segunda-feira, 31 de agosto de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (I)


Navegar é preciso - Arquivo JRS 


  Conforme eu anunciei há dias, Steve Duarte, descendente de gente ligada à navegação em outros tempos, me enviou detalhes de seu antepassado e de seus negócios. Adorei o material e repasso agora, por partes, aos público leitor do blog. Gratidão ao Steve pela valiosa contribuição! Seguimos - eu, ele e tanta gente colaboradora - à disposição para dar a conhecer a nossa história, as coisas de caiçara.


    Antônio José Duarte de Souza nasceu em 1819, na freguesia de São João Batista de Ponte da Barca, Viana do Castelo, Portugal. Em 19 de agosto de 1835, aos 16 anos de idade, obteve seu passaporte para deixar o Reino de Portugal com destino ao Brasil. Partiu da cidade do Porto a bordo da barca Amélia, chegando ao Rio de Janeiro em 1836. Algum tempo depois, estabeleceu-se na vila de Ubatuba, onde iniciou sua trajetória no Brasil como caixeiro do tenente-coronel Antônio José da Graça.

    Em 26 de agosto de 1840, na Matriz de Ubatuba, casou-se com Maria Gonçalves do Nascimento, prima de seu primeiro patrão e filha do então sargento-mor João Gonçalves Pereira e de D.Francisca Soares de Novais. O matrimônio inseriu Antônio José Duarte de Souza em uma rede de relações familiares que reunia alguns dos principais agentes do comércio e da navegação na vila.

    Tanto seu sogro quanto seu primeiro patrão estavam ligados ao tráfego costeiro e ao transporte de gêneros entre Ubatuba e Rio de Janeiro, Santos e outros portos intermediários. Naquele período, essas atividades eram realizadas predominantemente por embarcações à vela, entre as quais se encontravam as sumacas Doris, de 37 toneladas, e Flor de Ubatuba, de 41 toneladas, e as lanchas Santo Antônio Brasileiro, de 20 toneladas, Maria Thereza, de 24 toneladas, Aurora, de 28 toneladas, e Flor da Graça, de 27 toneladas.

    Foi nesse contexto de expansão das atividades comerciais e de crescente integração de Ubatuba às rotas de cabotagem que, em 10 de julho de 1851, Antônio José Duarte de Souza formalizou uma sociedade comercial com seu sogro, sob a firma Pereira & Duarte. Estabelecidos com casa comissária e armazém para recebimento de cargas, os sócios dedicavam-se ao transporte e à intermediação do café e de outros gêneros, cuja produção, proveniente de Minas Gerais e do Vale do Paraíba, era escoada pelo porto de Ubatuba com destino ao Rio de Janeiro. A frota era composta de ao menos, pelo vapor Duarte I, de 90 toneladas, com tripulação de 15 homens, e pelo patacho Hortense, de 102 toneladas, com 8 tripulantes.

    No Correio Mercantil de 23 de março de 1859, há um anúncio que, ao que tudo indica, comunicava o início das atividades do vapor Duarte I:

Anúncio - Arquivo Steve


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ESTÁGIO TERMINAL

 



Destino - Arquivo JRS 

Passando a boiada - Arquivo internet 


   Poucos dias depois de eu comentar neste blog sobre a vergonha de um lugar denominado terminal rodoviário, no centro da nossa cidade (Ubatuba), mais uma ação deu uma piorada, fez um retoque: a única árvore que refrescava o local foi derrubada. Só mais uma prova de que tem gente partidária daquele pilantra que deu a ordem de "passar a boiada". 
     Naquele dia chuvoso, vendo as condições péssimas dos trabalhadores da empresa de ônibus, com água em suas dependências e goteiras por todo lado, sem banheiro aos usuários etc., constatei uma ruína em cidade turística, um local a ser evitado. Discordo daqueles que desmerecem os pobres do município e possíveis turistas que muitas vezes encontrei usando os mesmos  ônibus que nos socorrem. Quero lembrar que essa turma toda (Executivo, Legislativo e Judiciário) existe graças à contribuição da classe trabalhadora. Porém, esta fica no final das prioridades. Pior: tem pobre conformado com as injustiças e tem muitos dos nossos aliados aos praticantes descarados de toda forma de maldade. E seguirão votando neles!

Em tempo: avistei naquele horrível ambiente, dentre vários sofredores de rua, dois caiçaras. Um deles me chamou, mostrou o visor de um veículo e disse: "Tá errado. Não é Seis Marias. É Sesmarias e significa um sítio distante, um pedaço de terra". Foi aí que eu fotografei.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

QUE BOA SURPRESA!

 

Canoa caiçara - Arte do mano Guinho

     Sempre eu estou lendo os comentários de leitores do blog. É grande a satisfação em recebê-los. É muito bom porque sei que são verdadeiros e trazem contribuições valiosas, me edificam. Agora mesmo estou debruçado sobre um relativo à embarcação "Emiliana". (A postagem, a crônica feita há pouco tempo tem este título. Pode buscar aí). Atenção ao que escreveu o leitor Steve Duarte:

  

      Olá, tanto o vapor Emiliana quanto o Duarte I e, posteriormente,  o Pirahy, pertenceram às casas comerciais do meu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza. Ele também já foi proprietário do vapor Trovador. Tenho inclusive a escritura de compra desse vapor, que foi vendido ao meu tretavô em 18 de maio de 1864 na cidade do Rio de Janeiro pelo Barão de Mauá, o antigo proprietário. Possuo também diversos recortes de jornal sobre os navios que ele possuia e as atividades da firma no comércio de cabotagem de Ubatuba. Posso te enviar caso tenha interesse. Tenho inclusive uma suposição quanto à possível origem do nome da embarcação Emiliana.


     O que você acha que devo responder ao Steve?


terça-feira, 25 de agosto de 2026

CULTURA POPULAR TEM LADO

 

Mural em Caraguatatuba - Arquivo JRS 

     Uma colega de infância me perguntou de que lado eu estava, em quem votaria nas próximas eleições. Eu lhe disse que, desde 1982, só voto em quem concorre pela esquerda. Ela se indignou.

   Mediante os absurdos que já presenciei, sobretudo nos últimos tempos, não me arrependo de estar com gente que defende pautas favoráveis à vida (que preservam nossos direitos, investem na educação e saúde, promovem a cultura popular e a conservação de um meio ambiente saudável).  Deixo o outro viés (reacionário, maldoso e repleto de idiotices) aos gananciosos, que desejam golpear a democracia, a classe trabalhadora e a soberania. Por conta disso, das mentiras propagadas no intuito de aliciar os pobres, os sofrimentos aumentam. Por isto tudo eu sigo escrevendo e ciente de que estou do lado melhor. Cultura popular tem lado! Alguém dúvida?

     Primeiramente eu quero registrar muitas das coisas que são da tradição oral caiçara. Se hoje podemos saber das imemoriais lendas, de causos e histórias (geral ou particular) é porque alguém decidiu escrever, registrou imagens e sons; nos retransmitiu representações e outras formas lúdicas que servem à conscientização. E, com certeza, há um oceano infinito de histórias não escritas nos desafiando à navegação. Neste momento estou pensando na Harumi Honda que resgatou boa parte do legado de seu pai e produziu um pequeno acervo para o deleite do público. (Está, no momento, à disposição de visitantes no Teatro Municipal de Ubatuba). Eu, na minha modesta canoa, sigo dando remadas. A tecnologia evoluída desde as plaquinhas de barro dos assírios até o computador atual me auxiliam neste desejo de contribuição às nossas raízes caiçaras. Dito isto, como apoiar políticos que são autores de projetos para fechar praias e caminhos de servidão? Como desejar que mangues sejam destruídos por leis reacionárias? Como aplaudir quem está contra a natureza e os direitos básicos? Quem já se esqueceu de nossos sítios arqueológicos sendo enterrados e dando lugar aos loteamentos e condomínios fechados? 

  O que fazer? Votar em representantes políticos das causas que incluam os marginalizados pelo sistema reinante há muito tempo! 

     Eu sigo no sonho da minha infância de transformar dor em flor. À referida colega do início do texto, que se acomodou pensando ser da elite, só uma recomendação: procure um psiquiatra, leia mais para que seus olhos vejam com amor a beleza da nossa diversidade brasileira e volte a ser do lado das causas humanitárias.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ONDAS NA HISTÓRIA

 

Ilhote chuviscado - Arquivo JRS 

    Quando viajamos, o baú, com tudo o que está lá dentro, vai junto. Quem disse isso foi Rubem Alves. Foi assim num dia chuvoso, quando precisei ir até a cidade vizinha de Caraguatatuba.

     Juba foi o primeiro caiçara que avistei. Estava triste, pois seu filho faleceu há duas semanas. O meu consolo foi apenas escutar o momento penoso, desejar a ele e Cláudia muita força para romper as ondas das lembranças carregadas de saudades.

     Estando na estrada, pelo vidro chuviscado, fui contemplado os lugares, as praias... Pessoas vieram à mente: desde colegas do tempo escolar até parentes que já se foram, mas seguem vivos na memória. Tio Francolino acenou na Praia Dura, Aquelau, Rui, tio Chico, Tidinho, Ninico, comadre Vitória, tia Balbina, meus avós e muitos outros se fizeram presentes entre a Lagoinha e Maranduba.

     Aquelau, anos atrás, sempre se deparava comigo dando cabeçadas, cochilando no ônibus entre o Sapê e Massaguaçu. Numa dessas viagens ele me presenteou com um frasco contendo sementes de especula. Quem dos dias atuais conhece especula? Seu mano Rui, falecido há mais tempo, era mudo. Só que eu entendia bem suas "falas". Interessante, né? Ele, com o costume de andar por todo lado e sempre se postar no banco da parada de  ônibus, quando me avistava queria me contar, por meio de tantos gestos e sinais, as novidades, as coisas que ele viu nos arredores. Antunes falou num certo dia isto: "O Rui da tia Santa é o maior fofoqueiro que eu já conheci". (Poderia de ser mesmo, mas competia com o Antunes!).

       Nessas ondas da história, onde tanta gente  vai nos deixando na embarcação, eu desejo muita força aos tios, primos e demais parentes.

domingo, 23 de agosto de 2026

VIVA A MEMÓRIA!

     

Ipê branco - Arquivo JRS 

    No dia de hoje estou comemorando dois aniversários: o da minha saudosa mãe e o do meu mano Jairo. Ela nos deixou há alguns anos, mas permanece entre nós, na nossa ética comunitária de buscar um mundo melhor para todos. Seu exemplo, sua vigilância sobre a nossa família, seus acertos em nossos passos resultou em grande parte do que somos. Que minha mana e meus manos nunca sejam infiéis à sua memória e de tanta gente nossa que nos iluminaram os caminhos. E que nossos filhos e filhas sigam nossos sonhos.

    Agradeço muito ao Carlos Lunardi, um querido amigo caiçara de Caraguatatuba que se dedica ardorosamente à educação pública. É dele o texto abaixo. Parabéns ao grande leitor dessa cidade vizinha!


   Esse discurso de que “o que estraga o Brasil é esse assistencialismo” é, na verdade, indignação seletiva: de quem não se conforma que o pobre receba o Bolsa Família ou que o filho da empregada possa cursar uma universidade. É o mesmo que não se indigna com os incentivos fiscais que empresários e o agronegócio recebem; é também aquele que se beneficia do Minha Casa, Minha Vida, da Farmácia Popular e do SUS. É o mesmo que coloca o filho na escola pública e, sem contar para ninguém, é aquele que pediu o auxílio emergencial durante a pandemia, mesmo sem precisar. Mas o problema é o assistencialismo. Como disse Paulo Freire: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

EU QUERO VER

 

Hospital regional  (HRSJC) - Arquivo JRS 

     Hoje eu acordei pensando no Zé Vicente, compositor que avistei no Ceará nos idos de 1980. Me inspirou bem cedo as músicas dele, sobretudo uma que se inicia assim:


Eu quero ver, eu quero ver acontecer

Um sonho bom, sonhos de muitos, acontecer.


    Eu, estando em viagem, me recordava daquele tempo vivido em Crateús, sertão cearense, onde pessoas simples buscavam viver bem juntas, em comunhão naqueles duros tempos. De repente se acomodou no assento da frente o "Taubaté", velho conhecido, um pólo oposto ao Zé Vicente. Não demorou nada para ele entrar no tema política: "Agora a Santa Casa tá outra coisa, até exame de mamografia faz. Tudo graças ao Valdemar da Costa Neto com suas medidas parlamentares".  Aí eu rebati:  - Você sabe que isso tem nome de corrupção? Portanto, o que estou escutando de você é elogio de algo errado. Como ele faz emendas se nem parlamentar é? Ele deu uma murchada. Então eu quis saber da razão dele ainda estar trabalhando. Eis a resposta: "Eu tava aposentado há anos, não aguentava mais ficar à toa. Aí fulano me indicou o sicrano que me arranjou esse cargo lá". Ah! Eu não deixei barato: - Quer dizer que você tem duas fontes de renda: tá aposentado e ocupando o lugar de alguém, que poderia ser de outro que segue desempregado?

    Por fim, tentando sair por cima na nossa prosa, esse conhecido reacionário tentou este arremate: "O que estraga o Brasil é esse assistencialismo". De saco cheio eu chutei o pau da barraca: - Recomendo a você e a outros bozolóides a refletirem sobre justiça social. Eu, você e a maioria deste país nos alfabetizamos numa escola pública, dependemos do sistema único de saúde e de tantas outras medidas que estão aí graças a uma política de Estado que alguns miseráveis chamam de assistencialismo. Você é uma prova viva do que estou falando: recebe - honestamente ou não - seus dois salários. A aposentadoria é uma medida do século passado para amenizar os efeitos das desigualdades sociais. Assim também é o Minha casa, minha vida, o Bolsa Família etc. Você reparou que passou quase agora uma viatura do SAMU? E esses ônibus escolares se tecendo o dia todo? Quer dizer que você quer o fim disso tudo? Pretende eleger quem pensa em exterminar os empobrecidos, os que mais sofrem na nossa sociedade ? (Deste ponto em diante eu não precisei escutar nenhuma sandice maior. Ainda bem).


  Um sonho bom há de acontecer, meu caro Zé Vicente!