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| Viva a arte! - Arquivo JRS |
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| Viva a arte! - Arquivo JRS |
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| Espera... Arquivo JRS |
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| Domingos e eu - Arquivo JRS |
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| Domingos é o do meio - Arquivo Ubatuba |
No mínimo 50 anos separam as imagens acima. Domingos Alves Barreto, filho do Licínio, funcionário público lotado no Departamento de Estradas de Rodagem (DER), parceiro do meu pai em tantos momentos, aos domingos era árbitro de futebol. Passado meio século, eu o reencontrei no corredor de um supermercado. Que surpresa boa! O mesmo vale aos filhos presentes: Arnaldo, Lígia e Magali. Éramos vizinhos na década de 1970, na praia do Perequê-mirim. Tempo bom demais! Completados os 88 anos de idade, ele se recordou de alguns momentos de travessuras com o meu pai. Ah! Como eram arteiros esses caiçaras de outros tempos!
Numa ocasião eu e o "Carpinteiro", seu pai, fomos cercar tainha na Ilha Anchieta. Pegamos bastante na praia do Leste. Ainda por lá, resolvemos parar na praia do Sul, onde ficava o rancho do pessoal do cerco do Eduardinho. A maioria era parente de vocês (Gonçalo, João, Dito da Mata...), da Caçandoca, que foram morar no sertão do Perequê. Por ali limpamos duas tainhas, fritamos e comemos. Você acredita que o "Carpinteiro", antes de sairmos de lá, colocou as tripas dos peixes debaixo dos travesseiros daqueles homens? Deve ter dado uma grande confusão quando descobriram aquela arte.
Outra vez a arte foi com o pessoal da Folia. Foram acolhidos, cantaram, encostaram os instrumentos e trataram de ir descansar para seguir a Corrida da Bandeira no dia seguinte. Assim que tudo sossegou, eu, seu pai, Miguel Cabral, Antenor e mais alguém que nem me lembro mais, catamos os instrumentos e saímos para farrear, quase varamos a noite. No dia seguinte, os músicos ficaram revoltados pelo estado lastimável dos instrumentos (cordas bambas ou arrebentadas, areia por dentro e couro encharcado). Saíram com muita raiva. É quase certeza de que nunca mais eles aceitaram um pouso naquele lugar, nem cantaram mais ali.
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| João Zacarias, neto e bisneto - Arquivo DT |
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| Caiçaras na rede - Arquivo Trindadeiros |
João Zacarias, um grande pescador da praia do Sapê, parceiro de vovô Estevan, tinha a maior rede da região sul de Ubatuba. Negociava muito pescado por ali mesmo e até enviava para a capital paulista e outras cidades distantes. Quando criança, ouvi dele uma referência à minjoada. Mais tarde vovô Armiro também a citou. Disse que entre a Ponta da Fortaleza e a Laje Perdida era comum largar a minjoada. Então, depois de especular, escutei a seguinte explicação:
"É um recurso que a gente tem para pegar mais peixes num lugar que vive passando cardumes. É só preciso por uma poita em cada cabeceira da rede e deixar ela fundeada, pescando sozinha. Qualquer coisa que passar por ali pode se malhar. Se for de dia, a gente fica de longe vigiando, se for de noite é preciso madrugar. É como um tresmalho, só que é largado mais no largo. (Porque o tresmalho sempre está armado rente da costeira, né?). Depois, tem sempre algum barco passando e muita correnteza forte. Por isso que, vez ou outra, desaparece uma rede por aí".
Agora, passado meio século dessa prosa, dessas informações, achei esta referência no tese do Olympio Mendonça, publicada em 1978:
Largar a minjoada: pescar com uma ou duas canoas, que vão largando ao mar a minjoada, que é fundeada com uma poita, e deixada na espera por algum tempo, é um processo de pesca em desuso na região, devido ao risco de se perder a rede.
Na sequência ele detalha a minjoada:
Tresmalho de 40 a 100 braças de comprimento e duas ou três de largura, cujas malhas podem ter de 40 a 80 mm., encimada pela tralha de cortiça, que faz a sua orela, fundeada pela tralha de chumbeiro. É uma rede de espera e, quando se presta para matar peixes de fundo, é confundida com a feiticeira.
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| Arte: Tom Cotrim |
Antes, mas não fazendo muito tempo,
agosto foi chamado de mês de cachorro louco. Assim diziam, mas nunca vi um de
verdade. Era época de vacinação antirrábica. O tempo atual é de outros enlouquecidos.
Agora haveremos de ter cuidado com aqueles coitados que não sabiam morder, mas
aprenderam graças a uns malditos políticos que os açulam. Tão revoltante quanto a
malvadeza é a estupidez da “matilha” explorada e o conformismo idiota. Deve ser
assim que nasce um estado de guerra. Quem se dá bem mediante tal quadro? A quem
serve esses safados?
“Aflige-me é perceber no capitalismo uma inteligência, uma inteligência
safada que aluga outras inteligências”
(Graciliano Ramos).
Qual
vacina pode resolver?
- A
imprensa hegemônica segue interessada em conservar privilégios de uma minoria
neste país e de ceder a nossa soberania.
- Já
tivemos uma milícia verde integralista (ou galinhas verdes de Plínio Salgado). A
da atualidade parece pior e se veste de verde e amarelo.
- “Abaixo
a democracia” denota a sanha golpista de ratazanas eleitas graças à democracia.
- Devotos
de líderes religiosos apedrejam marginalizados. É o amor de Deus excluído.
- São
poucas as bandeiras que desejam combater o egoísmo.
- As
belezas insuspeitas não estão em quem é contra reparações históricas e sociais.
- Há
quem abandona as práticas solidárias e honestas, mas nunca deixa as tais devoções sagradas.
- Muito
fácil dizer que os pobres são o problema.
- Muitos
lares estão acolhendo as ratazanas saídas do esgoto.
-
Microcéfalos exaltam yankees espoliadores e genocidas.
- Hinos
idiotas seguem preparando paraíso de gente safada.
- Roubo
de joias, rachadinhas, negação de crise climática, patrimônios construídos de
maneira ilegal etc. etc... Contra fatos não há argumentos.
- Pangaré velho é Dark Horse.
Enfim, no mês de cachorro louco, vendo multidão
seguindo “apito de cachorro”, eu concluo com uma frase de Apolônio de Rodes (Grécia
Antiga - século III a.C.): “Só os
ignorantes ou estúpidos é que se dão ao insensato luxo de não estar a par da
política que os afeta”.
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| Amor aos livros - Arte Pita Paiva |
Eu sempre achei engraçado a expressão que
está como título acima. Era comum escutar
ela vez ou outra quando passava
alguém usando bermuda pelos joelhos. Paulinho do Gusto, Marquinho do Teco,
Tutuca do Dico e outros se apresentavam costumeiramente como “pintos carçudos”.
O que era pinto carçudo (calçudo)? Vovó
Eugênia explicou quando eu estava iniciando a vida escolar: “Tais vendo aquele franguinho com penas até lá
embaixo, quase cobrindo os pés? Ele é pinto carçudo”. Quer melhor explicação?
Bem mais tarde eu aprendi que, na língua geral (falada por muito tempo no
território brasileiro), pinto calçudo é igual emboaba. Logo, galinha com plumas
escondendo os pés era emboaba. Creio que outra ave qualquer com tal
característica também seria emboaba. Daí me recordei de uma aula de história do
Brasil: no tempo da corrida do ouro, por volta de 1700, quando um mundaréu de
gente, sobretudo de Portugal, acorreu à região mineradora (Ouro Preto, Congonhas,
Sabará, Mariana...). Essa migração intensa, essa disputa pelo ouro resultou
numa desavença com os paulistas (que se achavam com mais direitos que os
demais). Estes, para fomentar mais intrigas, apelidaram os portugueses de
emboabas. A razão? Porque, ao contrário dos paulistas, os lusitanos andavam
calçados, com os pés cobertos. Os paulistas, cujos representantes eram os
terríveis bandeirantes, estavam no lado oposto. O historiador Joaquim Felício
dos Santos assim descreveu o simulacro civilizatório dos paulistas, “gente de
serra-acima”:
“Cegos pela ambição, arrostavam os maiores
perigos; não temiam o tempo, as estações, a chuva, a seca, o frio, o calor, os
animais ferozes, répteis que davam a morte quase instantânea. Eram homens meio
bárbaros”.
Para encurtar a história: essa contenda semeada de mortes durou dois anos e meio; passou a ser parte do currículo, dos livros didáticos, como Guerra dos Emboabas. Fato mais marcante nisso tudo foi o extermínio de muitos paulistas às margens do Rio das Mortes (São João del Rei), no Capão da Traição. Tudo isso em Minas Gerais. Como eu, da beira do mar de Ubatuba, saberia um dia disso tudo? Ah, esses livros nos salvam!
Por hoje é só. Viva os pintos carçudos que ainda estão por aí!
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| Toninho, eu e Ditinho - Arquivo Estevan |
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| A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS |
Era dia de domingo. Bem cedo trepei no pé de carambola
para recolher alguns frutos e fazer doce. Você já comeu? É bom demais, minha gente!
Naquele momento me veio à memória a ocasião em que conheci essa fruta tão
singular: foi no terreiro do tio Dário, no morro da praia da Fortaleza. Eu,
criança de tudo, batia pernas por todo lado, mas gostava de me deter na casa
desse parente para escutar toda a família tocando e cantando. Bons momentos que
merecem ficar na lembrança, serem recordados. Veio a tarde. Conforme eu tinha planejado, me
preparei para visitar os primos Toninho e Ditinho, filhos do saudoso casal
Dário Barreto e Maria Estefânia. Estevan, meu filho, topou de ir junto. Assim,
pedalando com tranquilidade, fomos até o centro da cidade. Eles moram há muito
tempo próximo do sítio Aratoca, mas são da praia da Fortaleza. Na minha
infância, éramos vizinhos no morro.
Ditinho e Toninho demonstraram muita
alegria com a nossa visita. A prosa passou por muitos assuntos: álbum de
fotografias, novidades de familiares, saúde, lembranças nossas de tantas coisas
que jamais eu seria capaz de imaginar sozinho. Tudo às pressas, na entonação do
“dialeto” caiçara!
Ao relembrarmos as festas, um de nós citou
a tia Martinha. Doce de mamão distribuído para todo mundo era um capricho dela.
Tio Cláudio, irmão do nhonhô Armiro, foi marido dela. Também lembramos de como
ela, depois de viúva, se virava sozinha na lida da roça. A imagem dela descendo
da roça com vários cachos de bananas me marcou demais. Ditinho completou
dizendo: “Vez ou outra o Mané Bento
ajudava ela”.
Eu percebi que o Toninho estava muito empolgado
com nossas recordações. Foi ele quem perguntou: “Vocês se lembram da Pedra da Cruz?”. Eu não sabia do que se
tratava, mas o Ditinho explicou de imediato: “A Pedra da Cruz era quase chegando na Ponta, onde um filho da tia Martinha
morreu. Ele foi pescar e sofreu um ataque epilético. Caiu na água e morreu. Foi
preciso passar a rede para resgatar o defunto e sepultar. Sobre a pedra
firmaram uma cruz. Depois, com o tempo, ela se acabou”. Eu quis saber o
nome desse parente que se foi no mar, mas os primos não conseguiram se lembrar.
Quem poderá colaborar nisto?