segunda-feira, 18 de maio de 2026

ALFREDINHO

 

Capa de livro - Arquivo JRS 

     Fredy Kunz, mais conhecido por padre Alfredinho, fez da sua vida uma total entrega aos mais sofredores. Era comum ele estar pelas ruas dividindo espaço com quem fosse encontrando, querendo ao menos poder conversar e partilhar suas esperanças.  Por exemplo, em 1995,  na estação ferroviária Prefeito Saladino, em Santo André, ele escreveu:

      A casa de convivência tinha sido fechada. Os moradores de rua que lá estavam abrigados foram retirados dali e jogados embaixo desse viaduto. Quando cheguei, percebi que no mesmo local seis tendas de ciganos haviam sido montadas. Enrolei-me num cobertor e me encostei num lugar perto deles. O tempo estava nublado e frio. Passei horas assim sem chamar a atenção de ninguém. Qualquer iniciativa deve começar por um olhar silencioso. Os homens usavam botas e chapéus grandes. As mulheres vestiam saias compridas e cheias de cores. A criançada, seminua, brincava. Depois de muito tempo aproximou-se uma mulher para conversar:
        - Você é parecido com o meu pai, que era assim velhinho. Vem se arranchar em nossa tenda. Lá você pode almoçar, jantar, dormir. Vou lavar as suas roupas. E depois você vai com a gente pro Paraná.
        Agradeci muito e fiquei no mesmo lugar. Pouco depois veio uma criança me chamar para tomar café. Dessa vez aceitei e fui. Aproveitando a minha saída, as crianças fizeram a mudança das minhas coisas guardando-as embaixo da tenda. Querendo ou não, eu seria acolhido por eles. Pouco depois apareceu um bom prato de comida. Ganhei um grande cobertor. À noite tomaram vinho e começaram a cantar. Coisa estranha. Nem conhecia a música, nem entendia as palavras. Dias depois fizemos o batismo de duas crianças no meio do acampamento. Rezamos o pai-nosso de mãos dadas. No fim as mulheres fizeram duas chaleiras de café.
        Dias depois voltei novamente. Não havia mais ninguém. O que aconteceu com eles? Não sei!

     Pois é! O que dizer de tantos cristãos, até mesmo parentes meus, que querem assar devotamente aquelas pessoas que abraçam as causas sociais? Nesta lógica, Alfredinho, por toda vida, seria muito perseguido. Eis um grande exemplo de verdadeiro pastor!

quinta-feira, 14 de maio de 2026

UM DIA NO SACO

 

Saco das Bananas -  Arquivo JRS 

       Depois de um dia de muita correria, com a minha querida filha hospitalizada devido a um tombo na rua, me detive na imagem acima que tem mais de três décadas. Na ocasião, eu me encontrava na praia do Saco das Bananas, era hóspede do saudoso casal Dito Madalena e Constantina. No mar estavam as embarcações usadas nas pescarias e no transportes em geral (banana, farinha, materiais de construção, turistas etc.). Um pouco mais longe eu divisava a praia do Simão, também conhecida como Brava do Frade. Nesse tempo já nenhum caiçara habitava a paisagem do Simão, apenas vestígios ficaram como restos de histórias. João Araújo, os irmãos Quintino e Luiz Januário se foram por últimos. Os descendentes dos Garcêz e da Maria Jacinta saíram mundo afora entre os primeiros. No Saco das Bananas até a escola deixara de ter quem ensinasse as primeiras letras. As poucas crianças agora precisavam andar longa distância num péssimo caminho até a praia da Caçandoca para receberem a instrução básica. Gregório Crispim levou toda família para habitar longe de sua origem, à margem do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. Teófilo e Palmira eram falecidos. Só a lembrança da acolhedora casinha deles entre bananeiras me deixava saudoso. 

     No dia distante dessa imagem, sem nenhuma companhia, fui até o Morro do Inhame para contemplar pela última vez os sinais, entre matos, de uma sala de aula, mas que também servia a outros eventos para a vizinhança (missa, bate-pé, reunião...). Uma carteira escolar, daquelas de dois lugares, ficara no capinzal como testemunha. Raras fotografias de uma comunidade que existia ali, preservadas por gente querida, me emocionarão pelo resto da vida.

   Pois é! A experiência de cada pessoa é única! Tia Livina costumava repetir esta máxima: "Quem viveu viveu. Quem não viveu ouvirá contar". 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

PÁTRIA LIVRE OU...

 

Nossa turma - 1971 -  Perequê-mirim - Arquivo Valda


      O ano era de 1972, eu estudava na terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.

    No ano de 1972 o país estava sob o regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade (onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento. Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.

    Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974, quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No  recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.


domingo, 10 de maio de 2026

TELHADOS

 

Isaías Mendes, Jairo e João de Souza - Museu Caiçara - Arquivo Inês

Embarreamento do Rancho Caiçara - Arquivo JRS


    A minha família morava na praia do Perequê-mirim, na década de 1970. Eu era criança de tudo, estava no primeiro ano primário, aluno da professora Olga Ribas, quando ouvi uma prosa bem interessante em torno de telhados. Os dois, Dico Barreto e Nequinho Valentim, citavam algum conhecimento a respeito de telhas: para um deles a melhor telha era a plana, a famosa telha francesa (fabricada no Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, por Paulo Becker, um alemão naturalizado brasileiro. Diziam os mais velhos que ele veio para o Brasil a fim de se curar de um reumatismo. Não me perguntem como antigos caiçaras sabiam disso. Bem mais tarde, um de seus descendentes veio a ser presidente da Fundação de Arte e Cultura, em Ubatuba), já na opinião do Dico, as telhas mais antigas eram as preferidas porque não necessitava de um enripamento rigoroso, pois elas não tinham garras, bastava ir espalhando sem deixar brechas, ajeitando o alinhamento só no beiral. “Tem também as telhas francesas que vêm de Caçapava, dos irmãos Quirino. São boas também”, completou o Nequinho. E por aí seguiu a prosa. Faz tempo que ambos, caiçaras estimados, são falecidos.

    Hoje, recordando dessa prosa ocorrida há mais de cinquenta anos, lembrei-me da tia Maria Mesquita, do tio Genésio, quando contou do maior sonho de quem queria se casar: ter uma canoa e uma casa de telha. Por quê? Porque a canoa, além de essencial na atividade pesqueira dos caiçaras, também era um meio de transporte muito necessário num tempo em que havia poucas estradas e quase nada de automóveis. Já a telha, era a garantia de uma moradia mais segura. Antes os pobres usavam apenas  sapê como cobertura de suas casas. Caso você encontre alguma fotografia aérea daquele tempo, até depois da metade do século XX, será possível divisar um quadrado marrom bem discreto rodeado de um terreiro. Era casa caiçara, com cobertura de sapê que durava no máximo quatorze anos se fosse bem feita, com palhas bem escolhidas e amarradas em madeiras devidamente selecionadas para resistir aos ventos e às chuvas tão abundantes nas décadas passadas. A técnica básica da construção caiçara era pau a pique e sapê, nossa herança tupinambá. Os moradores da praia da Fortaleza e adjacências, de acordo com o finado tio Salvador, iam até o mangue da Praia Dura para buscar as varas por serem mais resistentes. Outro recurso valioso eram as ripas de jiçara. Imbé e timbopeva eram os cipós mais usados. “Hoje os tempos são outros, tá tudo mais fácil”, dizem os bem vividos da nossa terra. É mesmo!

sábado, 9 de maio de 2026

VERDE E AMARELO

 

Flores  no quintal - Arquivo JRS 


     Muitos dos brasileiros se vestem de verde e amarelo para se identificarem como patriotas. Mas o que ser patriota? Ser patriota é defender a Pátria, o país que o acolheu. Ser patriota é, sobretudo, identificar os inimigos internos, na “roupagem de patriotas”.

     Inimigos internos são, principalmente, os que elaboram e aprovam leis contrárias à Pátria: facilitam que empresas estrangeiras  se apossem dos nossos bens, destroem as leis trabalhistas que garantem um mínimo de dignidade ao nosso povo, garantem mais exploração àqueles que já vivem às custas do suor alheio, criam mentiras para sustentar o domínio sobre a classe mais sofrida, defendem jogos viciantes, privatizam serviços essenciais (água, luz, saúde, educação...), acabam com leis de proteção ao meio ambiente, corrompem o poder judiciário, se apoderam de espaços públicos (praias, praças, matas etc.), promovem ideias alienantes, alimentam paraísos fiscais, combatem políticas de inclusão  e justiça social, perseguem as minorias sociais, elevam os desonestos, criminalizam ainda mais as periferias via polícia mal preparada, milícia, organização criminosa  e mais outras coisas terríveis.

     Os principais inimigos internos têm muitos aliados entre os pobres! Fico triste em ver tanta gente nossa ser envolvida numa onda perversa. Sob a designação de patriotas se situam muitos ingênuos úteis, mas também uma boa parcela maldosa. Quem reflete, percebe que esses “patriotas” precisam existir para serem usados por poucos privilegiados? São esses “patriotas” que sustentam as ideias contrárias à Pátria. Esse rebanho (iludido ou com más intenções) está contra a Pátria Brasileira, mas veste verde e amarelo!

     Foi no desfecho da independência do nosso país que essas cores se tornaram marcas da nação. De acordo com o historiador Paulo Rezzutti, no livro D.Leopoldina, essas cores representariam as duas linhagens monárquicas: a portuguesa (D. Pedro I) e a austríaca (D. Leopoldina). Foi no ato da coroação do primeiro  imperador do Brasil que “se juntaria ao verde heráldico  dos Braganças o amarelo dos Habsburgos, que ainda fazem parte das cores nacionais brasileiras. Foram oficializadas em 18 de setembro de 1822”. Portanto, o simbolismo verde-amarelo se sustenta em duas dinastias estrangeiras que se uniram em prol de uma única possibilidade: tornar o BRASIL uma NAÇÃO.

    Ainda segundo o citado pesquisador, o primeiro espetáculo nas cores verde e amarelo foi por ocasião da coroação de D. Pedro, onde “as mulheres vestidas de verde e amarelo jogavam de suas varandas flores à passagem dos novos soberanos”. Poético, né? Nada a ver com orações a pneu, sinais para alienígenas, marchas com políticos nada éticos, acampamentos estranhos e  outras bizarras manifestações. Nada a ver com pregações religiosas que apoiam injustiças!

sexta-feira, 8 de maio de 2026

O SENHOR NÃO SABE LER?

 

Canoa e canoeiros - Travessia Ubatuba-Santos - Arquivo internet


     Francisco Lopes é meu primo e compadre. Se aposentou como carpinteiro. Sempre gostou muito de escutar histórias e também de contá-las. Ah! Foi aluno do professor Joaquim Lauro, na escola do Itaguá.

    Joaquim Lauro, natural da cidade de Lorena, assim que se formou conseguiu emprego em Ubatuba. Era metade do século XX, tempo de raros professores nativos da beira do mar. Por isso esse mestre veio exercer a profissão e fixou moradia em chão caiçara. Sua casa sempre foi ali, na entrada da praia do Tenório, próximo do rio Acaraú. No portão havia uma placa: “Consulado de Lorena”. Os antigos alunos diziam que ele era rigoroso, bravo, sempre disposto a dar um corretivo imediatamente.

     Esse senhor que escolheu viver em Ubatuba pelo resto da vida é sempre lembrado por incentivar as corridas de canoas caiçaras, cujo grande momento foi a longa travessia Ubatuba a Santos, em 1973, para comemorar um fato histórico ocorrido em 1563, no território Tupinambá: a contraditória “Paz de Iperoig”. Cinco remadores (Artur Alexandrino, Carrinho, Jango, Barrosinho e Nilo Vieira) conduziram a canoa Maria Comprida por mais de 200 quilômetros na linda costa atlântica. O ponto de partida foi defronte a capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Depois disso muitas outras provas aconteceram e muita gente se destacou nas remadas. Hoje vamos conhecer, via Chico Lopes, um fato que se deu numa dessas ocasiões festivas do povo caiçara.

 

    Era tempo de regata de canoas no Itaguá. Importantes prêmios seriam distribuídos aos melhores classificados. Joaquim Lauro era exigente, meticuloso nos detalhes e nas regras. Todas as embarcações precisavam ter nomes bem legíveis. Martiniano, um dos competidores, sendo analfabeto de tudo, recorreu ao Chico Preto, filho do Velho Rita, para marcar a sua canoa emborcada logo ali. Assim ficou bem legível na proa: AURORA.  Se aproximando o momento da prova, com algumas canoas ainda sendo desviradas e puxadas do jundu, o professor Joaquim Lauro saiu conferindo tudo. Ao chegar junto do Martiniano, perguntou:

     - Qual o nome da sua canoa?

     A resposta imediata foi:

     - AURORA, o senhor não sabe ler?

     Você consegue imaginar a estrondosa gargalhada de quem estava por perto?


Explicação do mano Mingo: o nome da canoa foi escrito pelo Chico Preto quando ela estava emborcada. Ao ser desvirada, o nome AURORA  ficou de ponta cabeça, difícil de decifrar. As risadas se deram porque era um analfabeto interpelando um professor.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

SENTIDOS, MARESIA...

 


TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS


    O veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa. Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes. Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem  irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles. Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.

    Enquanto o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda, Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:

Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore, nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma embarcação é torná-la viva.

      Pois é! Assim, tal como a viração de fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.

sábado, 2 de maio de 2026

SÓ QUERIA VOLTAR PARA CASA

 

Maré baixa - Arquivo Santiago


     Ao compartilhar o texto COITADO DO BAGANA com o estimado Santiago, o  escritor do Cambury, recebi a seguinte contribuição ao meu ser:


    Quantos caiçaras perderam seu caminho do mar para o caminho das ruas... Uma vez, estava na casa que minha companheira morava, no Itaguá, escrevendo um trecho do COIVARA [livro recente], uma parte que falava sobre caça. Tocaram a campainha interrompendo o trabalho, mas eu parei e fui atender. Era um jovem com uma pequena mochila. Contou que tinha sido destratado pouco antes ao contar sua história e pedir algum dinheiro em troca de limpar o mato.

    A história: ele tinha acabado de ser solto da cadeia e estava voltando pra casa, no Sertão do Ubatumirim. Caiçara. Contou que tinha sido preso por caça. Na verdade nem foi pego com caça, mas com arma sem porte. Levaram. Falou vários nomes do Ubatumirim, contou que o avô morreu na praia do Itaguá. Infarto. Ele queria cinco reais pra pegar o ônibus e voltar. Enxotaram ele. Ele nem precisava contar a verdade, mas fluía naturalmente no jeito caiçara de contar as coisas, com sinceridade e até uma inocência. Sorria. Eu não lembro o nome dele. Dei um café com biscoito, era o que tinha, mas ele nem pediu comida. Só o dinheiro da passagem em troca do servicinho de limpar o mato da calçada. Depois foi embora sorrindo. Eu fiquei pensativo. Estava escrevendo justamente sobre caça, um pequeno trecho. Ele ficou um ano e pouco preso. Só queria voltar pro seu lugar. Turistas o destrataram, xingaram. Ele não ligou. Saiu andando. Até hoje penso sobre esse dia, esse momento. Sua crônica me fez lembrar desse dia. Ele poderia ter se tornado outra coisa na cadeia por uma imposição violenta do sistema que massacra culturas e relega às margens de seu próprio território. Mas ele só queria voltar para casa... E mesmo sua casa já não era mais a mesma, sofrendo essas agruras da desterritoriolização e invasão do capital imobiliário.

Gratidão, Santi!

sexta-feira, 1 de maio de 2026

COITADO DO BAGANA

 

Horizonte - Arquivo Ana


     Era um sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai  dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro. A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”. Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca  de certas doutrinas capazes de conseguir incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos. Seria o caso dele?

    O cidadão em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto, sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.

   - Estou indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns dias com ela.

   Ainda bem que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior, com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos, Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da mesma praia que ele.

   - Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou, arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana que tanto adorava samba.

    Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente.  Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

ESTOU NUM ROMANCE

 

Capa do livro - Arquivo JRS 

PRETO, PRANCHA E PARAFINA 

   O título acima é do novo livro do talentoso Jorge Ivam Ferreira, com apresentação primorosa da estimada Mary Igawa que resume essa obra literária como “uma homenagem explícita a Ubatuba”. Eu assino esta verdade. Segue agora apenas uma isca desse professor que escolheu Ubatuba para viver. (E vem aí o lançamento de Preto, Prancha e Parafina! Dia 08/05, sexta-feira - local: Impact Hub, Rua Guaicurus, 310 (próximo do Aquário). Às 19 horas.

 

     Exupério fica dias no mar. O peixe cada vez mais raro e distante. Agora só resta a saudade daquele tempo em que com qualquer picaré se obtinha uma fartura de peixe. Quem chegasse na hora da puxada de uma rede levava sua baciada de peixe sem pagar nada por eles. Pescador que se prezasse não fazia caso, não olhava feio para quem se aproximasse dos peixes matados. Que cada um pegasse a quantidade necessária para seu almoço ou jantar.

   Nestes tempos difíceis, entretanto, só se fala de escassez da pesca. Se alguém tem culpa, não são os pescadores caiçaras, que nunca se deixaram dominar pela ganância. Eles não são responsáveis pela poluição generalizada do mar e dos rios, pelo aterro de muitos mangues, pela pesca predatória feita por embarcações que vêm de longe com redes que reviram o fundo do mar e arrastam para longe fauna e flora.


    Muita gente conhecida está no enredo. Além do personagem Pedro Piragica, um experiente homem rodado no mundo que optou  em ser um autêntico caiçara, dar sua contribuição nesse chão ubatubense, eu também fui contemplado no romance com mais de uma página. Quanta honra! Gratidão, Jorge!

sexta-feira, 24 de abril de 2026

UM PASSADO TÃO PRESENTE

 

Capa de livro - Arquivo JRS 


     No passado histórico do nosso país, no tempo de D. João VI, alguns reinos europeus criaram a tal de Santa Aliança, uma coalizão militar e política conservadora. Quando digo conservadora, me refiro aos esforços, aos acordos para ser mantidos firmes os privilégios dos mais ricos. Quem sustenta estes? Quem trabalha, lógico! No nosso caso, na inclusão do reino português nessa aliança, o objetivo maior era preservar o Reino do Brasil do contagioso espírito revolucionários.

   Qual espírito revolucionário era esse? Era  a onda republicana e democrática que estava sendo abraçada pelas colônias espanholas na nossa vizinhança. A monarquia absolutista estava sendo defenestrada nos processos de independência no continente americano. Também a Santa Aliança, aliada de D. João, era fundamental para sustentar a continuidade do regime escravocrata que produzia a riqueza do Brasil.

    Olhando a onda reacionária do momento atual, a ação dela nos empobrecidos da nossa terra, quem não enxerga a atualização dos seguidores da Santa Aliança? Eles não querem a soberania do nosso povo, nem de outros mundo afora; desejam riquezas/privilégios às custas de quem trabalha, acham normal as condições análogas à escravidão de tantos homens e mulheres, sobretudo da juventude. Tais resquícios da ideologia da Santa Aliança apressam o fim do mundo desrespeitando todas as leis ambientais e combatendo a maravilhosa diversidade cultural do nosso povo. Seus adeptos são contrários e violentos contra as minorias marginalizadas e qualquer dos programas de inclusão social. Recorrendo aos dispositivos tecnológicos atuais, essa ideologia mentecapta produz uma massa de mentecaptos rebaixada, pois a maioria da população precisa ser mantida com um mínimo de inteligência, ficar privada da razão, da capacidade pensante, do senso crítico.

    No alvorecer da Santa Aliança, a família real portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte, veio aportar no Brasil. A elite portuguesa seguiu junto. Da noite para o dia mais de 15 mil lusitanos “invadiram nossa praia”. O saudoso professor Hércules Cembraneli se referia a eles como "a cambada de D. João, o séquito da rainha louca”. Agora, lendo a obra D.Leopoldina, de Paulo Rezzutti, fiquei sabendo que Carlota Joaquina, esposa do príncipe regente, foi trazida à força para o Brasil. A digníssima de D. João não queria vir porque “considerava o país uma terra de escravos e de macacos”. Dois séculos já se passaram, né? Ainda assim, nessa ideologia continua agindo e pensando a elite do atraso, conforme a denominação do sociólogo  Jessé Souza. Seu livro A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro, segue atualíssimo graças a uma porção de gente nossa que prefere fazer parte da classe de mentecaptos rebaixada.

     Somente é possível acreditar numa liderança popular, proveniente da classe trabalhadora, que leva às últimas consequências a frase: “a nossa cabeça pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam”. Os seguidores da versão atualizada da Santa Aliança seguem o principal da versão primeira: precisa haver escravos para se manterem como minoria dominante. Por isso a destruição da natureza é normal, leis trabalhistas não são necessárias etc. Fim da escala 6x1? Nem pensar!

domingo, 19 de abril de 2026

MASSA DE AR FRIO

Céu de outono - Arquivo JRS 

    Mano Mingo, olhando o céu claro, fica inspirado. Eu, aguardando o céu clarear, me viro de lado.

Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



sábado, 18 de abril de 2026

SONHOS E CICATRIZES

 

Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS


    Os primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.

    Dizem os especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.

    Pelo que me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida. Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice, queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica. Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram.  Tenho certeza de que o meu primo também tem essa cicatriz.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

EU JÁ RODEI TRECHO

 

Borboleta no terreiro - Arquivo JRS 


     Eu, bem cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas, carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.

   Olímpio, amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela ditadura militar. Era quase  final de 1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta, da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador. Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”. “Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei trecho, tenho histórias para contar!”.

terça-feira, 14 de abril de 2026

QUEM ESPIAVA?

 

Época de pinhão na Mantiqueira 

Francisco, o Chagas - Arquivo JRS 

    Francisco, mais chamado de Chagas, sempre viveu do mato (desde cortar lenha até coletar pinhão de março em diante, acabando no principiar do inverno). Dele me veio o convite de conhecer um mínimo trecho da Mantiqueira, da mata das araucárias. Fui com satisfação, prestando muita atenção em tudo porque aprender nunca é demais.

    No começo da trilha Francisco tirou o boné e pediu a proteção divina e licença ao último morador daquele local. Bem pouco andamos e já avistei uma casa no mato. Era visível o abandono. "Quem morava ali, Francisco?". "O Tinoco Cipião até dois atrás ocupava aquele lrancho. Depois que morreu, levaram ele para o cemitério. Olha só: em vida só conheceu a lida na roça, vivendo das coisas da mata. Nunca saiu deste lugar. Agora, depois de morto, se mudou para a cidade. Tá lá, na terra dos pés juntos". Não pude deixar de rir  do inconformismo  do meu guia.

    Já ouvi dizer que Mantiqueira é serra que chora. Logo apareceu a primeira água. Pouca, mas filete transparente. Me detive para apreciar, ver uma pequena lagoa. "Que maravilha, né Zé? Este rego era o rio dele. Nele Tinoco se servia para tudo". "Vivia sozinho esse Tinoco?". "Vivia sim. Nunca teve família nesse tempo todo. Só ia uma vez por mês na cidade para receber dinheiro da aposentadoria. Foi a causa da morte dele. Assim se deu: uma ocasião, gente ruim que já sondava, sabia da rotina mensal do coitado, e, numa data de pagamento, lhe fez a maldita visita. Matou o pobre e roubou-lhe a mixaria". "Triste demais".

     Deixamos os sinais dos viventes e nos entranhamos na mata. Entre baixadas e espigões, as velhas araucárias nos proveram com frescos pinhões. Fomos catando aos seus pés os frutos lançados por seus braços. De repente uma poça maior de água remexida: "A porcada passou por aqui faz pouco tempo, Zé". "É mesmo? Só digo uma coisa, Francisco: é muito bom andar em sua companhia!".

    No fim da jornada, Francisco perguntou: "Sabe quem espiava a gente o tempo todo ?"


sábado, 11 de abril de 2026

O BOI COSÉ

 

Primeiro loteamento na Lagoinha - Arquivo Ubatubense

Ruinas da Lagoinha - Arquivo Fundart

Bois na praia - Arquivo internet


   Seo Porfírio, nascido e criado na praia da Lagoinha, neto (ou bisneto?) “de escrava fugitiva do fazendeiro da Caçandoca”, contava muitas histórias, sobretudo depois que teve a perna amputada e passou a ficar mais tempo na cadeira de rodas, morando com o filho Juventino, na rua Gastão Madeira, no centro da cidade. Eu, sempre que surgia uma oportunidade, me detinha e sentava na calçada para ouvi-lo. Hoje, o principal desta crônica é o boi Cosé. Pelo que me foi contado, era muito estimado este animal. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa desse descendente da guerreira Gertrudes.

 

   Quando eu nasci quase tudo ali era mato, com quase nada de casa. Só havia caminho pelo jundu porque na maré cheia não se podia passar pela areia da praia. As poucas roças ocupavam os morros porque o resto era areia quente ou alagados de taboas e caxetas. As ruínas já estavam há muito tempo abandonadas de tudo. Mais tarde tentaram plantar bananeiras, vender frutas para os ingleses, mas veio o tempo da guerra e tudo foi largado. Aí trouxeram gado, poucas cabeças. Produziam leite, faziam queijo, matavam de vez em quando para negociar carne. Quase ninguém comprava porque não havia dinheiro. Com o tempo os animais foram envelhecendo, ficando largados, sem rumo. Poucos foram levados para outro lugar. O resto morrreu de velhice. Andavam por onde queriam, entravam no mar, se banhavam na barra, comiam capim do jundu... Cagavam onde batia a vontade. De vez em quando a criançada atentada montava num deles e saia se sacolejando. Não tinha nenhum animal bravo. Um deles, todo preto, o Cosé, adquiriu um costume engraçado: se aproximava quando percebia que alguém se preparava para sair mar afora, parecia querer ir junto na canoa. Acompanhava com os olhos até a pessoa desaparecer no mar. Se alguém fosse remando até a Maranduba, na rota paralela à praia, Cosé seguia o rumo caminhando na água salgado, com ondas quebrando nas canelas. E ia mesmo! Chegava lá junto com a embarcação! Só voltava de lá quando o remador fazia o mesmo.

    Cosé morreu de velho, foi enterrado defronte ao ilhote do Pontal. Ali, onde mais tarde apareceu uma área de acampamento para veranistas. Deve existir ainda hoje uma árvore grande naquele lugar. Para nós era a Figueira do Cosé.

 

Notas: 1- O caisão da ponta Grossa, em Ubatuba, foi construído para servir de porto na região e estimular a bananicultura emergente na primeira metade do século XX.  A Segunda Guerra Mundial a fez submergir prematuramente neste município.

            2- A área para acampar, onde estava a Figueira do Cosé, abrigou anos depois da abertura da rodovia entre Ubatuba e Caraguatatuba, o Camping Club do Brasil (CCB).

 

  

sexta-feira, 10 de abril de 2026

JANGUINHO E SANTANA

 

Rancho dos pescadores - Arquivo JRS


 

   - Era feriado, dia de festa. O lagamar, desde a barra até o porto da nossa capela, estava tomado de gente. Era um mundaréu só. Um foguetório traduzia a alegria geral e a curiosidade do nosso povo. Era a visita do presidente da república, do nosso presidente que, depois de passar pela ilha Anchieta, veio até a cidade. O navio dele ficou fundeado bem lá fora.

   - Faz tempo isso, Janguinho?

   - Ah, faz muito tempo! Antes do tempo do presidente Getúlio Vargas, eu era bem novo ainda. Depois disso, que eu me lembre, festança maior só em 1948 quando o Guisard, inaugurou a luz na cidade. O prefeito daquele tempo era o doutor Alberto. Até o bispo de Taubaté, Dom Idílio, veio para prestigiar o evento.

 

   A prosa acima aconteceu no começo da década de 1980, quando eu já morava no bairro da Estufa II. A praia do Itaguá era o nosso principal ponto de encontro. Aos domingos, era comum ver todo mundo por ali aproveitando bem o mar e a areia. Tudo era limpo!  Na ocasião acontecia uma corrida de canoa marcando os festejos da capela do Itaguá. O professor Joaquim Lauro era o grande incentivador dos festejos. Eu, claro, aproveitava para ouvir histórias dos mais velhos. O casal Janguinho e Santana (a parteira da comunidade) estava na vez: um ajudava o outro nos detalhes da narrativa. Quando eu ouvi o nome do bispo, entendi porque algumas crianças caiçaras receberam o nome de Idílio. Ao menos dois me aparecem na mente: um no Perequê-mirim e outro no Sapê. Dar nomes aos filhos se guiando pelo santo do dia no calendário, assim como homenagear recém-nascidos com nome de autoridades eclesiásticas, fazia parte da religiosidade católica caiçara.

    Pois é! Bem mais tarde eu encontrei uma imagem da época onde o citado bispo oficializava a missa solene recordada pelo saudoso casal do Itaguá. Era no Cruzeiro, na avenida Iperoig. Havia mesmo uma multidão!

Nota: a inauguração da energia elétrica em Ubatuba, no ano de 1948, se deu pelo esforço da Companhia Taubaté Industrial (CTI), do Félix Guisard, dono do Casarão na época. Porém, a cidade cresceu e foi preciso que a companhia estadual de energia (CESP) estendesse uma rede mais potente via serra de Caraguatatuba, na década de 1960. Eu, bem criança, na praia do Sapê, me recordo de homens e máquinas estendendo fios e postes sobre as picadas abertas nas matas. Como eu tinha medo!

sábado, 4 de abril de 2026

A FOME TEM PRESSA

 

Arco-íris no crepúsculo - Arquivo JRS 


     Tudo o que conseguimos e somos é resultado, para citar o cientista Sidarta Ribeiro, de “sonho noturno ou devaneio diurno”.

     A existência da breve trajetória da sociedade humana na Terra, nessa teoria, nessa dinâmica noturna e diurna, se deu – e segue! – cavando caminhos (criação de ferramentas, desenvolvimento da comunicação, invenção de máquinas, organização de instituições e leis etc.). Se detendo no contexto mais atual, no mais de meio século que eu me entendo por gente, posso afirmar que são as narrativas que resultam em modelos sociais mais egoístas ou mais solidárias; mais injustas e com pouquíssimos privilegiados ou mais justas e mais fraternas, que garantam felicidade ampliada à humanidade.

   Eu penso que a nossa vida pode ser relacionada a uma viagem variável conforme os contextos, as condições: quando criança arriscamos passos sem pensar, quando a idade vai pesando medimos as nossas possibilidades, os nossos limites para até mesmo uma simples caminhada. Tememos ficar pelo caminho devido uma lesão ou mesmo por fraqueza natural nos músculos e órgãos.

   Comparando a nossa vivência a um deslocamento, a uma viagem de ônibus, por exemplo, pode ser que o veículo enguice na estrada, sendo inevitável o nosso desembarque, a tomar outra condução, seguir um trajeto alternativo para chegar ao destino almejado. Pode ser que sejamos levados a rever/refazer o projeto, o plano do início. Pode ser! Tal como é possível de acontecer numa viagem, passageiros podem ficar pelo caminho, decidir por um atalho, dar uma volta maior, escolher ou descartar companhias etc. Mediante os imprevistos alguém pode dizer: “Posso demorar, mas hei de chegar lá, não vou desistir”. Também pode acontecer de alguém desistir, se arrepender da jornada: “Desisto porque acho que não vou conseguir”.

   A nossa viagem nesta humanidade continua se sustentando nos fracassos e sucessos. Tem momentos da esperança estar mais forte, mas há instantes de esmorecimentos. O cientista brasiliense acima citado nos ajuda com uma passagem do seu livro O oráculo da noite:

   A expansão gradual da capacidade de contar histórias e viajar mentalmente no tempo foi o combustível da explosão cultural humana nos últimos milênios [...] O fato é, que em algum momento da nossa história recente, começamos a ser capazes de formular narrativas de futuro com base no passado.

  Portanto, se no passado tivemos exemplos cruéis de sociedades, por que repeti-los?  Se determinados perfis políticos tendem brigar por um modelo excludente, perverso, por que elegê-los para nos representar? Qual a nossa atitude ao estar convicto de que “a impunidade torna os maus ainda piores”, conforme escreveu Platão há dois milênios e meio? Ainda bem que os bons são a maioria!

   Betinho, que dizia que a fome tem pressa, numa mensagem ao seu saudoso irmão Henfil escreveu isto: “Você vai torcer aí do Céu e nós vamos votar aqui na Terra para ver se a democracia funciona para melhorar a vida de nossa gente”. Eu quero que a minha parte na viagem seja feliz e alimente positivamente a esperança da nossa gente: esta é a minha espiritualidade. Amém nós todos!

sexta-feira, 3 de abril de 2026

EU NASCI NO SAPÊ

 

Tio Antônio do Prado - Arquivo Marcos

Maranduba e loteamento - Arquivo Ubatuba


    Lendo um texto e vendo imagens postadas pelo primo Marcos, descendente do tio Basílio, da praia do Pulso, chão que também viu nascer vovó Martinha no começo do século passado, senti uma vontade de escrever em torno de algumas lembranças que tenho da praia do Sapê, onde eu e mais irmãos nascemos pelas mãos dessa mesma vó, a parteira da região na época.

   A nossa casa, vizinha do Andrelino e Jorgina, do outro lado do areião da tia Rita Carlota, em cuja casa eram ministradas aulas para as meninas, era bem simples, como todas daquele tempo. Outros vizinhos mais próximos: tia Livina, Nié, Zé Balio e Deolindo. Um pouco mais longe moravam João Paulo, tio Totô, Dioclécio, Tonico, João Firmino, tio Chico, Jonas, Paulo e Tião Plácido. Meu pai foi o construtor da nossa primeira moradia, contando com ajuda do João Oliveira e outros parentes. Nela nós nascemos e passamos alguns anos da infância, mas mamãe, que se engraçou com papai enquanto trabalhava no Hotel Picaré, na barra do rio Maranduba, sentia a necessidade de estar perto dos pais, moradores na praia da Fortaleza. A solução foi vender a propriedade e se mudar. Quem comprou? O tio Antônio do Prado, da tia Santa. A nossa primeira casa se tornou o lar deles. Assim deixamos o chão do Sapê, onde moravam nossos avós (Estevan e Martinha). Não me recordo do preço, mas sei que  por alguns meses meu pai se deslocava da Fortaleza até o Sapê para receber uma quantia nas notas promissórias. Era o tio Ângelo, cuja venda no Largo do Sapê competia com o armazém do João Pimenta, quem efetuava o pagamento pelo concunhado. No  morro da Fortaleza foi construída a nossa segunda moradia. Lá do alto, entre roçados, avistávamos o grande mar, as ilhas e as praias mais próximas. Foi onde nasceu o mano Clóvis.

     Naquele tempo, meados de 1960, já estava consolidado o primeiro loteamento na praia da Maranduba. Meu pai se referia a um tal de Nagib como responsável no empreendimento. O rio todo sinuoso, com um farto manguezal onde meu povo caçava guenzo e outros seres para comer, foi tornado reto a fim de mais lotes surgirem. Posso dizer que ali se formaram os primeiros pedreiros, os construtores caiçaras. Hoje tudo está tomado pelas edificações, sobretudo aquelas destinadas aos turistas. A região, sem rede de esgoto, resulta em grande parte da sujeira rompendo fossas, seguindo para o rio e o mar. Sem dúvida nenhuma que a feiura e os crimes ambientais imperam!  Afirmei à amiga Carolina, preste a lançar um livro mostrando anciãos caiçaras seguindo mantendo práticas artesanais, que a abertura das rodovias (Ubatuba-Taubaté, Ubatuba-Caraguatatuba e Ubatuba-Paraty) foram as responsáveis pelas enormes mudanças na cultura local, no modo de vida dos caiçaras. Antes disso, para conseguir melhores condições de sobrevivência, meu povo se dirigia à Baixada Santista com o objetivo de ser contratado para trabalhar no porto ou nos bananais. Éramos migrantes lá - a nossa Meca! - tal com segue sendo a nossa Ubatuba para os mineiros, nordestinos e outros em tempos mais atuais.

terça-feira, 31 de março de 2026

PEIXES BOBOS

 

Beira de rodovia - Arquivo JRS 


   Tempos desses, estando no ponto do ônibus, no Saco da Ribeira, escutei o seguinte diálogo entre dois trabalhadores. Estavam indo para casa depois de um dia na labuta:

       - Disseram que aquele lago, onde puseram peixes bobos, desses que nem sei se alguém come, serviria para verificar a pureza da água depois de tratada. Foi esta a afirmativa do engenheiro.

     - Pois é, foi assim mesmo. Se os peixes não morressem, era sinal que a obra, de apartamentos caríssimos bem dizer em cima da praia, não estaria prejudicando o entorno e o mar, fim do destino do esgoto tratado.

     - E o que aconteceu depois de receber a tal água tratada? Tudo morreu, a superfície ficou assim de peixes mortos ou estrebuchando. Não deu certo a experiência do lago.

    - Então...o tal tratamento não deu certo, né? E vai ficar assim mesmo. Que se dane o mar.

 

    Noutra ocasião, viajando por aí, apreciando paisagens, notei que beiradas de estradas estavam com mato amarelado, tipo queimado. O amigo Francisco explicou: “É veneno borrifado por empresas terceirizadas na preservação da rodovia. Fazendo isso, elas diminuem os custos com contratação de funcionários, mas cometem crime ambiental. Afinal, o veneno borrifado se dispersa com vento, contamina o solo, envenena grãos e folhas que os pássaros e demais animais comem. Caso haja alguma árvore frutífera (goiabeira, pitangueira, laranjeira...), também os seres humanos podem ser afetados, contrair doenças”. Portanto, concluo eu:

     Ao ver esses vestígios em suas andanças, se manifeste contra, denuncie quem está praticando tal absurdo, cobre das autoridades sanitárias alguma atitude desse avacalhamento na prestação de serviços públicos. Não esqueça: desde o ínfimo ser até o homo sapiens existe uma interdependência vital. Pensar nesta perspectiva pode ser o início de uma transformação fundamental na existência, na sobrevivência neste planeta. Não eram “peixes bobos” que foram mortos pelo empreendimento! Quantas vidas, inclusive as nossas,  continuam sendo destratadas assim?

sábado, 28 de março de 2026

BANCO DA PRAÇA (II)

 

    



     Quando avisto um espaço religioso, inclusive aqueles mais perseguidos pela ignorância/intolerância de tanta gente, reflito sobre o significado do mundo superior, do Reino Divino. Para Jesus, figura de proa da religiosidade caiçara, o Reino se compara a um imenso banquete. Portanto, ele é sinônimo de justiça plena porque todo mundo deveria estar ao redor da mesa.

   É em torno de uma mesa que se entabulam conversas e relações são aprofundadas. Sinal do Reino é famintos serem saciados. Afinal, nessa grande mesa, nesse banquete, haverá partilha plena entre quem tem e quem vive na necessidade. Cada liderança religiosa, de qualquer credo que almeja um mundo melhor, deveria ser depositário dessa tarefa, dessa partilha. Em uma passagem do Novo Testamento (Atos 4.36-37) está grafado a respeito de um cidadão: "levita originário de Chipre, possuía um campo; ele o vendeu e trouxe o dinheiro para depô-lo aos pés dos apóstolos". A estes coube papel de líderes, naquela ocasião, de serem orientadores da partilha.

      Quando podemos comer e beber juntos, reforçamos nossas relações, decidimos os melhores caminhos para a humanidade. Não é por acaso que os que têm fome são chamados de "bem aventurados". Quando isto não está no nosso horizonte, alguma coisa está muito errada; de nada adianta frequentar os cultos, seguir os sacramentos, fazer sacrifícios etc.

      Na história, sobretudo na atualidade, como estão se comportando aqueles que se dizem "escolhidos de Deus", “sacerdotes e sacerdotisas das divindades”, "fiéis seguidores dos mandamentos"? Preferem a paz ou idolatram os que promovem as guerras? Repartem o pão ou chutam os mais necessitados? No fundo, eu me esforço por acreditar numa espiritualidade que busca o "ter tudo em comum segundo as necessidades de cada um". Deveriam estar neste rumo, remar nesta direção, as exigências das Boas Novas anunciadas pelas religiões.

sexta-feira, 27 de março de 2026

BANCO DA PRAÇA (I)

 

A igreja

A praça e a igreja - Arquivo Ubatuba


       Até meados do século XIX, segundo o cronista histórico Washington de Oliveira, o Filhinho, não havia em Ubatuba nenhum templo ou associação religiosa evangélica. Foi em 1868 que chegaram às mãos do português José Joaquim Fernandes de Lima, guarda-livros de várias firmas comerciais e depois comerciante estabelecido por conta própria, os primeiros folhetos evangélicos, contendo sermões do Reverendo Ryle, um influente líder anglicano inglês. Esse  cidadão lusitano, portanto, foi o precursor do protestantismo na referida cidade litorânea. Na sua casa - que ainda existe! -, agora como ponto comercial depois de muitas reformas, situada na esquina defronte ao Cruzeiro (Avenida Iperoig com a rua Condessa de Vimeiro), em 1877 aconteceu a primeira pregação feita pelo confrade Cândido Joaquim de Mesquita. Em 28 de novembro, o Reverendíssimo Antônio Trajano, a convite dos fiéis locais, foi quem inaugurou a Igreja Presbiteriana.

    Conta-se que José Joaquim Fernandes, que está na base dos presbiterianos em Ubatuba, enamorou-se de uma jovem católica, cujo casamento, por imposição da família desta, só se realizaria se ele renunciasse à nova religião e recebesse sua pretendida esposa aos pés do altar, com todos os sacramentos da fé católica. O amor venceu. No sábado aprazado, com grande manifestação de júbilo por parte da grei católica, José de Lima e Maria receberam-se em matrimônio pela Lei de Deus, na Igreja Matriz local. O amor venceu, é verdade, mas...por pouco tempo. No dia seguinte, domingo, o venturoso par caminhou de mãos dadas para a Igreja Presbiteriana, na qual ambos se integraram, convictos, e da qual nunca mais se separaram.     Na verdade, o amor deles estava acima de qualquer denominação religiosa, onde essa ou aquela outra não poderia resultar em separação.

    Eu pensava tudo isso enquanto repousava num banco olhando a Igreja Presbiteriana, bem perto da cadeia velha, hoje Museu Washington de Oliveira. Daí lembrei de uma colega de ginásio, cujo pai era pastor presbiteriano na década de 1970. Também me recordei do casamento do Sérgio Coelho e Fátima naquele templo de tantas histórias. Serginho, o primeiro filho deles, foi-me dado como afilhado. Quanta honra, minha gente!