sábado, 4 de julho de 2026

INFERNOS EM PARAÍSOS

 

Entardecer - Arquivo JRS 

      Céu e Inferno são conceitos saídos da mente humana; projeções de bondade e de maldade, partes da nossa existência. Sim, todo mundo está sujeito a momentos de paz e de angústia! Uns lutam por um mundo melhor, outros idolatram as injustiças. "Investimentos" em Céu e Inferno é sina nossa, de humanos a escolher caminhos.

       Depois de três décadas voltei a ler Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. É impressionante como o viver confinado leva a pessoa a dar atenção a tantos detalhes, elaborar tantas possibilidades acerca de si mesmo e dos outros.

    Quando alguém lhe falou das vantagens da autocrítica, o autor respondeu sem refletir: "Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conservá-los todos com muito cuidado. Se meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei noutro. Quero guardá-los, não perder um". Tava de saco cheio, né?

   Seguindo na leitura deduzi que, quando se está numa prisão, qualquer descrição vira uma imagem muito marcante. Como não sentir nada, mesmo não tendo passado pelos sofrimentos de um "rebanho de criaturas em um curral de arame farpado"? Como não sentir o inferno diante de "um sujeito sem as unhas dos pés que foram arrancadas a torquês"? Quem não sente nada testemunhando "dorsos lanhados, carne sangrenta, equimoses vermelhas, azuis, pretas"?

    Pois é! Assim o paraíso da Ilha Grande, no litoral fluminense, foi transformado num inferno rodeado de água. Assim também fizeram com uma ilha em Ubatuba, transformando-a em Colônia Correcional da Ilha dos Porcos. Mudar-lhe o nome para Anchieta não apaga as crueldades que tanta gente viveu ali. Era inferno localizado no paraíso. Pode isto?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÁLVARO VENTURA

 

Álvaro Ventura - Arquivo internet

        Prosseguindo na Memórias do Cárcere, eu me detive nesta passagem deixada por Graciliano Ramos:

        "O mais perfeito gentleman que vi foi Álvaro Ventura, homem lento e gordo, estivador em Santa Catarina, o primeiro comunista eleito para a câmara federal. Tinham-lhe suprimido o mandato, e vivia conosco, aguardando o lugar na Colônia Correcional".

         Ao ler o nome desse comunista, cidadão do litoral catarinense que pertencera à Irmandade do Senhor dos Passos e à luta sindical, me recordei de uma palestra proferida por Elias Stein, militante metalúrgico de Santo André (SP), quando soube desse político catarinense: foi o primeiro deputado federal eleito pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1933. Dentre muitos ofícios, era estivador e chegou a ocupar o posto de secretário-geral do PCB. Em 1935, após o levante da Aliança Nacional Libertadora, foi cassado e preso, tendo de viver depois muito tempo na clandestinidade.

   De acordo com a sobrinha-neta, Maura Soares, "as  convicções políticas de Álvaro o afastaram de alguns familiares, mas nunca das ações que provavam sua honestidade e fé na justiça.  Em 10 de julho de 1989, aos 96 anos, deixando filhos, netos e bisnetos, Álvaro deu adeus ao mundo que ele acreditava que um dia iria melhorar".

   Seguindo na leitura do livro, um pouco mais adiante Graciliano faz nova referência ao nosso personagem:

    "Espantava-me de perceber em Ventura, um estivador, as maneiras corretas e a afabilidade que me habituara a distinguir no médico. Esquisito. A prisão nos sujeitava a duros abalos e surpresas constantes".

     Pois é! Quem diria! De Santa Catarina saiu o primeiro deputado federal comunista. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUE DESASSOSSEGO!

 

Ninho ao vento - Arquivo JRS 

      Tem gente que ouve as notícias, mas faz pouco caso das nossas indignações, diz que são bobagens, que estamos espichando brigas etc. Eu digo que tipo assim está aquém da minha insuficiência mental; é dotado de incapacidade de enxergar só um pouquinho a mais da rotina que se apresenta;  não quer admitir as articuladas narrativas favoráveis à classe dominante, contra os pobres. Tipo assim, digamos que são paredes escuras com pretensão de delimitar, de circunscrever nossos pensamentos, palavras e ações. Ou ainda: rio caudaloso que tenta carregar as reses, levá-las ao matadouro. Que desassossego!
         A fadiga é notória em alguns rostos; traços deformados se agonizam. Ser reacionário, ser contrário à vida digna para todos vai se tornando epidemia. Cadê aqueles sinais luminosos do horizonte, aquela utopia de Eduardo Galeano? O que está se repetindo muito,, coalhando no entorno (próximo e/ou distante), são víboras empeçonhando prosas. A cada meia dúzia de passos uma provocação inútil. Ouso ser desagradável. Quem dera fosse mais meticuloso! Quem tem paciência demorada para aguentar falação alienada? Em contexto assim não há injúria sem motivo. Disse a um pobre como eu: "Que ridícula safadeza este seu caminho, né?". Aspereza minha? Pode ser. Estupidez necessária? Pode ser também. Meu grande desejo é ser/ver gente vivendo uma vida digna, feliz desde já. No entanto, cresce entre nós o desejo de oprimir, de se apoderar da vida dos outros; de compactuar com a morte através das injustiças,  de eleger quem desmerece a classe popular e as minorias sociais.
        Que satisfação ao me deparar com gente enxergando além das notícias! Ainda bem!

terça-feira, 30 de junho de 2026

INÊS CAFÉ

 



      Agradeço ao jornalista Alberto Villas pela inspiração deste humilde texto. Era um fim  de tarde e eu  me encontrava num recanto sossegado da cidade, ali na praça, perto de uma mesa de concreto com um tabuleiro caprichado em cerâmicas pretas e brancas. No momento quatro pessoas jogavam baralho, cena típica de cidade do interior. Naquele pedaço da cidade nada se destacava mais do que o Inês Café. 

      Dei um sobressalto por conta de uns estampidos de fogos a anunciar a vitória do Palmeiras sobre o Mirassol. Em seguida, tomando um café muito saboroso, prestei atenção em um jovem discursando aos demais:


     "Quem daqui não acompanha um pouco da agitação política em Brasília? Quem daqui não sente a falta que faz mais cabeças pensantes, capazes de perceber o tanto de deputados e senadores que são votos comprados pelo poder econômico? Gente de honra duvidosa, sem dúvida!

       De vez em quando alguém repete esta frase besta de que "cada povo tem o governo que merece". Ora, ora, ora. O povo é como é, mas é capaz de exercitar mais o pensamento, desenvolver o senso crítico, ser uma 'pedra no sapato' desses políticos. É isto que os manipuladores políticos não desejam. 

     Quem vai aturar um povo leitor, que busca lazer de boa qualidade, adora artes etc.? Quem vai enfrentar um povo exigente, capaz de se posicionar contra os desmandos e as injustiças de uma minoria parasita a viver às custas da classe trabalhadora?

     O povo não merece quem apenas age no desejo de enriquecimento fácil, via desvio de verbas públicas. O povo não deve se conformar a essa ignorância planejada, na finalidade de gerar sempre ingênuos úteis.

  Quando o povo se manifestará contra essa política nefasta? É difícil? É sim! Nada que valha a pena é fácil!".


         Muito boa a fala do rapaz! Alguém discorda? Duas ruas depois do Inês Café,  lendo na calçada um livro achado, um sofredor de rua me mostrou o título relativo a alguma mente milionária. Pode isso?







sábado, 27 de junho de 2026

PESADELO A BORDO

 

Olympio e as crianças - Arte do Guinho



Na borda um menino quieto;

Barco balançando, balançando, balançando...

Reparei melhor: menino empalamado.

(Porque o  vai e vem assim o deixa).

Ar que muda,

Rente ao costado só espuma;

Mais abaixo fosforescência.

Vento no rosto,

Tontura insistente:

Pesadelo de gente.


Menino  empalamado;

Frio e calor medonho.

Tudo embrulha o estômago;

O rosto amado permanece

(Porque está tatuado na alma).


Ar repleto, cheiro de maresia.

Lá fora ninguém perceberia,

Aqui tem imenso valor.

Depois das bordas tudo é água.


Tudo passa, só a tontura é insistente:

Pesadelo de gente.


Assim, empalamado,

Como reparar nas belezas

Insuspeitas do horizonte?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

DRUMMOND NO PRATO

 

Sopa de letras - Arquivo JRS 






    UbatubaO ano era 1974,  eu estava na qui.nta série ginasial, no "Capitão Deolindo", com muitos professores espalhados em um tantão de disciplinas. Na cadeira de Língua Portuguesa, o mestre era o saudoso José Wilson. Eu, tendo herdado o livro didático deixado pela mana Ana (que estava a uma série adiante), me encantava pelos poemas e narrativas breves, cujas ilustrações se compunham em traços simples de duas ou três cores. Carlos Drummond de Andrade sempre foi um dos meus preferidos. Um de seus poemas me introduziu na imaginação de alguém sem muita fome e desanimado com realidade do país, escrevendo o nome de uma pessoa querida com letras de macarrão, na borda do prato.

       Passaram-se anos, meio século para ser mais preciso, até que, recentemente, numa noite fria, minha esposa caprichou numa sopa. De macarrão de letrinhas, acredita? Aí me veio a vontade de repetir Drummond no meu prato. Mari..., na ilustração daquele livro didático, me conduziu ao nome Maria. Contei a história à minha Gal: "A Maria de hoje, aqui na borda, é a nossa estimada filha!"


Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçadas na mesa todos contemplam

esse romântico trabalho.


Desgraçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!


- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!


Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências 

um cartaz amarelo:

"Neste país é proibido sonhar".


Em tempo: o quadro seguinte mostra os leitores do blog nesta semana (aqui e em alguns lugares mundo afora).




GENTE QUE ADMIRO

 





Nise da Silveira 

        Na minha adolescência, quando estava lendo O Alienista, de Machado de Assis, pensei bastante em torno do nosso contexto caiçara de Ubatuba. Afinal, a narrativa tem como ambiente outra cidade litorânea: Itaguaí, no litoral fluminense. 

       A obra literária em questão me remetia aos casos de gente nossa que, claramente, tinha algum descompasso mental. Durvalino, Celestino, Zé Maria, Chiquinho, Filizardo, Isolete, Janguinho e outros seriam mirados primeiro pelo doutor Bacamarte? Certamente! Só mais tarde, lendo a respeito de Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana, compreendi que havia outras formas de tratamento aos doentes mentais. Mantê-los integrados na comunidade era o jeito normal caiçara, mas a Nise inovou porque incluiu a arte, a interação com animais e outros aspectos como tratamento. Por conta dela, um movimento renovador da psiquiatria se desenvolveu no Brasil bem antes de muitos países.  Mas essa postura inovadora, que tanto nos orgulha, resultou em  sofrimentos a essa grande mulher: foi perseguida  porque era suberversiva, queria uma forma de tratamento que não fosse a violência imposta pelo Estado. Na década de 1930 esteve enclausurada em presídio de segurança máxima, no Rio de Janeiro. Dela, no livro Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos registrou o choque ao se encontrarem presos, bem longe de sua terra natal: 

      "Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiróz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia criatura mais simpática. O marido, também médico, era meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me num vivo constrangimento".

     Quanta gente boa foi castigada por querer uma sociedade diferente, mais solidária e igualitária? Quanta gente nossa foi sacrificada por conta de ideais revolucionários? Quantas mulheres e homens seguem, no Brasil do presente, passando por martírios, sofrendo difamações na luta contra as injustiças?

   





quinta-feira, 25 de junho de 2026

QUASE CIVILIZADO

 

Garça - Arquivo Santiago 

      Eu ia sossegado pela estrada, reparando nas tinticuias que já estavam sem as lindas flores, quando avistei a casa amarela. Agostinho mora ainda ali. Fala muito esse meu conhecido. Fala muito! Parece que a única pressa nele é falar, falar, falar... Por isso, quando estou angustiado, precisando resolver rápido alguma coisa, até me desvio do seu caminho, finjo que nem o enxerguei. Quem vence a loquacidade dele? Tenho pena da sua esposa. Coitada. O jeito é soltar-lhes as rédeas, deixar que bata pernas rua abaixo e rua acima. Me recordo dele agora, neste momento que sigo tentando chamar o sono.

      Agostinho agora é aposentado. Fazia o quê mesmo? Ele já me contou, mas entre tanta falação, eu tenho o costume de me desligar. Um lampejo: já prestou alguns serviços ao bairro, fez essa ou outra obra por aí. Na sonolência tudo se embrulha na memória, mas quase nada de visões concretas. As costelas doem por conta de alguns movimentos exagerados no dia de ontem. Também, na última oportunidade, o Agostinho se queixava de "dor nas cadeiras". Eu, na intenção de encurtar o assunto, apenas afirmei que a nossa vida vai se diluindo, que é assim mesmo etc.

     Logo vai amanhecer, penso. Porém eu continuo passeando entre farrapos de retalhos da realidade e de sonhos. Só me resta começar o dia antes da  aurora. Um café há de cair bem enquanto a curruíra e outros passarinhos começam a festejar a claridade vindoura. Que café gostoso! Um galo próximo cantou; outros mais distantes responderam. 

    Acabei o meu café com barulhos só aumentando. Veículos bem barulhentos. Alguns sem-noção da vizinhança e com mínima educação têm um custo a cada despertar do meu ser: devo exibir uma aparência de alguém mais ou menos civilizado. Agora, dia de tudo, sigo arreliado.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

OS CACHORROS

 


Caetano - Arquivo JRS 


Tem gente sem terra nenhuma 

Tem gente com terra demais

Tem gente fazendo a guerra

Matando em nome da paz

(...)

Terra só de poucos donos

De todo mundo será 

O homem vai ser o patrono 

De tudo que cultivar


     Neste espírito da composição do Catoni, eu saí para mais uma breve convivência com quem lida com a terra, nela se sustenta.

     O dia ainda não tinha amanhecido quando cheguei na roça do Caetano. Os três cachorros me receberam na maior alegria, sabiam que eu sempre tenho uns pãezinhos para o agrado. A preta, parecendo mestiça com raça grande, é mãe da amarela. A terceira, faltando uma perna, apareceu um dia vindo do Monte Valério, distante uns quatro quilômetros. Mesmo que o dono tenha vindo buscá-la várias vezes, ela retornou na caminhada difícil quase que imediatamente, no mesmo dia. Isto confirma o dizer de que "são os cachorros que escolhem os seus donos". Caetano concorda, acha que é mesmo. "Toma café, Zé. Tem farofa ali".

     As verduras, como sempre, estão lindas. Qual adubo? Restos de folhas, de cascas, cabeças e tripas de peixes e mais coisas vão se misturando e resultando num alimentos ótimo para a lavoura. O resto é dedicação de alguém sensível,  que não deixa de buscar conhecimento e de captar as vontades do chão. O assunto de vez em quando dá uma guinada: "Você sabe o que é bom para acabar com frieira brava e até mesmo doença de unha, Zé? É folha de pessegueiro! Faz um chá e lava o local. Num instante acaba tudo". 

   Como  é bom conviver com essa gente que ama a terra, os bichos e aprender tantas coisas! Gratidão, Caetano!

    Viva a sabedoria popular!

terça-feira, 23 de junho de 2026

FANTASMAS AINDA RONDAM

 

Alô - Arquivo mano Mingo

     O jornalista Zé Alfredo autorizou que eu publicasse esta pérola encontrada depois de muito tempo. O Morro da Berta (Monte Valério), além do Edmauro, também acolheu Zabeu, Aglício, os "Irmãos Mecânicos" e outros que não aceitaram passivamente a ditadura militar, cujos fantasmas ainda perambulam por nossa terra.



   O terrorista que o tempo esqueceu de anistiar

   Já era começo da noite quando a informação chegou à redação da Rádio Costa Azul. O rádio da polícia anunciava uma grande operação: a prisão de um perigoso terrorista procurado pelos órgãos de segurança. Para um repórter, não havia o que pensar. Peguei meu bloco de anotações, a caneta e segui direto para a delegacia. A notícia parecia explosiva.

   Naquele momento, a investigação da polícia estava voltada para um esquema de fraudes nas linhas telefônicas. Utilizando uma técnica conhecida como “jumping”, os suspeitos desviavam linhas dos antigos orelhões públicos para realizar ligações interurbanas e internacionais sem pagar a conta. Depois de um trabalho de rastreamento, a polícia chegou a um suspeito e efetuou a prisão em flagrante. Mas a maior surpresa ainda estava por vir. Ao consultar a “capivara” — como os policiais chamavam a ficha criminal — surgiu o alerta: tratava-se de um “terrorista perigoso” procurado pelo DOPS.

  O preso era Edmauro, conhecido pelo codinome de “Pedrinho”, morador do Monte Valério, em Ubatuba. Seu nome aparecia ligado à luta armada contra a ditadura militar e à participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, realizado em setembro de 1969 por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Naquele instante, a delegacia parecia ter voltado no tempo. O sistema de informações da polícia ainda enxergava como “terrorista perigoso” um homem que, anos antes, havia sido beneficiado pela Lei da Anistia e retornado ao Brasil legalmente.

   Quando consegui conversar com Edmauro, não encontrei o personagem ameaçador descrito nos registros policiais. Encontrei um homem preocupado em provar a sua situação legal. Ele me fez um pedido simples:

— Você poderia ir até minha casa e pegar uns documentos? Eles comprovam que eu sou anistiado.

    Confesso que aquele não era exatamente o tipo de missão que se aprende nas faculdades de jornalismo. Mas o repórter de rua também precisa compreender a dimensão humana da notícia. Fui até a casa de Edmauro e conheci Lídia, sua companheira. Procuramos os documentos e encontramos os papéis que comprovavam sua condição de anistiado.

   De volta à delegacia, a história começou a mudar. O “perigoso terrorista” dos arquivos policiais era, na verdade, um cidadão que havia sido alcançado pela reconciliação política promovida pela anistia. Curiosamente, a investigação que havia dado origem a toda aquela confusão — os “gatos” nos telefones públicos — acabou ficando em segundo plano. A manchete policial transformou-se em uma história sobre memória, esquecimento e os fantasmas que o passado ainda carregava em seus arquivos.

   Edmauro foi libertado. Depois daquele episódio, nasceu entre nós uma amizade. Foi por meio dele que conheci histórias importantes dos movimentos ambientais e políticos que mais tarde dariam origem ao Partido Verde, cujas primeiras sementes também encontraram solo fértil em Ubatuba.

       Gratidão, Zé Alfredo!

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A MAMÃE DISSE MESMO!

 

Caminhando sempre - Arquivo JRS 

     O estimado Renato, gente que tem parte de sua raíz no Ubatumirim, vendo que eu podava um monte de plantas, foi dizendo:

   - Quando eu era criança sempre escutava a mamãe explicando sobre remédios que estavam no mato, na horta e pelos cisqueiros. Por exemplo: no caso de qualquer doença nos olhos, a cura estava nas sementes de alfavaca. Dizia que curava na hora a vista. Pois é. Eu cresci, envelheci e me esqueci de muitas coisas. Só que, numa ocasião, trabalhando com azulejos, um cisco foi direto no olho direito, começou a arder. Não havia o que parasse. No terceiro dia, com aquilo me atrapalhando demais, fui até a casa do Valmore, contei do ocorrido e quis saber se ele conhecia algum remédio que pudesse me aliviar. Imediatamente ele recomendou que pusesse sementes de alfavaca no olho. Aí então eu me recordei da mamãe, da recomendação dela. 'A mamãe disse mesmo!'. Saí imediatamente da casa do amigo depois de escutar que ele havia aprendido a orientação com o Didi, um mateiro que trabalhou um tempo com o seu pai. Rumei na direção do meu quintal porque lembrava de ter visto uns pés de alfavaca pelos cantos. Separei umas sementes e apliquei no olho machucado. Neste aqui, ó. Em poucos segundos tudo aquilo passou, fiquei curado. Que coisa, né Zé? Quanto de remédio tem nesse mato aí sendo podado?".

sábado, 20 de junho de 2026

LIÇÃO DO CEDRO

     

Dario e Diana - Arquivo Dario Venturi 

  

Tainhas na canoa - Arquivo Roberto Ferrero

   O amigo Dario Venturi postou uma fotografia dele quando criança com a cachorra Diana, na adorável praia do Cedro, em Ubatuba. Me emocionei muito.  Primeiro pensei em seus dedicados pais (Dario e Dirce) e irmãos; depois, revivi um momento distante naquela mesma praia: Cedro, da Ponta Grossa.

      Há algumas décadas, num dia de mar muito calmo, eu e comadre Gardina nos sentamos no jundu dessa praia para prosear e apreciar o movimento: crianças se divertindo na água calma, pescadores consertando redes na sombra do rancho das canoas e Zeca Paru com os camaradas encalhando as canoas abarrotadas de cavalas, vindos de visitar o cerco armado logo ali, bem antes da Laje do Patieiro. Naquele tempo dificilmente aparecia turista naquela distância, mas sempre eu encontrava gente do centro da cidade que se aventurava nas caminhadas e se refrescava por ali.

       Comadre Gardina, mulher de muita sabedoria, mas de poucas letras, sempre me surpreendia nas prosas. Naquela ocasião, extasiada com as crianças e os cachorros na maior festa rente da maré, ela esticou a fala:

       "Como eu gostaria de saber escrever bem! No meu tempo de criança a escola era longe e eu precisava ajudar em casa. Pensando nisto, fico imaginando a vida de cada pessoa como um livro que vai sendo escrito. Nele, no tempo que corre, a gente vai deixando  de tudo um pouco até chegar no fim da escrita, no ponto final que é nosso derradeiro suspiro. Assim é comigo, assim é com você e assim é com aquelas crianças ali brincando e nadando com a cachorrada. Todo mundo está escrevendo o seu livro. Olhe bem ali: estais enxergando como transborda alegria na página de cada uma delas neste dia? Tem tempo melhor que este tempo de criança?".

       Gratidão, Dario! Forte abraço! Quem sabe se você e Diana não se esbaldavam lá naquele dia!? Quem sabe?

Em tempo: Dario é músico, vive há anos fora de Ubatuba, mas parte da família Venturi continua vivendo nesta cidade.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

FOIAPÉ

    
Puxada de rede - Arquivo JRS 

   Jefinho, o "Foiapé", acabou de passar por mim a caminho da feira. Empurrava um carrinho, desses que serve para ajuntar sucatas pelas ruas. O apelido engraçado dele remete a uma pescaria de tainhas em algum inverno passado. 
    Os registros históricos em torno dessa atividade tão necessária à cultura litorânea, nessa captura desses peixes migratórios, são antigos. Hans Staden, no século XVI, já descreveu o embate de Tupinambá e Tupiniquim por causa das tainhas na Baixada Santista. Mais recentemente, por volta de 1945, o pesquisador Carlos Borges Schmidt informou o seguinte: "Moços, velhos, crianças, moradores da praia e inclusive os habitantes do sertão, na planície e nas vizinhanças do sopé da serra" se voltavam à pescaria desse pescado, dessa importante iguaria que, na metade do ano, segue se deslocando do sul litorâneo em busca de água mais quente para a desova. 
  Jefinho, geração nova de caiçaras da praia do Itaguá, faz décadas que mora espremido no pé-da-serra, bem depois da escola "Maestro Pedrinho". Só que ainda segue a tradição na época das tainhas encostando: se ajunta com uns dois ou três da vizinhança e dá um jeito de descer até a praia para conseguir as tão cobiçadas beiçudas. 
   O apelido de "Foiapé" nasceu numa dessas ocasiões, quando a condução do grupo pifou antes da chegada ao destino, ainda bem longe. O normal teria sido desistir do intuito e voltar para casa, mas Jefinho, gente dos Mesquita, firmou posição: "Quem quiser pode voltar, ir para cama mais cedo, mas eu seguirei até o fim nem que for a pé. Sem tainha eu não fico!".


Em tempo: ainda bem que "Foiapé" vive assim, mesmo que aos trancos e barrancos, mas honestamente segue tocando a vida! Considero de todos os males o melhor porque, nas últimas décadas, o aumento dos impostos na cidade de Ubatuba obrigou muitos nativos a deixarem a beirada das praias e rumarem à delinquência. Infelizmente, né? Tô mentindo?

quarta-feira, 17 de junho de 2026

VIVA A PESQUISA (II)

 

Tio Maneco, um dos rabequistas - Arquivo Kilza

      Todo e qualquer localidade tem suas características específicas, suas marcas singulares. Conforme a sensibilidade de quem a pesquisa, essas vão sendo reveladas ao público.  Às vezes escapam detalhes importantes ou são omitidos valores que não aparecerão em nenhum outro lugar.  Também podem surgir revelações que  ninguém esperava. Por exemplo, nos estudos acerca do litoral norte paulista, de 1951, realizados por Ary França, toda a região, exceto o porto de Santos, é classificada como "a mais pobre, vazia e arcaica das grandes unidades do Estado". O mesmo autor, ao ver o interesse dos especuladores abrindo loteamentos (Maranduba, Lagoinha, Itaguá, Perequê-Açu....), descobrindo novas possibilidades de exploração do chão caiçara, referiu-se ao nosso lugar de forma desanimadora: "Pode-se pensar assim que a melancólica história da decadência de Ubatuba a configure como uma cidade triste, estagnada e inexpressiva".  

      Depois de um hiato temporário nas pesquisas, eis que surge o trabalho da Kilza Setti recuperando as características culturais caiçaras via musicalidade. Recolhendo material entre 1977 e 1982, ela enxergou as marcas das raízes lusitanas se fundindo a outras. Diz lá: "A figura do músico medieval comparece a este trabalho com alguma frequência. Isso se justifica pelo fato de se considerar oportuno remeter ao músico andarilho da Idade Média grande parte desta reflexão sobre o músico caiçara atual. Esta ideia surgiu em virtude de se ter encontrado muita semelhança entre a visão que a sociedade teve do músico medieval e a que tem do músico de hoje. Daí a hipótese de aproximação das categorias jogral e trovador com as categorias cantador e versista do litoral paulista de hoje".

terça-feira, 16 de junho de 2026

VIVA A PESQUISA! (I)

 

Nada impedia a visão do mar - Arquivo Kilza

      Desde os primórdios da cultura humana vai se ajuntando elementos que permitem entender, graças ao interesse de pesquisadores, a formação dessa imensa colcha (de retalhos culturais) que cobre a Terra, dá sentido à nossa existência. Por este chão ubatubano, um naco do espaço terreno, já tivemos muita gente realizando esses importantes registros. 

     O livro Ubatuba nos Cantos das Praias, da Kilza Setti, é a continuidade de uma empreitada iniciada em 1959 na área do folclore no litoral norte paulista, dentro da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro puxada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).

     Na ânsia de conhecer mais, de se aprofundar em aspectos levantados nos estudos anteriores, Kilza retorna a Ubatuba em 1977 e se debruça sobre o fazer musical dos caiçaras, acompanha por anos as andanças desse meu povo. Assim, surge em 1985 o seu importante livro. Ele nasceu dos cantos das praias e de seus sertões. Anos depois, já no alvorecer de um novo século, a autora cede parte valiosa da própria alma ao doar para a Fundart a soma do material produzido (fotografias, músicas e textos) em anos valiosos da sua trajetória intelectual. Portanto, há uma ferramenta valiosa conservada na fundação cultural de Ubatuba aos futuros pesquisadores em seus esforços para compreensão da nossa alma caiçara.

     

segunda-feira, 15 de junho de 2026

AMEAÇAS E MEDOS

 

Luz no horizonte - Arquivo Santiago Bernardes 

    Santiago Posteguillo, escrevendo sobre a Roma Antiga, numa passagem acerca do Egito, diz que a jovem Cleópatra,  indo a um templo dedicado ao deus Sobek, o crocodilo, é levada a conhecer o poço onde se encontrava um desses medonhos animais que precisava ser alimentado a cada dia. O sacerdote que a acompanhava assim explicou:

    - Temos de o alimentar cada vez com mais frequência senão ele fica zangado. Primeiro chora e depois parece que brame furiosamente para exigir que lhe dêem comida. E se não o alimentarmos durante alguns dias, ele grunhe tão alto que se ouve em todo vale porque as paredes do poço amplificam os bramidos dele, que se tornam quase ensurdecedores. Depois dizemos aos camponeses que é o deus Sobek a  exigir um novo tributo e eles trazem-nos mais cevada, trigo, farinha, pão... Enfim, tudo que lhes dissermos que Sobek exige. E carne, muita carne.

     Cleópatra ficou muito quieta.


      Por que me detive na referida parte? Porque ontem, ao passar defronte um local dito religioso, escutei a falação de quem pregava acerca da doutrina, das diretrizes aos fiéis. A pessoa reforçava a necessidade da escolha de nossos representantes políticos nas eleições que se aproximam. Segundo sua fala, cabia à divindade a responsabilidade com os resultados finais. No entanto, ameaças e medos entremeavam "glória a Deus, aleluia", contra um governo e representantes que ousem nas conquistas sociais, na justiça distributiva, com a conclusão de que "somente a Deus compete os rumos do mundo". Nada foi falado sobre quem governa querendo enriquecer à custa da maioria, da classe trabalhadora. Pois é! Quem não prefere viver se aproveitando de um povo ignorante?  

  O povo pode pensar mais, saber mais! Mas isto é o que a classe dominante não quer. Assim, ela deve seguir investindo em todas as frentes para estar no controle e limitar a democracia, inclusive nas igrejas. Estas são uma chave determinante nesse objetivo nefasto. Retiros, marchas, dízimos e narrativas absurdas devem confluir nesse rumo. 

     


 

sábado, 13 de junho de 2026

OS MURA

 

Povo Mura - Arquivo internet


      Quando eu acho uma informação sobre qualquer etnia indígena, me volto para as nossas raízes culturais e enxergo aquela que está na base da cultura caiçara: a Tupinambá. Será que todo o povo brasileiro tem este conhecimento, este reconhecimento de que uma parte de nós está assentada no alicerce de sangue indígena?

     Tempos desses, lendo a biografia escrita por Paulo Rezzutti sobre a imperatriz Leopoldina (que veio da Áustria para ser a primeira esposa de Pedro I), achei uma referência à etnia Mura. Atualmente este grupo ocupa vastas áreas junto aos principais rios amazônicos (Madeira, Purus e Amazonas), se destacando como exímios navegantes e conhecedores dos caminhos nos igarapés, ilhas, lagos etc. Como quase a totalidade dos povos indígenas, os Mura, em seu longo histórico de contato com os invasores, sofreram diversos estigmas, massacres e perdas em diversos aspectos (demográfico, linguístico e cultural). Na mesma pesquisa, no citado autor, encontrei esta informação:

    

      Natterer, um dos estudiosos que veio com Dona Leopoldina, depois de desbravar o sudeste, seguiu para a Amazônia. Após 18 anos de exploração, levava para Viena 37 caixas com material coletado, Maria do Rego, sua esposa, e três filhos. Apesar do nome, Maria era uma índia Mura com que ele se casara na Amazônia. Ela e duas crianças não sobreviveram no primeiro inverno europeu. A filha mais velha, Gertrud, anos depois se casaria na aristocracia austríaca, tornando-se baronesa Schröckinger von Neuenberg.

 

    Não é interessante? Provavelmente foi a primeira e única filha de indígena do território brasileiro a possuir um título da nobreza europeia. Uma filha Mura, imagina! Quando isso? Nos primórdios do século XIX.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

PASQUIM DOS ILÍCITOS

 

Tinticuia querida e florida - Arquivo JRS 


       O pasquim, um gênero literário antigo, era bem comum em nosso município (Ubatuba) no século XX. E teria sido muito mais se a alfabetização fosse maior e mais gente tivesse recursos materiais (caneta, papel...) naquele tempo. Eu, menino curioso, cheguei a ler alguns. Tinha de tudo nos pasquins: fofocas, notícias de perto e de longe, comemorações e críticas. Bado lembrou bem: 

    “Com característica de folhetim escrito, em forma de versos, esses papéis eram afixados em lugares de reuniões públicas – ranchos de pescadores, árvores e capelas – e tinham, em sua maioria, caráter de mensagens e recados a alguma pessoa, ou então ligados a fatos misteriosos”.

   Um dia distante, me situando debaixo da grande figueira preta, onde se localizava o rancho do Targino Barreto, na praia do Perequê-mirim, apreciei:

 

João pigarreou para Jorgina,

Carlos presenteou Florízia,

Dito e Judith sussurraram coisas,

Batengo e Niulene fecharam acordo,

Atílio e Maria saíram de mãos dadas,

Natalino e Mercedes se encontraram na mesma casa,

Braziliano e Dita piscaram na mesma direção,

Nié apertou firme a mão da Ditinha,

Sebastião carregou Terezinha na barra,

Teotônio se despediu de Maria

(Porque Carminha estava chegando),

Chico se ajoelhou aos encantos de Elza,

Avelino bingou com Benega,

Totonho e Cida conceberam o primeiro de muitos,

Hilário e Aurora foram de canoa mar afora,

Bernardino amou Zilda uma única vez,

Raul amou muito Judite naquela ocasião.

Todos “amores ilícitos”; todos depois do serão.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

BEM-AVENTURADO

 

Gato na janela - Arquivo JRS 


      Quando a gente vive num canteiro de obras, vê e escuta de tudo, mais tolices do que coisas sérias. Expedito foi um dos companheiros de trabalho pesado que destoava muito dos demais. Era por volta de meados dos anos 80. Em Brasília, naquele tempo, era discutida uma emenda para o país voltar a ter eleições diretas para presidente, pois quem estava no comando seria o último ditador militar, aquele que dizia preferir o cheiro de cavalo do que o do povo. Expedito era contra, repetia sempre que amava os fardados. “Brigar por diretas-já é coisa de quem não tem o que fazer”.

     Descrevo agora o tipo: era um baixinho entrão em prosas alheias, que parecia não pensar bem e tinha muita dificuldade para expressar com clareza. De um ponto de vista desencontrado, todos os seus assuntos pareciam terríveis. Conversar com Expedito era cair numa armadilha e já se angustiar por uma brecha escapatória. Certa vez ele veio com esta exclamação: “Como é bom ler com imensa satisfação obras confusas de autores que não dizem porcaria nenhuma!”. Naquele momento, se eu não fosse eu, pediria ao mais próximo um café quente quinado com pinga, um “roxinho”, acompanhado de um torresmo escorrendo gordura. Eu percebi a muito custo que ele insultava autores russos. Pensei: “Deve ser assim, neste método expeditiano, que supostos intelectuais bradam contra o comunismo”.

   Dito Capixaba, conhecedor do Expedito de outras paragens em tempo bem passado, jurava: “O destrambelhado vem da nobreza rural, de gente rica que nunca faltou nada enquanto tinha escravos”. Eu acho que era mesmo porque a sua maior paixão era o xadrez. (Difícil era encontrar na obra, entre gente acostumada com betoneiras roncando, oportunidade para armar o tabuleiro). A peãozada, notando a minha preocupação em não deixar o Expedito para escanteio, dizia: “Liga não, Zé. Ele é zureta, mas não de tudo. O bom dele é ser engraçado demais”. Tião Zoró, um servente que não perdia uma missa, repetia de tempos em tempos: “Pobrezinho, é um bem-aventurado”.

     Após muitos anos, sem saber se Expedito era vivo ou morto – mas pensando nele! -, achei esta citação de Graciliano Ramos: “Apresento uma sugestão aos homens inteligentes: deixem de escrever e entreguem  a pena aos imbecis”. E eu? Eu apenas sigo sendo indulgente com estes (que cortam chinelos, bebem detergente, oram para pneu, não querem direitos trabalhistas, preferem lamber botas dos estrangeiros etc.). Desconfio que Expedito pertenceria a este time.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

QUEROSENE NÃO HAI

 

Céu da Joseana - Arquivo Ana Maria 


     O querosene é um subproduto do petróleo. Antigamente, quando não havia energia elétrica em terras caiçaras, sobretudo nos pontos mais distantes do centro urbano, essa substância era uma alternativa como combustível. Nas lamparinas ele alimentava as torcidas, pavios que se tornavam mechas iluminantes nas casas. Ruim era acordar cedo com o nariz preto da fumaça que era expelida. Eu e muitos dos meus respiramos bastante dessa porcaria. Sabia que a falta de querosene no mercado foi tema de xiba ?

 

    Kilza Setti, em Ubatuba nos cantos das praias, uma pesquisa já completada 50 anos, destaca:

    As inovações observadas nos textos das canções geralmente são feitas para homenagear pessoas ou fazer referências a episódios considerados importantes no contexto caiçara, mas não revelam crítica no sentido social mais amplo. Em contrapartida, o pasquim funcionou por longo período no litoral norte de São Paulo como porta-voz de crítica. Voltando-se à indagação feita há pouco a respeito de um esmorecimento da capacidade crítica: haverá uma indiferença do caiçara de hoje ante um frustrado projeto de vida? Ou um conformismo sem limites diante dos fatos que lhe determinaram a desorganização ou quase ruptura com seu mundo cultural? Em oposição a este atual estado de indiferença, é notável como o caiçara anos atrás reagia perante os fatos, depositando nas canções sua crítica, e mesmo certos acontecimentos mundiais que vieram, por ventura, alterar-lhe os hábitos, não passaram despercebidos. Um exemplo é a Moda da guerra d’Alemanha, xiba surgida em Ubatuba por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Nesta música, a crítica parece claramente referida à carestia imposta ao brasileiro, sem que ele pudesse entender o motivo de tais privações:

 

Esta guerra d’Alemanha

Ela foi a causadeira

Acabou-se a querosene

Tamo queimando a nogueira

O azeite da nogueira

Que faz muito mar à vista

Que martrata o coração

De tanta moça bonita.

Bom dia, minha senhora,

De balaio adonde vai?

Vou apanhar a nogueira

Querosene aqui não hai mai.

 

Em tempo: na época dessa referida guerra mundial, alguns lares em Ubatuba já possuíam rádios abastecidos por pilhas. Era por esse meio que as notícias chegavam aqui mais depressa.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

UMA LIBERDADE ESTRANHA

 

Rosa na geada - Arquivo JRS 

       Bem cedo, num dia de céu azul, admirando uma rosa no terreiro de casa ainda a mostrar o quanto a madrugada foi fria, despertei a meta maior de todo amanhecer: o que fazer para, neste mais um dia de vida, permitir o voo da alma? Prestando atenção no entorno, ouvindo, lendo... Enfim, valorizando o que a vida não cansa de me oferecer, vou descobrindo preciosidades. Hoje, logo depois da rosa, me deparei com um texto da Edna Gomes (instagram- ednagomesoficial1) que me sensibilizou bastante. Dele veio ao meu ser um reconfortante lampejo bem cedo. Esta é a justificativa para expressar minha gratidão à autora e apresentá-lo agora. 


   Existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperam de nós. Durante muito tempo, tentei caber em lugares que não tinham o meu tamanho. Tentei corresponder a expectativas, evitar julgamentos, explicar escolhas e justificar caminhos. Até descobrir uma coisa simples: algumas pessoas não sentem falta do que somos. Sentem falta de quem imaginavam que seríamos. E talvez uma das maiores conquistas da maturidade seja parar de pedir licença para existir. Há perdas nesse caminho. Algumas portas se fecham. Algumas companhias ficam para trás. Algumas versões de nós mesmos precisam partir. Mas, em troca, nasce algo precioso: a tranquilidade de chegar ao fim do dia sem precisar representar um personagem. Porque existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperavam de nós. E uma paz ainda maior em finalmente ser quem somos. 

MOSCAS VAREJEIRAS

 

Pela vidraça - Arquivo JRS 

      Os caiçaras de outros tempos denominam umas moscas nojentas de varejeiras. Eram daquelas que pousavam sobre tripas de peixes, feridas expostas etc. Medonhas, credo!

      Agora, nas páginas de Almas Mortas, de Nicolai Gogol, achei uma passagem que pode muito bem ser aplicado a um Congresso Inimigo do Povo e seus congêneres de mesmo teor (Câmara de vereadores, assembleia de deputados...). Eis a reprodução:


         Os fraques negros revoluteavam aqui e ali, como moscas sobre o torrão de açúcar que, num dia quente de julho, uma velha despenseira parte em bocadinhos, no peitoril de uma janela aberta. Os meninos que a rodeiam, gulosos, acompanham os momentos do nodoso braço que levanta o martelo, enquanto um enxame de moscas, ora dispersas, ora em grupos compactos, voam ligeiras no ar, lançando-se, atrevidas, sobre os bocados do açúcar, de cumplicidade com o sol que cega a velha, de vista um tanto debilitada. Empanturradas pelo saboroso manjar que lhes prodigaliza a cada passo o opulento estio, pensam menos em comer que em manifestar-se, passando por cima do açúcar, friccionando as patas umas contra as outras, coçam-se debaixo das asas, prendem a cabeça com as patas dianteiras estendidas e voam, por fim, para voltar ao mesmo ponto, em novos e importantes esquadrões.


      As moscas varejeiras voltam sempre, querem estar por cima, se aproveitar de tudo até que nada fique restando. Sabe quem paga as lambanças, desde a Câmara Municipal até o Congresso Nacional, das piores varejeiras da atualidade? A classe trabalhadora!

sábado, 6 de junho de 2026

ALFREDINHO (II)

 

O justo oprimido - Arquivo JRS 

        Era um final de tarde, quase serão. Eu escutava com atenção um tema muito doloroso ao Alfredinho (Frédy Kunz), que poucas vezes ele abordava: o tempo em que passou no campo de concentração, nas mãos dos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Nesses momentos se ouvia descrições terríveis, nunca imaginadas por este caiçara de Ubatuba, da segunda metade do século XX.

        Alfredinho dava o testemunho de bastante fome naquele período distante da sua vida, com muitas pessoas morrendo porque ficavam privadas de comida e água, sendo vitimadas por disparos ou castigos físicos de maldades extremas. A pior revelação permanece, pelas  palavras emocionadas dele, em minha memória:

    

        "Muitas das pessoas destinadas à morte imediata eram trancadas numa grande sala e recebiam um gás letal.  Uma vez mortas, jogavam sobre os corpos um pó branco, parecido com cal, que desintegrava tudo. Em seguida, com grande quantidade de água por meio de uma grossa mangueira, aquela montoeira de coisas, restos de seres humanos, se esvaía por uma tubulação para algum rio ali por perto. Assim ficava tudo limpo, pronto para outras execuções. Era muita maldade naquele momento histórico, meu irmãozinho Zé."


      No contexto atual do Brasil, perante a normalização das maldades, os discursos carregados de ódio de muitos políticos e as mentiras passando por verdades, lanço um apelo aos corações: é nossa obrigação escolher bem nossos representantes políticos. Pensemos nas questões ambientais, nas leis de inclusão e justiça social. Afirmemos a todo momento o nosso compromisso com um mundo mais justo, sem desigualdades sociais e nenhuma forma de discriminação. A alma da nação depende das nossas escolhas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A BANALIDADE DO MAL

 


Desarranjos - Arquivo JRS 



      Eis o título de um livro da filósofa Hannah Arendt definido após assistir ao julgamento de um nazista, em Israel, no século passado. Deste conceito (banalidade do mal) nasceu a afirmação de que o mal não surge apenas em gênios ruins, mas também em pessoas simples que optaram por não pensar, não refletir. Deste modo vão cumprindo e/ou desenvolvendo as piores maldades que estão sendo regadas em suas consciências.

    Agora, assistindo o vídeo de um candidato à presidência do nosso país, brindando com um copo de leite junto a corregionários, me pergunto: seus admiradores, eleitores, sabem que isto (de fazer brinde com leite) é um gesto racista dos nazistas amplamente divulgado pelos adeptos da seita Klu Klux Klan? Preocupado com isso, com gente que eu estimo, recorro a uma frase luminosa do cientista político Jessé Souza: 

   "O racismo geralmente se apresenta de forma explícita. Muitas vezes ele opera por símbolos, códigos e mensagens que parecem inofensivas para uns, mas são perfeitamente compreendidas por quem compartilha determinada visão de mundo".  Concluo agora: assim, sobretudo entre os mais oprimidos, a real ameaça neonazi avança, vence por falta de inteligência e ausência de caráter. Eis a estratégia para se manifestar e atualizar a banalidade do mal. Depois disto, apedrejamento de empobrecidos será "a regra mais suave".

    Acordemos! É a alma da nação que está em jogo!


quarta-feira, 3 de junho de 2026

TODO MUNDO DANÇAVA

 

Milho aos pombos - Arquivo JRS 

     Os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas etc.) e a religião muito influenciaram o fazer cultural no chão caiçara. Em qualquer lugar, né? Senti isso na minha infância quando alguns colegas não se divertiam no carnaval, não assistiam shows e estavam sendo direcionados à  cantoria apenas de hinos religiosos. Chegou a juventude e eu passei a encarar isso com mais seriedade. Gente nossa falava mal dos bailinhos que aconteciam nos fins de tarde, aos domingos, criticava os bate-pés e se julgava melhor que os demais caiçaras. O ápice disso tudo foi quando, em 1992, em entrevista ao Zé Pedro, mestre cirandeiro na Fazenda da Caixa, lhe perguntei a razão da dança da ciranda ter se acabado na Vila da Picinguaba. Está foi a sua resposta: 

     - Veja bem, antes só tinha a capela católica, todo mundo dançava. Depois foram chegando outras igrejas diferentes, dessas protestantes que diziam que era pecado dançar, que era coisa do capeta e mais coisas piores. Você imagina o estrago que fizeram essas igrejas repetindo a mesma coisa, que era coisa ruim, que Deus não queria isso, não aprovava aquilo? Com todas elas pregando que tudo era pecado, não demorou nada para a ciranda e mais outras manifestações do lugar desaparecerem, só ficarem em nossas lembranças. Tenho pena da criançada nova que não sabe de nada que tinha antes e de como a gente se divertia.

    Pois é! Na comunidade da Enseada, diziam os mais antigos, dois espaços de função ficaram marcantes em meados do século passado: a casa dos Góis e a casa do João Emboaba. Este, até quando a saúde permitiu, acolhia a todos que desejavam dançar, se divertir. Já o casal Góis, que vivia promovendo animados bate-pés em casa, se apagou após a conversão à Congregação Cristã.

     Meu pai também contava de um músico, antes católico, mas que "mudou da água para o vinho" ao passar seguir outra, a Quadrangular. Lá o missionário baixou a proibição de qualquer prática musical que não fosse dedicada aos hinos da igreja. Na verdade, estava incutindo a ideia de que a música, da cultura da terra, estava ligada ao pecado, era sensual.

     Outro fato bem marcante para mim foi quando Roberto, mestre de capoeira, se tornou evangélico e repudiou todo seu talento na musicalidade e no gingado. Dele eu herdei o atabaque com o qual fazíamos a puxada de rede e o maculelê.

      Evoluímos ou nos afogamos na miséria cultural, no analfabetismo político? E, no fim, "todo mundo dança."


          "Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos."


Em tempo: hoje sabemos qual país continua respaldando logística e financeiramente essa maré reacionária neopentecostal.