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domingo, 18 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (IV)

 

Tinha uma pedra no meio do caminho (Arquivo JRS)

               

A MOÇA ENCANTADA

               Meu tio contava que na pedreira onde trabalhou, ele sempre ouvia vozes muito estranhas que parecia vir de muito longe. Mas era uma voz bonita, até parecia voz de alguém chamando.

                Um dia ele resolveu chamar meu pai para ir lá no meio das pedras para ver o que era aquele barulho ou aquela voz. Meu pai falava para ele que lá tinha uma moça encantada e que era uma loira muito bonita. Um dia, escondido do meu pai, ele resolveu ir sozinho. Quando ele se aproximou das pedras ele falou: “se for uma moça bonita, apareça para mim, que eu quero ter ver de perto, porque eu não acredito que você é encantada”. Se aproximou mais e foi até o oco das pedras, quando um raio de sol iluminou tudo tão forte que ele ficou atordoado e foi atacado por muitas abelhas. O estranho é que naquele lugar nunca existiu abelha. As abelhas eram  só um sinal para que ninguém invadisse aquele local.

Meu pai sempre falava que havia um encanto entre as pedras.

(Autora: V. J. S. E)

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (III)

 

Pintura na pedra (Arquivo JRS)

COMPADRE LOBISOMEM

                Durante muito tempo meu vizinho estava sentido falta de galinhas a cada manhã. No começo ele achava que era raposa e encheu sua espingarda de chumbo para  ficar espreitando a danada. Nesse dia ele avisou a comadre que iria ficar a noite no galinheiro e que ela não se assustasse se ouvisse algum tiro.

                Então ele ficou escondido no galinheiro. Era uma bonita noite de lua cheia. De repente as galinhas começaram a cacarejar e ele colocou a espingarda em punho, pronto para dar cabo da condenada da raposa. Daí apareceu na frente dele uma criatura estranha: meio lobo, meio homem. Ele ficou todo arrepiado e lembrou-se da história de lobisomem que o pai dele contava. O pior é que a fera lembrava alguém conhecido, por isso ele não atirou. Mas deu uma boa paulada nas costas do bicho que fez o tal sair correndo e uivando de dor.       Assustado, ele correu para sua casa e contou tudo para a sua mulher, só não falou que ele desconfiou do seu compadre Manezinho. Nessa noite não conseguiu pegar no sono.

                Na manhã seguinte ele foi até a casa do seu compadre. Chegando lá, para sua surpresa, ele encontrou o compadre Manezinho andando torto e se queixando de dor nas costas, bem onde tinha acertado a paulada. Então, mais uma vez ele se lembrou do seu pai e do avô e nada falou para a comadre, porque o lobisomem mata quem descobre a sua triste sina. Desde esse dia em diante ele organizou o galinheiro, falou para o compadre Manezinho que ele ia aprontar uma armadilha para raposa, pois teve um dia que ele ficou esperando a danada, dormiu e sonhou com uma coisa muito esquisita, que com certeza não existe de verdade.

                Ele guardou esse segredo e nunca mais deixou nenhum filho sem batizar com medo do lobisomem comer, porque o lobisomem come criança pagã.

                Esta história foi contada pelo meu bisavô (vô Arlindo, pai da mãe do meu pai).

(Autora: J.A.L)


domingo, 11 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (II)

Chuva de ouro florida no quintal (Arquivo JRS)

    

 BRINCANDO COM O DESCONHECIDO

    Naquela noite, após o jantar, Seo Antônio sentou-se à mesa e falou para sua esposa: "me traz um papel". Ela não entendeu qual seria sua brincadeira naquela noite, pois Seo Antônio gostava de brincar com o desconhecido.

    Ele pegou o papel e fez um círculo com sete cobras e, no meio desse círculo desenhou um rosto muito estranho e falou que esse rosto era o capeta. Ele desafiou o desconhecido e falou: "só acredito que o capeta tem poder se eu colocar fogo no papel e queimar todas as cobras e o rosto dele escapar sem fogo". Em seguida ele colocou fogo e se assustou quando viu todas as cobras serem queimadas e o rosto do homem que ele dizia ser o capeta ficar sem queimar. Ele ficou assustado.

    Na noite seguinte, ele deitava-se para dormir quando, de repente, olhou no telhado e viu sete cobras. Ele pegou um pedaço de pau e matou seis cobras. Uma fugiu. Então ele se lembrou do desafio que tinha feito na noite anterior. Ele pensou: "se eram sete cobras e eu consegui matar seis, então a sétima que escapou era o capeta".

    Ele jura que é verdade. Hoje ele não mora mais nesse sítio, que está abandonado.

(Autora: M F N L)

sábado, 10 de outubro de 2020

FARRA DE CAUSOS (I)

 

Noite de causos (Arquivo JRS)

    No ano de 2006, a minha esposa iniciou uma atividade com alunos adultos durante as aulas de História. A proposta era trabalhar a contação oral e escrita de causos, estimulando a convivência entre eles. Assim aconteceu: contaram histórias, falaram  de suas vidas, suas experiências, medos, crenças, valores, ou seja, cada um expôs um pouco de si mesmo perante os colegas, revivendo a tradicional contação de causos da tradição caiçara.  "A atividade de contar histórias faz as pessoas se identificarem com os outros não somente pelas experiências, valores e temores, mas sobretudo pela própria condição tão humana de narradores", diz a minha Gal.

    A partir de hoje, ainda que de forma lacunar, darei minha contribuição no objetivo de levar os textos deles a outras pessoas, a leitores reais, que todos tinham em mente quando escreveram suas histórias. Infelizmente, no momento, não temos como acessar os autores dos causos para agradecer, noticiar a minha iniciativa e deixá-los mais orgulhosos ainda da obra final deles. Ela se perpetua, continua se expandindo mundo afora. Parabéns e obrigado pela produção maravilhosa! Conforme forem acessando, tomando conhecimento, repassem aos demais, por favor. Espero que apreciem a  Farra de Causos.


ASSOMBRAÇÃO NO FUSCA

    Minha cunhada morava com um mecânico em um sobrado ao lado da casa da minha comadre. Na parte de baixo do sobrado, no fundo do quintal era uma oficina, cheia de carros velhos.

    Então, um belo dia, minha cunhada brigou com o marido e eles se separaram. Ela foi morar na parte de cima e ele ficou em baixo. Ele gostava muito de beber. Um dia, ele saiu para beber e encontrou com um amigo que havia acabado de sair do presídio e convidou esse amigo para morar e trabalhar com ele. O amigo ficou trabalhando e morando nesta oficina durante seis meses.

    Passando esse tempo, ninguém sabia nada a seu respeito. Ele passou a beber e acabou falecendo dentro dessa casa. As pessoas que moravam lá tentaram contato com os familiares dele sem sucesso, então o enterraram assim mesmo. Após o enterro do rapaz, sete dias certinho, minha comadre saiu no quintal e viu dentro de um fusca velho velas acesas. Ela foi olhar se eram mesmo velas e quando chegou perto viu que não havia nada dentro do carro, nem um pingo de vela.

    Passaram-se mais sete dias e aconteceu novamente. Então ela achou que seu cunhado havia bebido e estava com palhaçada. Ela foi olhar na casa dele e ele não estava lá. Aí ela ficou preocupada.

    A mesma coisa aconteceu três vezes seguidas. Na quarta vez, ela viu o rapaz que havia falecido dentro do carro e o carro estava pegando fogo. Só que quando ela se aproximou, tudo sumiu.

    Minha comadre então mandou rezar missa para ele durante quatro domingos em seguida e ele não voltou a aparecer mais. 

(Autora: LF)

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

APETITE DE CAVALO

Praia do Camaroeiro-Caraguatatuba (Arquivo JRS)


    Há mais de vinte anos eu tive a honra de conhecer o caiçara Marino Garrido, de Caraguatatuba. Passei uma tarde proseando na casa dele, bem no centro da cidade. Agradeço por Priscila, sua neta, me proporcionar a oportunidade ímpar.

    Marino escreveu um livro sobre a Fazenda dos Ingleses. Foi vereador e era muito querido por todos. Uma das histórias dele foi em torno de uns cavalos que comeram uma canoa. Na prosa dele aparece um pescador (Zé Lopes) que tinha um rancho de canoa na praia do centro, quase chegando no Camaroeiro, onde a atração principal é a beleza da paisagem formada nas marés baixas. 

    Era um rancho muito velho, querendo cair a qualquer momento, mas servia de proteção à velha canoa de capurubu. "Era melhor do que ficar no tempo, pegando sol e chuva". Um primo desse, o Bernardo Amaral, morador ali perto, onde é a praça hoje, bem defronte ao mar, tinha um costume que sempre foi comum no pessoal daqui: se encostar em alguma parede ou árvore para coçar as costas. É  natural naqueles que sempre vivem expostos ao sol: a pele se renova  com mais rapidez; por isso a coceira se manifesta tanto. E aqui é que vem o miolo do causo: num entardecer, depois de ajudar a puxar a canoa no rancho, os dois primos ficaram por ali em prosa. E, conforme o hábito, Bernardo se ajeitou no esteio de taquiúva do velho rancho para se coçar, sem considerar a lastimável condição notória para todos. Tudo desabou como era esperado há muito tempo. O coitado pediu desculpas, se ofereceu para construir outro ali mesmo, mas nunca que o rancho foi refeito. A canoa, velha demais, com remendos até se remontando, ficou exposta ao tempo. Naquela época uns cavalos viviam pastando por ali. O Zé Lopes deu azar, pois os animais acharam bom lamber e roer as bordas da canoa que guardavam sal. Só sei dizer que não demorou nada para se acabar desse jeito a embarcação que a tantas e tantas pescarias tinha conduzido o Zé Lopes. Ou seja, virou comida dos cavalos a velha canoa tirada de um majestoso capurubu.

sábado, 12 de setembro de 2020

CAPITÃO DE CANOA

 


 

Frente ao mar, no Masssaguaçu (Arquivo JRS)

          Aristeu, caiçara da Ilha do Tamanduá, tinha boa memória, gostava de prosas em rimas. Em qualquer ocasião puxava da oralidade e da tradição, quase sempre num ponteado de cavaquinho. Dele escutei a respeito de um velho capitão, vindo de outras terras.

 

Passou por aqui, meu amigo Zé,

Um velho capitão, desses do mar.

Como eu reconheci? Ele nos contou!

“Tenho mais dias de água salgada do que de vida”.

Logo debulhou todos os lugares,

E contou seus tantos amores.

Mas foi neste lugar que apoitou:

Ali no Morro da Tinticuia morreu.

Em lugar de quase água nenhuma,

O homem de tantas águas se findou;

Sem posse alguma além das histórias...

Ele saudades deixou.

 

Quando chegou trazia só um saco de lona,

Um pito no canto da boca

E o cachorro Tristão.

Achamos graça do jeito de falar:

Era estrangeiro de lugar estranho.

“Eu me criei em Granadinas, terra cercada de mar”.

Riscou no chão seu lugar: Canouan.

No sarro da nossa gente era:

O capitão que veio de Canoa.

Logo Capitão Canoeiro ficou.

Muita gente sabe das suas histórias

Desde cada serão que contou.



domingo, 16 de agosto de 2020

MÊS DE CACHORRO LOUCO


Dona Aládia e uma neta (Arquivo JRS)

                Dona Laurentina, caiçara da praia da Fortaleza, nos criou conforme foi criada. Ao chegar o mês de agosto, ele constantemente nos alertava para evitar os cachorros, sobretudo quando estivessem em ajuntamento, no cio. “Eles ficam com raiva, mordem e podem estar loucos. Passem longe da cachorrada”. A gente, de tanto escutar, ficava atento, sempre cismado com os cães do lugar, mas nunca soubemos de alguém, nas proximidades, que houvesse passado pela situação alarmada nessa época. Naquele tempo não tinha vacinação aos bichos. As poucas disponíveis ao longo do ano eram para as crianças.

                Mamãe dizia que eram os morcegos que deixavam os cachorros loucos, que transmitiam a doença. Onde morávamos, era comum os ataques de morcegos. Eles chupavam o sangue da criação (galinha, pato, porco...), mas também chupavam sangue humano. As casas não eram forradas; eles sempre descobriam brechas para adentrar na madrugada e atacar. Geralmente era no dedão do pé o ponto de sugamento do nosso precioso sangue. Ninguém sentia, pois eles têm uma espécie de anestésico local. Somente no dia seguinte, vendo o sangue seco, a pessoa sabia que tinha sido vítima de morcego. Papai, uma das vítima deles, nos contou como foi. Na nossa casa nunca apareceu desses morcegos. Acho que eles se contentavam com os bichos que criávamos. Dava dó ver o galo com crista ensanguentada. De vez em quando alguém tinha um bicho de estimação morto de tanto ser sugado. Apenas os morcegos que gostavam de frutas se esbaldavam na nossa moradia. O motivo? Era porque havia um canto reservado para os cachos de banana que iam amadurecendo para o nosso uso diário. Eles não eram nossa preocupação porque só iam nas frutas. Dormíamos sem que seus voos, chiados e silvos nos atrapalhassem.

                Muito tempo depois da minha infância, em mês assim, de agosto, me acomodei num banquinho na calçada, com a dona Aládia, do seo Nhô, na Estufa. A mãe dela, gente dos Amorim, era prima da vovó Martinha. Na prosa veio o mesmo cuidado da mamãe: “Você que é muito andejo, vai por aí tudo, não se descuide porque estamos no mês de cachorro louco”. Quando eu falei que não me preocupava mais com isso pelo motivo de nunca ver um caso sequer de alguém atacado pela loucura dos cachorros, ela deu esta informação: “Ah é?!? Peça para a vossa avó contar do tio Jango, do Ingá. Ele morreu no mato, depois de matar o próprio cachorro. Sentiu que a loucura também atacava ele, mas não queria arriscar a vida da família, causar sofrimento. Preferiu ir longe. Foi achado numa grota, com a boca cheia de espuma, já fedendo. Coitado dele”.


               Até hoje, tio Jango foi o único caso (que fiquei sabendo) de loucura transmitida por cachorro. Então, na tradição da saudosa mamãe, da dona Aládia e de tantas outras, recomendo: cuidado com o mês de cachorro louco!

quarta-feira, 10 de julho de 2019

SÓ FALTA A MULHÉ


           
Artes da minha Gal (Arquivo JRS)
          Hoje amanheci pensando na amiga Fátima, a escritora caiçara, minha colega de escola no ginasial e no colegial, filha de João de Souza, o caiçara do pé rachado, o nosso saudoso contador de causos. O título deste é dela. O conto, que está no seu livro Arrelá Ubatuba, é o seguinte:

               Marina olhou para a folhinha de bloco encardida, pendurada na parede e viu que já era junho. Esperava por vários anos por um milagre que não acontecia. Já estava ficando velha e não conseguia se casar. Quantas promessas já tinha feito para Santo Antônio? Perdera a conta. E simpatias então? Fizera todas que sabia e que inventara. Desanimada apontou o seu dedo magro para o retrato do santo e sussurrou raivosa: “Este ano o senhor vai ver uma coisa. Não vou enfeitar o seu andor. Não vou fazer simpatia, nem promessa porque não adianta mesmo. O senhor não é casamenteiro coisa nenhuma. aguarde”.
               No dia da festa, pegou uma caixa, colocou um tijolo dentro, embrulhou direitinho, amarrou um enorme laço de fita vermelha para realçar mais e levou para ser leiloado. De olho nos lances, Marina viu o pacote nas mãos do leiloeiro percorrer todo o “arraiá” alcançando lances cada vez mais altos. Até que um sujeito meio esquisito, mas bem-apanhado, arrematou a tão preparada prenda. O coração de Marina foi à boca. Em meios aos gritos de abre! Abre! Marina tentou fugir do lugar para não participar da confusão que estava prestes a ocorrer. Atendendo a pedidos, o misterioso rapaz abriu o pacote, pegou o tijolo e gritou para que todos ouvissem:
               - Este tijolo será o primeiro da construção da minha casa. Agora só falta a mulhé!
               O leiloeiro indignado com a falcatrua arrastou Marina até o rapaz e esbravejou:
               - Não falta não. Tem ela aqui, ó!!!

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

E O PERU?



Outro Malhado (Arquivo JRS)

                Adoro histórias! Dias atrás uma colega se propôs a me contar uma história:
                   - Mas é história antiga. Você gosta?
                - Lógico que gosto! Pode-se dizer que histórias antigas são, no mínimo, engraçadas!
                - Então, preste atenção, Zé.


                “Minha mãe é daquela mulher que gosta de conversar de tudo com os filhos. Certa vez ela me contou uma história que eu ri muito. É relacionada aos meus avós que, infelizmente, não cheguei a conhecê-los. A história em questão, que eu acho o máximo, aconteceu numa véspera de Natal.
                O terreiro da casa da minha avó Quinhinha era cheio de criação (patos, marrecos, perus...). Com  ajuda do cachorro Malhado, treinado desde pequeno nas lidas da casa, ela separava um peru estando a dois dias antes do Natal. E, conforme o costume, antes de sacrificar, ela também dava pinga à ave. Naquela ocasião ela deu pinga ao peru, mas também bebeu bastante, se embriagando. Outro hábito dela quando se embebedava era dar tudo o que tinha em casa para aqueles que moravam mais próximos. Fez isto, depois colocou o peru na cama, devidamente aconchegado sob o cobertor. Em seguida  se deitou também e ambos dormiram. Quando o meu avô chegou da roça, foi logo acordando a vovó e perguntando o que era aquilo. Ele não estava entendendo nada. A vovó despertada, mas ainda embriagada, começou a gritar entre xingamentos: ‘Ninguém vai pegar o meu peru, ninguém!’. E assim passou boa parte da noite até que voltou a adormecer. Ao amanhecer, conforme outras ocasiões assim, começou a escorraçar  todo mundo, indo atrás das pessoas para pegar suas coisas de volta. Na verdade, os vizinhos já estavam acostumados com aquele ritual a se repetir sempre que a vovó se excedia no consumo da cachaça; muitos deles, assim que amanhecia, já iam chegando na sua casa para devolverem as coisas ‘presenteadas’. Era assim sempre.  Nesse ponto a mamãe aproveitava para  nos incentivar a não beber, dizendo que coisas absurdas assim só acontecem com quem bebe".

                     - E o peru, amiga?

                - Ah! Ele não morreu! Depois de passado o efeito da pinga em ambos, a vovó ficou com dó de matá-lo. 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

E AÍ COMPADRE?

             
Lhe digo uma coisa, Joban: essa caiçarada gosta de história e de causos!

               Quanta honra poder publicar um causo do JOBAN, caiçara da praia da Enseada!


            Antigamente, há muitos anos atrás, antes da construção da BR-101, popularmente conhecida como Rodovia Rio-Santos, rodovia que liga Santos ao Rio de Janeiro pelo litoral, era muito difícil visitar as praias ao lado norte do município. O acesso a essas praias era através de uma trilha passando por montanhas e praias, muitas vezes íngreme e levava-se quase um dia todo para ir a uma dessas praias, e por isso normalmente ia-se a cavalo para adiantar a jornada. Jacundino, morador do bairro do Itaguá onde tinha uma vendinha, resolveu visitar seu compadre Jacozinho casado com Dona Dinda, moradores da praia do Prumirim e levar a ele uma resma de fumo e palha de milho para seu cigarrinho habitual que ele gostava de pitar no fim de tarde para espantar os mosquitos, também usar o fumo para umas mezinhas. Na manhã seguinte levantou com o raiar do dia porque a jornada seria longa e cansativa, tomou seu café, selou o cavalo emprestado do seu vizinho Zé do Pinho, pensou se devia levar uma matula porque na última visita que fez o compadre não ofereceu nem um café, dizendo que já tinha almoçado e a comadre estava cansada da lida na roça não podia ir para o fogão preparar um de comer, na verdade o compadre era um pão duro, sovina, todos diziam isso, pensou em cortar um pouco de salame e por no pão amanhecido que sobrou da vendinha, mas depois decidiu, afinal ele ia levar fumo e palha, talvez o compadre se condoesse dele e oferecesse alguma coisa, então desistiu. Montou no cavalo e iniciou sua jornada rumo ao Prumirim. Depois de enfrentar muito sol nas costas e amassar muito mato chegou à casa do compadre, era perto do meio dia, o sol estava quase a pino. Chamou o compadre:
            – Cumpadre Jacozinho! Ó de casa!!!
            Nesse momento surgiu seu compadre Jacozinho com a enxada suja de barro às costas parecendo que vinha da roça e disse:
            – Se apeie desse cavalo cumpadre e vamos entrando pra gente proseá um pouco.
            Jacundino desceu do cavalo, deu ao compadre o fumo e palha que trouxe esperando o convite do mesmo para almoçar. Entraram na casa e ele perguntou pela comadre.
            – Cadê a cumadre Dinda, cumpadre, tá na roça?
            – Tá não, tá na cama doente, com constipação.
            Pelo visto com a comadre doente, posso dar adeus ao almoço, pensou Jacundino.
            – Cumpadre Jacozinho vou-te contá as novidades lá da cidade, muita confusão na política você nem imagina o balaio de gato que tá acontecendo lá.
            – É mesmo, cumpadre? Me conta, tô morrendo de curiosidade.
            – Conto sim, se for regado com um bom cafezinho de cana fica melhor.
            – Me adiscurpe cumpadre Jacundinho, mas a garapa acabou hoje de manhãzinha, e o café precisa torrá os grãos e adispois moê, e com a Dinda de cama não dá pra fazer um café de cana, mas se quisé água da bica tem ali na moringa é só pegá.
Jacundino viu que não conseguiria nada do compadre, essa doença da Dona Dinda talvez fosse mais uma desculpa, esqueceu-se da fome e começou a prosear, contando os fatos verídicos e inventando outros. A conversa estava tão animada que eles nem perceberam que a tarde entrou noite adentro. Só perceberam quando viram o pisca-pisca dos vagalumes pela moldura da janela aberta em contraste com o céu começando a estrelar.
            – Preciso ir mi já, anoiteceu cumpadre Jacozinho, vou pegar o cavalo e vou mimbora.
            – Vai não cumpadre Jacundino, viaja a noite a cavalo nessa trilha é arriscado demais, pode o cavalo quebra a pata, vosmicê cair em argum barranco. É melhor vancê dormi por aqui e ir amanhã cedinho. Pode deitá nessa esteira de taboa, mas lava o rosto e os pés, para não sujá e estraga a esteira.
            – Tá bom cumpadre Jacozinho – e vendo que não seria servido nada e a fome estava demais, seu estomago roncava mais que garoupa presa em anzol e entocada na pedra, viu na lavagem dos pés uma dica para pedir um de comer – mas posso lhe aperguntá uma coisa?
            – Apergunte homem, diga lá o que é?
            – Será cumpadre Jacozinho que não faz mal lavá os pés com a barriga vazia?
            – Faz não cumpadre –fingindo não ter entendido a indireta – faz mal lavar com a barriga cheia.
            Lá do quarto a comadre Dinda, vendo que o compadre iria dormir na pura esteira aconselhou.
            – Sinhô Jacozinho, meu marido, arranja um cobertô pro cumpadre não passá frio.
            – Cumadre Dinda – prontamente respondeu o Jacundino no desespero da fome – não precisa se incomodá, tendo arroz com farinha já tá bom pra mata a fome.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

FOI-SE O CHICO DO BALAIO

         
Balaio do Chico (Arquivo JRS)
  O amigo Nenê Velloso, depois de ler o causo do graveto do  Mané Bento, escreveu:

"CRUZETA PARA PESCAR  PANAGUAIÚ, essa foi no fundo da minha alma, não podia imaginar que alguém lembrasse disso. Na hora  o filme passou na minha cabeça, eu pescando panaguaiú com a cruzeta de lasca de bambu, e para ficar mais bonita eu fazia da ponta da flecha de Ubá, linha de tucum e anzol unha de gato". 

          Assim, o meu objetivo no blog vai sendo alcançado: ser um espaço de partilhar nossa cultura caiçara, de fazer com que mais pessoas aprendam as características do nosso lugar. Continuo convidando outras pessoas a darem suas contribuições, deixando suas marcas e suas experiências. É muito bom isso tudo!

         Para acolher a Novidade do Natal, eis mais um causo do saudoso Mané Bento, esse meu parente que há décadas nos deixou, morava sozinho no jundu da Praia da Fortaleza. Vivia na paz, embalado pelo barulho do mar. De vez em quando eu aproveitava para lhe dar mais atenção, para escutar suas histórias. Esta eu escutei logo após um período de internação dele na Santa Casa, por motivo de "doenças nos peitos". Quero dizer, para começo de conversa, que o Mané Bento era muito desconfiado. Isso ajuda a entender o ocorrido. Fala, "Mané Aguado"!

"Você sabe, Zezinho, que neste mundo tem gente pra tudo: uns são bons, outros são ruins. Antigamente, quem podia, contratava até alguém para provar a comida antes comer. Era medo de ser envenenado. Dessa vez, onde fiquei internado, vivi coisa parecida. Primeiro me deixaram alguns dias só em observação, com doutor e enfermeiras escutando o meu velho coração, medindo a pressão e dando uma comida muito rala, sem gosto nenhum. Eu estava num quarto com mais uma pessoa doente, quase nas mesmas condições minhas. Era Chico Freitas, da Picinguaba. O meu medo maior é que me dessem um remédio que não eram remédio. Afinal, eu já escutei histórias de gente que partiu desta vida depois de lhe ministrarem ‘um remédio’. Também tenho muito medo de remédio que não seja do nosso chazinho de mato de cada dia. Mas aconteceu: numa noite, logo depois do serão, me apareceram com dois comprimidos. 'É para aliviar a dor, seo Maneco'. Na hora eu pensei: 'Sei. Eu sou bobo de cair nessa?!?'. Só pedi que deixasse ali, junto com a água. 'Já vou tomar assim que enxaguar a boca para dormir'. E a enfermeira acreditou que eu faria isso. Mas sabe que eu fiz? Eu peguei os comprimidos  e dei, junto com água, ao paciente que estava na outra cama, dizendo: 'toma tudo que é para sarar logo e voltar amanhã mesmo para casa'. Ele tomou tudo. Até pediu mais um gorpe de água. E fomos dormir. No dia seguinte, ainda de madrugada, tava aquele rebuliço. O Chico tinha morrido. Na hora agradeci a Deus. Ele me salvou, me iluminando para que não tomasse daquele remédio. Senti pela morte do amigo que dizia viver da pesca e da roça, fazendo de vez em quando alguns balaios e tipitis. E o momento era próprio só para uma coisa: uma bronca por tentarem me fazer de bobo: 'Ainda bem que eu não tomei dessa porcaria que vocês me receitaram. Viu só! Dei pro Chico e ele morreu. Era pra mim esse 'remédio'. Era para me matar, né?".








quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

RIMAS E RUMOS

Flor do quintal (Arquivo JRS)

                O saudoso Gusto, natural da Praia da Santa Rita, nos marcou bastante no tempo da infância porque sempre tinha um simples comentário ao ver as nossas reinações. “Não deixem essa garuzada na lata por muito tempo senão eles morrem por falta de ar”; “Vocês precisavam mesmo tirar os umbigos dos cachos para fazer barquinhos?”; “Peguem essas mandiocas, toda essa miuçalha, que vou mostrar a vocês como se faz vaquinhas”.  Algumas vezes ele, com um cigarro na boca, apenas olhava o que fazíamos, como se admirasse as nossas brincadeiras, as nossas “artes”.
                A saudosa Dona Antônia, natural de Minas Gerais, já era a sua companheira quando eu conheci o Gusto.  Ela também era muito compreensiva com aquela criançada que se tecia pela vizinhança. Só esbravejava quando alguém ficava assobiando para eles em sinal de provocação. Xingava mesmo!

                Os mais velhos do lugar diziam que a primeira esposa do nosso personagem era muito especial. O nome dela: Maria Paula. Contavam que, após o casamento, depois de alguns meses, se dizendo estar grávida, foram a uma função (baile) na casa da Maria Sodré, na Enseada. Ao passar na barra (rio), ela estacou, parou de repente. Então o Gusto, que estava conforme o costume caiçara andando na frente, chamou: “Venha logo, mulher. O xiba já começou. E quem não dança o xiba, também não dança a miuçalha. E por que você tá aí parada no meio da barra?”. É aqui que entra a famosa fala dela: “Eu escutei um tchibum na água. Acredito que foi a minha criança que caiu. O dó!”. Pode isso? De acordo com as conversas dos mais antigos, o Gusto logo enviuvou em decorrência dessa gravidez complicada da dona Maria Paula.

                Do Gusto também é a nossa conhecida “rima”:

                A lua nasceu  bonita

               E redonda igual um tamanco;

                Olhei pra cama

                A Maria Paula tava com a perna pra fora.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O CAMINHO DAS ANTAS

Tia Aninha e seus santos (Arquivo JRS)


             Quando criança, morando na Praia da Fortaleza, a atração para tudo era muito grande, exceto para ficar uma manhã inteira sentado numa carteira escolar. Então, era comum eu ficar na classe, na verdade a sala da casa da Tia Martinha, apenas até o intervalo do recreio. Assim que dava, eu rompia o mato do entorno, pulava rio e valas e sumia dali. 
                Brincar, correr, jogar miringuito, descer o morro em totoa, brincar de roda de breque, fazer barquinhos, dar pelotadas, pegar camarão no balaio, mariscar etc. eram coisas corriqueiras, de cada dia, inclusive quando a chuva não estava grossa, sem trovão e corisco a brilhar a cada instante. Outra coisa sagrada era acompanhar os mais velhos nos roçados de mandioca,  de banana, de cana, de batata doce e outras iguarias tão necessárias à nossa alimentação.
                No morro da Fortaleza, desde a badeja até a mais alta grimpa, as roças eram a garantia de sempre ter algo a mais do que caça e pesca. As plantações do Vovô Armiro - e de outros caiçaras do lugar - se espalhavam nessas áreas, mas os dois eitos  mais distantes eram o Morro do Tatu e o Morro da Anta, onde uma cobra picou o Peri, o cachorro vinagre da família. Eu já contei noutra ocasião que o Tio Tião desceu correndo com ele e o tratou com ovo cozido. Quer saber mais, leia a postagem (Ovo cura, março de 2011). Ah! Outra lembrança boa desses roçados mais distantes era, nessa época do ano, a colheita de cará-roxo! Delícia, né? Pois é! Agora, o que pouca gente nova sabe é que, passando pelo Morro da Anta, existia um Caminho de Servidão (trilha) que ligava as praias da Fortaleza e Lagoinha. Que morrão! Isto quer dizer que, naquele tempo, os caiçaras do local preferiam este caminho em vez de circular pelo Caminho do Bonete.

                Vovô Armiro, também chamado de Zé Grande pela Vovó Eugênia para distinguir deste escrevinhador que era o Zezinho, dizia que muita gente seguia viagem a pé para Caraguatatuba e Santos por ali. Iam em busca de trabalho, de dinheiro nesses lugares. Quanta disposição! Era por isso que, quando alguém se lastimava das condições do nosso lugar, havia um dizer dos antigos: “Não seja infeliz. Siga o Caminho das Antas”. 
        Numa tarde, estando eu na casa da Tia Aninha, escutei: "Fiquei sabendo que você tem fugido das aulas, Zezinho. Não faça mais isso. Estude para não seguir o Caminho das Antas”.

sábado, 23 de maio de 2015

PESCARIA TRADICIONAL DE GAROUPA

Rancho dos Pescadores do Itaguá (Arquivo Chiéus)

Ao ler a matéria do Peter, no seu blog (canoadepau.blogspot.com), me recordei de tantos pescadores antigos deixando a isca estragar, feder mesmo, para depois se dirigir à costeira e trazer bonitas garoupas. Eu diria que é um peixe carniceiro. O finado Jorge Barreto, sempre exagerava nos seus causos, mas...talvez a maioria fosse pura verdade. Numa tarde boa para pescar garoupa, olhando em direção da Laje de Fora, assim nos contou: "Numa ocasião o finado Tio Rita queria ir pescar garoupa, mas não tinha nenhuma isca preparada para isso. Ficou desanimado, mas só por pouco tempo. É que ele se lembrou de uma ninhada de gato que tinha enterrado naquela semana. Pegou uma enxada, colocou aquela porcaria de isca no balaio e lá se foi. Não é que o danado logo trouxe três ou quatro garoupas das grandes!?!" 

PESCARIA TRADICIONAL DE GAROUPA, entrevista com Antenor e James.

Reproduzo aqui um trecho com menos de 5 
minutos de uma conversa de uma hora. Quantos segredos, técnicas, habilidades, sabedoria estão contidos nesses 5 minutos... Imagine durante uma vida inteira de apenas um desses Mestres, que dirá de toda uma comunidade, de gerações... Estamos realmente a queimar bibliotecas em nome da modernidade e do preservacionismo ambiental. Preservacionismo esse que hoje reserva áreas naturais e seus recursos para o desfrute da indústria do turismo, e, no futuro, para uso e exploração das grandes corporações. Porque quando o motivo é alegar o desenvolvimento econômico de um país, o PIB ("gerar empregos"), tudo vale (vide a ampliação do porto de São Sebastião, Belo Monte, etc), e quando não existirem mais comunidades tradicionais que vivam nessas, ou dessas, áreas naturais, ficará muito mais fácil justificar o uso dos recursos para o "bem do país" e seu crescimento econômico.
Foto: Peter Nemeth, Antenor e James, dois Mestres caiçaras.
Esta conversa foi gravada com os Mestres Antenor e James, filhos do Zé Gil, um famoso pescador da Praia da Enseada.

Os pesqueiro Alemão, nós escolhia antes, por causa de... quando pegava um peixe bom... então cê marcava ali... então tem toquero grande sabe, lugar grande esses toquero... que nem esse Carén Carén aí memo, o Carén Carén ele é um... é quase um cascalho, quase que um parcelzão lá fora, mas tem buraco que o peixe carregava... é só garoupão memo sabe, em baixo do costão, é... meu pai quantas vez quase virava nóis lá (para embarcar a garoupa na canoazinha).
Então assim, você mata um peixe que está naquela toca, outro vem e entra naquele lugar, começa a morar ali também?
Ah é... Eu levei o Ferrão pra pesca lá viu, o Carlos, na... na Boca da Arraia, ali no coisa, ele afundou veio loco: Nossa Senhora! Nunca vi tanto peixe! Que lugar fundo, mas como tem garoupa, só tem garoupa, só garoupão! Ficou tão loco, que nem um pinguim, até que matou uma garoupa e correu de lá por causa da Florestal né... mas lá tem muito. Pesquei co Lagarto uma vez lá, perdemo linha pra caramba lá. Mas é lugá de garoupão. Cê vê como é que é peixe, quase encostado na pedra, a canoa bate na pedra né, o costão... é buraco do costão que vai assim, num é assim, é o final do costão que é lascado. E você vê, ali num tem mar grosso... porque num... o mar num bate, ela sobe e desce com a canoa né, vem aquela onda leva lá no costão mas num vai pra cima né,  arria de novo... eu tinha um medo de pesca cum meu pai ali é... papai chegava pertinho, ele remava pra frente, eu remava pra trás... “Entra, rema seu burro!” (risos) “Tá com medo!”. Naquele tempo não jogava a poita ele pescava como o remo na mão, sabe Alemão, ele governando cum a mão ele enfiava lá na craca memo... ah, quando ajuntava aquele peixe Alemão... nóis ia andava por cima da pedra... puta que pariu... me fodia cum ele viu...
E garoupa de quantos quilos que puxava mais ou menos?
Ah, a maior que matô aí foi... de linha, foi né né 23 quilo, de linha... de linha, de espinhel matou bastante... mas de 18 de 20 de 11 de 12, é... todo dia trazia. Eu pescava com linha fina que era pra mantê a despesa, sabe, pagá a isca, matava marimba, vermelho, jaguaruçá, garoupinha miúda, e ele na linha grossa, um dia falei: pai, dá uma linha dessa grossa pra mim mata um garoupão desse aí, ele me deu uma linha quase da grossura daquele negócio da bicicleta, mas era linha de algodão Alemão, você fazia assim... tava pesada... jogava pra baixo... fazia assim... tava pesada... fiquei só com a ponta da linha na mão (risos) aí passô uma onda, dei uma ferrada... ele juntou a linha e foi colhendo linha da minha mão... dobrou aquilo e bateu na minha cara com a linha, “Cê num sabe pescá cum essa merda, num pesca”... (risos). Porque a linha fina cê sente, agora a pesada... fica aquele peso... corda de algodão cara... eu joguei a linha dentro da toca da pedra, ele ficô puto comigo... “Tá vendo... você num sabe pescá com isso, num pesca”.
Tinha algum tipo de sinal aqui assim de tipo de temperatura da água, ou alguma maré, que vocês já falavam: Hoje está bom pra garoupa?  
Água quente, água quente, molhava a mão, água quente tava bão, água fria num prestava... água clara né, água clara num presta... água clara ou água fria num presta... (James: Água fria num presta também, peixe entoca num sai.) ela só pega em toca de pedra, só dentro do buraco né.
Então é mais no verão né, a pescaria de garoupa?
Não... no inverno também dá água mais quente... É coisa que eu pesquei sempre com meu pai e nunca procuremo é...lua, nem... vivemo na pescaria a vida toda Alemão, todo dia... quatro hora da manhã, três hora ele saia do Portinho toda hora remano e ia embora... nós num tinha nada de lua, num tinha nada, só o que nós olhava era o Tempo.
Maré tinha, maré boa pra pescar?
Ah é a parte da manhã, Maré Testada né, maré... a parte da manhã que o peixe come e a parte da tarde... maré cheia é...
Eu pescava cum meu pai numa canoinha, tamanho da... daquela branca, aquela do Lagarto de lá rapaz, a onda batia molhava nóis, sabe assim, a gente rodava aquelas Palma de madrugada né rapaz... aquela Ponta de Sul das Palma é fundo pa caramba. Nóis entrava aqui pelo Leste e saía pelo Sul todo dia... quanta tromenta peguemo, ficamo lá pra cima da Praia de Leste, pra Praia do Sul... que num dava pra passá. E que num tinha comido num tinha nada, ficava assim na seca memo, fudido Alemão.
E comer, vocês não levavam comida, nada?
Ó Alemão, antigamente uma garrafa de café fria, uma garrafa de café fria... num num tinha garrafa né (térmica), garrafa coisa memo com rolha de coisa... e tinha veiz que levava resto de comida, farofa uma coisa assim pra comê né.
Comia na canoa mesmo ou parava?
Comia na canoa memo... que parava nada... meu pai era um homi Alemão que quando tava pescano, ele fumava no cachimbo... sabe o que ele fazia pa num botá fogo no cachimbo... ele cortava um pedaço de fumo com a unha e mastigava cara... pa num perdê tempo de acendê cachimbada...  tava comeno arguma coisa, gole de café num tinha caneca né, bebe na boca assim que nem...
E isca, que isca que vocês levavam?

Isca era bonito, bonito, sardinha, peixe que tinha (James: panaguaiú, sardinha.) peixe podre que tivesse... O melhor é o bonito, mas tem que tá meio passado, toda a pescaria assim de garoupa é isca passada... antigamente não tinha gelo, meu pai enterrava né, enterrava na areia, e no outro dia de manhã cavucava pra pesca... quando vinha de lá já tava meio podre ele jogava um bocado de sal pra num perdê né, punha sal e deixava... fidido pa caramba... 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ZÉ BRÁZ E O FIM DO MUNDO


Arte Nossa (Arquivo JRS)
                  Em março de 2011, dei a conhecer esta contribuição de duas mulheres  caiçaras maravilhosas: Nilséa e Dona Santa. Agora, homenageando essas saudosas companheiras de outros tempos, vale a pena recordar.         
                   No ano de 2005, recordando-me de algumas  histórias  contadas  por dona Francisca "Santa",  da  praia  do  Perequê-mirim, senti  vontade  de   escutá-las   novamente. Telefonei para a sua filha Nilséa e marcamos um encontro. Foi   um   dia  maravilhoso! Saí encharcado pelo banho de cultura que as duas esbanjaram!
            Apresento, hoje, de forma resumida, a façanha do Zé Bráz. Desta família tradicional do lugar eu somente conheci o João Bráz. Os seus descendentes são poucos, e, por enquanto, não mostram interesse pela memória interessante de seus antepassados. Eis o causo:
            Há cem anos, mais ou menos, na praia do Perequê-mirim, morava um solteirão por nome de Zé Bráz. Muitos diziam que ele era meio tonto, desequilibrado, mas não é isso que se conclui depois de analisar os seus muitos feitos. É o contrário!  Ele era muito astucioso, capaz de elaborar os melhores planos com a intenção de pregar boas peças nas pessoas. Era um verdadeiro maroto!
            A história do fim do mundo é a sua mais famosa elaboração. Veja a engenhosidade dele: primeiramente divulgou uma história. Anunciava a todos que “no dia 25 de março o mundo vai acabar. Todos devem se preparar para perceber o principal sinal em cima do mar, pois ele vai pegar fogo e vai ser o fim de tudo”.
            Quando se aproximava a dita data, Zé Bráz preparou uma balsa com talos de bananeira e colheu muito capim seco. Depois, já no referido dia, com sua canoa rebocou pacientemente (bem escondido de todos!) aquela jangada até a costeira da ponta da praia da Santa Rita. Bem para lá da Pedra do Sino, num ponto bem distante da praia, de onde os moradores dos vários pontos e praias tinham uma boa visão.
             Naquele tempo as pessoas cumpriam um ritual no serão, ou seja, na chegada da noite todos iam até o porto (chegada dos caminhos no jundu) mais próximo para dar uma última olhada no mar. Até proseavam um pouco antes de se retirarem para o repouso da noite. Sabendo disso desde que arquitetou a ideia (que as pessoas estavam no lagamar admirando o crepúsculo), o astucioso acendeu a tal balsa. Aí, as pessoas, muitas delas já apreensivas e angustiadas por causa da história que era de domínio de todos, reconheceram o tão profetizado sinal: o incêndio no mar.
            Foi um desespero só! Gritavam, choravam, chamavam os filhos para ficarem juntos até o momento da morte.   É preciso lembrar que as pessoas eram simples e respiravam numa atmosfera de temor religioso? Isso bastou para tornar a armação bem verídica!
            A sorte foi que alguém percebeu a canoa do Zé Bráz nas proximidades do mar em fogo e matou a charada. Logo tudo voltou ao normal. E assim uma brincadeira tão distante de nós passa um pouco do ser caiçara: engenhoso, religioso, irreverente, contemplativo e astucioso.
Eis um comentário do querido amigo Diego:
Nossa! Fico emocionado ao ouvir e ler História da nossa terra,das nossas origens esquecida,que precisam ser resgatada. Lembro-me da saudosa "Dona Francisca",quantas histórias de Ubatuba,que Deus a tenha..Lembro muito das tardes de tantas histórias que jamais irei esquecer....

sábado, 25 de abril de 2015

O HOMEM DA MALETA

Igara açu, a canoa grande do Carneirinho, no jundu da Praia do Acaraú. (Arquivo JRS)
                   Marulhos - Companhia teatral e Memória Bairro Escola: bem-vindos ao blog!

               Hoje, depois de curtir bem a família, de ver o meu filho tão bem entrosado com alguns de seus  colegas adolescentes, pensei nos meus colegas de outros tempos, quando tínhamos um pouco mais de quinze anos. Logo me veio à mente a estimada Fátima que sempre tinha suas histórias, o querido primo Cláudio, a saudosa Margareth e outros que há tempos não tenho notícias.
               A Fátima, agora curtindo o seu recanto e o seu companheiro, foi a mais ousada da nossa turma, publicando as suas gostosas crônicas reunidas no livro Arrelá Ubatuba. De acordo com o Luiz Moura, editor de O Guaruçá, ela “é, sem dúvida, a primeira caiçara da sua geração a escrever sobre temas do cotidiano local”. Hoje, cheio de saudade dessa amiga desde a adolescência, resolvi apresentar, de sua autoria...

                    O homem da maleta
               Numa tarde de agosto, as refegas de vento lambiam o lagamar da praia. O mandiocal se desdobrava simultaneamente como um balé de ramas. O bambuzal do caminho da bica chiava e dava estalos. O capim melado se dividia em touceiras, e o mar ficou crespo como uma saia de babados de renda.
               O corre-corre da vizinhança era abafado pelo barulho das vasilhas despencando dos tendais. A galinhada se refugiava às pressas no galinheiro. O tempo estava ficando feio. O sudoeste estava vindo sem piedade, nem clemência. Mais algumas horas ele chegaria.
               No rancho de canoas, meu avô ajeitava seus apetrechos de pesca. Tudo teria de estar certinho em seu lugar para ficar protegido da tempestade que se formava. Foi aí que sentiu a falta de um rolo de canoa que esquecera na praia. Saiu para buscar. Uma nuvem de areia encobriu-lhe o rosto. Refeito da visibilidade, deparou com um vulto de um homem que vinha praia abaixo carregando uma maleta. Quem poderia ser àquela altura? Esperou o forasteiro se aproximar. Usando da hospitalidade caiçara, o inspetor de quarteirão fez com que o homem entrasse no rancho e se refizesse do cansaço de andar na praia e contra o vento.
               Já refeito, este senhor expôs o seu caso. Precisava que o meu avô o levasse de canoa para ser mais rápido. Impossível, falou o velho pescador. Seria suicídio essa aventura. Nem por todo dinheiro do mundo. Eu exijo, respondeu o homem. É em nome da Pátria. E o senhor, como um representante da Guarda Nacional, tem que obedecer. Meu avô com sua simplicidade e calma, olhou para o mar, olhou para o céu, olhou para o caminho que dava para a sua casa, como quem quer se despedir, e disse:
               - O senhor é quem sabe, depois não vá dizer que eu não avisei. E seja lá o que Deus quiser. Botou a canoa para baixo, mandou o homem se ajeitar no fundo da piroga, pulou na proa equilibrando-se como podia para não virar. A luta começou.  O vento jogava de um lado, a força do remo do outro. Quando chegaram na ponta que dava para a Praia Brava do Sul, o homem quis ajudar. Começou a remar com as próprias mãos. Não deu outra. A canoa alagou e virou de boca para baixo. Meu avô mais do que depressa agarrou o homem pelo paletó e ficaram os dois grudados junto ao casco que ainda boiava. E assim ficaram até o mar jogar os dois em cima de um parcel.
               Salvos pela graça de Deus, tomaram o caminho de volta para casa. O jeito foi hospedar o homem até o tempo se acalmar. Todo esse tempo o estranho não abriu a boca para dizer um Ah!

               Passou a tempestade. O dia amanheceu ensolarado. Meu avô, curioso que estava, abriu a valeta que ainda estava encharcada. Tirou os papéis que estavam ilegíveis e por cortesia pediu para as crianças estenderem em cima das pedras do quintal para que secassem. Logo depois o home acordou, passou a mão na maleta, recolheu os papéis ainda úmidos e foi-se embora. Assim como chegou, mudo, depois do banho, foi embora calado. Nem até logo deu.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

UM CAUSO DO EUGÊNIO - PARTE II

               


              Eugênio Inocêncio era negro dos olhos verdes. Viveu quase toda a vida nas ilhas. Era um caiçara-ilhéu.
                A partir daquela exclamação (“Como eu gostava daqueles grandalhões esbranquiçados!”), no jundu da Praia do Perequê-mirim, continuou o saudoso primo Eugênio:

                “Foi com um daqueles peixes-luas que aconteceu o fato que até hoje mais me impressionou. Era na metade da tarde, já perto do serão, quando eu jogava uma linhada na Pedra da Moreia. Três ou quatro salemas já estavam no balaio, mas eu insistia com isca de bonito moído na esperança de uma garoupa para a janta. Esperando bem paciente, notei que boiava um peixe grande. Vinha do fundão. Era peixe-lua. Parecia desassossegado, fora do normal. De repente vem mais coisa dos lugares remotos, das profundezas: eram lulas gigantes. Nem deu tempo de contar quantas eram porque num instante a água empretejou pela tinta que soltavam.
                Não sei dizer quando media ou pesava cada uma daquelas lulas, mas eram medonhas e estavam ali com a intenção de dar um fim no peixe-lua. Ele se desesperou em vão, pois eram muitos tentáculos que o abraçavam. Num instante o coitado parecia uma grande bola de fio grosso. E assim foi puxado para o fundo, naquela água enturvada. Eu só consegui  fazer uma coisa: rezar para nunca mais ver coisa assim.  Quando contei em casa, o meu pai apenas disse que não era a primeira vez que isso acontecia por ali. É, Zezinho, o mar manso é só ilusão. Cruz-credo!”.
               
            Agora, eu aqui no jundu da Praia da Cocanha... O Eugênio é parte de um antigo instante. E o mar bravio? Está reboante!