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| Na janela do vovô - Arquivo Mingo |
Nhonhô Armiro, da praia da Fortaleza (Ubatuba),
buscava ser muito correto em tudo. Enviuvou duas vezes antes de nos deixar com
saudades. Eu e mano Mingo, os dois bisnetos mais velhos, ganhamos dele as
nossas primeiras enxadas, daquelas que estavam “no toco”, desgastadas ao máximo
pelo uso. Com esses nossos presentes abríamos caminhos na badeja, próxima de casa, que descansava.
Nhonhô, caiçara muito correto, no final da
década de 1960 já era pai-mãe: lidava na roça, buscava água no pé do morro,
cozinhava, pescava, remendava roupas etc. Contavam os mais velhos do nosso
lugar: a capela de São João Batista, que até hoje continua olhando o mar, se
devia a ele a pedido do padre João, o alemão. Por mais de duas décadas Nhonhô
foi o capelão; só deixou o posto quando duvidaram da sua honestidade.
Vovô Armiro, filho do Nhonhô também era
muito correto. Da sua boca escutei algumas vezes a seguinte frase: “Deus é
justo, não ama a sujeira”. Sujeira era desonestidade, tramoia, difamação, pouco
caso, desrespeito, cobiça e mais um tantão de coisas que seguem machucando,
contribuindo na destruição da vida em comunidade. No sentido mais profundo da
religiosidade caiçara é tudo aquilo que mancha, que faz a nossa alma se perder.
“Sujeira” – me explicou há muito tempo a solidária tia Maria Mesquita, do tio Genésio,
recorrendo a uma frase bíblica, do Eclesiastes – “é tudo aquilo que romperá o
fio de prata, e se despedaçará o copo de ouro, e se quebrará o cântaro junto à
fonte”.
Pois é!
Desse modo, dançando entre o morro e a maré, eu e tantos crescemos,
chegamos até aqui esperando não se afastar da repetida sentença do vovô: “Deus
é justo, não ama a sujeira”. Resistindo a tudo chegamos ao momento atual, à realidade medonha que
busca transformar o preconceito em virtude, a intolerância em ponto de partida
da moral e a desumanização como sinônimo de liberdade de expressão. Portanto,
seguir aplaudindo as sujeiras de um criminoso fugitivo da justiça é o quê,
minha gente? Aonde nos levará ?





