quarta-feira, 10 de junho de 2026

QUEROSENE NÃO HAI

 

Céu da Joseana - Arquivo Ana Maria 


     O querosene é um subproduto do petróleo. Antigamente, quando não havia energia elétrica em terras caiçaras, sobretudo nos pontos mais distantes do centro urbano, essa substância era uma alternativa como combustível. Nas lamparinas ele alimentava as torcidas, pavios que se tornavam mechas iluminantes nas casas. Ruim era acordar cedo com o nariz preto da fumaça que era expelida. Eu e muitos dos meus respiramos bastante dessa porcaria. Sabia que a falta de querosene no mercado foi tema de xiba ?

 

    Kilza Setti, em Ubatuba nos cantos das praias, uma pesquisa já completada 50 anos, destaca:

    As inovações observadas nos textos das canções geralmente são feitas para homenagear pessoas ou fazer referências a episódios considerados importantes no contexto caiçara, mas não revelam crítica no sentido social mais amplo. Em contrapartida, o pasquim funcionou por longo período no litoral norte de São Paulo como porta-voz de crítica. Voltando-se à indagação feita há pouco a respeito de um esmorecimento da capacidade crítica: haverá uma indiferença do caiçara de hoje ante um frustrado projeto de vida? Ou um conformismo sem limites diante dos fatos que lhe determinaram a desorganização ou quase ruptura com seu mundo cultural? Em oposição a este atual estado de indiferença, é notável como o caiçara anos atrás reagia perante os fatos, depositando nas canções sua crítica, e mesmo certos acontecimentos mundiais que vieram, por ventura, alterar-lhe os hábitos, não passaram despercebidos. Um exemplo é a Moda da guerra d’Alemanha, xiba surgida em Ubatuba por ocasião da Segunda Guerra Mundial. Nesta música, a crítica parece claramente referida à carestia imposta ao brasileiro, sem que ele pudesse entender o motivo de tais privações:

 

Esta guerra d’Alemanha

Ela foi a causadeira

Acabou-se a querosene

Tamo queimando a nogueira

O azeite da nogueira

Que faz muito mar à vista

Que martrata o coração

De tanta moça bonita.

Bom dia, minha senhora,

De balaio adonde vai?

Vou apanhar a nogueira

Querosene aqui não hai mai.

 

Em tempo: na época dessa referida guerra mundial, alguns lares em Ubatuba já possuíam rádios abastecidos por pilhas. Era por esse meio que as notícias chegavam aqui mais depressa.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

UMA LIBERDADE ESTRANHA

 

Rosa na geada - Arquivo JRS 

       Bem cedo, num dia de céu azul, admirando uma rosa no terreiro de casa ainda a mostrar o quanto a madrugada foi fria, despertei a meta maior de todo amanhecer: o que fazer para, neste mais um dia de vida, permitir o voo da alma? Prestando atenção no entorno, ouvindo, lendo... Enfim, valorizando o que a vida não cansa de me oferecer, vou descobrindo preciosidades. Hoje, logo depois da rosa, me deparei com um texto da Edna Gomes (instagram- ednagomesoficial1) que me sensibilizou bastante. Dele veio ao meu ser um reconfortante lampejo bem cedo. Esta é a justificativa para expressar minha gratidão à autora e apresentá-lo agora. 


   Existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperam de nós. Durante muito tempo, tentei caber em lugares que não tinham o meu tamanho. Tentei corresponder a expectativas, evitar julgamentos, explicar escolhas e justificar caminhos. Até descobrir uma coisa simples: algumas pessoas não sentem falta do que somos. Sentem falta de quem imaginavam que seríamos. E talvez uma das maiores conquistas da maturidade seja parar de pedir licença para existir. Há perdas nesse caminho. Algumas portas se fecham. Algumas companhias ficam para trás. Algumas versões de nós mesmos precisam partir. Mas, em troca, nasce algo precioso: a tranquilidade de chegar ao fim do dia sem precisar representar um personagem. Porque existe uma liberdade estranha em deixar de ser o que esperavam de nós. E uma paz ainda maior em finalmente ser quem somos. 

MOSCAS VAREJEIRAS

 

Pela vidraça - Arquivo JRS 

      Os caiçaras de outros tempos denominam umas moscas nojentas de varejeiras. Eram daquelas que pousavam sobre tripas de peixes, feridas expostas etc. Medonhas, credo!

      Agora, nas páginas de Almas Mortas, de Nicolai Gogol, achei uma passagem que pode muito bem ser aplicado a um Congresso Inimigo do Povo e seus congêneres de mesmo teor (Câmara de vereadores, assembleia de deputados...). Eis a reprodução:


         Os fraques negros revoluteavam aqui e ali, como moscas sobre o torrão de açúcar que, num dia quente de julho, uma velha despenseira parte em bocadinhos, no peitoril de uma janela aberta. Os meninos que a rodeiam, gulosos, acompanham os momentos do nodoso braço que levanta o martelo, enquanto um enxame de moscas, ora dispersas, ora em grupos compactos, voam ligeiras no ar, lançando-se, atrevidas, sobre os bocados do açúcar, de cumplicidade com o sol que cega a velha, de vista um tanto debilitada. Empanturradas pelo saboroso manjar que lhes prodigaliza a cada passo o opulento estio, pensam menos em comer que em manifestar-se, passando por cima do açúcar, friccionando as patas umas contra as outras, coçam-se debaixo das asas, prendem a cabeça com as patas dianteiras estendidas e voam, por fim, para voltar ao mesmo ponto, em novos e importantes esquadrões.


      As moscas varejeiras voltam sempre, querem estar por cima, se aproveitar de tudo até que nada fique restando. Sabe quem paga as lambanças, desde a Câmara Municipal até o Congresso Nacional, das piores varejeiras da atualidade? A classe trabalhadora!

sábado, 6 de junho de 2026

ALFREDINHO (II)

 

O justo oprimido - Arquivo JRS 

        Era um final de tarde, quase serão. Eu escutava com atenção um tema muito doloroso ao Alfredinho (Frédy Kunz), que poucas vezes ele abordava: o tempo em que passou no campo de concentração, nas mãos dos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Nesses momentos se ouvia descrições terríveis, nunca imaginadas por este caiçara de Ubatuba, da segunda metade do século XX.

        Alfredinho dava o testemunho de bastante fome naquele período distante da sua vida, com muitas pessoas morrendo porque ficavam privadas de comida e água, sendo vitimadas por disparos ou castigos físicos de maldades extremas. A pior revelação permanece, pelas  palavras emocionadas dele, em minha memória:

    

        "Muitas das pessoas destinadas à morte imediata eram trancadas numa grande sala e recebiam um gás letal.  Uma vez mortas, jogavam sobre os corpos um pó branco, parecido com cal, que desintegrava tudo. Em seguida, com grande quantidade de água por meio de uma grossa mangueira, aquela montoeira de coisas, restos de seres humanos, se esvaía por uma tubulação para algum rio ali por perto. Assim ficava tudo limpo, pronto para outras execuções. Era muita maldade naquele momento histórico, meu irmãozinho Zé."


      No contexto atual do Brasil, perante a normalização das maldades, os discursos carregados de ódio de muitos políticos e as mentiras passando por verdades, lanço um apelo aos corações: é nossa obrigação escolher bem nossos representantes políticos. Pensemos nas questões ambientais, nas leis de inclusão e justiça social. Afirmemos a todo momento o nosso compromisso com um mundo mais justo, sem desigualdades sociais e nenhuma forma de discriminação. A alma da nação depende das nossas escolhas.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

A BANALIDADE DO MAL

 


Desarranjos - Arquivo JRS 



      Eis o título de um livro da filósofa Hannah Arendt definido após assistir ao julgamento de um nazista, em Israel, no século passado. Deste conceito (banalidade do mal) nasceu a afirmação de que o mal não surge apenas em gênios ruins, mas também em pessoas simples que optaram por não pensar, não refletir. Deste modo vão cumprindo e/ou desenvolvendo as piores maldades que estão sendo regadas em suas consciências.

    Agora, assistindo o vídeo de um candidato à presidência do nosso país, brindando com um copo de leite junto a corregionários, me pergunto: seus admiradores, eleitores, sabem que isto (de fazer brinde com leite) é um gesto racista dos nazistas amplamente divulgado pelos adeptos da seita Klu Klux Klan? Preocupado com isso, com gente que eu estimo, recorro a uma frase luminosa do cientista político Jessé Souza: 

   "O racismo geralmente se apresenta de forma explícita. Muitas vezes ele opera por símbolos, códigos e mensagens que parecem inofensivas para uns, mas são perfeitamente compreendidas por quem compartilha determinada visão de mundo".  Concluo agora: assim, sobretudo entre os mais oprimidos, a real ameaça neonazi avança, vence por falta de inteligência e ausência de caráter. Eis a estratégia para se manifestar e atualizar a banalidade do mal. Depois disto, apedrejamento de empobrecidos será "a regra mais suave".

    Acordemos! É a alma da nação que está em jogo!


quarta-feira, 3 de junho de 2026

TODO MUNDO DANÇAVA

 

Milho aos pombos - Arquivo JRS 

     Os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas etc.) e a religião muito influenciaram o fazer cultural no chão caiçara. Em qualquer lugar, né? Senti isso na minha infância quando alguns colegas não se divertiam no carnaval, não assistiam shows e estavam sendo direcionados à  cantoria apenas de hinos religiosos. Chegou a juventude e eu passei a encarar isso com mais seriedade. Gente nossa falava mal dos bailinhos que aconteciam nos fins de tarde, aos domingos, criticava os bate-pés e se julgava melhor que os demais caiçaras. O ápice disso tudo foi quando, em 1992, em entrevista ao Zé Pedro, mestre cirandeiro na Fazenda da Caixa, lhe perguntei a razão da dança da ciranda ter se acabado na Vila da Picinguaba. Está foi a sua resposta: 

     - Veja bem, antes só tinha a capela católica, todo mundo dançava. Depois foram chegando outras igrejas diferentes, dessas protestantes que diziam que era pecado dançar, que era coisa do capeta e mais coisas piores. Você imagina o estrago que fizeram essas igrejas repetindo a mesma coisa, que era coisa ruim, que Deus não queria isso, não aprovava aquilo? Com todas elas pregando que tudo era pecado, não demorou nada para a ciranda e mais outras manifestações do lugar desaparecerem, só ficarem em nossas lembranças. Tenho pena da criançada nova que não sabe de nada que tinha antes e de como a gente se divertia.

    Pois é! Na comunidade da Enseada, diziam os mais antigos, dois espaços de função ficaram marcantes em meados do século passado: a casa dos Góis e a casa do João Emboaba. Este, até quando a saúde permitiu, acolhia a todos que desejavam dançar, se divertir. Já o casal Góis, que vivia promovendo animados bate-pés em casa, se apagou após a conversão à Congregação Cristã.

     Meu pai também contava de um músico, antes católico, mas que "mudou da água para o vinho" ao passar seguir outra, a Quadrangular. Lá o missionário baixou a proibição de qualquer prática musical que não fosse dedicada aos hinos da igreja. Na verdade, estava incutindo a ideia de que a música, da cultura da terra, estava ligada ao pecado, era sensual.

     Outro fato bem marcante para mim foi quando Roberto, mestre de capoeira, se tornou evangélico e repudiou todo seu talento na musicalidade e no gingado. Dele eu herdei o atabaque com o qual fazíamos a puxada de rede e o maculelê.

      Evoluímos ou nos afogamos na miséria cultural, no analfabetismo político? E, no fim, "todo mundo dança."


          "Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos."


Em tempo: hoje sabemos qual país continua respaldando logística e financeiramente essa maré reacionária neopentecostal. 


terça-feira, 2 de junho de 2026

RAÍZES SERRA'CIMA(II)

 

Retalho preto - Arquivo JRS 

    Todo as pessoas citadas na primeira parte do presente título eram negros e negras, exceto o Dito Olho Azul e a vó Martinha. Sim, caiçaras de Ubatuba! No entanto, os traços culturais (danças, expressões, cantos, instrumentos, religiosidade...) dos afrodescendentes já estavam se apagando em Ubatubano século XX. Por quê

    Uma teoria é que, com a decadência cafeeira em Ubatuba, o grande maioria da população escravizada foi levada para o Vale do Paraíba e outras regiões, deixando a quase  totalidade das fazendas da zona costeira em situação de abandono. A crise, inevitavelmente, deslocou a maioria desses trabalhadores. É claro que foi junto uma grande bagagem cultural desse povo! Vamos lembrar que, em 1830, constituia-se os negros em 56%  da população nesse município litorâneo. Portanto, o que nos foi possível de alcançar até a década de 1970 (jongo, moçambique, congada, marimba etc.), era fôlego da incrível resistência. É  indiscutível este fato: menos negros e seus descendentes na faixa litorânea resultou em menos traços culturais deles neste espaço. Mariano, o velho, fundador da capela São Benedito, no bairro da Estufa, dizia que "tudo foi se perdendo quando o nosso povo foi levado daqui para sofrer em outras terras".

     Na prainha Deserta habitava o avô do Zé Teotônio, um antigo caiçara e solista de jongo. Eis uma lembrança dele (sempre ao compasso de palmas):


Rola o capurubu,

Chora eu, chora minha gente.

Segura pelo imbé;

Chora eu, choram vocês.

Segura pelo imbé.

Quem veio faz muita força;

Quem não veio é porque não quis.

Rola o capurubu, segura pelo imbé.

De onda em onda um dia vai rolar

Um cabo de cá e outro de lá.

E vamos descarregar.

Rola o capurubu, rola, rola, rolá.

Vai rolar na areia, minha gente.

Só não escuto gente de lá,

Minha gente, saravá.