quarta-feira, 28 de outubro de 2026

VOCÊ TEM QUE SABER

 

Flor azul - Arquivo JRS 


 “A vós bradamos os degredados filhos de Eva...” 

 

       Quem foi expulso, precisou sair de sua terra para se manter vivo, sobrevivendo em outros lugares, é degredado, filho de Eva.   Aqui, neste chão brasileiro, de Ubatuba, com exceção dos povos originários, todos são “filhos de Eva”. Não importa se chegou ontem ou se descende de povos estrangeiros que foram degredados, migrantes de grandes distâncias, de 500 anos para cá. O certo é que somos degredados sempre, buscamos uma terra melhor. Jesus, se acreditamos no Evangelho, disse que veio para que todos tenham vida plena.

      Lideranças políticas, no verdadeiro sentido da palavra, nos ajudam enxergar e lutar por vida plena. Alguns professores e professoras que tive me ajudaram muito nesta direção de entender sobre política. Quem primeiro me falou do Lula, do Partido dos trabalhadores, foi a prima Ângela, em 1981. As Cônegas de Santo Agostinho, que possibilitaram outros horizontes a muita gente caiçara, eram sensíveis às causas sociais; muitas delas eram da classe média ou alta daquele tempo. Uma delas, Ir. Laura Sampaio, prima do saudoso Plínio Sampaio, numa tarde em que eu visitava a prima Ângela no internato da ALA (Assistência ao Litoral de Anchieta), nos convidou para tomar café com ela. Naquele momento as duas me introduziram no contato com outra visão política. “Presta atenção nisso, Zezinho. Você precisa saber”. Ou seja, uma alternativa surgia se opondo aos dois partidos (MDB e Arena) permitidos pela ditadura militar. Aí eu me sindicalizei e comecei ampliar meu mundo, ter outras perspectivas de degredado. Transformei a minha cultura, expandi; estudei para compreender as raízes da exploração humana e possibilitar revisões de vida continuamente para não trair o sonho de um mundo melhor. E isto sigo cultivando, regando e zelando a cada dia!

    O “Vale de Lágrimas”, da oração católica da Salve Rainha, pode ser muito piorado pelo “Vale dos FDP” que conta com gente minha, que cresceu comigo comendo peixe com banana verde e farinha. Se dizem pobres, mas querem massacrar os mais pobres; se dizem cristãos, mas trazem a coroa de espinhos e pedem a crucificação dos demais degradados, da multidão que serve aos interesses dos mais ricos e são descartados. Resumindo: são mostras de sepulcros caiados, hipócritas e fariseus do nosso tempo. Tiveram suas raízes corrompidas pelo joio semeado com o passar dos anos, se revoltam com os próprios parentes que têm fome e sede de justiça e estão buscando luz. Pensam e se comportam como os ricos. “Nada disso de repartir com os pobres!”. Miséria cultural? Maldade? Desvio de caráter? É, pode ser tudo isto!

      Beijos e abraços à nossa brava gente brasileira. Muita força à irmandade, sobrinhada e demais parentes que não esmorecem. Nossa solidariedade às primas Renata e Roberta. Parabéns, mano Mingo!

terça-feira, 27 de outubro de 2026

RELANCES DEMOCRÁTICOS

 

Imagem:  gratidão ao Marcos Martimiano


 

1- Era cedo, dois meninos brincavam com bola na rua. Os dois, entre 5 e 7 anos, se encontravam vestidos como jogadores da seleção brasileira de futebol, até meias azuis de destacavam nas pernas finas. O menor deles adentrou no quintal e eu ouvi em seguida a pergunta inocente: “Vó, tô parecendo com o Flávio?”.

2- Um jovem portando uma mochila deu demonstração de querer conversar. Eu me embalei e muito feliz me despedi dele duas horas depois. Paulo estava chegando de Niterói, RJ; é aluno de Pedagogia na Universidade Federal Fluminense (UFF), viera para votar, depositar sua confiança num quarto mandato para o Presidente Lula. É graças aos programas sociais do governo federal que ele que está distante de Ubatuba, cursando numa universidade pública. O rapaz, filho de um companheiro de obra, pedreiro, não demorou muito para, todo feliz, abrir imagens no celular das manifestações que fizeram os discentes da UFF, onde o medo de retorno do país à barbárie acendeu o pavio das manifestações que resultaram na vitória do candidato petista.

3- Na parte da tarde, durante a manifestação alegre na praça da pista de skate, duas moças com estereótipo de “religiosas bem comportadas”, passando pela multidão agitando bandeiras, gritando palavras de ordem, comentaram: “Essa gente é maconheira; nunca vamos votar na esquerda, no candidato de tipo assim”.

4- Um jovem enfermeiro gay, pobre, batalhador como a maioria, filho de migrante pernambucano amigo há décadas estabelecido no bairro da Estufa II, se agitava todo sorridente na manifestação pró miliciano mentiroso e criminoso. Ao me ver demonstrou vergonha. Ele sempre soube do meu posicionamento político. Será que se enxergou como incoerente naquele instante?

5-  Um veterano da cidade, apenas conhecido de vista, estava bem próximo da Onda Vermelha na praça. Assim que bateu os olhos em mim, interpretando que eu apenas era um observador de toda aquela agitação, disse: “Eu não estou nisto não. Eu voto no Flávio”. Aí eu retruquei: “Ah é?!? Pois saiba que eu voto no Lula!”. Ele abaixou a cabeça, não disse mais nada.

4- Dentre toda aquela moçada e aquelas famílias com seus filhos avistei a Nalva, outra retirante nordestina que se compôs na cultura caiçara. Gritei: “Eis a nossa militante porreta!”. Carinho, sorrisos e palavras vieram, seguem nos movendo na esperança de uma sociedade mais justa, sem ódio; superando discursos que querem inferiorizar a maioria em detrimento de pouquíssimos neste chão. Parabéns aos familiares e amigos que me fortalecem na utopia de um mundo melhor! Com o poeta Zé Vicente, amigo cearense de décadas,  me despeço: “Quando o dia da paz renascer eu vou cantar...”

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

SOMOS A TRINCHEIRA

 

Viva o Brasil! - Arquivo PT

     O dia foi de muita tensão. No portão da escola, me encontrando com o Marcelo, recebi as primeiras palavras animadoras, de esperança: "A coisa tá diferente hoje, tem muita gente entrando de vermelho, com adesivos, revelando que vai votar no Lula". 

     De fato havia um clima diferente do primeiro turno, quando a sujeira imperava ao redor do local de votação, um ambiente degradante, cheio de gente se identificando como remunerados para gritar bobagens a favor de candidatos reacionários, da extrema direita. Deu no que deu.

    Depois de ter confirmado o meu voto, me juntei ao Marcelo e uns dois a mais buscando argumentar com velhos conhecidos que iam chegando. Poucos mostraram desprezo às nossas falas. Conforme grupinhos se aproximavam, eu escutava: "Nem adianta com esses, são cabeças feitas pelo pastor", "Esse é bitolado pelas redes sociais, tá alienado de tudo" etc. Mas não arredamos dali, seguimos acolhendo e conversando com todo mundo. Teve um período, de mais de hora, que uma moçada do bairro, uns seis rapazes bem animados se postaram nos arredores e se empenharam na mesma intenção. Brincavam, riam e lançavam divertidas frases aos seus conhecidos. Pareciam saber identificar em quem cada cada eleitor ou eleitora votaria. 

      Eu e Marcelo ouvíamos das mostras de golpe acontecendo, principalmente nas cidades de São Paulo e Salvador, com prefeitos suspendendo o transporte coletivo. Uma companheira chorava de ódio. Chegamos ao final da eleição, veio a apuração. Em casa, acompanhando tudo pelo ICL, pela maravilhosa equipe de jornalistas, vibramos muito quando eles cravaram  Lula como vencedor; o foguetório na vizinhança revelou que havia uma multidão contendo a esperança de ver mais um período do nosso Brasil nas mãos do "Filho do Nordeste", do imigrante metalúrgico debochado por seu opositor durante toda a campanha. Venceu a esperança! 

       Venceu a esperança não apenas nossa, mas de multidão mundo afora. O Brasil, no dizer repetido, era "a última trincheira contra a onda reacionária, contra  a extrema direita, contra o nazifascismo".

      A trincheira é a mobilização da juventude que despertou nossas forças. É a reação organizada dos diferentes grupos, da diversidade regional e étnica que reconhecem as conquistas sociais empenhadas pelo cidadão que se tornou liderança do nosso país e respeitado no mundo inteiro.

      A trincheira é a ressaca vermelha em chão caiçara. Aquela massa na Avenida Yperoig desmerecida por exploradores, por gente que se acha rica e poderosa. Ela fez a diferença. Cada voto nosso está nesta barreira, nesta trincheira que somos neste novo dia. O amor venceu o ódio.

sábado, 24 de outubro de 2026

ESCOLHA REVELADORA

 

Mar desafiador - Arquivo Jairo

      Vem aí a eleição para a presidência do Brasil, do meu país. Evoluímos de colônia portuguesa a república. Já tivemos séculos de perseguição aos povos originários e de açoites ao povo negro, aos filhos da África tornados escravos, mercadoria para  enriquecer algumas famílias. Tivemos períodos de ditadura, onde militares tomaram as horríveis medidas para conter o povo resistente a projetos de morte. Alguns presidentes ousaram em defender a soberania, promoveram medidas que amenizaram o sofrimento da classe trabalhadora, dos historicamente marginalizados e explorados. 

      A nossa última Constituição Federal, de 1988, avançou muito em garantir os direitos sociais. Um partido político se destacou dentre os demais na mobilização dos grupos organizados, projetos originais chegaram aos parlamentares constitucionais sob a batuta de Ulysses Guimarães. Um renovado país poderia surgir sob novas leis.

     Na esteira democrática vem os governos populares, que fizeram os programas sociais e alavancaram a redução das desigualdades na sociedade brasileira. Revoltados, os mais ricos se aliaram a uma parcela dos militares e deram um novo golpe na Pátria. Mas há sempre uma brava gente brasileira que resiste! Por isso Lula foi reeleito e afrontou o quanto pode, peitando um Congresso Inimigo do Povo, conduzir os seus ideais pautados na vida de retirante nordestino e de líder metalúrgico que o distinguiu na atuação dos interesses da classe, na militância política. 

       Vem aí a eleição da nossa vida. O idoso, que já é o maior presidente que tivemos, o mais respeitado por todo mundo, que ainda tem energia para estar na frente da batalha, está sendo desafiado por um ser que nunca trabalhou, mente costumeiramente, apoia as milícias e parece estar envolvido em crimes que correm o risco de nem passar por apurações caso seja eleito. Ficarão sob sigilo centenário. Os golpistas da Pátria ficarão livres. O Brasil perderá a soberania e nós regrediremos ao status de nação colonial, com a Amazônia e outros sistemas destruídos pela ganância de elementos internos e externos, sobretudo dos EUA. A tal "escolha difícil" promovida pela mídia dos poderosos é está: um idoso respeitado, que incluiu o pobre no orçamento, ou... um ser imoral, que nunca teve vida de trabalhador honesto, sem ética alguma?  O mar é desafiador. Toda a Constituição pode ruir, ficar debaixo de escombros.

  A minha escolha revela o meu caráter. Sou livre para fazê-la, mas não sou livre para escapar das consequências.

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A JUVENTUDE É REVOLUCIONÁRIA

 

Arte: ultralafa03 

"A juventude é a morada perfeita para os sonhos" - Renato Freitas


       Uma onda nova, de maioria jovem, assola o Brasil. Que legal! É nossa gente se mobilizando contra a interferência externa, dos EUA, na nossa soberania, na democracia que ainda rasteja após o Golpe Militar (1964-1985). A propósito, os milicos ainda estão de bote armado, seguem gestando futuras traições ao povo que os sustentam. Eles alimentam alianças espúrias com uma minoria que se alimenta da servidão de quem trabalha. Resumindo: são contrários ao exercício da cidadania e da evolução do processo civilizatório.

       Pela internet vou assistindo, ouvindo gente do povo e lideranças. Essas manifestações são garantias de vida digna às futuras gerações. Estas precisam da minha e da sua coragem. Não podemos nos acomodar perante o perigo do retrocesso da sociedades, da humanidade. Somente a verdade nos libertará. 

      A força da juventude, essa energia que nos contagia, é "um luminoso raio de esperança pairando no horizonte de nossa terra". Esta citação, do saudoso Seo Filhinho (Washington de Oliveira), está no contexto de quase um século, quando foi inaugurada a ligação entre Ubatuba e Taubaté.

    Naquele tempo, em meados dos anos trinta, Ubatuba já havia conseguido precaríssima ligação rodoviária com Taubaté, "atamancando" velho e abandonado caminho de tropas que servia no segundo Império. E essa ligação, precaríssima rodovia que mal dava passagem a fordecos "pé de bode" para um exaustíssimo percurso de cinco ou seis horas, quase inibia a passagem de camionetas, e de maneira  alguma permitia o estabelecimento de linhas de ônibus. Caminhões e ônibus vieram por ela muito tempo depois. Mesmo assim a inauguração daquela estrada de rodagem, na noite de 21 de abril de 1933, representou para nós uma válvula respiratória, cintilava como um luminoso raio de esperança pairando no horizonte de nossa terra.

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

RAIOS DE ESPERANÇA

 

Rosa no terreiro -  Arquivo JRS 

      Escuto a chuva, penso nas plantas que dão suas contribuições à vida no planeta. Sei que, neste momento, um mar de gente segue na luta por um mundo melhor. Felizmente muitas pessoas trabalham honestamente, se consomem pela vida melhor que desejam a seus filhos, não abandonam a bandeira da justiça e não cedem terreno às ideias reacionárias, de morte, que pretendem sinistrar a democracia, a soberania e a cidadania no nosso país. Só lamento - e me revolto! - em ver, se compondo na escumalha do esgoto sob a vastidão do mar, pessoas da nossa cultura caiçara, parentes que renegam suas origens; levadas a isto por acolherem discursos de ódio em seus corações. Botando reparo neles, quem não vê que apenas da boca para fora sai a frase de que "a verdade vos libertará", que seus discursos e posicionamentos apenas revelam daquilo que "o coração está cheio"? Imagino que esses "fariseus, hipócritas" estariam, no tempo do "jovem galileu que tinha tanto amor", gritando, atirando pedras, xingando e implorando a Barrabás que soltasse o ladrão e crucificasse aquele que nasceu pobre, numa manjedoura. É a História se repetindo como tragédia.

       Amanhece agora com uma chuva fina que me faz relembrar os caminhos orvalhados da infância, os pescadores molhados embicando canoas no lagamar com o sustento que o mar ofertou. Amanhece agora com minhas energias direcionadas às multidões por todo o Brasil em ação, nas manifestações por um amanhã melhor. Grito como o povo no fandango na espera do sol da vida: Amanheeeece!

    Olho para a roseira e sei que essa raça impura, que continua "semeando o joio no campo", almeja excluir o pobre do orçamento.  Por isso me junto na grande convicção que move multidão: a primavera não será detida, os campos florirão e a colheita nos alegrará.

    Amanheeeece, meu povo!

terça-feira, 20 de outubro de 2026

NÓS FALHAMOS

 

Um grande cogumelo - Arquivo JRS 

      Sempre estou cavando um dedo de prosa pelos caminhos. Todos nós precisamos disto. Anteontem parei um cidadão na beira da estrada, puxei um conversa para saber mais da história daquele lugar, como era antigamente, de que viviam etc.  Ele, João, disse que não era dali, veio parar no bairro depois que a fazenda foi vendida e as famílias dos camaradas foram despejadas. "O meu avô trouxe a gente pra cá. Tinha uma escolinha, mas não existia o posto de saúde. Depois fecharam o lugar onde a criançada estudava; passaram a mandar um carro para quem quisesse estudar na cidade. Era difícil, quase todo mundo precisava ajudar em casa, na roça. As coisas ficaram melhor faz pouco tempo, uns vinte anos ou pouca coisa a mais. Hoje tem médico uma vez por semana para atender o povo, tem ônibus escolar três vezes por dia, tem ajuda do governo para quem mais precisa...". 

        Aprendi muito escutando o João. "É aposentado?". "Não, mas já tenho um advogado fazendo um trabalho pela minha aposentadoria". "Vai votar em quem?". "É claro que vou votar em quem melhorou a nossa vida! Como vou cair nessa armadilha do filho do outro que não fez nada por nós, que  vive mentindo?".

        João é idoso. Lula mais idoso ainda. Quando eu vejo um pessoal que já ultrapassou a minha idade se posicionando de forma tão firme pela vida, pela dignidade humana, não arredando nem um passo de suas convicções, e, ao mesmo tempo, avisto tantos mais jovens torcendo pelo pior dos mundos, eu sinto que falhamos. Idosos deveriam curtir o que lhes resta de vida, contar histórias nos bancos das praças, se alegrar pelo mundo, pela contribuição dada desde os tempos de maior vigor. No entanto, eles se desdobram em tarefas pela própria sobrevivência e pelos seus. O mundo parece ter piorado. Quer prova maior ao saber dessa massa apoiando, se desmerecendo por aqueles que, comprovadamente, tem os piores defeitos morais, se orgulham de roubos e mentiras, praticam o que há de pior para viver às custas dos trabalhadores, de gente honesta, tal como o João, a Doca, a Ângela e muitos outros que resistem na lida, acreditam na promessa de um mundo melhor? Quer prova maior de que a nossa geração falhou feio?