segunda-feira, 20 de julho de 2026

GOSTO DE PIRAGICA

 

Matias na praia - Arquivo JRS 

Restos de uma comunidade - Arquivo JRS 

     Eu digo que sempre é interessante ir até o Saco das Bananas, na porção sul de Ubatuba, sobretudo quando é tempo das bananas, jacas, goiabas etc. Em 1981 eu estava a serviço do IBGE por ali, pude conhecer/reencontrar os caiçaras que ainda resistiam.  Quarenta e cinco anos se passaram. Gente de fora naquele tempo era “Seo Bassin”, cuja casa havia sido a primeira escola da praia. Como se deu isso? Na verdade, na década de 1980, quando o professor Pedro Paulo estava como prefeito, aconteceu uma negociação: o Gregório Crispim vendeu a sua posse para esse “Seo Bassin” e foi morar em Caraguatatuba, junto ao rio Juqueriquerê. Logo em seguida ele, o ricaço, procurou a prefeitura para construir uma escola mais acima, perto do caminho, e, à antiga escola, foi dada outra função, virou casa de veraneio. Linda mesmo! Não me pergunte se alguém levou uma recompensa por fora nessa facilitação. Só sei que, uma vez ali, a impressão que se tem é que a linda prainha é particular. Eu, por ter a parentalha por ali, circulava subindo e descendo o morro, mas nem ousava olhar para o lado da casa quando tinha gente lá. 

   Alguns conflitos aconteceram ao longo dos anos. Eu estava lá quando a embarcação dos filhos do Dito Madalena, que chegava da pesca, se chocou contra a enorme lancha do ricaço que estava fundeada no ponto deles. Coisa pouca, quase nenhuma marca, mas aconteceu. Os rapazes juntaram suas coisas e foram morro acima, para casa. Chegaram já contando para os pais (Dito e Constantina). Não demorou muito veio o dono da lancha reclamar do ocorrido. E então aconteceu o seguinte: “Sim, pois não doutor”. E ele começou a explicar o ocorrido. Mas mal começou, o Dito diz: “Vamos entrar, doutor. A casa é pobre, mas recebe o nobre. A gente se entende melhor sentados”. E ele, meio ressabiado, entrou e se acomodou na humilde cozinha, de onde se avistava o grande mar. “Mulher, faça um café para nós. Asse umas bananas para a gente comer com essa farinha e beiju que fizemos hoje”. Os rapazes, assim como eu, permaneciam em silêncio na sala, apreensivos pelo desfecho do assunto. E Dona Constantina, além de tudo, ainda fritou umas postas de peixe. E o homem não teve como não aceitar tudo aquilo que fazia parte da acolhida dos caiçaras. Então ele contou, comeu... contou... comeu mais ainda. Queria receber pelos danos causados na sua lancha pela embarcação da família. O Dito, depois de escutar o homem, respirou fundo, deu uma olhada por cima da janela como se a Ilha da Vitória estivesse logo ali: “Escuta aqui, doutor, eu não vou pagar nada. Naquele lugar, onde eu tenho visto a lancha do senhor, é onde fica a nossa poita. Tem até uma boia permanente lá, ela não sai dali porque é a nossa guia, onde a nossa baleeira fica fundeada. A praia é pequena, nós precisamos chegar e sair todo dia para a pesca. O seu barco poderia ficar mais para fora, sem atrapalhar nada. Por que o senhor põem ali, no nosso lugar? Então... eu não vou pagar nada! Não quero brigar com o senhor e os meninos vão continuar fazendo a mesma coisa que fazem todo dia. Nós precisamos pescar, é disso que a gente vive.  Assim tá bom? E, além do mais, nós somos vizinhos”. Desse modo foi resolvida a questão. O “Seo Bassin” saiu de barriga cheia, doido para chegar em sua casa e escovar os dentes, tirar o gosto da piragica frita. Depois eu ri muito. Ainda hoje, ao relembrar do fato, me alegro pelo desfecho. Certamente que o tal ricaço nunca esperava um tratamento daquele.


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