sábado, 1 de agosto de 2026

PINTO CARÇUDO

 

Amor aos livros - Arte Pita Paiva


      Eu sempre achei engraçado a expressão que está como título acima. Era comum escutar  ela vez  ou outra quando passava alguém usando bermuda pelos joelhos. Paulinho do Gusto, Marquinho do Teco, Tutuca do Dico e outros se apresentavam costumeiramente como “pintos carçudos”.

     O que era pinto carçudo (calçudo)? Vovó Eugênia explicou quando eu estava iniciando a vida escolar: “Tais vendo aquele franguinho com penas até lá embaixo, quase cobrindo os pés? Ele é pinto carçudo”. Quer melhor explicação? Bem mais tarde eu aprendi que, na língua geral (falada por muito tempo no território brasileiro), pinto calçudo é igual emboaba. Logo, galinha com plumas escondendo os pés era emboaba. Creio que outra ave qualquer com tal característica também seria emboaba. Daí me recordei de uma aula de história do Brasil: no tempo da corrida do ouro, por volta de 1700, quando um mundaréu de gente, sobretudo de Portugal, acorreu à região mineradora (Ouro Preto, Congonhas, Sabará, Mariana...). Essa migração intensa, essa disputa pelo ouro resultou numa desavença com os paulistas (que se achavam com mais direitos que os demais). Estes, para fomentar mais intrigas, apelidaram os portugueses de emboabas. A razão? Porque, ao contrário dos paulistas, os lusitanos andavam calçados, com os pés cobertos. Os paulistas, cujos representantes eram os terríveis bandeirantes, estavam no lado oposto. O historiador Joaquim Felício dos Santos assim descreveu o simulacro civilizatório dos paulistas, “gente de serra-acima”:

     “Cegos pela ambição, arrostavam os maiores perigos; não temiam o tempo, as estações, a chuva, a seca, o frio, o calor, os animais ferozes, répteis que davam a morte quase instantânea. Eram homens meio bárbaros”.

     Para encurtar a história: essa contenda semeada de mortes durou dois anos e meio; passou a ser parte do currículo, dos livros didáticos, como Guerra dos Emboabas. Fato mais marcante nisso tudo foi o extermínio de muitos paulistas às margens do Rio das Mortes (São João del Rei), no Capão da Traição. Tudo isso em Minas Gerais.  Como eu, da beira do mar de Ubatuba, saberia disso tudo? Ah, esses livros nos salvam! 

   Por hoje é só. Viva os pintos carçudos que ainda estão por aí!