quinta-feira, 30 de julho de 2026

A PEDRA DA CRUZ

 

Toninho, eu e Ditinho - Arquivo Estevan

A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS 


 

     Era dia de domingo. Bem cedo trepei no pé de carambola para recolher alguns frutos e fazer doce. Você já comeu? É bom demais, minha gente! Naquele momento me veio à memória a ocasião em que conheci essa fruta tão singular: foi no terreiro do tio Dário, no morro da praia da Fortaleza. Eu, criança de tudo, batia pernas por todo lado, mas gostava de me deter na casa desse parente para escutar toda a família tocando e cantando. Bons momentos que merecem ficar na lembrança, serem recordados. Veio a tarde. Conforme eu tinha planejado, me preparei para visitar os primos Toninho e Ditinho, filhos do saudoso casal Dário Barreto e Maria Estefânia. Estevan, meu filho, topou de ir junto. Assim, pedalando com tranquilidade, fomos até o centro da cidade. Eles moram há muito tempo próximo do sítio Aratoca, mas são da praia da Fortaleza. Na minha infância, éramos vizinhos no morro.

    Ditinho e Toninho demonstraram muita alegria com a nossa visita. A prosa passou por muitos assuntos: álbum de fotografias, novidades de familiares, saúde, lembranças nossas de tantas coisas que jamais eu seria capaz de imaginar sozinho. Tudo às pressas, na entonação do “dialeto” caiçara!

     Ao relembrarmos as festas, um de nós citou a tia Martinha. Doce de mamão distribuído para todo mundo era um capricho dela. Tio Cláudio, irmão do nhonhô Armiro, foi marido dela. Também lembramos de como ela, depois de viúva, se virava sozinha na lida da roça. A imagem dela descendo da roça com vários cachos de bananas me marcou demais. Ditinho completou dizendo: “Vez ou outra o Mané Bento ajudava ela”.

     Eu percebi que o Toninho estava muito empolgado com nossas recordações. Foi ele quem perguntou: “Vocês se lembram da Pedra da Cruz?”. Eu não sabia do que se tratava, mas o Ditinho explicou de imediato: “A Pedra da Cruz era quase chegando na Ponta, onde um filho da tia Martinha morreu. Ele foi pescar e sofreu um ataque epilético. Caiu na água e morreu. Foi preciso passar a rede para resgatar o defunto e sepultar. Sobre a pedra firmaram uma cruz. Depois, com o tempo, ela se acabou”. Eu quis saber o nome desse parente que se foi no mar, mas os primos não conseguiram se lembrar. Quem poderá colaborar nisto?

terça-feira, 28 de julho de 2026

ARTESANATO E IDENTIDADE

 

Um vaso diferente - Arquivo JRS

  O artesanato constitui um dos traços culturais do povo do nosso lugar, que se estabeleceu há séculos entre a serra e o mar. Sem ele, como seria a sobrevivência nesse ecossistema tão específico? Desde os remotos tempos, o povo caiçara produziu balaios para transportar raízes, peixes, frutas... Outras cestarias (tipiti, peneira, samburá, covo etc.) permitiam a realizações de serviços diversos (farinhada, secagem de pescados, captura de peixes...). Armadilhas (foge, esparrela, mundéu, arapuca...) garantiam alimentos na mata no tempo propício. Esteira, rede e tarimba permitiam repouso. Muitos outros objetos e técnicas estão englobadas no artesanato. 

    A canoa - a marca primeira dos Tupinambá e esteio principal dos primeiros habitantes do litoral -  é símbolo importante até nos dias atuais, sobretudo no município de Ubatuba, porque continua servindo às atividades pesqueiras e atraindo olhares de visitantes, de turistas. Este meio de locomoção é, sem dúvida alguma, o objeto de atenção na calma costumeira de quem sai ou chega da pesca ou nas remadas vigorosas dos esportistas. Quem nunca vibrou com as disputas nas “corridas de canoas” tão orgulhosamente apresentada ao público?

     Será que quem admira a canoa imagina a arte que está ali embutida? Felizmente ainda há gente nossa especialista na técnica de escolher a madeira no mato, cortar e escavar nas justas medidas. (Recomendo a leitura do trabalho científico do ubatubense Gilberto Chieus Júnior, sob o título Matemática caiçara – Etnomatemática contribuindo na formação docente). Recentemente a canoa caiçara também inspirou Tronco de Canoa, um prazeroso livro do Adilson Zambaldi). Tudo graças ao artesanato! Ainda é possível constatar nativos selecionando taquaras, cipós, taboas e madeiras macias para prosseguirem em suas artes. É a minha gente que aposta na perpetuação dos saberes herdados de quem precisou sobreviver nesse meio bem específico do litoral, nesse pedaço de chão nomeado na nossa raiz  indígena por Ubatuba, terra de muitas ubás. É gente mostrando inigualáveis obras na madeira, criando lindas peças em  mosaico e argila, desenvolvendo a costura criativa etc. De repente, aquilo que estava descartado vira uma maravilhosa surpresa, encanta muita gente.

   Por fim, artesanato é marca cultural e herança que resultou no ser caiçara resistente da atualidade. Cada cidadão, jovem ou idoso detentor desses saberes artesanais, é a garantia de que a geração presente e futura continuará cultivando essa identidade.


HOMENS BONS

 

Matriz Ubatuba - Arquivo Camila Prado

       Você já pensou hoje nas pessoas que sustentam o seu conforto? Ou em quem você está sustentando com seu trabalho?


      Existiu um rei português, Pedro II de Portugal, que muito ansiava para que o Brasil lhe fornecesse ouro e outros metais preciosos. Por isso escreveu, de próprio punho, aos "homens bons" de São Paulo - ou seja, a classe dominante de uma região brasileira - para que se empenhasse nas buscas por riquezas.

      Nos dias atuais, determinadas autoridades externas seguem o mesmo princípio do tal Pedro II de Portugal (1648-1706). Fazem de tudo, até interferem nas eleições, para um abocanhamento ao máximo das riquezas do chão brasileiro. A classe trabalhadora é descartável a essa gente depois de ser usada.

       Os indígenas, os miseráveis degradados e os negros trazidos para serem escravos eram o sustento dos "homens bons" naquele tempo. Pior: promoviam entradas no território para vasculhar, caçar e exterminar quem já habitava o território "descoberto". Tudo em nome - e por ordem! - de um governante externo, distante. E hoje? Os "homens bons" são da classe dominante! Estão a serviço de quem? Dos interesses de nações que querem continuar vivendo das riquezas desta terra, do trabalho deste meu povo! Para obterem sucesso, as nações expoliadoras contam com aliados internos, os tais "homens bons" do tempo presente. Não importa para eles que a nação brasileira se torne um território de gente morrendo à míngua. Um trecho de música, na minha juventude, denunciava: "Do lado de lá só quem sobe, do lado de cá só quem desce. Do lado de lá quem festeja, do lado de cá quem padece".

     Basta, né? De homens bons os "homens bons" não têm nada! Portanto, descartemos eles nas escolhas dos nossos representantes políticos.


Em tempo: recomendo a leitura do livro Boa Ventura!, de Lucas Figueiredo.

domingo, 26 de julho de 2026

SERTÕES

 

Frei Vicente - Arquivo internet 

     De vez em quando eu, de geração da segunda metade do século XX, nascido no jundu do Sapê, me quedo no pensamento de que, naquele tempo, era clara a distinção entre quem morava nas praias e de quem estava nos "sertões distantes" (até no máximo seis quilômetros do lagamar). Eu me admirava de como os destas localidades se acostumaram viver tão "longe" de praia, dos recursos que o mar e as costeiras ofereciam. Será que o princípio dessas ocupações (Sertão da Quina, do Corcovado, do Perequê-mirim, do Puruba...) está no ciclo canavieiro? Não! Haja vista que os engenhos, conforme atestam as ruínas que resistem, estavam na beirada do mar. Talvez suas origens estejam na busca dos metais preciosos, quando homens mestiços e brancos, portugueses, se enfiaram mato a dentro. Pode sim!

      Na obra Boa Ventura!, Lucas Figueiredo abordando a corrida do ouro em nosso país registrou:

      De fato, a experiência mais ousada da colonização portuguesa no interior ainda era a vila de São Paulo (fundada em 1554). Por aí se tem dimensão da dificuldade do sertão: São Paulo está a míseros 70 quilômetros do litoral, mas a viagem até lá demorava três dias (...) Por enquanto, ainda que tivessem uma ou outra pepita de ouro e sonhos imensos, os cerca de 25 mil brancos que viviam no Brasil estavam condenados, como dizia frei Vicente do Salvador (1564-1635?) a viver "ao longo do mar, como caranguejos".

     Me resta concluir no provisório: na dificuldade de ir mais além na busca de riqueza minerais e não querendo se distanciar de uma sobrevivência garantida pelo mar, foram-se firmando os grupamentos aos pés da Serra do Mar, solidificaram-se nossos sertões caiçaras por volta do anos 1700. Tempos depois, os mais cobiçosos, mediante algumas notícias de exploradores, transpuseram barreiras maiores, ganharam vales e se estabeleceram nos verdadeiramente distantes sertões, viraram caipiras e deram sua contribuição na  demarcação do atual território nacional. Tudo pela ânsia de riqueza!


Em tempo: 
Frei Vicente do Salvador foi um historiador baiano que deixou a nós dois importantes documentos: Crônica da Custódia do Brasil e História do Brasil.

sábado, 25 de julho de 2026

AS FONTES

 

Derek Walcott - Arquivo internet 

      Eu,  prosseguindo  na leitura de O Mundo da Escrita, sou transportado para a ilha de Santa Lucia, estou na referência à peça teatral O Mar em Dauphin. Tive de pesquisar. Trata-se de uma produção escrita por Derek Walcott, encenada pela primeira vez em 1954 e retrata a vida difícil de pescadores pobres na ilha, tendo o mar como uma força implacável e o motor da história.  Quem é Derek Walcott (1930- 2017)? É um escritor dessa pequena ilha, um pais caribenho, ganhador do Prêmio Nobel de literatura em 1992.

      O Mar em Dauphin aborda uma luta por sobrevivência, tal como todos os povos litorâneos sempre fizeram no enfrentamento ao mar, insistindo nas pescarias como alívio à pobreza e tragédias. A palavra que se aplica mais adequadamente, creio eu, é resiliência.

      A introdução acima foi para dizer que o autor do livro, Martin Puchner, foi até Santa Lucia para conhecer Derek Walcott, querendo a todo custo alcançar a localidade inspiradora (Dauphin), ver se ainda existia o protagonista da peça teatral. A seguir, as palavras dele:

     Depois de outra curva na estrada, cheguei a Dauphin. E não pude acreditar em meus olhos: lá estava ele, a figura solitária que eu imaginara em meu devaneio, de pé na praia, pescando. Eufórico eu caminhei em sua direção. Quando me aproximei, notei que ele vestia a camiseta da seleção brasileira de futebol. Não era exatamente a roupa desgastada, costurada à mão, com que eu revestira meu solitário pescador imaginário. Chamei em voz alta, para não assustá-lo, e ele se virou com a vara de pesca na mão. Pareceu apenas levemente surpreso ao me ver; devia ter  me avistado enquanto eu me aproximava.

      

   Só que aquele sujeito pescando ali nada tinha a ver com a busca do pesquisador, era apenas um policial de folga se distraindo na pescaria. No entanto, outra pessoa apareceu depois. Quando o autor do livro menciona Derek Walcott e  O Mar em Dauphin, se emociona com a fala do recém chegado:  "Claro, o Mar em Dauphin. Meu avô é o menino na peça". Nesta passagem da narrativa eu imaginei a emoção sentida por quem buscava conhecer a fonte inspiradora, naquela comunidade que nem existia mais. Fiquei pensando em quanta gente também já se refugiou em comunidades de pescadores-roceiros de Ubatuba e nelas se  inspiraram à literatura, às artes. Quantos homens e mulheres, a partir do chão caiçara, seguem mexendo com nossas emoções?

 


      

quarta-feira, 22 de julho de 2026

LITERATURA AQUI E LÁ

 

Luzes - Arquivo Caio Elois


     O meu ponto de partida no texto de hoje é um poema do cearense Bráulio Bessa:

 

Amizade não se compra,

Não se vende em prateleira.

Não tem promoção de amigo

No shopping, nem lá na feira.

Um amigo é um presente

De graça, mas faz a gente

Ser rico pra vida inteira.

 

     No momento eu me encontro na leitura do livro O Mundo da Escrita, de Martin Puchner, cujo subtítulo é este: Como a literatura transformou o mundo. Me detenho em Johann Wolfgang von Goethe, nascido em Frankfurt, em 1749. É considerado o maior nome da literatura alemã. Conforme sigo lendo, vou transcrevendo e me misturando no texto:

 

      Quando Eckermann, secretário de Goethe, se espantou com seu mestre elogiando os romances chineses, enfatizando-os como moralmente elevados, ele arriscou dizer que, com certeza, o romance chinês devia ser bastante incomum, a exceção à regra. Mediante este comentário, a voz do mestre foi muito severa: “De modo algum, os chineses os têm aos milhares e já os tinham quando nossos antepassados [europeus] ainda viviam nas florestas”. Pois é! Assim como hoje, alguém como Eckermann, cheio de preconceitos, ignorância e incredulidade pede para ser chocado aos poucos. Seu mestre enxergava longe, percebia que a literatura de outros lugares, graças aos viajantes e à imprensa, estava ficando disponível para mais pessoas. Foi Goethe quem, em 1827, cunhou a expressão “literatura universal”. Também a ele se deve a visão de Maomé como um líder carismático que conseguiu transformar tribos dispersas do deserto em uma força unificada, desencadeando a potência islâmica.

 

       Exclamo há muito tempo:

       Como  essa gente toda, do Ceará, de outras terras distantes de Ubatuba, no litoral norte paulista, me afetam via literatura!

      E o que dizer de autores até do outro lado do mundo que seguem deixando suas marcas em nossas vidas? Isto é a tal literatura universal, senhor Goethe?

     Não tenho dúvida de que abraçar tudo isso é habitar outras culturas!

    

Em tempo: hoje, 22 de julho, começa a 24ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty)


segunda-feira, 20 de julho de 2026

GOSTO DE PIRAGICA

 

Matias na praia - Arquivo JRS 

Restos de uma comunidade - Arquivo JRS 

     Eu digo que sempre é interessante ir até o Saco das Bananas, na porção sul de Ubatuba, sobretudo quando é tempo das bananas, jacas, goiabas etc. Em 1981 eu estava a serviço do IBGE por ali, pude conhecer/reencontrar os caiçaras que ainda resistiam.  Quarenta e cinco anos se passaram. Gente de fora naquele tempo era “Seo Bassin”, cuja casa havia sido a primeira escola da praia. Como se deu isso? Na verdade, na década de 1980, quando o professor Pedro Paulo estava como prefeito, aconteceu uma negociação: o Gregório Crispim vendeu a sua posse para esse “Seo Bassin” e foi morar em Caraguatatuba, junto ao rio Juqueriquerê. Logo em seguida ele, o ricaço, procurou a prefeitura para construir uma escola mais acima, perto do caminho, e, à antiga escola, foi dada outra função, virou casa de veraneio. Linda mesmo! Não me pergunte se alguém levou uma recompensa por fora nessa facilitação. Só sei que, uma vez ali, a impressão que se tem é que a linda prainha é particular. Eu, por ter a parentalha por ali, circulava subindo e descendo o morro, mas nem ousava olhar para o lado da casa quando tinha gente lá. 

   Alguns conflitos aconteceram ao longo dos anos. Eu estava lá quando a embarcação dos filhos do Dito Madalena, que chegava da pesca, se chocou contra a enorme lancha do ricaço que estava fundeada no ponto deles. Coisa pouca, quase nenhuma marca, mas aconteceu. Os rapazes juntaram suas coisas e foram morro acima, para casa. Chegaram já contando para os pais (Dito e Constantina). Não demorou muito veio o dono da lancha reclamar do ocorrido. E então aconteceu o seguinte: “Sim, pois não doutor”. E ele começou a explicar o ocorrido. Mas mal começou, o Dito diz: “Vamos entrar, doutor. A casa é pobre, mas recebe o nobre. A gente se entende melhor sentados”. E ele, meio ressabiado, entrou e se acomodou na humilde cozinha, de onde se avistava o grande mar. “Mulher, faça um café para nós. Asse umas bananas para a gente comer com essa farinha e beiju que fizemos hoje”. Os rapazes, assim como eu, permaneciam em silêncio na sala, apreensivos pelo desfecho do assunto. E Dona Constantina, além de tudo, ainda fritou umas postas de peixe. E o homem não teve como não aceitar tudo aquilo que fazia parte da acolhida dos caiçaras. Então ele contou, comeu... contou... comeu mais ainda. Queria receber pelos danos causados na sua lancha pela embarcação da família. O Dito, depois de escutar o homem, respirou fundo, deu uma olhada por cima da janela como se a Ilha da Vitória estivesse logo ali: “Escuta aqui, doutor, eu não vou pagar nada. Naquele lugar, onde eu tenho visto a lancha do senhor, é onde fica a nossa poita. Tem até uma boia permanente lá, ela não sai dali porque é a nossa guia, onde a nossa baleeira fica fundeada. A praia é pequena, nós precisamos chegar e sair todo dia para a pesca. O seu barco poderia ficar mais para fora, sem atrapalhar nada. Por que o senhor põem ali, no nosso lugar? Então... eu não vou pagar nada! Não quero brigar com o senhor e os meninos vão continuar fazendo a mesma coisa que fazem todo dia. Nós precisamos pescar, é disso que a gente vive.  Assim tá bom? E, além do mais, nós somos vizinhos”. Desse modo foi resolvida a questão. O “Seo Bassin” saiu de barriga cheia, doido para chegar em sua casa e escovar os dentes, tirar o gosto da piragica frita. Depois eu ri muito. Ainda hoje, ao relembrar do fato, me alegro pelo desfecho. Certamente que o tal ricaço nunca esperava um tratamento daquele.


domingo, 19 de julho de 2026

A "REVOLUÇÃO"

      

Dona Gertrudes - Arquivo JRS 

         

     Desde pequenos fomos induzidos a acreditar que o movimento armado, de 1932, foi uma revolução. Ocorrida entre julho e outubro de 1932, também é conhecida como Guerra Paulista, foi um levante orquestrado pela elite paulista, uma contrarrevolução contra o governo provisório de Getúlio Vargas a ameaçar alguns privilégios mediante a força dos trabalhadores organizados. Em Ubatuba, principalmente por fazer divisa com o Rio de Janeiro, houve muito medo porque ninguém queria ir para nenhuma frente de combate, ter de abandonar suas famílias. Hoje, recorrendo à memória da saudosa dona Gertrudes, seu neto Rogério Estevenel nos brinda com o seguinte texto, com destaque aos caiçaras da comunidade das Toninhas. Gratidão, Rogério!


        A Revolução de 32 em Ubatuba 

     O céu começou a fechar cedo naquele dia, como se soubesse que algo estava para acontecer. Na Praia das Toninhas, o mar já não tinha o azul manso das manhãs: escurecia em ondas pesadas, batendo nas pedras com uma fúria que parecia ensaiada. Ao longe, o contorno do Morro do Dionísio surgia como um gigante silencioso, guardando segredos entre a Praia das Toninhas e a Praia Grande de Ubatuba. Era 1932. O Brasil fervia. A chamada Revolução Constitucionalista de 1932 chegava até ali não com discursos, mas com passos pesados na areia e olhos desconfiados sob chapéus de aba larga. Na beira do Rio Jacundá, as mulheres estavam de cócoras, mãos rápidas, limpando e escalando peixes recém-pescados. O cheiro de sal, escama e lenha queimando se misturava ao ar úmido. Entre elas, uma menina de doze anos observava tudo com um silêncio atento. Era minha avó Gertrudes — ainda menina, ainda sem saber que carregaria aquela memória por toda a vida. Ao lado dela, o pai — já curvado pelo tempo — apoiava-se em um pedaço de remo velho. Os olhos dele, no entanto, não estavam cansados: estavam alertas. Sabia.

     — Hoje eles vêm — murmurou, sem olhar para ninguém.

    E vieram.

    Primeiro, o som. Não de mar, não de vento. Botas. Muitas. Depois, vozes firmes, cortando o ar como faca em peixe fresco. Uma tropa desceu pela areia, levantando pequenos redemoinhos de pó. Homens armados, vindos não se sabia de onde — talvez de São Paulo, talvez do interior — mas com um só propósito: recrutar. Os caiçaras sabiam o que aquilo significava. Sabiam desde que os primeiros rumores cruzaram o litoral como um sussurro levado pelo vento. Quem pudesse lutar, iria. Quem não fosse, seria levado. Mas os homens dali tinham o mar como aliado. Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de um vermelho pesado, eles desapareceram. Subiram em silêncio pelo Morro do Dionísio, pisando leve como quem conhece cada raiz, cada pedra. Escondiam-se entre a mata fechada, onde o cheiro de terra molhada e folhas esmagadas abafava qualquer rastro. A menina viu alguns deles partirem. Tios, vizinhos, rostos conhecidos que desapareceram na trilha como se fossem engolidos pela própria montanha. 

     Na praia, a tropa não encontrou resistência. Apenas mulheres, velhos e crianças.

     — Onde estão os homens? — perguntou um dos soldados.

    Silêncio.

    O som distante de um trovão respondeu por elas. O vento virou de repente. As folhas das amendoeiras tremularam, e o mar começou a subir, inquieto. O céu escureceu como se fosse noite antes da hora. A menina apertou a mão do pai. Então a chuva veio. Não como chuva, mas como um rasgo no céu. Grossa, pesada, violenta. Em segundos, apagou pegadas, levou restos de peixe, fez o rio crescer e turvar. O Rio Jacundá engrossou, arrastando galhos e folhas como se quisesse esconder tudo o que havia ali. Os soldados recuaram, confusos. Gritavam ordens que se perdiam no barulho da tempestade. Alguns tentaram avançar em direção ao morro, mas a trilha virou lama, escorregadia, traiçoeira. A montanha, naquele dia, escolheu lado. A menina, encharcada, olhava sem piscar. Não sabia explicar, mas sentia: o morro estava protegendo os seus. A noite caiu de vez. Quando a chuva cedeu, já não havia mais tropa. Restavam marcas confusas na areia e o silêncio pesado depois da tormenta. Um a um, como sombras, os homens começaram a descer do Morro do Dionísio. Cansados, molhados, mas livres. Não todos — alguns tinham sido levados dias antes, em outras praias, em outras histórias que ninguém contava em voz alta. O pai da menina respirou fundo, como quem devolve a alma ao corpo.

     — O mar e o morro… — disse ele — ainda cuidam da gente.  

     A menina nunca esqueceu. Anos depois, já velha, contava que naquela tarde escura de trovoada, não foi apenas uma fuga. Foi um pacto silencioso entre gente e terra. Entre medo e coragem. E dizia, com um brilho estranho nos olhos, que até hoje, quando o céu fecha de repente na Praia das Toninhas e o vento sopra diferente, é porque o morro ainda está de vigia, protegendo aqueles que aprenderam a se esconder… e a resistir.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

CABEÇA DE PEIXE

 

Tainhas - Arquivo R. Ferrero 


     É tempo de tainha fugindo do sul gelado, buscando água mais quente para a desova. A caiçarada pira, sobretudo quando a cabeçuda tá ovada. Não é de hoje que o meu povo se desespera para caprichar um pirão de tainha fresquinha ou uma recheada e bem assada, deixando a vizinhança com água na boca. Eu não dispenso umas postas fritas para tomar com café e farinha de mandioca. Tia Sebastiana descartava todos esses modos de preparar, pois a preferência dela era tainha seca com banana verdolenga. E uma ova assada então? É bom demais, gente!

    Nesse espírito, aspirando em aproveitar a época, me dirigi ao mercado de peixes. No caminho encontrei com o filho da dona Inês e do finado Martinho:


   - Tais indo aonde, Zé?

   - No mercado comprar tainha. Será que tem?

   - Tem demais! Ontem passei no Zoreba e levei três bitelas. Mamãe tá lá em casa, e, como toda essa gente antiga, de outros tempos, peixe não pode faltar. Levei quatro das grandes, mas vou levar mais um tanto porque o preço tá bom. Quem prepara a comida, quando tem peixe lá em casa, sou eu. Dou folga às mulheres. Caprichei logo duas, rendeu no escaldado porque era só eu, a mulher e a mamãe. A minha mulher come pouco, mas eu e a mamãe... Nossa Senhora! Você acredita que a mamãe, quando se pegava na cabeça do peixe, assobiava de dar gosto? Umas cinco falas de passarinho ele tirava brincando! Para você ter uma ideia, eu precisei fechar a janela e a porta porque a passarinhada (saíra, sanhaço, tié e mais alguns atrevidos) já ia entrando na cozinha.

    (Risos) 

    - Na cozinha?

   - É, na cozinha! Porque lá em casa ainda é do jeito antigo: a mesa das refeições fica no meio da cozinha. Na casa do papai era assim, lá em casa eu sigo o mesmo costume.


   Me despedi do empolgado amigo e tomei o rumo das peixarias. A última fala dele me fez recordar de que na casa dos meus avós também era assim, existia uma grande mesa na cozinha. Com fartura de farinha de mandioca, escaldado (de peixe, de caça, de galinha etc.) era prato principal no almoço e no jantar daquele tempo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

SENTA AÍ E BOTA REPARO

 

João de Souza (de pé) - Arquivo Mônica 

       

As leitoras - Arquivo Mônica 

    A querida Mônica me enviou a imagem do seu vô João proseando com Miguel, Élvio e uma criança. Estavam defronte ao campo de futebol do Itaguá, sentados no banco de tantas histórias. Veio à memória muitos momentos onde a recomendação primeira era: "Senta aí e bota reparo no que vou contar". 

     João de Souza e mais gente nossa neste chão caiçara criava um mundo inteiro em suas contações.  Como um contador de histórias cria um mundo inteiro?

    Vivendo situações fantásticas?

     Recordando do passado, das experiências vividas ou escutadas?

      Continuando uma tradição cultural de se reunir geralmente aos finais de tardes?

     Recorrendo à capacidade imaginativa/inventiva?

     Desejando outros desfechos para algumas condições existenciais?

     Garimpando palavras e seus significados?

    Projetando protagonistas?

    Apaixonando-se pela narração, pelo prazer de colecionar histórias?

    Amando descrever tipos singulares que passariam desapercebidos no cotidiano?

    Dando importância destacada aos livros, bibliotecas e estudos?

    Adorando as palavras?

   

     São tantas as alternativas, mas acho  que elas acabam se ajuntando. 

    Sabe de quem eu me lembro quando estou lendo ou escrevendo? Eu me recordo no tanto de gente a contar histórias em minha vida! João de Souza, João Barreto, vó Eugênia, vô Estevan, Zezinho Roseno, Virgílio Lopes, Francisco Chagas, tio Ezidio, tia Izolina, tia Apolônia, Velho Rita e mais um tantão de gente que nunca tiveram a pretensão de questionar história, causo, lenda etc. , mas que de certa forma expressaram o poder da literatura. As "Crias da Dona Laura", começando pela Joseana e Mônica, estão abraçadas à literatura, me deixando bem feliz. Meus parabéns!

domingo, 12 de julho de 2026

A ESQUINA DO PECADO (III)




Lagoinha - Arquivo Marcos Prado


          Olhando para uma imagem capturada pelo primo Marcos Prado, comecei a escrever a experiência de quase agora quando, muito discretamente, eu mexia na terra, podava uns galhos e refazia uns vasos. Tudo no maior silêncio, do outro lado do muro, onde está a esquina de tantas prosas.
        Um pouco antes dei uma bisolhada para ver o movimento. Avistei o amigo Ditão sentado ali, bem tranquilo. Retornei aos afazeres. De vez em quando eu escutava o meu amigo cumprimentando alguém, fazendo uns comentários banais. Percebi a chegada de uma mulher, reconheci a voz da filha da Matilde. E tome prosa!

       - Boa tarde, Ditão! Sabia que o meu marido morreu faz quase um ano? Antes disso, por dois anos eu fiquei cuidando da doença dele, mas não teve jeito. Por isso eu digo que estou praticamente viúva há três anos. Aí apareceu alguém, tô namorando. É Deus que tá preparando um novo marido para mim. Só tem um porém: eu sou evangélica e ele é católico. Ele dorme lá em casa, fica comigo... Acho que vai dar certo. Deus tá preparando, vai dar certo sim. O meu falecido marido também era católico e nós nunca brigamos por conta disso.

        Pelo o que eu escutei, o Ditão prestava atenção na narrativa. Eis o fecho que ele deu na prosa:

        - Se já estão morando juntos é sinal que Deus já preparou. De agora em diante é com vocês.
       
        Escrever essas observações simples e honestas é o que me move. Eu interpreto a nova condição daquela mulher como uma libertação. Que seja mesmo!
         

sábado, 11 de julho de 2026

VIVA O TIO MANECO!

 

Tio Maneco - Arquivo Kilza 



Mestre Neco - Arquivo Débora 

         Eram três irmãos: Nhonhô Armiro, Tio Cláudio e Tio Maneco, de outros tempos da praia da Fortaleza, em Ubatuba. Desde pequeno eu sabia a seguinte história: tendo ficado órfãos de pai muito cedo, foi o mais velho deles, Nhonhô Armiro, quem ajudou a criar os irmãos, tendo de ir trabalhar como assalariado na região santista. Todos eram Mesquita, nossa raiz moura por parte da mãe. Do lado paterno, os Amorim eram da mesma origem, dos árabes que ocuparam por séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha).
        Maneco Mesquita passou por Maneco do Armiro e terminou sendo conhecido apenas por Maneco Armiro. Autodidata, tornou-se um exímio rabequista, sendo presença ativa na Folia do Divino e muito requisitado nos encontros musicais. Nas temporadas de férias, quando a cidade recebia muitos turistas, tio Maneco se tornava a estrela em muitos momentos. Numa ocasião, na casa de um alemão acordeonista, no morro da Fortaleza,  eles se compuseram em dupla muito aplaudida. Eu, adolescente, passei mais de hora escutando os dois tocando. Titio, um show à parte, se requebrava todo, não perdia o ritmo e se completava com o alemão. Rabeca e acordeon geravam uma maravilha de música. Que beleza!
       É verdade que, por um lado, a gente notava a ação predatória dos turistas sobre as nossas paisagens (praias, costeiras, morros...) e a nossa cultura. Porém, uma parcela desses visitantes (veranistas) prestigiava a atividade musical do nosso lugar, comparecia aos festejos, acolhia os foliões, valorizava satisfatoriamente traços da cultura caiçara. Posso dizer que tio Maneco Armiro deu a sua contribuição nessa interação entre pessoas e culturas tão diversas. Viva a memória dele!

      Dele e da tia Aninha, mano Mingo escreveu:

Parentes da alegria

Espalhafatoso e pregoeiro de leilão em festa do padroeiro
Tio Maneco, rabequeiro e rabo-de-saia autodidata
No intervalo de trabalho e estripulias
Sacou as tintas de Miró
Mesmo sem conhecê-lo
E pintou os tijolos de sua casa
Cada um de uma cor.
Tia Aninha, sua esposa, tratou de enfeitá-la por dentro
Armou o oratório mais bonito e variado
Com anjos, santos e beatos
E distribuía biscoitos e bênçãos
Para nós, crianças de todas as idades.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

O VIOLEIRO OTAVIANO

 

Folia do Divino 2026 - Arquivo Débora 

    Tio Maneco Armiro, rabequista de primeira, fazia todos os  anos a sua parte na corrida da Bandeira do Divino. De vez em quando eu atentava aos elogios que eram feitos aos seus parceiros; tinha predileção pelo paratiano Otávio porque era desinibido, gostava de falar e tinha uma visão de mundo diferente, era viajado, vivia de música e de um mínino de subsistência (puxava rede no Itaguá com Florindo e Aládio, limpava terrenos por empreitadas, buscava sardinhas no cais etc.).  Outros bem estimados eram Santinho e Otaviano. Este, violeiro, natural do Itaguá, faleceu em 1979. É por sua voz que apresento agora partes de uma música recolhida pela Kilza em anos de pesquisa sobre a produção musical caiçara:


Quem quisé sabê meu nome

Vai lá em casa que eu dô

O meu nome tá escrito 

Na porta do corredô, ai, eh!


     Notou que  o músico deixava um clima de suspense? Depois de outras quadras, finalmente ele revela o seu nome:


Eu me chamo Taviano

Escrevê nome não carece

Em toda parte q'eu vô

O pessoar me conhece.


      Portanto, logo é fácil deduzir que tio Maneco, Otávio Paratiano, Santinho, Otaviano, Dona Sebastiana, Pedro Brandão e outros mais eram andarilhos no cumprimento da devoção. Eram conhecidos por toda gente do município naquele tempo em que a religiosidade popular transpirava no universo caiçara.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

UM CAMARADA

 

Cidade pequena - Arquivo JRS 

      José Ademar, bem mais vivido do que eu, me reconheceu primeiro. De um chute inicial no futebol, adentrou na política, na onda nefasta, reacionária, da atualidade brasileira. Estávamos em viagem. Fizemos aflorar os principais temas e problemas. Passeamos pela geografia miúda, pois na área maior nossos filhos se debruçam, nadam nas escolas. Assim viajamos horas. Nas suas falas empolgadas eu me inspirei.


Resistir nesta chão,

Torná-la  outra terra

Onde patifes serão delimitados.

No agora, absurdo refúgio,

Fisionomias sucumbidas,

Corpos resignados,

Sonhos perseguidos

Ou duramente resignados.


Utopias aparentemente imobilizadas,

Frestas para pouco se ver;

Sacolejos nos obstáculos.

Nós chegamos aqui!

Onde nós estamos?

Distinguimos democracia de autoritarismo?

Firmamos posição por mais vida?

Sustentamos bandeiras contra egoísmo?


Vivemos no mundo próximo,

Vi o mundo lá fora.

A Terra foi alargada,

Subi muitos degraus,

Distinguí corpos enterrados,

Gente carregando o próprio caixão;

Multidão de alienados.


José Ademar, gente da roça,

Migrante ainda menino.

Despertou na cidade,

Se fez no operariado;

Na arrogância da força 

Que distinguia o militar

Ousou enxergar mais longe.

Diálogo de sonhos a fermentar.




domingo, 5 de julho de 2026

EMILIANA

 

Canoa caiçara - Arquivo Dani Yoko

Há um vilarejo ali

Onde areja um vento bom

Na varanda, quem descansa

Vê o horizonte deitar no chão 


       Partindo da imagem da amiga Dani junto da turma das remadas em canoas caiçaras, passando pelo início da música Vilarejo, de Marisa Monte e parceiros, eu me transporto para o aconchego da Barra Seca, onde está a última canoa (Cerne) vinda de um capurubu, lá do jundu do Itaguá, pelas mãos do meu finado pai. Que maravilha ver esse pessoal praticando esporte, fortalecendo esse traço cultural caiçara! E é sobre navegação que está crônica continua.

      O idoso Nequinho Valentim, agregado do casal Julieta/Italgino, sempre dava uma parada no bar onde eu trabalhava na adolescência. Se demorava pouco, apenas tomava um guaraná e dava um dedo de prosa. Certa vez ele contou sobre seu bisavô (Mestre Jango Valentim): 

       "Nhonhô Jango, desde menino era marinheiro, assim meu avô costumava falar. Com o tempo ele aprendeu de tudo na marinharia: de mapas, de ventos, dos aparelhos de navegação etc. Tudo na arte marítima era 'sopa' pra ele. Meu avô dizia que Nhonhô Jango terminou seus dias comandando um desses barcos imensos por nome de Emiliana".

       Agora, relendo o livro do Seo Filhinho (Ubatuba documentário), na parte referente à navegação de cabotagem no litoral paulista, está registrado que "melhorou muito a partir de 1857 com uma linha entre o Rio de Janeiro e Desterro (atual Florianópolis), com escalas feitas nos portos intermediários, inclusive Ubatuba. Mesmo assim esse serviço não atendia satisfatoriamente ao litoral paulista, o que fez com que 'empresários' de Ubatuba, que já possuíam o patacho 'Triunfo da Inveja', adquirissem mais três navios a vapor - 'Duarte I', 'Emiliana' e 'Piraí' - a fim de se liberarem de embarcações alheias".

       Você imagina a minha surpresa ao me deparar com a "Emiliana", do Mestre Jango Valentim? Se Nequinho fosse ainda vivente, eu iria bem cedinho lhe mostrar a página, o trecho escrito.

sábado, 4 de julho de 2026

INFERNOS EM PARAÍSOS

 

Entardecer - Arquivo JRS 

      Céu e Inferno são conceitos saídos da mente humana; projeções de bondade e de maldade, partes da nossa existência. Sim, todo mundo está sujeito a momentos de paz e de angústia! Uns lutam por um mundo melhor, outros idolatram as injustiças. "Investimentos" em Céu e Inferno é sina nossa, de humanos a escolher caminhos.

       Depois de três décadas voltei a ler Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. É impressionante como o viver confinado leva a pessoa a dar atenção a tantos detalhes, elaborar tantas possibilidades acerca de si mesmo e dos outros.

    Quando alguém lhe falou das vantagens da autocrítica, o autor respondeu sem refletir: "Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conservá-los todos com muito cuidado. Se meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei noutro. Quero guardá-los, não perder um". Tava de saco cheio, né?

   Seguindo na leitura deduzi que, quando se está numa prisão, qualquer descrição vira uma imagem muito marcante. Como não sentir nada, mesmo não tendo passado pelos sofrimentos de um "rebanho de criaturas em um curral de arame farpado"? Como não sentir o inferno diante de "um sujeito sem as unhas dos pés que foram arrancadas a torquês"? Quem não sente nada testemunhando "dorsos lanhados, carne sangrenta, equimoses vermelhas, azuis, pretas"?

    Pois é! Assim o paraíso da Ilha Grande, no litoral fluminense, foi transformado num inferno rodeado de água. Assim também fizeram com uma ilha em Ubatuba, transformando-a em Colônia Correcional da Ilha dos Porcos. Mudar-lhe o nome para Anchieta não apaga as crueldades que tanta gente viveu ali. Era inferno localizado no paraíso. Pode isto?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÁLVARO VENTURA

 

Álvaro Ventura - Arquivo internet

        Prosseguindo na Memórias do Cárcere, eu me detive nesta passagem deixada por Graciliano Ramos:

        "O mais perfeito gentleman que vi foi Álvaro Ventura, homem lento e gordo, estivador em Santa Catarina, o primeiro comunista eleito para a câmara federal. Tinham-lhe suprimido o mandato, e vivia conosco, aguardando o lugar na Colônia Correcional".

         Ao ler o nome desse comunista, cidadão do litoral catarinense que pertencera à Irmandade do Senhor dos Passos e à luta sindical, me recordei de uma palestra proferida por Elias Stein, militante metalúrgico de Santo André (SP), quando soube desse político catarinense: foi o primeiro deputado federal eleito pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1933. Dentre muitos ofícios, era estivador e chegou a ocupar o posto de secretário-geral do PCB. Em 1935, após o levante da Aliança Nacional Libertadora, foi cassado e preso, tendo de viver depois muito tempo na clandestinidade.

   De acordo com a sobrinha-neta, Maura Soares, "as  convicções políticas de Álvaro o afastaram de alguns familiares, mas nunca das ações que provavam sua honestidade e fé na justiça.  Em 10 de julho de 1989, aos 96 anos, deixando filhos, netos e bisnetos, Álvaro deu adeus ao mundo que ele acreditava que um dia iria melhorar".

   Seguindo na leitura do livro, um pouco mais adiante Graciliano faz nova referência ao nosso personagem:

    "Espantava-me de perceber em Ventura, um estivador, as maneiras corretas e a afabilidade que me habituara a distinguir no médico. Esquisito. A prisão nos sujeitava a duros abalos e surpresas constantes".

     Pois é! Quem diria! De Santa Catarina saiu o primeiro deputado federal comunista. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUE DESASSOSSEGO!

 

Ninho ao vento - Arquivo JRS 

      Tem gente que ouve as notícias, mas faz pouco caso das nossas indignações, diz que são bobagens, que estamos espichando brigas etc. Eu digo que tipo assim está aquém da minha insuficiência mental; é dotado de incapacidade de enxergar só um pouquinho a mais da rotina que se apresenta;  não quer admitir as articuladas narrativas favoráveis à classe dominante, contra os pobres. Tipo assim, digamos que são paredes escuras com pretensão de delimitar, de circunscrever nossos pensamentos, palavras e ações. Ou ainda: rio caudaloso que tenta carregar as reses, levá-las ao matadouro. Que desassossego!
         A fadiga é notória em alguns rostos; traços deformados se agonizam. Ser reacionário, ser contrário à vida digna para todos vai se tornando epidemia. Cadê aqueles sinais luminosos do horizonte, aquela utopia de Eduardo Galeano? O que está se repetindo muito,, coalhando no entorno (próximo e/ou distante), são víboras empeçonhando prosas. A cada meia dúzia de passos uma provocação inútil. Ouso ser desagradável. Quem dera fosse mais meticuloso! Quem tem paciência demorada para aguentar falação alienada? Em contexto assim não há injúria sem motivo. Disse a um pobre como eu: "Que ridícula safadeza este seu caminho, né?". Aspereza minha? Pode ser. Estupidez necessária? Pode ser também. Meu grande desejo é ser/ver gente vivendo uma vida digna, feliz desde já. No entanto, cresce entre nós o desejo de oprimir, de se apoderar da vida dos outros; de compactuar com a morte através das injustiças,  de eleger quem desmerece a classe popular e as minorias sociais.
        Que satisfação ao me deparar com gente enxergando além das notícias! Ainda bem!