sexta-feira, 8 de maio de 2026

O SENHOR NÃO SABE LER?

 

Canoa e canoeiros - Travessia Ubatuba-Santos - Arquivo internet


     Francisco Lopes é meu primo e compadre. Se aposentou como carpinteiro. Sempre gostou muito de escutar histórias e também de contá-las. Ah! Foi aluno do professor Joaquim Lauro, na escola do Itaguá.

    Joaquim Lauro, natural da cidade de Lorena, assim que se formou conseguiu emprego em Ubatuba. Era metade do século XX, tempo de raros professores nativos da beira do mar. Por isso esse mestre veio exercer a profissão e fixou moradia em chão caiçara. Sua casa sempre foi ali, na entrada da praia do Tenório, próximo do rio Acaraú. No portão havia uma placa: “Consulado de Lorena”. Os antigos alunos diziam que ele era rigoroso, bravo, sempre disposto a dar um corretivo imediatamente.

     Esse senhor que escolheu viver em Ubatuba pelo resto da vida é sempre lembrado por incentivar as corridas de canoas caiçaras, cujo grande momento foi a longa travessia Ubatuba a Santos, em 1973, para comemorar um fato histórico ocorrido em 1563, no território Tupinambá: a contraditória “Paz de Iperoig”. Cinco remadores (Artur Alexandrino, Carrinho, Jango, Barrosinho e Nilo Vieira) conduziram a canoa Maria Comprida por mais de 200 quilômetros na linda costa atlântica. O ponto de partida foi defronte a capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Depois disso muitas outras provas aconteceram e muita gente se destacou nas remadas. Hoje vamos conhecer, via Chico Lopes, um fato que se deu numa dessas ocasiões festivas do povo caiçara.

 

    Era tempo de regata de canoas no Itaguá. Importantes prêmios seriam distribuídos aos melhores classificados. Joaquim Lauro era exigente, meticuloso nos detalhes e nas regras. Todas as embarcações precisavam ter nomes bem legíveis. Martiniano, um dos competidores, sendo analfabeto de tudo, recorreu ao Chico Preto, filho do Velho Rita, para marcar a sua canoa emborcada logo ali. Assim ficou bem legível na proa: AURORA.  Se aproximando o momento da prova, com algumas canoas ainda sendo desviradas e puxadas do jundu, o professor Joaquim Lauro saiu conferindo tudo. Ao chegar junto do Martiniano, perguntou:

     - Qual o nome da sua canoa?

     A resposta imediata foi:

     - AURORA, o senhor não sabe ler?

     Você consegue imaginar a estrondosa gargalhada de quem estava por perto?


Explicação do mano Mingo: o nome da canoa foi escrito pelo Chico Preto quando ela estava emborcada. Ao ser desvirada, o nome AURORA  ficou de ponta cabeça, difícil de decifrar. As risadas se deram porque era um analfabeto interpelando um professor.

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