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| Rosas na Mantiqueira - Arquivo Mingo |
Quando eu era ingênuo,
espiando as alturas da Serra do Mar,
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| Rosas na Mantiqueira - Arquivo Mingo |
Quando eu era ingênuo,
espiando as alturas da Serra do Mar,
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| Logo ali - Arquivo JRS |
- Quando o sal ainda não salgava e o açúcar não era doce?
- Não sabeis? Foi ontem!
- Naquele momento quando o raciocínio subiu como balão, deixando todo mundo de boca aberta?
- Mais ou menos, podemos dizer. Aí veio aquela sonolência que matou a vontade de comer e deixou nossas mentes à deriva.
- Me lembro sim desse momento quando as palavras sumiram, deixaram as letras desarranjada.
- Isso mesmo! Impossível descrever qualquer coisa! O pensamento andava pelo infinito enquanto o finito tinha sumido no horizonte. Queria criar algumas coisa.
- Como criar algo do nada?Quero dizer ir do nada para alguma coisa.
- Não sei se enxergo esse rumo. Até duvido que possamos deduzir.
- Agora estamos no hoje. Dos seres passados herdamos os átomos e essa gama de tudo que nos sustem.
- Isto cria problemas ou ajuda a resolvê-los?
- Veio o começo, espaço e tempo nasceram.
- De onde?
- Provavelmente de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram, que vieram de outros que se findaram... Só depois de espaço e tempo vieram os corpos.
- E dos corpos vieram nossos corpos, né ? Destes, ansiosos e vibrantes, se originou a sociedade e se consolidaram as crenças. Bem mais tarde se definiu a ciência.
- E o amanhã?
- Tudo será surpresa. Somente o desconforto é certo.
- Talvez as luzes e radiações que atravessam imensidões cheguem até nós como suaves melodias ou estonteantes trovões. Caberá aos nossos corpos as interpretações.
- Se haverá de ser assim, elevemos nossas tigelas abastecidas com as leis da natureza. Desse modo nos revigorados.
- Então continuarmos no zero?
- Sim, dele saímos e nele estamos. Do nada veio tudo. Logo, tudo é nada. "Havia trevas sobre a face do abismo".
- Portanto, nada de se estressar com a própria existência.
- Que se vire cada cultura para apresentar seu próprio mito da criação! Eu só digo que foi o cosmos o orientador da nossa existência. Porém, a mente é a atriz principal.
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| Ascendino - Arquivo Roberto Ferrero |
Tempos atrás o estimado Roberto Ferrero publicou uma fotografia que, ao mesmo tempo, me causou saudades e pesar. O meu amigo Ascendino havia nos deixado. Hoje, faço questão de publicar o texto daquela ocasião, daquele momento que me fez recordar de tantos outros.
Ascendino era descendente do Odócio e Maria, gente do Prumirim que se mudou para a praia da Enseada em busca de melhores condições de vida. A casa deles, no local conhecido por Pedra Branca, era vizinha do Dito Henrique, o velho. O já citado Roberto é bisneto deste.
Um pouco mais de tempos atrás eu havia estado com o Ascendino no terminal de ônibus, no centro da cidade. Conversamos um pouco, lembramos de pessoas e momentos que vivemos na nossa mocidade naquele trecho envolvendo Perequê-mirim e Enseada.
Um tempo mais longe, quando eu entrava na adolescência, Ascendino foi meu parceiro em obras. Éramos serventes dos pedreiros onde, Jorge do Moji, originário do Ubatumirim, era o encarregado. Numa dessas construções, futuramente Hotel Nosso Cantinho, dávamos conta de atender cinco ou seis pedreiros. Depois nos separamos: ele foi para a pesca e eu fui contratado para trabalhar num bar, mercearia e restaurante. Só de vez em quando ele aparecia para prosear. No entanto, vez ou outra, vivia nas pescarias com o meu pai.
Ascendino, gente nossa, amigo fiel que não hesitava em pedir ajuda e ser um apoio sempre quando era possível, sempre prezou por nossa raiz cultural. E assim se foi mais um caiçara de nossa geração. É a gente passando pela vida. Bem dizia o meu amigo: "A rede tá no mar da vida. Um dia a gente fica no tresmalho que está armado para nós desde que viemos ao mundo". Bem assim, Ascendino do Odócio e da Maria!
Em tempo: Benedito Henrique foi casado com Judith Cabral. Hoje, na rua Benedito Henrique, no Perequê-mirim, se localiza a creche Judith Cabral. Seguem juntos, né?
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| Um lindo ser - Arquivo JRS |
Ainda no corre-corre com a minha filha acidentada, depois da alienada da crônica anterior, eu me encontrava sentado ao lado de um jovem com o braço quebrado, na altura do cotovelo. Escutei a sua narrativa:
- Eu tava indo para o trabalho, bem cedinho. Ia pedalando pela rodovia, passando pela Estufa. Quando foi na altura da entrada para a Sesmaria, um caminhão me fechou. Caí e quebrei o braço. Pior que é o mesmo motorista que uns meses atrás atropelou e matou uma criança. Só que comigo não vai ficar barato não! A firma na qual ele trabalha é pertinho de casa, no Parque dos Ministérios, no Ipiranguinha. É uma distribuidora de ferros para construção, de ferragens para obras. Na minha opinião, se eu fosse dono, eu já teria mandado embora esse motorista irresponsável. Agora tô assim, não sei quando poderei voltar ao trabalho. Sou casado, tenho família pra cuidar. Vou entrar na Justiça atrás dos meus direitos.
Pois é! O pobre leva a pior quando se coloca ao lado dos ricos. Também não se sai nada bem quando busca seus direitos contra uma empresa poderosa, cheia de grana. Tudo porque ainda impera uma estrutura muito cruel, de colonização, na sociedade brasileira.
Onde para tudo nesse inseguro mar? No lagamar! Diz um ditado: "Nada, nada, nada... E morre na praia".
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| Um copo - Arquivo JRS |
No leito hospitalar, no mesmo quarto da minha filha, uma mulher bem desequilibrada falava um monte de coisas, mas não dizia nada, sempre com um aparelho celular na mão. Sua acompanhante, que dizia ser sua irmã, logo foi afirmando que era evangélica, das Testemunhas de Jeová. Na hora me deu uma angústia porque estou cansado de ouvir coisas descabidas, absurdas, desse tipo de gente que puxa assunto fora da realidade essencial. Até hoje, pouquíssimas das pessoas que me abordam buscando me converter são críticas, procuram expressar indignação perante as injustiças sociais. O mundo melhor para elas é outro mundo. Eu quero que este nosso mundo seja o melhor!
Pois bem! A tal irmã acompanhante, num determinado momento, entre o falatório da outra doente que parecia flutuar em nuvens, afirmou uma "verdade" que, conforme os estudiosos mais significativos, provam qual país está por trás dessas igrejas, quem as financiam. Eis a verdade dela: "Lá no Irã as crianças são ensinadas a serem terroristas". Pensei no instante: uma pobre criatura, acompanhando outra semelhante num hospital público, que nem imagina onde fica esse país chamado Irã, está tomando partido de dois países que iniciaram uma guerra bem distante daqui bombardeando uma escola de meninas no antigo r
Império persa, matando quase duas centenas delas. A miséria cultural é evidente! "O pastor falou, é verdade". Neste nível, nesta disfunção cognitiva, jamais usarão as lentes apresentadas pela ciência. Apenas serão usadas para justificação de maldades mundo afora.
Eu, sujeito mediano, consigo entender que é a sede de expansão territorial e a cobiça pelo petróleo iraniano que está sendo disputado. Ao mesmo tempo, dominar aquele país é enfraquecer a China, poderosa potência consumidora dos combustíveis derivados do óleo de pedra.
Basta de alienação!
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| Capa de livro - Arquivo JRS |
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| Saco das Bananas - Arquivo JRS |
Depois de um dia de muita correria, com a minha querida filha hospitalizada devido a um tombo na rua, me detive na imagem acima que tem mais de três décadas. Na ocasião, eu me encontrava na praia do Saco das Bananas, era hóspede do saudoso casal Dito Madalena e Constantina. No mar estavam as embarcações usadas nas pescarias e no transportes em geral (banana, farinha, materiais de construção, turistas etc.). Um pouco mais longe eu divisava a praia do Simão, também conhecida como Brava do Frade. Nesse tempo já nenhum caiçara habitava a paisagem do Simão, apenas vestígios ficaram como restos de histórias. João Araújo, os irmãos Quintino e Luiz Januário se foram por últimos. Os descendentes dos Garcêz e da Maria Jacinta saíram mundo afora entre os primeiros. No Saco das Bananas até a escola deixara de ter quem ensinasse as primeiras letras. As poucas crianças agora precisavam andar longa distância num péssimo caminho até a praia da Caçandoca para receberem a instrução básica. Gregório Crispim levou toda família para habitar longe de sua origem, à margem do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. Teófilo e Palmira eram falecidos. Só a lembrança da acolhedora casinha deles entre bananeiras me deixava saudoso.
No dia distante dessa imagem, sem nenhuma companhia, fui até o Morro do Inhame para contemplar pela última vez os sinais, entre matos, de uma sala de aula, mas que também servia a outros eventos para a vizinhança (missa, bate-pé, reunião...). Uma carteira escolar, daquelas de dois lugares, ficara no capinzal como testemunha. Raras fotografias de uma comunidade que existia ali, preservadas por gente querida, me emocionarão pelo resto da vida.
Pois é! A experiência de cada pessoa é única! Tia Livina costumava repetir esta máxima: "Quem viveu viveu. Quem não viveu ouvirá contar".