automóveis.
Já a telha, era a garantia de uma moradia mais segura. Antes os pobres usavam
apenas sapê como cobertura de suas
casas. Caso você encontre alguma fotografia aérea daquele tempo, até depois da metade
do século XX, será possível divisar um quadrado marrom bem discreto rodeado de
um terreiro. Era casa caiçara, com cobertura de sapê que durava no máximo
quatorze anos se fosse bem feita, com palhas bem escolhidas e amarradas em
madeiras devidamente selecionadas para resistir aos ventos e às chuvas tão
abundantes nas décadas passadas. A técnica básica da construção caiçara era pau a
pique e sapê, nossa herança tupinambá. Os moradores da praia da Fortaleza e
adjacências, de acordo com o finado tio Salvador, iam até o mangue da Praia
Dura para buscar as varas por serem mais resistentes. Outro recurso valioso
eram as ripas de jiçara. Imbé e timbopeva eram os cipós mais usados. “Hoje
os tempos são outros, tá tudo mais fácil”, dizem os bem vividos da nossa
terra. É mesmo!
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| Flores no quintal - Arquivo JRS |
Muitos dos brasileiros se vestem de verde e amarelo para se identificarem como
patriotas. Mas o que ser patriota? Ser patriota é defender a Pátria, o país que o acolheu. Ser patriota
é, sobretudo, identificar os inimigos internos, na “roupagem de patriotas”.
Inimigos
internos são, principalmente, os que elaboram e aprovam leis contrárias à
Pátria: facilitam que empresas estrangeiras se apossem dos nossos bens, destroem as leis
trabalhistas que garantem um mínimo de dignidade ao nosso povo, garantem mais
exploração àqueles que já vivem às custas do suor alheio, criam mentiras para
sustentar o domínio sobre a classe mais sofrida, defendem jogos viciantes, privatizam
serviços essenciais (água, luz, saúde, educação...), acabam com leis de
proteção ao meio ambiente, corrompem o poder judiciário, se apoderam de espaços
públicos (praias, praças, matas etc.), promovem ideias alienantes, alimentam paraísos fiscais, combatem
políticas de inclusão e justiça social, perseguem
as minorias sociais, elevam os desonestos, criminalizam ainda mais as periferias via polícia mal
preparada, milícia, organização criminosa
e mais outras coisas terríveis.
Os principais
inimigos internos têm muitos aliados entre os pobres! Fico triste em ver tanta
gente nossa ser envolvida numa onda perversa. Sob a designação de patriotas se situam muitos ingênuos úteis, mas também uma boa parcela maldosa. Quem reflete, percebe que esses “patriotas” precisam existir para serem usados por poucos
privilegiados? São esses “patriotas” que sustentam as ideias contrárias à
Pátria. Esse rebanho (iludido ou com más intenções) está contra a Pátria
Brasileira, mas veste verde e amarelo!
Foi no
desfecho da independência do nosso país que essas cores se tornaram marcas da
nação. De acordo com o historiador Paulo Rezzutti, no livro D.Leopoldina,
essas cores representariam as duas linhagens monárquicas: a portuguesa (D.
Pedro I) e a austríaca (D. Leopoldina). Foi no ato da coroação do primeiro imperador do Brasil que “se juntaria ao
verde heráldico dos Braganças o amarelo
dos Habsburgos, que ainda fazem parte das cores nacionais brasileiras. Foram
oficializadas em 18 de setembro de 1822”. Portanto, o simbolismo
verde-amarelo se sustenta em duas dinastias estrangeiras que se uniram em prol
de uma única possibilidade: tornar o BRASIL uma NAÇÃO.
Ainda segundo o citado pesquisador, o primeiro espetáculo nas cores verde e amarelo foi por ocasião da coroação de D. Pedro, onde “as mulheres vestidas de verde e amarelo jogavam de suas varandas flores à passagem dos novos soberanos”. Poético, né? Nada a ver com orações a pneu, sinais para alienígenas, marchas com políticos nada éticos, acampamentos estranhos e outras bizarras manifestações. Nada a ver com pregações religiosas que apoiam injustiças!
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| Canoa e canoeiros - Travessia Ubatuba-Santos - Arquivo internet |
Francisco Lopes é meu primo e compadre. Se aposentou como carpinteiro.
Sempre gostou muito de escutar histórias e também de contá-las. Ah! Foi aluno
do professor Joaquim Lauro, na escola do Itaguá.
Joaquim
Lauro, natural da cidade de Lorena, assim que se formou conseguiu emprego em Ubatuba.
Era metade do século XX, tempo de raros professores nativos da beira do mar.
Por isso esse mestre veio exercer a profissão e fixou moradia em chão caiçara.
Sua casa sempre foi ali, na entrada da praia do Tenório, próximo do rio Acaraú.
No portão havia uma placa: “Consulado de Lorena”. Os antigos alunos diziam que
ele era rigoroso, bravo, sempre disposto a dar um corretivo imediatamente.
Esse senhor que escolheu viver em Ubatuba pelo resto da vida é sempre lembrado por
incentivar as corridas de canoas caiçaras, cujo grande momento foi a longa
travessia Ubatuba a Santos, em 1973, para comemorar um fato histórico ocorrido
em 1563, no território Tupinambá: a contraditória “Paz de Iperoig”. Cinco remadores (Artur
Alexandrino, Carrinho, Jango, Barrosinho e Nilo Vieira) conduziram a canoa
Maria Comprida por mais de 200 quilômetros na linda costa atlântica. O ponto de
partida foi defronte a capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Depois disso
muitas outras provas aconteceram e muita gente se destacou nas remadas. Hoje
vamos conhecer, via Chico Lopes, um fato que se deu numa dessas ocasiões festivas do povo caiçara.
Era tempo de regata de canoas no Itaguá.
Importantes prêmios seriam distribuídos aos melhores classificados. Joaquim
Lauro era exigente, meticuloso nos detalhes e nas regras. Todas as embarcações
precisavam ter nomes bem legíveis. Martiniano, um dos competidores, sendo
analfabeto de tudo, recorreu ao Chico Preto, filho do Velho Rita, para marcar a
sua canoa emborcada logo ali. Assim ficou bem legível na proa: AURORA. Se aproximando o momento da prova, com algumas
canoas ainda sendo desviradas e puxadas do jundu, o professor Joaquim Lauro saiu conferindo
tudo. Ao chegar junto do Martiniano, perguntou:
- Qual o nome da sua canoa?
A resposta imediata foi:
- AURORA, o senhor não sabe ler?
Você
consegue imaginar a estrondosa gargalhada de quem estava por perto?
Explicação do mano Mingo: o nome da canoa foi escrito pelo Chico Preto quando ela estava emborcada. Ao ser desvirada, o nome AURORA ficou de ponta cabeça, difícil de decifrar. As risadas se deram porque era um analfabeto interpelando um professor.
| TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS |
O
veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do
mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da
rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa.
Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse
pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para
produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo
retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes.
Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira
da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu
amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores
resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém
espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil
acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros
parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles.
Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de
mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem
gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.
Enquanto
o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando
as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda,
Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:
Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador
batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore,
nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma
embarcação é torná-la viva.
Pois é! Assim, tal como a viração de
fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em
nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.
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| Maré baixa - Arquivo Santiago |
Ao
compartilhar o texto COITADO DO BAGANA com o estimado Santiago, o escritor do Cambury, recebi a seguinte contribuição ao meu ser:
Quantos
caiçaras perderam seu caminho do mar para o caminho das ruas... Uma vez, estava
na casa que minha companheira morava, no Itaguá, escrevendo um trecho do
COIVARA [livro recente], uma parte que falava sobre caça. Tocaram a campainha
interrompendo o trabalho, mas eu parei e fui atender. Era um jovem com uma
pequena mochila. Contou que tinha sido destratado pouco antes ao contar sua
história e pedir algum dinheiro em troca de limpar o mato.
A
história: ele tinha acabado de ser solto da cadeia e estava voltando pra casa,
no Sertão do Ubatumirim. Caiçara. Contou que tinha sido preso por caça. Na
verdade nem foi pego com caça, mas com arma sem porte. Levaram. Falou vários
nomes do Ubatumirim, contou que o avô morreu na praia do Itaguá. Infarto. Ele
queria cinco reais pra pegar o ônibus e voltar. Enxotaram ele. Ele nem
precisava contar a verdade, mas fluía naturalmente no jeito caiçara de contar
as coisas, com sinceridade e até uma inocência. Sorria. Eu não lembro o nome
dele. Dei um café com biscoito, era o que tinha, mas ele nem pediu comida. Só o
dinheiro da passagem em troca do servicinho de limpar o mato da calçada. Depois
foi embora sorrindo. Eu fiquei pensativo. Estava escrevendo justamente sobre
caça, um pequeno trecho. Ele ficou um ano e pouco preso. Só queria voltar pro
seu lugar. Turistas o destrataram, xingaram. Ele não ligou. Saiu andando. Até
hoje penso sobre esse dia, esse momento. Sua crônica me fez lembrar desse dia.
Ele poderia ter se tornado outra coisa na cadeia por uma imposição violenta do
sistema que massacra culturas e relega às margens de seu próprio território.
Mas ele só queria voltar para casa... E mesmo sua casa já não era mais a mesma,
sofrendo essas agruras da desterritoriolização e invasão do capital
imobiliário.
Gratidão, Santi!
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| Horizonte - Arquivo Ana |
Era um
sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia
chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado
de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico
que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima
do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então
que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas
obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro.
A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande
igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”.
Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca de certas doutrinas capazes de conseguir
incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos.
Seria o caso dele?
O cidadão
em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto,
sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta
situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível
dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.
- Estou
indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns
dias com ela.
Ainda bem
que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança
das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior,
com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre
assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos,
Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da
mesma praia que ele.
- Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele
foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a
sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido
na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da
costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o
cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou,
arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana que tanto adorava samba.
Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente. Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.
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| Capa do livro - Arquivo JRS |
PRETO, PRANCHA E PARAFINA
O título
acima é do novo livro do talentoso Jorge Ivam Ferreira, com apresentação
primorosa da estimada Mary Igawa que resume essa obra literária como “uma homenagem
explícita a Ubatuba”. Eu assino esta verdade. Segue agora apenas uma isca desse professor que escolheu Ubatuba para viver. (E vem aí o lançamento de Preto, Prancha e Parafina! Dia 08/05, sexta-feira - local: Impact Hub, Rua Guaicurus, 310 (próximo do Aquário). Às 19 horas.
Exupério
fica dias no mar. O peixe cada vez mais raro e distante. Agora só resta a
saudade daquele tempo em que com qualquer picaré se obtinha uma fartura de
peixe. Quem chegasse na hora da puxada de uma rede levava sua baciada de peixe
sem pagar nada por eles. Pescador que se prezasse não fazia caso, não olhava feio
para quem se aproximasse dos peixes matados. Que cada um pegasse a quantidade
necessária para seu almoço ou jantar.
Nestes tempos difíceis, entretanto, só se
fala de escassez da pesca. Se alguém tem culpa, não são os pescadores caiçaras,
que nunca se deixaram dominar pela ganância. Eles não são responsáveis pela
poluição generalizada do mar e dos rios, pelo aterro de muitos mangues, pela
pesca predatória feita por embarcações que vêm de longe com redes que reviram o
fundo do mar e arrastam para longe fauna e flora.
Muita gente conhecida está no enredo. Além do personagem
Pedro Piragica, um experiente homem rodado no mundo que optou em ser um autêntico caiçara, dar sua
contribuição nesse chão ubatubense, eu também fui contemplado no romance com
mais de uma página. Quanta honra! Gratidão, Jorge!
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| Capa de livro - Arquivo JRS |
No passado histórico do nosso país, no tempo
de D. João VI, alguns reinos europeus criaram a tal de Santa Aliança, uma
coalizão militar e política conservadora. Quando digo conservadora, me refiro
aos esforços, aos acordos para ser mantidos firmes os privilégios dos mais ricos. Quem
sustenta estes? Quem trabalha, lógico! No nosso caso, na inclusão do reino
português nessa aliança, o objetivo maior era preservar o Reino do Brasil do
contagioso espírito revolucionários.
Qual
espírito revolucionário era esse? Era a
onda republicana e democrática que estava sendo abraçada pelas colônias
espanholas na nossa vizinhança. A monarquia absolutista estava sendo
defenestrada nos processos de independência no continente americano. Também a
Santa Aliança, aliada de D. João, era fundamental para sustentar a continuidade
do regime escravocrata que produzia a riqueza do Brasil.
Olhando a
onda reacionária do momento atual, a ação dela nos empobrecidos da nossa terra, quem não enxerga a atualização dos
seguidores da Santa Aliança? Eles não querem a soberania do nosso povo, nem de
outros mundo afora; desejam riquezas/privilégios às custas de quem trabalha,
acham normal as condições análogas à escravidão de tantos homens e mulheres, sobretudo da juventude.
Tais resquícios da ideologia da Santa Aliança apressam o fim do mundo
desrespeitando todas as leis ambientais e combatendo a maravilhosa diversidade
cultural do nosso povo. Seus adeptos são contrários e violentos contra as minorias marginalizadas e qualquer dos
programas de inclusão social. Recorrendo aos dispositivos tecnológicos atuais, essa ideologia
mentecapta produz uma massa de mentecaptos rebaixada, pois a maioria da
população precisa ser mantida com um mínimo de inteligência, ficar privada da
razão, da capacidade pensante, do senso crítico.
No alvorecer
da Santa Aliança, a família real portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte,
veio aportar no Brasil. A elite portuguesa seguiu junto. Da noite para o dia
mais de 15 mil lusitanos “invadiram nossa praia”. O saudoso professor Hércules
Cembraneli se referia a eles como "a cambada de D. João, o séquito da
rainha louca”. Agora, lendo a obra D.Leopoldina, de Paulo Rezzutti,
fiquei sabendo que Carlota Joaquina, esposa do príncipe regente, foi trazida à
força para o Brasil. A digníssima de D. João não queria vir porque “considerava
o país uma terra de escravos e de macacos”. Dois séculos já se passaram, né? Ainda
assim, nessa ideologia continua agindo e pensando a elite do atraso, conforme
a denominação do sociólogo Jessé Souza.
Seu livro A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro, segue
atualíssimo graças a uma porção de gente nossa que prefere fazer parte da classe
de mentecaptos rebaixada.
Somente é
possível acreditar numa liderança popular, proveniente da classe trabalhadora,
que leva às últimas consequências a frase: “a nossa cabeça pensa de acordo com
o chão que os nossos pés pisam”. Os seguidores da versão atualizada da Santa
Aliança seguem o principal da versão primeira: precisa haver escravos para se
manterem como minoria dominante. Por isso a destruição da natureza é normal, leis trabalhistas não são necessárias etc. Fim da escala 6x1? Nem pensar!
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| Céu de outono - Arquivo JRS |
Hoje o vento começou seu trabalho
de caiar o céu de outono,
formando, primeiramente, as nuvens cirros,
mais altas que os aviões de carreira.
Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,
mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta
das massas de ar nos choques frontais.
Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,
as folhagens se agitam parecendo festejar,
os pássaros cantam qualquer bobagem
e há uma sensação boa de liberdade no ar.
Algumas crianças saíram às ruas
e aproveitam para brincar em plena era cibernética,
sem ligar para que o vento pinta ou borda
na imensa tela azul atmosférica.
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| Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS |
Os
primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que
habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam
que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam
se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam
para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da
noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da
memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.
Dizem os
especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria
das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de
algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos
ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma
coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns
sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha
saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava
interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.
Pelo que
me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida.
Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice,
queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica.
Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia
combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre
as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma
trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na
exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas
saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com
um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no
escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele
escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que
tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de
ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso
dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram. Tenho certeza de que o meu primo também tem
essa cicatriz.
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| Borboleta no terreiro - Arquivo JRS |
Eu, bem
cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas,
carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.
Olímpio,
amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade
dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja
tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço
pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou
de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital
paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A
celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela
ditadura militar. Era quase final de
1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive
um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase
um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de
alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta,
da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador.
Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”.
“Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso
ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de
policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não
participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades
se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei
trecho, tenho histórias para contar!”.
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| Época de pinhão na Mantiqueira |
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| Francisco, o Chagas - Arquivo JRS |
Francisco, mais chamado de Chagas, sempre viveu do mato (desde cortar lenha até coletar pinhão de março em diante, acabando no principiar do inverno). Dele me veio o convite de conhecer um mínimo trecho da Mantiqueira, da mata das araucárias. Fui com satisfação, prestando muita atenção em tudo porque aprender nunca é demais.
No começo da trilha Francisco tirou o boné e pediu a proteção divina e licença ao último morador daquele local. Bem pouco andamos e já avistei uma casa no mato. Era visível o abandono. "Quem morava ali, Francisco?". "O Tinoco Cipião até dois atrás ocupava aquele lrancho. Depois que morreu, levaram ele para o cemitério. Olha só: em vida só conheceu a lida na roça, vivendo das coisas da mata. Nunca saiu deste lugar. Agora, depois de morto, se mudou para a cidade. Tá lá, na terra dos pés juntos". Não pude deixar de rir do inconformismo do meu guia.
Já ouvi dizer que Mantiqueira é serra que chora. Logo apareceu a primeira água. Pouca, mas filete transparente. Me detive para apreciar, ver uma pequena lagoa. "Que maravilha, né Zé? Este rego era o rio dele. Nele Tinoco se servia para tudo". "Vivia sozinho esse Tinoco?". "Vivia sim. Nunca teve família nesse tempo todo. Só ia uma vez por mês na cidade para receber dinheiro da aposentadoria. Foi a causa da morte dele. Assim se deu: uma ocasião, gente ruim que já sondava, sabia da rotina mensal do coitado, e, numa data de pagamento, lhe fez a maldita visita. Matou o pobre e roubou-lhe a mixaria". "Triste demais".
Deixamos os sinais dos viventes e nos entranhamos na mata. Entre baixadas e espigões, as velhas araucárias nos proveram com frescos pinhões. Fomos catando aos seus pés os frutos lançados por seus braços. De repente uma poça maior de água remexida: "A porcada passou por aqui faz pouco tempo, Zé". "É mesmo? Só digo uma coisa, Francisco: é muito bom andar em sua companhia!".
No fim da jornada, Francisco perguntou: "Sabe quem espiava a gente o tempo todo ?"
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| Primeiro loteamento na Lagoinha - Arquivo Ubatubense |
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| Ruinas da Lagoinha - Arquivo Fundart |
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| Bois na praia - Arquivo internet |
Seo
Porfírio, nascido e criado na praia da Lagoinha, neto (ou bisneto?) “de escrava
fugitiva do fazendeiro da Caçandoca”, contava muitas histórias, sobretudo
depois que teve a perna amputada e passou a ficar mais tempo na cadeira de
rodas, morando com o filho Juventino, na rua Gastão Madeira, no centro da
cidade. Eu, sempre que surgia uma oportunidade, me detinha e sentava na calçada
para ouvi-lo. Hoje, o principal desta crônica é o boi Cosé. Pelo que me foi
contado, era muito estimado este animal. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa desse descendente da guerreira Gertrudes.
Quando eu nasci quase tudo ali era mato,
com quase nada de casa. Só havia caminho pelo jundu porque na maré cheia não se
podia passar pela areia da praia. As poucas roças ocupavam os morros porque o
resto era areia quente ou alagados de taboas e caxetas. As ruínas já estavam há
muito tempo abandonadas de tudo. Mais tarde tentaram plantar bananeiras, vender
frutas para os ingleses, mas veio o tempo da guerra e tudo foi largado.
Aí trouxeram gado, poucas cabeças. Produziam leite, faziam queijo, matavam de
vez em quando para negociar carne. Quase ninguém comprava porque não havia
dinheiro. Com o tempo os animais foram envelhecendo, ficando largados, sem
rumo. Poucos foram levados para outro lugar. O resto morrreu de velhice. Andavam por onde queriam, entravam no mar, se
banhavam na barra, comiam capim do jundu... Cagavam onde batia a vontade. De
vez em quando a criançada atentada montava num deles e saia se sacolejando. Não
tinha nenhum animal bravo. Um deles, todo preto, o Cosé, adquiriu um costume
engraçado: se aproximava quando percebia que alguém se preparava para sair mar
afora, parecia querer ir junto na canoa. Acompanhava com os olhos até a pessoa
desaparecer no mar. Se alguém fosse remando até a Maranduba, na rota paralela à
praia, Cosé seguia o rumo caminhando na água salgado, com ondas quebrando nas
canelas. E ia mesmo! Chegava lá junto com a embarcação! Só voltava de lá quando
o remador fazia o mesmo.
Cosé morreu de velho, foi enterrado defronte
ao ilhote do Pontal. Ali, onde mais tarde apareceu uma área de acampamento para
veranistas. Deve existir ainda hoje uma árvore grande naquele lugar. Para nós
era a Figueira do Cosé.
Notas: 1- O caisão da ponta Grossa, em
Ubatuba, foi construído para servir de porto na região e estimular a bananicultura emergente na primeira
metade do século XX. A Segunda Guerra
Mundial a fez submergir prematuramente neste município.
2- A área para acampar, onde estava a Figueira do Cosé, abrigou anos depois
da abertura da rodovia entre Ubatuba e Caraguatatuba, o Camping Club do Brasil
(CCB).
| Rancho dos pescadores - Arquivo JRS |
- Era feriado, dia de festa. O lagamar,
desde a barra até o porto da nossa capela, estava tomado de gente. Era um
mundaréu só. Um foguetório traduzia a alegria geral e a curiosidade do nosso
povo. Era a visita do presidente da república, do nosso presidente que, depois
de passar pela ilha Anchieta, veio até a cidade. O navio dele ficou fundeado bem
lá fora.
- Faz tempo isso, Janguinho?
- Ah, faz muito tempo! Antes do tempo do presidente
Getúlio Vargas, eu era bem novo ainda. Depois disso, que eu me lembre, festança
maior só em 1948 quando o Guisard, inaugurou a luz na cidade. O
prefeito daquele tempo era o doutor Alberto. Até o bispo de Taubaté, Dom Idílio,
veio para prestigiar o evento.
A prosa
acima aconteceu no começo da década de 1980, quando eu já morava no bairro da
Estufa II. A praia do Itaguá era o nosso principal ponto de encontro. Aos
domingos, era comum ver todo mundo por ali aproveitando bem o mar e a areia. Tudo
era limpo! Na ocasião acontecia uma
corrida de canoa marcando os festejos da capela do Itaguá. O professor Joaquim
Lauro era o grande incentivador dos festejos. Eu, claro, aproveitava para ouvir
histórias dos mais velhos. O casal Janguinho e Santana (a parteira da
comunidade) estava na vez: um ajudava o outro nos detalhes da narrativa. Quando
eu ouvi o nome do bispo, entendi porque algumas crianças caiçaras receberam o
nome de Idílio. Ao menos dois me aparecem na mente: um no Perequê-mirim e outro
no Sapê. Dar nomes aos filhos se guiando pelo santo do dia no calendário, assim
como homenagear recém-nascidos com nome de autoridades eclesiásticas, fazia parte
da religiosidade católica caiçara.
Pois é!
Bem mais tarde eu encontrei uma imagem da época onde o citado bispo oficializava
a missa solene recordada pelo saudoso casal do Itaguá. Era no Cruzeiro, na
avenida Iperoig. Havia mesmo uma multidão!
Nota: a inauguração da energia elétrica em
Ubatuba, no ano de 1948, se deu pelo esforço da Companhia Taubaté Industrial (CTI),
do Félix Guisard, dono do Casarão na época. Porém, a cidade cresceu e foi
preciso que a companhia estadual de energia (CESP) estendesse uma rede mais
potente via serra de Caraguatatuba, na década de 1960. Eu, bem criança, na
praia do Sapê, me recordo de homens e máquinas estendendo fios e postes sobre
as picadas abertas nas matas. Como eu tinha medo!
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| Arco-íris no crepúsculo - Arquivo JRS |
Tudo o
que conseguimos e somos é resultado, para citar o cientista Sidarta Ribeiro, de
“sonho noturno ou devaneio diurno”.
A
existência da breve trajetória da sociedade humana na Terra, nessa teoria,
nessa dinâmica noturna e diurna, se deu – e segue! – cavando caminhos (criação
de ferramentas, desenvolvimento da comunicação, invenção de máquinas, organização
de instituições e leis etc.). Se detendo no contexto mais atual, no mais de
meio século que eu me entendo por gente, posso afirmar que são as narrativas
que resultam em modelos sociais mais egoístas ou mais solidárias; mais injustas
e com pouquíssimos privilegiados ou mais justas e mais fraternas, que garantam
felicidade ampliada à humanidade.
Eu penso
que a nossa vida pode ser relacionada a uma viagem variável conforme os
contextos, as condições: quando criança arriscamos passos sem pensar, quando a
idade vai pesando medimos as nossas possibilidades, os nossos limites para até
mesmo uma simples caminhada. Tememos ficar pelo caminho devido uma lesão ou
mesmo por fraqueza natural nos músculos e órgãos.
Comparando
a nossa vivência a um deslocamento, a uma viagem de ônibus, por exemplo, pode
ser que o veículo enguice na estrada, sendo inevitável o nosso desembarque, a
tomar outra condução, seguir um trajeto alternativo para chegar ao destino
almejado. Pode ser que sejamos levados a rever/refazer o projeto, o plano do
início. Pode ser! Tal como é possível de acontecer numa viagem, passageiros
podem ficar pelo caminho, decidir por um atalho, dar uma volta maior, escolher
ou descartar companhias etc. Mediante os imprevistos alguém pode dizer: “Posso
demorar, mas hei de chegar lá, não vou desistir”. Também pode acontecer de
alguém desistir, se arrepender da jornada: “Desisto porque acho que não vou
conseguir”.
A nossa
viagem nesta humanidade continua se sustentando nos fracassos e sucessos. Tem
momentos da esperança estar mais forte, mas há instantes de esmorecimentos. O cientista brasiliense acima citado nos ajuda com uma passagem do seu
livro O oráculo da noite:
A
expansão gradual da capacidade de contar histórias e viajar mentalmente no
tempo foi o combustível da explosão cultural humana nos últimos milênios [...]
O fato é, que em algum momento da nossa história recente, começamos a ser
capazes de formular narrativas de futuro com base no passado.
Portanto,
se no passado tivemos exemplos cruéis de sociedades, por que repeti-los? Se determinados perfis políticos tendem brigar
por um modelo excludente, perverso, por que elegê-los para nos representar?
Qual a nossa atitude ao estar convicto de que “a impunidade torna os maus
ainda piores”, conforme escreveu Platão há dois milênios e meio? Ainda bem que os bons são a maioria!
Betinho, que dizia que a fome tem pressa,
numa mensagem ao seu saudoso irmão Henfil escreveu isto: “Você vai torcer aí
do Céu e nós vamos votar aqui na Terra para ver se a democracia funciona para
melhorar a vida de nossa gente”. Eu quero que a minha parte na viagem seja
feliz e alimente positivamente a esperança da nossa gente: esta é a minha
espiritualidade. Amém nós todos!
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| Tio Antônio do Prado - Arquivo Marcos |
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| Maranduba e loteamento - Arquivo Ubatuba |
Lendo um
texto e vendo imagens postadas pelo primo Marcos, descendente do tio Basílio, da
praia do Pulso, chão que também viu nascer vovó Martinha no começo do século passado, senti uma vontade de escrever em torno de algumas lembranças que tenho da praia do Sapê, onde eu e mais irmãos nascemos pelas
mãos dessa mesma vó, a parteira da região na época.
A nossa
casa, vizinha do Andrelino e Jorgina, do outro lado do areião da tia Rita Carlota,
em cuja casa eram ministradas aulas para as meninas, era bem simples, como todas
daquele tempo. Outros vizinhos mais próximos: tia Livina, Nié, Zé Balio e
Deolindo. Um pouco mais longe moravam João Paulo, tio Totô, Dioclécio, Tonico, João Firmino, tio Chico, Jonas, Paulo e Tião Plácido. Meu pai foi o construtor da nossa primeira moradia, contando com ajuda do João
Oliveira e outros parentes. Nela nós nascemos e passamos alguns anos da
infância, mas mamãe, que se engraçou com papai enquanto trabalhava no Hotel
Picaré, na barra do rio Maranduba, sentia a necessidade de estar perto dos pais, moradores na praia da
Fortaleza. A solução foi vender a propriedade e se mudar. Quem comprou? O tio
Antônio do Prado, da tia Santa. A nossa primeira casa se tornou o lar deles. Assim
deixamos o chão do Sapê, onde moravam nossos avós (Estevan e Martinha). Não me
recordo do preço, mas sei que por alguns
meses meu pai se deslocava da Fortaleza até o Sapê para receber uma quantia nas
notas promissórias. Era o tio Ângelo, cuja venda no Largo do Sapê competia com
o armazém do João Pimenta, quem efetuava o pagamento pelo concunhado. No morro da Fortaleza foi construída a nossa
segunda moradia. Lá do alto, entre roçados, avistávamos o grande mar, as ilhas
e as praias mais próximas. Foi onde nasceu o mano Clóvis.
Naquele
tempo, meados de 1960, já estava consolidado o primeiro loteamento na praia da Maranduba.
Meu pai se referia a um tal de Nagib como responsável no empreendimento. O rio
todo sinuoso, com um farto manguezal onde meu povo caçava guenzo e outros seres
para comer, foi tornado reto a fim de mais lotes surgirem. Posso dizer que ali se
formaram os primeiros pedreiros, os construtores caiçaras. Hoje tudo está
tomado pelas edificações, sobretudo aquelas destinadas aos turistas. A região, sem rede de
esgoto, resulta em grande parte da sujeira rompendo fossas, seguindo para o rio e o mar. Sem dúvida nenhuma que a feiura e os crimes ambientais imperam! Afirmei à
amiga Carolina, preste a lançar um livro mostrando anciãos caiçaras seguindo mantendo práticas artesanais, que a abertura das rodovias (Ubatuba-Taubaté,
Ubatuba-Caraguatatuba e Ubatuba-Paraty) foram as responsáveis pelas enormes
mudanças na cultura local, no modo de vida dos caiçaras. Antes disso, para conseguir
melhores condições de sobrevivência, meu povo se dirigia à Baixada Santista com
o objetivo de ser contratado para trabalhar no porto ou nos bananais. Éramos
migrantes lá - a nossa Meca! - tal com segue sendo a nossa Ubatuba para os mineiros, nordestinos
e outros em tempos mais atuais.
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| Beira de rodovia - Arquivo JRS |
Tempos
desses, estando no ponto do ônibus, no Saco da Ribeira, escutei o seguinte
diálogo entre dois trabalhadores. Estavam indo para casa depois de um dia na
labuta:
- Disseram
que aquele lago, onde puseram peixes bobos, desses que nem sei se alguém come,
serviria para verificar a pureza da água depois de tratada. Foi esta a afirmativa do
engenheiro.
- Pois
é, foi assim mesmo. Se os peixes não morressem, era sinal que a obra, de
apartamentos caríssimos bem dizer em cima da praia, não estaria prejudicando o
entorno e o mar, fim do destino do esgoto tratado.
- E o
que aconteceu depois de receber a tal água tratada? Tudo morreu, a superfície
ficou assim de peixes mortos ou estrebuchando. Não deu certo a experiência do
lago.
-
Então...o tal tratamento não deu certo, né? E vai ficar assim mesmo. Que se
dane o mar.
Noutra
ocasião, viajando por aí, apreciando paisagens, notei que beiradas de estradas
estavam com mato amarelado, tipo queimado. O amigo Francisco explicou: “É
veneno borrifado por empresas terceirizadas na preservação da rodovia. Fazendo
isso, elas diminuem os custos com contratação de funcionários, mas cometem
crime ambiental. Afinal, o veneno borrifado se dispersa com vento, contamina o
solo, envenena grãos e folhas que os pássaros e demais animais comem. Caso haja
alguma árvore frutífera (goiabeira, pitangueira, laranjeira...), também os
seres humanos podem ser afetados, contrair doenças”. Portanto, concluo
eu:
Ao ver esses vestígios em suas andanças, se manifeste contra, denuncie quem está praticando tal absurdo, cobre das autoridades sanitárias alguma atitude desse avacalhamento na prestação de serviços públicos. Não esqueça: desde o ínfimo ser até o homo sapiens existe uma interdependência vital. Pensar nesta perspectiva pode ser o início de uma transformação fundamental na existência, na sobrevivência neste planeta. Não eram “peixes bobos” que foram mortos pelo empreendimento! Quantas vidas, inclusive as nossas, continuam sendo destratadas assim?
Quando
avisto um espaço religioso, inclusive aqueles mais perseguidos pela
ignorância/intolerância de tanta gente, reflito sobre o significado do mundo
superior, do Reino Divino. Para Jesus, figura de proa da religiosidade
caiçara, o Reino se compara a um imenso banquete. Portanto, ele é sinônimo de
justiça plena porque todo mundo deveria estar ao redor da mesa.
É em torno de uma mesa que se entabulam
conversas e relações são aprofundadas. Sinal do Reino é famintos serem
saciados. Afinal, nessa grande mesa, nesse banquete, haverá partilha plena
entre quem tem e quem vive na necessidade. Cada liderança religiosa, de
qualquer credo que almeja um mundo melhor, deveria ser depositário dessa
tarefa, dessa partilha. Em uma passagem do Novo Testamento (Atos 4.36-37) está
grafado a respeito de um cidadão: "levita originário de Chipre, possuía um
campo; ele o vendeu e trouxe o dinheiro para depô-lo aos pés dos
apóstolos". A estes coube papel de líderes, naquela ocasião, de serem orientadores da partilha.
Quando podemos comer e beber juntos, reforçamos nossas relações, decidimos os melhores caminhos para a humanidade. Não é por acaso que os que têm fome são chamados de "bem aventurados". Quando isto não está no nosso horizonte, alguma coisa está muito errada; de nada adianta frequentar os cultos, seguir os sacramentos, fazer sacrifícios etc.
Na
história, sobretudo na atualidade, como estão se comportando aqueles que se
dizem "escolhidos de Deus", “sacerdotes e sacerdotisas das divindades”, "fiéis seguidores dos mandamentos"?
Preferem a paz ou idolatram os que promovem as guerras? Repartem o pão ou chutam
os mais necessitados? No fundo, eu me esforço por acreditar numa espiritualidade que busca o
"ter tudo em comum segundo as necessidades de cada um". Deveriam estar neste rumo, remar nesta direção, as exigências das Boas Novas anunciadas pelas
religiões.
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| A igreja |
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| A praça e a igreja - Arquivo Ubatuba |
Até
meados do século XIX, segundo o cronista histórico Washington de Oliveira, o
Filhinho, não havia em Ubatuba nenhum templo ou associação religiosa
evangélica. Foi em 1868 que chegaram às mãos do português José Joaquim Fernandes
de Lima, guarda-livros de várias firmas comerciais e depois comerciante
estabelecido por conta própria, os primeiros folhetos evangélicos, contendo
sermões do Reverendo Ryle, um influente líder anglicano inglês. Esse cidadão lusitano, portanto, foi o precursor
do protestantismo na referida cidade litorânea. Na sua casa - que ainda existe!
-, agora como ponto comercial depois de muitas reformas, situada na esquina
defronte ao Cruzeiro (Avenida Iperoig com a rua Condessa de Vimeiro), em 1877 aconteceu
a primeira pregação feita pelo confrade Cândido Joaquim de Mesquita. Em 28 de
novembro, o Reverendíssimo Antônio Trajano, a convite dos fiéis locais, foi quem
inaugurou a Igreja Presbiteriana.
Conta-se
que José Joaquim Fernandes, que está na base dos presbiterianos em Ubatuba,
enamorou-se de uma jovem católica, cujo casamento, por imposição da família
desta, só se realizaria se ele renunciasse à nova religião e recebesse sua
pretendida esposa aos pés do altar, com todos os sacramentos da fé católica. O
amor venceu. No sábado aprazado, com grande manifestação de júbilo por parte da
grei católica, José de Lima e Maria receberam-se em matrimônio pela Lei de
Deus, na Igreja Matriz local. O amor venceu, é verdade, mas...por pouco tempo.
No dia seguinte, domingo, o venturoso par caminhou de mãos dadas para a Igreja
Presbiteriana, na qual ambos se integraram, convictos, e da qual nunca mais se
separaram. Na verdade, o amor deles estava
acima de qualquer denominação religiosa, onde essa ou aquela outra não poderia
resultar em separação.
Eu
pensava tudo isso enquanto repousava num banco olhando a Igreja Presbiteriana,
bem perto da cadeia velha, hoje Museu Washington de Oliveira. Daí lembrei de uma
colega de ginásio, cujo pai era pastor presbiteriano na década de 1970. Também
me recordei do casamento do Sérgio Coelho e Fátima naquele templo de tantas
histórias. Serginho, o primeiro filho deles, foi-me dado como afilhado. Quanta
honra, minha gente!