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| Dona Gertrudes - Arquivo JRS |
| Desde pequenos fomos induzidos a acreditar que o movimento armado, de 1932, foi uma revolução. Ocorrida entre julho e outubro de 1932, também é conhecida como Guerra Paulista, foi um levante orquestrado pela elite paulista, uma contrarrevolução contra o governo provisório de Getúlio Vargas a ameaçar alguns privilégios mediante a força dos trabalhadores organizados. Em Ubatuba, principalmente por fazer divisa com o Rio de Janeiro, houve muito medo porque ninguém queria ir para nenhuma frente de combate, ter de abandonar suas famílias. Hoje, recorrendo à memória da saudosa dona Gertrudes, seu neto Rogério Estevenel nos brinda com o seguinte texto, com destaque aos caiçaras da comunidade das Toninhas. Gratidão, Rogério! |
A Revolução de 32 em Ubatuba
O céu começou a fechar cedo naquele dia, como se soubesse que algo estava para acontecer. Na Praia das Toninhas, o mar já não tinha o azul manso das manhãs: escurecia em ondas pesadas, batendo nas pedras com uma fúria que parecia ensaiada. Ao longe, o contorno do Morro do Dionísio surgia como um gigante silencioso, guardando segredos entre a Praia das Toninhas e a Praia Grande de Ubatuba. Era 1932. O Brasil fervia. A chamada Revolução Constitucionalista de 1932 chegava até ali não com discursos, mas com passos pesados na areia e olhos desconfiados sob chapéus de aba larga. Na beira do Rio Jacundá, as mulheres estavam de cócoras, mãos rápidas, limpando e escalando peixes recém-pescados. O cheiro de sal, escama e lenha queimando se misturava ao ar úmido. Entre elas, uma menina de doze anos observava tudo com um silêncio atento. Era minha avó Gertrudes — ainda menina, ainda sem saber que carregaria aquela memória por toda a vida. Ao lado dela, o pai — já curvado pelo tempo — apoiava-se em um pedaço de remo velho. Os olhos dele, no entanto, não estavam cansados: estavam alertas. Sabia.
— Hoje eles vêm — murmurou, sem olhar para ninguém.
E vieram.
Primeiro, o som. Não de mar, não de vento. Botas. Muitas. Depois, vozes firmes, cortando o ar como faca em peixe fresco. Uma tropa desceu pela areia, levantando pequenos redemoinhos de pó. Homens armados, vindos não se sabia de onde — talvez de São Paulo, talvez do interior — mas com um só propósito: recrutar. Os caiçaras sabiam o que aquilo significava. Sabiam desde que os primeiros rumores cruzaram o litoral como um sussurro levado pelo vento. Quem pudesse lutar, iria. Quem não fosse, seria levado. Mas os homens dali tinham o mar como aliado. Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de um vermelho pesado, eles desapareceram. Subiram em silêncio pelo Morro do Dionísio, pisando leve como quem conhece cada raiz, cada pedra. Escondiam-se entre a mata fechada, onde o cheiro de terra molhada e folhas esmagadas abafava qualquer rastro. A menina viu alguns deles partirem. Tios, vizinhos, rostos conhecidos que desapareceram na trilha como se fossem engolidos pela própria montanha.
Na praia, a tropa não encontrou resistência. Apenas mulheres, velhos e crianças.
— Onde estão os homens? — perguntou um dos soldados.
Silêncio.
O som distante de um trovão respondeu por elas. O vento virou de repente. As folhas das amendoeiras tremularam, e o mar começou a subir, inquieto. O céu escureceu como se fosse noite antes da hora. A menina apertou a mão do pai. Então a chuva veio. Não como chuva, mas como um rasgo no céu. Grossa, pesada, violenta. Em segundos, apagou pegadas, levou restos de peixe, fez o rio crescer e turvar. O Rio Jacundá engrossou, arrastando galhos e folhas como se quisesse esconder tudo o que havia ali. Os soldados recuaram, confusos. Gritavam ordens que se perdiam no barulho da tempestade. Alguns tentaram avançar em direção ao morro, mas a trilha virou lama, escorregadia, traiçoeira. A montanha, naquele dia, escolheu lado. A menina, encharcada, olhava sem piscar. Não sabia explicar, mas sentia: o morro estava protegendo os seus. A noite caiu de vez. Quando a chuva cedeu, já não havia mais tropa. Restavam marcas confusas na areia e o silêncio pesado depois da tormenta. Um a um, como sombras, os homens começaram a descer do Morro do Dionísio. Cansados, molhados, mas livres. Não todos — alguns tinham sido levados dias antes, em outras praias, em outras histórias que ninguém contava em voz alta. O pai da menina respirou fundo, como quem devolve a alma ao corpo.
— O mar e o morro… — disse ele — ainda cuidam da gente.
A menina nunca esqueceu. Anos depois, já velha, contava que naquela tarde escura de trovoada, não foi apenas uma fuga. Foi um pacto silencioso entre gente e terra. Entre medo e coragem. E dizia, com um brilho estranho nos olhos, que até hoje, quando o céu fecha de repente na Praia das Toninhas e o vento sopra diferente, é porque o morro ainda está de vigia, protegendo aqueles que aprenderam a se esconder… e a resistir.








