COISAS DE CAIÇARA
quinta-feira, 18 de junho de 2026
FOIAPÉ
quarta-feira, 17 de junho de 2026
VIVA A PESQUISA (II)
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| Tio Maneco, um dos rabequistas - Arquivo Kilza |
Todo e qualquer localidade tem suas características específicas, suas marcas singulares. Conforme a sensibilidade de quem a pesquisa, essas vão sendo reveladas ao público. Às vezes escapam detalhes importantes ou são omitidos valores que não aparecerão em nenhum outro lugar. Também podem surgir revelações que ninguém esperava. Por exemplo, nos estudos acerca do litoral norte paulista, de 1951, realizados por Ary França, toda a região, exceto o porto de Santos, é classificada como "a mais pobre, vazia e arcaica das grandes unidades do Estado". O mesmo autor, ao ver o interesse dos especuladores abrindo loteamentos (Maranduba, Lagoinha, Itaguá, Perequê-Açu....), descobrindo novas possibilidades de exploração do chão caiçara, referiu-se ao nosso lugar de forma desanimadora: "Pode-se pensar assim que a melancólica história da decadência de Ubatuba a configure como uma cidade triste, estagnada e inexpressiva".
Depois de um hiato temporário nas pesquisas, eis que surge o trabalho da Kilza Setti recuperando as características culturais caiçaras via musicalidade. Recolhendo material entre 1977 e 1982, ela enxergou as marcas das raízes lusitanas se fundindo a outras. Diz lá: "A figura do músico medieval comparece a este trabalho com alguma frequência. Isso se justifica pelo fato de se considerar oportuno remeter ao músico andarilho da Idade Média grande parte desta reflexão sobre o músico caiçara atual. Esta ideia surgiu em virtude de se ter encontrado muita semelhança entre a visão que a sociedade teve do músico medieval e a que tem do músico de hoje. Daí a hipótese de aproximação das categorias jogral e trovador com as categorias cantador e versista do litoral paulista de hoje".
terça-feira, 16 de junho de 2026
VIVA A PESQUISA! (I)
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| Nada impedia a visão do mar - Arquivo Kilza |
Desde os primórdios da cultura humana vai se ajuntando elementos que permitem entender, graças ao interesse de pesquisadores, a formação dessa imensa colcha (de retalhos culturais) que cobre a Terra, dá sentido à nossa existência. Por este chão ubatubano, um naco do espaço terreno, já tivemos muita gente realizando esses importantes registros.
O livro Ubatuba nos Cantos das Praias, da Kilza Setti, é a continuidade de uma empreitada iniciada em 1959 na área do folclore no litoral norte paulista, dentro da Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro puxada pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).
Na ânsia de conhecer mais, de se aprofundar em aspectos levantados nos estudos anteriores, Kilza retorna a Ubatuba em 1977 e se debruça sobre o fazer musical dos caiçaras, acompanha por anos as andanças desse meu povo. Assim, surge em 1985 o seu importante livro. Ele nasceu dos cantos das praias e de seus sertões. Anos depois, já no alvorecer de um novo século, a autora cede parte valiosa da própria alma ao doar para a Fundart a soma do material produzido (fotografias, músicas e textos) em anos valiosos da sua trajetória intelectual. Portanto, há uma ferramenta valiosa conservada na fundação cultural de Ubatuba aos futuros pesquisadores em seus esforços para compreensão da nossa alma caiçara.
segunda-feira, 15 de junho de 2026
AMEAÇAS E MEDOS
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| Luz no horizonte - Arquivo Santiago Bernardes |
Santiago Posteguillo, escrevendo sobre a Roma Antiga, numa passagem acerca do Egito, diz que a jovem Cleópatra, indo a um templo dedicado ao deus Sobek, o crocodilo, é levada a conhecer o poço onde se encontrava um desses medonhos animais que precisava ser alimentado a cada dia. O sacerdote que a acompanhava assim explicou:
- Temos de o alimentar cada vez com mais frequência senão ele fica zangado. Primeiro chora e depois parece que brame furiosamente para exigir que lhe dêem comida. E se não o alimentarmos durante alguns dias, ele grunhe tão alto que se ouve em todo vale porque as paredes do poço amplificam os bramidos dele, que se tornam quase ensurdecedores. Depois dizemos aos camponeses que é o deus Sobek a exigir um novo tributo e eles trazem-nos mais cevada, trigo, farinha, pão... Enfim, tudo que lhes dissermos que Sobek exige. E carne, muita carne.
Cleópatra ficou muito quieta.
Por que me detive na referida parte? Porque ontem, ao passar defronte um local dito religioso, escutei a falação de quem pregava acerca da doutrina, das diretrizes aos fiéis. A pessoa reforçava a necessidade da escolha de nossos representantes políticos nas eleições que se aproximam. Segundo sua fala, cabia à divindade a responsabilidade com os resultados finais. No entanto, ameaças e medos entremeavam "glória a Deus, aleluia", contra um governo e representantes que ousem nas conquistas sociais, na justiça distributiva, com a conclusão de que "somente a Deus compete os rumos do mundo". Nada foi falado sobre quem governa querendo enriquecer à custa da maioria, da classe trabalhadora. Pois é! Quem não prefere viver se aproveitando de um povo ignorante?
O povo pode pensar mais, saber mais! Mas isto é o que a classe dominante não quer. Assim, ela deve seguir investindo em todas as frentes para estar no controle e limitar a democracia, inclusive nas igrejas. Estas são uma chave determinante nesse objetivo nefasto. Retiros, marchas, dízimos e narrativas absurdas devem confluir nesse rumo.
sábado, 13 de junho de 2026
OS MURA
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| Povo Mura - Arquivo internet |
Quando eu acho uma informação sobre
qualquer etnia indígena, me volto para as nossas raízes culturais e enxergo
aquela que está na base da cultura caiçara: a Tupinambá. Será que todo o povo
brasileiro tem este conhecimento, este reconhecimento de que uma parte de nós
está assentada no alicerce de sangue indígena?
Tempos desses, lendo a biografia escrita
por Paulo Rezzutti sobre a imperatriz Leopoldina (que veio da Áustria para ser a
primeira esposa de Pedro I), achei uma referência à etnia Mura. Atualmente este grupo ocupa vastas áreas junto aos principais rios amazônicos (Madeira, Purus e
Amazonas), se destacando como exímios navegantes e conhecedores dos caminhos
nos igarapés, ilhas, lagos etc. Como quase a totalidade dos povos indígenas, os
Mura, em seu longo histórico de contato com os invasores, sofreram diversos
estigmas, massacres e perdas em diversos aspectos (demográfico, linguístico e
cultural). Na mesma pesquisa, no citado autor, encontrei esta informação:
Natterer, um dos estudiosos que veio com
Dona Leopoldina, depois de desbravar o sudeste, seguiu para a Amazônia. Após 18
anos de exploração, levava para Viena 37 caixas com material coletado, Maria do
Rego, sua esposa, e três filhos. Apesar do nome, Maria era uma índia Mura com
que ele se casara na Amazônia. Ela e duas crianças não sobreviveram no primeiro
inverno europeu. A filha mais velha, Gertrud, anos depois se casaria na
aristocracia austríaca, tornando-se baronesa Schröckinger von Neuenberg.
Não é interessante? Provavelmente foi a
primeira e única filha de indígena do território brasileiro a possuir um título da nobreza europeia. Uma
filha Mura, imagina! Quando isso? Nos primórdios do século XIX.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
PASQUIM DOS ILÍCITOS
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| Tinticuia querida e florida - Arquivo JRS |
O pasquim, um gênero literário antigo, era bem comum em nosso município (Ubatuba) no século XX. E teria sido muito mais se a alfabetização fosse maior e mais gente tivesse recursos materiais (caneta, papel...) naquele tempo. Eu, menino curioso, cheguei a ler alguns. Tinha de tudo nos pasquins: fofocas, notícias de perto e de longe, comemorações e críticas. Bado lembrou bem:
“Com característica de folhetim escrito, em forma de versos, esses papéis eram afixados em lugares de reuniões públicas – ranchos de pescadores, árvores e capelas – e tinham, em sua maioria, caráter de mensagens e recados a alguma pessoa, ou então ligados a fatos misteriosos”.
Um dia distante, me
situando debaixo da grande figueira preta, onde se localizava o rancho do
Targino Barreto, na praia do Perequê-mirim, apreciei:
João
pigarreou para Jorgina,
Carlos
presenteou Florízia,
Dito e
Judith sussurraram coisas,
Batengo
e Niulene fecharam acordo,
Atílio e
Maria saíram de mãos dadas,
Braziliano
e Dita piscaram na mesma direção,
Nié apertou
firme a mão da Ditinha,
Sebastião
carregou Terezinha na barra,
Teotônio
se despediu de Maria
(Porque
Carminha estava chegando),
Chico se
ajoelhou aos encantos de Elza,
Avelino
bingou com Benega,
Totonho
e Cida conceberam o primeiro de muitos,
Hilário
e Aurora foram de canoa mar afora,
Bernardino
amou Zilda uma única vez,
Raul
amou muito Judite naquela ocasião.
Todos “amores
ilícitos”; todos depois do serão.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
BEM-AVENTURADO
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| Gato na janela - Arquivo JRS |
Quando a gente vive num canteiro de obras, vê e escuta de tudo, mais tolices do que coisas sérias. Expedito foi um dos
companheiros de trabalho pesado que destoava muito dos demais. Era por volta de
meados dos anos 80. Em Brasília, naquele tempo, era discutida uma emenda para o
país voltar a ter eleições diretas para presidente, pois quem estava no comando seria o último ditador militar, aquele que dizia preferir o cheiro de cavalo do que o do
povo. Expedito era contra, repetia sempre que amava os fardados. “Brigar
por diretas-já é coisa de quem não tem o que fazer”.
Descrevo agora o tipo: era um baixinho
entrão em prosas alheias, que parecia não pensar bem e tinha muita dificuldade
para expressar com clareza. De um ponto de vista desencontrado, todos os seus
assuntos pareciam terríveis. Conversar com Expedito era cair numa armadilha e
já se angustiar por uma brecha escapatória. Certa vez ele veio com esta
exclamação: “Como é bom ler com imensa satisfação obras confusas de autores que
não dizem porcaria nenhuma!”. Naquele momento, se eu não fosse eu, pediria ao
mais próximo um café quente quinado com pinga, um “roxinho”, acompanhado de um
torresmo escorrendo gordura. Eu percebi a muito custo que ele insultava
autores russos. Pensei: “Deve ser assim, neste método expeditiano, que supostos
intelectuais bradam contra o comunismo”.
Dito Capixaba, conhecedor do Expedito de
outras paragens em tempo bem passado, jurava: “O destrambelhado vem da nobreza
rural, de gente rica que nunca faltou nada enquanto tinha escravos”. Eu acho que era
mesmo porque a sua maior paixão era o xadrez. (Difícil era encontrar na obra,
entre gente acostumada com betoneiras roncando, oportunidade para armar o tabuleiro). A peãozada,
notando a minha preocupação em não deixar o Expedito para escanteio, dizia: “Liga
não, Zé. Ele é zureta, mas não de tudo. O bom dele é ser engraçado demais”. Tião
Zoró, um servente que não perdia uma missa, repetia de tempos em tempos: “Pobrezinho,
é um bem-aventurado”.
Após muitos anos, sem saber se Expedito era
vivo ou morto – mas pensando nele! -, achei esta citação de Graciliano Ramos: “Apresento
uma sugestão aos homens inteligentes: deixem de escrever e entreguem a pena aos imbecis”. E eu? Eu apenas sigo
sendo indulgente com estes (que cortam chinelos, bebem detergente, oram para
pneu, não querem direitos trabalhistas, preferem lamber botas dos estrangeiros
etc.). Desconfio que Expedito pertenceria a este time.






