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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

ERA GARNÉ

 



Baguary de Fora (Arquivo JRS)

    O mar estava ali, bem na porta. Comida também tinha, era o que bastava para as forças necessárias de cada dia. A pinguinha sempre surgia de algum lugar, trazida por alguém para distrair a vida dos pescadores. Ali Garné vivia o seu tempo não sei por quanto tempo, pois desde sempre eu tenho a lembrança dele sendo pescador naquele lugar, no pedaço de costeira conhecido como Baguary de Fora. Outros parceiros vez ou outra lhe faziam companhia, dormiam por ali.

    Desde sempre os pescadores usaram o Baguary como referência de pesqueiro, com bons parcéis e tocas fantásticas. Lugar de garoupa, de sargo e de tantas outras espécies cobiçadas por quem vive do mar. Há muito tempo a pesca de cerco foi instalada ali. Hoje não tem mais. Na falta de praia, uma estrutura (estivado) feita em paus roliços sobre as pedras da costeira serve de rampa às canoas, onde sobem e descem para a água, em busca dos peixes. Dois caminhos garantiam o acesso ao Baguary: um do alto do morro do Cedro e outro da Ponta Grossa, quase chegando no Farol. Quer um lugar bonito? Deseja sentir melhor a natureza? Recomendo, dentre outros, o Baguary de Fora, uma formação de relevo diferente. Tio Genésio dizia que baguari é coisa que não está de acordo. Quero entender que significava algo que destoa daquilo que era normal. No caso, entre um amontoado de rochas resistentes à força do mar, um ambiente diferente se formou. Árvores grandes, plantas rasteiras e até coqueiros se fizeram aparecer a partir de condições que pareciam impossíveis à vida. É certo: a natureza insistiu muito para se fazer daquele jeito, naquela beleza sem igual.
    
    O percurso da Ponta Grossa, a partir do Canto do Acaraú,  sempre me agradou muito. Andei bem por aqueles morros e costeiras desde antes dos vinte anos de idade. Vi as modificações acontecendo (e continuam!). Por vezes, de repente, punha a mochila nas costas, me despedia da mãe e lá me ia na caminhada. Quase sempre levava café, açúcar e pão para um café durante a prosa com o Garné e possíveis companheiros do Baguary (Zeca, Bidico, Tico, Jango...). Neste ano, meses atrás, Garné se foi. A paz daquele lugar agora é outra, sem o amigo de tantas prosas, das boas risadas da Era Garné.

    

    

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

DA PROA DA MINHA CANOA

Muro na capital paulista (Arquivo JRS)

Instrumentos no Casarão (Arquivo JRS)

            De acordo com o dicionário, salvaguardar  é tomar medidas para pôr (algo ou alguém) fora de perigo; proteger, defender. O Encontro de Fandango Caiçara em Ubatuba teve este objetivo.

            A salvaguarda do fandango, da canoa caiçara... Enfim, da cultura  caiçara, implica muitos aspectos, tais como: garantia de território, festividade, continuidade dos saberes e das tradições pelas novas gerações, artesanato, religiosidade, técnicas, interação/interdependência com o meio ambiente etc.

            A formação acadêmica, em contato com os sujeitos dessa cultura (caiçara), só poderá ser um reforço, “um biotônico” conforme costuma dizer o Élvio; algo que aumentará e alimentará a nossa resistência, pois poderá nos mostrar outras linhas de reflexão ao mesmo tempo que vai nos apresentando fatos, experiências muitas vezes externas, que contribuem com a cimentação das formas de resistência que  aí estão, fomentando outras alternativas. Foi assim que eu enxerguei as intervenções dos acadêmicos e acadêmicas durante o “Encontro de Ubatuba” neste fim de semana que passou. Dentre as diversas falas, me sensibilizei com a objetividade do Peter Santos Németh, acadêmico da Universidade de São Paulo (USP) que se sentiu despertado a partir da convivência com os pescadores da praia da Enseada.

            “Por volta de 2004, saindo para  pescar na madrugada com o Pedro, notei que rumávamos para a escuridão, na direção do Boqueirão, ao mesmo tempo em que as luzes da Enseada iam desaparecendo. Enquanto a canoa deslizava na água, eu prestava atenção a tudo que o Pedro falava. Era um ensinamento sobre a sua vida, a sua cultura. Foi quando eu acordei para a importância da canoa caiçara. Naquele ambiente, na lida do mar, da mesma forma que o Pedro naquela ocasião fazia comigo, os velhos caiçaras foram passando a cultura para os filhos. ‘Um dia o Pedro aprendeu assim do seu pai e do seu avô’. Cheguei à conclusão que a canoa era o principal veículo dessa cultura. Veículo em dois sentidos: condução nas necessidades e condução da cultura. Veio daí a motivação para puxar um movimento pelo tombamento da canoa caiçara como patrimônio imaterial nosso”.

            Concluindo: a partir da canoa caiçara, da prosa com aquele pescador caiçara e com tantos outros da praia da Enseada, o Peter se viu impulsionado a fazer a sua canoa na USP. Esta sua canoa, esculpida continuamente pelo enxó da reflexão e da vivência junto ao povo caiçara, só tende a alargar os horizontes do Boqueirão alcançado pela canoa de pau. Ah! Agora também leva o fandango embarcado!


            O desafio é promover mais e mais ações que possibilitem às novas gerações rever rumos e dar mais forças nas remadas neste objetivo de salvaguardar a cultura caiçara em todos os aspectos possíveis. E viva todo o pessoal que se envolveu no Encontro de Fandango Caiçara em Ubatuba!

terça-feira, 5 de julho de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (II)



Praia Mansa - Ilhabela (Arquivo JRS)
Eis o segundo relato da I Feira de Educação Ambiental. Boa leitura!

DE ÁRVORE E DE CANOA
                                            Marina Martins de Carvalho

Origem:
Na sala de professores da Escola Gabriel Ribeiro dos Santos (Ilhabela), no primeiro semestre de 1993, ouvi o comentário seguinte: “Aqui em Ilhabela havia, outrora, uma excelente madeira para fazer canoas; foi tão explorada, fizeram tantas canoas – até para vender no continente – que a árvore foi extinta; restam apenas alguns exemplares no outro lado da Ilha”.
Interessada nos problemas ambientais e sensibilizada pelos cursos da Fundação Living Earth – Vivendo a Terra – no Litoral Norte de São Paulo e pela recente implantação das escolas padrão, pensei logo que poderíamos fazer uma pesquisa para apurar a veracidade daquela informação e, eventualmente, promover o replantio da preciosa árvore neste lado da Ilha.
Expus o projeto às minhas alunas da 3ª série do Curso de Habilitação Específica para o Magistério. Elas se dispuseram a entrevistar pescadores, canoeiros, quaisquer moradores da Ilhabela que tivessem conhecimento do assunto. Eu já conseguira o nome de pessoas que estariam dispostas a conceder entrevistas e as professorandas conseguiram outros nomes.
As 33 alunas foram distribuídas em grupos de quatro, com uma coordenadora, entrevistaram 15 pessoas e apresentaram-me os oito relatórios que também foram utilizados pela professora de Língua Portuguesa (Yole), como nota de um bimestre.

Especificação da Pesquisa:
·        Pessoas entrevistadas:
José Antônio Matias dos Santos, 67 anos, pescador aposentado
Benedito Moraes Filho, 52 anos, taxista e canoeiro
Marco Rafael de Souza, marceneiro
Antonio Rafael de Souza, 74 anos, canoeiro
José Alves Passos, 59 anos, serviços gerais na Escola Maria Gemma
José Antonio S. Gonzalez, 40 anos, professor e artesão
Jessé Araujo dos Santos, 43 anos, gerente local da Cesp de Ilhabela
Paulo Rodrigues de Oliveira, 70 anos, canoeiro
José Romão, 54 anos, pescador
Pedro Basílio da Silva, marinheiro aposentado
José Leopoldino, trabalha na Sucem
Pedro Paulo, diretor da Secretaria de Meio Ambiente de Ilhabela
Pedro, 73 anos, canoeiro
Benedito Santana de Morais
Paulo Andrade Molinari, Presidente da Colônia de Pescadores de Ilhabela

·        Entrevistadoras:

Elaine, Simone, Alda, Ofélia; Marly, Márcia, Nereide, Caroline; Eliane, Ana Paula, Andréia, Elciléia; Cleidemara, Léia, Leonice, Fernanda C.; Wanessa, Carmen, Fernanda S.; Lídia, Darilene, Meire, Raquel; Luciana C., Marluce, Bianca, Renata; Luciana, Lilian, Priscilla, Tatiane.
·        Coordenadora: Maria Cristina
·        Local: Ilhabela, São Paulo
·        Época: Primeiro semestre do ano letivo de 1993
·        Organizadora: Profª Marina (Filosofia Educacional e Conteúdo e Métodos do Ensino de Estudos Sociais)

Análise dos Relatórios:
·  Árvores citadas:
Ingá, Figueira, Cedro, Guapuruvu, Jequitibá, Urucurana, Canela, Pequiá, Nogueira, Cabreúva, Louro, Vinhático, Jaqueira, Ipê, Coabirana, Noz moscada, Tamanqueira, Jacataúba, Tapiá, embiruçu, arariba, óleo branco, quabirana, içá, paina, angibins, sapupuva, abataria, bucuiba, ariticum, pau d’alho, gratauna, chapéu de sol, pau brasill, maçaranduba, indaiauba, mangueira (sugerida pelas entrevistadoras, mas descartada porque é “muito curta, só dá pra canoa pequena: não compensa”) e bataia.
Foram mencionadas duas madeiras próprias só para artesanato: a cupiúba (pouco resistente) e a caxeta (porque é mole).
Pelo menos em Ilhabela, com 51 espécies de árvores podemos fazer canoas, contando-se as variantes como ingá vermelho e ingá canela, figueira limão e figueira cipó etc.
Duas foram indicadas como a “mais usada”: a nogueira e o guapuruvu.
Só o jequitibá e o cedro foram classificados árvores ameaçadas de extinção.
Só uma contradição foi encontrada: sobre o pequiá. Dois depoentes disseram que essa árvore é contraindicada para canoas, mas outro elogia o pequiá contando que com um só tronco fez três canoas além de pequenos utensílios.
Além desses dados que serviram para elucidar a proposta da pesquisa, algumas outras informações paralelas foram recolhidas e poderão, no futuro, engendrar outros tipos de reflexão e atividades em benefício da comunidade.

Conclusão:
Aparentemente, os entrevistados não têm notícia do desaparecimento de árvore ligada  à confecção de canoas.
Dois deles disseram que houve derrubada indiscriminada de árvores de todos os tipos: um alegou que foi para a formação urbana da Vila e outro, para comercialização de canoas fora daqui e para fazer mesinhas, mourões, bancos, casas etc.
Outros dizem que ainda há muitas árvores nos morros e, hoje, há um controle severo da Polícia Florestal, cumprindo a lei que proíbe o abate de árvores.
Dois outros entrevistados até sugerem que a proibição do abate poderia ser amenizada, que cada caiçara deveria ter o direito de cortar uma ou duas árvores por ano.

Não se confirmou, portanto, a suspeita que deu origem a essa pesquisa. Missão cumprida.

As estudante que levaram cabo esse trabalho ampliaram sua experiência de vida e passaram a conhecer e interessar-se mais pelo ecossistema da Ilhabela. Na sua maioria, gostaram de realizar a pesquisa. Algumas procuraram saber mais detalhes sobre os entrevistados, sua vida na Ilha, suas opiniões, seu trabalho, a fabricação das canoas. Tiveram a oportunidade de apreciar as condições de controle do abate de árvores, a exigência do plantio de uma muda para cada exemplar adulto derrubado, o que deixa claro a preocupação do legislador com a preservação do ambiente. Obtiveram informações sobre o passado de sua comunidade, a festa de lançamento da canoa ao mar, as modinhas, a oxaria; o comércio da Ilha que mandava para o continente canoas abarrotadas de produtos naturais.
Também os entrevistados gostaram de participar da atividade.

Um dos grupos de alunas foi levado pra ver de perto um pequiá jovem e até planeja fazer um filme sobre árvores.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

SEBASTIÃO LOURENÇO, UM GRANDE MESTRE CAIÇARA

Canoa caiçara no Itaguá (Arquivo JRS)

               
"Hoje infelizmente recebo a notícia que meu grande amigo e Mestre Caiçara, o Tião Lourenço, faleceu". Eu digo o mesmo, Peter. Por isso compartilho a sua matéria a respeito desse grande, tímido e habilidoso cidadão da nossa terra. Parabéns pelo texto de sincera homenagem!

O Tião (3/8/1945 - 28/04/2016), gente simples, honrado e trabalhador, eu tive a honra de conhecer na década de 1970, quando a minha família morava no Perequê-mirim. Ele se tecia por ali, assim como o Sabá, o Odócio, o Teteco, o Maneco Antunes, o Fabiano, a Maria Dornelas, o Almeidinha, a Dorcelina, a dona Celeste, o Zé da Nhanhã, o Angelino Roseno e toda a caiçarada de então. Mais tarde, após o casamento da Cida com o Clementinho, tive a honra de ser parte da sua família.


Mais um arquivo vivo da cultura caiçara de Ubatuba nos deixou, uma enorme biblioteca de memórias haliêuticas [arte da pesca] que se perdeu.



Tive o privilégio de conviver como Tião por mais de 10 anos e aprender com ele uma ínfima partezinha de tudo o que ele sabia. Provar o bacupari, aprender a colocar o sobrenício, fazer um alegre, tentar entender o responso, o carvão vivo da fogueira de São João e a pedra de cevá.

Quantas histórias misteriosas de ouro encantado, boi-tá-tá, assombração ele me contava com tanta vivacidade que seria impossível que não fossem verdade.

Tive ainda a sorte de poder registrar em vídeos e áudios muitos destes fragmentos.
Em nosso último encontro, já no hospital, levei-lhe 15 páginas de transcrições retiradas de quase duas horas de gravação: "Dá quase um livro Tião!" lhe falei. (Apenas 2 horas, 15 páginas, quanto não daria 60 anos de sabedoria!?)
Nesse dia pude dar-lhe um forte abraço sem o gosto de despedida, mas de um até breve.
Até breve Tião, muito obrigado por me tornar um ser humano muito melhor do que eu era antes de te conhecer.

FONTE: canoadepau. blogspot.com

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

NOSSAS TRADIÇÕES

Acompanhando tudo.  (Arquivo JRS)



                   Olá, Marcos Prado! Seja bem-vindo ao blog!

                Agora mesmo, no último domingo, fui à Praia da Barra Seca para rever os amigos caiçaras e assistir a uma regata de canoas. Que belas canoas!
                A acolhida, preparada pelos moradores, era um legítimo café caiçara incrementado. As pessoas se empenharam na diversidade (frutas, bananas, batata doce cozida, bolos...). No cerimonial, logo que pisei na areia, encontrei o Élvio, o narrador oficial dessas provas e mestre da dança-da-fita do Itaguá. As “feras do remo”, inclusive os veteranos, estavam ansiosos: Higino, Carneirinho, Nélio, Nelson, Neco, Jorge, Paulo, Zeca, Jorge e tantas outras feições familiares. Rapidamente, os poucos turistas também se aculturaram. De outras praias vieram outros remadores com muita disposição de mostrar seus talentos. Afinal, era uma genuína confraternização. Estevan, meu filho, mesmo tendo de pedalar muito, adorou esse dia.
                O mar da Barra Seca, na regular calmaria, deixava em evidência o “peito de areia”, onde uma arrebentação distante mostrava o quanto as águas invadiram, no último século, esse local. “A caiçarada teve de correr”. 
             As provas tiveram início: canoa de um, de dois e de três remos; prova para as crianças, mulheres e casais... Todos eram atores principais sob aprovação dos mais antigos. Conforme a tradição, em dia de festa, vestidos a rigor eles apuravam a vista e não perdiam as emoções dos momentos. Que graça vê-los contentes, engrandecidos pela tradição que as novas gerações se esmeram em atualizar!

                

sábado, 21 de junho de 2014

CANOA CAIÇARA

SEMINÁRIO DE CULTURA CAIÇARA EM SÃO SEBASTIÃO




































É isso aí, Peter! É uma marca nossa, da nossa cultura caiçara! Que bom que as coisas estão acontecendo! Que essa maré se alastre!


Fonte: http://www.pesnochao.org.br/seminario.html.

Este evento tem como propósito promover a difusão de elementos da cultura tradicional caiçara junto aos professores do ensino público de Ilhabela e São Sebastião e demais interessados.
Foram convidados estudiosos deste universo para compartilhar seus conhecimentos, ampliar o interesse pelo assunto e instrumentalizar os educadores para novas abordagens dentro de sala de aula.

O registro da Canoa Caiçara como Bem Cultural Imaterial junto ao IPHAN, será abordado em uma palestra no dia 25 de junho pela manhã.







O Seminário acontece no Teatro Municipal de São Sebastião, nos dias 24 e 25 de junho, 


das 9:00 às 13:00 horas

quinta-feira, 19 de junho de 2014

DA CANOA À TRAMELA


Tirando canoa no Ubatumirim (Arquivo Chieus)

QUEM DISSE QUE CAIÇARA É PREGUIÇOSO? 
Esta é a questão apresentada por Mário Gato.


    "O camarada foi pro mato tirar um corte de canoa. Chegando lá encontrou uma imensa timbuíba-cedro de uns 20 metros de altura, passou a mão em um enchó (ferramenta em formato de U para confecção de canoas e outros objetos em madeiras) e um machado, e assim deu início à construção de uma canoa. Depois de um mês e meio bem trabalhado percebeu que tinha algo de errado naquela humilde embarcação que já estava pronta. Da popa ele olhou bem..., olhou bem a proa... e percebeu que tinha algo de errado - fez a canoa com a proa desbeiçada ( um lado maior que o outro). Assim ele falou: 'Não tenho preguiça!' Então, trabalhou mais um dia naquela canoa torta transformando-a em cocho, no qual serviria para dar comida aos animais. Levando cocho pra casa, mais uma vez ele percebeu que o cocho também não ficara bom. Então, ele falou: 'Não tenho preguiça!' Investiu em mais meio dia de trabalho transformando o  cocho  em  uma  linda  gamela (utensílio em madeira muito utilizado para lavagem de alimentos e em outras serventias), que por sua vez também não ficou boa. Novamente ele falou: 'Não tenho preguiça!' Pensou, pensou... já sei!!! Vou transformá-la e uma colher-de-pau! Passou a mão no enchó. Toc,toc de lá, toc,toc de cá. E não é que ele fez a bendita colher-de-pau? Entregou a colher-de-pau a sua mulher para fazer doces. E, não sendo diferente das outras coisas que também não tinha dado certo, mais uma vez a colher não foi aprovada por dona Maria, vossa esposa. No dia seguinte, cansado e sentado debaixo de uma jaqueira no terreiro de sua pequena e simples casa de pau-a-pique e com um só pingo de imaginação em sua cachola, olhou para mulher que da janela lhe observava há tempo e teve uma ideia. Passou a mão naquela bendita colher, cortou o cabo e a transformou em uma tramela (fechadura de madeira fixa ao batente da janela, que ao girá-la faz a função de trancar), para a mesma janela, que vossa esposa estava debruçada lhe observando. Depois de um desmedido desperdício de madeira saiu algo que preste! Olhando para sua esposa como se estivesse feito algo surpreendente, falou: 'Sou caiçara e não tenho preguiça!"

TEXTO: DOMÍNIO PUBLICO. ADAPTAÇÃO: MARIO GATO

quarta-feira, 4 de junho de 2014

CANOA CAIÇARA: HISTÓRIA, VALOR E MEMÓRIA SOCIAL

Dito Grande no jundu da Enseada (Arquivo Peter, o Alemão)
                  Sempre é gratificante descobrir ou relembrar de outras pistas, de outros caminhos e de outras pessoas que vão dando consistência à nossa convicção de que devemos resistir à padronização de culturas e valores imposta por um sistema econômico globalizante.É isso aí, Peter!

            Já há algum tempo não escrevo sobre as Canoas Caiçaras, no último ano tenho me dedicado aplicadamente à pesquisa. Iniciei meu mestrado em Ciência Ambiental pelo Procam-USP o que tem me tomado muito tempo. Já tenho o esboço de alguns artigos sobre o Valor Econômico do Saber Tradicional Caiçara e também sobre A Pesca de Marcação em São Paulo, breve publicarei trechos.
Foi pesquisando para esses textos que me deparei no NUPAUB com a publicação: PESCADORES DE ITAIPU, de Kant de Lima e Luciana Pereira, EDUFF-1997.
Recomendo a leitura desse trabalho, de onde extraí o pequeno trecho abaixo que não entrou, mas deveria, no Dossiê Canoa Caiçara:

De qualquer forma, é interessante chamar atenção para um fato que talvez contribua para a determinação desse valor (exato valor das canoas), que não existe, por exemplo, nas referências ao valor monetário de seu produto no mercado. É que essas canoas, todas, têm histórias, vinculadas à história de seus proprietários anteriores e atuais, aos lugares de procedência, às condições específicas de sua aquisição e transporte, tornando-se quase que expressões não só das histórias das pescarias de Itaipu, como de todos os grupos de pescadores que com elas mantém ou mantiveram relações. (...)Essas canoas são, assim, mais do que objetos artesanais, verdadeiras memórias sociais.

           Esse trecho define muito bem o sentimento que tenho quando restauro uma canoa. Ao lixar sua madeira, diversas camadas de tintas superpostas se revelam, e fico a imaginar quantos donos anteriores, quantas esperanças, anseios, projetos, intensões foram depositadas a cada pintura, compondo nessa memória social a alma da Canoa. Já cheguei a contar 11 camadas diferentes, e nessa última que estou restaurando, tenho pensado em como preservar ao menos um pedaço que exponha todas essas camadas anteriores justamente para registrar esse aspecto singular.
FONTE: canoadepau.blogspot.com

terça-feira, 22 de abril de 2014

COISAS DA CULTURA

"Canoa em tratamento"- Foto: Roberto Ferrero
            Sempre tem gente se acaiçarando, aprendendo e repassando lindos aspectos da nossa cultura. Parabéns ao Roberto Ferrero por esta contribuição à nossa gente. 

      Olhando fotos antigas na depressão pós-feriado eu fiquei pensando: no inverno desse ano minha canoa completa 5 anos! Feita de um ingá que caiu numa beira de estrada de terra em Caraguá. No que ele caiu rachou a madeira longitudinalmente de modo que a porção de cima da proa da minha canoa tem uma fenda de uns 2 cm, por onde vaza um fio grosso de água quando a canoa está muito pesada. Não chega a ser um problema, raramente levo alguém comigo. Gosto de remar sozinho. Sozinho de todo não, porque eu escrevi o nome da minha esposa na popa. Assim levo comigo sempre minha mulher. E tantas outras coisas. 
       As vezes eu acho que o mundo inteiro caberia no bojo da minha canoa. Pelo menos as coisas importantes. Se eu fosse escolhido para carregar todas elas, eu carregaria. Mas não fui. Por hora vou levando o que acho certo. 
       No verão me pediram para catar caranguejo na costeira. Esperei maré de lua ficar bem vazia, pedi uma cabeça de betara pro Ico da Enseada, quebrei com cuidado dois gravetos de goiaba (estavam quase todos floridos!) e fui lá pegar os caranguejos. Tem que assobiar para ele sair da toca, eu conheço a linguagem e a técnica. Mas mesmo assim não peguei tantos. Talvez 20 deles, no máximo. Uma manhã inteira com essa tarefa, para somente 20 deles. Foi pouco porque eu só escolho os machos e grandes. Porque eu acho que não é certo matar as fêmeas nem os jovens. Na verdade eu não acho. Eu sei. Um macho pode fertilizar várias fêmeas. Uma fêmea só pode ser fertilizada uma vez só. Conta fácil de se fazer. Eu levo esse tipo de coisa no bojo da minha canoa. Porque eu acho certo. 
       Na popa eu levo o nome da minha mulher. Pra não ficar sozinho. E assim, remada a remada eu vou construindo a nossa historia. Cinco anos e já demos de cara com o tempo, já fomos arrastados por raias, já vimos cardumes imensos de tainhas iluminados, raias pintadas feitos anjos planando por baixo de nós, toninhas cruzando o boqueirão, já fisgamos tartaruga por acidente, já nos encrencamos nos garramar das ressacas, embocamos, arranhamos nosso fundo em lajes mas na maioria das vezes navegamos em paz, nas águas abrigadas da Baia do Flamengo.
       Fico feliz de ver que tem tanta gente boa interessada em preservar essas coisas. Feito o Peter e o José Ronaldo e tantos outros caiçaras que alegram a linha do tempo do meu facebook com caiçarices. Mas me preocupo com o futuro. Queria aprender a fazer essas canoas. Queria uma legislação pesqueira mais justa com os pescadores artesanais. Queria mais fiscalização, mais eficiência.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

REPENSAR O ESPAÇO MARÍTIMO

Baía de Ubatuba (Arquivo JRS)
                       Relendo um texto já publicado, após ter ouvido alguns comentários na Zona da Rampa, onde me encontro sempre com pescadores e vendedores da diversidade de pescados e frutos do mar, achei por bem republicá-lo na intenção de não deixar de oferecer a mais gente esta reflexão sobre desenvolvimento sustentável a partir do nosso mar.


                Eu pude conhecer a Baía de Ubatuba piscosa, mas de acordo com os mais antigos, ainda “não era nada em comparação com outros tempos, quando não havia traineira arrastando até no quebramar!”. Lembro-me bem dos lances de rede dados por Florindo T. Leite, por Aládio e outros. Ainda era fartura, alimentava muita gente. Enfim, parece que o pessoal, desde aquele tempo (do início dos arrastos mecanizados nas nossas baías), já sabia o que diminui a oferta de pescados. Afinal, a rede de malha miúda pesca tudo, inclusive os filhotes. O que tem de ser feito?

                  a) Optar por uma pesca mais artesanal, ou seja, que deixe o peixe procurar a isca;
                    b) Garantir a proteção dos peixes, sobretudo dos que precisam crescer.
              c) Zelar pela qualidade das águas dos rios que desembocam na Baía de Ubatuba.

                Eis a minha sugestão: fazer da Baía de Ubatuba um espaço de parcéis artificiais para que os frutos do mar se reproduzam e atraiam os peixes para a alimentação e proteção. Quantas carcaças de automóveis vemos abandonadas no município? É certeza que, após um semestre afundadas, as cracas as infestarão e os peixes já estejam em casas novas. E por que não criar um charme para a cidade das canoas, com o mar coalhado delas, praticando a pesca esportiva? E por que não desenvolver a canoagem desde os primeiros anos escolares como uma marca coerente com a tradição natural, gerando futuros campeões na canoagem?

           Nós todos precisamos refletir sobre isso, mas é dever principalmente da Colônia dos Pescadores e daqueles que dependem diretamente da atividade pesqueira e precisam ir cada vez mais longe para trazer uns pescados que, há coisa de quarenta anos, eram devolvidos ao mar porque faziam parte da miuçalha.

                Na verdade, trata-se de repensar o espaço marítimo e os nossos comportamentos para continuar tendo uma natureza exuberante e uma boa qualidade de vida.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

COM QUANTOS PAUS...(II)

   
           Dando prosseguimento ao assunto de como fazer a canoa caiçara, desde já agradeço ao pessoal de Paraty que publicou, há quase três décadas esse material, inclusive com lindas ilustrações.

Pesquisador: - O que é desbojar?

Ditinho: - Desbojar é ir tirando a lateral de um lado e de outro. Tirar o bojado da tora pra ela ficar reto dos lados. depois eu vou cavocar dentro, que é pra ficar mais leve. Tirar a maioria da madeira por dentro, tá entendendo? Pra poder virar a tora. Aí eu tenho de dividir bem o centro, pendurar um prumo na proa e um prumo na popa.

P: - Por fora?

D: - De cima pra baixo, assim, peço lado de fora. Bota dois prumos bem no centro. Lá na proa e na popa. E onde der embaixo tem de marcar, sabe? Aqui é pra fazer o fundo. Aí, depois que estiver marcado, nós vamos virar de bruço. Depois que de bruço, eu vou botar o nível de boca pra baixo, no bordo dela,tá entendendo? Pra ver se ela está no mesmo prumo que estava de boca pra cima. Então, deu tudo certinho, aí eu arraso pra fazer o fundo. Tem que ter aqui o que tem ali. Não está acochado nem pra lá nem pra cá.

O objetivo dessa marcação é encontrar os pontos básicos da canoa. Desses pontos sairão todas as demais medidas. A partir deles, traçam-se duas linhas: uma na frente do tronco e outra atrás, que determinarão se a canoa está em prumo. Depois, as linhas de garra e do centro.

P: - Então o senhor põe o nível para poder fazer a parte plana do fundo? E depois?

D: - Depois que arrasar o fundo, que estiver no nível direitinho, então eu vou bater nova linha no fundo. Fazer três linhas.

P: - Para saber o meio do fundo no sentido do comprimento da canoa?

D: - É; e pra medir a largura da garra. Três linhas: uma no centro e uma de cada lado.

A  “garra” é uma saliência para a saída e entrada de água na parte externa da canoa.

P: - Como é que o senhor acha essas linhas laterais?

D: - É por ideia, entende? De acordo com o tamanho da canoa é a largura do fundo.

P: - Quer dizer que, além da garra, ela marca também a largura do fundo?

D: - É isso mesmo. Elas não são retas não. O senhor começa aqui e daí ela fica mais larguinha no meio e volta a apertar no fim. Se a canoa é pequena pode botar no meio uns 15 centímetros; se é bem grande, pode botar até 30 centímetros. Uma canoa bem maior pode botar até 40 centímetros de fundo (e nas pontas uns 5 centímetros).

Ele se refere à parte plana que existe no centro da canoa, na parte de baixo pelo lado de fora.

D: - Depois eu vou fazer o delgado da proa, o boleado da popa, as duas garras. Vou fazer tudo por fora direitinho. E aí no molde está pronta. Aí eu vou tirar um pouco de madeira, dar mais um cavoque por dentro pra ela ficar mais leve. Aí é botar os barrotes: um num caanto, um no outro e outro no meio. Bota bem na boca,paralelo com o bordo. E aí no molde já está pronto. É só fazer a puxada.

P: - O que é a puxada?

D: - É quando a gente leva a canoa pra casa, ou pra beira de um rio, ou pra praia pra poder dar o acabamento. A gente arruma o adjutório, o pitirão (mutirão). Vamos dizer umas 15 pessoas. Compramos uns 5 litros de Coqueiro (cachaça); o senhor toma um golinho, nós tomamos outro e preparamos pra puxar a canoa.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

COM QUANTOS PAUS... (I)


As ferramentas do português - Arte: Eudes Nunes

A  canoa caiçara vai ganhando espaço, se tornando um patrimônio cultural do território caiçara para o mundo. Saudações aos que lutam nessa intenção.
Na década de 1980, apesar de ter crescido vendo canoas sendo tiradas das matas,  conheci os primeiros textos que apresentavam os detalhes das etapas da construção canoa caiçara. Achei maravilhoso ter pessoas estranhas querendo conhecer  e dar ao mundo os segredos, os passos dessa arte tão nossa. 
Hoje, faço questão de apresentar parte de uma entrevista daquela época com o seu Ditinho, de Paraty. É parte de um trabalho etnográfico de publicação limitada.

Pesquisador: - Sr. Benedito Ricardo de Jesus (seu Ditinho), qual a melhor madeira para se fazer uma canoa?

Ditinho: Bom, a madeira especial pra se fazer canoa é o cedro.

P: Por quê?

D: Porque é um pau forte, que cresce roliço e que resiste bem na água e no sal. É leve, de pouco peso e dura muito. Tem umas canoinhas de cedro por aí que o senhor olha e não dá nada, mas vai ver, já tem uns 80 pra 100 anos.

P: Seu Ditinho, além do cedro, que outras madeiras o senhor usa para fazer canoa?

D: Depois do cedro vem a timbuíba, o goiti, ingá-de-flecha, ingá amarelo, canafístula, vinhático, jequitibá, guapurubu, canela, tarumã, cedrinho, figueira branca, arecurá, carquera da crespa. São madeiras apropriadas para fazer canoa.

Depois de escolhido o tipo de madeira, é preciso encontrar um tronco com tamanho e grossura que se deseja. Uma canoa bem proporcionada deve ter a medida do comprimento igual a sete vezes e meia a medida da largura.

D: Vamos supor, de acordo com a largura da canoa é o comprimento. Então é sete bocas e meia.

P: Como o senhor sabe a largura da boca da canoa pelo tronco da árvore?

D: Bem, aí é o seguinte, né? A gente mede o rodo dele com um cipó de imbé, depois dobra o cipó no meio e depois dobra novamente, o senhor tá me entendendo? Dobrou bem no meio e depois faz outra dobra e então é uma parte daquela, o que sobrou, é que dá a boca da canoa. Então, faz o comprimento. Sete pedacinhos e meio daquele total. Tá entendendo?

Ou seja, a boca (largura) da canoa é igual a um quarto da circunferência do tronco e o comprimento, sete vezes e meia a medida da boca. Escolhida a madeira e medido o tronco, temos de esperar pela lua nova, para evitar brocas e fungos. [...] Dependendo do tamanho do pau, abre-se em volta dele uma clareira no mato, fincam-se forquilhas de madeira (tarumã ou ingá, preferencialmente) aos pares, formando um corredor. Sobre elas colocam-se madeiras macias com o pati, o palmito ou a bananeira. São as “estivas” sobre as quais deverá tombar o tronco, para evitar rachaduras que o inutilizariam).

D: Bom, eu vou dizer para o senhor: nós derrubamos a árvore e aqui eu estou torando da ponta com o machado. A ponta de lá, que faz a popa.

P: Quer dizer que a proa fica do lado da raiz?

D: É, porque a proa tem que ser mais larga.

P: E depois?

D: Depois que eu atorei, eu tenho que procurar o jeito da tora, pra fazer a boca da canoa. Eu vou escolher o lado que tem chatura da madeira, que é pra arrasar pra fazer a boca. toda madeira tem um lugar mais chato. Ela não é perfeita, não é rolicinha. Tem um lado mais chato, que então eu vou arrasar. dei um arraso, aí então eu viro ele para cima e vou desbojar.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

IDENTIDADE CAIÇARA SE ATUALIZANDO

A partir do texto publicado pelo amigo Peter, no blog canoadepau.blogspot.com, somos convidados a refletir sobre a dinâmica da cultura, da nossa cultura caiçara. Tudo é como as marés: sempre em movimento.

Quero-quero no lagamar do Perequê-açu - Ubatuba  (Arquivo JRS)

INOVAÇÕES TÉCNICAS NA PESCA, FORMAM A IDENTIDADE CAIÇARA


Fonte: http://www5.usp.br/32601/segundo-estudo-da-fflch-inovacoes-tecnicas-na-pesca-ajudaram-a-formar-identidade-caicara/

Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

A pesca é uma atividade comum no litoral de São Paulo e está sempre agregando inovações às suas técnicas, mas sem perder as origens herdadas pela tradição. Grande parte das mudanças foi surgindo de iniciativas individuais ou de pequenos grupos. Como características históricas do progresso, as novidades úteis são mantidas enquanto o que pouco agregou acaba caindo em desuso. A evolução histórica das técnicas de pesca utilizadas pelos caiçaras do litoral paulista entre os anos de 1910 e 2011, e suas implicações socioambientais, foi o objeto de pesquisa do analista ambiental e historiador Marcelo Afonso, realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Foto: Peter Santos Németh

O objetivo do estudo foi mostrar que mesmo que as inovações técnicas tenham se instalado na pesca dos caiçaras, elas não foram responsáveis por eliminar a identidade do grupo. Ao contrário, a assimilação de novas técnicas contribuiu para a formação da identidade. “Muitas das inovações, como o cerco flutuante trazido pelos japoneses na década de 1920, e o uso dos diferentes materiais como o plástico e o náilon, foram adaptadas e incorporadas na cultura caiçara, que desde sempre foi marcada pela heterogeneidade, pelo dinamismo e pela mudança na busca pela sobrevivência”, exemplifica Afonso.


Além disso, foram delimitados alguns marcos referentes à introdução da pesca industrial tendo como objetivo verificar a participação que esse tipo de pesca teve nas transformações ligadas às técnicas utilizadas e às relações de trabalho entre os pescadores. Entender como o estilo de vida do pescador artesanal mudou com a introdução dos barcos de pesca industrial também figurou entre os objetivos do estudo.



Evoluções seletivas
A análise de um século de história sobre a pesca no litoral paulista mostrou ao pesquisador que as evoluções e modificações foram seletivas. Novas técnicas só eram adotadas pela maioria quando estas mostravam-se eficientes. “A comunidade espera para ver se o novo método ou petrecho está funcionando e, se for comprovado que ele dá bons resultados, uma parte dos pescadores passa a aceitá-lo e utilizá-lo, até o surgimento de uma outra nova técnica (trazida por pessoas de fora, ONGs, governo etc.), que passará pelo mesmo processo”, explica.



Esse processo de testes e adaptações de técnicas gerou uma gama variada de pescadores trabalhando simultaneamente com diversos tipos de pesca, o que fez surgir diferenças sociais internas e aumentou a competitividade entre os pescadores, causando, algumas vezes, conflitos que geraram falta de união em momentos importantes para as comunidades. A ocorrência da multiplicidade de técnicas, porém, revelou a capacidade dos caiçaras em se adaptar às adversidades econômicas, sociais e ambientais durante todo o século passado.



As transformações
“As transformações técnicas na pesca paulista, no decorrer do século 20, foram mais intensas principalmente nos novos materiais de fabricação dos petrechos, nas embarcações com motores mais possantes e com maior capacidade de carga e nas tecnologias de navegação e captura do pescado”, relata Afonso acerca das evoluções. Segundo ele, os marcos importantes para a pesca no século 20 foram a introdução da traineira, em 1910, do motor de centro e do power block, que é um tipo de guincho motorizado para recolhimento de redes, e do GPS, sonar e ecossondas.



Dados do Instituto de Pesca, coletados desde a década de 1960, apontaram para uma redução do pescado, sendo que 2011 teve o menor volume de pesca nos últimos anos, apesar do aprimoramento tecnológico. Pescadores entrevistados em todas as partes do litoral paulista afirmaram que isso vem acontecendo devido à pesca excessiva realizada por embarcações industriais. No entanto, pesquisadores do tema rebatem dizendo que o poder de captura dos pescadores artesanais também é um influenciador nesse caso. Somado a isso, tem-se a degradação dos ecossistemas marinhos, que pode explicar a redução na quantidade de peixes.



A dissertação de mestrado História de pescador: um século de transformações técnicas e socioambientais na pesca do caiçara do litoral de São Paulo (1910-2011), orientada por Gildo Magalhães dos Santos Filho e defendida em agosto de 2013, contribui na construção de um histórico das transformações técnicas e de outros fatores socioeconômicos e políticos ligados ao setor. Segundo o pesquisador, o reconhecimento dos caiçaras como população tradicional é essencial para a sua inclusão social e econômica, assim como o conhecimento de sua história e técnicas é importante na autoafirmação dessa população.



“O poder público precisa encontrar uma maneira de estimular uma relação equilibrada entre conservação do patrimônio cultural e natural e a melhoria do padrão de vida dos caiçaras. Essa não é uma tarefa simples e essa pesquisa pode contribuir, de alguma maneira, com elementos que devem ser levados em conta nas tomadas de decisões políticas voltadas ao apoio e à inserção econômica e social das comunidades pesqueiras”, conclui Afonso.

Mais informações: marcelum@yahoo.com, com Marcelo Afonso