sábado, 14 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IV)

 

 

Jorge Ivam Ferreira - Arquivo Jorge

Viva os 15 anos do blog!

   Quem nos homenageia hoje, acerca do mundo do trabalho e suas repercussões na realidade da nossa cidade litorânea, é o meu irmão de coração que escolheu Ubatuba para viver e nos brindar com a sua querida família. Valeu, Jorge! (Sobretudo no fortalecimento da luta pelo fim da escala 6x1)


 Ser empregado não é inteligente


         Hoje eu estava no supermercado escolhendo laranja quando um homem falava ao celular. Era um empresário que tinha recebido uma proposta de compra do seu comércio. Confessou que estava tentado a vendê-lo. Sua justificativa era que nesta temporada está difícil arranjar empregado e acredita que na próxima será pior. Alegou que os jovens não querem trabalhar. Já escutei outras queixas semelhantes e me perguntava se era verdade ou era somente o ponto de vista de gerações mais velhas sobre as mais novas. Como algumas vezes tenho constatado que o jovem que está me atendendo não demonstra muito interesse em servir, tendo a concordar com a opinião de que rapazes e moças (com boas exceções, é claro!) não demonstram diligência no trabalho.

         Se essa mudança de comportamento é um fato, ela deve ter uma causa. Primeiramente, pensei que fosse preguiça, mas não parece que uma geração seja mais preguiçosa do que outra. Afinal trabalhar nunca foi uma atividade prazerosa, mas as gerações anteriores buscavam um emprego e se dedicava a ele. Havia uma formação discursiva que incentivava esse compromisso traduzido na expressão “vestir a camisa da empresa.”

         A Rede Globo divulgava o “Operário-padrão” do ano. Era um concurso que visava tornar o empregado dedicado e, sobretudo, dócil, conformado com a opressão que sofria. O Capitalismo sempre soube inculcar no oprimido a ideia de que “o trabalho edifica”, de que “o bom cabrito não berra.” Quando as fábricas precisavam de mão-de-obra, incentivou-se a mulher a tornar-se economicamente ativa empregando-se numa delas. Além disso, levou-se o agricultor a abandonar o campo e ingressar numa linha de montagem.

        Com o advento da robotização, a oferta de mão-de-obra começou a ficar maior do que a demanda por ela. O que resultou numa drástica redução dos salários uma vez que a ameaça de desemprego levava o assalariado, temendo o desemprego, aceitar a remuneração que lhe era oferecida.

       O avanço da tecnologia fez com que a oferta de emprego caísse vertiginosamente e o contingente de desempregados aumentasse de modo perigoso para o sistema. Prevendo uma derrocada, os teóricos do liberalismo passaram a pregar a ideia falaciosa de que a felicidade está no empreendedorismo. Ser empregado é ruim, o bom é ser empreendedor. Uma grande quantidade de jovens comprou essa tese, que é uma faca de dois gumes. Pois, se por um lado ela atinge o objetivo de diminuir a pressão por emprego, que a sociedade não tem para oferecer, por outro, os jovens que entram no mercado de trabalho acabam não tendo vontade de permanecer nele e, por isso, não veem motivos para se empenhar e se aperfeiçoar na atividade que está exercendo.

       Daí, o empreendedor, que precisa de empregados, ficar indignado com o comportamento descomprometido de seus “colaboradores”. Pois é. Uma das nuances do Capitalismo é “dourar a pílula”. A exploração do subalterno continua como antes, mas ele deve ser chamado de colaborador, pois imagina-se que, sendo tratado com esse eufemismo, ele se sentirá melhor. Tendo, pois, a concordar com aquele comerciante que vi no supermercado daqui de Ubatuba: provavelmente a próxima temporada vá ter mais falta de empregados e os que se empregarem estarão pouco empenhados em dar o seu melhor. Não por preguiça, mas porque lhe fizeram crer que ser empregado não é inteligente.

 

Jorge Ivam Ferreira

         

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (III)

 

 

 

Fandangando - Arquivo Rogério 


    Viva os 15 anos do blog!


     Neste dia quem nos homenageia é o estimado Rogério Estevenel, cuja raiz materna está na praia das Toninhas. Ele é professor, sua cabeça está na Geografia, mas seu coração é devoto das tradições caiçaras. Hoje o tema é fandango e seus desdobramentos, mas mais adiante ele nos brindará com o tema dos Santos Reis. Quem nunca apreciou este caiçara em seus bate-pés não sabe o que está perdendo!

 

     O fandango caiçara é mais do que dança e música: é expressão viva de um modo de ser coletivo, tecido no espírito do mutirão, da partilha e da convivência comunitária. Em cada batida do tamanco, em cada ponteio da rabeca e da viola, pulsa uma tradição construída no entrosamento, na amizade e no respeito às pluralidades que compõem o universo caiçara. O baile é encontro, é conversa sem palavras, é aprendizado entre gerações, onde todos têm lugar e voz.

     Seus instrumentos — rabeca, viola, adufo, pandeiro e tamancos — não são apenas ferramentas sonoras, mas extensões da memória e da fé de um povo que dança em comunhão. No salão simples, sob luzes modestas, constrói-se um ambiente de acolhimento, onde o coletivo se sobrepõe ao individual e a alegria se faz disciplina, ritmo e pertencimento. 

     Entre os muitos ritos do fandango, o baile do Enterra Toco ocupa lugar singular. Realizado na terça-feira de Carnaval, é o último baile antes da Quaresma, encerrando-se rigorosamente às 23 horas e 59 minutos. À meia-noite, com o início do período quaresmal, os fandangueiros guardam seus instrumentos de costas para a parede e os desafinam simbolicamente, colocando-os em guarda devocional. Esse gesto representa o recolhimento espiritual e a memória dos quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se preparar para o martírio que se aproximava. 

     Durante toda a Quaresma, o silêncio dos instrumentos é sinal de respeito e de fé. Apenas no Sábado de Aleluia, em festa pela Ressurreição de Jesus, a tradição é retomada, e o som do fandango volta a ecoar como anúncio de vida nova. Mas o Enterra Toco não é apenas rito religioso: é também rito de afetos. Em tempos antigos, quando os pais não permitiam que suas filhas mantivessem contato com rapazes antes do casamento, o baile de fandango tornava-se espaço discreto de enamoramento. A última moda dançada na terça-feira de Carnaval funcionava como um aviso silencioso entre os casais interessados. O verdadeiro compromisso, porém, só se confirmava na retomada do fandango no Sábado de Aleluia, quando se dançava a primeira moda com a mesma pessoa da última dança carnavalesca — sinal de um interesse que, muitas vezes, culminaria em futuros casórios. Hoje, essa prática permanece como memória afetiva de outros tempos. Ainda assim, em tempos escassos de bons pretendentes, o velho rito do Enterra Toco continua a soar, com certa ironia e esperança, como uma forma eficaz de garantir o seu “toco” — não apenas de madeira, mas de amor, tradição e continuidade cultural.

 

Rogério Estevenel


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (II)

 

Régis e Domingos - Arquivo JRS 

    Viva os 15 anos do blog!

     Seguindo as comemorações, hoje é dia do mano Mingo, o mais atrevido da turma porque já publicou alguns livros. Faz muito tempo que aquele menino quieto segue registrando seus sentimentos de mundo, transformando tudo em poemas. Não tem como não se emocionar ao se deparar com os seus escritos. A grande marca desse meu irmão é a solidariedade com os familiares e os demais de seu entorno.

 

     Quem quer conhecer um pouco do povo caiçara, ou conhecer um pouco das paisagens do Litoral Norte de São Paulo, ou viajar no tempo para Ubatuba de nossos avós, é só acompanhar o blog de José Ronaldo dos Santos.  Ele é caiçara nascido na Praia do Sapê, que foi operário em construção, que se formou em Filosofia, tornou-se professor polivalente da rede pública estadual e, também, escreve crônicas cheias de vida, questionamentos e até mesmo poesia.

          Os textos do blog têm tudo o que caracteriza as crônicas: São escritas de maneira direta e concisa; o cronista retira sua matéria-prima do dia a dia: uma conversa ouvida no ônibus, um incidente na fila do banco ou a observação de uma árvore na calçada; o tom é de uma conversa informal com o leitor (o "tom de conversa de pé de orelha"). É leve, fluida e acessível.

     Gosto de ler principalmente aquelas que resgatam personagens ou acontecimentos do universo litorâneo, como por exemplo, o perfil do Elias Barreto, exímio no cavaquinho; ou o cego Doquinha que fazia a gente pensar que o violão até tinha coração; ou o velho Montanaro que veio encalhar na nossa praia; ou sobre a passagem do pirata Stede Bonnet que deixou um certo Rosend exilado em nossas praias, mais precisamente na Praia do Bonete.

          Tem 15 anos disso tudo e muito mais nas crônicas do blog do Zé.

    


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (I)

 

    

Galo do mar - Arte do mano Jairo

      Viva os 15 anos do blog!

     O mano Jairo, em poucas palavras, expressa o seu reconhecimento pelos registros que fui deixando no decorrer dos quinze anos. A intenção primeira segue sendo dar a conhecer aspectos importantes da cultura caiçara, dessa humanidade que se desenvolveu entre  a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, o nosso querido mar, sem se omitir das outras vertentes do nosso exercício da cidadania neste mundo. Gratidão, meu irmão!

  

    Nesta data (precisamente no dia 11 de fevereiro de 2011), dia em que este blog criado pelo meu irmão José Ronaldo faz 15 anos, eu não poderia deixar de escrever o quanto este site é importante para nós caiçaras, quando os depoimentos e histórias de nossos antepassados nos iluminam. Foram muitos os caminhos percorridos por homens e mulheres, gente forte e valente que sempre enfrentou os temperamentos das marés e os segredos das florestas, bem como os seus perigos escondidos.

    A página também é um instrumento de cidadania e questionamentos das maracutaias políticas que envergonham todos nós brasileiros!

   Mano Zé sabe muito bem traduzir para seus artigos uma visão clara e fiel de tudo o que é atual e que “assombra qualquer cristão”, conforme dizer  do povo. Busca expor suas opiniões de forma sucinta, bem como traduz o cotidiano da vida simples de nosso  povo caiçara.

    Coisas de Caiçara é história e tradição, sem perder de vista o agora!

 

Jairo Felipe Felix dos Santos

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

CANOA NA VIOLA

 

       

Artesanato local - Arquivo JRS 

 

     Viva os 15 anos do blog!


      Ainda em cima do trabalho do Olympio Mendonça, de meados da década de 1970, me comovi vendo os nomes de caiçaras que conheci bem: uns estão vivos, mas muitos já se foram. Hoje, o assunto é canoa. Quem nos transmite é o saudoso Mané Mancedo e o estimado Tié Barbosa que segue firme na musicalidade e nas danças da nossa tradição.


     Canoa é gênero de moda de viola, com cantiga e dança arrasta pé. A música é impressionante em seus volteios e melodia, desprendidos pelo rasqueado das violas. Ao lirismo plangente, sucede o vibrante dos desafios e repentes. Os bailarinos evolucionam-se nos sistemas das danças de roda, como a ciranda e a cana-verde, entretanto há bate-pés, violentamente ritmados pelos pandeiros ou tambor. Trata-se de forma de cantiga, letra e dança, mais apreciada na região. Todavia, a execução de suas posições na viola de arame exige muita perícia dos violeiros; daí a dificuldade dos moços tocarem essa modalidade, que necessita de afinação própria, bem diferente das modernas.


Viola, minha viola;

Viola, meu violão. 

(Bis) A viola me conhece no punho da minha mão.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Canoa, minha canoa;

Canoa não é assim.

(Bis) Canta a sereia no mar, o canário no jardim.

Morena da Ponte Nova, me leva.


No cabo dessa viola

Eu faço guerra civí.

(Bis) Em cima da carabina faço cama pra durmi.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Também não posso cantá,

Mas não sei porque eu já cantei

(Bis) Já bebi água de rosa, com as fadas já desmudei.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Bananeira chora

De tanto filho que tem.

(Bis) Morre o pai e morre a mãe, fica os filhos sem ninguém.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Aí bananeira do cacho,

Do cacho da bananeira.

(Bis) A ratoeira do rato, do rato da ratoeira.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Cheguei no seu jardim, ai,

Pra tirá nove rosas.

(Bis) Três brancas, três amarelas, três encarnadas cheirosas.

Morena da Ponte Nova, me leva.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CAIÇARA

 

Arte em casa - Arquivo JRS 

   Viva os quinze anos do blog!


   Em meados da década de 1970, o pesquisador Olympio Mendonça escreveu acerca dos caiçaras da área do Ubatumirim, em Ubatuba:


   Caiçara é o habitante do litoral de São Paulo e, em especial, do litoral "norte". As pessoas naturais de Ubatuba e região têm consciência dessa denominação e dela se orgulham. Em Ubatumirim, todos os moradores denominam-se caiçaras para se distinguir dos estranhos. Desconhecem que o vocábulo nomeia também outros moradores do litoral de São Paulo. As conotações pejorativas do termo, "malandro", "vagabundo" não se aplicam a eles, sendo o caiçara um excepcional tipo humano, há mais de três séculos isolado entre a Serra do Mar e o oceano. Ainda não está contaminado pela necessidade do supérfluo e pela obsessão da poupança. Não trabalha regularmente; o mar e a terra lhes forneciam, até pouco tempo, uma alimentação farta, baseada no peixe e na farinha de mandioca. É, até certo ponto, arredio e desconfiado em relação aos forasteiros. Julga-se feliz em sua maneira de viver e não mostra interesse em vender seus terrenos e se afastar de sua terra secular, apesar de, com a chegada da Rio-Santos, estar sendo pressionado a fazê-lo.


     Pois é, a BR-101, trecho Rio-Santos, desde o final daquela década está aí. A especulação imobiliária dita as regras, promove um turismo desregulado e fragmenta a cultura local. Ainda não tivemos nenhuma gestão que despertasse para as consequências danosas desse modelo, desse "progresso" que aliena a família trabalhadora e destrói o nosso tesouro ambiental. Até o crime organizado disputa o território na atualidade! 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

APOITANDO

    

Mosaico - Arquivo JRS 

       No mês de comemoração dos 15 anos deste blog, vou recordando bons momentos das coisas dos caiçaras. 

      Chico Félix, meu tio nascido no sertão da Caçandoca, também entendia de fazer casa do jeito nosso, que veio dos antigos. Firmava pau a pique na soleira, depois envarava tudo com imbé. Jissara era a ripa preferida. No morro escolhia sapê, penteava com maior cuidado e logo estava pronta a cobertura. Dizia que sabia, mas se orgulhava de dizer que aprendeu mesmo com o João Firmino, seu caprichoso sogro. Porém, nunca quis viver nisso porque a grande paixão dele era a pescaria.


     "Tresantonte fui no currico, mas não deu nada. Vardí do Diocrécio topô de í comigo. Não é ruim quando tem mais um pra remá, né mesmo? Ele foi que falô da gente esticá até a Redonda, aquela lage no rumo do Mar Virado. Fomos, lá arriamo a poita e logo deu bicho grande na linha. Veio garopa, gudião, sargo... Só ser de respeito. 'Assim vale a pena', se alegrô o Vardí. Tive de concordá com o meu parcêro. Do nada, já tando quase saindo, com a poita embarcada, uma espada bitela pegô no meu anzó. Era criada a danada! Usei o bichêro, puxei pra dentro da canoa. Nessa hora me estrepei: ela meteu o dente no meu carcanhá, foi só sangue na água do fundo. Vardí tirô na cuia. A valênça é que sempre carrego uma garrafada no balaio. Arco e arcanfo é santo remédio, nem chega a inframá. Taís vendo aqui? Isto não é nada, tô quase curado. Logo logo a gente vai de novo naquele pesquêro apoitá. Sabeis com que isca? Sururu do rio, lá de casa. É só batê e puxá".