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| Lagoinha - Arquivo Marcos Prado |
COISAS DE CAIÇARA
domingo, 12 de julho de 2026
A ESQUINA DO PECADO (III)
sábado, 11 de julho de 2026
VIVA O TIO MANECO!
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| Tio Maneco - Arquivo Kilza |
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| Mestre Neco - Arquivo Débora |
Mesmo sem conhecê-lo
E pintou os tijolos de sua casa
Cada um de uma cor.
Tia Aninha, sua esposa, tratou de enfeitá-la por dentro
Armou o oratório mais bonito e variado
Com anjos, santos e beatos
E distribuía biscoitos e bênçãos
Para nós, crianças de todas as idades.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
O VIOLEIRO OTAVIANO
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| Folia do Divino 2026 - Arquivo Débora |
Tio Maneco Armiro, rabequista de primeira, fazia todos os anos a sua parte na corrida da Bandeira do Divino. De vez em quando eu atentava aos elogios que eram feitos aos seus parceiros. Tinha predileção pelo paratiano Otávio porque era desinibido, gostava de falar e tinha uma visão de mundo diferente, era viajado, vivia de música e de um mínino de subsistência (puxava rede no Itaguá com Florindo e Aládio, limpava terrenos por empreitadas, buscava sardinhas no cais etc.). Outros bem estimados eram Santinho e Otaviano. Este, violeiro, natural do Itaguá, faleceu em 1979. É por sua voz que apresento agora partes de uma música recolhida pela Kilza em anos de pesquisa sobre a produção musical caiçara:
Quem quisé sabê meu nome
Vai lá em casa que eu dô
O meu nome tá escrito
Na porta do corredô, ai, eh!
Notou que o músico deixava um clima de suspense? Depois de outras quadras, finalmente ele revela o seu nome:
Eu me chamo Taviano
Escrevê nome não carece
Em toda parte q'eu vô
O pessoar me conhece.
Portanto, logo é fácil deduzir que tio Maneco, Otávio Paratiano, Santinho, Otaviano, Dona Sebastiana, Pedro Brandão e outros mais eram andarilhos no cumprimento da devoção. Eram conhecidos por toda gente do município naquele tempo em que a religiosidade popular transpirava no universo caiçara.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
UM CAMARADA
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| Cidade pequena - Arquivo JRS |
José Ademar, bem mais vivido do que eu, me reconheceu primeiro. De um chute inicial no futebol, adentrou na política, na onda nefasta, reacionária, da atualidade brasileira. Estávamos em viagem. Fizemos aflorar os principais temas e problemas. Passeamos pela geografia miúda, pois na área maior nossos filhos se debruçam, nadam nas escolas. Assim viajamos horas. Nas suas falas empolgadas eu me inspirei.
Resistir nesta chão,
Torná-la outra terra
Onde patifes serão delimitados.
No agora, absurdo refúgio,
Fisionomias sucumbidas,
Corpos resignados,
Sonhos perseguidos
Ou duramente resignados.
Utopias aparentemente imobilizadas,
Frestas para pouco se ver;
Sacolejos nos obstáculos.
Nós chegamos aqui!
Onde nós estamos?
Distinguimos democracia de autoritarismo?
Firmamos posição por mais vida?
Sustentamos bandeiras contra egoísmo?
Vivemos no mundo próximo,
Vi o mundo lá fora.
A Terra foi alargada,
Subi muitos degraus,
Distinguí corpos enterrados,
Gente carregando o próprio caixão;
Multidão de alienados.
José Ademar, gente da roça,
Migrante ainda menino.
Despertou na cidade,
Se fez no operariado;
Na arrogância da força
Que distinguia o militar
Ousou enxergar mais longe.
Diálogo de sonhos a fermentar.
domingo, 5 de julho de 2026
EMILIANA
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| Canoa caiçara - Arquivo Dani Yoko |
Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão
Partindo da imagem da amiga Dani junto da turma das remadas em canoas caiçaras, passando pelo início da música Vilarejo, de Marisa Monte e parceiros, eu me transporto para o aconchego da Barra Seca, onde está a última canoa (Cerne) vinda de um capurubu, lá do jundu do Itaguá, pelas mãos do meu finado pai. Que maravilha ver esse pessoal praticando esporte, fortalecendo esse traço cultural caiçara! E é sobre navegação que está crônica continua.
O idoso Nequinho Valentim, agregado do casal Julieta/Italgino, sempre dava uma parada no bar onde eu trabalhava na adolescência. Se demorava pouco, apenas tomava um guaraná e dava um dedo de prosa. Certa vez ele contou sobre seu bisavô (Mestre Jango Valentim):
"Nhonhô Jango, desde menino era marinheiro, assim meu avô costumava falar. Com o tempo ele aprendeu de tudo na marinharia: de mapas, de ventos, dos aparelhos de navegação etc. Tudo na arte marítima era 'sopa' pra ele. Meu avô dizia que Nhonhô Jango terminou seus dias comandando um desses barcos imensos por nome de Emiliana".
Agora, relendo o livro do Seo Filhinho (Ubatuba documentário), na parte referente à navegação de cabotagem no litoral paulista, está registrado que "melhorou muito a partir de 1857 com uma linha entre o Rio de Janeiro e Desterro (atual Florianópolis), com escalas feitas nos portos intermediários, inclusive Ubatuba. Mesmo assim esse serviço não atendia satisfatoriamente ao litoral paulista, o que fez com que 'empresários' de Ubatuba, que já possuíam o patacho 'Triunfo da Inveja', adquirissem mais três navios a vapor - 'Duarte I', 'Emiliana' e 'Piraí' - a fim de se liberarem de embarcações alheias".
Você imagina a minha surpresa ao me deparar com a "Emiliana", do Mestre Jango Valentim? Se Nequinho fosse ainda vivente, eu iria bem cedinho lhe mostrar a página, o trecho escrito.
sábado, 4 de julho de 2026
INFERNOS EM PARAÍSOS
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| Entardecer - Arquivo JRS |
Céu e Inferno são conceitos saídos da mente humana; projeções de bondade e de maldade, partes da nossa existência. Sim, todo mundo está sujeito a momentos de paz e de angústia! Uns lutam por um mundo melhor, outros idolatram as injustiças. "Investimentos" em Céu e Inferno é sina nossa, de humanos a escolher caminhos.
Depois de três décadas voltei a ler Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. É impressionante como o viver confinado leva a pessoa a dar atenção a tantos detalhes, elaborar tantas possibilidades acerca de si mesmo e dos outros.
Quando alguém lhe falou das vantagens da autocrítica, o autor respondeu sem refletir: "Exato. Devo conhecer os meus defeitos, para conservá-los todos com muito cuidado. Se meus defeitos se sumirem, deixarei de ser eu, mudar-me-ei noutro. Quero guardá-los, não perder um". Tava de saco cheio, né?
Seguindo na leitura deduzi que, quando se está numa prisão, qualquer descrição vira uma imagem muito marcante. Como não sentir nada, mesmo não tendo passado pelos sofrimentos de um "rebanho de criaturas em um curral de arame farpado"? Como não sentir o inferno diante de "um sujeito sem as unhas dos pés que foram arrancadas a torquês"? Quem não sente nada testemunhando "dorsos lanhados, carne sangrenta, equimoses vermelhas, azuis, pretas"?
Pois é! Assim o paraíso da Ilha Grande, no litoral fluminense, foi transformado num inferno rodeado de água. Assim também fizeram com uma ilha em Ubatuba, transformando-a em Colônia Correcional da Ilha dos Porcos. Mudar-lhe o nome para Anchieta não apaga as crueldades que tanta gente viveu ali. Era inferno localizado no paraíso. Pode isto?
quinta-feira, 2 de julho de 2026
ÁLVARO VENTURA
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| Álvaro Ventura - Arquivo internet |
Prosseguindo na Memórias do Cárcere, eu me detive nesta passagem deixada por Graciliano Ramos:
"O mais perfeito gentleman que vi foi Álvaro Ventura, homem lento e gordo, estivador em Santa Catarina, o primeiro comunista eleito para a câmara federal. Tinham-lhe suprimido o mandato, e vivia conosco, aguardando o lugar na Colônia Correcional".
Ao ler o nome desse comunista, cidadão do litoral catarinense que pertencera à Irmandade do Senhor dos Passos e à luta sindical, me recordei de uma palestra proferida por Elias Stein, militante metalúrgico de Santo André (SP), quando soube desse político catarinense: foi o primeiro deputado federal eleito pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1933. Dentre muitos ofícios, era estivador e chegou a ocupar o posto de secretário-geral do PCB. Em 1935, após o levante da Aliança Nacional Libertadora, foi cassado e preso, tendo de viver depois muito tempo na clandestinidade.
De acordo com a sobrinha-neta, Maura Soares, "as convicções políticas de Álvaro o afastaram de alguns familiares, mas nunca das ações que provavam sua honestidade e fé na justiça. Em 10 de julho de 1989, aos 96 anos, deixando filhos, netos e bisnetos, Álvaro deu adeus ao mundo que ele acreditava que um dia iria melhorar".
Seguindo na leitura do livro, um pouco mais adiante Graciliano faz nova referência ao nosso personagem:
"Espantava-me de perceber em Ventura, um estivador, as maneiras corretas e a afabilidade que me habituara a distinguir no médico. Esquisito. A prisão nos sujeitava a duros abalos e surpresas constantes".
Pois é! Quem diria! De Santa Catarina saiu o primeiro deputado federal comunista.







