sábado, 4 de julho de 2026

INFERNOS EM PARAÍSOS

 

Entardecer - Arquivo JRS 

      Céu e Inferno são conceitos saídos da mente humana; projeções de bondade e de maldade, partes da nossa existência. Sim, todo mundo está sujeito a momentos de paz e de angústia! Uns lutam por um mundo melhor, outros idolatram as injustiças. "Investimentos" em Céu e Inferno é sina nossa, de humanos a escolher caminhos.

       Depois de três décadas voltei a ler Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. É impressionante como o viver confinado leva a pessoa a dar atenção a tantos detalhes, elaborar tantas possibilidades acerca de si mesmo e dos outros.

    Quando alguém lhe falou das vantagens da autocrítica, o autor respondeu sem refletir: "Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conservá-los todos com muito cuidado. Se meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei noutro. Quero guardá-los, não perder um". Tava de saco cheio, né?

   Seguindo na leitura deduzi que, quando se está numa prisão, qualquer descrição vira uma imagem muito marcante. Como não sentir nada, mesmo não tendo passado pelos sofrimentos de um "rebanho de criaturas em um curral de arame farpado"? Como não sentir o inferno diante de "um sujeito sem as unhas dos pés que foram arrancadas a torquês"? Quem não sente nada testemunhando "dorsos lanhados, carne sangrenta, equimoses vermelhas, azuis, pretas"?

    Pois é! Assim o paraíso da Ilha Grande, no litoral fluminense, foi transformado num inferno rodeado de água. Assim também fizeram com uma ilha em Ubatuba, transformando-a em Colônia Correcional da Ilha dos Porcos. Mudar-lhe o nome para Anchieta não apaga as crueldades que tanta gente viveu ali. Era inferno localizado no paraíso. Pode isto?

quinta-feira, 2 de julho de 2026

ÁLVARO VENTURA

 

Álvaro Ventura - Arquivo internet

        Prosseguindo na Memórias do Cárcere, eu me detive nesta passagem deixada por Graciliano Ramos:

        "O mais perfeito gentleman que vi foi Álvaro Ventura, homem lento e gordo, estivador em Santa Catarina, o primeiro comunista eleito para a câmara federal. Tinham-lhe suprimido o mandato, e vivia conosco, aguardando o lugar na Colônia Correcional".

         Ao ler o nome desse comunista, cidadão do litoral catarinense que pertencera à Irmandade do Senhor dos Passos e à luta sindical, me recordei de uma palestra proferida por Elias Stein, militante metalúrgico de Santo André (SP), quando soube desse político catarinense: foi o primeiro deputado federal eleito pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1933. Dentre muitos ofícios, era estivador e chegou a ocupar o posto de secretário-geral do PCB. Em 1935, após o levante da Aliança Nacional Libertadora, foi cassado e preso, tendo de viver depois muito tempo na clandestinidade.

   De acordo com a sobrinha-neta, Maura Soares, "as  convicções políticas de Álvaro o afastaram de alguns familiares, mas nunca das ações que provavam sua honestidade e fé na justiça.  Em 10 de julho de 1989, aos 96 anos, deixando filhos, netos e bisnetos, Álvaro deu adeus ao mundo que ele acreditava que um dia iria melhorar".

   Seguindo na leitura do livro, um pouco mais adiante Graciliano faz nova referência ao nosso personagem:

    "Espantava-me de perceber em Ventura, um estivador, as maneiras corretas e a afabilidade que me habituara a distinguir no médico. Esquisito. A prisão nos sujeitava a duros abalos e surpresas constantes".

     Pois é! Quem diria! De Santa Catarina saiu o primeiro deputado federal comunista. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

QUE DESASSOSSEGO!

 

Ninho ao vento - Arquivo JRS 

      Tem gente que ouve as notícias, mas faz pouco caso das nossas indignações, diz que são bobagens, que estamos espichando brigas etc. Eu digo que tipo assim está aquém da minha insuficiência mental; é dotado de incapacidade de enxergar só um pouquinho a mais da rotina que se apresenta;  não quer admitir as articuladas narrativas favoráveis à classe dominante, contra os pobres. Tipo assim, digamos que são paredes escuras com pretensão de delimitar, de circunscrever nossos pensamentos, palavras e ações. Ou ainda: rio caudaloso que tenta carregar as reses, levá-las ao matadouro. Que desassossego!
         A fadiga é notória em alguns rostos; traços deformados se agonizam. Ser reacionário, ser contrário à vida digna para todos vai se tornando epidemia. Cadê aqueles sinais luminosos do horizonte, aquela utopia de Eduardo Galeano? O que está se repetindo muito,, coalhando no entorno (próximo e/ou distante), são víboras empeçonhando prosas. A cada meia dúzia de passos uma provocação inútil. Ouso ser desagradável. Quem dera fosse mais meticuloso! Quem tem paciência demorada para aguentar falação alienada? Em contexto assim não há injúria sem motivo. Disse a um pobre como eu: "Que ridícula safadeza este seu caminho, né?". Aspereza minha? Pode ser. Estupidez necessária? Pode ser também. Meu grande desejo é ser/ver gente vivendo uma vida digna, feliz desde já. No entanto, cresce entre nós o desejo de oprimir, de se apoderar da vida dos outros; de compactuar com a morte através das injustiças,  de eleger quem desmerece a classe popular e as minorias sociais.
        Que satisfação ao me deparar com gente enxergando além das notícias! Ainda bem!

terça-feira, 30 de junho de 2026

INÊS CAFÉ

 



      Agradeço ao jornalista Alberto Villas pela inspiração deste humilde texto. Era um fim  de tarde e eu  me encontrava num recanto sossegado da cidade, ali na praça, perto de uma mesa de concreto com um tabuleiro caprichado em cerâmicas pretas e brancas. No momento quatro pessoas jogavam baralho, cena típica de cidade do interior. Naquele pedaço da cidade nada se destacava mais do que o Inês Café. 

      Dei um sobressalto por conta de uns estampidos de fogos a anunciar a vitória do Palmeiras sobre o Mirassol. Em seguida, tomando um café muito saboroso, prestei atenção em um jovem discursando aos demais:


     "Quem daqui não acompanha um pouco da agitação política em Brasília? Quem daqui não sente a falta que faz mais cabeças pensantes, capazes de perceber o tanto de deputados e senadores que são votos comprados pelo poder econômico? Gente de honra duvidosa, sem dúvida!

       De vez em quando alguém repete esta frase besta de que "cada povo tem o governo que merece". Ora, ora, ora. O povo é como é, mas é capaz de exercitar mais o pensamento, desenvolver o senso crítico, ser uma 'pedra no sapato' desses políticos. É isto que os manipuladores políticos não desejam. 

     Quem vai aturar um povo leitor, que busca lazer de boa qualidade, adora artes etc.? Quem vai enfrentar um povo exigente, capaz de se posicionar contra os desmandos e as injustiças de uma minoria parasita a viver às custas da classe trabalhadora?

     O povo não merece quem apenas age no desejo de enriquecimento fácil, via desvio de verbas públicas. O povo não deve se conformar a essa ignorância planejada, na finalidade de gerar sempre ingênuos úteis.

  Quando o povo se manifestará contra essa política nefasta? É difícil? É sim! Nada que valha a pena é fácil!".


         Muito boa a fala do rapaz! Alguém discorda? Duas ruas depois do Inês Café,  lendo na calçada um livro achado, um sofredor de rua me mostrou o título relativo a alguma mente milionária. Pode isso?







sábado, 27 de junho de 2026

PESADELO A BORDO

 

Olympio e as crianças - Arte do Guinho



Na borda um menino quieto;

Barco balançando, balançando, balançando...

Reparei melhor: menino empalamado.

(Porque o  vai e vem assim o deixa).

Ar que muda,

Rente ao costado só espuma;

Mais abaixo fosforescência.

Vento no rosto,

Tontura insistente:

Pesadelo de gente.


Menino  empalamado;

Frio e calor medonho.

Tudo embrulha o estômago;

O rosto amado permanece

(Porque está tatuado na alma).


Ar repleto, cheiro de maresia.

Lá fora ninguém perceberia,

Aqui tem imenso valor.

Depois das bordas tudo é água.


Tudo passa, só a tontura é insistente:

Pesadelo de gente.


Assim, empalamado,

Como reparar nas belezas

Insuspeitas do horizonte?

sexta-feira, 26 de junho de 2026

DRUMMOND NO PRATO

 

Sopa de letras - Arquivo JRS 






    UbatubaO ano era 1974,  eu estava na qui.nta série ginasial, no "Capitão Deolindo", com muitos professores espalhados em um tantão de disciplinas. Na cadeira de Língua Portuguesa, o mestre era o saudoso José Wilson. Eu, tendo herdado o livro didático deixado pela mana Ana (que estava a uma série adiante), me encantava pelos poemas e narrativas breves, cujas ilustrações se compunham em traços simples de duas ou três cores. Carlos Drummond de Andrade sempre foi um dos meus preferidos. Um de seus poemas me introduziu na imaginação de alguém sem muita fome e desanimado com realidade do país, escrevendo o nome de uma pessoa querida com letras de macarrão, na borda do prato.

       Passaram-se anos, meio século para ser mais preciso, até que, recentemente, numa noite fria, minha esposa caprichou numa sopa. De macarrão de letrinhas, acredita? Aí me veio a vontade de repetir Drummond no meu prato. Mari..., na ilustração daquele livro didático, me conduziu ao nome Maria. Contei a história à minha Gal: "A Maria de hoje, aqui na borda, é a nossa estimada filha!"


Ponho-me a escrever teu nome

com letras de macarrão.

No prato, a sopa esfria, cheia de escamas

e debruçadas na mesa todos contemplam

esse romântico trabalho.


Desgraçadamente falta uma letra,

uma letra somente

para acabar teu nome!


- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!


Eu estava sonhando...

E há em todas as consciências 

um cartaz amarelo:

"Neste país é proibido sonhar".


Em tempo: o quadro seguinte mostra os leitores do blog nesta semana (aqui e em alguns lugares mundo afora).




GENTE QUE ADMIRO

 





Nise da Silveira 

        Na minha adolescência, quando estava lendo O Alienista, de Machado de Assis, pensei bastante em torno do nosso contexto caiçara de Ubatuba. Afinal, a narrativa tem como ambiente outra cidade litorânea: Itaguaí, no litoral fluminense. 

       A obra literária em questão me remetia aos casos de gente nossa que, claramente, tinha algum descompasso mental. Durvalino, Celestino, Zé Maria, Chiquinho, Filizardo, Isolete, Janguinho e outros seriam mirados primeiro pelo doutor Bacamarte? Certamente! Só mais tarde, lendo a respeito de Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana, compreendi que havia outras formas de tratamento aos doentes mentais. Mantê-los integrados na comunidade era o jeito normal caiçara, mas a Nise inovou porque incluiu a arte, a interação com animais e outros aspectos como tratamento. Por conta dela, um movimento renovador da psiquiatria se desenvolveu no Brasil bem antes de muitos países.  Mas essa postura inovadora, que tanto nos orgulha, resultou em  sofrimentos a essa grande mulher: foi perseguida  porque era suberversiva, queria uma forma de tratamento que não fosse a violência imposta pelo Estado. Na década de 1930 esteve enclausurada em presídio de segurança máxima, no Rio de Janeiro. Dela, no livro Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos registrou o choque ao se encontrarem presos, bem longe de sua terra natal: 

      "Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiróz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia criatura mais simpática. O marido, também médico, era meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me num vivo constrangimento".

     Quanta gente boa foi castigada por querer uma sociedade diferente, mais solidária e igualitária? Quanta gente nossa foi sacrificada por conta de ideais revolucionários? Quantas mulheres e homens seguem, no Brasil do presente, passando por martírios, sofrendo difamações na luta contra as injustiças?