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| Um vaso diferente - Arquivo JRS |
O artesanato constitui um dos traços culturais do povo do nosso lugar, que se estabeleceu há séculos entre a serra e o mar. Sem ele, como seria a sobrevivência nesse ecossistema tão específico? Desde os remotos tempos, o povo caiçara produziu balaios para transportar raízes, peixes, frutas... Outras cestarias (tipiti, peneira, samburá, covo etc.) permitiam a realizações de serviços diversos (farinhada, secagem de pescados, captura de peixes...). Armadilhas (foge, esparrela, mundéu, arapuca...) garantiam alimentos na mata no tempo propício. Esteira, rede e tarimba permitiam repouso. Muitos outros objetos e técnicas estão englobadas no artesanato.
A canoa - a marca primeira dos Tupinambá e esteio principal
dos primeiros habitantes do litoral - é
símbolo importante até nos dias atuais, sobretudo no município de Ubatuba, porque continua servindo às atividades
pesqueiras e atraindo olhares de visitantes, de turistas. Este meio de locomoção é, sem dúvida
alguma, o objeto de atenção na calma costumeira de quem sai ou chega da pesca
ou nas remadas vigorosas dos esportistas. Quem nunca vibrou com as disputas nas
“corridas de canoas” tão orgulhosamente apresentada ao público?
Será que quem
admira a canoa imagina a arte que está ali embutida? Felizmente ainda há gente
nossa especialista na técnica de escolher a madeira no mato, cortar e escavar
nas justas medidas. (Recomendo a leitura do trabalho científico do ubatubense
Gilberto Chieus Júnior, sob o título Matemática caiçara – Etnomatemática
contribuindo na formação docente). Recentemente a canoa caiçara também
inspirou Tronco de Canoa, um prazeroso livro do Adilson Zambaldi). Tudo graças ao artesanato! Ainda
é possível constatar nativos selecionando taquaras, cipós, taboas e madeiras
macias para prosseguirem em suas artes. É a minha gente que aposta na perpetuação dos
saberes herdados de quem precisou sobreviver nesse meio bem específico do
litoral, nesse pedaço de chão nomeado na nossa raiz indígena por Ubatuba, terra de muitas ubás. É gente mostrando inigualáveis obras na madeira, criando lindas peças em mosaico e argila, desenvolvendo a costura criativa etc. De repente, aquilo que estava descartado vira uma maravilhosa surpresa, encanta muita gente.
Por fim, artesanato
é marca cultural e herança que resultou no ser caiçara resistente da atualidade.
Cada cidadão, jovem ou idoso detentor desses saberes artesanais, é a garantia de que a geração
presente e futura continuará cultivando essa identidade.







