sábado, 2 de maio de 2026

SÓ QUERIA VOLTAR PARA CASA

 

Maré baixa - Arquivo Santiago


     Ao compartilhar o texto COITADO DO BAGANA com o estimado Santiago, o  escritor do Cambury, recebi a seguinte contribuição ao meu ser:


    Quantos caiçaras perderam seu caminho do mar para o caminho das ruas... Uma vez, estava na casa que minha companheira morava, no Itaguá, escrevendo um trecho do COIVARA [livro recente], uma parte que falava sobre caça. Tocaram a campainha interrompendo o trabalho, mas eu parei e fui atender. Era um jovem com uma pequena mochila. Contou que tinha sido destratado pouco antes ao contar sua história e pedir algum dinheiro em troca de limpar o mato.

    A história: ele tinha acabado de ser solto da cadeia e estava voltando pra casa, no Sertão do Ubatumirim. Caiçara. Contou que tinha sido preso por caça. Na verdade nem foi pego com caça, mas com arma sem porte. Levaram. Falou vários nomes do Ubatumirim, contou que o avô morreu na praia do Itaguá. Infarto. Ele queria cinco reais pra pegar o ônibus e voltar. Enxotaram ele. Ele nem precisava contar a verdade, mas fluía naturalmente no jeito caiçara de contar as coisas, com sinceridade e até uma inocência. Sorria. Eu não lembro o nome dele. Dei um café com biscoito, era o que tinha, mas ele nem pediu comida. Só o dinheiro da passagem em troca do servicinho de limpar o mato da calçada. Depois foi embora sorrindo. Eu fiquei pensativo. Estava escrevendo justamente sobre caça, um pequeno trecho. Ele ficou um ano e pouco preso. Só queria voltar pro seu lugar. Turistas o destrataram, xingaram. Ele não ligou. Saiu andando. Até hoje penso sobre esse dia, esse momento. Sua crônica me fez lembrar desse dia. Ele poderia ter se tornado outra coisa na cadeia por uma imposição violenta do sistema que massacra culturas e relega às margens de seu próprio território. Mas ele só queria voltar para casa... E mesmo sua casa já não era mais a mesma, sofrendo essas agruras da desterritoriolização e invasão do capital imobiliário.

Gratidão, Santi!

sexta-feira, 1 de maio de 2026

COITADO DO BAGANA

 

Horizonte - Arquivo Ana


     Era um sábado, bem cedo cheguei no ponto de ônibus. Mais cedo ainda havia chegado alguém. Pelo jeito, a verdade mesmo seria que ele passou a noite ali. Assim estava calçado de chinelos, com uma mochila surrada demais, roupas sujas e um cheiro característico que o denunciava. “Coitado, é um morador de rua. Jovem ainda, mais uma vítima do sistema”. Assim que ele percebeu a minha presença, puxou conversa. Foi então que eu o reconheci de outros tempos, de quando eu trabalhava com meu pai pelas obras. “É da praia do Lázaro, caiçara como eu. Que situação triste”. O pai  dele, assim como o meu, era pescador-carpinteiro. A família, pelo que me lembro, era bem religiosa, evangélica, frequentava uma grande igreja local. “Como a congregação deixou um de seus membros decair tanto assim?”. Lembrei-me de uma observação do Jorge Ivam acerca  de certas doutrinas capazes de conseguir incutir ideias que desenraizam as pessoas e deixam elas como arbustos secos. Seria o caso dele?

    O cidadão em questão, agora não mais tão jovem, trabalhava com o pai. Portanto, sabe lidar com madeiras, entende de construção. “Como será que chegou a esta situação, de morar nas ruas?”. Fiz de conta que nem percebi a condição sofrível dele, continuei na prosa mais escutando do que falando.

   - Estou indo para a chácara da minha irmã, vou fazer um galinheiro lá. Devo passar uns dias com ela.

   Ainda bem que ele ainda mantém laços com familiares, não fica o tempo todo na insegurança das ruas, correndo o risco até de ser morto por “gente de bem”, que se acha superior, com direito até de recorrer a métodos extremos para limpar a cidade. Entre assuntos fúteis, de personalidades ricaças mostradas nas mídias (Silvio Santos, Neymar etc.), o nosso empobrecido personagem relembrou a morte do Bagana, caiçara da mesma praia que ele.

   - Coitado do Bagana, né? Antes do almoço ele foi pescar na costeira como tava acostumado. Foi sozinho. A mulher, sentindo a sua demora, ficou preocupada. Seu filho, o Fabinho, que sabia que ele tinha ido na direção da Aguadinha, disse pra mãe que iria procurar lá. E naquele lugar da costeira encontrou o Bagana morto, caído lá embaixo nas pedras. Parece que o cipó que ele se agarrou para passar de uma pedra pra outra não aguentou, arrebentou. Tava morto lá embaixo. Coitado do Bagana.

    Fiquei impressionado com aquele morador de rua, caiçara que, constatando a vida que leva, não teve forças perante alguma passagem muito ruim na vida. De maneira tranquila ele fez questão de, naquela minha primeira prosa do amanhecer, relembrar da morte do estimado pescador Bagana. Em seguida se despediu de mim e seguiu o caminho que tinha em mente.  Nem pude lhe oferecer um café porque a cidade ainda dormia.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

ESTOU NUM ROMANCE

 

Capa do livro - Arquivo JRS 

PRETO, PRANCHA E PARAFINA 

   O título acima é do novo livro do talentoso Jorge Ivam Ferreira, com apresentação primorosa da estimada Mary Igawa que resume essa obra literária como “uma homenagem explícita a Ubatuba”. Eu assino esta verdade. Segue agora apenas uma isca desse professor que escolheu Ubatuba para viver. (E vem aí o lançamento de Preto, Prancha e Parafina! Dia 08/05, sexta-feira - local: Impact Hub, Rua Guaicurus, 310 (próximo do Aquário). Às 19 horas.

 

     Exupério fica dias no mar. O peixe cada vez mais raro e distante. Agora só resta a saudade daquele tempo em que com qualquer picaré se obtinha uma fartura de peixe. Quem chegasse na hora da puxada de uma rede levava sua baciada de peixe sem pagar nada por eles. Pescador que se prezasse não fazia caso, não olhava feio para quem se aproximasse dos peixes matados. Que cada um pegasse a quantidade necessária para seu almoço ou jantar.

   Nestes tempos difíceis, entretanto, só se fala de escassez da pesca. Se alguém tem culpa, não são os pescadores caiçaras, que nunca se deixaram dominar pela ganância. Eles não são responsáveis pela poluição generalizada do mar e dos rios, pelo aterro de muitos mangues, pela pesca predatória feita por embarcações que vêm de longe com redes que reviram o fundo do mar e arrastam para longe fauna e flora.


    Muita gente conhecida está no enredo. Além do personagem Pedro Piragica, um experiente homem rodado no mundo que optou  em ser um autêntico caiçara, dar sua contribuição nesse chão ubatubense, eu também fui contemplado no romance com mais de uma página. Quanta honra! Gratidão, Jorge!

sexta-feira, 24 de abril de 2026

UM PASSADO TÃO PRESENTE

 

Capa de livro - Arquivo JRS 


     No passado histórico do nosso país, no tempo de D. João VI, alguns reinos europeus criaram a tal de Santa Aliança, uma coalizão militar e política conservadora. Quando digo conservadora, me refiro aos esforços, aos acordos para ser mantidos firmes os privilégios dos mais ricos. Quem sustenta estes? Quem trabalha, lógico! No nosso caso, na inclusão do reino português nessa aliança, o objetivo maior era preservar o Reino do Brasil do contagioso espírito revolucionários.

   Qual espírito revolucionário era esse? Era  a onda republicana e democrática que estava sendo abraçada pelas colônias espanholas na nossa vizinhança. A monarquia absolutista estava sendo defenestrada nos processos de independência no continente americano. Também a Santa Aliança, aliada de D. João, era fundamental para sustentar a continuidade do regime escravocrata que produzia a riqueza do Brasil.

    Olhando a onda reacionária do momento atual, a ação dela nos empobrecidos da nossa terra, quem não enxerga a atualização dos seguidores da Santa Aliança? Eles não querem a soberania do nosso povo, nem de outros mundo afora; desejam riquezas/privilégios às custas de quem trabalha, acham normal as condições análogas à escravidão de tantos homens e mulheres, sobretudo da juventude. Tais resquícios da ideologia da Santa Aliança apressam o fim do mundo desrespeitando todas as leis ambientais e combatendo a maravilhosa diversidade cultural do nosso povo. Seus adeptos são contrários e violentos contra as minorias marginalizadas e qualquer dos programas de inclusão social. Recorrendo aos dispositivos tecnológicos atuais, essa ideologia mentecapta produz uma massa de mentecaptos rebaixada, pois a maioria da população precisa ser mantida com um mínimo de inteligência, ficar privada da razão, da capacidade pensante, do senso crítico.

    No alvorecer da Santa Aliança, a família real portuguesa, fugindo de Napoleão Bonaparte, veio aportar no Brasil. A elite portuguesa seguiu junto. Da noite para o dia mais de 15 mil lusitanos “invadiram nossa praia”. O saudoso professor Hércules Cembraneli se referia a eles como "a cambada de D. João, o séquito da rainha louca”. Agora, lendo a obra D.Leopoldina, de Paulo Rezzutti, fiquei sabendo que Carlota Joaquina, esposa do príncipe regente, foi trazida à força para o Brasil. A digníssima de D. João não queria vir porque “considerava o país uma terra de escravos e de macacos”. Dois séculos já se passaram, né? Ainda assim, nessa ideologia continua agindo e pensando a elite do atraso, conforme a denominação do sociólogo  Jessé Souza. Seu livro A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro, segue atualíssimo graças a uma porção de gente nossa que prefere fazer parte da classe de mentecaptos rebaixada.

     Somente é possível acreditar numa liderança popular, proveniente da classe trabalhadora, que leva às últimas consequências a frase: “a nossa cabeça pensa de acordo com o chão que os nossos pés pisam”. Os seguidores da versão atualizada da Santa Aliança seguem o principal da versão primeira: precisa haver escravos para se manterem como minoria dominante. Por isso a destruição da natureza é normal, leis trabalhistas não são necessárias etc. Fim da escala 6x1? Nem pensar!

domingo, 19 de abril de 2026

MASSA DE AR FRIO

Céu de outono - Arquivo JRS 

    Mano Mingo, olhando o céu claro, fica inspirado. Eu, aguardando o céu clarear, me viro de lado.

Hoje o vento começou seu trabalho

de caiar o céu de outono,

formando, primeiramente, as nuvens cirros,

mais altas que os aviões de carreira.


Nuvens tênues, brancas como bandeiras de paz,

mas que, por isso mesmo, já antecipam a luta

das massas de ar nos choques frontais.


Por enquanto, o vento aqui embaixo é aragem,

as folhagens se agitam parecendo festejar, 

os pássaros cantam qualquer bobagem

e há uma sensação boa de liberdade no ar.


Algumas crianças saíram às ruas

e aproveitam para brincar em plena era cibernética,

sem  ligar para que o vento pinta ou borda

na imensa tela azul atmosférica.



sábado, 18 de abril de 2026

SONHOS E CICATRIZES

 

Giovani e a panela vazia - Arquivo JRS


    Os primeiros biógrafos dos indígenas brasileiros, sobretudo dos Tupinambá que habitavam o território entre Ubatuba (SP) e a baía da Guanabara (RJ) diziam que, em ocasiões especiais, os primeiros habitantes deste território deixavam se guiar pelos sonhos. Exemplo: dependendo do sonho que tivessem eles partiam para um combate ou desistiam, adiavam. Sidarta Ribeiro, no livro Oráculo da noite, diz que “o sonho é simulacro da realidade feito de fragmentos da memória”. Ou seja, tudo está na nossa mente buscando uma ocasião para sair, se expressar. Só que vem um monte de coisas no mesmo sonho, né? Aí complica muito.

    Dizem os especialistas que sempre sonhamos. Acredito que é verdade mesmo, mas na maioria das noites eu não me lembro de nada. De vez em quando, pensando em partes de algum sonho, busco descobrir alguma mensagem tal como faziam os nossos ancestrais, tentar entender se parece favorecer ou alertar a respeito de alguma coisa, se foi bonito, feio ou até medonho. O referido autor acima explica que “alguns sonhos são teoréticos (diretos), enquanto outros são alegóricos”. A minha saudosa sogra gostava de escutar descrição de sonhos de gente próxima, buscava interpretá-los para depois ir fazer sua aposta no “jogo do bicho”. Curioso isto de tentar a sorte pela via onírica.

    Pelo que me lembro, só uma vez um sonho mudou uma atividade programada na minha vida. Explico agora: eu e o primo Giovani éramos companheiros de trilha na solteirice, queríamos conhecer os muitos caminhos e belezas naturais da Mata Atlântica. Marcávamos uma data, nos preparávamos bem para tudo dar certo. No dia combinado, antes do dia amanhecer a gente já estava rompendo mato. Quase sempre as mochilas iam pesadas em nossas costas porque muitas vezes a duração de uma trilha era mais de um dia, precisávamos pernoitar, sermos acolhidos na exuberância da natureza. Numa ocasião, na noite que antecedia uma das nossas saídas para a Trilha do Brilhante, no Sertão da Quina, eu fiquei encabulado com um sonho, como se tentasse me alertar para algo ruim. Ao chegar ainda no escuro na casa dele, no Sapê, eu narrei o meu sonho enquanto tomávamos café. Ele escutou com atenção e – pasme! – disse quase a mesma coisa, narrou um sonho que tivera, cabuloso como o meu, cheio de detalhes. Diante dessa coincidência de ambos sonharem coisas desagradáveis, ruins, a trilha foi desmarcada. Posso dizer que venceu o “alvoroço” dos sonhos, o medo que eles nos inculcaram.  Tenho certeza de que o meu primo também tem essa cicatriz.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

EU JÁ RODEI TRECHO

 

Borboleta no terreiro - Arquivo JRS 


     Eu, bem cedo, olhava o movimento na estrada. Alguns caminhões passavam com suas cargas, carros menores também circulavam. Logo avisto o ônibus escolar, dentro dele divisei um menino acenando, reconheci imediatamente: “É o filho do Olímpio, o carvoeiro”.

   Olímpio, amigo de alguns anos, mora um pouco distante com os familiares e animais. Na simplicidade dele um só desejo: que o filho seja estudado, tenha uma profissão que não seja tão desgastante, sem ser explorado por patrão que desmerece empregado. Eu torço pelos anseios desse meu amigo. Um detalhe: foi ele que, tempos atrás, me contou de um culto ecumênico que muito lhe emocionou: “Eu vivia na capital paulista, fui convidado para um ato religioso, na igreja da praça da Sé. A celebração era em memória de um jornalista morto [Vladimir Herzog] pela ditadura militar. Era quase  final de 1975. Quem governava o Estado de São Paulo era Paulo Egydio Martins”. Tive um sobressalto; precisei explicar a ele: “Este homem foi quem comprou quase um terço da praia do Flamengo, em Ubatuba. Eu a conheço bem, lembro-me de alguns dos seus antigos moradores. Um amigo, Antônio Neves, casado com Isabel Peralta, da Sete Fontes, era empregado dele, zelava pela posse comprada pelo governador. Flamengo é uma praia bem mansa, com um mínimo de moradores. É um paraíso!”. “Pois é”, continuou ele: “Esse homem, que foi buscar o paraíso ubatubense, é o que representava o inferno naquele dia, na praça cheia de policiais. Na época eu era da construção civil, do sindicato. Não tinha como não participar daquele momento tão importante. Pelo que me lembro, duas autoridades se destacaram no culto: o cardeal Arns e o rabino Sobel. É, Zé, eu já rodei trecho, tenho histórias para contar!”.