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sexta-feira, 16 de outubro de 2020

MÁQUINA DO TEMPO

 

Flores da Dilma (Arquivo JRS)


                Hoje comecei o dia lendo Rubem Alves. Tem uma passagem que é muito interessante, sobretudo quando nos identificamos como bons escutadores de histórias que também gostam de contar causos. É assim: “Já houve um tempo em que fui criança [...] O tempo é isto: o poder que faz com que coisas que existem deixem de existir para que outras que não existam, venham a existir [...] Eu posso passear no seu mundo, que existe. Mas eu gostaria que vocês passeassem no mundo da minha meninice, que não existe mais. Acho que vocês gostariam, porque era um mundo tão diferente...”. E, seguindo a narrativa, ele diz que “é preciso embarcar numa Máquina do Tempo”, que ela “está dentro da nossa cabeça”. “Ela se chama imaginação”.  Lindo, né?


                Eu gosto de ouvir coisas atuais, mas adoro quando contam situações vivenciadas em outros espaços e em outros tempos. Ah! Quantos causos! E quando eles vinham sob luz bruxuleante, de lamparinas que pareciam estar nos últimos suspiros, nos convidando para dormir!? Coisa boa demais! E quando eram histórias de assombração, que nos arrepiavam por toda a narrativa!? Pior era depois ter de sair para o terreiro, pois na minha meninice não havia banheiro dentro de casa. A solução era o cisqueiro (“usar o mato”) ou o penico. Olhar aquela escuridão, os salpicados pontos luminosos dos vaga-lumes... escutar os sapos, a nimbuias e toda a passarinhada da noite era alimentar a nossa imaginação medrosa. Mas era preciso se superar diante da pergunta-ordem da mamãe: “Todo mundo já mijou antes de ir pra cama?”.


                Num desses dias, comentando uma situação de medo de escuro, afirmei que as assombrações do meu tempo de criança desapareceram depois que chegou a luz elétrica. A nossa imaginação perdeu força com essa tecnologia, essa “facilidade da vida”. Coitadas delas (das assombrações)! Ah! Mas também apareceu a televisão substituindo os contadores de causos, de histórias que embalavam nossas vivências! E hoje, aparelhos mais modernos enfeitiçam nossas vidas, transferem os prazeres para outras esferas, nos tornam mais egoístas, indiferentes para esse mundo tão próximo, de pessoas tão concretas. A função deles? Criar outras necessidades (comprar computadores e outros equipamentos de última geração,  games etc.), gerar outras dependências que garantam os lucros de uma mínima parcela da população, deixar a autonomia mais longe no horizonte da utopia!

                Ontem encontrei o pai da Tainá, uma ex-aluna que não vejo há mais de dez anos. “Ela se casou, vive na Islândia. Eu tenho uma linda netinha”. E já foi puxando, do celular, uma série de imagens de uma terra muito distante de Ubatuba, onde Tainá nasceu e se criou. E, empolgado, me mostrou desenhos de animais e plantas tropicais: “São trabalhos, aquarelas da Tainá. Ela agora está aqui. Na semana que vem certamente você a verá, pois ela vem nos fazer uma visita”. E a minha Máquina do Tempo é ativada pela menina tranquila, estudante, num tempo que a internet ainda era, para poucos,  a grande novidade.



sexta-feira, 9 de outubro de 2020

DONA RITA

 

O Sol (Arquivo JRS)

                Chico Cruz era irmão do Antônio Julião e da Chica, gente nativa da praia da Santa Rita. Rita Maria da Cruz, natural da praia das Toninhas, irmã do Argemiro, foi casada com Chico Cruz, funcionário do presídio da Ilha Anchieta, onde passaram os piores momentos em 1952, por ocasião do levante. Argemiro terminou seus dias casado com a Chica, no Perequê-mirim. Nilséa e Nilson amavam seus pais (Argemiro e Chica, que tanta estima tinham por mim).  Segundo os depoimentos deles e de tantos outros, junto com a Revolução de 32 e a Guerra dos Tamoios, foram os únicos momentos  sangrentos da nossa terra. “Ninguém dormia sossegado de tanto medo”. Dona Rita disse um dia que, “quando estourou a revolta dos presos, na parte da manhã, as minhas duas filhas mais velhas estavam na escola, ao lado do presídio”.

                Rita Maria da Cruz tinha 80 anos. Acho que era o ano de 2003 quando, bem próximo ao portão da casa dela, debaixo de uma pequena sombra de um pé de lichia, no centro da cidade, a viúva me concedeu um dedo de prosa. Não me demorei muito para não cansá-la demais. Mas valeu a pena! O comentário que faço questão de transcrever hoje é a respeito do turismo na nossa cidade.

                “No meu tempo de menina a gente vivia isolada. Só as canoas se teciam por esse mar de Deus. As  grandes canoas [de voga] faziam as viagens mais longas. Só depois começaram a vir os barcos de Santos. Levavam e traziam de tudo. Acho que era uma vez por mês que eles apareciam. Ainda não tinha estrada de carro por aqui. A gente, que morava nas Toninhas, saía logo depois da grande cantoria dos galos [por volta das três horas] na madrugada para vir estudar na cidade, na escola Doutor Esteves da Silva. Só quando era quase serão a gente chegava de volta lá em casa. Todo mundo andava pelos jundus e praias; sempre tinha alguém indo ou vindo pelo trajeto”.

                Pois é. É notório que a cidade de Ubatuba vivia praticamente isolada do resto do mundo. A estrada para Taubaté é do começo da década de 1930. A ligação rodoviária para Caraguatatuba se completou em 1957. Justo Arouca escreveu a respeito dela: 

                “A picareta que em 1948, rompeu o chão para robustecer aquele fio de sonho, abriu a marcha incessante em busca das lendárias praias de Iperoig, 54 quilômetros depois [...] Fatigado de desilusões  e de tanto esperar, o novo dia chegou, finalmente. Chegou ao Acaraú, sem pedra fundamental, sem foguetório, sem discurso, sem feriado escolar. Era o ano da graça de 1957, setembro [...] O sonho, agora, passa para a realidade. A nova estrada rompe o silêncio de mais de meio século, abrindo as portas da cidade para um novo tempo de reconstrução”.

             Vinte anos depois, em 1977, a última via de acesso (BR-101) nos liga, ao norte, à cidade de Paraty. O turismo é a principal atividade econômica. O Sol é para todos. O desafio maior hoje é saber amar toda essa natureza exuberante que temos, vencer a poluição que avança sobre tudo e derrubar as barreiras do ódio que tenta prevalecer sobre todos.

             Como eu gostaria de ter chances de outras tantas boas prosas!

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

A LAVOURA

 

Bito Madalena (Arquivo JRS)

             Escrever sobre lavoura no chão caiçara é enxergar ainda os espaços cultivados. Era assim na minha infância, quando a especulação imobiliária engatinhava no litoral paulista. Em época desta, quando chegava a primavera, as roças novas recebiam as primeiras atenções, sobretudo no controle do mato que sempre vinha com muita força. As saúvas também exigiam vigilância constante. Na  várzea do Sapê, vovô Estevan plantava arroz e milho entremeados com as bananeiras. No morro da Fortaleza se cultivava muita mandioca nas posses do vovô Armiro.  Me lembro sempre de uma prosa em outro tempo com o estimado Bito Madalena, no alto do morro do Saco dos Morcegos, quando ele me explicava: 

         "Todo esse mato daí, por esses morros todos, na metade do ano era preparado para novos plantios. Tudo era descultivado nessa época. Só ficavam livres as capoeiras que descansavam anos até chegar outro tempo para mexer nelas. Era chão de pousio. 

       Todos precisavam da lavoura. Quem vivia sem farinha? Quem passava sem banana, cará, batata,cana e outras coisas mais? Eu, meus parentes... todos tinham de fazer isso para garantir uma parte do sustento da família. A outra parte vinha da pesca e da caça. Todo mundo vivia dessa maneira. Sinto dó da gente de hoje porque quase tudo precisa ser comprado na cidade. De uns tempos para cá o nosso pessoal foi se acomodando em outras formas de viver, de ganhar dinheiro. Veja tudo isso! Naquele tempo quase não se avistava mata fechada assim; era plantação disso, plantação daquilo. E quantas casas desapareceram  engolidas pelo mato!? Os mais novos se foram e os velhos que ainda vivem não têm forças para enfrentar a lida da roça, dos bananais. Agora, repare bem, veja a quantidade de casas surgindo pelos morros e badejas. Tudo isso já foi chão descultivado, teve posseante zelando, cultivando de tudo um pouco. Logo ali em frente, do Teófilo para baixo, até alcançar a cachoeira, o Rio do Inhame, foi o pessoal de casa - meu finado pai e nós, os filhos - que descultivamos. Tudo virou um bananal só. Os barcos saíam carregados de cachos, levavam para Santos. É por isso que este lugar adiante, até a virada de lá, tem o nome de Saco das Bananas. Antes era só Prainha do Frade".

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

CULTURAS E CAMINHOS

Festa para Tobias e Carminha (Arquivo JRS)



     Eu digo que trabalho, devoção e festa sempre estiveram em igual proporção na vida do povo caiçara. O trabalho era questão de resistência, criatividade e sobrevivência. A devoção sustentava a esperança e era alento nos temores. A festa sempre foi manifestação da alegria, agrado a alguém e agradecimento pela vida. "Não havia preguiça para festa alguma. Nem que fosse depois da derradeira serra ninguém esmorecia quando a festa era anunciada", me contou um dia o Dito Neves, marido da Joaninha, em cujo terreiro chupei muitos cajus  no tempo de criança.
    
     De vez em quando acontecia de alguém ter motivo para falar mal de alguma festa. O "velho" França, depois que passou um tempo em Santos, servindo em quartel, voltou para Ubatuba recebendo um salário sem precisar trabalhar. Era como se fosse uma aposentadoria de militar. Não sei o porquê, nem quem arranjou isso para ele. Só me lembro dele dizer que o nosso povo era muito folgado, fazia muitas festas etc. Alguém, já naquele tempo, me fez ver o seguinte: tem gente que vive às custas de quem trabalha, mas fala mal dos trabalhadores. Notei isso quando o saudoso Herondino esculachou o "velho" França: "Alguém como você é gente sem vergonha na cara. Bastou alguns anos vivendo entre os soldados para poder viver o resto da vida recebendo sem trabalhar. Eu, no seu lugar, me retiraria numa dessas grotas para deixar de inticar com os outros que seguem no suor pelo pão de cada dia". 

    Eu confesso que, nas poucas oportunidades em que avistei o "intiqueiro" em momentos de festa do nosso povo, ele estava sempre de lado, sem ninguém nem para prosear. Nem sei como conseguiu se casar. Resumindo, no dizer do tio Francolino: "O França cutuca mais que ispim de brejaúba. Vivendo sem esforço, só mamando, agora não para de inchar. Está quase um baiacu de ispim, sem ninguém fazendo questão de ficar do lado dele".

    Hoje, depois de tanto tempo, consigo identificar a condição do pensamento do "velho" França: ele foi envolvido por uma ideologia, por ideias de gente rica que tem a necessidade de desmerecer os mais pobres. Causando o rebaixamento de muitos, alguns poucos se dão bem. É assim que essa moral é cultivada para oprimir e extinguir formas culturais diversas, tal como a nossa. O Dito França e tantos outros servem como exemplos de aliados dos ricos, de gente que precisa oprimir para existir. Se vivemos situações de miséria cultural e material, se não valorizamos devidamente a nossa cultura hoje, é porque não fizemos as leituras necessárias em outros tempos. Basta! Vou parando de inticar por aqui!

(Em tempo: a filha do França vive ainda nos dias atuais recebendo o salário que era do finado pai. Pode isso?).

terça-feira, 22 de setembro de 2020

MELHORA COM NINHO DE ARAPUÁ

 

Lá longe, nem se avista quase (Arquivo JRS)

    "Nós fomos naquela lonjura buscar uma erva. É que só lá na ilha tem. Saímos cedo; éramos três remando. Quase meio-dia durou a travessia. Melhor dizendo: saímos no clarão e chegamos quase no sol a pino. Isso porque o mar estava liso, sem nenhuma ventarola. A canoa ficou amarrada na poita deles: uma bola grande com algumas letras. Encostou ali um dia; pode ter se desgarrado de algum navio que passou por fora, segundo os moradores. Caímos na água e subimos pelo estivado mais perto. O Batengo estava agachado; nos recebeu com um pito na mão. O cheiro bom do fumo estava no ar. Os outros se esconderam como é o costume deles. São vergonhosos ou não desejam gente para não estragar aquela paz.  Apareceram depois, aos poucos, meio ressabiados. Logo ali, subindo pelo mesmo caminho, chegamos na casa. Dentro estavam os outros (mulher e crianças) do Batengo. Ela explicou onde tinha o mato para nós, a erva que fomos buscar. Bastou subir mais um pedaço do morro, até uma área de macega com muita macela e um marco de duas pedras: uma maior e a outra menor. A grande era um granito verde; a pequena era inteirinha branca, dessas que dizemos ser pedra de vidro. Entre as duas tinha a tal erva que Josefa precisava para depois do benzimento. A nossa tarefa era levar aquele mato. Logo ajuntei uma massaroca, uma boa braçada. Chegou a metade da tarde. O tempo virou, veio vento forte. A nossa canoa foi puxada para a terra firme. O jeito era pernoitar com eles, na ilha. Ainda não tinha escurecido de vez quando jantamos: era comida como a nossa, de caiçara. Farinha e peixe ensopado. Uma panelada de cambeba. Além de banana verde, havia uns fiapos escuros pelo meio do caldo. É que eles, a gente de lá, tem o costume de juntar um tipo de limo da costeira, secam no jirau para depois usar no cozido. Dá um gosto a mais na comida. Só não usam no marisco, dizem,  porque este já tem o gosto do limo na carne. Depois da janta, a companheira (Lídia) do Batengo explicou que aquele mato colhido por nós é amargoso, solta um pitiu, mas se fizer amassado com ninho de arapuá, um aroma doce se espalha pelo ar e  se torna melhor de beber. Escutei bem a recomendação dela: 'Faz desse jeito pra mode tomá com gosto e fazer mais efeito, curar ligeiro. É certo: melhora com ninho de arapuá'. Tudo isso eu transmiti à nossa benzedeira quando chegamos de volta. 

    Ainda a gente estava na prosa da mesa, tomando um cafezinho depois, quando chegou o primo Eugênio trazendo umas esteiras de taboa da casa dele. Proseou um pouco só; nem uma hora depois se foi pela escuridão.  Logo dormimos todos. No escuro da madrugada as brasas do fogão foram reavivadas para o nosso café antes de deixarmos a ilha. Juntamos tudo o que era nosso, agradecemos e embarcamos para remar tudo aquilo de novo. Que não é fácil ser ilhéu isto eu posso garantir!".

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O MONO CAPELÃO


1984 - Ponta do Farol (Arquivo JRS)



              Em 1980, num meio dia de Sol ardido, eu estava no recenseamento na área da Ponta Grossa. Era outubro. Naquele dia o meu roteiro tinha se iniciado no canto da Praia Vermelha, na entrevista com o Dito Olho Azul, mestre da dança da fita da capela do Itaguá. Depois passei pelo povo da Anatilde, minha colega de escola, pela bica do morro onde era a casa do Ditinho Batatão e Hione. Logo alcancei as poucas casas do Cedro, onde o saudoso Zeca do Paru me guiou para os lugares dos parentes, às moradias dali. Ainda faltava a Ponta do Farol. A comadre Galdina apareceu por acaso, estava visitando alguém. A sua moradia era no Acaraú, vizinha da família Damásio, bem no meio do pessoal numeroso do Janguinho e Santana: caiçaras que marcaram a minha juventude. Ao vê-la, o Zeca, sempre com alguma tarefa em mente, pediu: "Gardina, faz o favor de acompanhar o Zé Ronaldo até as casas da Ponta, para fazer a pesquisa que é preciso". E assim subimos e descemos morros naquele calor bravo. No percurso encontramos um caminhão pipa. Ela me explicou: "A água dali é pouca. Por isso sempre vem um caminhão cheio de água para serventia dos moradores, de quem está por ali. É tudo turista, mas tem duas famílias que servem de caseiros. Se fosse só pobre, eu duvido que a prefeitura fizesse isso. Quem conseguiu esse serviço foi a dona da casa maior, gente do Abreu Sodré, que foi governador do nosso Estado. Hoje tem tem mais obras novas por lá, você vai ver mais construções. O caminhão tem vindo mais vezes por isso".
       
             De fato, recenseei apenas quatro casas. Vislumbrei para os próximos anos mansões por debaixo daquele mato todo. Após a última casa, a comadre me convidou: "Já que estamos aqui, vamos até o farol. Dizem que está reformado, mais bonito. Ainda não fui lá depois disso". Lógico que eu ansiava em ver a famosa Ponta Grossa do Farol, o tal farol. E lá chegamos: uma obra simples, de onde se avistava um mar imenso. O finado Dário Barreto, caso estivesse conosco, na certa exageraria: "Quando o tempo está bem limpo, sem nenhuma cerração lá longe, daqui a gente é capaz de avistar o outro lado, a terra dos africanos". Sentamos ali para prosear desfrutando da linda visão. De repente um barulho veio vindo pelo mato, balançando galhos mais altos das árvores. Novamente aquela maravilhosa mulher me acalmou: "É mono. De vez em quando tem um bando deles que passa por aqui. O povo daqui está acostumado. Papai, que Deus o tenha, dizia que eles vem de longe, da serra, porque sentem saudade do mar, do cheiro da maresia e do barulho das ondas na costeira. É sempre neste tempo, quando tem mais caraguatás maduros. Vamos ficar quietos, só reparando no jeito deles. Macaco parece com gente, né?". O bando chegou, mais de quinze deles entre grandes e pequenos. Um deles se destacava. Ao nos perceber, deu uns pulos na nossa direção para nos examinar melhor, de perto. Permaneceu ali alguns minutos, na distância de cinco metros, sobre uma pedra. Depois  soltou um som como se acalmasse os demais e foi tranquilamente se juntar ao bando que atacava os cachos de caraguatás. Impressionante! "Aquele que veio até nós é o capelão, quem comanda os outros. Repare que tem a barba a mais grande e bem ruiva, parecida galhada de aroeira madura. E olha aquele tamanho de gogó!". Fiquei devendo mais uma lição para a comadre Galdina. Quanto privilégio meu em conviver com essa gente toda!

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

DETALHES DO SER CAIÇARA

Tio Antônio Félix (Arquivo JRS)
                
                         Tio Antônio foi o primeiro filho dos oito que a vovó Martinha teve. Um talento especial nele era o de fazer rir quem estivesse por perto, em prosa com ele: sempre encontrava ao menos uma graça em alguma coisa. Também se aproveitava das ocasiões para esclarecimentos em qualquer coisa, sobretudo quando se relacionava com saberes da nossa gente. Tinha a paciência em detalhar material, técnica e uso do tema abordado. Por exemplo: 

           “As casas da nossa gente - quase todas! – era feita de pau, barro e sapê. O tronco da jiçara era feito em ripas para receber a cobertura. Para usar como vigas, a preferência era pelo jacatirão, sempre reto. Já na serventia de colunas, a gente procurava pau mais duro no mato, mais resistente ao tempo. Cabiuba, ipê, canela e até mesmo tarumã eram os mais aproveitados para fazer colunas. Mas tudo tinha de ser cortado no tempo certo, na lua boa, senão... logo bichava, dava cupim. Ainda é assim para alguns hoje. Depois de colocados em pé, de travadas as colunas das paredes e da cumeeira, vem as vigas por cima. Na parte de baixo, rente ao chão, deitam-se as peças que servirão de soleira, de onde parte os paus dos batentes das portas e das janelas. A cobertura acontece nesse momento. O sapê colhido e secado é separado em porções iguais, amarrados, penteados e distribuídos sobre as ripas em camadas. Quando é bem feito, penteado de acordo, dura até catorze, quinze anos... Na soleira também é onde se firmam os paus mais finos, varetas escolhidas a dedo. Ficam a pique para serem enleiados, envarados e firmados com embira, sendo mais recomendado a de Imbé, da casca dele. Pode passar o tempo que quiser que aquilo não se acaba, nem se rompe. O pau a pique tem de ficar menos de um palmo de distância um do outro. Envaro é o que se põe de um lado e de outro do pau a pique e vai se prendendo com embira. É assim: pau a pique é pau em pé e envaro é pau deitado. Tudo bem amarrado se torna a sustentação das paredes. Nesse trançado que fica é que vai jogar barro, espremer nos vãos, fechando a casa e os cômodos dela. Tudo isso nunca foi serviço de homem sozinho ou de dois e três. Sempre era feito em pitirão, com muita gente do lugar no ajutório. Depois o dono passava a ocupar; aquilo virava o seu lar, onde namorava para cumprir o mandamento divino de crescer e multiplicar. Era mais um lugar para se cantar Reis, Folia e fazer bate-pé. Quase sempre a sua sala, com bancos encostados nas paredes, serviam para prosas e rezas. Quando alguém da casa falecia, era na sala que se velava e conversava a respeito de tantas coisas, ainda mais das engraçadas vividas com o defunto. Não havia quem não rezasse e quem não desse risadas debaixo daquele teto. Flores, velas, café, pinga e o de comer eram sagrados naquelas horas de despedidas”.

             Ah! Detalhe: o tio Antônio foi padrinho do tio Neco, o sétimo filho. Segundo a crença, para que este não virasse lobisomem era preciso cumprir o ritual. Se fosse sete mulheres na sequência, também a primeira delas batizaria a sétima, evitando uma nova bruxa no pedaço, no nosso chão caiçara.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

O VELHO ASSUNTO DO ACARAÚ

 

                                            Canoa no Itaguá (Arquivo JRS)

           Cheguei cedo para um trabalho contratado pelo saudoso João de Souza. Ah, faz décadas isso! Na entrada do Camping do Velho Rita se encontrava proseando João Barriguinha, João de Souza e Acari. O assunto era política porque estava na época de eleições municipais. Os elogios, primeiramente eram para o Basílio Cavalheiro, o prefeito daquele tempo (e também morador do bairro!), pelas melhorias na orla do Itaguá (muro de pedra para conter as ondas das ressacas, evitando invadir a área da estrada de rodagem no jundu, construção do ginásio de esportes, o “Tubão”, etc. Mas uma coisa parecia ser angustiante aos três caiçaras naquela prosa política: o rio Acaraú. O motivo era que, por estar muito estreito, com construções quase fechando o seu leito, as grandes chuvas causavam sempre um estrago no bairro, invadiam terrenos e casas por ali tudo. “Não tem como remover as casas que já estão construídas”, “De nada adianta afundar o leito dele”, “Se fizer um corte, endireitar o rio, de nada vai adiantar”... Até parecia um gabinete de técnicos prontos a chegar na solução ideal do problema. Naquele momento chegou o Velho Rita. Logo se inteirou e deu a posição que eu julguei ser a melhor: “De um rio pode-se fazer dois. Basta anular uma rua dali de traz e transformar a reta, que vai até a praia, num rio. A maior parte do tempo ela vai correr com pouquinha água, mas nas grandes chuvas, vira um rio potente e deixa de fazer o estrago aqui do nosso lado. É difícil isso? Claro que não! Hoje tem máquina escavadeira na prefeitura. Se não tivesse, a gente podia fazer no braço. É para o bem nosso mesmo. Só é preciso fazer umas duas pontes para poder ter travessia aos dois lados. Isso não é difícil. De repente, o lugar onde hoje corre o Acaraú, deixe de existir, seja tudo aterrado. Então deixa de ter dois rios e fica só o segundo. Dali em diante o segundo será o primeiro e único. Está bom assim?”. Todos acharam a ideia um absurdo por um motivo apenas: “Nem pensar uma coisa dessa! Onde nós vamos pescar depois disso? Nem pensar! Todos nós crescemos comendo traíra desse rio. Desde criança nós pescamos traíra, acará, bagre e outros a cada dia ali. Nossos filhos, nossos netos vivem ali pescando sempre nos finais de tarde. Agora mesmo, olha ali a Celeste e o neto dela esperando com paciência a chegada de alguma coisa no anzol”. Resumindo: morreu o assunto. O problema continuou. Pior: se agravou! Agora é esgoto que transborda pelos espaços do bairro. Só não  se repete mais como antes porque as grandes chuvas já não são tão frequentes. É evidente que diminuiu a oferta de água no nosso lugar. Com certeza os descendentes desses antigos caiçaras não se arriscam a pescar há muito tempo no rio que corta o bairro com seus odores terríveis. Nem deve viver peixe com tanta sujeira ali! 

           Agora, novamente em véspera de eleição na cidade, o assunto bem que poderia voltar a ser falado, discutido pelos candidatos a alguma coisa na próxima fase administrativa do município. O velho assunto do Acaraú se mantém atualíssimo. Eu ainda acredito que não apareceu ideia melhor do que aquela do saudoso Sebastião, o Velho Rita.

Em tempo: hoje, feriado municipal "Dia da Paz de Yperoig" (1563). Nós sabemos que foi quando se concluiu a traição dos indígenas  que aqui viviam, resultando no extermínio do povo Tupinambá. O correto seria reconhecer como Dia da Traição de Yperoig)

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

E POR FALAR EM LETRAS...

 Arte do Estevan, meu filho (Arquivo JRS)

Arte do Estevan, meu filho (Arquivo JRS)

            Ao relatar que o Antônio de Puruba aprendeu de uma forma bem peculiar (“Pegava um pedaço de jornal e perguntava pra  quem soubesse: Que letra é essa? A pessoa dizia e eu escrevia no chão. Daí em diante escrevi largamente...”), agora digo aqui uma experiência pessoal, o meu princípio de alfabetização: tudo começou no lagamar, na areia molhada da praia. Meu pai, quando íamos cedo na praia esperar os pescadores que vinham de visitar seus tresmalhos, riscava as letras com uma vareta e depois pedia que eu copiasse do jeito que estava. Assim me iniciei nas letras, no caderno bem grande da praia. Primeiro aprendi a escrever o meu nome inteiro. Gostava tanto que, ao ver um espaço limpo, quando voltava para nossa casa, logo pegava um pedaço de carvão para deixar as marcas da minha evolução. Paredes, chapas de madeira, cascas de árvores, pedras... Tudo ganhava rabiscos. Nunca levei bronca por isso.

            A Dona Maria Balio, mulher de muita fibra, dizia que assim que chegou ao Sapê, onde eu nasci, logo se interessou em ensinar às crianças da região. Por volta de 1952 já estava ministrando aulas no Sertão da Quina. Era um trabalho voluntário, gratuito. Além do aprendizado das crianças, também orientava as mães a respeito de cuidados gerais (saúde, higiene, vestimentas etc.), possibilitando aquilo que hoje seria chamado de empoderamento das mulheres. Nenhum papel era desperdiçado quando aparecia. “Eu juntava eles, com a minha máquina de costura, sob a forma de cadernos para usar nas aulas”. Mais tarde, em 1959, ela já estava num novo desafio, na praia Grande do Bonete: “Eu lá ensinava num rancho de canoa, no jundu. As crianças se espalhavam pelas canoas e na areia mesmo. Nem me lembro de quem providenciou lousa e giz. Para os alunos aquilo era um espetáculo maravilhoso. Precisava ver a satisfação deles conforme iam aprendendo! Só quando o tempo virava, com ventania e chuva, é que não tinha como dar aulas, tudo ficava respingado, molhava de verdade. Pouco tempo depois, o Adelino cedeu a sua sala para servir de escola. A casa dele era no canto de lá [esquerdo, depois da barra] da praia. Eu andava tudo isso a pé. Ficava se segunda até sábado cedo com eles. O fim de semana vinha para casa”. (Do Sapê até a Grande do Bonete, gente!).

Outra coisa desta mulher valente: promovia a festa de Natal. Conseguia angariar uns presentes com quem tinha mais dinheiro e distribuía para nos alegrar. Foi vereadora, juntamente com o seu filho Zé do Prado, num tempo em que era apenas um trabalho voluntário, de serviço ao município, sem nenhuma remuneração. Me recordo de um evento religioso no Largo do Sapê, no final de 1968, quando a banda da cidade, entre outras músicas, executou A Banda, de Chico Buarque. A apoteose foi quando um helicóptero sobrevoou o povo caiçara concentrado ali. Todos acenavam com um lenço branco para saudar a imagem de Nossa Senhora que diziam estar nele, nos abençoando. Muita gente chorava, mas eu não entendia a razão.  O que importava para mim era a festa, o povo reunido, o espaço lotado com a nossa gente. Que beleza!





quarta-feira, 9 de setembro de 2020

DESAFIOS DAS LETRAS

Sinéia, professora caiçara boa de prosa (Arquivo JRS)


                Vovó Martinha, nascida na praia do Pulso, se queixava sempre por não ter aprendido a ler. “No meu tempo de criança não havia escola. Bem depois, quando as crianças foram nascendo é que, onde morava o Chico Romão, na boca-da-barra [rio Maranduba], começou a ter ensino. Um professor vinha da cidade [centro] e passava a semana toda, ficava hospedado com uma família dali mesmo”. Mais tarde, quando tinha quase todos os filhos casados, a vovó resolveu frequentar o MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Era tempo dos governos militares (1964 a 1985). No serão, com um caderno e um lápis na sacola, ela se dirigia ao miolo do bairro (Sapê), à casa da dona Maria Balio, uma guerreira do nosso povo. Era lá que as aulas aconteciam. Ela aprendeu as letras, soletrava cada uma delas com segurança, mas não alcançou aquele ponto mágico de uni-las e ter o significado completo. Não persistiu, deixou o curso. “Porque eu me cansava demais depois de um dia todo na labuta”. Outro caso para entender os desafios das letras é o depoimento do Antônio Alexandre, da praia do Puruba. Está em Os caiçaras contam:

                “Aprendi a escrever na terra. Tinha 18 anos. Pegava um pedaço de jornal e perguntava pra quem soubesse: Que letra é essa? A pessoa dizia e eu escrevia no chão. Daí em diante escrevi largamente. Escrevi de tudo. Fazia aquela garrancharia e depois arrumava. Rapaz!, o que eu mais gostava de fazer era estudar, mas aqui não tinha escola... Três meses de estudo pra mim teria sido como 200 anos!”.

                Vovó Martinha e Antônio do Puruba: dois saudosos caiçaras apenas para ficar como exemplos. A prosa boa deles me faz falta. Escutei-os bastante, mas gostaria de ter registrado tantas coisas a mais deles... Quantas boas histórias, quantas prosas prazerosas se foram, continuam se apagando, sem se tornarem letras arrumadas, sem se arranjarem em textos para deleites hoje e nas gerações vindouras?

                Para finalizar: Maria Balio era tia do Antônio. Era a "Tia Mariazinha" de quase todos que habitam em torno da capela da praia (Puruba). Nasceu bem ali, na praia da Justa, no norte do município, mas acompanhou o pai, funcionário do telégrafo, ao Sapê, no sul, onde viveu até os últimos dias de vida. Era mulher de encarar enormes desafios e de vencê-los.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

VELHAS ÁRVORES

Tronco da velha jabuticabeira (Arquivo JRS)

Velha jabuticabeira (Arquivo JRS)
            Ao me deparar com uma velha jabuticabeira em minhas andanças, o que mais me impressionou foi o seu tronco cheio de rugas. Fotografei-a pensando na possível idade da árvore: "Seguramente tem mais de cem anos". Me demorei ali apreciando as formas que continuam abrigando os caminhos de sua sustentação, os nutrientes da planta. Imaginei o quanto já produziu, quantas gerações se beneficiaram dos seus frutos. Olhando melhor, me admirei: "Nossa! Ela ainda frutifica!". Seus galhos, de meio para cima estavam cheios de frutas verdes, ainda crescendo. "Dentro de duas semanas, no máximo, estarão maduras".

        Aquela árvore, ali na beira da estrada, me fez recordar das jabuticabeiras do estimado japonês Hiasa, do Perequê-mirim. Na sua área de plantação se encontrava três jabuticabeiras que ficavam carregadas de frutos entre setembro e outubro. Ninguém ousava ir lá para recolher alguma coisa sem que chegasse o dia certo, quando o proprietário convidava todos os moradores do lugar para o ato. Era uma tarde inteira numa grande movimentação. As árvores eram enormes, todas carregadas de uma das frutinhas da nossa infância mais cobiçada. Os troncos e galhos estavam pretos nesse dia, bonitos demais; doces na medida certa. Era um ritual que se repetia a cada ano. Não havia muros, não tinha nenhuma cerca, mas ninguém dali mexia antes do tempo, sem que o senhor Hiasa fizesse o convite. Além do pessoal do bairro, até de outros lugares vinha sempre alguém que já estava acostumado com aquilo. Apesar de estarem em propriedade particular as saudosas jabuticabeiras, seus frutos eram coletivizados. Hoje aquilo tudo foi loteado. Das três árvores, apenas uma avistei em pé uns anos atrás, mas se encontrava maltratada demais. Será que ainda frutifica? Não sei. Mas valeu as imagens para rememorar um procedimento tão significativo daquele homem que veio de um país distante cultivar em chão caiçara. Seu filho, casado com mulher caiçara, certamente nesta época de jabuticabas no pé, deve se relembrar do velho pai e contar aos filhos e netos o quanto bonito era aquilo: um exemplo para  compartilhar na luta contra a riqueza concentrada.


domingo, 6 de setembro de 2020

CANTO DO CAMBIÁ

Concha de cambiá (Arquivo JRS)

Canoa Cambiá (Xilogravura - Arquivo JRS)

             
          Eu sigo escrevendo e me alegrando com os amigos produzindo suas páginas a nos permitirem viajar, sonhar, alegrar e admirar pelas suas memórias e imaginações. Jorge Ivam ontem me avisou do lançamento de seu mais recente livro - Ser silvestre. Estou ansioso para ler mais uma joia pura desse talentoso professor que escolheu Ubatuba para criar a família. Viva a Bahia de Todos os Santos e  de tanta gente talentosa! Ao meu amigo sempre bem inspirado: parabéns!

                Interessante as forças da fantasia e da memória; parece que uma vive emprestando palavras à outra constantemente. Falando e registrando tudo vamos passando culturas, histórias e sentimentos. Agora, em tempo de reclusão devido à pandemia, nossas prosas vestem novas roupagens. Viva todo mundo que segue deixando suas marcas pelos textos e pelas imagens!

                O que escrevo agora está relacionado a um molusco: o cambiá. É um molusco muito apreciado na cultura caiçara, mas tem gerações mais novas que não sei dizer se conhecem esse ingrediente da nossa culinária. Mamãe nos preparava fartas porções de cambiás na quentura branda da lenha. Geralmente eles aparecem na praia em maré vazante ou após uma forte ressaca, quando não resistem às correntezas insistindo em rolá-los até o lagamar. O amigo Rogério Estevenel, caiçara da praia das Toninhas, escreveu que lá aparecia muito mesmo. Que bom! Os cambiás, para o meu povo, fazem parte das tantas dádivas do mar.

                Cambiá também é o canto direito da praia da Fortaleza, chão do meu lado materno, onde passei parte da minha infância. Lá, na Costeira do Cambiá, ficava o Buraco da Cobra. (Precisa recordar? Busca no índice do coisasdecaicara.blogspot.com O buraco da cobra, publicado em 08/03/2011). Também no Canto do Cambiá morava o Tio Onofre. Então, Canto do Tio Onofre era o jundu e Canto do Cambiá era o extremo da praia, na costeira. Foi na sua sala, segundo a sua filha Maria Mesquita, nossa querida titia, que funcionou a primeiro espaço de aula daquele lugar. “Papai cedeu parte da nossa pobre casa para as crianças aprenderem. A professora vinha da cidade e ficava morando com a gente, lá em casa mesmo. Era na nossa sala que ela ensinava”. Mais tarde a propriedade foi vendida para um turista, mudando o modo de chamar para Canto do Pierre. Eu me lembro bem de uns gansos bravos dele que sempre cismavam em correr atrás de nós na praia. Ai que raiva!

Acabou a escola, não teve mais aula? Não! A tia Martinha em seguida cedeu a sua casa no pé do morro, próximo da casa do vovô Armiro para a criançada continuar aprendendo. Foi ali a minha primeira experiência escolar. Bem cedo eu e minha irmã descíamos da nossa casa no morro molhando as canelas no orvalho do capim para aprender a escrever, ler e fazer contas, começo desta epopeia que eu seguirei até a morte, quando a gente deixa de aprender. Só em meados da década de 1970 a prefeitura construiu um prédio, para ser, de fato, a escola do bairro, no local onde ficava o Bananal do Sul, ponto do começo da subida do caminho em direção à a praia Grande do Bonete, nas posses da vovó Eugênia, herança do finado João Bento. Até hoje funciona lá a escola e o posto de saúde.





quarta-feira, 2 de setembro de 2020

MULHERES NA VALA

O mundo: nosso único ambiente (Arquivo JRS)




                Muita gente pode ficar pasma ao ter ouvido a jornalista Heloisa Villela, moradora nos Estados Unidos dizer que “é horrível agora a imagem do Brasil aqui e por todo o mundo”. Eu confio nela e na maioria das mulheres. A verdade precisa ser dita. Quem seria eu sem uma mãe, uma irmã, uma esposa e uma filha? O que seria de mim sem a influência de tantas companheiras na minha vida?

                Há quatro anos uma mulher foi destituída do governo deste país chamado Brasil. Era Pindorama dos indígenas. Os primeiros navegadores lusitanos, afobados que só, a chamaram logo de Ilha de Vera Cruz, cujo ponto mais alto recebeu o título de Monte Pascoal por estarem na Semana Santa daquele distante abril de 1500. Depois viram que era terra firme e imensa. Tomaram -na dos índios. É urgente perceber de onde enxergamos as coisas. A acusação principal contra essa mulher teve o apelido de pedalada fiscal. Era "um crime tão perverso" que, uma semana após lhe roubarem o cargo, deixou de ser crime pelos mesmos congressistas (absoluta maioria homens) que a julgaram e aplicaram a devida punição. Pelas palavras de um deles (Romero Jucá), tinha de ser assim, senão aconteceria uma sangria em que a maioria deles seria tocada pelo dedo da Justiça permitida por aquela mulher. No fundo há outra verdade além do medo de serem desmascarados em suas condutas: deveria prevalecer o machismo. “Onde já se viu uma mulher comandar o nosso país?!”. Quem nunca ouviu frase semelhante?

                É o sentimento machista que desencadeia outras coisas ruins, tão criminosas quanto as práticas de tantos que ocupam cargos políticos, principalmente daqueles a se revelarem em discursos idiotas há quatro anos, achando que brilhavam diante das câmeras. Parabéns aos poucos que entraram com honra na História!

                Alguns anos antes desse fato nacional, por ocasião das eleições municipais, ao passar perto do aeroporto da minha cidade (Ubatuba), avistei um lixo incomum por ali: na vala, além de garrafas plásticas e embalagens, estavam panfletos (“santinhos”) de candidatos aos cargos municipais. Mas um monte desigual chamou a minha atenção por ser de candidatas, de mulheres que participariam do próximo pleito. Deduzi que alguém havia recolhido apenas as propagandas femininas e lançado-as ali, diminuindo as possibilidades de serem vistas, de despertarem atenções e até de serem eleitas.

                Estudos revelam que elas (mulheres) têm tudo para que haja uma virada radical na vida em sociedade. Jogá-las na vala parece ser muito significativo. Desconfio que o maior dos desafios, inclusive a elas, é superar o machismo. Penso nisto agora porque sei de tantas que vibraram com o golpe contra a valente mulher que chegou ao posto de governante desta Nação. Faço questão de escrever porque percebo, além de tanta gente humilde, muitos estudados (até professoras!), deixando que princípios machistas tomem as rédeas em momentos tão críticos, reforçando que a economia (leia-se lucro de poucos) se sobreponha à vida. Não percebem elas que o sentimento machista quer ser superior, pisá-las, não reconhecer que vivemos num único ambiente. Seguindo assim, acabam revigorando hierarquias estúpidas e suas derivações de maldades. Defendo que só vivendo de verdade no mesmo ambiente é fácil nos tornarmos amigos, nos entendermos e rumarmos a algo melhor. Caso contrário, a vala continuará como alternativa para gente capaz de se deliciar em reduzir a força feminina, tê-la sob controle. Por enquanto apenas tristeza pela submissão dessa impressionante energia. Ainda bem que, bem ao meu lado, tenho uma guerreira! Ela e muitas outras farão um outro Brasil!

                Pessoal, que a vala nos sirva de lição! O país não merecia passar pela vergonha atual.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

ESTÁ TUDO DENTRO DA LEI

              
Boca-da-barra do rio Hubatyba  (Arquivo JRS)

                Isso de fragilizar ainda mais os povos indígenas, fartamente sabido por todos no Brasil atual, é cruel. O título deste seria mais justo se fosse Atualização do Genocídio Tupinambá, pois prevalece a lei de levar vantagem, de remover qualquer obstáculo ao lucro de alguns, mesmo que isso inclua o desaparecimento de povos inteiros, de culturas que vem dos primórdios, onde nem mesmo foram devidamente estudadas ou que seguem ainda sem contato com os descendentes dos invasores de cinco séculos atrás. O documento de hoje, apesar de ser antigo, vai nos mostrar que é atualíssimo, confere com a prática que aí está. Ou seja, conforme seguem exterminando as Nações Indígenas, os invasores legalizam as terras como suas, afirmando: “Agora eu posso fazer o que quiser, não tem ninguém para atrapalhar”. E assim, "está dentro da lei", sobretudo quando o domínio é fascista transvestido de moralismo cristão.

                Em Ubatuba, os indivíduos do povo Tupinambá eram os moradores originais, tudo era parte de seu território onde caçavam, coletavam e tinham suas habitações. O seu desaparecimento, após a Guerra de Yperoig, era inevitável mediante a cobiça crescente pelas terras e riquezas deste território. Benedito Prezia, um pesquisador e palestrante de outro tempo, constatou que no século XVIII, no Vale do Paraíba, se fez o último registro de remanescentes dessa Nação Indígena, do grupo dos Tamoios, uma das nossas raízes caiçaras. Após os resultados com os tupinambás, o massacre pelo mar e terras tamoias, logo apareceu a burguesia portuguesa faminta pelos espólios. O Seo Filhinho, em Ubatuba Documentário nos informou:

                Sabe-se que nos primeiros anos do século XVII aqui já haviam inúmeros portugueses radicados, entre eles Inocêncio de Unhate, Miguel Gonçalves, o capitão Gonçalo Correa de Sá e seu irmão Martim de Sá, os filhos deste, Salvador Correa de Sá e Artur de Sá, além de Belchior Couqueiro e muito outros. [...] De Inocêncio de Unhate e Miguel Gonçalves, encontra-se registrado no Terceiro Livro de Registro de Sesmarias, existente no Arquivo da Tesouraria da antiga Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional em São Paulo, a petição e despacho do teor seguinte:

Inocêncio de Unhate e Miguel Gonçalves, que eles são moradores da Vila de Santos e haviam ajudado a defender a terra dos rebeldes franceses, holandeses e ingleses que a ela vieram e em todas estas guerras e rebates sem acudirem com suas pessoas, fazendas e armas e escravos, e nunca foram premiados por Sua Majestade, nem pelo Sr. Lopo de Sousa, os seus serviços e por não terem terras e por todas as terras do Brasil desde o Rio Juquiriquerê até a Ilha Grande estão devolutas, pediam-se-lhes desse três léguas, tanto de comprido como de largo na terra firme, na costa do mar, indo para o Rio de Janeiro e começarão a partir de um rio que se chama Marajahimirindiba [Maranduba] e irá correndo para a costa e correndo direto pelo rumo daquele até chegar a outro rio que se chama Hubatyba [Rio Grande ou da Barra, em Ubatuba] que está da dita costa para a banda do Rio de Janeiro, defronte da Ilha dos Porcos [Ilha Anchieta] sendo de três léguas de terra em quadra, com todas as suas entradas e saídas. – Despacho – Dou aos suplicantes as terras que pedem. Santos, 9 de Dezembro de 1610 (a) Gaspar Couqueiro – Capitão Mor da Vila de Santos.



segunda-feira, 31 de agosto de 2020

ESGOTO COMO OFERTA?



            Para quem não sabe, a capela da Santa Rita se localiza na praia da Enseada, mas foi trazida há mais de setenta anos da praia da Santa Rita, em Ubatuba. Por interesses imobiliários, algumas poucas pessoas sem escrúpulos se aproveitaram da ingenuidade dos poucos moradores, negociaram com o pároco e transferiram a Santa Rita para uma nova capela, deixando o campo livre para toda a praia ser imediatamente vendida. “A nossa santa foi desterrada. Os poucos moradores dali seguiram para as praias vizinhas. Tudo aquilo virou deserto, o mato tomou conta das roças, as casas se acabaram no abandono. Foi um acordo do padre com o Maciel, o Bráulio Santos e mais alguém que eu não sei do nome”, assim me contou a Dona Santa, uma pescadora que se casou com o Argemiro, gente que findou seus dias no Perequê-mirim. “A capela era movimentada, tinha reza sempre. Muita gente comparecia na festa da Santa. Agora, ali é de gente rica, de ricaços da capital”. Recentemente, lendo uma denúncia do Peter (canoadepau.blogspot.com), tudo vai confirmando o que alertamos faz tempo: o mar vai virando esgoto. Vou postar a notícia (do dia 06 de agosto de 2020):

Oferta à santa (Arquivo Peter)

VARRENDO ESGOTO PRA DEBAIXO DO BUEIRO
Agosto de 2020, Praia da Enseada, Rua Santa Rita, Ubatuba - SP
INACREDITÁVEL!!
Nos últimos dias vários caminhões do tipo limpa fossa estão descarregando esgoto diretamente no bueiro da esquina da Rua Luzia Maciel Leite com a Rua Santa Rita (foto). Tudo isso está indo diretamente para o mar que está a 50 metros de distância. Existe um emissário irregular nesta rua que já não dá mais conta do volume normal, imagine de vários caminhões.

            Já escrevi em outra ocasião que, no começo da década de 1980, a pedido do Jorge e Dona Maria, zeladores da capela linda da fotografia, eu e papai fizemos o forro todo. É o que existe até hoje, sob cuidados de Nelson de Góis, segundo o amigo Elder Giraud. Foi a nossa oferta naquela ocasião, bem diferente do que agora está sendo ofertada à Santa e ao lugar de tanta gente nossa. Vale a pena conferir a beleza do lugar, o aconchego do recanto reservado à Santa Rita desterrada. O que não vale é o descaso de tanta gente com a linda praia da Enseada e à natureza em geral. Parabéns Peter por estar atento!


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A DONA CAÇUROBA

Caçuroba na Cocanha (Arquivo JRS)


                Conversa de caçador é fácil de entender. Caçar é um instinto presente em nós, seres humanos. A minha Gal explica: “Está gravado em nós, faz parte do nosso inconsciente o nosso ser caçador. Por muito tempo tivemos necessidade de caçar para chegar ao que somos hoje. Por isso desenvolvemos e registramos em nosso ser esse aspecto, essas características. Exemplo: um grande grupo na cidade, uma multidão está passando na minha frente, cada qual dali com seu jeito único. Porém, no meio de tanta gente eu noto quem está mancando ou tem uma deficiência. Por quê? Porque eu tenho este registro de caçador, vejo onde está a presa mais fragilizada, possível de ser capturada por não poder correr como as demais. De onde vez esse sentido agudo? Do tempo distante, quando andávamos correndo atrás de alimentos. Não é assim que os animais caçam até hoje, buscando os filhotes, os animais mais velhos do bando, os distraídos?”.

                O povo caiçara também dependia da caça para completar a sua alimentação. Lembro-me bem dos caçadores mais próximos de mim: tio Tonico, Chico Lopes, João do Quito, Oscar e Alcides Nunes, Juventino, Dito Neves e outros que, após um dia de serviço, ainda tinham disposição para espiar bichos no mato até madrugada, esperando trazer um deles abatido, para variar a mistura. O finado Dito Graça, mais caçador do que roceiro e pescador, se justificava: “Eu caço porque fico desesperado, com vontade de comer carne vermelha; me dá mais sustância”.  Nos dias de hoje ainda tem gente elaborando estratégias para caçar pelas nossas matas, apesar das leis ambientais e das punições. Eu quero crer que os agentes pagos por nós estejam sempre atentos!

                Comecei este texto depois de escutar uma prosa, em frente a um portão, bem no centro da cidade. Um senhor, caiçara conhecido,  dizia para o outro: “A praia tá cheia de caçurobas [pomba rola]. Nesta hora (por volta das 17 horas), se você quiser, pode ir lá comprovar. Estão comendo alguma coisa pela areia, ciscando no chão. Sabe aonde vão dormir? Naquelas árvores, no Morro da Prainha! Pode ir lá de tardezinha para ver elas chegando, se empoleirando para passarem a noite ali. Se eu fosse mais moço, iria lá para caçar algumas e variar o de comer”. Foi então que eu ri sozinho por ter escutado a palavra caçuroba. É que na minha infância, uma senhora da vizinhança tinha esse apelido: era a Dona Maria Caçuroba. E não é que a mulher se parecia mesmo, tinha os trejeitos que lembrava a tal ave? A estatura, o jeito de andar dela lembrava caçuroba, esta espécie de pomba do mato tão singela. A Dona Maria xingava muito quando alguém a chamava assim. Ainda bem que, graças ao meu pai e à minha mãe, nós fomos educados para respeitar as pessoas. Dias desses, ao entardecer, irei à praia do Cruzeiro (Yperoig) para comprovar a informação. Será que as caçurobas estão virando pombas da cidade também?

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

OS DELICADOS FIOS DA VIDA

Gaivotas e urubus (Arquivo JRS)

As coisas são assim. O mundo é assim. A natureza é a prova mais evidente que tudo está numa interdependência, como um tecido: se puxar um fio, toda a trama está afetada. Entendemos melhor ao ler a poesia do mano Mingo.


É juntando os fios,
Cada qual com sua função,
Cada fio com sua cor,
Juntos por associação,
Que se constrói uma tapeçaria.
Se houver algum fio rompido,
a obra fica incompleta
e o tecido fica enfraquecido.
Assim é com a vida,
Cujos tecidos são os ecossistemas,
Cujos fios são os seres vivos,
Que convivem em equilíbrio,
Eu vivo, você vive e viva nós,
como acontece nos manguezais
Que só existe na foz
Onde o rio se encontra com o mar,
Onde muitos peixes e outros bichos
Vêm se reproduzir e se alimentar.
Ali a vida tem um equilíbrio tão delicado
Que se um louco cometer o pecado
De poluir, aterrar ou fazer o corte
Das águas, das margens, das plantas,
É uma sentença de morte
Para santos e pecadores,
Para peixes e pescadores.
Mas, por causa do ouro,
Os gananciosos não veem o tesouro
Que é a vida em abundância,
E destroem e matam
Por causa da ganância,
Como aconteceu de sul
Até ao centro de Ubatuba.
Por enquanto só escaparam da morte
os manguezais do norte.
Para eles destruir a Terra passou a ser um jogo,
Mas é um jogo terrível,
Do qual saímos todos perdedores,
Peixes e quelônios,
Caiçaras e loteadores,
Algas e corais...
Quem remendará a tapeçaria?
Quem salvará as plantas e os animais?
Quem deterá a extinção?
Eu, você... quem mais?

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

PRÊMIO PELA LUCRATIVIDADE

Paraty artesanato (Arquivo JRS)



                “Abram seus comércios, não se importem com os mortos. O que vale é não deixar a economia parar”. Era frase dos ricos, dos comerciantes, no começo da pandemia. Agora até pobre está repetindo isto. O miserável que fundeia saco de ostras na costeira para o dia seguinte também anda a dizer coisas do gênero.

                É tempo de pandemia, mas pouco importa a vida dos trabalhadores. “Temos um enorme exército de reserva de trabalhadores!”. Os mais endinheirados já sabem que estão fora de perigo, têm vagas intocáveis em bons hospitais, podem se resguardar da massa. E desejam continuar assim, longe do povo! As notícias desses estabelecimentos é que há leitos à vontade. Por isso dizem que “até as escolas podem voltar à normalidade”.

                Há gestores, desconfio eu, que defendem os interesses mesquinhos da elite e de governantes que assinam sem nenhum pudor essa política de morte, porque almejam migalhas a mais em seus proventos. Será que serão recompensados por isso (de apoiarem a necropolítica, de pressionarem colegas que estão no mesmo mar, em embarcações soltando tábuas ainda em água rasa, enquanto os navios da classe dominante nem sentem as grandes ondas, os vagalhões oceânicos)? A verdade é uma: estamos longe de garantias para enfrentar o vírus do momento. Foram as omissões do governante-mor que resultaram nesse número absurdo de mortes. Alguém duvida? Ciência negada em prol do lucro de alguns grupos, de uma minoria privilegiada. Pouco importa as vidas dessa gente, desses pobres. “Danem-se essas famílias esfrangalhadas”, afirmam. “Nós precisamos ganhar dinheiro e curtir a vida!”.

                Tudo o que estamos passando agora, faz-me lembrar de séculos atrás, quando o tráfico de escravos garantia os lucros de uma elite, lançava as bases das nações modernas e do nosso país:

                “A Companhia das Índias, que tinha o monopólio do tráfico na França no começo do século XVIII, oferecia um bônus aos capitães de navios que conseguissem reduzir as taxas de mortalidade. O prêmio era oferecido em escala: seis libras por escravo caso o índice de mortos fosse inferior a 5% sobre o total de embarcados; três se ficasse abaixo de 10%; duas se chegasse até 15%; e uma libra para perdas de no máximo 20%. Isso significa que, mesmo nas viagens em que morresse um quinto da carga, ainda assim o negócio seria lucrativo a ponto de o capitão receber um prêmio pelo sucesso da travessia”. É o que nos conta o historiador Laurentino Gomes.

                Termino com frase atribuído a Che Guevara: “Triste não é amar sem ser amado. Triste é defender o capitalismo sendo do proletariado”.

sábado, 15 de agosto de 2020

A ESPERANÇA ESTÁ NA AURORA

Aurora em cerração (Arquivo JRS)

                De vez em quando eu fico pensando na maravilha que é a nossa fala, o quanto é determinante as palavras no nosso ser, aos seres humanos. Imagino, ao longo do tempo de nossa vida na Terra, os grunhidos virando palavras, constituindo linguagens e línguas, dando significado ao estar  juntos, formar famílias, guerrear, sair pelo mundo, estudar, trabalhar etc. Não é pelas palavras que justificamos os nossos comportamentos a cada dia? Tomemos o exemplo da justiça. Não tem como discordar que, para o sucesso da vida em sociedade, é necessário que a justiça prevaleça. E, já entro em sucesso, que lembra coisa boa, algo que deu certo, causando a felicidade. Assim, a vida em sociedade, para ser um sucesso, precisa ser constantemente aperfeiçoada. Neste processo, a justiça é o farol.

                O que é um farol? É uma luz a iluminar uma rota, um caminho. Quem nunca fez a experiência de precisar de uma luz, uma lanterna para poder caminhar na escuridão, entre obstáculos? Um farol é a principal referência ao navegante errante nos vagalhões do mar da vida. Um dia, o saudoso Hilário me contou a aventura em romper o mar na cerração: “Eu e minha amada combinamos de, na madrugada, deixar a casa dela, a praia onde nasceu e se criou. Escolhemos um lugar longe dali, onde faríamos a nossa família. Fizemos isso porque o pai dela não permitiria nunca o nosso casamento. Rolamos a canoa para baixo e embarcamos tendo apenas as roupas do corpo. Só que fomos surpreendidos por uma cerração, onde nada se enxergava. Gastamos o dobro do tempo para alcançar nosso destino porque não se via nada. As sombras que passavam nos enganavam, os sons distantes também não eram verdadeiros. Sorte nossa que eu tenho um nariz muito bom, capaz de sentir cheiros bem de longe. Assim soube que estava chegando na Ponta da Fortaleza, pois ali perto, no Saquinho, havia um chiqueiro de porco da Velha Maria, mãe da Carmelina e do Zacarias. Foi a nossa livrança. Aurora veio, foi acolhida pela minha gente. Dali em diante nenhuma cerração poderia nos atrapalhar. No fim tudo deu certo.  Aí estão nossos filhos e netos para comprovar o nosso sucesso. Era para ser assim”.


            Pode-se pensar tudo? Lógico que pode! Pode-se falar tudo? Não, lógico que não! Por exemplo, não podemos permitir a livre expressão de ideias discriminatórias, de injúrias, de perseguições, de negação de direitos essenciais etc.  Se queremos uma sociedade feliz para todos, palavras que contrariam ou deturpam a justiça não podem se multiplicar livremente. Palavras que espalham ódio menos ainda! Jamais poderia ocupar um poder de fala, um cargo público, um sacerdócio, quem dá destaque a tais discursos de ódio que resultam em infelicidade geral, em ruína na sociedade.



                Agora são tempos difíceis! Remamos numa cerração de palavras que merecem banimento, sobretudo aquelas dirigidas contra as minorias, aos mais pobres e fragilizados da nossa sociedade. Aurora aguardada. Remamos ao compasso da pergunta: Onde está o farol da justiça?