sábado, 27 de junho de 2026

PESADELO A BORDO

 

Olympio e as crianças - Arte do Guinho



Na borda um menino quieto;

Barco balançando, balançando, balançando...

Reparei melhor: menino empalamado.

(Porque o  vai e vem assim o deixa).

Ar que muda,

Rente ao costado só espuma;

Mais abaixo fosforescência.

Vento no rosto,

Tontura insistente:

Pesadelo de gente.


Menino  empalamado;

Frio e calor medonho.

Tudo embrulha o estômago;

O rosto amado permanece

(Porque está tatuado na alma).


Ar repleto, cheiro de maresia.

Lá fora ninguém perceberia,

Aqui tem imenso valor.

Depois das bordas tudo é água.


Tudo passa, só a tontura é insistente:

Pesadelo de gente.


Assim, empalamado,

Como reparar nas belezas

Insuspeitas do horizonte?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

DRUMMOND NO PRATO

 

Sopa de letras - Arquivo JRS 






    UbatubaO ano era 1974,  eu estava na qui.nta série ginasial, no "Capitão Deolindo", com muitos professores espalhados em um tantão de disciplinas. Na cadeira de Língua Portuguesa, o mestre era o saudoso José Wilson. Eu, tendo herdado o livro didático deixado pela mana Ana (que estava a uma série adiante), me encantava pelos poemas e narrativas breves, cujas ilustrações se compunham em traços simples de duas ou três cores. Carlos Drummond de Andrade sempre foi um dos meus preferidos. Um de seus poemas me introduziu na imaginação de alguém sem muita fome e desanimado com realidade do país, escrevendo o nome de uma pessoa querida com letras de macarrão, na borda do prato.

       Passaram-se anos, meio século para ser mais preciso, até que, recentemente, numa noite fria, minha esposa caprichou numa sopa. De macarrão de letrinhas, acredita? Aí me veio a vontade de repetir Drummond no meu prato. Mari..., na ilustração daquele livro didático, me conduziu ao nome Maria. Contei a história à minha Gal: "A Maria de hoje, aqui na borda, é a nossa estimada filha!"


Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçadas na mesa todos contemplam

esse romântico trabalho.


Desgraçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!


- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!


Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências 

um cartaz amarelo:

"Neste país é proibido sonhar".


Em tempo: o quadro seguinte mostra os leitores do blog nesta semana (aqui e em alguns lugares mundo afora).




GENTE QUE ADMIRO

 





Nise da Silveira 

        Na minha adolescência, quando estava lendo O Alienista, de Machado de Assis, pensei bastante em torno do nosso contexto caiçara de Ubatuba. Afinal, a narrativa tem como ambiente outra cidade litorânea: Itaguaí, no litoral fluminense. 

       A obra literária em questão me remetia aos casos de gente nossa que, claramente, tinha algum descompasso mental. Durvalino, Celestino, Zé Maria, Chiquinho, Filizardo, Isolete, Janguinho e outros seriam mirados primeiro pelo doutor Bacamarte? Certamente! Só mais tarde, lendo a respeito de Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana, compreendi que havia outras formas de tratamento aos doentes mentais. Mantê-los integrados na comunidade era o jeito normal caiçara, mas a Nise inovou porque incluiu a arte, a interação com animais e outros aspectos como tratamento. Por conta dela, um movimento renovador da psiquiatria se desenvolveu no Brasil bem antes de muitos países.  Mas essa postura inovadora, que tanto nos orgulha, resultou em  sofrimentos a essa grande mulher: foi perseguida  porque era suberversiva, queria uma forma de tratamento que não fosse a violência imposta pelo Estado. Na década de 1930 esteve enclausurada em presídio de segurança máxima, no Rio de Janeiro. Dela, no livro Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos registrou o choque ao se encontrarem presos, bem longe de sua terra natal: 

      "Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiróz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia criatura mais simpática. O marido, também médico, era meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me num vivo constrangimento".

     Quanta gente boa foi castigada por querer uma sociedade diferente, mais solidária e igualitária? Quanta gente nossa foi sacrificada por conta de ideais revolucionários? Quantas mulheres e homens seguem, no Brasil do presente, passando por martírios, sofrendo difamações na luta contra as injustiças?

   





quinta-feira, 25 de junho de 2026

QUASE CIVILIZADO

 

Garça - Arquivo Santiago 

      Eu ia sossegado pela estrada, reparando nas tinticuias que já estavam sem as lindas flores, quando avistei a casa amarela. Agostinho mora ainda ali. Fala muito esse meu conhecido. Fala muito! Parece que a única pressa nele é falar, falar, falar... Por isso, quando estou angustiado, precisando resolver rápido alguma coisa, até me desvio do seu caminho, finjo que nem o enxerguei. Quem vence a loquacidade dele? Tenho pena da sua esposa. Coitada. O jeito é soltar-lhes as rédeas, deixar que bata pernas rua abaixo e rua acima. Me recordo dele agora, neste momento que sigo tentando chamar o sono.

      Agostinho agora é aposentado. Fazia o quê mesmo? Ele já me contou, mas entre tanta falação, eu tenho o costume de me desligar. Um lampejo: já prestou alguns serviços ao bairro, fez essa ou outra obra por aí. Na sonolência tudo se embrulha na memória, mas quase nada de visões concretas. As costelas doem por conta de alguns movimentos exagerados no dia de ontem. Também, na última oportunidade, o Agostinho se queixava de "dor nas cadeiras". Eu, na intenção de encurtar o assunto, apenas afirmei que a nossa vida vai se diluindo, que é assim mesmo etc.

     Logo vai amanhecer, penso. Porém eu continuo passeando entre farrapos de retalhos da realidade e de sonhos. Só me resta começar o dia antes da  aurora. Um café há de cair bem enquanto a curruíra e outros passarinhos começam a festejar a claridade vindoura. Que café gostoso! Um galo próximo cantou; outros mais distantes responderam. 

    Acabei o meu café com barulhos só aumentando. Veículos bem barulhentos. Alguns sem-noção da vizinhança e com mínima educação têm um custo a cada despertar do meu ser: devo exibir uma aparência de alguém mais ou menos civilizado. Agora, dia de tudo, sigo arreliado.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

OS CACHORROS

 


Caetano - Arquivo JRS 


Tem gente sem terra nenhuma 

Tem gente com terra demais

Tem gente fazendo a guerra

Matando em nome da paz

(...)

Terra só de poucos donos

De todo mundo será 

O homem vai ser o patrono 

De tudo que cultivar


     Neste espírito da composição do Catoni, eu saí para mais uma breve convivência com quem lida com a terra, nela se sustenta.

     O dia ainda não tinha amanhecido quando cheguei na roça do Caetano. Os três cachorros me receberam na maior alegria, sabiam que eu sempre tenho uns pãezinhos para o agrado. A preta, parecendo mestiça com raça grande, é mãe da amarela. A terceira, faltando uma perna, apareceu um dia vindo do Monte Valério, distante uns quatro quilômetros. Mesmo que o dono tenha vindo buscá-la várias vezes, ela retornou na caminhada difícil quase que imediatamente, no mesmo dia. Isto confirma o dizer de que "são os cachorros que escolhem os seus donos". Caetano concorda, acha que é mesmo. "Toma café, Zé. Tem farofa ali".

     As verduras, como sempre, estão lindas. Qual adubo? Restos de folhas, de cascas, cabeças e tripas de peixes e mais coisas vão se misturando e resultando num alimentos ótimo para a lavoura. O resto é dedicação de alguém sensível,  que não deixa de buscar conhecimento e de captar as vontades do chão. O assunto de vez em quando dá uma guinada: "Você sabe o que é bom para acabar com frieira brava e até mesmo doença de unha, Zé? É folha de pessegueiro! Faz um chá e lava o local. Num instante acaba tudo". 

   Como  é bom conviver com essa gente que ama a terra, os bichos e aprender tantas coisas! Gratidão, Caetano!

    Viva a sabedoria popular!

terça-feira, 23 de junho de 2026

FANTASMAS AINDA RONDAM

 

Alô - Arquivo mano Mingo

     O jornalista Zé Alfredo autorizou que eu publicasse esta pérola encontrada depois de muito tempo. O Morro da Berta (Monte Valério), além do Edmauro, também acolheu Zabeu, Aglício, os "Irmãos Mecânicos" e outros que não aceitaram passivamente a ditadura militar, cujos fantasmas ainda perambulam por nossa terra.



   O terrorista que o tempo esqueceu de anistiar

   Já era começo da noite quando a informação chegou à redação da Rádio Costa Azul. O rádio da polícia anunciava uma grande operação: a prisão de um perigoso terrorista procurado pelos órgãos de segurança. Para um repórter, não havia o que pensar. Peguei meu bloco de anotações, a caneta e segui direto para a delegacia. A notícia parecia explosiva.

   Naquele momento, a investigação da polícia estava voltada para um esquema de fraudes nas linhas telefônicas. Utilizando uma técnica conhecida como “jumping”, os suspeitos desviavam linhas dos antigos orelhões públicos para realizar ligações interurbanas e internacionais sem pagar a conta. Depois de um trabalho de rastreamento, a polícia chegou a um suspeito e efetuou a prisão em flagrante. Mas a maior surpresa ainda estava por vir. Ao consultar a “capivara” — como os policiais chamavam a ficha criminal — surgiu o alerta: tratava-se de um “terrorista perigoso” procurado pelo DOPS.

  O preso era Edmauro, conhecido pelo codinome de “Pedrinho”, morador do Monte Valério, em Ubatuba. Seu nome aparecia ligado à luta armada contra a ditadura militar e à participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, realizado em setembro de 1969 por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Naquele instante, a delegacia parecia ter voltado no tempo. O sistema de informações da polícia ainda enxergava como “terrorista perigoso” um homem que, anos antes, havia sido beneficiado pela Lei da Anistia e retornado ao Brasil legalmente.

   Quando consegui conversar com Edmauro, não encontrei o personagem ameaçador descrito nos registros policiais. Encontrei um homem preocupado em provar a sua situação legal. Ele me fez um pedido simples:

— Você poderia ir até minha casa e pegar uns documentos? Eles comprovam que eu sou anistiado.

    Confesso que aquele não era exatamente o tipo de missão que se aprende nas faculdades de jornalismo. Mas o repórter de rua também precisa compreender a dimensão humana da notícia. Fui até a casa de Edmauro e conheci Lídia, sua companheira. Procuramos os documentos e encontramos os papéis que comprovavam sua condição de anistiado.

   De volta à delegacia, a história começou a mudar. O “perigoso terrorista” dos arquivos policiais era, na verdade, um cidadão que havia sido alcançado pela reconciliação política promovida pela anistia. Curiosamente, a investigação que havia dado origem a toda aquela confusão — os “gatos” nos telefones públicos — acabou ficando em segundo plano. A manchete policial transformou-se em uma história sobre memória, esquecimento e os fantasmas que o passado ainda carregava em seus arquivos.

   Edmauro foi libertado. Depois daquele episódio, nasceu entre nós uma amizade. Foi por meio dele que conheci histórias importantes dos movimentos ambientais e políticos que mais tarde dariam origem ao Partido Verde, cujas primeiras sementes também encontraram solo fértil em Ubatuba.

       Gratidão, Zé Alfredo!

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A MAMÃE DISSE MESMO!

 

Caminhando sempre - Arquivo JRS 

     O estimado Renato, gente que tem parte de sua raíz no Ubatumirim, vendo que eu podava um monte de plantas, foi dizendo:

   - Quando eu era criança sempre escutava a mamãe explicando sobre remédios que estavam no mato, na horta e pelos cisqueiros. Por exemplo: no caso de qualquer doença nos olhos, a cura estava nas sementes de alfavaca. Dizia que curava na hora a vista. Pois é. Eu cresci, envelheci e me esqueci de muitas coisas. Só que, numa ocasião, trabalhando com azulejos, um cisco foi direto no olho direito, começou a arder. Não havia o que parasse. No terceiro dia, com aquilo me atrapalhando demais, fui até a casa do Valmore, contei do ocorrido e quis saber se ele conhecia algum remédio que pudesse me aliviar. Imediatamente ele recomendou que pusesse sementes de alfavaca no olho. Aí então eu me recordei da mamãe, da recomendação dela. 'A mamãe disse mesmo!'. Saí imediatamente da casa do amigo depois de escutar que ele havia aprendido a orientação com o Didi, um mateiro que trabalhou um tempo com o seu pai. Rumei na direção do meu quintal porque lembrava de ter visto uns pés de alfavaca pelos cantos. Separei umas sementes e apliquei no olho machucado. Neste aqui, ó. Em poucos segundos tudo aquilo passou, fiquei curado. Que coisa, né Zé? Quanto de remédio tem nesse mato aí sendo podado?".