quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VI)

 

Professora Regina Natividade - Arquivo Rê

Viva os 15 anos do blog!

 

   Hoje é a vez da companheira de tantos movimentos nos honrar com sua honesta reflexão desenvolvida no ritmo acelerado da vida. Regina é educadora e fez sua estreia trabalhando no Saco do Sombrio, na Ilhabela. Era o começo da década de 1990, quem resistia ali eram poucas – e acolhedoras! - famílias caiçaras. Graças a ela eu pude conhecer o nosso povo daquele lado. A querida Rê fez bonito porque convivia com todo seu ser naquela comunidade agarrada na vivência de colher da terra e do mar. É minha irmã de coração que sempre busca dar o melhor de si. Que Dandara e João não percam a referência dessa mãe, desse farol. Gratidão demais!

 

SOBRE SER E ESTAR

 

    Já faz algum tempo que venho pensando sobre estas duas palavrinhas: SER e ESTAR. E quando penso sobre a palavra SER, logo me vem à mente a importância do que diz respeito à existência, presença e essência com relação a minha pessoa, a sua, a nossa.

    Penso no quanto é importante sermos presença na vida de alguém especial ou mesmo de forma especial. Presença essa que, o que fica guardado na memória, são momentos.

    Já a palavra ESTAR demonstra algo previsível, sem profundidade, ideia de algo provisório e passageiro como, por exemplo, pessoas que assumem um cargo: elas estão no cargo. Então, que possamos ser confiança, ser essência.

    Que possamos  ser pessoas críticas, ativas e sem perdermos a ternura com o próximo e conosco.

    Que possamos ser construtores de pontes ao invés de levantarmos muros entre nós.

    Que possamos ser luz em meio a tanta escuridão.

    Que sejamos paz em meio a tantas guerras instaladas dentro de nós mesmos, em nossas casas, em nosso ambiente de trabalho, no trânsito, nas relações.

    Que sejamos mais observadores e apreciadores dos especiais detalhes da nossa vida, dos pequenos gestos, dos pequenos seres que quase já não os vemos mais em meio a natureza devido a destruição que assola o meio ambiente ou ainda devido a nossa “correria” diária. Pequenas ações como: o pescador que joga a rede ao mar no despertar do dia, a flor que brota em meio ao concreto da cidade, o vagalume que raramente vemos e tantas outras ações que passam por nós despercebidas. 

     Que sejamos propagadores da verdade e não daquilo que “ouvimos dizer” ou “me falaram”.

     Que sejamos e saibamos ser pessoas acolhedoras com aqueles que já não podem estar com seus entes queridos, dos amigos...Afinal, quem nunca irá passar por perdas, por um luto?

    Que sejamos a soma de valores junto às pessoas de bem e do bem e jamais a subtração por qualquer que seja o motivo.

    Que ganhar não seja sobre ter que “pisar no outro” para ter seu destaque, mas que se transforme em conquistas coletivas.

    Que sonhar com uma educação de qualidade seja viver o respeito à diversidade, onde a criança seja respeitada em seu tempo, sua voz, suas necessidades, sua essência, em especial no ambiente escolar.   

     Que saibamos “preparar os espaços para que a vida aconteça com menos pressa e mais sentido” (Camila Izoli)

    Que as comunidades tradicionais, assim como o indígena e o negro, sejam respeitadas em todo nosso ser e nossa ancestralidade.

    Que saibamos ser cada dia mais e que o estar ocupe cada dia menos espaço em nós. Mas, se mesmo assim eu ou você tivermos de estar em algum lugar, que possamos dar o melhor de nós mesmos.


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (V)

  

Livro recomendado - Arquivo Carlos
 

    Viva os 15 anos do blog!

    

    Pelos caminhos da vida a gente vai encontrando coisas boas e também um tanto daquilo que não tem nada de agradável. As coisas ruins eu vou me esforçando para apagar das  lembranças, até batendo o pó das sandálias para se livrar de qualquer resquício perverso. Pessoas horríveis seguem se desvanecendo na cerração do meu tempo. Por outro lado, as reconfortantes vivências, as muitas pessoas que me sustentaram continuam em minha vida, contribuem desde sempre no meu espírito de ser caiçara, permanecem vivas a cada dia que essa terra me sustenta. É como está na letra da música da Acadêmicos de Niterói: “Revolucionário é saber escolher os seus heróis”

 

     Carlos Lunardi Laureano, o meu irmão de coração, caiçara de Caraguatatuba, maravilhoso leitor que conheci na vivência profissional, é parte do tesouro que está guardado sob intenso carinho em meu baú. Hoje, é dele a colaboração neste tempo de comemoração deste simples blog. Assim, reproduzo agora o comentário dele por ocasião da publicação do texto "FILHO QUERIDO"


     Parabéns mais uma vez pelo Blog, torço para que você, meu irmão de coração, continue nos agraciando com seus causos que trazem muitas recordações de uma vivência caiçara rica em memórias, história de resistência de um povo que a especulação imobiliária e a burguesia cada vez mais empurra para as periferias e para os morros. Usando o termo criado pela maravilhosa escritora Conceição Evaristo, seu o Coisas de Caiçara é a materialização da "escrevivência" de um povo caiçara. Aproveito também para parabenizar o Estevan, pelo aniversário e também por sempre estar contribuindo com o blog com sua Arte.

  Gratidão, irmão! Beijos e abraços para a sua maravilhosa família!

Em tempo: em sua última mensagem, Carlos indica a sua leitura atual: A terra dá, a terra quer, de Antônio Bispo dos Santos.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IV)

 

 

Jorge Ivam Ferreira - Arquivo Jorge

Viva os 15 anos do blog!

   Quem nos homenageia hoje, acerca do mundo do trabalho e suas repercussões na realidade da nossa cidade litorânea, é o meu irmão de coração que escolheu Ubatuba para viver e nos brindar com a sua querida família. Valeu, Jorge! (Sobretudo no fortalecimento da luta pelo fim da escala 6x1)


 Ser empregado não é inteligente


         Hoje eu estava no supermercado escolhendo laranja quando um homem falava ao celular. Era um empresário que tinha recebido uma proposta de compra do seu comércio. Confessou que estava tentado a vendê-lo. Sua justificativa era que nesta temporada está difícil arranjar empregado e acredita que na próxima será pior. Alegou que os jovens não querem trabalhar. Já escutei outras queixas semelhantes e me perguntava se era verdade ou era somente o ponto de vista de gerações mais velhas sobre as mais novas. Como algumas vezes tenho constatado que o jovem que está me atendendo não demonstra muito interesse em servir, tendo a concordar com a opinião de que rapazes e moças (com boas exceções, é claro!) não demonstram diligência no trabalho.

         Se essa mudança de comportamento é um fato, ela deve ter uma causa. Primeiramente, pensei que fosse preguiça, mas não parece que uma geração seja mais preguiçosa do que outra. Afinal trabalhar nunca foi uma atividade prazerosa, mas as gerações anteriores buscavam um emprego e se dedicava a ele. Havia uma formação discursiva que incentivava esse compromisso traduzido na expressão “vestir a camisa da empresa.”

         A Rede Globo divulgava o “Operário-padrão” do ano. Era um concurso que visava tornar o empregado dedicado e, sobretudo, dócil, conformado com a opressão que sofria. O Capitalismo sempre soube inculcar no oprimido a ideia de que “o trabalho edifica”, de que “o bom cabrito não berra.” Quando as fábricas precisavam de mão-de-obra, incentivou-se a mulher a tornar-se economicamente ativa empregando-se numa delas. Além disso, levou-se o agricultor a abandonar o campo e ingressar numa linha de montagem.

        Com o advento da robotização, a oferta de mão-de-obra começou a ficar maior do que a demanda por ela. O que resultou numa drástica redução dos salários uma vez que a ameaça de desemprego levava o assalariado, temendo o desemprego, aceitar a remuneração que lhe era oferecida.

       O avanço da tecnologia fez com que a oferta de emprego caísse vertiginosamente e o contingente de desempregados aumentasse de modo perigoso para o sistema. Prevendo uma derrocada, os teóricos do liberalismo passaram a pregar a ideia falaciosa de que a felicidade está no empreendedorismo. Ser empregado é ruim, o bom é ser empreendedor. Uma grande quantidade de jovens comprou essa tese, que é uma faca de dois gumes. Pois, se por um lado ela atinge o objetivo de diminuir a pressão por emprego, que a sociedade não tem para oferecer, por outro, os jovens que entram no mercado de trabalho acabam não tendo vontade de permanecer nele e, por isso, não veem motivos para se empenhar e se aperfeiçoar na atividade que está exercendo.

       Daí, o empreendedor, que precisa de empregados, ficar indignado com o comportamento descomprometido de seus “colaboradores”. Pois é. Uma das nuances do Capitalismo é “dourar a pílula”. A exploração do subalterno continua como antes, mas ele deve ser chamado de colaborador, pois imagina-se que, sendo tratado com esse eufemismo, ele se sentirá melhor. Tendo, pois, a concordar com aquele comerciante que vi no supermercado daqui de Ubatuba: provavelmente a próxima temporada vá ter mais falta de empregados e os que se empregarem estarão pouco empenhados em dar o seu melhor. Não por preguiça, mas porque lhe fizeram crer que ser empregado não é inteligente.

 

Jorge Ivam Ferreira

         

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (III)

 

 

 

Fandangando - Arquivo Rogério 


    Viva os 15 anos do blog!


     Neste dia quem nos homenageia é o estimado Rogério Estevenel, cuja raiz materna está na praia das Toninhas. Ele é professor, sua cabeça está na Geografia, mas seu coração é devoto das tradições caiçaras. Hoje o tema é fandango e seus desdobramentos, mas mais adiante ele nos brindará com o tema dos Santos Reis. Quem nunca apreciou este caiçara em seus bate-pés não sabe o que está perdendo!

 

     O fandango caiçara é mais do que dança e música: é expressão viva de um modo de ser coletivo, tecido no espírito do mutirão, da partilha e da convivência comunitária. Em cada batida do tamanco, em cada ponteio da rabeca e da viola, pulsa uma tradição construída no entrosamento, na amizade e no respeito às pluralidades que compõem o universo caiçara. O baile é encontro, é conversa sem palavras, é aprendizado entre gerações, onde todos têm lugar e voz.

     Seus instrumentos — rabeca, viola, adufo, pandeiro e tamancos — não são apenas ferramentas sonoras, mas extensões da memória e da fé de um povo que dança em comunhão. No salão simples, sob luzes modestas, constrói-se um ambiente de acolhimento, onde o coletivo se sobrepõe ao individual e a alegria se faz disciplina, ritmo e pertencimento. 

     Entre os muitos ritos do fandango, o baile do Enterra Toco ocupa lugar singular. Realizado na terça-feira de Carnaval, é o último baile antes da Quaresma, encerrando-se rigorosamente às 23 horas e 59 minutos. À meia-noite, com o início do período quaresmal, os fandangueiros guardam seus instrumentos de costas para a parede e os desafinam simbolicamente, colocando-os em guarda devocional. Esse gesto representa o recolhimento espiritual e a memória dos quarenta dias em que Jesus se retirou ao deserto para se preparar para o martírio que se aproximava. 

     Durante toda a Quaresma, o silêncio dos instrumentos é sinal de respeito e de fé. Apenas no Sábado de Aleluia, em festa pela Ressurreição de Jesus, a tradição é retomada, e o som do fandango volta a ecoar como anúncio de vida nova. Mas o Enterra Toco não é apenas rito religioso: é também rito de afetos. Em tempos antigos, quando os pais não permitiam que suas filhas mantivessem contato com rapazes antes do casamento, o baile de fandango tornava-se espaço discreto de enamoramento. A última moda dançada na terça-feira de Carnaval funcionava como um aviso silencioso entre os casais interessados. O verdadeiro compromisso, porém, só se confirmava na retomada do fandango no Sábado de Aleluia, quando se dançava a primeira moda com a mesma pessoa da última dança carnavalesca — sinal de um interesse que, muitas vezes, culminaria em futuros casórios. Hoje, essa prática permanece como memória afetiva de outros tempos. Ainda assim, em tempos escassos de bons pretendentes, o velho rito do Enterra Toco continua a soar, com certa ironia e esperança, como uma forma eficaz de garantir o seu “toco” — não apenas de madeira, mas de amor, tradição e continuidade cultural.

 

Rogério Estevenel


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (II)

 

Régis e Domingos - Arquivo JRS 

    Viva os 15 anos do blog!

     Seguindo as comemorações, hoje é dia do mano Mingo, o mais atrevido da turma porque já publicou alguns livros. Faz muito tempo que aquele menino quieto segue registrando seus sentimentos de mundo, transformando tudo em poemas. Não tem como não se emocionar ao se deparar com os seus escritos. A grande marca desse meu irmão é a solidariedade com os familiares e os demais de seu entorno.

 

     Quem quer conhecer um pouco do povo caiçara, ou conhecer um pouco das paisagens do Litoral Norte de São Paulo, ou viajar no tempo para Ubatuba de nossos avós, é só acompanhar o blog de José Ronaldo dos Santos.  Ele é caiçara nascido na Praia do Sapê, que foi operário em construção, que se formou em Filosofia, tornou-se professor polivalente da rede pública estadual e, também, escreve crônicas cheias de vida, questionamentos e até mesmo poesia.

          Os textos do blog têm tudo o que caracteriza as crônicas: São escritas de maneira direta e concisa; o cronista retira sua matéria-prima do dia a dia: uma conversa ouvida no ônibus, um incidente na fila do banco ou a observação de uma árvore na calçada; o tom é de uma conversa informal com o leitor (o "tom de conversa de pé de orelha"). É leve, fluida e acessível.

     Gosto de ler principalmente aquelas que resgatam personagens ou acontecimentos do universo litorâneo, como por exemplo, o perfil do Elias Barreto, exímio no cavaquinho; ou o cego Doquinha que fazia a gente pensar que o violão até tinha coração; ou o velho Montanaro que veio encalhar na nossa praia; ou sobre a passagem do pirata Stede Bonnet que deixou um certo Rosend exilado em nossas praias, mais precisamente na Praia do Bonete.

          Tem 15 anos disso tudo e muito mais nas crônicas do blog do Zé.

    


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (I)

 

    

Galo do mar - Arte do mano Jairo

      Viva os 15 anos do blog!

     O mano Jairo, em poucas palavras, expressa o seu reconhecimento pelos registros que fui deixando no decorrer dos quinze anos. A intenção primeira segue sendo dar a conhecer aspectos importantes da cultura caiçara, dessa humanidade que se desenvolveu entre  a Serra do Mar e o Oceano Atlântico, o nosso querido mar, sem se omitir das outras vertentes do nosso exercício da cidadania neste mundo. Gratidão, meu irmão!

  

    Nesta data (precisamente no dia 11 de fevereiro de 2011), dia em que este blog criado pelo meu irmão José Ronaldo faz 15 anos, eu não poderia deixar de escrever o quanto este site é importante para nós caiçaras, quando os depoimentos e histórias de nossos antepassados nos iluminam. Foram muitos os caminhos percorridos por homens e mulheres, gente forte e valente que sempre enfrentou os temperamentos das marés e os segredos das florestas, bem como os seus perigos escondidos.

    A página também é um instrumento de cidadania e questionamentos das maracutaias políticas que envergonham todos nós brasileiros!

   Mano Zé sabe muito bem traduzir para seus artigos uma visão clara e fiel de tudo o que é atual e que “assombra qualquer cristão”, conforme dizer  do povo. Busca expor suas opiniões de forma sucinta, bem como traduz o cotidiano da vida simples de nosso  povo caiçara.

    Coisas de Caiçara é história e tradição, sem perder de vista o agora!

 

Jairo Felipe Felix dos Santos

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

CANOA NA VIOLA

 

       

Artesanato local - Arquivo JRS 

 

     Viva os 15 anos do blog!


      Ainda em cima do trabalho do Olympio Mendonça, de meados da década de 1970, me comovi vendo os nomes de caiçaras que conheci bem: uns estão vivos, mas muitos já se foram. Hoje, o assunto é canoa. Quem nos transmite é o saudoso Mané Mancedo e o estimado Tié Barbosa que segue firme na musicalidade e nas danças da nossa tradição.


     Canoa é gênero de moda de viola, com cantiga e dança arrasta pé. A música é impressionante em seus volteios e melodia, desprendidos pelo rasqueado das violas. Ao lirismo plangente, sucede o vibrante dos desafios e repentes. Os bailarinos evolucionam-se nos sistemas das danças de roda, como a ciranda e a cana-verde, entretanto há bate-pés, violentamente ritmados pelos pandeiros ou tambor. Trata-se de forma de cantiga, letra e dança, mais apreciada na região. Todavia, a execução de suas posições na viola de arame exige muita perícia dos violeiros; daí a dificuldade dos moços tocarem essa modalidade, que necessita de afinação própria, bem diferente das modernas.


Viola, minha viola;

Viola, meu violão. 

(Bis) A viola me conhece no punho da minha mão.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Canoa, minha canoa;

Canoa não é assim.

(Bis) Canta a sereia no mar, o canário no jardim.

Morena da Ponte Nova, me leva.


No cabo dessa viola

Eu faço guerra civí.

(Bis) Em cima da carabina faço cama pra durmi.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Também não posso cantá,

Mas não sei porque eu já cantei

(Bis) Já bebi água de rosa, com as fadas já desmudei.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Bananeira chora

De tanto filho que tem.

(Bis) Morre o pai e morre a mãe, fica os filhos sem ninguém.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Aí bananeira do cacho,

Do cacho da bananeira.

(Bis) A ratoeira do rato, do rato da ratoeira.

Morena da Ponte Nova, me leva.


Cheguei no seu jardim, ai,

Pra tirá nove rosas.

(Bis) Três brancas, três amarelas, três encarnadas cheirosas.

Morena da Ponte Nova, me leva.