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| Céu da Joseana - Arquivo Ana Maria |
O querosene é um subproduto do petróleo.
Antigamente, quando não havia energia elétrica em terras caiçaras, sobretudo
nos pontos mais distantes do centro urbano, essa substância era uma alternativa
como combustível. Nas lamparinas ele alimentava as torcidas, pavios que se
tornavam mechas iluminantes nas casas. Ruim era acordar cedo com o
nariz preto da fumaça que era expelida. Eu e muitos dos meus respiramos bastante dessa porcaria. Sabia que a falta de querosene no mercado foi tema de xiba ?
Kilza Setti, em Ubatuba nos cantos das
praias, uma pesquisa já completada 50 anos, destaca:
As inovações observadas nos textos das
canções geralmente são feitas para homenagear pessoas ou fazer referências a
episódios considerados importantes no contexto caiçara, mas não revelam crítica
no sentido social mais amplo. Em contrapartida, o pasquim funcionou por longo
período no litoral norte de São Paulo como porta-voz de crítica. Voltando-se à
indagação feita há pouco a respeito de um esmorecimento da capacidade crítica:
haverá uma indiferença do caiçara de hoje ante um frustrado projeto de vida? Ou
um conformismo sem limites diante dos fatos que lhe determinaram a
desorganização ou quase ruptura com seu mundo cultural? Em oposição a este
atual estado de indiferença, é notável como o caiçara anos atrás reagia perante
os fatos, depositando nas canções sua crítica, e mesmo certos acontecimentos
mundiais que vieram, por ventura, alterar-lhe os hábitos, não passaram
despercebidos. Um exemplo é a Moda da guerra d’Alemanha, xiba surgida em
Ubatuba por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Nesta música, a crítica parece
claramente referida à carestia imposta ao brasileiro, sem que ele pudesse
entender o motivo de tais privações:
Esta
guerra d’Alemanha
Ela foi
a causadeira
Acabou-se
a querosene
Tamo
queimando a nogueira
O azeite
da nogueira
Que faz
muito mar à vista
Que
martrata o coração
De tanta
moça bonita.
Bom dia,
minha senhora,
De
balaio adonde vai?
Vou
apanhar a nogueira
Querosene
aqui não hai mai.
Em tempo:
na época dessa referida guerra mundial, alguns lares em Ubatuba já possuíam rádios abastecidos por pilhas. Era por esse meio que as notícias chegavam aqui mais depressa.







