domingo, 8 de fevereiro de 2026

CANOA NA VIOLA

 

       

Artesanato local - Arquivo JRS 

 

     Viva os 15 anos do blog!


      Ainda em cima do trabalho do Olympio Mendonça, de meados da década de 1970, me comovi vendo os nomes de caiçaras que conheci bem: uns estão vivos, mas muitos já se foram. Hoje, o assunto é canoa. Quem nos transmite é o saudoso Mané Mancedo e o estimado Tié Barbosa que segue firme na musicalidade e nas danças da nossa tradição.


     Canoa é gênero de moda de viola, com cantiga e dança arrasta pé. A música é impressionante em seus volteios e melodia, desprendidos pelo rasqueado das violas. Ao lirismo plangente, sucede o vibrante dos desafios e repentes. Os bailarinos evolucionam-se nos sistemas das danças de roda, como a ciranda e a cana-verde, entretanto há bate-pés, violentamente ritmados pelos pandeiros ou tambor. Trata-se de forma de cantiga, letra e dança, mais apreciada na região. Todavia, a execução de suas posições na viola de arame exige muita perícia dos violeiros; daí a dificuldade dos moços tocarem essa modalidade, que necessita de afinação própria, bem diferente das modernas.


Viola, minha viola;

Viola, meu violão. 

(Bis) A viola me conhece no punho da minha mão.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Canoa, minha canoa;

Canoa não é assim.

(Bis) Canta a sereia no mar, o canário no jardim.

Morena da Ponte Nova, me leva.


No cabo dessa viola

Eu faço guerra civí.

(Bis) Em cima da carabina faço cama pra durmi.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Também não posso cantá,

Mas não sei porque eu já cantei

(Bis) Já bebi água de rosa, com as fadas já desmudei.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Bananeira chora

De tanto filho que tem.

(Bis) Morre o pai e morre a mãe, fica os filhos sem ninguém.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Aí bananeira do cacho,

Do cacho da bananeira.

(Bis) A ratoeira do rato, do rato da ratoeira.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Cheguei no seu jardim, ai,

Pra tirá nove rosas.

(Bis) Três brancas, três amarelas, três encarnadas cheirosas.

Morena da Ponte Nova, me leva.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

CAIÇARA

 

Arte em casa - Arquivo JRS 

   Viva os quinze anos do blog!


   Em meados da década de 1970, o pesquisador Olympio Mendonça escreveu acerca dos caiçaras da área do Ubatumirim, em Ubatuba:


   Caiçara é o habitante do litoral de São Paulo e, em especial, do litoral "norte". As pessoas naturais de Ubatuba e região têm consciência dessa denominação e dela se orgulham. Em Ubatumirim, todos os moradores denominam-se caiçaras para se distinguir dos estranhos. Desconhecem que o vocábulo nomeia também outros moradores do litoral de São Paulo. As conotações pejorativas do termo, "malandro", "vagabundo" não se aplicam a eles, sendo o caiçara um excepcional tipo humano, há mais de três séculos isolado entre a Serra do Mar e o oceano. Ainda não está contaminado pela necessidade do supérfluo e pela obsessão da poupança. Não trabalha regularmente; o mar e a terra lhes forneciam, até pouco tempo, uma alimentação farta, baseada no peixe e na farinha de mandioca. É, até certo ponto, arredio e desconfiado em relação aos forasteiros. Julga-se feliz em sua maneira de viver e não mostra interesse em vender seus terrenos e se afastar de sua terra secular, apesar de, com a chegada da Rio-Santos, estar sendo pressionado a fazê-lo.


     Pois é, a BR-101, trecho Rio-Santos, desde o final daquela década está aí. A especulação imobiliária dita as regras, promove um turismo desregulado e fragmenta a cultura local. Ainda não tivemos nenhuma gestão que despertasse para as consequências danosas desse modelo, desse "progresso" que aliena a família trabalhadora e destrói o nosso tesouro ambiental. Até o crime organizado disputa o território na atualidade! 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

APOITANDO

    

Mosaico - Arquivo JRS 

       No mês de comemoração dos 15 anos deste blog, vou recordando bons momentos das coisas dos caiçaras. 

      Chico Félix, meu tio nascido no sertão da Caçandoca, também entendia de fazer casa do jeito nosso, que veio dos antigos. Firmava pau a pique na soleira, depois envarava tudo com imbé. Jissara era a ripa preferida. No morro escolhia sapê, penteava com maior cuidado e logo estava pronta a cobertura. Dizia que sabia, mas se orgulhava de dizer que aprendeu mesmo com o João Firmino, seu caprichoso sogro. Porém, nunca quis viver nisso porque a grande paixão dele era a pescaria.


     "Tresantonte fui no currico, mas não deu nada. Vardí do Diocrécio topô de í comigo. Não é ruim quando tem mais um pra remá, né mesmo? Ele foi que falô da gente esticá até a Redonda, aquela lage no rumo do Mar Virado. Fomos, lá arriamo a poita e logo deu bicho grande na linha. Veio garopa, gudião, sargo... Só ser de respeito. 'Assim vale a pena', se alegrô o Vardí. Tive de concordá com o meu parcêro. Do nada, já tando quase saindo, com a poita embarcada, uma espada bitela pegô no meu anzó. Era criada a danada! Usei o bichêro, puxei pra dentro da canoa. Nessa hora me estrepei: ela meteu o dente no meu carcanhá, foi só sangue na água do fundo. Vardí tirô na cuia. A valênça é que sempre carrego uma garrafada no balaio. Arco e arcanfo é santo remédio, nem chega a inframá. Taís vendo aqui? Isto não é nada, tô quase curado. Logo logo a gente vai de novo naquele pesquêro apoitá. Sabeis com que isca? Sururu do rio, lá de casa. É só batê e puxá". 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

FILHO QUERIDO

 

Rótulo - Arte do Estevan




   Hoje, 4 de fevereiro, aniversário do nosso querido Estevan, declaro aberto o mês de  comemoração do décimo quinto anos deste blog.

           Coisasdecaicara.blogspot nasceu por estímulo da esposa, da minha Gal. Ela queria que, além de dar as contribuições a outros veículos, eu tivesse o meu próprio: "É uma forma de você escrever, organizar seus textos e publicá-los quando der na cabeça". Assim, por recomendação dela, alcançamos este tempo de 15 anos.

      15 anos no prazer de escrever, de registrar lembranças, causos caiçaras, histórias de pessoas estimadas etc. Foram 15 anos de apoio da família, vendo o crescimento das crianças. (Agora elas enfrentam suas batalhas na realidade que, predominante, pretende ser exploradora, desvirtuadora dos rumos e desnorteadora dos sonhos juvenis). Neste instante sei que nossos filhos já rumam para mais um dia de labuta, seguem pelos caminhos sob sol ou chuva em conduções improvisadas e rompendo muitas adversidades até seus postos de trabalho. Tenho plena ciência que muita gente vai ficando pelos trajetos desiludidos de tudo. Quem não enxerga jovens perambulando desnorteados, dormindo ao relento, sendo pisoteados como os animais covardemente abandonados? Também não se pode deixar de ver tantos idosos que até hoje não encontraram a merecida paz após uma longa vida sustentando a sociedade.

     15 anos é o tempo que passei registrando as minhas impressões, angústias e alegrias em 2.213 postagens até este momento. Em 15 anos conquistei 209 seguidores e computei 1.047 comentários.

      Vale muito tudo isso, meu povo! Abraços e beijos, minha gente! 

     Feliz aniversário, filho querido!

 

      

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

QUE É ISSO?

Uma aula de erros - Arquivo JRS 


"O direito à informação é um valor tão essencial quanto o direito à alimentação, à saúde e à educação"  (L. Nassif)


      Eu, por curiosidade, me deparei com uma aula ministrada por militares onde o a alfabetismo funcional ficou evidenciado. Me convenci de que há desinformação nesse projeto de escola. Das duas uma: ou os pais são ingênuos úteis ou quem defende tal modelo é pilantra consciente. 

     É um nível de analfabetismo funcional gritante, onde os erros ortográficos me fazem passar vergonha só em vê-los de tão longe de uma sala de aula neste momento. Gente assim nunca leu o que deveria ler, nunca entenderá que o mundo gira em torno dos interesses mesquinhos de uma minoria poderosa. Gente assim nunca perceberá que é uma engrenagem útil por enquanto, mas logo será descartada porque jamais fará parte da elite. Gente assim, desde agora, é contra os direitos trabalhistas que ainda amenizam bastante a rotina de quem labuta, de quem carrega este Brasil nos ombros. Gente assim segue alimentando o sumo da miséria cultural que apodrece o lagamar, corrói nossas embarcações e resulta em tantos naufrágios.

Em tempo: gente assim sabe que as filhas de militares falecidos ganham muitas vezes mais do que o seu soldo mensal?

     

sábado, 31 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA (II)

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil

    Eu estava lendo um texto de Robert Wright quando achei esta importante contribuição aos significados das coisas, de suas essências, sobretudo em tempo de ameaças e ataques a muitos países por parte de um tirano que se acha dono do mundo. Me assusta mais saber, via pesquisa nacional, que só pouco mais da metade dos brasileiros católicos (a minha tradição caiçara) está do lado do estado democrático de direito. Ou seja: essa gente está cultivando a essência política reacionária com as piores tendências. Assim, aprovar a matança de pobres (votando em políticos inescrupulosos) em vez de promover a justiça social, vai se tornando "ideal" à essência da humanidade. Isto é péssimo para todos nós!



    "A guerra oferece um bom exemplo de como a essência pode passar de um nível a outro. Você começa com a ideia de que o líder de uma nação é uma pessoa essencialmente ruim. A partir daí, embarca na ideia de que um país inteiro é seu inimigo. Isso então se traduz na ideia de que todos os soldados daquele país  -  ou até mesmo todas as pessoas daquele país -  são essencialmente ruins. E se as pessoas são más, isso significa que você pode matá-las sem sentir qualquer dor na consciência. Os Estados Unidos jogaram bombas atômicas em duas cidades japonesas  -  cidades, não bases militares -  sem gerar praticamente nenhum protesto por parte dos americanos."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ONDE A ESSÊNCIA MANDA

 

Touca da Nini - Arquivo JRS 

       Janeiro chegando ao fim. Em fevereiro  aniversaria coisasdecaicara.blogspot.com  (estará completando quinze anos).

      Eu, aos quinze anos, depois de trabalhar mais de ano num bar sem nenhuma folga, recebi em dinheiro um mês de férias e passei a ter uma folga semanal a cada segunda-feira. Que venha a escala 5 por dois ou outra melhor.

      Logo completando quinze anos, o blog tem 2.210 postagens,  208 seguidores e 1.047 comentários. Preguiça de escrever eu não tenho. Ah! Também tem as contribuições de gente muito estimada! Que bom, né? Saiba quem me segue e lê as crônicas: tá tudo guardado  no coração!

      Por que guardo tantas coisas? Por causa de suas histórias! Quase sempre elas têm relações com momentos e/ou com pessoas que muito admiro. Exemplo: olho um passarinho esculpido num pequeno pedaço de madeira e nunca me esqueço que foi presente de casamento que o tio Antônio nos deu: "Este sabiá foi escavado pelos meninos lá de casa, pelos vossos primos. É um presente de coração".  Você notou que há uma história que me faz guardar com muita devoção essa obra e tantas outras? 

    Bilhetes, ferramentas, desenhos e muito mais coisas são carregados por mim porque estão repletos de significados invisíveis e intangíveis. Eu atribuo a essa enorme quantidade essências afetivas. Elas mandam! São ítens especiais que me provocam sentimentos especiais. É por isso que tenho o meu olhar nelas: a canoinha, presente do Pedro, veio da ilha dos Búzios, o remo, feito pelo finado Bito Estevão, é da Caçandoca, o nível de ferro era do senhor Honda, os serrotes que pertenceram ao meu saudoso pai, a touca feita pela Nini, a manta confeccionada com tanto esmero pela querida Gal, a boina presenteada pelo Bentão etc. Alguém escreveu que ter sentimentos em relação a um objeto equivale a fazer julgamentos sobre ele. Acho que é mesmo!

    Vou à praia da Barra Seca, em Ubatuba, avisto a canoa CERNE, sei que foi a última escavada por meu pai alguns anos antes de falecer. Sigo admirando. Concordo que a conotação afetiva nasceu de uma crença cultivada por mim na história do objeto, nas pessoas envolvidas nela. Meus afetos precisam disso, meu condicionamento emocional se sustenta nessas histórias e nessas essências.

     O meu desejo é que não me falte energia para manter esta paixão em deixar registrado tudo que segue brotando em meu ser.