sábado, 15 de agosto de 2026

ESTANDO A CASA LIMPA...

 

Arte: ultralafa03 (Instagram)

    Eu ainda estava lá, na sala de espera. Minha filha entrou para a consulta. Rente ao meu lugar se encontrava uma sofredora quietinha, sem mexer com ninguém. Nisso eu vejo uma mulher se aproximando. Era tão idosa quanto eu ou mais nova. Puxou prosa com a mais próxima de mim, entrou num discurso religioso querendo animar a outra. Notei que ela lhe dava atenção como se estivesse aguardando o fechamento do tema. Aí veio uma passagem bíblica, dessas decoradas, meio assustadora:

     "Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso, e, não o encontrando, resolve voltar para a casa de onde saiu. Quando chega, encontra a casa varrida e em ordem. Então ele chega acompanhado por outros sete espíritos piores do que ele. Entram e passam a viver ali. Ou seja, pioram muito aquele lugar, aquela casa".

     Mal ela acabou a citação, aconteceu o inesperado, pois aquela senhora sofredora tinha uma consciência política que me assombrou. Creio que ninguém da proximidade esperava aquela reação. Mais ou menos foi isto que ela falou sem nenhuma alteração de voz: "Muito bem! É o que vai acontecer se o filho do Bozo ser eleito, virar presidente. Vem com ele mais uma renca de demônios para voltar a infernizar a nossa vida agora que a casa está com aspecto melhor graças ao líder sindical que virou defensor das nossas causas. Você se lembrar do pai, dos males que causou ao país? Pois é! Filho de demônio demônio é". Que lapada, né? A pregadora ficou sem palavras. Notando que as duas eram o foco das atenções, ela renunciou de ficar azucrinando naquele espaço onde só tinha gente aguardando atendimento e encaminhamentos na saúde pública. Eu quis aplaudir, mas sou tímido entre tanta gente. Só dei um sorriso de contentamento.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

PASSARINHO NA PAREDE

 

Viva a arte! - Arquivo JRS 

     Eu me encontro apreciando a arte no muro enquanto os profissionais da fisioterapia aplicam suas habilidades na recuperação de pacientes. Vozes estranhas ao ambiente de solidariedade, de empatia, se imiscuem no ar, causam revolta no meu ser.
     Sabe o que vai aumentando desmesuradamente a alienação, a imbecialidade? Parece incrível, mas estamos num paradoxo: perante um infinito mundo de informações disponíveis em qualquer aparelho celular, há muita gente sem exercitar a reflexão, evitando desenvolver o senso crítico. Indivíduos na fila para receber o atendimento público de saúde, mas se declarando favoráveis ao candidato ao cargo de presidente deste país que é contrário às políticas sociais voltadas aos mais desfavorecidos. Como pode?
      Noutro momento, mas ainda em contexto de atendimento à saúde pelo Estado, noto muitas pessoas simples, humildes mesmo, mas também uns traços são reveladores de gente com mais posses, boas vestimentas e se revelando muito à vontade em perguntar e percorrer o ambiente. Gente esperando condução sem  saber o horário certo e gente com moderno carro esperando no estacionamento logo ali. Então escutei esta pérola da dona Francisca:

     "Eu sou da roça, de Natividade da Serra. Vivo lá desde que nasci. Meu marido se foi há dois meses. Foi muito depressa, nem doente estava. Numa tarde ele chegou da tarefa e recomendou que eu guardasse tudo, fechasse muito bem as vasilhas, não desse chance ao ataque dos bichos. Quando eu quis saber a razão das preocupações, ele apenas disse que logo eu saberia. O senhor acredita que dois dias depois ele morreu, assim do nada?"

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

SE FOSSE HOJE

 

Espera... Arquivo JRS

       Estou no AME (ambulatório médico de especialidades) de Taubaté, pois a minha filha tem uma consulta agendada faz tempo. Do lado de fora, num espaço de espera, vejo encostar o veículo que transporta pacientes desde a nossa cidade de Ubatuba. Duas das mulheres, assim que desembarcaram, vieram se acomodar ao meu lado, nas cadeiras vazias. Escuto delas uns absurdos (se levar em conta que elas estão ali dependendo de um serviço público). Se depender delas, a ultra direita política será eleita. Miséria cultural é isto: ser favorável aos seus algozes. Digo isto porque esses reacionários já provaram que farão de tudo para estabelecer um Estado mínimo, são contra a soberania e a democracia. Pior: declaradamente são contrários aos programas sociais que tanto salva a nossa população mais necessitada. E essa gente, atendida graças ao Sistema Único de Saúde (SUS), como vai se virar a partir do momento que o pobre deixar de ser prioridade?
    Dei um pulo, pensei numa citação a respeito de Jesus onde está escrito que levaram até ele uma mulher surpreendida em adultério. (Mas não levaram o homem que estava com ela?). Queriam saber o que esse líder espiritual iria fazer. (Segundo a religião judaica ela teria de ser apedrejada). O escriba do episódio relatou que o nazareno se agachou, pegou uma vareta e começou a  escrever algo no chão. O que seria? É quase certo que questionava a turba presente que acusava aquela mulher. Se fosse no dia de hoje, sob os olhares das duas mulheres e de um tantão de gente reacionária, eu estou a imaginar o teor do que marcaria o nosso chão: "Por que vocês querem apedrejar quem é mais pobre?". "É natural tanta gente simples não enxergar quem está descaradamente contra eles?". "Quando vocês acordarão para perceber os lobos em vestes de cordeiro, prontos para abocanhar os mais fragilizados da sociedade?". "Em qual momento deixarão de ser hipócritas, fingindo santidade, mas buscando se aproveitar do esforço alheio?".
   É, muitos outros questionamentos Jesus traçaria na areia! Qualquer líder religioso provido de espiritualidade solidária e sedento de justiça não faria ouvidos moucos diante da atual situação, do contexto político brasileiro.
   "Quem não tiver pecado que atire a primeira pedra".
    Qualquer líder político de verdade sabe quem vai receber as pedradas da multidão alienada/usada pelos poderosos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

O FILHO DO LICÍNIO

 

Domingos e eu - Arquivo JRS 


Domingos é o do meio - Arquivo Ubatuba 

   

   No mínimo 50 anos separam as imagens acima. Domingos Alves Barreto, filho do Licínio, funcionário público lotado no Departamento de Estradas de Rodagem (DER), parceiro do meu pai em tantos momentos, aos domingos era árbitro de futebol. Passado meio século, eu o reencontrei no corredor de um supermercado. Que surpresa boa! O mesmo vale aos filhos presentes: Arnaldo, Lígia e Magali. Éramos vizinhos na década de 1970, na praia do Perequê-mirim. Tempo bom demais! Completados os 88 anos de idade, ele se recordou de alguns momentos de travessuras com o meu pai. Ah! Como eram arteiros esses caiçaras de outros tempos!

       

     Numa ocasião eu e o "Carpinteiro", seu pai, fomos cercar tainha na Ilha Anchieta. Pegamos bastante na praia do Leste. Ainda por lá, resolvemos parar na praia do Sul, onde ficava o rancho do pessoal do cerco do Eduardinho. A maioria era parente de vocês (Gonçalo, João, Dito da Mata...), da Caçandoca, que foram morar no sertão do Perequê. Por ali limpamos duas tainhas, fritamos e comemos. Você acredita que o "Carpinteiro", antes de sairmos de lá, colocou as tripas dos peixes debaixo dos travesseiros daqueles homens? Deve ter dado uma grande confusão quando descobriram aquela arte.

      Outra vez a arte foi com o pessoal da Folia. Foram acolhidos, cantaram, encostaram os instrumentos e trataram de ir descansar para seguir a Corrida da Bandeira no dia seguinte. Assim que tudo sossegou, eu, seu pai, Miguel Cabral, Antenor e mais alguém que nem  me lembro mais, catamos os instrumentos e saímos para farrear, quase varamos  a noite. No dia seguinte, os músicos ficaram revoltados pelo estado lastimável dos instrumentos (cordas bambas ou arrebentadas, areia por dentro e couro encharcado). Saíram com muita raiva. É quase certeza de que nunca mais eles aceitaram um pouso naquele lugar, nem cantaram mais ali.

domingo, 9 de agosto de 2026

MINJOADA

 

João Zacarias, neto e bisneto - Arquivo DT

Caiçaras na rede - Arquivo Trindadeiros

     João Zacarias, um grande pescador da praia do Sapê, parceiro de vovô Estevan, tinha a maior rede da região sul de Ubatuba. Negociava muito pescado por ali mesmo e até enviava para a capital paulista e outras cidades distantes. Quando criança, ouvi dele uma referência à minjoada. Mais tarde vovô Armiro também a citou. Disse que entre a Ponta da Fortaleza e a Laje Perdida era comum largar a minjoada. Então, depois de especular, escutei a seguinte explicação:

    "É um recurso que a gente tem para pegar mais peixes num lugar que vive passando cardumes. É só preciso por uma poita em cada cabeceira da rede e deixar ela fundeada, pescando sozinha. Qualquer coisa que passar por ali pode se malhar. Se for de dia, a gente fica de longe vigiando, se for de noite é preciso madrugar. É como um tresmalho, só que é largado mais no largo. (Porque o tresmalho sempre está armado rente da costeira, né?). Depois, tem sempre algum barco passando e muita correnteza forte. Por isso que, vez ou outra, desaparece uma rede por aí".

      Agora, passado meio século dessa prosa, dessas informações, achei esta referência no tese do Olympio Mendonça, publicada em 1978:

Largar a minjoada: pescar com uma ou duas canoas, que vão largando ao mar a minjoada, que é fundeada com uma poita, e deixada na espera por algum tempo, é um processo de pesca em desuso na região, devido ao risco de se perder a rede.

      Na sequência ele detalha a minjoada:

Tresmalho de 40 a 100 braças de comprimento e duas ou três de largura, cujas malhas podem ter de 40 a 80 mm., encimada pela tralha de cortiça, que faz a sua orela, fundeada pela tralha de chumbeiro. É uma rede de espera e, quando se presta para matar peixes de fundo, é confundida com a feiticeira.

domingo, 2 de agosto de 2026

MÊS DE CACHORRO LOUCO

 

Arte: Tom Cotrim


      Antes, mas não fazendo muito tempo, agosto foi chamado de mês de cachorro louco. Assim diziam, mas nunca vi um de verdade. Era época de vacinação antirrábica. O tempo atual é de outros enlouquecidos. Agora haveremos de ter cuidado com aqueles coitados que não sabiam morder, mas aprenderam graças a uns malditos políticos que os açulam. Tão revoltante quanto a malvadeza é a estupidez da “matilha” explorada e o conformismo idiota. Deve ser assim que nasce um estado de guerra. Quem se dá bem mediante tal quadro? A quem serve esses safados?

   “Aflige-me é perceber no capitalismo uma inteligência, uma inteligência safada que aluga outras inteligências” (Graciliano Ramos).

 

Qual vacina pode resolver?

 

- A imprensa hegemônica segue interessada em conservar privilégios de uma minoria neste país e de ceder a nossa soberania.

- Já tivemos uma milícia verde integralista (ou galinhas verdes de Plínio Salgado). A da atualidade parece pior e se veste de verde e amarelo.

- “Abaixo a democracia” denota a sanha golpista de ratazanas eleitas graças à democracia.

- Devotos de líderes religiosos apedrejam marginalizados. É o amor de Deus excluído.

- São poucas as bandeiras que desejam combater o egoísmo.

- As belezas insuspeitas não estão em quem é contra reparações históricas e sociais.

- Há quem abandona as práticas solidárias e honestas, mas nunca deixa as tais devoções sagradas.

- Muito fácil dizer que os pobres são o problema.

- Muitos lares estão acolhendo as ratazanas saídas do esgoto.

- Microcéfalos exaltam yankees espoliadores e genocidas.

- Hinos idiotas seguem preparando paraíso de gente safada.

- Roubo de joias, rachadinhas, negação de crise climática, patrimônios construídos de maneira ilegal etc. etc... Contra fatos não há argumentos.

- Pangaré velho é Dark Horse.

     

    Enfim, no mês de cachorro louco, vendo multidão seguindo “apito de cachorro”, eu concluo com uma frase de Apolônio de Rodes (Grécia Antiga - século III a.C.): “Só os ignorantes ou estúpidos é que se dão ao insensato luxo de não estar a par da política que os afeta”.

sábado, 1 de agosto de 2026

PINTO CARÇUDO

 

Amor aos livros - Arte Pita Paiva


      Eu sempre achei engraçado a expressão que está como título acima. Era comum escutar  ela vez  ou outra quando passava alguém usando bermuda pelos joelhos. Paulinho do Gusto, Marquinho do Teco, Tutuca do Dico e outros se apresentavam costumeiramente como “pintos carçudos”.

     O que era pinto carçudo (calçudo)? Vovó Eugênia explicou quando eu estava iniciando a vida escolar: “Tais vendo aquele franguinho com penas até lá embaixo, quase cobrindo os pés? Ele é pinto carçudo”. Quer melhor explicação? Bem mais tarde eu aprendi que, na língua geral (falada por muito tempo no território brasileiro), pinto calçudo é igual emboaba. Logo, galinha com plumas escondendo os pés era emboaba. Creio que outra ave qualquer com tal característica também seria emboaba. Daí me recordei de uma aula de história do Brasil: no tempo da corrida do ouro, por volta de 1700, quando um mundaréu de gente, sobretudo de Portugal, acorreu à região mineradora (Ouro Preto, Congonhas, Sabará, Mariana...). Essa migração intensa, essa disputa pelo ouro resultou numa desavença com os paulistas (que se achavam com mais direitos que os demais). Estes, para fomentar mais intrigas, apelidaram os portugueses de emboabas. A razão? Porque, ao contrário dos paulistas, os lusitanos andavam calçados, com os pés cobertos. Os paulistas, cujos representantes eram os terríveis bandeirantes, estavam no lado oposto. O historiador Joaquim Felício dos Santos assim descreveu o simulacro civilizatório dos paulistas, “gente de serra-acima”:

     “Cegos pela ambição, arrostavam os maiores perigos; não temiam o tempo, as estações, a chuva, a seca, o frio, o calor, os animais ferozes, répteis que davam a morte quase instantânea. Eram homens meio bárbaros”.

     Para encurtar a história: essa contenda semeada de mortes durou dois anos e meio; passou a ser parte do currículo, dos livros didáticos, como Guerra dos Emboabas. Fato mais marcante nisso tudo foi o extermínio de muitos paulistas às margens do Rio das Mortes (São João del Rei), no Capão da Traição. Tudo isso em Minas Gerais.  Como eu, da beira do mar de Ubatuba, saberia um dia disso tudo? Ah, esses livros nos salvam! 

   Por hoje é só. Viva os pintos carçudos que ainda estão por aí!

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A PEDRA DA CRUZ

 

Toninho, eu e Ditinho - Arquivo Estevan

A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS 


 

     Era dia de domingo. Bem cedo trepei no pé de carambola para recolher alguns frutos e fazer doce. Você já comeu? É bom demais, minha gente! Naquele momento me veio à memória a ocasião em que conheci essa fruta tão singular: foi no terreiro do tio Dário, no morro da praia da Fortaleza. Eu, criança de tudo, batia pernas por todo lado, mas gostava de me deter na casa desse parente para escutar toda a família tocando e cantando. Bons momentos que merecem ficar na lembrança, serem recordados. Veio a tarde. Conforme eu tinha planejado, me preparei para visitar os primos Toninho e Ditinho, filhos do saudoso casal Dário Barreto e Maria Estefânia. Estevan, meu filho, topou de ir junto. Assim, pedalando com tranquilidade, fomos até o centro da cidade. Eles moram há muito tempo próximo do sítio Aratoca, mas são da praia da Fortaleza. Na minha infância, éramos vizinhos no morro.

    Ditinho e Toninho demonstraram muita alegria com a nossa visita. A prosa passou por muitos assuntos: álbum de fotografias, novidades de familiares, saúde, lembranças nossas de tantas coisas que jamais eu seria capaz de imaginar sozinho. Tudo às pressas, na entonação do “dialeto” caiçara!

     Ao relembrarmos as festas, um de nós citou a tia Martinha. Doce de mamão distribuído para todo mundo era um capricho dela. Tio Cláudio, irmão do nhonhô Armiro, foi marido dela. Também lembramos de como ela, depois de viúva, se virava sozinha na lida da roça. A imagem dela descendo da roça com vários cachos de bananas me marcou demais. Ditinho completou dizendo: “Vez ou outra o Mané Bento ajudava ela”.

     Eu percebi que o Toninho estava muito empolgado com nossas recordações. Foi ele quem perguntou: “Vocês se lembram da Pedra da Cruz?”. Eu não sabia do que se tratava, mas o Ditinho explicou de imediato: “A Pedra da Cruz era quase chegando na Ponta, onde um filho da tia Martinha morreu. Ele foi pescar e sofreu um ataque epilético. Caiu na água e morreu. Foi preciso passar a rede para resgatar o defunto e sepultar. Sobre a pedra firmaram uma cruz. Depois, com o tempo, ela se acabou”. Eu quis saber o nome desse parente que se foi no mar, mas os primos não conseguiram se lembrar. Quem poderá colaborar nisto?

terça-feira, 28 de julho de 2026

ARTESANATO E IDENTIDADE

 

Um vaso diferente - Arquivo JRS

  O artesanato constitui um dos traços culturais do povo do nosso lugar, que se estabeleceu há séculos entre a serra e o mar. Sem ele, como seria a sobrevivência nesse ecossistema tão específico? Desde os remotos tempos, o povo caiçara produziu balaios para transportar raízes, peixes, frutas... Outras cestarias (tipiti, peneira, samburá, covo etc.) permitiam a realizações de serviços diversos (farinhada, secagem de pescados, captura de peixes...). Armadilhas (foge, esparrela, mundéu, arapuca...) garantiam alimentos na mata no tempo propício. Esteira, rede e tarimba permitiam repouso. Muitos outros objetos e técnicas estão englobadas no artesanato. 

    A canoa - a marca primeira dos Tupinambá e esteio principal dos primeiros habitantes do litoral -  é símbolo importante até nos dias atuais, sobretudo no município de Ubatuba, porque continua servindo às atividades pesqueiras e atraindo olhares de visitantes, de turistas. Este meio de locomoção é, sem dúvida alguma, o objeto de atenção na calma costumeira de quem sai ou chega da pesca ou nas remadas vigorosas dos esportistas. Quem nunca vibrou com as disputas nas “corridas de canoas” tão orgulhosamente apresentada ao público?

     Será que quem admira a canoa imagina a arte que está ali embutida? Felizmente ainda há gente nossa especialista na técnica de escolher a madeira no mato, cortar e escavar nas justas medidas. (Recomendo a leitura do trabalho científico do ubatubense Gilberto Chieus Júnior, sob o título Matemática caiçara – Etnomatemática contribuindo na formação docente). Recentemente a canoa caiçara também inspirou Tronco de Canoa, um prazeroso livro do Adilson Zambaldi). Tudo graças ao artesanato! Ainda é possível constatar nativos selecionando taquaras, cipós, taboas e madeiras macias para prosseguirem em suas artes. É a minha gente que aposta na perpetuação dos saberes herdados de quem precisou sobreviver nesse meio bem específico do litoral, nesse pedaço de chão nomeado na nossa raiz  indígena por Ubatuba, terra de muitas ubás. É gente mostrando inigualáveis obras na madeira, criando lindas peças em  mosaico e argila, desenvolvendo a costura criativa etc. De repente, aquilo que estava descartado vira uma maravilhosa surpresa, encanta muita gente.

   Por fim, artesanato é marca cultural e herança que resultou no ser caiçara resistente da atualidade. Cada cidadão, jovem ou idoso detentor desses saberes artesanais, é a garantia de que a geração presente e futura continuará cultivando essa identidade.


HOMENS BONS

 

Matriz Ubatuba - Arquivo Camila Prado

       Você já pensou hoje nas pessoas que sustentam o seu conforto? Ou em quem você está sustentando com seu trabalho?


      Existiu um rei português, Pedro II de Portugal, que muito ansiava para que o Brasil lhe fornecesse ouro e outros metais preciosos. Por isso escreveu, de próprio punho, aos "homens bons" de São Paulo - ou seja, a classe dominante de uma região brasileira - para que se empenhasse nas buscas por riquezas.

      Nos dias atuais, determinadas autoridades externas seguem o mesmo princípio do tal Pedro II de Portugal (1648-1706). Fazem de tudo, até interferem nas eleições, para um abocanhamento ao máximo das riquezas do chão brasileiro. A classe trabalhadora é descartável a essa gente depois de ser usada.

       Os indígenas, os miseráveis degradados e os negros trazidos para serem escravos eram o sustento dos "homens bons" naquele tempo. Pior: promoviam entradas no território para vasculhar, caçar e exterminar quem já habitava o território "descoberto". Tudo em nome - e por ordem! - de um governante externo, distante. E hoje? Os "homens bons" são da classe dominante! Estão a serviço de quem? Dos interesses de nações que querem continuar vivendo das riquezas desta terra, do trabalho deste meu povo! Para obterem sucesso, as nações expoliadoras contam com aliados internos, os tais "homens bons" do tempo presente. Não importa para eles que a nação brasileira se torne um território de gente morrendo à míngua. Um trecho de música, na minha juventude, denunciava: "Do lado de lá só quem sobe, do lado de cá só quem desce. Do lado de lá quem festeja, do lado de cá quem padece".

     Basta, né? De homens bons os "homens bons" não têm nada! Portanto, descartemos eles nas escolhas dos nossos representantes políticos.


Em tempo: recomendo a leitura do livro Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo.

domingo, 26 de julho de 2026

SERTÕES

 

Frei Vicente - Arquivo internet 

     De vez em quando eu, de geração da segunda metade do século XX, nascido no jundu do Sapê, me quedo no pensamento de que, naquele tempo, era clara a distinção entre quem morava nas praias e de quem estava nos "sertões distantes" (até no máximo seis quilômetros do lagamar). Eu me admirava de como os destas localidades se acostumaram viver tão "longe" de praia, dos recursos que o mar e as costeiras ofereciam. Será que o princípio dessas ocupações (Sertão da Quina, do Corcovado, do Perequê-mirim, do Puruba...) está no ciclo canavieiro? Não! Haja vista que os engenhos, conforme atestam as ruínas que resistem, estavam na beirada do mar. Talvez suas origens estejam na busca dos metais preciosos, quando homens mestiços e brancos, portugueses, se enfiaram mato a dentro. Pode sim!

      Na obra Boa Ventura!, Lucas Figueiredo abordando a corrida do ouro em nosso país registrou:

      De fato, a experiência mais ousada da colonização portuguesa no interior ainda era a vila de São Paulo (fundada em 1554). Por aí se tem dimensão da dificuldade do sertão: São Paulo está a míseros 70 quilômetros do litoral, mas a viagem até lá demorava três dias (...) Por enquanto, ainda que tivessem uma ou outra pepita de ouro e sonhos imensos, os cerca de 25 mil brancos que viviam no Brasil estavam condenados, como dizia frei Vicente do Salvador (1564-1635?) a viver "ao longo do mar, como caranguejos".

     Me resta concluir no provisório: na dificuldade de ir mais além na busca de riqueza minerais e não querendo se distanciar de uma sobrevivência garantida pelo mar, foram-se firmando os grupamentos aos pés da Serra do Mar, solidificaram-se nossos sertões caiçaras por volta do anos 1700. Tempos depois, os mais cobiçosos, mediante algumas notícias de exploradores, transpuseram barreiras maiores, ganharam vales e se estabeleceram nos verdadeiramente distantes sertões, viraram caipiras e deram sua contribuição na  demarcação do atual território nacional. Tudo pela ânsia de riqueza!


Em tempo: 
Frei Vicente do Salvador foi um historiador baiano que deixou a nós dois importantes documentos: Crônica da Custódia do Brasil e História do Brasil.

sábado, 25 de julho de 2026

AS FONTES

 

Derek Walcott - Arquivo internet 

      Eu,  prosseguindo  na leitura de O Mundo da Escrita, sou transportado para a ilha de Santa Lucia, estou na referência à peça teatral O Mar em Dauphin. Tive de pesquisar. Trata-se de uma produção escrita por Derek Walcott, encenada pela primeira vez em 1954 e retrata a vida difícil de pescadores pobres na ilha, tendo o mar como uma força implacável e o motor da história.  Quem é Derek Walcott (1930- 2017)? É um escritor dessa pequena ilha, um pais caribenho, ganhador do Prêmio Nobel de literatura em 1992.

      O Mar em Dauphin aborda uma luta por sobrevivência, tal como todos os povos litorâneos sempre fizeram no enfrentamento ao mar, insistindo nas pescarias como alívio à pobreza e tragédias. A palavra que se aplica mais adequadamente, creio eu, é resiliência.

      A introdução acima foi para dizer que o autor do livro, Martin Puchner, foi até Santa Lucia para conhecer Derek Walcott, querendo a todo custo alcançar a localidade inspiradora (Dauphin), ver se ainda existia o protagonista da peça teatral. A seguir, as palavras dele:

     Depois de outra curva na estrada, cheguei a Dauphin. E não pude acreditar em meus olhos: lá estava ele, a figura solitária que eu imaginara em meu devaneio, de pé na praia, pescando. Eufórico eu caminhei em sua direção. Quando me aproximei, notei que ele vestia a camiseta da seleção brasileira de futebol. Não era exatamente a roupa desgastada, costurada à mão, com que eu revestira meu solitário pescador imaginário. Chamei em voz alta, para não assustá-lo, e ele se virou com a vara de pesca na mão. Pareceu apenas levemente surpreso ao me ver; devia ter  me avistado enquanto eu me aproximava.

      

   Só que aquele sujeito pescando ali nada tinha a ver com a busca do pesquisador, era apenas um policial de folga se distraindo na pescaria. No entanto, outra pessoa apareceu depois. Quando o autor do livro menciona Derek Walcott e  O Mar em Dauphin, se emociona com a fala do recém chegado:  "Claro, o Mar em Dauphin. Meu avô é o menino na peça". Nesta passagem da narrativa eu imaginei a emoção sentida por quem buscava conhecer a fonte inspiradora, naquela comunidade que nem existia mais. Fiquei pensando em quanta gente também já se refugiou em comunidades de pescadores-roceiros de Ubatuba e nelas se  inspiraram à literatura, às artes. Quantos homens e mulheres, a partir do chão caiçara, seguem mexendo com nossas emoções?

 


      

quarta-feira, 22 de julho de 2026

LITERATURA AQUI E LÁ

 

Luzes - Arquivo Caio Elois


     O meu ponto de partida no texto de hoje é um poema do cearense Bráulio Bessa:

 

Amizade não se compra,

Não se vende em prateleira.

Não tem promoção de amigo

No shopping, nem lá na feira.

Um amigo é um presente

De graça, mas faz a gente

Ser rico pra vida inteira.

 

     No momento eu me encontro na leitura do livro O Mundo da Escrita, de Martin Puchner, cujo subtítulo é este: Como a literatura transformou o mundo. Me detenho em Johann Wolfgang von Goethe, nascido em Frankfurt, em 1749. É considerado o maior nome da literatura alemã. Conforme sigo lendo, vou transcrevendo e me misturando no texto:

 

      Quando Eckermann, secretário de Goethe, se espantou com seu mestre elogiando os romances chineses, enfatizando-os como moralmente elevados, ele arriscou dizer que, com certeza, o romance chinês devia ser bastante incomum, a exceção à regra. Mediante este comentário, a voz do mestre foi muito severa: “De modo algum, os chineses os têm aos milhares e já os tinham quando nossos antepassados [europeus] ainda viviam nas florestas”. Pois é! Assim como hoje, alguém como Eckermann, cheio de preconceitos, ignorância e incredulidade pede para ser chocado aos poucos. Seu mestre enxergava longe, percebia que a literatura de outros lugares, graças aos viajantes e à imprensa, estava ficando disponível para mais pessoas. Foi Goethe quem, em 1827, cunhou a expressão “literatura universal”. Também a ele se deve a visão de Maomé como um líder carismático que conseguiu transformar tribos dispersas do deserto em uma força unificada, desencadeando a potência islâmica.

 

       Exclamo há muito tempo:

       Como  essa gente toda, do Ceará, de outras terras distantes de Ubatuba, no litoral norte paulista, me afetam via literatura!

      E o que dizer de autores até do outro lado do mundo que seguem deixando suas marcas em nossas vidas? Isto é a tal literatura universal, senhor Goethe?

     Não tenho dúvida de que abraçar tudo isso é habitar outras culturas!

    

Em tempo: hoje, 22 de julho, começa a 24ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)


segunda-feira, 20 de julho de 2026

GOSTO DE PIRAGICA

 

Matias na praia - Arquivo JRS 

Restos de uma comunidade - Arquivo JRS 

     Eu digo que sempre é interessante ir até o Saco das Bananas, na porção sul de Ubatuba, sobretudo quando é tempo das bananas, jacas, goiabas etc. Em 1981 eu estava a serviço do IBGE por ali, pude conhecer/reencontrar os caiçaras que ainda resistiam.  Quarenta e cinco anos se passaram. Gente de fora naquele tempo era “Seo Bassin”, cuja casa havia sido a primeira escola da praia. Como se deu isso? Na verdade, na década de 1980, quando o professor Pedro Paulo estava como prefeito, aconteceu uma negociação: o Gregório Crispim vendeu a sua posse para esse “Seo Bassin” e foi morar em Caraguatatuba, junto ao rio Juqueriquerê. Logo em seguida ele, o ricaço, procurou a prefeitura para construir uma escola mais acima, perto do caminho, e, à antiga escola, foi dada outra função, virou casa de veraneio. Linda mesmo! Não me pergunte se alguém levou uma recompensa por fora nessa facilitação. Só sei que, uma vez ali, a impressão que se tem é que a linda prainha é particular. Eu, por ter a parentalha por ali, circulava subindo e descendo o morro, mas nem ousava olhar para o lado da casa quando tinha gente lá. 

   Alguns conflitos aconteceram ao longo dos anos. Eu estava lá quando a embarcação dos filhos do Dito Madalena, que chegava da pesca, se chocou contra a enorme lancha do ricaço que estava fundeada no ponto deles. Coisa pouca, quase nenhuma marca, mas aconteceu. Os rapazes juntaram suas coisas e foram morro acima, para casa. Chegaram já contando para os pais (Dito e Constantina). Não demorou muito veio o dono da lancha reclamar do ocorrido. E então aconteceu o seguinte: “Sim, pois não doutor”. E ele começou a explicar o ocorrido. Mas mal começou, o Dito diz: “Vamos entrar, doutor. A casa é pobre, mas recebe o nobre. A gente se entende melhor sentados”. E ele, meio ressabiado, entrou e se acomodou na humilde cozinha, de onde se avistava o grande mar. “Mulher, faça um café para nós. Asse umas bananas para a gente comer com essa farinha e beiju que fizemos hoje”. Os rapazes, assim como eu, permaneciam em silêncio na sala, apreensivos pelo desfecho do assunto. E Dona Constantina, além de tudo, ainda fritou umas postas de peixe. E o homem não teve como não aceitar tudo aquilo que fazia parte da acolhida dos caiçaras. Então ele contou, comeu... contou... comeu mais ainda. Queria receber pelos danos causados na sua lancha pela embarcação da família. O Dito, depois de escutar o homem, respirou fundo, deu uma olhada por cima da janela como se a Ilha da Vitória estivesse logo ali: “Escuta aqui, doutor, eu não vou pagar nada. Naquele lugar, onde eu tenho visto a lancha do senhor, é onde fica a nossa poita. Tem até uma boia permanente lá, ela não sai dali porque é a nossa guia, onde a nossa baleeira fica fundeada. A praia é pequena, nós precisamos chegar e sair todo dia para a pesca. O seu barco poderia ficar mais para fora, sem atrapalhar nada. Por que o senhor põem ali, no nosso lugar? Então... eu não vou pagar nada! Não quero brigar com o senhor e os meninos vão continuar fazendo a mesma coisa que fazem todo dia. Nós precisamos pescar, é disso que a gente vive.  Assim tá bom? E, além do mais, nós somos vizinhos”. Desse modo foi resolvida a questão. O “Seo Bassin” saiu de barriga cheia, doido para chegar em sua casa e escovar os dentes, tirar o gosto da piragica frita. Depois eu ri muito. Ainda hoje, ao relembrar do fato, me alegro pelo desfecho. Certamente que o tal ricaço nunca esperava um tratamento daquele.


domingo, 19 de julho de 2026

A "REVOLUÇÃO"

      

Dona Gertrudes - Arquivo JRS 

         

     Desde pequenos fomos induzidos a acreditar que o movimento armado, de 1932, foi uma revolução. Ocorrida entre julho e outubro de 1932, também é conhecida como Guerra Paulista, foi um levante orquestrado pela elite paulista, uma contrarrevolução contra o governo provisório de Getúlio Vargas a ameaçar alguns privilégios mediante a força dos trabalhadores organizados. Em Ubatuba, principalmente por fazer divisa com o Rio de Janeiro, houve muito medo porque ninguém queria ir para nenhuma frente de combate, ter de abandonar suas famílias. Hoje, recorrendo à memória da saudosa dona Gertrudes, seu neto Rogério Estevenel nos brinda com o seguinte texto, com destaque aos caiçaras da comunidade das Toninhas. Gratidão, Rogério!


        A Revolução de 32 em Ubatuba 

     O céu começou a fechar cedo naquele dia, como se soubesse que algo estava para acontecer. Na Praia das Toninhas, o mar já não tinha o azul manso das manhãs: escurecia em ondas pesadas, batendo nas pedras com uma fúria que parecia ensaiada. Ao longe, o contorno do Morro do Dionísio surgia como um gigante silencioso, guardando segredos entre a Praia das Toninhas e a Praia Grande de Ubatuba. Era 1932. O Brasil fervia. A chamada Revolução Constitucionalista de 1932 chegava até ali não com discursos, mas com passos pesados na areia e olhos desconfiados sob chapéus de aba larga. Na beira do Rio Jacundá, as mulheres estavam de cócoras, mãos rápidas, limpando e escalando peixes recém-pescados. O cheiro de sal, escama e lenha queimando se misturava ao ar úmido. Entre elas, uma menina de doze anos observava tudo com um silêncio atento. Era minha avó Gertrudes — ainda menina, ainda sem saber que carregaria aquela memória por toda a vida. Ao lado dela, o pai — já curvado pelo tempo — apoiava-se em um pedaço de remo velho. Os olhos dele, no entanto, não estavam cansados: estavam alertas. Sabia.

     — Hoje eles vêm — murmurou, sem olhar para ninguém.

    E vieram.

    Primeiro, o som. Não de mar, não de vento. Botas. Muitas. Depois, vozes firmes, cortando o ar como faca em peixe fresco. Uma tropa desceu pela areia, levantando pequenos redemoinhos de pó. Homens armados, vindos não se sabia de onde — talvez de São Paulo, talvez do interior — mas com um só propósito: recrutar. Os caiçaras sabiam o que aquilo significava. Sabiam desde que os primeiros rumores cruzaram o litoral como um sussurro levado pelo vento. Quem pudesse lutar, iria. Quem não fosse, seria levado. Mas os homens dali tinham o mar como aliado. Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de um vermelho pesado, eles desapareceram. Subiram em silêncio pelo Morro do Dionísio, pisando leve como quem conhece cada raiz, cada pedra. Escondiam-se entre a mata fechada, onde o cheiro de terra molhada e folhas esmagadas abafava qualquer rastro. A menina viu alguns deles partirem. Tios, vizinhos, rostos conhecidos que desapareceram na trilha como se fossem engolidos pela própria montanha. 

     Na praia, a tropa não encontrou resistência. Apenas mulheres, velhos e crianças.

     — Onde estão os homens? — perguntou um dos soldados.

    Silêncio.

    O som distante de um trovão respondeu por elas. O vento virou de repente. As folhas das amendoeiras tremularam, e o mar começou a subir, inquieto. O céu escureceu como se fosse noite antes da hora. A menina apertou a mão do pai. Então a chuva veio. Não como chuva, mas como um rasgo no céu. Grossa, pesada, violenta. Em segundos, apagou pegadas, levou restos de peixe, fez o rio crescer e turvar. O Rio Jacundá engrossou, arrastando galhos e folhas como se quisesse esconder tudo o que havia ali. Os soldados recuaram, confusos. Gritavam ordens que se perdiam no barulho da tempestade. Alguns tentaram avançar em direção ao morro, mas a trilha virou lama, escorregadia, traiçoeira. A montanha, naquele dia, escolheu lado. A menina, encharcada, olhava sem piscar. Não sabia explicar, mas sentia: o morro estava protegendo os seus. A noite caiu de vez. Quando a chuva cedeu, já não havia mais tropa. Restavam marcas confusas na areia e o silêncio pesado depois da tormenta. Um a um, como sombras, os homens começaram a descer do Morro do Dionísio. Cansados, molhados, mas livres. Não todos — alguns tinham sido levados dias antes, em outras praias, em outras histórias que ninguém contava em voz alta. O pai da menina respirou fundo, como quem devolve a alma ao corpo.

     — O mar e o morro… — disse ele — ainda cuidam da gente.  

     A menina nunca esqueceu. Anos depois, já velha, contava que naquela tarde escura de trovoada, não foi apenas uma fuga. Foi um pacto silencioso entre gente e terra. Entre medo e coragem. E dizia, com um brilho estranho nos olhos, que até hoje, quando o céu fecha de repente na Praia das Toninhas e o vento sopra diferente, é porque o morro ainda está de vigia, protegendo aqueles que aprenderam a se esconder… e a resistir.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

CABEÇA DE PEIXE

 

Tainhas - Arquivo R. Ferrero 


     É tempo de tainha fugindo do sul gelado, buscando água mais quente para a desova. A caiçarada pira, sobretudo quando a cabeçuda tá ovada. Não é de hoje que o meu povo se desespera para caprichar um pirão de tainha fresquinha ou uma recheada e bem assada, deixando a vizinhança com água na boca. Eu não dispenso umas postas fritas para tomar com café e farinha de mandioca. Tia Sebastiana descartava todos esses modos de preparar, pois a preferência dela era tainha seca com banana verdolenga. E uma ova assada então? É bom demais, gente!

    Nesse espírito, aspirando em aproveitar a época, me dirigi ao mercado de peixes. No caminho encontrei com o filho da dona Inês e do finado Martinho:


   - Tais indo aonde, Zé?

   - No mercado comprar tainha. Será que tem?

   - Tem demais! Ontem passei no Zoreba e levei três bitelas. Mamãe tá lá em casa, e, como toda essa gente antiga, de outros tempos, peixe não pode faltar. Levei quatro das grandes, mas vou levar mais um tanto porque o preço tá bom. Quem prepara a comida, quando tem peixe lá em casa, sou eu. Dou folga às mulheres. Caprichei logo duas, rendeu no escaldado porque era só eu, a mulher e a mamãe. A minha mulher come pouco, mas eu e a mamãe... Nossa Senhora! Você acredita que a mamãe, quando se pegava na cabeça do peixe, assobiava de dar gosto? Umas cinco falas de passarinho ele tirava brincando! Para você ter uma ideia, eu precisei fechar a janela e a porta porque a passarinhada (saíra, sanhaço, tié e mais alguns atrevidos) já ia entrando na cozinha.

    (Risos) 

    - Na cozinha?

   - É, na cozinha! Porque lá em casa ainda é do jeito antigo: a mesa das refeições fica no meio da cozinha. Na casa do papai era assim, lá em casa eu sigo o mesmo costume.


   Me despedi do empolgado amigo e tomei o rumo das peixarias. A última fala dele me fez recordar de que na casa dos meus avós também era assim, existia uma grande mesa na cozinha. Com fartura de farinha de mandioca, escaldado (de peixe, de caça, de galinha etc.) era prato principal no almoço e no jantar daquele tempo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

SENTA AÍ E BOTA REPARO

 

João de Souza (de pé) - Arquivo Mônica 

       

As leitoras - Arquivo Mônica 

    A querida Mônica me enviou a imagem do seu vô João proseando com Miguel, Élvio e uma criança. Estavam defronte ao campo de futebol do Itaguá, sentados no banco de tantas histórias. Veio à memória muitos momentos onde a recomendação primeira era: "Senta aí e bota reparo no que vou contar". 

     João de Souza e mais gente nossa neste chão caiçara criava um mundo inteiro em suas contações.  Como um contador de histórias cria um mundo inteiro?

    Vivendo situações fantásticas?

     Recordando do passado, das experiências vividas ou escutadas?

      Continuando uma tradição cultural de se reunir geralmente aos finais de tardes?

     Recorrendo à capacidade imaginativa/inventiva?

     Desejando outros desfechos para algumas condições existenciais?

     Garimpando palavras e seus significados?

    Projetando protagonistas?

    Apaixonando-se pela narração, pelo prazer de colecionar histórias?

    Amando descrever tipos singulares que passariam desapercebidos no cotidiano?

    Dando importância destacada aos livros, bibliotecas e estudos?

    Adorando as palavras?

   

     São tantas as alternativas, mas acho  que elas acabam se ajuntando. 

    Sabe de quem eu me lembro quando estou lendo ou escrevendo? Eu me recordo no tanto de gente a contar histórias em minha vida! João de Souza, João Barreto, vó Eugênia, vô Estevan, Zezinho Roseno, Virgílio Lopes, Francisco Chagas, tio Ezidio, tia Izolina, tia Apolônia, Velho Rita e mais um tantão de gente que nunca tiveram a pretensão de questionar história, causo, lenda etc. , mas que de certa forma expressaram o poder da literatura. As "Crias da Dona Laura", começando pela Joseana e Mônica, estão abraçadas à literatura, me deixando bem feliz. Meus parabéns!

domingo, 12 de julho de 2026

A ESQUINA DO PECADO (III)




Lagoinha - Arquivo Marcos Prado


          Olhando para uma imagem capturada pelo primo Marcos Prado, comecei a escrever a experiência de quase agora quando, muito discretamente, eu mexia na terra, podava uns galhos e refazia uns vasos. Tudo no maior silêncio, do outro lado do muro, onde está a esquina de tantas prosas.
        Um pouco antes dei uma bisolhada para ver o movimento. Avistei o amigo Ditão sentado ali, bem tranquilo. Retornei aos afazeres. De vez em quando eu escutava o meu amigo cumprimentando alguém, fazendo uns comentários banais. Percebi a chegada de uma mulher, reconheci a voz da filha da Matilde. E tome prosa!

       - Boa tarde, Ditão! Sabia que o meu marido morreu faz quase um ano? Antes disso, por dois anos eu fiquei cuidando da doença dele, mas não teve jeito. Por isso eu digo que estou praticamente viúva há três anos. Aí apareceu alguém, tô namorando. É Deus que tá preparando um novo marido para mim. Só tem um porém: eu sou evangélica e ele é católico. Ele dorme lá em casa, fica comigo... Acho que vai dar certo. Deus tá preparando, vai dar certo sim. O meu falecido marido também era católico e nós nunca brigamos por conta disso.

        Pelo o que eu escutei, o Ditão prestava atenção na narrativa. Eis o fecho que ele deu na prosa:

        - Se já estão morando juntos é sinal que Deus já preparou. De agora em diante é com vocês.
       
        Escrever essas observações simples e honestas é o que me move. Eu interpreto a nova condição daquela mulher como uma libertação. Que seja mesmo!
         

sábado, 11 de julho de 2026

VIVA O TIO MANECO!

 

Tio Maneco - Arquivo Kilza 



Mestre Neco - Arquivo Débora 

         Eram três irmãos: Nhonhô Armiro, Tio Cláudio e Tio Maneco, de outros tempos da praia da Fortaleza, em Ubatuba. Desde pequeno eu sabia a seguinte história: tendo ficado órfãos de pai muito cedo, foi o mais velho deles, Nhonhô Armiro, quem ajudou a criar os irmãos, tendo de ir trabalhar como assalariado na região santista. Todos eram Mesquita, nossa raiz moura por parte da mãe. Do lado paterno, os Amorim eram da mesma origem, dos árabes que ocuparam por séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha).
        Maneco Mesquita passou por Maneco do Armiro e terminou sendo conhecido apenas por Maneco Armiro. Autodidata, tornou-se um exímio rabequista, sendo presença ativa na Folia do Divino e muito requisitado nos encontros musicais. Nas temporadas de férias, quando a cidade recebia muitos turistas, tio Maneco se tornava a estrela em muitos momentos. Numa ocasião, na casa de um alemão acordeonista, no morro da Fortaleza,  eles se compuseram em dupla muito aplaudida. Eu, adolescente, passei mais de hora escutando os dois tocando. Titio, um show à parte, se requebrava todo, não perdia o ritmo e se completava com o alemão. Rabeca e acordeon geravam uma maravilha de música. Que beleza!
       É verdade que, por um lado, a gente notava a ação predatória dos turistas sobre as nossas paisagens (praias, costeiras, morros...) e a nossa cultura. Porém, uma parcela desses visitantes (veranistas) prestigiava a atividade musical do nosso lugar, comparecia aos festejos, acolhia os foliões, valorizava satisfatoriamente traços da cultura caiçara. Posso dizer que tio Maneco Armiro deu a sua contribuição nessa interação entre pessoas e culturas tão diversas. Viva a memória dele!

      Dele e da tia Aninha, mano Mingo escreveu:

Parentes da alegria

Espalhafatoso e pregoeiro de leilão em festa do padroeiro
Tio Maneco, rabequeiro e rabo-de-saia autodidata
No intervalo de trabalho e estripulias
Sacou as tintas de Miró
Mesmo sem conhecê-lo
E pintou os tijolos de sua casa
Cada um de uma cor.
Tia Aninha, sua esposa, tratou de enfeitá-la por dentro
Armou o oratório mais bonito e variado
Com anjos, santos e beatos
E distribuía biscoitos e bênçãos
Para nós, crianças de todas as idades.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

O VIOLEIRO OTAVIANO

 

Folia do Divino 2026 - Arquivo Débora 

    Tio Maneco Armiro, rabequista de primeira, fazia todos os  anos a sua parte na corrida da Bandeira do Divino. De vez em quando eu atentava aos elogios que eram feitos aos seus parceiros; tinha predileção pelo paratiano Otávio porque era desinibido, gostava de falar e tinha uma visão de mundo diferente, era viajado, vivia de música e de um mínino de subsistência (puxava rede no Itaguá com Florindo e Aládio, limpava terrenos por empreitadas, buscava sardinhas no cais etc.).  Outros bem estimados eram Santinho e Otaviano. Este, violeiro, natural do Itaguá, faleceu em 1979. É por sua voz que apresento agora partes de uma música recolhida pela Kilza em anos de pesquisa sobre a produção musical caiçara:


Quem quisé sabê meu nome

Vai lá em casa que eu dô

O meu nome tá escrito 

Na porta do corredô, ai, eh!


     Notou que  o músico deixava um clima de suspense? Depois de outras quadras, finalmente ele revela o seu nome:


Eu me chamo Taviano

Escrevê nome não carece

Em toda parte q'eu vô

O pessoar me conhece.


      Portanto, logo é fácil deduzir que tio Maneco, Otávio Paratiano, Santinho, Otaviano, Dona Sebastiana, Pedro Brandão e outros mais eram andarilhos no cumprimento da devoção. Eram conhecidos por toda gente do município naquele tempo em que a religiosidade popular transpirava no universo caiçara.