sexta-feira, 24 de abril de 2026

UM PASSADO TÃO PRESENTE

 

Capa de livro - Arquivo JRS 


     No passado histórico do nosso país, no tempo de D. João VI, alguns reinos europeus criaram a tal de Santa Aliança, uma coalizão militar e política conservadora. Quando digo conservadora, me refiro aos esforços, aos acordos para ser mantidos firmes os privilégios dos mais ricos. Quem sustenta estes? Quem trabalha, lógico! No nosso caso, na inclusão do reino português nessa aliança, o objetivo maior era preservar o Reino do Brasil do contagioso espírito revolucionários.

   Qual espírito revolucionário era esse? Era  a onda republicana e democrática que estava sendo abraçada pelas colônias espanholas na nossa vizinhança. A monarquia absolutista estava sendo defenestrada nos processos de independência no continente americano. Também a Santa Aliança, aliada de D. João, era fundamental para sustentar a continuidade do regime escravocrata que produzia a riqueza do Brasil.

    Olhando a onda reacionária do momento atual, a ação dela nos empobrecidos da nossa terra, quem não enxerga a atualização dos seguidores da Santa Aliança? Eles não querem a soberania do nosso povo, nem de outros mundo afora; desejam riquezas/privilégios às custas de quem trabalha, acham normal as condições análogas à escravidão de tantos homens e mulheres, sobretudo da juventude. Tais resquícios da ideologia da Santa Aliança apressam o fim do mundo desrespeitando todas as leis ambientais e combatendo a maravilhosa diversidade cultural do nosso povo. Seus adeptos são contrários e violentos contra as minorias marginalizadas e qualquer dos programas de inclusão social. Recorrendo aos dispositivos tecnológicos atuais, essa ideologia mentecapta produz uma massa de mentecaptos rebaixada, pois a maioria da população precisa ser mantida com um mínimo de inteligência, ficar privada da razão, da capacidade pensante, do senso crítico.

    No alvorecer da Santa Aliança, a família real portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte, veio aportar no Brasil. A elite portuguesa seguiu junto. Da noite para o dia mais de 15 mil lusitanos “invadiram nossa praia”. O saudoso professor Hércules Cembraneli se referia a eles como "a cambada de D. João, o séquito da rainha louca”. Agora, lendo a obra D.Leopoldina, de Paulo Rezzutti, fiquei sabendo que Carlota Joaquina, esposa do príncipe regente, foi trazida à força para o Brasil. A digníssima de D. João não queria vir porque “considerava o país uma terra de escravos e de macacos”. Dois séculos já se passaram, né? Ainda assim, nessa ideologia continua agindo e pensando a elite do atraso, conforme a denominação do sociólogo  Jessé Souza. Seu livro A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro, segue atualíssimo graças a uma porção de gente nossa que prefere fazer parte da classe de mentecaptos rebaixada.

     Somente é possível acreditar numa liderança popular, proveniente da classe trabalhadora, que leva às últimas consequências a frase: “a nossa cabeça pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam”. Os seguidores da versão atualizada da Santa Aliança seguem o principal da versão primeira: precisa haver escravos para se manterem como minoria dominante. Por isso a destruição da natureza é normal, leis trabalhistas não são necessárias etc. Fim da escala 6x1? Nem pensar!

domingo, 19 de abril de 2026

MASSA DE AR FRIO

Céu de outono - Arquivo JRS 

    Mano Mingo, olhando o céu claro, fica inspirado. Eu, aguardando o céu clarear, me viro de lado.

Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



sábado, 18 de abril de 2026

SONHOS E CICATRIZES

 

Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS


    Os primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.

    Dizem os especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.

    Pelo que me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida. Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice, queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica. Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram.  Tenho certeza de que o meu primo também tem essa cicatriz.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

EU JÁ RODEI TRECHO

 

Borboleta no terreiro - Arquivo JRS 


     Eu, bem cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas, carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.

   Olímpio, amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela ditadura militar. Era quase  final de 1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta, da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador. Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”. “Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei trecho, tenho histórias para contar!”.

terça-feira, 14 de abril de 2026

QUEM ESPIAVA?

 

Época de pinhão na Mantiqueira 

Francisco, o Chagas - Arquivo JRS 

    Francisco, mais chamado de Chagas, sempre viveu do mato (desde cortar lenha até coletar pinhão de março em diante, acabando no principiar do inverno). Dele me veio o convite de conhecer um mínimo trecho da Mantiqueira, da mata das araucárias. Fui com satisfação, prestando muita atenção em tudo porque aprender nunca é demais.

    No começo da trilha Francisco tirou o boné e pediu a proteção divina e licença ao último morador daquele local. Bem pouco andamos e já avistei uma casa no mato. Era visível o abandono. "Quem morava ali, Francisco?". "O Tinoco Cipião até dois atrás ocupava aquele lrancho. Depois que morreu, levaram ele para o cemitério. Olha só: em vida só conheceu a lida na roça, vivendo das coisas da mata. Nunca saiu deste lugar. Agora, depois de morto, se mudou para a cidade. Tá lá, na terra dos pés juntos". Não pude deixar de rir  do inconformismo  do meu guia.

    Já ouvi dizer que Mantiqueira é serra que chora. Logo apareceu a primeira água. Pouca, mas filete transparente. Me detive para apreciar, ver uma pequena lagoa. "Que maravilha, né Zé? Este rego era o rio dele. Nele Tinoco se servia para tudo". "Vivia sozinho esse Tinoco?". "Vivia sim. Nunca teve família nesse tempo todo. Só ia uma vez por mês na cidade para receber dinheiro da aposentadoria. Foi a causa da morte dele. Assim se deu: uma ocasião, gente ruim que já sondava, sabia da rotina mensal do coitado, e, numa data de pagamento, lhe fez a maldita visita. Matou o pobre e roubou-lhe a mixaria". "Triste demais".

     Deixamos os sinais dos viventes e nos entranhamos na mata. Entre baixadas e espigões, as velhas araucárias nos proveram com frescos pinhões. Fomos catando aos seus pés os frutos lançados por seus braços. De repente uma poça maior de água remexida: "A porcada passou por aqui faz pouco tempo, Zé". "É mesmo? Só digo uma coisa, Francisco: é muito bom andar em sua companhia!".

    No fim da jornada, Francisco perguntou: "Sabe quem espiava a gente o tempo todo ?"


sábado, 11 de abril de 2026

O BOI COSÉ

 

Primeiro loteamento na Lagoinha - Arquivo Ubatubense

Ruinas da Lagoinha - Arquivo Fundart

Bois na praia - Arquivo internet


   Seo Porfírio, nascido e criado na praia da Lagoinha, neto (ou bisneto?) “de escrava fugitiva do fazendeiro da Caçandoca”, contava muitas histórias, sobretudo depois que teve a perna amputada e passou a ficar mais tempo na cadeira de rodas, morando com o filho Juventino, na rua Gastão Madeira, no centro da cidade. Eu, sempre que surgia uma oportunidade, me detinha e sentava na calçada para ouvi-lo. Hoje, o principal desta crônica é o boi Cosé. Pelo que me foi contado, era muito estimado este animal. Tentarei ser fiel ao máximo à narrativa desse descendente da guerreira Gertrudes.

 

   Quando eu nasci quase tudo ali era mato, com quase nada de casa. Só havia caminho pelo jundu porque na maré cheia não se podia passar pela areia da praia. As poucas roças ocupavam os morros porque o resto era areia quente ou alagados de taboas e caxetas. As ruínas já estavam há muito tempo abandonadas de tudo. Mais tarde tentaram plantar bananeiras, vender frutas para os ingleses, mas veio o tempo da guerra e tudo foi largado. Aí trouxeram gado, poucas cabeças. Produziam leite, faziam queijo, matavam de vez em quando para negociar carne. Quase ninguém comprava porque não havia dinheiro. Com o tempo os animais foram envelhecendo, ficando largados, sem rumo. Poucos foram levados para outro lugar. O resto morrreu de velhice. Andavam por onde queriam, entravam no mar, se banhavam na barra, comiam capim do jundu... Cagavam onde batia a vontade. De vez em quando a criançada atentada montava num deles e saia se sacolejando. Não tinha nenhum animal bravo. Um deles, todo preto, o Cosé, adquiriu um costume engraçado: se aproximava quando percebia que alguém se preparava para sair mar afora, parecia querer ir junto na canoa. Acompanhava com os olhos até a pessoa desaparecer no mar. Se alguém fosse remando até a Maranduba, na rota paralela à praia, Cosé seguia o rumo caminhando na água salgado, com ondas quebrando nas canelas. E ia mesmo! Chegava lá junto com a embarcação! Só voltava de lá quando o remador fazia o mesmo.

    Cosé morreu de velho, foi enterrado defronte ao ilhote do Pontal. Ali, onde mais tarde apareceu uma área de acampamento para veranistas. Deve existir ainda hoje uma árvore grande naquele lugar. Para nós era a Figueira do Cosé.

 

Notas: 1- O caisão da ponta Grossa, em Ubatuba, foi construído para servir de porto na região e estimular a bananicultura emergente na primeira metade do século XX.  A Segunda Guerra Mundial a fez submergir prematuramente neste município.

            2- A área para acampar, onde estava a Figueira do Cosé, abrigou anos depois da abertura da rodovia entre Ubatuba e Caraguatatuba, o Camping Club do Brasil (CCB).

 

  

sexta-feira, 10 de abril de 2026

JANGUINHO E SANTANA

 

Rancho dos pescadores - Arquivo JRS


 

   - Era feriado, dia de festa. O lagamar, desde a barra até o porto da nossa capela, estava tomado de gente. Era um mundaréu só. Um foguetório traduzia a alegria geral e a curiosidade do nosso povo. Era a visita do presidente da república, do nosso presidente que, depois de passar pela ilha Anchieta, veio até a cidade. O navio dele ficou fundeado bem lá fora.

   - Faz tempo isso, Janguinho?

   - Ah, faz muito tempo! Antes do tempo do presidente Getúlio Vargas, eu era bem novo ainda. Depois disso, que eu me lembre, festança maior só em 1948 quando o Guisard, inaugurou a luz na cidade. O prefeito daquele tempo era o doutor Alberto. Até o bispo de Taubaté, Dom Idílio, veio para prestigiar o evento.

 

   A prosa acima aconteceu no começo da década de 1980, quando eu já morava no bairro da Estufa II. A praia do Itaguá era o nosso principal ponto de encontro. Aos domingos, era comum ver todo mundo por ali aproveitando bem o mar e a areia. Tudo era limpo!  Na ocasião acontecia uma corrida de canoa marcando os festejos da capela do Itaguá. O professor Joaquim Lauro era o grande incentivador dos festejos. Eu, claro, aproveitava para ouvir histórias dos mais velhos. O casal Janguinho e Santana (a parteira da comunidade) estava na vez: um ajudava o outro nos detalhes da narrativa. Quando eu ouvi o nome do bispo, entendi porque algumas crianças caiçaras receberam o nome de Idílio. Ao menos dois me aparecem na mente: um no Perequê-mirim e outro no Sapê. Dar nomes aos filhos se guiando pelo santo do dia no calendário, assim como homenagear recém-nascidos com nome de autoridades eclesiásticas, fazia parte da religiosidade católica caiçara.

    Pois é! Bem mais tarde eu encontrei uma imagem da época onde o citado bispo oficializava a missa solene recordada pelo saudoso casal do Itaguá. Era no Cruzeiro, na avenida Iperoig. Havia mesmo uma multidão!

Nota: a inauguração da energia elétrica em Ubatuba, no ano de 1948, se deu pelo esforço da Companhia Taubaté Industrial (CTI), do Félix Guisard, dono do Casarão na época. Porém, a cidade cresceu e foi preciso que a companhia estadual de energia (CESP) estendesse uma rede mais potente via serra de Caraguatatuba, na década de 1960. Eu, bem criança, na praia do Sapê, me recordo de homens e máquinas estendendo fios e postes sobre as picadas abertas nas matas. Como eu tinha medo!