quinta-feira, 28 de maio de 2026

O QUE É A REPÚBLICA?


Harumi, Satiko e Minoru - Arquivo Mirtes



       A querida amiga Harumi Honda, a nossa Mirtes, depois de ler no blog a crônica PÁTRIA LIVRE OU..., nos enviou a fotografia dos irmãos e fez o seguinte comentário:


   Nessa época, eu e minha família havíamos saído, ao meu entender, do paraíso. Vivíamos em Renópolis, um pequeno vilarejo encravado na Mantiqueira. Tinha os meus dias livres de criança que se deslumbrava com o mundo sendo de todos. Meu pai lecionava japonês aos filhos dos colonos japoneses, vivíamos sem cercas ou porteiras. Onde dava frutas, comíamos, onde havia riacho, refrescávamos. Não havia maldade, cumprimentávamos os adultos com muito respeito e ainda voltávamos para casa carregados de castanhas que ganháramos para levar aos pais. Tudo era simples. Papai (Ototian) achou que chegara a hora de dar aos filhos educação urbana e condizente com os novos tempo. 

         Chegamos a Taubaté.  Matriculada no centrinho de  Taubaté, Grupo Escolar Lopes Chaves, linda construção hoje tombada pela Condephaat. Nunca tinha visto  construção como aquela. As portas eram escuras e de uma altura que dava quatro de mim. Corredores gigantes com janelões imensos. Saíra de uma escola em Renópolis que era uma única sala com uma única professora, dona Conchita que vinha de Pinda de bondinho para dar aulas para o primeiro, segundo e terceiro anos, todos juntos, ainda éramos responsáveis pela horta. Dona Conchita colhia as verduras e levava para vender. Como resultado recebíamos lindas escovas de dente, que podíamos escolher a da cor de preferência e, de quebra, aprendíamos o asseio bucal. Bem, retomando ao Grupo Escolar Lopes Chaves, santuário da aprendizagem: a professora que reluto a lembrar, mas não consigo chegar ao nome, que possuía olhos negros e grandes, me chama para avaliar meus conhecimentos. Fui indagada: - Quem é o Presidente da República? Nunca soube disso, República? O que é? Mil indagações à frente.  Não teve jeito, fiquei meia hora do lado de fora da sala cuja porta permaneceu fechada para mim. Findo o período que fiquei para pensar, enchi a lousa do início ao fim, EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI. Nunca me explicaram o que é a República.

 

Em tempo: há um certo tempo eu publiquei O CADERNO DE HAMAKO, mãe da Harumi. Basta procurar no coisas de caicara.blogspot.com

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A ESQUINA DO PECADO (II)

 

Depois do muro - Arquivo JRS 

        Depois do muro é a Esquina do Pecado. Bem cedo, por ali se avista pinos de droga, preservativos, copos descartáveis, garrafas vazias etc. Porém, a característica primeira da esquina são as prosas, fofocas e argumentações políticas, futebolísticas e religiosas. Conforme avisto quem vem se aproximando, já sei qual será o assunto. Hoje foi a vez do Dedé, neto do finado Daniel, meu chapa. O pontapé inicial foi a dificuldade nos negócios, mas logo vazou para religião e política:

      - Esses pastores ganham muito dinheiro. Para você ter uma ideia, o salãozinho perto de casa, "Ministério X", fatura 60 mil por mês só de dízimo.

     - É assim mesmo, Dedé. Daí para pior. A pesquisa diz que entre os mais ricos do Brasil, 5 são pastores (Edir Macedo, Valdemiro, Malafaia, R.R. Soares, Estevam e esposa).

      - Será mesmo! Coisa estranha, né? Mas o que eu acho errado mesmo é ficarem falando de política nas igrejas. Religião não deveria se misturar com política.

      - Pois eu discordo. Cristo morreu apedrejado ou crucificado?

      - Crucificado, lógico!

      - Pois é. Naquele tempo só ia para a cruz quem era uma ameaça política. Era a punição imposta pelo sistema. O castigo religioso era o apedrejamento. Estevão, primeiro mártir dentre os seguidores de Cristo, foi apedrejado. Que morte horrível!

     - Quer dizer então que Jesus era uma ameaça política?

     - Sim, porque ele, pobre, tomou partido dos pobres, das pessoas marginalizadas. Então seria salutar se, nas igrejas que pretendem transmitir ensinamentos de Cristo, das primeiras comunidades cristãs, houvesse reflexão sobre a vida e em torno dos compromissos dos fiéis. Exemplos: Vai votar em quem faz leis contra os pobres? Vai escolher representantes que são contra os direitos trabalhistas? Vai aplaudir quem só deseja ampliar as desigualdades sociais? Vai eleger quem acha que exterminando os injustiçados a justiça prevalecerá?

      - É, neste sentido você tá certo. Mas é complicado.

     - Você, que conhece bem o nosso povo, as pessoas que nos rodeiam, me diga: Elas usam o posto de saúde, a Santa Casa e outros hospitais públicos? Seus filhos estão na escola pública?  Muitos deles não sobrevivem graças ao Bolsa Família? Não recorrem ao SAMU, à Farmácia Popular etc.?

     - Sim, quase todo mundo que eu conheço precisa disso tudo.

     - Diante dessa realidade, Cristo estaria mais na posição de quem é a favor da direita, contra os pobres, ou questionaria e seria crucificado porque ousaria defender os empobrecidos? Como deve se comportar politicamente quem quer se comprometer com Cristo, com a comunidade?

    Depois disso Dedé se despediu porque precisava ir "resolver uns negócios".  Não sei se voltará para outras prosas na Esquina do Pecado.

terça-feira, 26 de maio de 2026

TUDO QUE VIVI LÁ

 

Teia de aranha - Arquivo JRS 

     As histórias nos mantém aquecidos mesmo depois de décadas após ouvi-las. Nossos corpos não vivem sem histórias.

     Imagine, nos primórdios da humanidade, adultos e crianças  prestando atenção e se revezando nas narrativas que preenchiam a vivência, davam sentido a cada um e ao coletivo. Milênios depois, no chão caiçara, nas casas de nossos avós, o ritual dos primeiros tempos era atualizado. A gente não vivia sem histórias!

     São as lembranças dessas histórias - e de muitos momentos nossos! - que se compõem em nossas crônicas, poemas e outros gêneros literários. Hoje, apresento dois poemas: uma do mano Mingo e outro do Miguel, filho do primo Márcio da Fortaleza. 

      Deste modo o Mingo faz a apresentação:

Coloquei mais rimas no seu poema, Zé.   Me acomodei na banco da cozinha,

o fogo ardia devagar,

era lenha que queima fácil:

caneveteiro, tinticuia e ingá.

O gato se destacava no canto,

com os olhos brilhantes da luzerna.

Pensei nas brasas,

em postas de peixes,

em bananas-da-terra...

Biju tinha na cuia.

Voltei aos 10 anos de idade,

ai, que lonjura foi minha saudade!


      Já o Miguel, premiado no concurso de 2023, escreveu:


     Na casa dos meus avós, eu jamais ficava só.

     Fosse de dia ou não, nunca senti solidão.

     Posso me lembrar de tudo que vivi lá,

     Do bolo da vovó ao seu brilho no olhar.

     Só não posso esquecer de uma coisa em particular:

     O pequeno lampião que vivia a me cativar.


      O lampião estava sempre a me salvar.

      Não importava a hora ou lugar.

        Ele vivia a iluminar.

      Mas o que mais gosto de lembrar,

      É o vovô apagando-o para orar.


Observação: eu estava na Biblioteca Publica, na ocasião da premiação. Muito me alegrei saber que gente mais nova, da nossa família, estava no "papo da aranha", na teia da literatura.

VEM FRIO AÍ

 

Arte do Estevan - Arquivo JRS 

Me acomodei na banqueta,

O fogo ardia devagar.

Era lenha de caneveteiro,

De tinticuia e cajuja.

Tudo que queima fácil.

A luzerna destacava o gato,

Brilhava em seus olhos.

Pensei nas brasas,

Em postas de peixes,

Em bananas da terra...

Biju tinha na cuia.


Ah, que lonjura!

segunda-feira, 25 de maio de 2026

UNIVERSO E MENTE

 

Conchas de preguaís - Arquivo JRS 

      Deepak Chopra e Menas Kafatos, autores do livro Você é o universo, afirmaram o seguinte: "Podemos dizer que pensamentos e palavras são um tipo de limbo silencioso, à espera de serem convocados pela mente". E não é que parece ser isso mesmo? Haja vista que eles não se manifestam antes da nossa apelação. Exemplo: 

      Eu penso numas pedras na costeira, mas em qual costeira? Determinei agora ser o Saquinho Manso, entre as praias do Perequê-mirim e Santa Rita, porque foi bem marcante na minha infância. Me foco nele, no lugar calmo que era, onde a criançada nadava sem nenhuma dificuldade, sobretudo quando se aproximava o verão e os preguaís apareciam rastejantes no fundo do mar. Passávamos horas mergulhando ali, recolhendo esses seres tão apreciados em nossa família. Então, o pensamento se junta às palavras para avançar nas explicações até mesmo a quem, mesmo sendo da cultura caiçara, não conhece preguaí e nem imagina o sabor dessa iguaria na nossa culinária. Está comigo? Percebe que sigo convocando pensamentos e palavras que se encontram no limbo silencioso que, num primeiro momento, é muito particular? Mas você vai se inteirando dele graças às palavras e à sua mente! Neste instante chego a sentir o aroma daquelas coisas singulares, partes picadas de preguaís numa panela, sendo preparadas pela minha saudosa mãe. Ah, que cheiro bom! Melhor ainda era degustar com acompanhamento de palmitos que foram cortados logo ali, em torno da nossa pobre casa. Na verdade, tudo do nosso entorno era para a nossa subsistência. Por isso plantávamos e cuidávamos com muita atenção. Eram "crias nossas", dos pássaros, dos animais e dos ventos que semeavam. Tínhamos compromisso com o que abundava ao nosso redor e por onde andávamos. 

      Onde passeia agora meus pensamentos e palavras? Está emergindo, vindo da imensidão do universo e trazendo o escritor português Fernando Pessoa. É a ele que transfiro a conclusão:


            Segue o teu destino,

            Rega as tuas plantas,

            Amas as tuas rosas.

       O resto é a sombra de árvores alheias.

domingo, 24 de maio de 2026

MAR DE MORROS

Rosas na Mantiqueira - Arquivo Mingo

     E um morrão, depois de muitos morros, chegou. Agora, o mano Mingo prestando-nos uma imensa ajuda, está na Mantiqueira sentindo o inverno que se aproxima. Gratidão demais, meu irmão!


Quando eu era ingênuo,

espiando as alturas da Serra do Mar,

imaginava o que havia mais além,

só depois descobri que depois do morro,

havia outro morro,

com mais morros depois por uma jornada inteira,

e, quando atinava-se com o fim,

ainda estava  por vir a Serra da Mantiqueira.

sábado, 23 de maio de 2026

A ATRIZ PRINCIPAL

   

Logo ali - Arquivo JRS 

Quando o sal ainda não salgava e o açúcar não era doce?

- Não sabeis? Foi ontem!

- Naquele momento quando o raciocínio subiu como balão, deixando todo mundo de boca aberta?

- Mais ou menos, podemos dizer. Aí veio aquela sonolência que matou a vontade de comer e deixou nossas mentes à deriva.

- Me lembro sim desse momento quando as palavras sumiram, deixaram as letras desarranjada.

- Isso mesmo! Impossível descrever qualquer coisa! O pensamento andava pelo infinito enquanto o finito tinha sumido no horizonte. Queria criar algumas coisa.

- Como criar algo do nada?Quero dizer ir do nada para alguma coisa.

- Não sei se enxergo esse rumo. Até duvido que possamos deduzir.

- Agora estamos no hoje. Dos seres passados herdamos os átomos e essa gama de tudo que nos sustem.

- Isto cria problemas ou ajuda a resolvê-los?

- Veio o começo, espaço e tempo nasceram.

-   De onde?

- Provavelmente de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram... Só depois de espaço e tempo vieram os corpos.

- E dos corpos vieram nossos corpos, né ? Destes, ansiosos e vibrantes, se originou a sociedade e se consolidaram as crenças. Bem mais tarde se definiu a ciência.

-  E o amanhã?

- Tudo será surpresa. Somente o desconforto é certo.

- Talvez as luzes e radiações que atravessam imensidões cheguem até nós como suaves melodias ou estonteantes trovões. Caberá aos nossos corpos as interpretações.

- Se haverá de ser assim, elevemos nossas tigelas abastecidas com as leis da natureza. Desse modo nos revigorados.

- Então continuarmos no zero?

- Sim, dele saímos e nele estamos. Do nada veio tudo. Logo, tudo é nada. "Havia trevas sobre a face do abismo".

- Portanto, nada de se estressar com a própria existência.

- Que se vire cada cultura para apresentar seu próprio mito da criação!  Eu só digo que foi o cosmos o orientador da nossa existência. Porém, a mente é a atriz principal.