segunda-feira, 15 de junho de 2026

AMEAÇAS E MEDOS

 

Luz no horizonte - Arquivo Santiago Bernardes 

    Santiago Posteguillo, escrevendo sobre a Roma Antiga, numa passagem acerca do Egito, diz que a jovem Cleópatra,  indo a um templo dedicado ao deus Sobek, o crocodilo, é levada a conhecer o poço onde se encontrava um desses medonhos animais que precisava ser alimentado a cada dia. O sacerdote que a acompanha assim explica:

    - Temos de o alimentar cada vez com mais frequência senão ele fica zangado. Primeiro chora e depois parece que brame furiosamente para exigir que lhe dêem comida. E se não o alimentarmos durante alguns dias, ele grunhe tão alto que se ouve em todo vale porque as paredes do poço amplificam os bramidos dele, que se tornam quase ensurdecedores. Depois dizemos aos camponeses que é o deus Sobek a  exigir um novo tributo e eles trazem-nos mais cevada, trigo, farinha, pão... Enfim, tudo que lhes dissermos que Sobek exige. E carne, muita carne.

     Cleópatra ficou muito quieta.


      Por que me detive na referida parte? Porque ontem, ao passar defronte um local dito religioso, escutei a falação de quem pregava acerca da doutrina, das diretrizes aos fiéis. A pessoa reforçava a necessidade da escolha de nossos representantes políticos nas eleições que se aproximam. Segundo sua fala, cabia à divindade a responsabilidade com os resultados finais. No entanto, ameaças e medos entremeavam "glória a Deus, aleluia", contra um governo e representantes que ousem nas conquistas sociais, na justiça distributiva, com a conclusão de que "somente a Deus compete os rumos do mundo". Nada foi falado sobre quem governa querendo enriquecer à custa da maioria, da classe trabalhadora. Pois é! Quem não prefere viver se aproveitando de um povo ignorante?  

  O povo pode pensar mais, saber mais! Mas isto é o que a classe dominante não quer. Assim, ela deve seguir investindo em todas as frentes para estar no controle e limitar a democracia, inclusive nas igrejas. Estas são uma chave determinante nesse objetivo nefasto. Retiros, marchas, dízimos e narrativas absurdas devem confluir nesse rumo. 

     


 

sábado, 13 de junho de 2026

OS MURA

 

Povo Mura - Arquivo internet


      Quando eu acho uma informação sobre qualquer etnia indígena, me volto para as nossas raízes culturais e enxergo aquela que está na base da cultura caiçara: a Tupinambá. Será que todo o povo brasileiro tem este conhecimento, este reconhecimento de que uma parte de nós está assentada no alicerce de sangue indígena?

     Tempos desses, lendo a biografia escrita por Paulo Rezzutti sobre a imperatriz Leopoldina (que veio da Áustria para ser a primeira esposa de Pedro I), achei uma referência à etnia Mura. Atualmente este grupo ocupa vastas áreas junto aos principais rios amazônicos (Madeira, Purus e Amazonas), se destacando como exímios navegantes e conhecedores dos caminhos nos igarapés, ilhas, lagos etc. Como quase a totalidade dos povos indígenas, os Mura, em seu longo histórico de contato com os invasores, sofreram diversos estigmas, massacres e perdas em diversos aspectos (demográfico, linguístico e cultural). Na mesma pesquisa, no citado autor, encontrei esta informação:

    

      Natterer, um dos estudiosos que veio com Dona Leopoldina, depois de desbravar o sudeste, seguiu para a Amazônia. Após 18 anos de exploração, levava para Viena 37 caixas com material coletado, Maria do Rego, sua esposa, e três filhos. Apesar do nome, Maria era uma índia Mura com que ele se casara na Amazônia. Ela e duas crianças não sobreviveram no primeiro inverno europeu. A filha mais velha, Gertrud, anos depois se casaria na aristocracia austríaca, tornando-se baronesa Schröckinger von Neuenberg.

 

    Não é interessante? Provavelmente foi a primeira e única filha de indígena do território brasileiro a possuir um título da nobreza europeia. Uma filha Mura, imagina! Quando isso? Nos primórdios do século XIX.

 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

PASQUIM DOS ILÍCITOS

 

Tinticuia querida e florida - Arquivo JRS 


       O pasquim, um gênero literário antigo, era bem comum em nosso município (Ubatuba) no século XX. E teria sido muito mais se a alfabetização fosse maior e mais gente tivesse recursos materiais (caneta, papel...) naquele tempo. Eu, menino curioso, cheguei a ler alguns. Tinha de tudo nos pasquins: fofocas, notícias de perto e de longe, comemorações e críticas. Bado lembrou bem: 

    “Com característica de folhetim escrito, em forma de versos, esses papéis eram afixados em lugares de reuniões públicas – ranchos de pescadores, árvores e capelas – e tinham, em sua maioria, caráter de mensagens e recados a alguma pessoa, ou então ligados a fatos misteriosos”.

   Um dia distante, me situando debaixo da grande figueira preta, onde se localizava o rancho do Targino Barreto, na praia do Perequê-mirim, apreciei:

 

João pigarreou para Jorgina,

Carlos presenteou Florízia,

Dito e Judith sussurraram coisas,

Batengo e Niulene fecharam acordo,

Atílio e Maria saíram de mãos dadas,

Braziliano e Dita piscaram na mesma direção,

Nié apertou firme a mão da Ditinha,

Sebastião carregou Terezinha na barra,

Teotônio se despediu de Maria

(Porque Carminha estava chegando),

Chico se ajoelhou aos encantos de Elza,

Avelino bingou com Benega,

Totonho e Cida conceberam o primeiro de muitos,

Hilário e Aurora foram de canoa mar afora,

Bernardino amou Zilda uma única vez,

Raul amou muito Judite naquela ocasião.

Todos “amores ilícitos”; todos depois do serão.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

BEM-AVENTURADO

 

Gato na janela - Arquivo JRS 


      Quando a gente vive num canteiro de obras, vê e escuta de tudo, mais tolices do que coisas sérias. Expedito foi um dos companheiros de trabalho pesado que destoava muito dos demais. Era por volta de meados dos anos 80. Em Brasília, naquele tempo, era discutida uma emenda para o país voltar a ter eleições diretas para presidente, pois quem estava no comando seria o último ditador militar, aquele que dizia preferir o cheiro de cavalo do que o do povo. Expedito era contra, repetia sempre que amava os fardados. “Brigar por diretas-já é coisa de quem não tem o que fazer”.

     Descrevo agora o tipo: era um baixinho entrão em prosas alheias, que parecia não pensar bem e tinha muita dificuldade para expressar com clareza. De um ponto de vista desencontrado, todos os seus assuntos pareciam terríveis. Conversar com Expedito era cair numa armadilha e já se angustiar por uma brecha escapatória. Certa vez ele veio com esta exclamação: “Como é bom ler com imensa satisfação obras confusas de autores que não dizem porcaria nenhuma!”. Naquele momento, se eu não fosse eu, pediria ao mais próximo um café quente quinado com pinga, um “roxinho”, acompanhado de um torresmo escorrendo gordura. Eu percebi a muito custo que ele insultava autores russos. Pensei: “Deve ser assim, neste método expeditiano, que supostos intelectuais bradam contra o comunismo”.

   Dito Capixaba, conhecedor do Expedito de outras paragens em tempo bem passado, jurava: “O destrambelhado vem da nobreza rural, de gente rica que nunca faltou nada enquanto tinha escravos”. Eu acho que era mesmo porque a sua maior paixão era o xadrez. (Difícil era encontrar na obra, entre gente acostumada com betoneiras roncando, oportunidade para armar o tabuleiro). A peãozada, notando a minha preocupação em não deixar o Expedito para escanteio, dizia: “Liga não, Zé. Ele é zureta, mas não de tudo. O bom dele é ser engraçado demais”. Tião Zoró, um servente que não perdia uma missa, repetia de tempos em tempos: “Pobrezinho, é um bem-aventurado”.

     Após muitos anos, sem saber se Expedito era vivo ou morto – mas pensando nele! -, achei esta citação de Graciliano Ramos: “Apresento uma sugestão aos homens inteligentes: deixem de escrever e entreguem  a pena aos imbecis”. E eu? Eu apenas sigo sendo indulgente com estes (que cortam chinelos, bebem detergente, oram para pneu, não querem direitos trabalhistas, preferem lamber botas dos estrangeiros etc.). Desconfio que Expedito pertenceria a este time.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

QUEROSENE NÃO HAI

 

Céu da Joseana - Arquivo Ana Maria 


     O querosene é um subproduto do petróleo. Antigamente, quando não havia energia elétrica em terras caiçaras, sobretudo nos pontos mais distantes do centro urbano, essa substância era uma alternativa como combustível. Nas lamparinas ele alimentava as torcidas, pavios que se tornavam mechas iluminantes nas casas. Ruim era acordar cedo com o nariz preto da fumaça que era expelida. Eu e muitos dos meus respiramos bastante dessa porcaria. Sabia que a falta de querosene no mercado foi tema de xiba ?

 

    Kilza Setti, em Ubatuba nos cantos das praias, uma pesquisa já completada 50 anos, destaca:

    As inovações observadas nos textos das canções geralmente são feitas para homenagear pessoas ou fazer referências a episódios considerados importantes no contexto caiçara, mas não revelam crítica no sentido social mais amplo. Em contrapartida, o pasquim funcionou por longo período no litoral norte de São Paulo como porta-voz de crítica. Voltando-se à indagação feita há pouco a respeito de um esmorecimento da capacidade crítica: haverá uma indiferença do caiçara de hoje ante um frustrado projeto de vida? Ou um conformismo sem limites diante dos fatos que lhe determinaram a desorganização ou quase ruptura com seu mundo cultural? Em oposição a este atual estado de indiferença, é notável como o caiçara anos atrás reagia perante os fatos, depositando nas canções sua crítica, e mesmo certos acontecimentos mundiais que vieram, por ventura, alterar-lhe os hábitos, não passaram despercebidos. Um exemplo é a Moda da guerra d’Alemanha, xiba surgida em Ubatuba por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Nesta música, a crítica parece claramente referida à carestia imposta ao brasileiro, sem que ele pudesse entender o motivo de tais privações:

 

Esta guerra d’Alemanha

Ela foi a causadeira

Acabou-se a querosene

Tamo queimando a nogueira

O azeite da nogueira

Que faz muito mar à vista

Que martrata o coração

De tanta moça bonita.

Bom dia, minha senhora,

De balaio adonde vai?

Vou apanhar a nogueira

Querosene aqui não hai mai.

 

Em tempo: na época dessa referida guerra mundial, alguns lares em Ubatuba já possuíam rádios abastecidos por pilhas. Era por esse meio que as notícias chegavam aqui mais depressa.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

UMA LIBERDADE ESTRANHA

 

Rosa na geada - Arquivo JRS 

       Bem cedo, num dia de céu azul, admirando uma rosa no terreiro de casa ainda a mostrar o quanto a madrugada foi fria, despertei a meta maior de todo amanhecer: o que fazer para, neste mais um dia de vida, permitir o voo da alma? Prestando atenção no entorno, ouvindo, lendo... Enfim, valorizando o que a vida não cansa de me oferecer, vou descobrindo preciosidades. Hoje, logo depois da rosa, me deparei com um texto da Edna Gomes (instagram- ednagomesoficial1) que me sensibilizou bastante. Dele veio ao meu ser um reconfortante lampejo bem cedo. Esta é a justificativa para expressar minha gratidão à autora e apresentá-lo agora. 


   Existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperam de nós. Durante muito tempo, tentei caber em lugares que não tinham o meu tamanho. Tentei corresponder a expectativas, evitar julgamentos, explicar escolhas e justificar caminhos. Até descobrir uma coisa simples: algumas pessoas não sentem falta do que somos. Sentem falta de quem imaginavam que seríamos. E talvez uma das maiores conquistas da maturidade seja parar de pedir licença para existir. Há perdas nesse caminho. Algumas portas se fecham. Algumas companhias ficam para trás. Algumas versões de nós mesmos precisam partir. Mas, em troca, nasce algo precioso: a tranquilidade de chegar ao fim do dia sem precisar representar um personagem. Porque existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperavam de nós. E uma paz ainda maior em finalmente ser quem somos. 

MOSCAS VAREJEIRAS

 

Pela vidraça - Arquivo JRS 

      Os caiçaras de outros tempos denominam umas moscas nojentas de varejeiras. Eram daquelas que pousavam sobre tripas de peixes, feridas expostas etc. Medonhas, credo!

      Agora, nas páginas de Almas Mortas, de Nicolai Gogol, achei uma passagem que pode muito bem ser aplicado a um Congresso Inimigo do Povo e seus congêneres de mesmo teor (Câmara de vereadores, assembleia de deputados...). Eis a reprodução:


         Os fraques negros revoluteavam aqui e ali, como moscas sobre o torrão de açúcar que, num dia quente de julho, uma velha despenseira parte em bocadinhos, no peitoril de uma janela aberta. Os meninos que a rodeiam, gulosos, acompanham os momentos do nodoso braço que levanta o martelo, enquanto um enxame de moscas, ora dispersas, ora em grupos compactos, voam ligeiras no ar, lançando-se, atrevidas, sobre os bocados do açúcar, de cumplicidade com o sol que cega a velha, de vista um tanto debilitada. Empanturradas pelo saboroso manjar que lhes prodigaliza a cada passo o opulento estio, pensam menos em comer que em manifestar-se, passando por cima do açúcar, friccionando as patas umas contra as outras, coçam-se debaixo das asas, prendem a cabeça com as patas dianteiras estendidas e voam, por fim, para voltar ao mesmo ponto, em novos e importantes esquadrões.


      As moscas varejeiras voltam sempre, querem estar por cima, se aproveitar de tudo até que nada fique restando. Sabe quem paga as lambanças, desde a Câmara Municipal até o Congresso Nacional, das piores varejeiras da atualidade? A classe trabalhadora!