sexta-feira, 21 de agosto de 2026

EU QUERO VER

 

Hospital regional  (HRSJC) - Arquivo JRS 

     Hoje eu acordei pensando no Zé Vicente, compositor que avistei no Ceará nos idos de 1980. Me inspirou bem cedo as músicas dele, sobretudo uma que se inicia assim:


Eu quero ver, eu quero ver acontecer

Um sonho bom, sonhos de muitos, acontecer.


    Eu, estando em viagem, me recordava daquele tempo vivido em Crateús, sertão cearense, onde pessoas simples buscavam viver bem juntas, em comunhão naqueles duros tempos. De repente se acomodou no assento da frente o "Taubaté", velho conhecido, um pólo oposto ao Zé Vicente. Não demorou nada para ele entrar no tema política: "Agora a Santa Casa tá outra coisa, até exame de mamografia faz. Tudo graças ao Valdemar da Costa Neto com suas medidas parlamentares".  Aí eu rebati:  - Você sabe que isso tem nome de corrupção? Portanto, o que estou escutando de você é elogio de algo errado. Como ele faz emendas se nem parlamentar é? Ele deu uma murchada. Então eu quis saber da razão dele ainda estar trabalhando. Eis a resposta: "Eu tava aposentado há anos, não aguentava mais ficar à toa. Aí fulano me indicou o sicrano que me arranjou esse cargo lá". Ah! Eu não deixei barato: - Quer dizer que você tem duas fontes de renda: tá aposentado e ocupando o lugar de alguém, que poderia ser de outro que segue desempregado?

    Por fim, tentando sair por cima na nossa prosa, esse conhecido reacionário tentou este arremate: "O que estraga o Brasil é esse assistencialismo". De saco cheio eu chutei o pau da barraca: - Recomendo a você e a outros bozolóides a refletirem sobre justiça social. Eu, você e a maioria deste país nos alfabetizamos numa escola pública, dependemos do sistema único de saúde e de tantas outras medidas que estão aí graças a uma política de Estado que alguns miseráveis chamam de assistencialismo. Você é uma prova viva do que estou falando: recebe - honestamente ou não - seus dois salários. A aposentadoria é uma medida do século passado para amenizar os efeitos das desigualdades sociais. Assim também é o Minha casa, minha vida, o Bolsa Família etc. Você reparou que passou quase agora uma viatura do SAMU? E esses ônibus escolares se tecendo o dia todo? Quer dizer que você quer o fim disso tudo? Pretende eleger quem pensa em exterminar os empobrecidos, os que mais sofrem na nossa sociedade ? (Deste ponto em diante eu não precisei escutar nenhuma sandice maior. Ainda bem).


  Um sonho bom há de acontecer, meu caro Zé Vicente!

Um comentário:

  1. Esse discurso de que “o que estraga o Brasil é esse assistencialismo” é, na verdade, indignação seletiva: de quem não se conforma que o pobre receba o Bolsa Família ou que o filho da empregada possa cursar uma universidade. É o mesmo que não se indigna com os incentivos fiscais que empresários e o agronegócio recebem; é também aquele que se beneficia do Minha Casa, Minha Vida, da Farmácia Popular e do SUS. É o mesmo que coloca o filho na escola pública e, sem contar para ninguém, é aquele que pediu o auxílio emergencial durante a pandemia, mesmo sem precisar.
    Mas o problema é o assistencialismo.
    Como disse Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”

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