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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

PALMITEIROS

 

Tiribas na palmeira, no quintal  de casa (Arquivo JRS)


                À mesa de todos deste chão caiçara, em outros tempos, o palmito estava sempre presente na alimentação. Mamãe refogava com uns temperos e estava pronto. Eu não sei dizer se havia quem não gostasse dessa delícia das nossas matas. Era palmito da jiçara, a mesma palmeira que fornecia ripas para a construção de casas.

                A jiçara chama atenção de longe. Passando pelas rodovias que servem ao município, a minha atenção por elas é constante. Os seus frutos, além de servirem aos passarinhos, também são, desde muito recentemente, coletados para extração de uma bebida comparável ao açaí, outra palmeira, abundante da região Norte do Brasil.

Se deve, sobretudo aos pássaros, a semeadura da jiçara. No meu quintal mesmo muitas mudas já apareceram. Algumas delas estão crescendo ali, entre outras frutíferas; outras eu doei para pessoas amigas com áreas maiores de plantio. É isto: as aves e animais fazem a parte deles desde que o mundo é mundo. Nos dias atuais é urgente fazermos a parte que a nós cabe.

                Houve um tempo, na década de 1970, que apareceram por aqui as empresas enlatadoras de palmito. No bairro Mato Dentro, no terreno onde hoje funciona um grande depósito de materiais de construção, se instalou a fábrica de conservas Auricchio. Permaneceu ali por mais de década. Desse tempo nos vem a figura do palmiteiro, ou seja, o trabalhador do palmito, aquele que rompia a mata pelas antigas picadas ou fazia novos traçados no relevo para localizar, derrubar as jiçaras e trazer seus palmitos. A chegada das estradas, o melhoramento dos acessos permitiu que equipes entrassem mata adentro para movimentar um setor específico do ramo alimentício.  De Ubatuba, de toda a área do município, milhares de jiçaras foram abatidas. Ainda bem que, na década de 1980, uma onda ambiental colocou foco na Mata Atlântica! As empresas contratantes de palmiteiros passaram a ser multadas pela devassa da espécie  jiçara. O policiamento ambiental foi intensificado. Ainda bem!

                Muitos caiçaras eram intimidados quando procuravam conversar com os palmiteiros para impedir os cortes em suas áreas. Esses trabalhadores tinham a concepção que, independente de onde estivesse a palmeira, eles podiam adentar e tirar o palmito, pois eram remunerados para isso. Houve conflitos sim. De vez em quando se ouvia notícias de brigas, de um querer cortar o outro com facão. Mas os nativos sempre se manifestaram porque se alimentavam do palmito e sabiam da importância de seus frutos aos pássaros e animais roedores.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

MELHORA COM NINHO DE ARAPUÁ

 

Lá longe, nem se avista quase (Arquivo JRS)

    "Nós fomos naquela lonjura buscar uma erva. É que só lá na ilha tem. Saímos cedo; éramos três remando. Quase meio-dia durou a travessia. Melhor dizendo: saímos no clarão e chegamos quase no sol a pino. Isso porque o mar estava liso, sem nenhuma ventarola. A canoa ficou amarrada na poita deles: uma bola grande com algumas letras. Encostou ali um dia; pode ter se desgarrado de algum navio que passou por fora, segundo os moradores. Caímos na água e subimos pelo estivado mais perto. O Batengo estava agachado; nos recebeu com um pito na mão. O cheiro bom do fumo estava no ar. Os outros se esconderam como é o costume deles. São vergonhosos ou não desejam gente para não estragar aquela paz.  Apareceram depois, aos poucos, meio ressabiados. Logo ali, subindo pelo mesmo caminho, chegamos na casa. Dentro estavam os outros (mulher e crianças) do Batengo. Ela explicou onde tinha o mato para nós, a erva que fomos buscar. Bastou subir mais um pedaço do morro, até uma área de macega com muita macela e um marco de duas pedras: uma maior e a outra menor. A grande era um granito verde; a pequena era inteirinha branca, dessas que dizemos ser pedra de vidro. Entre as duas tinha a tal erva que Josefa precisava para depois do benzimento. A nossa tarefa era levar aquele mato. Logo ajuntei uma massaroca, uma boa braçada. Chegou a metade da tarde. O tempo virou, veio vento forte. A nossa canoa foi puxada para a terra firme. O jeito era pernoitar com eles, na ilha. Ainda não tinha escurecido de vez quando jantamos: era comida como a nossa, de caiçara. Farinha e peixe ensopado. Uma panelada de cambeba. Além de banana verde, havia uns fiapos escuros pelo meio do caldo. É que eles, a gente de lá, tem o costume de juntar um tipo de limo da costeira, secam no jirau para depois usar no cozido. Dá um gosto a mais na comida. Só não usam no marisco, dizem,  porque este já tem o gosto do limo na carne. Depois da janta, a companheira (Lídia) do Batengo explicou que aquele mato colhido por nós é amargoso, solta um pitiu, mas se fizer amassado com ninho de arapuá, um aroma doce se espalha pelo ar e  se torna melhor de beber. Escutei bem a recomendação dela: 'Faz desse jeito pra mode tomá com gosto e fazer mais efeito, curar ligeiro. É certo: melhora com ninho de arapuá'. Tudo isso eu transmiti à nossa benzedeira quando chegamos de volta. 

    Ainda a gente estava na prosa da mesa, tomando um cafezinho depois, quando chegou o primo Eugênio trazendo umas esteiras de taboa da casa dele. Proseou um pouco só; nem uma hora depois se foi pela escuridão.  Logo dormimos todos. No escuro da madrugada as brasas do fogão foram reavivadas para o nosso café antes de deixarmos a ilha. Juntamos tudo o que era nosso, agradecemos e embarcamos para remar tudo aquilo de novo. Que não é fácil ser ilhéu isto eu posso garantir!".

sábado, 19 de setembro de 2020

SE NÃO HOUVER CHIFRE EM CASA

 

Coentro, hortelã, cebolinha...Nosso espaço (Arquivo JRS)


       De onde vem todo esse conhecimento de mato, de ervas, que a cultura caiçara tem? "Tem mato para tudo", diziam os mais antigos. "É sabedoria dos caiporas, dos pretos e da portuguesada". Assim como antigamente, as mulheres continuam à frente nesta particularidade de conhecer os matos e as suas funções na culinária e como medicamento. Em toda a minha vida eu conheci várias benzedeiras caiçaras, mas apenas um benzedor: o Velho Mariano, do Ubatumirim, que veio findar seus dias no bairro da Estufa. Após o ritual deles e as rezas, ninguém deixava o lugar sem levar uma braçada de mato para fazer remédio. A cura se completava assim

             Nossos quintais eram repletos desses matos, dessas plantas que não podiam faltar porque sempre havia precisão para usar na comida, fazer um chá, um emplasto etc. Quase sempre um cercado de bambu (ou de aproveitamento de pano de rede velha) protegia nossas ervas, sobretudo das galinhas ciscadeiras. Era o espaço das hortelãs (gordo e de bicha), dos coentros (miúdo e do mato) , da alfavaca, da melissa, do capim cidrão, do poejo, do guaco, da cidreira, do alecrim, do favacão, da arruda, do manjericão... Entre elas, ocupando o mesmo espaço se via couve, cebolinha, tomate, pimenta, salsa e por aí vai. Entre as flores do terreiro e pelos caminhos também abundavam dessas plantas que nasciam levadas pelo vento, por bichos e por nós também. Era comum avistar alguém fincando galhos ou jogando sementes nos locais das nossas andanças. E tinha toda aquela riqueza de plantas que abundavam na capoeira, depois do cisqueiro. A gente, a bem dizer, tropeçava em caninha do brejo, pariparoba, urtiga, aperta ruão, malícia, sete sangria, quebra pedra, gervão, melãozinho, prumera, boldo de todo tipo, erva baleeira, ervas diversas (cavalinha, de bicho, de São João, de Santa Luzia etc.).

               Nunca podia faltar algumas folhas de alfavaca no preparo de qualquer espécie de cação. Na carne de galinha, o sabor que realçava era do hortelã gordo. Coentro do mato entrava em quase todos os tipos de peixes que fossem cozinhados. "Zezinho, vá lá fora e me traga três folhas de coentro. Escolha das maiores". Assim, a partir da mãe, das avós e com tanta gente mais, fomos aprendendo disso tudo. De vez em quando se escutava frases do tipo: "Comadre, tendes aí hortelã, daquela de bicha [lombriga]? É que tenho reparado no Tãozinho que se encontra muito aíbo, empalamado. É só bater a vista que se nota. Deve ser ataque de bicha. Na semana que começa amanhã, irei preparar chá de hortelã com pó de chifre para ele beber de tarde". E por que tinha de ser na parte da tarde? Vovó Martinha me explicou: "É que, depois de atacar a comida do almoço, as bichas ficam desesperadas de sede, dando até coxa nas tripas. Só que, em vez de água, quem conhece faz elas tomarem chá de hortelã nas fuças. Se tiver fervido com um punhado de chifre torrado aí que resolve mesmo! Pode ser usado sementes de mamão moído se não houver chifre em casa e nem na vizinhança".

                    Talvez por tudo isso, eu, assim que me levanto a cada manhã, dou uma volta no quintal para apreciar as nossas ervas, o nosso mato. "Um pedaço da Mata Atlântica no terreno", conforme o dizer da mana Ana.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

VELHAS ÁRVORES

Tronco da velha jabuticabeira (Arquivo JRS)

Velha jabuticabeira (Arquivo JRS)
            Ao me deparar com uma velha jabuticabeira em minhas andanças, o que mais me impressionou foi o seu tronco cheio de rugas. Fotografei-a pensando na possível idade da árvore: "Seguramente tem mais de cem anos". Me demorei ali apreciando as formas que continuam abrigando os caminhos de sua sustentação, os nutrientes da planta. Imaginei o quanto já produziu, quantas gerações se beneficiaram dos seus frutos. Olhando melhor, me admirei: "Nossa! Ela ainda frutifica!". Seus galhos, de meio para cima estavam cheios de frutas verdes, ainda crescendo. "Dentro de duas semanas, no máximo, estarão maduras".

        Aquela árvore, ali na beira da estrada, me fez recordar das jabuticabeiras do estimado japonês Hiasa, do Perequê-mirim. Na sua área de plantação se encontrava três jabuticabeiras que ficavam carregadas de frutos entre setembro e outubro. Ninguém ousava ir lá para recolher alguma coisa sem que chegasse o dia certo, quando o proprietário convidava todos os moradores do lugar para o ato. Era uma tarde inteira numa grande movimentação. As árvores eram enormes, todas carregadas de uma das frutinhas da nossa infância mais cobiçada. Os troncos e galhos estavam pretos nesse dia, bonitos demais; doces na medida certa. Era um ritual que se repetia a cada ano. Não havia muros, não tinha nenhuma cerca, mas ninguém dali mexia antes do tempo, sem que o senhor Hiasa fizesse o convite. Além do pessoal do bairro, até de outros lugares vinha sempre alguém que já estava acostumado com aquilo. Apesar de estarem em propriedade particular as saudosas jabuticabeiras, seus frutos eram coletivizados. Hoje aquilo tudo foi loteado. Das três árvores, apenas uma avistei em pé uns anos atrás, mas se encontrava maltratada demais. Será que ainda frutifica? Não sei. Mas valeu as imagens para rememorar um procedimento tão significativo daquele homem que veio de um país distante cultivar em chão caiçara. Seu filho, casado com mulher caiçara, certamente nesta época de jabuticabas no pé, deve se relembrar do velho pai e contar aos filhos e netos o quanto bonito era aquilo: um exemplo para  compartilhar na luta contra a riqueza concentrada.


segunda-feira, 7 de setembro de 2020

SOPA D’ÁGUA

Pesca de cerco (Arquivo Chieus)


                A farinha de mandioca, o peixe e a banana constituíam a nossa garantia alimentar número 1, que nunca podia faltar nas casas dos caiçaras. Meus avós nunca deixavam de almoçar e jantar uma boa porção de escaldado (pirão) que geralmente era de peixe, mas podia ser de alguma criação do quintal ou até mesmo de carne de caça. Arroz, para esses mais antigos, era pouco usado, quando muito enfeitando borda do prato.

                Farinha era fartura mesmo! No começo da segunda metade do ano, as plantações eram feitas. Imediatamente as ramas brotavam e cresciam sempre vigiadas devido aos ataques das saúvas. Uma safra sucedia a outra; toda semana tinha alguém fazendo farinha nos arredores para consumo e venda nas mercearias do centro da cidade. Peixe era guardado: quando seco em balaios, quando sapresado em gamelas. Naquele tempo não tínhamos energia elétrica e nem geladeira. Desse modo, era esse o procedimento para se garantir entre as pescarias, além de poder variar os modos de preparo do peixe nosso de cada dia.

                Peixe sapreso é peixe deixado na salmoura, em gamela de madeira, para ser comido em ocasião futura, em receita especial. No caso, a sopa d’água. Papai e mamãe faziam de vez em quando e comiam com um misto de prazer e saudade. Meus avós se alimentavam mais regularmente de sopa d’água. Se não me falha a memória, era simples assim: cozinhava aquele peixe salgado após lavar em água fria. A farinha de mandioca simplesmente era despejada em um prato com água fria. Quem gostava de pimenta, amassava-as no prato. Depois era só comer aquela sopa acompanhada do peixe que estava pronto no caldeirão. Mas de onde veio este hábito que hoje nem quase se fala mais? Achei a possível resposta para a origem da sopa d’água no tempo do tráfico negreiro. Os africanos trazidos pelos portugueses eram melhor tratados na travessia. Eles visavam os lucros com escravos sadios. Laurentino Gomes registrou assim:

                “Cuidam e alimentam melhor, o que lhes permite obter lucro duas vezes maior na hora da venda dos cativos. Eles lavam o deque do navio todos os dias com vinagre ruim. Preparam alimentos quentes duas vezes ao dia para os cativos: o primeiro com feijões africanos, a segunda com milho bem cozido acrescido com uma grande concha de óleo de palma [dendê], tudo misturado com um pouco de sal e, às vezes, um bom pedaço de peixe salgado em cada prato. Durante o dia sempre há um pouco de farinha com água [...], além de oferecer duas ou três peças de tecido velho para que se protejam [do frio noturno]”.

                      Então, relembrando dos meus pais e avós, deduzo agora: a nossa raiz proveniente da África, necessitava relembrar daqueles momentos de sofrimento do tempo da escravidão. A sopa d'água entrava como componente de um ritual.

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

A DONA CAÇUROBA

Caçuroba na Cocanha (Arquivo JRS)


                Conversa de caçador é fácil de entender. Caçar é um instinto presente em nós, seres humanos. A minha Gal explica: “Está gravado em nós, faz parte do nosso inconsciente o nosso ser caçador. Por muito tempo tivemos necessidade de caçar para chegar ao que somos hoje. Por isso desenvolvemos e registramos em nosso ser esse aspecto, essas características. Exemplo: um grande grupo na cidade, uma multidão está passando na minha frente, cada qual dali com seu jeito único. Porém, no meio de tanta gente eu noto quem está mancando ou tem uma deficiência. Por quê? Porque eu tenho este registro de caçador, vejo onde está a presa mais fragilizada, possível de ser capturada por não poder correr como as demais. De onde vez esse sentido agudo? Do tempo distante, quando andávamos correndo atrás de alimentos. Não é assim que os animais caçam até hoje, buscando os filhotes, os animais mais velhos do bando, os distraídos?”.

                O povo caiçara também dependia da caça para completar a sua alimentação. Lembro-me bem dos caçadores mais próximos de mim: tio Tonico, Chico Lopes, João do Quito, Oscar e Alcides Nunes, Juventino, Dito Neves e outros que, após um dia de serviço, ainda tinham disposição para espiar bichos no mato até madrugada, esperando trazer um deles abatido, para variar a mistura. O finado Dito Graça, mais caçador do que roceiro e pescador, se justificava: “Eu caço porque fico desesperado, com vontade de comer carne vermelha; me dá mais sustância”.  Nos dias de hoje ainda tem gente elaborando estratégias para caçar pelas nossas matas, apesar das leis ambientais e das punições. Eu quero crer que os agentes pagos por nós estejam sempre atentos!

                Comecei este texto depois de escutar uma prosa, em frente a um portão, bem no centro da cidade. Um senhor, caiçara conhecido,  dizia para o outro: “A praia tá cheia de caçurobas [pomba rola]. Nesta hora (por volta das 17 horas), se você quiser, pode ir lá comprovar. Estão comendo alguma coisa pela areia, ciscando no chão. Sabe aonde vão dormir? Naquelas árvores, no Morro da Prainha! Pode ir lá de tardezinha para ver elas chegando, se empoleirando para passarem a noite ali. Se eu fosse mais moço, iria lá para caçar algumas e variar o de comer”. Foi então que eu ri sozinho por ter escutado a palavra caçuroba. É que na minha infância, uma senhora da vizinhança tinha esse apelido: era a Dona Maria Caçuroba. E não é que a mulher se parecia mesmo, tinha os trejeitos que lembrava a tal ave? A estatura, o jeito de andar dela lembrava caçuroba, esta espécie de pomba do mato tão singela. A Dona Maria xingava muito quando alguém a chamava assim. Ainda bem que, graças ao meu pai e à minha mãe, nós fomos educados para respeitar as pessoas. Dias desses, ao entardecer, irei à praia do Cruzeiro (Yperoig) para comprovar a informação. Será que as caçurobas estão virando pombas da cidade também?

quinta-feira, 25 de junho de 2020

É INVERNO: VAI QUENTÃO?

Arte na telha (Arquivo JRS)


Estou escrevendo. De repente um cheiro bom toma conta da casa. É de quentão, conforme a nossa tradição quando chega o inverno (mesmo que seja bobo e nem dê para vestir a nossa costumeira proteção para os braços). Que cheiro bom! Então comecei a imaginar os ingredientes e seus caminhos: cravo, canela, gengibre... Tudo trazido do Oriente, da África e de tantas outras terras distantes para o Brasil depois de 1500. Também um monte de coisas foi daqui para os lados deles. E aqui, nasce com o açúcar, a cachaça: a água ardente. “Vai uma pinguinha aí?”. O santo nunca recusa.

        O historiador Laurentino Gomes afirma:

Entre os séculos XVI e XVII, São Tomé, Cabo Verde e as demais ilhas atlânticas ao largo da costa da África – incluindo os arquipélagos da Madeira e das Canárias, grandes produtores de açúcar e também entrepostos de comércio de escravos – funcionaram como um grande jardim botânico para a aclimatação de uma infinidade de plantas que, a bordo das embarcações europeias, deixavam suas terras de origem, cruzavam os oceanos e se adaptavam a outros climas e paisagens. Até hoje, os botânicos já catalogaram  mais de 150 espécies vegetais comestíveis nativas da África Ocidental.

                A necessidade é mãe da criatividade. Sabe-se lá quantas coisas esses povos de longe faziam com esses ingredientes. Certamente os povos africanos também usavam muito o gengibre. Já li em algum lugar que, nos porões dos navios, junto dos cativos, era comum virem algumas raízes, inclusive de gengibre. Será que era para mitigar as dores? Ou serviriam para exalar um gostoso cheiro? Pode ser por tantos motivos... Mas o melhor, nas agruras do trabalho forçado, sob açoite, foi o uso para fazer quentão. Depois, de um “prova aqui, o sinhô vai gostá”, a bebida ganhou a preferência nas noites frias, nas rodas de prosas, cantorias e danças. De lá pra cá não deixamos de ter sempre o nosso quentão. Certa ocasião, no Rio Grande do Sul, ao pedir quentão, me vieram com um vinho quente. É o quentão deles, ué! E roda em todas as festas como o nosso quentão, que não pode faltar nas festas juninas. Mas cadê as festas juninas?

                Junto com o friozinho vem o quentão, vem o cará-roxo, o cará-moela... Melhor: chega a tainha vindo do sul. Que beleza! Agora... com licença, vou tomar o meu quentão.

domingo, 23 de junho de 2019

FRUTA MARGINAL


      
Rio Iriri (Arquivo JRS)

Araçá-buia - noção do tamanho (Arquivo JRS)

Preciosas sementes (Arquivo JRS)

               Gente é assim! Gente nasce numa família enraizada num lugar, com a sua cultura. Essa cultura é a nossa cultura, a nossa herança. É o nosso capital cultural inicial! Com o passar do tempo, só vamos acrescentando, recebendo novas contribuições, reordenando nossos rumos, definindo novas diretrizes. Ao que parece, podemos ser fiéis aos nossos princípios ou adotar outros contrários até mesmo a nós mesmos, que beneficiam poucos e destroem comunidades.

               Essas comunidades são minorias, têm pouca ou nenhuma representatividade. Portanto, estão mais fragilizadas no sistema político e econômico. Sendo assim, facilmente se deixam enganar por interesseiros religiosos, políticos, imobiliários etc. E tem gente que também se aproveita de aspectos culturais das comunidades. Eu conheço gente nossa que diz apoiar a nossa cultura caiçara, mas abraça abertamente políticos que sempre barraram iniciativas populares, de apoio às comunidades; que aprovam leis facilitadoras aos exploradores, aos destruidores das nossas  condições ambientais etc. E pior: fazem discursos que vão na direção de manter os privilégios de poucos e pioram a situação dos mais pobres! O discurso a seguir ajuda a entender melhor o rumo da prosa:

               “É o seguinte, meu amigo: esse pessoal que mora ali há muito tempo não tem documento da terra. Alguém é dono, tem provas legais. Pelo visto, tudo aquilo vai virar loteamento. Quem estiver morando, caso tenha dinheiro, poderá comprar seu lote. Logo começa o serviço topográfico, as vias serão demarcadas e as máquinas entrarão em ação. É o justo”.

               Na posse daquela caiçara que nasceu e sempre viveu ali, eu encontrei o araçá-buia (também chamado de araçá-boi), recolhi três discretamente, esperei amadurecer e agora tenho as sementes. Elas certamente se desenvolverão em outros espaços, mas o seu lugar de origem, o terreno onde peguei as frutas, tem tudo para ser um local estéril, uma periferia abandonada, com lixos e esgotos que não fornecerão mais sementes, nem raízes, nem palmitos... Seus rios límpidos serão canais sujos. Seus filhos serão marginalizados de uma forma mais cruel. Entende agora o que é opção cultural? Depois não adianta reclamar que essa juventude nega a nossa cultura, não quer nem escutar os nossos causos etc. Nem adianta cantar, fazer dancinhas pra lá e pra cá, mas ser contra um enfrentamento real dos políticos da elite, dos especuladores e seus comparsas que aí estão atuantes. Na verdade, por ingenuidade e falta de reflexão - ou mau caráter! -, podemos estar aliados a esses princípios que matam culturas, que matam a nossa cultura caiçara, que nos mata.

               O que vemos é um massacre contra as nossas riquezas (via ideologia, via poder de polícia...). E assim desaparecem as matas e suas diversidades. Desaparecem nossos conhecimentos! Há quem diga ainda que isso é justo!?

domingo, 19 de agosto de 2018

PLANTAR PRA QUÊ?

Tralhas de cará-moela (Arquivo JRS)

Nossa jabuticabeira (Arquivo JRS)

Cará e orquídea (Arquivo JRS)


               Eu aproveito todos os momentos que posso para dar uma olhada nas minhas plantas, no meu quintal, no meu cachorro que por ali vive, nos passarinhos a ciscar ou em seus ninhos... Já apareceu mais de um “sem-noção” que me recomendou a cimentar tudo. “Fica mais fácil de limpar, de lavar etc. Você pode ainda construir uma casa para alugar”. Pobres criaturas!

               Agora, justamente na colheita do cará-moela, começam a florir as orquídeas e, novamente, as jabuticabas vão se avermelhando, se tornando pretas. Que prazer olhá-las! Melhor ainda é poder saboreá-las! Minha esposa é fanática por elas! “O quintal onde passei a minha infância tinha quatro jabuticabeiras que carregavam demais!”.

               A nossa jabuticabeira me faz lembrar de um episódio da minha infância, lá na praia da Fortaleza: numa bela tarde, enquanto aguardava o serão, vovô Armiro olhava para o terreiro, vendo as criações, as flores e as plantas maiores que ocupavam o cisqueiro (bananeiras, cafeeiros, abacateiros...). De repente... na prosa com a vovó...: “Eugênia, eu vou cortar aquele pé de jabuticaba mais novo”. “Por que, Zé Grande?”. “Porque  leva muito tempo pra dar. A gente tá velho, não vai alcançar dando frutas”. “Nada disso, Zé Grande! Deixa ela por ali mesmo! A gente pode não chegar a comer jabuticaba dali, mas os nossos netos irão comer! Isso é que importa!”. E foi o que aconteceu, nenhum dos dois viu a primeira colheita, entre touceiras de banana ouro. Também não durou muito aquela bonita árvore (porque logo um tio resolveu construir a sua casa naquele lugar).

               Coitado do povo que acreditava na especulação imobiliária como solução de seus problemas! “Vamos vender o nosso pedacinho de chão, comprar uma casa na cidade e viver por lá”. “Chega dessa vida de precisar pescar e trabalhar na roça”. “Mais perto da cidade tem trabalho e as crianças poderão estudar”. “Agora não podemos continuar vivendo aqui porque os nossos filhos não querem saber de trabalho na roça, nem querem depender do mar”. “Em qualquer lugar a gente consegue uma casa pra morar de caseiro”. Agora, vendo a marginalização dos netos, das gerações posteriores da minha gente, sinto uma dor no peito. Eles se amontoam em pequenos lotes, trabalham em condições questionadoras de dignidade, se inveteram em vícios que cavam ainda mais a vida miserável. Pior ainda é escutar de pessoas servis ao sistema, escravos da massificação cultural, assim se expressarem: “Caiçara é preguiçoso, não gosta de trabalho”. O que essas pobres criaturas, quase todas migrantes ou descendentes, estão fazendo? Estão subservientes ao sistema, dando sangue para construir mansões, enormes prédios de apartamentos que, pouco a pouco destroem a natureza que nos cerca, a nossa “galinha de ovos de ouro”. Plantam casas nobres, moradias temporárias caríssimas, mas se espremem morro acima, em áreas de brejos de outrora; se suportam em cortiços, em barracos etc.

               Quando a minha filha era pequena, de vez em quando recebia o “castigo” de ficar sentada e ficar por um tempo olhando para o nosso quintal. Que castigo!!! Por tudo isso eu continuo amando minhas plantas e plantando mais ainda, questionando o modo de produção que prioriza o lucro a qualquer custo.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O CARÁ DO ARGELO


Final da colheita dos carás (Arquivo JRS)

               Inverno, para nós caiçaras, tem um gosto especial por diversos motivos (tainha, festa junina, fandango, festa do Divino...), mas o que importa hoje é falar dos carás: roxo e moela. Fomos criados aguardando esta época do ano. Portanto, além dos sabores em si, da sustância desses frutos da terra, tem ainda a reminiscência dos momentos em família, da disputa em coletar pelas matas essas iguarias.
               O cará moela dá nas tralhas pelos galhos das árvores; o cará roxo dá na terra, necessitando cavoucar com cuidado a cepa, de onde saem suas tralhas. É lá que se encontra a grande preciosidade!  Ambos têm tralhas que se espalham nos galhos altos das árvores. O sinal que está no ponto de colheita é quando as tralhas começam a secar nos muitos pontos, pelas matas. Os nossos olhos foram acostumados, marcam os lugares nas antigas tigueras, onde se encontram essas inconfundíveis tralhas. A gente fica na espreita.  Seus lugares, suas localizações são conhecidas. Na verdade, uns passam aos outros essas localizações, pois sempre houve partilha nas coletas. É por isso que o Antunes não me deixa esquecer: “Já não é tempo de ir à estrada da Lagoa, no Morro do Cará?”. A vovó Eugênia, nessa época recomendava: “Quem for à Pedra da Igreja tem que esticar a pena até o Morro do Tatu para trazer cará”. Na casa da vovó Martinha era moleza, as tralhas cobriam uma frondosa aroeira na porta da cozinha.
               Quando a panela de cará estava na mesa, a vovó nos chamava para o café. Nunca faltava alguém que perguntava rindo: “É o cará do Argelo?”. Ah! Quem não imagina de que se trata, considerando nossas raízes culturais?

               Neste final de semana, conforme atestam as fotografias, cheguei ao derradeiro momento desta safra no meu reduzido quintal. Agora é só replantar a miuçalha que nos saciará no próximo inverno. Aos de fora digo que conhecer, mesmo parcialmente, é importante para respeitar a cultura local e ajudar a preservar esta terra que tudo dá. E viva o cará do Argelo!

sábado, 8 de abril de 2017

OUTROS TEMPOS DA PESCA

1960 - Cercando tainha no canto do Acaraú (Arquivo Igawa)


A PESCA EM UBATUBA 

O amigo Peter, em seu blog (canoadepau.blogspot.com.br) nos apresenta, via estudos do professor Diegues, caiçara de Iguape, coisas interessantes a respeito da pesca e da vida dos caiçaras em Ubatuba, há mais de quarenta anos, quando ainda não existia a rodovia entre Ubatuba e Paraty. Vale a pena ler o texto completo!


Interessante resgatar este documento que apresenta "subsídios interessantes a respeito da evolução da produção pesqueira e das técnicas de captura, das condições de comercialização, das relações de trabalho e participação social".
Embora seja um documento editado pela SUDELPA, a maior parte dos dados apresentados foram coletados pelo Prof. Antonio Carlos Sant'Ana Diegues entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970 em viagens de campo feitas em Ubatuba.

O que torna este estudo especial é que ele compõe um quadro da atividade pesqueira de Ubatuba em uma época de sensíveis mudanças socioeconômicas e culturais que impactaram fortemente a região. A abordagem do Prof. Diegues revela um panorama completo da percepção dos pescadores sobre questões como o impacto da abertura da BR e outros aspectos relevantes tais como: Histórico da atividade pesqueira em Ubatuba,  Produção por Espécie em Ubatuba, Valor da Produção,  Distribuição dos Pescadores por Praia, Tecnologia e Produção, Participação Social,  Dificuldade e Aspirações, Quadro de produtividade do cerco flutuante, etc.
Tudo isso permite um verdadeiro mergulho na atividade pesqueira de Ubatuba do início dos anos 1970 fornecendo valiosos dados que nos permite avaliar as mudanças e as não mudanças que ocorrem nos dias atuais, meio século depois.

Abaixo um trecho do TEXTO COMPLETO de "A PESCA EM UBATUBA, estudo sócio econômico", Antonio Carlos Sant'Ana Diegues, SUDELPA, 1974. 

"Por outro lado, o contato maior do embarcado com os centros urbanos maiores como Santos e Rio de Janeiro faz com que ele vá absorvendo valores urbanos que se manifestam inicialmente na maneira de se comportar, no modo bizarro de se vestir imitando os jovens da cidade, etc. Nas praias como Picinguaba, no "claro" pode-se observar os jovens embarcados trajando camisas estampadas, calças justas e usando cabelo comprido, fenômeno que não se encontra nos artesanais das praias geograficamente mais isoladas.

Um outro sistema de vinculação com as atividades agrícolas é o uso ou não do forno de fazer farinha de mandioca. Enquanto que 29,5% dos artesanais afirmavam ter o forno, somente 15.5% dos industriais o possuíam. Dentro das sub-categorias a diferenciação é até mais significativa, pois entre os artesanais "donos dos aparelhos de pesca" a porcentagem se elevava a 37.1% enquanto que para os camaradas, não passava de 12.5%. Evidentemente a subcategoria dos mestres de barco é a que mais se identifica com a pesca: nenhum deles exerce outra atividade paralela e não tem forno de farinha.

Em termos de praias é interessante se observar, que a atividade agrícola exercida conjuntamente com a pesca pelos artesanais é mais presente em praias como Ubatumirim, Camburi, ao norte do município. Aliás é Ubatumirim que possui o maior número de agricultores nessa parte norte do município e eles são fornecedores de farinha de mandioca para Picinguaba, núcleo agora mais especializado na pesca da sardinha. Já nas praias mais próximas à cidade as atividades complementares não são agrícolas e sim do ramo de serviços (construções civis, biscates, etc.) como é o caso do Lázaro, Enseada e Maranduba.

Quanto a algumas características gerais da população de pescadores é desnecessário se afirmar que vivendo em sua grande maioria em situação de extrema marginalização, pois seus rendimentos em geral só lhes permitem a sobrevivência, os pescadores apresentam baixos índices de alfabetização".

sábado, 1 de outubro de 2016

ALIADOS DA NATUREZA



Alcides, Solange Vasconcelos e Santiago (Arquivo: Cristiane Demarchi)

     Muito legal a iniciativa do Santiago em dar essa oportunidade de mais gente conhecer os saberes do povo caiçara através da fala do Alcides, do Camburi. É o que denomina-se etnoconhecimento. Daí a importância de não se perder a grande diversidade étnica deste planeta, de resgatar a etnobiodiversidade. Daí a importância de se orgulhar de nossas raízes culturais que, graças a esta condição única no planeta, resultou na cultura deste lugar (entre a serra e o mar). Parabéns, irmão!

Pausa para a pose (Arquivo Cristiane Demarchi)
Alunos de Biologia participam da palestra no Módulo. Tema: Agroflorestas

         A palestra sobre Agroflorestas, que ocorreu  na noite de quarta-feira (21/09), dentro da programação da XIV Semana Institucional do Centro Universitário Módulo, teve como convidados Luiz Claudio Santiago Bernardes e Alcides Alves Jorge.

    Santiago Bernardes é autor do livro Palavrandando. Biólogo e educador ambiental, ele dá palestras sobre as Agroflorestas na comunidade Quilombolas.
       Alcides Alves Jorge é artesão e agricultor quilombola, morador de Camburi, na região Norte de Ubatuba, e há oito anos desenvolve trabalhos de Tecnologia em Agroflorestas de plantios convencionais de monoculturas como mandioca. O trabalho é desenvolvido nessa região do município de Ubatuba, por sistema de mutirão e pelos povos caiçaras e quilombolas.
        Essa tecnologia ameniza limitações do terreno, minimiza riscos de degradação inerentes à atividade agrícola e aperfeiçoa a produtividade para a comunidade.
         O objetivo do projeto é unir conhecimento, vontade, disposição para junto à comunidade dar continuidade ao processo de regeneração da floresta através de espécies arbóreas. Outro objetivo é a produção de alimentos, baseada em alimentos limpos e saudáveis.
          Natália Francione, 20, é uma amante desse movimento de Agroflorestas. Ela esteve presente na palestra e já participou nos mutirões. Aliás, ela afirma ter conhecido Alcides através deste movimento.
          Para Natália, na restauração da área degradada é muito importante falar de Agroflorestas e de manejo sustentável. “Seu Alcides é um exemplo de ser humano que se preocupa com essas práticas antiga de queimadas. Ele sabe que isso é uma terrível degradação do solo”. Alcides vem desenvolvendo projetos na área dos Quilombolas para amenizar este impacto. “Plantando, colhendo e semeando. Esta é a ideia. Só assim podemos matar a fome do povo”, afirma Natália.


domingo, 24 de julho de 2016

FEIRA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL - RELATOS (III)


Embarque no Saco do Sombrio com Rê, Vera & Cia (Arquivo História)


TIRANDO DA PEDRA, COLOCANDO NA REDE
                                                                   Pedro Antônio dos Santos

No final da década de 1980 até os primeiros anos da década de 1990, os professores Pedro e Vera, meus  compadres, viveram na Ilha dos Búzios, no arquipélago da Ilhabela. Sibila e Pedrinho, a prole de então, eram duas graciosas crianças. Neste relato aparece a contribuição deles à Feira de Educação, de 1993.

Introdução:
Esse projeto foi possível graças ao Curso de Mitilicultura oferecido pelo Instituto de Pesca, pelo fato da Ilha dos Búzios possuir excelente banco de sementes e também devido à carência da comunidade local por novas alternativas econômicas.
Fazendo cursos, participando de encontros, procurando as mais diversas instituições, além de pesquisar (costumes e necessidades) e consultar personalidades diversas do local e de “fora”, procurando entender o processo de cultura em que nos inseríamos como profissionais da Educação e também como “moradores”, descortinou-se um mundo de situações em que a técnica haveria de ser repensada e, as adaptações que se faziam necessárias iam além de criatividade e da motivação “do momento” (de aula), pois o que se vê simples e comum nem sempre o é. E aqui não foi diferente.

Desenvolvimento:
Em janeiro houve o curso... e quando foi colocada a ideia de acompanhamento do trabalho escolar, aproveitamos o trabalho que a comunidade vinha desenvolvendo e aplicamos como tema central das atividades escolares, já que o mesmo motivava bastante, sendo de domínio das crianças a situação que envolve a captura, venda, alimentação e o ambiente em que vive o animal. Aqui vai um adendo: o sentido, as expressões e o próprio significado das palavras têm características que na comunicação geral passam despercebidas. Explico melhor: a expressão oral se faz, porém sem definição das ideias trocadas; isto quando a comunicação é feita com pessoas de fora da comunidade. Passamos então a organizar os conteúdos que poderiam ser desenvolvidos mantendo a interdisciplinaridade, sem forçar uma “nova matéria”, pois isso ficaria para o momento da ação, orientado pela motivação e necessidade.
A partir do roteiro básico, dentro da Proposta Curricular, de seu conteúdo, idealizamos algumas atividades globais que norteariam o trabalho: a- excursão à costeira, b- classificação dos seres da costeira, c- coleta de mexilhões para a semeadura (separação – panela – dimensionamento), d- semeadura, e- fundeio, f-monitoração, g- coleta, h- discussão conclusiva ou final.
Para a execução desse roteiro levaríamos o ano inteiro, o que nos incentivava – e muito! – já que formaria um elo evolutivo não só dos conteúdos das disciplinas, mas da vida em si que enriqueceria em muito a compreensão, pelas crianças, da necessidade diária de trabalho para consecução de qualquer “coisa” (profissão, estudo, crescimento corporal etc.). Uniríamos o todo às suas partes.
Essas atividades dariam margem no cotidiano escolar a todo desenrolar programático das disciplinas já que, de cada uma delas surgiriam: textos orais e escritos, palavras novas e novos significados das palavras conhecidas (exemplo: costeira e Costeira não diferem no oral, porém para as crianças “dos Búzios”, Costeira é um bairro e costeira de pedras...). E sem dar menos importância, estaríamos trabalhando a HARMONIA, ou seja, com a compreensão dos processos de desenvolvimento, de todos os mecanismos e necessidades que envolvem os seres. Nossos alunos estariam compreendendo a si, aprendendo a estabelecerem  relações com os demais seres e o ambiente no todo e nas partes, formando conceitos que os habilitem a um desenvolvimento sustentado” em todos os setores da vida.

Algumas pessoas da comunidade toparam o projeto. E, valendo-se da tradição da comunidade local, o Sr. Maneco, na primeira oportunidade em terra, preparou as âncoras e cabos remendados (tudo improvisado), garateias velhas etc. O material básico utilizado na colocação das tiras e boias foi improvisado no próprio local. Começamos então a trabalhar o tema com os alunos através dos conceitos sobre o ambiente entremarés costeira.  (É bom lembrar que na Ilha dos Búzios não existe nenhuma praia). As sementes (pequenos exemplares selecionados de mexilhão) para confecção das redes foram tiradas na costeira próxima à escola. Nesta fase os alunos observaram e discutiram a vida dos seres no ambiente de costeira fazendo a relação do conhecimento “local” com o “escolar”, ou seja, houve uma grande troca onde eles colocaram todo seu conhecimento prévio como comunidade e nós transmitimos nossos conteúdos enquanto educadores. Assim, enquanto a ideia era trabalhada em sala de aula com texto (alfabetização) e outras atividades, o cabo do “long line” foi fundeado com a participação dos alunos e da comunidade. O material improvisado não oferecia resistência adequada, necessitando do máximo de cuidado, levando-se em conta o uso de canoa e condições de tempo. O processo seguiu com comentários constantes em aula, onde se analisava as opções que a mitilicultura oferecia aos alunos e comunidade em geral.

Desdobramentos:
M E X I L H Ã O → lixo → lixão  →  - Onde fica? – No buraco.  –É? Como? – Tudo junto? – Não! – Então como se faz? – Faz adubo! – Onde?  - No buraco! – E do buraco vai pra onde? – Vai pro Saco!
LIXO – higiene – saúde. REMÉDIO – saúde. PLANTAÇÃO – alimentação – geração de renda – saúde.
QUEIMADA – extinção de madeira para canoa – artesanato.
MATA – animais – criação – caça.

Aspectos positivos:
A mitilicultura é hoje uma alternativa econômica viável e desejável, possibilitando ao pescador manter sua “renda” em períodos de defeso e ainda oferece outras possibilidades que a pesquisa nos revelará. Sendo assim se justifica a necessidade de incluí-la nas atividades escolares em nosso município, unindo “economicidade e preservação”. A cultura dos mexilhões sendo bem orientada pode ser um estímulo à preservação.

Aspectos negativos:
O IP (Instituto de Pesca) e a CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral) supervisionaram a experiência qualificando-a como bem sucedida já que, conforme o mapeamento feito pelos oceanógrafos, o Saco das Guanxumas, localizado na Ilha dos Búzios, era inadequado para o cultivo. O Instituto de Pesca disse que o crescimento das sementes estava muito bom e que a colheita deveria acontecer com sucesso. O triste da história é que o cabo afundou durante as férias escolares e não se efetivou a colheita, não havendo assim a possibilidade de avaliação do que realmente aconteceu. Porém, toda a experiência mostrou a simplicidade da técnica e a viabilidade do trabalho tanto com o aluno como com a comunidade. Não foi feita a avaliação por não terem recolhido os cabos, mas a comunidade se convenceu da viabilidade do cultivo, representando uma grande vitória pela tradição de resistência desse tipo de comunidade.

Conclusão:

A aplicação do projeto trouxe resultados além dos esperados pois, além da gratificação da realização em si, conseguiu-se um intercâmbio com a CATI (Engenheiro Agrônomo Maurício P.R. Alves) e IP (Sérgio Ostini) que “visitaram” o micro-line (espinhel de mexilhão) considerando válido o experimento, visto que os mexilhões se fixaram bem, desenvolvendo-se dentro dos padrões. No aspecto escolar foi grandioso, pois as crianças verificaram sobre aquilo que acreditavam já saber tudo, aprenderam novidades e curiosidades. Puderam manipular e monitorar o desenvolvimento enquanto trocavam conhecimentos e tiravam dúvidas. A maior delas era: “Será que cresce na corda?”. A comunidade, mesmo quem era jovem, achava que não daria certo. Ou seja, com a conclusão do projeto o efeito do trabalho foi maior, mostrando assim como atividade de Educação Ambiental integradas ao currículo, de forma interdisciplinar, rendem um aprendizado concreto e construído ali mesmo, no contexto cultural. 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

QUE PEPINO!

Primeira colheita após 40 anos (Arquivo JRS)

                Neste ano (2015), estou tendo o prazer de trabalhar no Massaguaçu, em Caraguatatuba. Meus colegas são maravilhosos! Dá muita satisfação perceber o quanto somos responsáveis pelo brilho em tantos olhos que vão desvendando o mundo pelos estudos, pela reflexão com parâmetros de adultos no mundo do trabalho. Mas... além disso, quero contar  aos leitores uma surpresa bem minha: trata-se da redescoberta de uma planta, na verdade um cipó. Ou melhor, de uma espécie de pepino que, na minha infância abundava no litoral, nos espaços onde os caiçaras brincavam e coletavam frutos.
                A última vez que apreciei desse pepino, cuja dimensão está em torno do tamanho da unha do meu dedo polegar, foi aos treze anos, quando trabalhava como servente de pedreiro na Praia da Enseada, na construção do Hotel Nosso Cantinho. Toda aquela área, de mata maravilhosa, repleta de maracujá roxo e de pepino, era do “Inglês”, o falecido companheiro da Dona Jovina. Portanto, passei quarenta anos na busca desse fruto tão singelo, que se esconde trepando pelos galhos de algum terreno nativo. "Ele estava ali, bem perto da escola, logo depois daquele lindo bambuzal. Sorte que os meus olhos buscavam algo".
                Agora, depois de conseguir formar mudas, já estou coletando pepinos no meu quintal. Grande satisfação é poder apresentar tal fruto, com gosto de infância, à minha esposa, à minha filha, ao meu filho e a outras pessoas que tanto estimo.

                De vez em quando me recordo de outras frutas, de outras raízes e de algumas plantas que há tempo não vejo. Tenho certeza que elas se tornaram raras (ou sumiram?) porque os espaços foram ocupados e aterrados devido à especulação imobiliária, com casas ficando até anos sem hospedar ninguém. É assim que a terra perde a função social e deixa-nos com saudades de outros seres (plantas, animais...) que também foram desalojados do chão original.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

CHIRUNGO

Aí tem tatu! (Arquivo JRS)
Chirungo (Estevan)

               - Tio Neco, com é mesmo o nome daquela armadilha de caçar tatu?
               - É chirungo, Zé.
               Assim comecei umas das prosas de sábado com o Tio Neco. E ele se embalou nos detalhes:
               - Perto de nossa casa, no Sapê, tinha o tatu da vargem e o tatu do morro. O tatu da vargem é preto; o do morro é vermelho. Dos dois a gente pegava no chirungo. Era assim: ao encontrar uma toca de tatu, a gente cortava um monte de varetas com mais de metro de tamanho. Ia fincando em círculo, deixando o buraco do bicho bem no meio. No alto das pontas, com um cipó resistente, era feita uma amarração, formando uma espécie de funil de cabeça pra baixo. Depois, entre as varetas, a gente enchia de terra até em cima. Ficava lá. Ao sair, o tatu ia cavando para cima até chegar ao ponto máximo, no funil. Aí, sem espaço de manobra, ele ficava encurralado, preso.   Depois, para a nossa alegria esfomeada, bastava levar para a mamãe preparar a refeição.
                     - E ouriço, Tio? Eu me lembro pouco das vezes que vi a vovó preparando esse bicho.
               - A gente comia muito ouriço também. Ele tem pele caruguenta  (enrugada); deve ser pelado (passado no fogo) como gambá.  Assim que queima as pontas dos espinhos, eles caem porque a vida deles está na ponta. É por isso que eles andam pelos corpos que espetam.
                  - Tinha tanto ouriço assim, Tio?
               - Tinha sim. Tinha de dois tipos: o cacheiro que é mais escuro, grande, de espinhos amarelados; e o cachimbo que é pequeno, peludo, branco. Seus espinhos ficam escondidos entre os pelos compridos.
                    - Eu não conheci o ouriço cachimbo, Tio.

               - Não? Antigamente era fácil de encontrar deles pelos caminhos, nas árvores. Eu me lembro de uma ocasião quando eu e o Dito, ao levarmos a comida para o Girdo e o padrinho Antônio que trabalhavam no engenho de pinga da Maranduba, avistamos um ouriço cachimbo no galho de ingá-feijão, que tinha muito na beira do rio. Largamos o caldeirão de comida no chão e partimos para a caçada. Depois de muitas tentativas, derrubamos e matamos o bicho. Na volta, recolhemos o coitado e levamos para a mamãe. Eu tinha oito anos e o Dito dez. A gente ficava todo orgulhoso em levar uma caça para casa, em contribuir com a alimentação de todos. 

domingo, 31 de maio de 2015

PROSEANDO COM TIO NECO

Tralhas de perruchiu, onde nasce a resistência do jundu.  (Imagem da internet)

               Aos sábados é sagrado o meu ritual: bem cedo estou tomando café com o Tio Neco, na Estufa. O meu filho Estevan sempre me acompanha e também participa da prosa. É comum as novidades e causos para rirmos juntos. Prosa boa é assim.
               De vez em quando eu aproveito para clarear minhas lembranças. O Tio Neco tem me ajudado muito em assuntos que pretendo escrever como nossas coisas de caiçara. Hoje, o assunto é perruchiu. Não sabe o que é?
               Perruchiu é uma plantinha do começo do jundu. Ou seja, só nasce na areia das praias, quando vai começar a se formar a mata resistente dos nossos jundus. É uma vegetação rasteira, de folhas estreitas, pequenas e bem suculentas que prefere as praias de areia grossa, mas que também é encontrada nas outras praias. Agora, devido aos muros e pontos comerciais que invadem nossas praias, desconfio que essa planta corre sério risco de extinção.
               - Tio, como é mesmo o nome daquela plantinha, que cresce na areia da praia, usada antigamente para fazer comida?
               - É perruchiu, Zé.
               - Dessa planta por nome de perruchiu, a mamãe fazia um caldinho com fubá delicioso. Não tem como se esquecer daquele sabor inigualável. Ficava ainda melhor quando era cozida com pregoava. Às vezes colocava arroz... ou apenas farinha da terra, coisa que nunca faltava. Sempre quebrava ovos em cima para aumentar a sustância. Assim crescemos.
               - É mesmo, Tio! Ai que saudade disso tudo!
          - Naquele tempo tinha de apelar para o que tinha.  Era preciso aproveitar de tudo para a nossa alimentação.  Acredito que muito daquilo que nós aprendemos, que garantiu a nossa existência, era herança dos índios.
              - O senhor tá certo, Tio. Era mesmo! Por isso estamos vivos até hoje.
               - Nesta época, de maio até fim de junho, todos queriam capturar gambás (ou raposa). A gente armava cumbu toda noite. Quase sempre não falhava. No dia seguinte era só consertar e comer.
               - Pode explicar a limpeza do gambá, Tio?
             - Depois de morta, passa o animal no fogo e faz a pelação (raspagem da pele com uma faca). A cabeça, a parte superior desde o focinho, é descartada. Língua e céu da boca devem ser limpados puxando uma pele que se solta facilmente devido ao fogo que recebeu. Em seguida, um corte vai abrindo o animal pelo meio, retirando algumas pelotas de carne morta que se encontra pelo pescoço, debaixo dos braços e noutros lugares. Ao abrir em duas metades, vai puxando os órgãos e as tripas até chegar perto da bunda. Próximo do rabo está a catinga dela. Um corte preciso permite remover o que se ajuntou e mais esse local delicado. Se errar, perde toda a carne. A bolsa, se for gambá velha, também é descartada. Depois, basta dar uma fervura. Se quiser fritar – que é melhor, né? – recomenda-se deixar num tempero preparado com alho, cebola e limão. E, finalmente... bom apetite!!!

               - Pode parar, Tio. Já estou com água na boca!

quarta-feira, 1 de abril de 2015

SOPA DA VOVÓ

Vovó Martinha (Arquivo JRS)

                No livro Navegando, o saudoso  Rubem Alves pergunta   (e esclarece!):
                “Você já ouviu falar em sopa de coentro? É sopa de portugueses pobres, deliciosa, com muito azeite e pão torrado. A sopa desce quente e, chegando no estômago, confirma”.
                Ah! Fiquei imaginando essa iguaria lusitana! No mesmo instante me recordei de uma sopa que, de vez em quando, a Vovó Martinha preparava. Era assim:
                Numa panela com água ela punha alho, cebola, coentro do mato, hortelã-gorda, tomatinho de peixe e sal. Se usava outros ingredientes, agora não me vêm à memória.  Só sei que aquele caldo fervia por pouco tempo, mas espalhava cheiro pela vizinhança. Então ela destampava a vasilha, quebrava três ou quatro ovos e mexia bem rapidamente. Em seguida apagava o fogo e dizia:

                “Tá pronto. Agora é só pegar o prato e se servir. Na cuia tem beiju pra molhar no cardo. Quem quiser escardado, despeje logo farinha no prato antes que esfrie. Pra quem gosta  também tem pimenta”. Era simples assim. Desse modo se atravessava a vida. Faz-me lembrar de outro escritor, do Guimarães Rosa que escreveu que “a coisa não está nem na partida e nem na chegada, mas na travessia”.