sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA SÓ CONSCIÊNCIA

  

Shiva, a gatinha - Arquivo JRS 

      Há uma consciência muito maior do que a de cada um. Nela estamos nós e tudo que existe. Creio que é está que denominam de consciência cósmica, que é a mesma nossa. Sem dúvida alguma que a imensidão do espaço afeta a todos, mas também é atingida por mim, pela minha percepção.

     Tudo o que vemos, ouvimos falar, sentimos, nos apegamos etc., nos modificam. Energias chegam até nós, mas também partem de nós. Tomarei o seguinte exemplo: ao escrever uma crônica, em torno de determinado tema que mexeu comigo, na verdade estou demonstrando que ele segue me modificando. Um caso: dias atrás repassei para muita gente uma face marcante de uma determinada fase histórica do Brasil, vivida por mim na pequena escola mista do Perequê-mirim, em Ubatuba, um lugar desconhecido por muitos leitores do blog. No entanto, já disse que se trata de uma praia onde vivi grande parte da infância. Muita gente sabe o que é uma praia. Por outro lado, a minha experiência estabeleceu explicitamente uma conexão, pois a Mirtes (Harumi) foi afetada. E me afetou com seu texto e a contagiante alegria da irmandade em uma fotografia. Então aconteceu algo maior: parte dessa ampla consciência se faz presente por uma terceira pessoa. E, por intermédio da estimada filha do Sr. Honda e da Dona  Hamako, eis a sequência:


      Não consegui logar para comentar, mas adorei tua história! Também morei em Taubaté, quando criança. Estudei no colégio Olegário de Barros e tive a mesma impressão do prédio, dos corredores, das portas e janelas enormes. E de uma professora que era assim, tirana...

     Que lindeza de relato! A foto está maravilhosa! Ninguém respondeu o que era República durante a ditadura e ainda te colocou de castigo.


     Fechando, por enquanto, o assunto, uma atitude decorrente dessas interações diversas:

     Passei para frente, para os formadores de professores.

Em tempo: a fotografia das três crianças é mesmo demais! Sem dúvida que seus sorrisos estão em Renópolis, na Mantiqueira, deslumbradas com um mundo sendo de todos.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

VIRA, MAR VIRADO

 

Chegada na praia - Arquivo JRS 

    Fato desses dias: pescador da Maranduba, estando arrastando camarão por fora da ilha do Mar Virado, encontra mulher que estava desaparecida há quase dois dias. Ela e um companheiro saíram da Ilhabela numa motonáutica e não retornaram, nem deram notícias. Somente ela estava flutuando, graças ao colete salva-vidas, na imensidão do mar. Foi salva, mas o parceiro continua desaparecido. Ainda bem que um experiente caiçara estava buscando seu sustento por ali!


     "Com o mar não se brinca", repetiam os caiçaras mais velhos. 


     Numa ocasião, lá de longe, na costeira, eu e Fatinha olhávamos o movimento na praia. Mais algumas pessoas conhecidas estavam por ali, no nosso entorno, mas foram se dispersando ao notarem o tempo mudando. Nisso, uma lancha, dessas razoavelmente equipadas, surgiu na linha do jundu. Ela estava sendo empurrada por dois homens. Um deles era o Zé Roberto. Deduzi o óbvio: o meu amigo estaria indo à pesca. Afinal, ele se realiza quando está em pescaria no largo. De repente, do nada, o mar ficou enfurecido, com ondas imensas. Os dois companheiros já estavam embarcados, mas não conseguiam ultrapassar a zona de rebentação. 

      Eu me assustei quando vi uma onda maior, correndo de sul, ir carregando a lancha barra adentro. Ainda bem! Sem querer,  eles foram parar num lugar seguro. Nesse momento eu desci das pedras, fui até o local para conversar, convencer o Zé Roberto que, com aquele tempo, era impossível sair mar afora. Nenhum sinal facilitador era vislumbrado; ninguém deixaria o porto naquelas condições. De repente, nós dois nos viramos na mesma direção do Mar Virado. Céu turvo, ondas ainda maiores e tormenta de vento surrando forte. Foi naquele instante que o Zé concordou comigo, foi retirando as tralhas e se conformando em voltar para casa. "É, Zé, não vale a pena arriscar a vida".


Em tempo: o pescador que resgatou a moça é gente dos Quintino. Os mais antigos dele eram donos da ilha do Tamanduá, defronte a praia da Tabatinga.

O QUE É A REPÚBLICA?


Harumi, Satiko e Minoru - Arquivo Mirtes



       A querida amiga Harumi Honda, a nossa Mirtes, depois de ler no blog a crônica PÁTRIA LIVRE OU..., nos enviou a fotografia dos irmãos e fez o seguinte comentário:


   Nessa época, eu e minha família havíamos saído, ao meu entender, do paraíso. Vivíamos em Renópolis, um pequeno vilarejo encravado na Mantiqueira. Tinha os meus dias livres de criança que se deslumbrava com o mundo sendo de todos. Meu pai lecionava japonês aos filhos dos colonos japoneses, vivíamos sem cercas ou porteiras. Onde dava frutas, comíamos, onde havia riacho, refrescávamos. Não havia maldade, cumprimentávamos os adultos com muito respeito e ainda voltávamos para casa carregados de castanhas que ganhávamos para levar aos pais. Tudo era simples. Papai (Ototian) achou que chegara a hora de dar aos filhos educação urbana e condizente com os novos tempo. 

         Chegamos a Taubaté.  Matriculada no centrinho de  Taubaté, Grupo Escolar Lopes Chaves, linda construção hoje tombada pela Condephaat. Nunca tinha visto  construção como aquela. As portas eram escuras e de uma altura que dava quatro de mim. Corredores gigantes com janelões imensos. Saíra de uma escola em Renópolis que era uma única sala com uma única professora, dona Conchita que vinha de Pinda de bondinho para dar aulas para o primeiro, segundo e terceiro anos, todos juntos, ainda éramos responsáveis pela horta. Dona Conchita colhia as verduras e levava para vender. Como resultado recebíamos lindas escovas de dente, que podíamos escolher a da cor de preferência e, de quebra, aprendíamos o asseio bucal. Bem, retomando ao Grupo Escolar Lopes Chaves, santuário da aprendizagem: a professora que reluto a lembrar, mas não consigo chegar ao nome, que possuía olhos negros e grandes, me chama para avaliar meus conhecimentos. Fui indagada: - Quem é o Presidente da República? Nunca soube disso, República? O que é? Mil indagações à frente.  Não teve jeito, fiquei meia hora do lado de fora da sala cuja porta permaneceu fechada para mim. Findo o período que fiquei para pensar, enchi a lousa do início ao fim, EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICI. Nunca me explicaram o que é a República.

 

Em tempo: há um certo tempo eu publiquei O CADERNO DE HAMAKO, mãe da Harumi. Basta procurar no coisas de caicara.blogspot.com

quarta-feira, 27 de maio de 2026

A ESQUINA DO PECADO (II)

 

Depois do muro - Arquivo JRS 

        Depois do muro é a Esquina do Pecado. Bem cedo, por ali se avista pinos de droga, preservativos, copos descartáveis, garrafas vazias etc. Porém, a característica primeira da esquina são as prosas, fofocas e argumentações políticas, futebolísticas e religiosas. Conforme avisto quem vem se aproximando, já sei qual será o assunto. Hoje foi a vez do Dedé, neto do finado Daniel, meu chapa. O pontapé inicial foi a dificuldade nos negócios, mas logo vazou para religião e política:

      - Esses pastores ganham muito dinheiro. Para você ter uma ideia, o salãozinho perto de casa, "Ministério X", fatura 60 mil por mês só de dízimo.

     - É assim mesmo, Dedé. Daí para pior. A pesquisa diz que entre os mais ricos do Brasil, 5 são pastores (Edir Macedo, Valdemiro, Malafaia, R.R. Soares, Estevam e esposa).

      - Será mesmo! Coisa estranha, né? Mas o que eu acho errado mesmo é ficarem falando de política nas igrejas. Religião não deveria se misturar com política.

      - Pois eu discordo. Cristo morreu apedrejado ou crucificado?

      - Crucificado, lógico!

      - Pois é. Naquele tempo só ia para a cruz quem era uma ameaça política. Era a punição imposta pelo sistema. O castigo religioso era o apedrejamento. Estevão, primeiro mártir dentre os seguidores de Cristo, foi apedrejado. Que morte horrível!

     - Quer dizer então que Jesus era uma ameaça política?

     - Sim, porque ele, pobre, tomou partido dos pobres, das pessoas marginalizadas. Então seria salutar se, nas igrejas que pretendem transmitir ensinamentos de Cristo, das primeiras comunidades cristãs, houvesse reflexão sobre a vida e em torno dos compromissos dos fiéis. Exemplos: Vai votar em quem faz leis contra os pobres? Vai escolher representantes que são contra os direitos trabalhistas? Vai aplaudir quem só deseja ampliar as desigualdades sociais? Vai eleger quem acha que exterminando os injustiçados a justiça prevalecerá?

      - É, neste sentido você tá certo. Mas é complicado.

     - Você, que conhece bem o nosso povo, as pessoas que nos rodeiam, me diga: Elas usam o posto de saúde, a Santa Casa e outros hospitais públicos? Seus filhos estão na escola pública?  Muitos deles não sobrevivem graças ao Bolsa Família? Não recorrem ao SAMU, à Farmácia Popular etc.?

     - Sim, quase todo mundo que eu conheço precisa disso tudo.

     - Diante dessa realidade, Cristo estaria mais na posição de quem é a favor da direita, contra os pobres, ou questionaria e seria crucificado porque ousaria defender os empobrecidos? Como deve se comportar politicamente quem quer se comprometer com Cristo, com a comunidade?

    Depois disso Dedé se despediu porque precisava ir "resolver uns negócios".  Não sei se voltará para outras prosas na Esquina do Pecado.

terça-feira, 26 de maio de 2026

TUDO QUE VIVI LÁ

 

Teia de aranha - Arquivo JRS 

     As histórias nos mantém aquecidos mesmo depois de décadas após ouvi-las. Nossos corpos não vivem sem histórias.

     Imagine, nos primórdios da humanidade, adultos e crianças  prestando atenção e se revezando nas narrativas que preenchiam a vivência, davam sentido a cada um e ao coletivo. Milênios depois, no chão caiçara, nas casas de nossos avós, o ritual dos primeiros tempos era atualizado. A gente não vivia sem histórias!

     São as lembranças dessas histórias - e de muitos momentos nossos! - que se compõem em nossas crônicas, poemas e outros gêneros literários. Hoje, apresento dois poemas: uma do mano Mingo e outro do Miguel, filho do primo Márcio da Fortaleza. 

      Deste modo o Mingo faz a apresentação:

Coloquei mais rimas no seu poema, Zé.   Me acomodei na banco da cozinha,

o fogo ardia devagar,

era lenha que queima fácil:

caneveteiro, tinticuia e ingá.

O gato se destacava no canto,

com os olhos brilhantes da luzerna.

Pensei nas brasas,

em postas de peixes,

em bananas-da-terra...

Biju tinha na cuia.

Voltei aos 10 anos de idade,

ai, que lonjura foi minha saudade!


      Já o Miguel, premiado no concurso de 2023, escreveu:


     Na casa dos meus avós, eu jamais ficava só.

     Fosse de dia ou não, nunca senti solidão.

     Posso me lembrar de tudo que vivi lá,

     Do bolo da vovó ao seu brilho no olhar.

     Só não posso esquecer de uma coisa em particular:

     O pequeno lampião que vivia a me cativar.


      O lampião estava sempre a me salvar.

      Não importava a hora ou lugar.

        Ele vivia a iluminar.

      Mas o que mais gosto de lembrar,

      É o vovô apagando-o para orar.


Observação: eu estava na Biblioteca Publica, na ocasião da premiação. Muito me alegrei saber que gente mais nova, da nossa família, estava no "papo da aranha", na teia da literatura.

VEM FRIO AÍ

 

Arte do Estevan - Arquivo JRS 

Me acomodei na banqueta,

O fogo ardia devagar.

Era lenha de caneveteiro,

De tinticuia e cajuja.

Tudo que queima fácil.

A luzerna destacava o gato,

Brilhava em seus olhos.

Pensei nas brasas,

Em postas de peixes,

Em bananas da terra...

Biju tinha na cuia.


Ah, que lonjura!

segunda-feira, 25 de maio de 2026

UNIVERSO E MENTE

 

Conchas de preguaís - Arquivo JRS 

      Deepak Chopra e Menas Kafatos, autores do livro Você é o universo, afirmaram o seguinte: "Podemos dizer que pensamentos e palavras são um tipo de limbo silencioso, à espera de serem convocados pela mente". E não é que parece ser isso mesmo? Haja vista que eles não se manifestam antes da nossa apelação. Exemplo: 

      Eu penso numas pedras na costeira, mas em qual costeira? Determinei agora ser o Saquinho Manso, entre as praias do Perequê-mirim e Santa Rita, porque foi bem marcante na minha infância. Me foco nele, no lugar calmo que era, onde a criançada nadava sem nenhuma dificuldade, sobretudo quando se aproximava o verão e os preguaís apareciam rastejantes no fundo do mar. Passávamos horas mergulhando ali, recolhendo esses seres tão apreciados em nossa família. Então, o pensamento se junta às palavras para avançar nas explicações até mesmo a quem, mesmo sendo da cultura caiçara, não conhece preguaí e nem imagina o sabor dessa iguaria na nossa culinária. Está comigo? Percebe que sigo convocando pensamentos e palavras que se encontram no limbo silencioso que, num primeiro momento, é muito particular? Mas você vai se inteirando dele graças às palavras e à sua mente! Neste instante chego a sentir o aroma daquelas coisas singulares, partes picadas de preguaís numa panela, sendo preparadas pela minha saudosa mãe. Ah, que cheiro bom! Melhor ainda era degustar com acompanhamento de palmitos que foram cortados logo ali, em torno da nossa pobre casa. Na verdade, tudo do nosso entorno era para a nossa subsistência. Por isso plantávamos e cuidávamos com muita atenção. Eram "crias nossas", dos pássaros, dos animais e dos ventos que semeavam. Tínhamos compromisso com o que abundava ao nosso redor e por onde andávamos. 

      Onde passeia agora meus pensamentos e palavras? Está emergindo, vindo da imensidão do universo e trazendo o escritor português Fernando Pessoa. É a ele que transfiro a conclusão:


            Segue o teu destino,

            Rega as tuas plantas,

            Amas as tuas rosas.

       O resto é a sombra de árvores alheias.