domingo, 19 de julho de 2026

A "REVOLUÇÃO"

      

Dona Gertrudes - Arquivo JRS 

         

     Desde pequenos fomos induzidos a acreditar que o movimento armado, de 1932, foi uma revolução. Ocorrida entre julho e outubro de 1932, também é conhecida como Guerra Paulista, foi um levante orquestrado pela elite paulista, uma contrarrevolução contra o governo provisório de Getúlio Vargas a ameaçar alguns privilégios mediante a força dos trabalhadores organizados. Em Ubatuba, principalmente por fazer divisa com o Rio de Janeiro, houve muito medo porque ninguém queria ir para nenhuma frente de combate, ter de abandonar suas famílias. Hoje, recorrendo à memória da saudosa dona Gertrudes, seu neto Rogério Estevenel nos brinda com o seguinte texto, com destaque aos caiçaras da comunidade das Toninhas. Gratidão, Rogério!


        A Revolução de 32 em Ubatuba 

     O céu começou a fechar cedo naquele dia, como se soubesse que algo estava para acontecer. Na Praia das Toninhas, o mar já não tinha o azul manso das manhãs: escurecia em ondas pesadas, batendo nas pedras com uma fúria que parecia ensaiada. Ao longe, o contorno do Morro do Dionísio surgia como um gigante silencioso, guardando segredos entre a Praia das Toninhas e a Praia Grande de Ubatuba. Era 1932. O Brasil fervia. A chamada Revolução Constitucionalista de 1932 chegava até ali não com discursos, mas com passos pesados na areia e olhos desconfiados sob chapéus de aba larga. Na beira do Rio Jacundá, as mulheres estavam de cócoras, mãos rápidas, limpando e escalando peixes recém-pescados. O cheiro de sal, escama e lenha queimando se misturava ao ar úmido. Entre elas, uma menina de doze anos observava tudo com um silêncio atento. Era minha avó Gertrudes — ainda menina, ainda sem saber que carregaria aquela memória por toda a vida. Ao lado dela, o pai — já curvado pelo tempo — apoiava-se em um pedaço de remo velho. Os olhos dele, no entanto, não estavam cansados: estavam alertas. Sabia.

     — Hoje eles vêm — murmurou, sem olhar para ninguém.

    E vieram.

    Primeiro, o som. Não de mar, não de vento. Botas. Muitas. Depois, vozes firmes, cortando o ar como faca em peixe fresco. Uma tropa desceu pela areia, levantando pequenos redemoinhos de pó. Homens armados, vindos não se sabia de onde — talvez de São Paulo, talvez do interior — mas com um só propósito: recrutar. Os caiçaras sabiam o que aquilo significava. Sabiam desde que os primeiros rumores cruzaram o litoral como um sussurro levado pelo vento. Quem pudesse lutar, iria. Quem não fosse, seria levado. Mas os homens dali tinham o mar como aliado. Quando o sol começou a se esconder, tingindo o céu de um vermelho pesado, eles desapareceram. Subiram em silêncio pelo Morro do Dionísio, pisando leve como quem conhece cada raiz, cada pedra. Escondiam-se entre a mata fechada, onde o cheiro de terra molhada e folhas esmagadas abafava qualquer rastro. A menina viu alguns deles partirem. Tios, vizinhos, rostos conhecidos que desapareceram na trilha como se fossem engolidos pela própria montanha. 

     Na praia, a tropa não encontrou resistência. Apenas mulheres, velhos e crianças.

     — Onde estão os homens? — perguntou um dos soldados.

    Silêncio.

    O som distante de um trovão respondeu por elas. O vento virou de repente. As folhas das amendoeiras tremularam, e o mar começou a subir, inquieto. O céu escureceu como se fosse noite antes da hora. A menina apertou a mão do pai. Então a chuva veio. Não como chuva, mas como um rasgo no céu. Grossa, pesada, violenta. Em segundos, apagou pegadas, levou restos de peixe, fez o rio crescer e turvar. O Rio Jacundá engrossou, arrastando galhos e folhas como se quisesse esconder tudo o que havia ali. Os soldados recuaram, confusos. Gritavam ordens que se perdiam no barulho da tempestade. Alguns tentaram avançar em direção ao morro, mas a trilha virou lama, escorregadia, traiçoeira. A montanha, naquele dia, escolheu lado. A menina, encharcada, olhava sem piscar. Não sabia explicar, mas sentia: o morro estava protegendo os seus. A noite caiu de vez. Quando a chuva cedeu, já não havia mais tropa. Restavam marcas confusas na areia e o silêncio pesado depois da tormenta. Um a um, como sombras, os homens começaram a descer do Morro do Dionísio. Cansados, molhados, mas livres. Não todos — alguns tinham sido levados dias antes, em outras praias, em outras histórias que ninguém contava em voz alta. O pai da menina respirou fundo, como quem devolve a alma ao corpo.

     — O mar e o morro… — disse ele — ainda cuidam da gente.  

     A menina nunca esqueceu. Anos depois, já velha, contava que naquela tarde escura de trovoada, não foi apenas uma fuga. Foi um pacto silencioso entre gente e terra. Entre medo e coragem. E dizia, com um brilho estranho nos olhos, que até hoje, quando o céu fecha de repente na Praia das Toninhas e o vento sopra diferente, é porque o morro ainda está de vigia, protegendo aqueles que aprenderam a se esconder… e a resistir.


sexta-feira, 17 de julho de 2026

CABEÇA DE PEIXE

 

Tainhas - Arquivo R. Ferrero 


     É tempo de tainha fugindo do sul gelado, buscando água mais quente para a desova. A caiçarada pira, sobretudo quando a cabeçuda tá ovada. Não é de hoje que o meu povo se desespera para caprichar um pirão de tainha fresquinha ou uma recheada e bem assada, deixando a vizinhança com água na boca. Eu não dispenso umas postas fritas para tomar com café e farinha de mandioca. Tia Sebastiana descartava todos esses modos de preparar, pois a preferência dela era tainha seca com banana verdolenga. E uma ova assada então? É bom demais, gente!

    Nesse espírito, aspirando em aproveitar a época, me dirigi ao mercado de peixes. No caminho encontrei com o filho da dona Inês e do finado Martinho:


   - Tais indo aonde, Zé?

   - No mercado comprar tainha. Será que tem?

   - Tem demais! Ontem passei no Zoreba e levei três bitelas. Mamãe tá lá em casa, e, como toda essa gente antiga, de outros tempos, peixe não pode faltar. Levei quatro das grandes, mas vou levar mais um tanto porque o preço tá bom. Quem prepara a comida, quando tem peixe lá em casa, sou eu. Dou folga às mulheres. Caprichei logo duas, rendeu no escaldado porque era só eu, a mulher e a mamãe. A minha mulher come pouco, mas eu e a mamãe... Nossa Senhora! Você acredita que a mamãe, quando se pegava na cabeça do peixe, assobiava de dar gosto? Umas cinco falas de passarinho ele tirava brincando! Para você ter uma ideia, eu precisei fechar a janela e a porta porque a passarinhada (saíra, sanhaço, tié e mais alguns atrevidos) já ia entrando na cozinha.

    (Risos) 

    - Na cozinha?

   - É, na cozinha! Porque lá em casa ainda é do jeito antigo: a mesa das refeições fica no meio da cozinha. Na casa do papai era assim, lá em casa eu sigo o mesmo costume.


   Me despedi do empolgado amigo e tomei o rumo das peixarias. A última fala dele me fez recordar de que na casa dos meus avós também era assim, existia uma grande mesa na cozinha. Com fartura de farinha de mandioca, escaldado (de peixe, de caça, de galinha etc.) era prato principal no almoço e no jantar daquele tempo.

terça-feira, 14 de julho de 2026

SENTA AÍ E BOTA REPARO

 

João de Souza (de pé) - Arquivo Mônica 

       

As leitoras - Arquivo Mônica 

    A querida Mônica me enviou a imagem do seu vô João proseando com Miguel, Élvio e uma criança. Estavam defronte ao campo de futebol do Itaguá, sentados no banco de tantas histórias. Veio à memória muitos momentos onde a recomendação primeira era: "Senta aí e bota reparo no que vou contar". 

     João de Souza e mais gente nossa neste chão caiçara criava um mundo inteiro em suas contações.  Como um contador de histórias cria um mundo inteiro?

    Vivendo situações fantásticas?

     Recordando do passado, das experiências vividas ou escutadas?

      Continuando uma tradição cultural de se reunir geralmente aos finais de tardes?

     Recorrendo à capacidade imaginativa/inventiva?

     Desejando outros desfechos para algumas condições existenciais?

     Garimpando palavras e seus significados?

    Projetando protagonistas?

    Apaixonando-se pela narração, pelo prazer de colecionar histórias?

    Amando descrever tipos singulares que passariam desapercebidos no cotidiano?

    Dando importância destacada aos livros, bibliotecas e estudos?

    Adorando as palavras?

   

     São tantas as alternativas, mas acho  que elas acabam se ajuntando. 

    Sabe de quem eu me lembro quando estou lendo ou escrevendo? Eu me recordo no tanto de gente a contar histórias em minha vida! João de Souza, João Barreto, vó Eugênia, vô Estevan, Zezinho Roseno, Virgílio Lopes, Francisco Chagas, tio Ezidio, tia Izolina, tia Apolônia, Velho Rita e mais um tantão de gente que nunca tiveram a pretensão de questionar história, causo, lenda etc. , mas que de certa forma expressaram o poder da literatura. As "Crias da Dona Laura", começando pela Joseana e Mônica, estão abraçadas à literatura, me deixando bem feliz. Meus parabéns!

domingo, 12 de julho de 2026

A ESQUINA DO PECADO (III)




Lagoinha - Arquivo Marcos Prado


          Olhando para uma imagem capturada pelo primo Marcos Prado, comecei a escrever a experiência de quase agora quando, muito discretamente, eu mexia na terra, podava uns galhos e refazia uns vasos. Tudo no maior silêncio, do outro lado do muro, onde está a esquina de tantas prosas.
        Um pouco antes dei uma bisolhada para ver o movimento. Avistei o amigo Ditão sentado ali, bem tranquilo. Retornei aos afazeres. De vez em quando eu escutava o meu amigo cumprimentando alguém, fazendo uns comentários banais. Percebi a chegada de uma mulher, reconheci a voz da filha da Matilde. E tome prosa!

       - Boa tarde, Ditão! Sabia que o meu marido morreu faz quase um ano? Antes disso, por dois anos eu fiquei cuidando da doença dele, mas não teve jeito. Por isso eu digo que estou praticamente viúva há três anos. Aí apareceu alguém, tô namorando. É Deus que tá preparando um novo marido para mim. Só tem um porém: eu sou evangélica e ele é católico. Ele dorme lá em casa, fica comigo... Acho que vai dar certo. Deus tá preparando, vai dar certo sim. O meu falecido marido também era católico e nós nunca brigamos por conta disso.

        Pelo o que eu escutei, o Ditão prestava atenção na narrativa. Eis o fecho que ele deu na prosa:

        - Se já estão morando juntos é sinal que Deus já preparou. De agora em diante é com vocês.
       
        Escrever essas observações simples e honestas é o que me move. Eu interpreto a nova condição daquela mulher como uma libertação. Que seja mesmo!
         

sábado, 11 de julho de 2026

VIVA O TIO MANECO!

 

Tio Maneco - Arquivo Kilza 



Mestre Neco - Arquivo Débora 

         Eram três irmãos: Nhonhô Armiro, Tio Cláudio e Tio Maneco, de outros tempos da praia da Fortaleza, em Ubatuba. Desde pequeno eu sabia a seguinte história: tendo ficado órfãos de pai muito cedo, foi o mais velho deles, Nhonhô Armiro, quem ajudou a criar os irmãos, tendo de ir trabalhar como assalariado na região santista. Todos eram Mesquita, nossa raiz moura por parte da mãe. Do lado paterno, os Amorim eram da mesma origem, dos árabes que ocuparam por séculos a Península Ibérica (Portugal e Espanha).
        Maneco Mesquita passou por Maneco do Armiro e terminou sendo conhecido apenas por Maneco Armiro. Autodidata, tornou-se um exímio rabequista, sendo presença ativa na Folia do Divino e muito requisitado nos encontros musicais. Nas temporadas de férias, quando a cidade recebia muitos turistas, tio Maneco se tornava a estrela em muitos momentos. Numa ocasião, na casa de um alemão acordeonista, no morro da Fortaleza,  eles se compuseram em dupla muito aplaudida. Eu, adolescente, passei mais de hora escutando os dois tocando. Titio, um show à parte, se requebrava todo, não perdia o ritmo e se completava com o alemão. Rabeca e acordeon geravam uma maravilha de música. Que beleza!
       É verdade que, por um lado, a gente notava a ação predatória dos turistas sobre as nossas paisagens (praias, costeiras, morros...) e a nossa cultura. Porém, uma parcela desses visitantes (veranistas) prestigiava a atividade musical do nosso lugar, comparecia aos festejos, acolhia os foliões, valorizava satisfatoriamente traços da cultura caiçara. Posso dizer que tio Maneco Armiro deu a sua contribuição nessa interação entre pessoas e culturas tão diversas. Viva a memória dele!

      Dele e da tia Aninha, mano Mingo escreveu:

Parentes da alegria

Espalhafatoso e pregoeiro de leilão em festa do padroeiro
Tio Maneco, rabequeiro e rabo-de-saia autodidata
No intervalo de trabalho e estripulias
Sacou as tintas de Miró
Mesmo sem conhecê-lo
E pintou os tijolos de sua casa
Cada um de uma cor.
Tia Aninha, sua esposa, tratou de enfeitá-la por dentro
Armou o oratório mais bonito e variado
Com anjos, santos e beatos
E distribuía biscoitos e bênçãos
Para nós, crianças de todas as idades.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

O VIOLEIRO OTAVIANO

 

Folia do Divino 2026 - Arquivo Débora 

    Tio Maneco Armiro, rabequista de primeira, fazia todos os  anos a sua parte na corrida da Bandeira do Divino. De vez em quando eu atentava aos elogios que eram feitos aos seus parceiros. Tinha predileção pelo paratiano Otávio porque era desinibido, gostava de falar e tinha uma visão de mundo diferente, era viajado, vivia de música e de um mínino de subsistência (puxava rede no Itaguá com Florindo e Aládio, limpava terrenos por empreitadas, buscava sardinhas no cais etc.).  Outros bem estimados eram Santinho e Otaviano. Este, violeiro, natural do Itaguá, faleceu em 1979. É por sua voz que apresento agora partes de uma música recolhida pela Kilza em anos de pesquisa sobre a produção musical caiçara:


Quem quisé sabê meu nome

Vai lá em casa que eu dô

O meu nome tá escrito 

Na porta do corredô, ai, eh!


     Notou que  o músico deixava um clima de suspense? Depois de outras quadras, finalmente ele revela o seu nome:


Eu me chamo Taviano

Escrevê nome não carece

Em toda parte q'eu vô

O pessoar me conhece.


      Portanto, logo é fácil deduzir que tio Maneco, Otávio Paratiano, Santinho, Otaviano, Dona Sebastiana, Pedro Brandão e outros mais eram andarilhos no cumprimento da devoção. Eram conhecidos por toda gente do município naquele tempo em que a religiosidade popular transpirava no universo caiçara.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

UM CAMARADA

 

Cidade pequena - Arquivo JRS 

      José Ademar, bem mais vivido do que eu, me reconheceu primeiro. De um chute inicial no futebol, adentrou na política, na onda nefasta, reacionária, da atualidade brasileira. Estávamos em viagem. Fizemos aflorar os principais temas e problemas. Passeamos pela geografia miúda, pois na área maior nossos filhos se debruçam, nadam nas escolas. Assim viajamos horas. Nas suas falas empolgadas eu me inspirei.


Resistir nesta chão,

Torná-la  outra terra

Onde patifes serão delimitados.

No agora, absurdo refúgio,

Fisionomias sucumbidas,

Corpos resignados,

Sonhos perseguidos

Ou duramente resignados.


Utopias aparentemente imobilizadas,

Frestas para pouco se ver;

Sacolejos nos obstáculos.

Nós chegamos aqui!

Onde nós estamos?

Distinguimos democracia de autoritarismo?

Firmamos posição por mais vida?

Sustentamos bandeiras contra egoísmo?


Vivemos no mundo próximo,

Vi o mundo lá fora.

A Terra foi alargada,

Subi muitos degraus,

Distinguí corpos enterrados,

Gente carregando o próprio caixão;

Multidão de alienados.


José Ademar, gente da roça,

Migrante ainda menino.

Despertou na cidade,

Se fez no operariado;

Na arrogância da força 

Que distinguia o militar

Ousou enxergar mais longe.

Diálogo de sonhos a fermentar.