sexta-feira, 13 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XV)

 

Charge de Jorge Gonzales - Fonte: O SOL


Viva os 15 anos do blog!

 

     Hoje, vendo a imagem de um petroleiro bombardeado num lugar distante daqui – mas no grande mar! -, pensei na prosa de muitos anos passados, quando o Tio Dico, da praia do Puruba (Ubatuba), explicava porque as ostras gigantes tinham desaparecido do rio deles, afetado a alimentação dos caiçaras dali: “Foi uma maré de óleo, meu filho. Ela tomou conta de tudo, invadiu na ressaca pela barra, cobriu tudo de preto. Morreu tudo que vivia no manguezal, no rio, nas pedras e nas tocas. Foi uma tristeza só. Custou muito tempo para as coisas irem se limpando. Ainda tem dessa sujeira por aí, nunca vai sair. Desde esse tempo nunca mais tivemos das grandes ostras. A molecada, mergulhando de vez em quando traz umas maiores, mas que nem chegam aos pés das que existiam”.

    Sabe quem paga por esses acidentes ambientais? Todos nós, mas primeiramente os mais pobres que precisam sobreviver catando coisas na natureza, mariscando e pescando. Assim muitas vidas seguem desaparecendo do planeta.

     Nós já sabemos, quando o assunto gira em torno da política ser de esquerda ou de direita, quem apoia esses mandos e desmandos no mundo inteiro. Esses bombardeios, esses genocídios rondando pelo mundo é o resultado de uma onda nazifascista muito mais perversa do que aquela que abalou a comunidade purubana em décadas passadas. Os governantes que não se submeterem a essa onda serão perseguidos.  As lideranças que não concordarem em prosseguir alimentando o vampiro capitalista serão depostos, caluniados, colocados entre a cruz e a espada, o povo que não apoiar isso será bombardeado e roubado assim mesmo. Para que essa onda tenha sucesso é preciso alienar o povo, lhe roubar a soberania, reduzir a uma massa não pensante, sem tempo livre para o tal ócio criativo, a resistência oriunda daí. Agora, olhando uma charge do mexicano Jorge Gonzales, confirmei o quanto a arte engajada é importante; nela vemos quais países vizinhos já se aliaram à onda medonha, direitista extrema, que se aproxima para nos afogar. A partir deles as forças inimigas, contrárias a um modelo de democracia comprometida com as questões sociais, poderão atacar o Brasil que tenta se segurar na soberania. A costa brasileira, o nosso tão bonito litoral, corre risco de virar um cenário escurecido pelo petróleo (a maior ânsia do atual vampiro-mor). Outros litorais mundo afora já estão nesse sofrimento. Aonde vai o turismo, a indústria pesqueira, a sobrevivência caiçara? Quem pensa nisso tudo? Quem está consciente das mortes e vidas que seu voto representa nas eleições? Não é só a Venezuela, o Irã, Cuba e mais alguns que estão sendo atacados. O Brasil está no radar trumpista, novos argumentos estão sendo montados para oportunistas interferências.


quinta-feira, 12 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XIV)

 

O genial Henfil - Arquivo Henfil 

Viva os 15 anos do blog!

     O estimado Jorge, no presente texto, nos mostra um viés dos trabalhadores de outras regiões que têm São Paulo e o "sul maravilha", conforme denominação do Henfil, como lugar de ganhar dinheiro para curtir a vida. A conclusão, capaz de nos engajar na luta pelo fim da escala 6x1 na rotina da classe trabalhadora brasileira,  faz me lembrar da historinha do caiçara de outro tempo olhando o mar, curtindo a vida na maior simplicidade. Nisso chega o turista e o questiona; "Por que você não vai pescar, vender o pescado, negociar terra, guardar dinheiro etc. para no final da vida poder curtir a vida numa boa?". Então o nativo questiona: "O que eu estou fazendo agora?".



Viver comendo água

   Quando era criança, em dezembro, muitos jovens chegavam a Iaçu para passar o final do ano com os pais. Vestiam-se na moda daquela época: calça e jaqueta jeans, cinto com fivela grande, sapato plataforma, e acessórios como relógio, colar, anel. Alguns levavam vitrola e LPs ou rádio de pilha. Muitos eram trabalhadores da construção civil, que poupavam a maior parte do que ganhavam morando em alojamentos e se alimentando mal para regressar à terra natal dando a impressão de estar bem de vida. Durante sua estada, farreavam à beça. Dançavam quase todos os dias, porque cada recém-chegado promovia sua festa. Bebiam muito, namoravam várias garotas, engravidavam muitas delas. 

    Enfim, naqueles dias, com justiça, podia-se aplicar a eles o título de um filme de muito sucesso “Curtindo a vida adoidado”. Era o extravasamento de um ano ou mais de privação. Era uma vida de sonho, mas depois dela vinha o despertar. Quando se aproximava o dia da volta ao batente, a euforia dava lugar à tristeza não só porque iam deixar aquela eterna festa, mas também porque aqueles dias de prodigalidade tinham esvaziado os seus bolsos. 

   Eles, que, nos últimos dias, já vinham vendendo paulatinamente seus pertences, começando pelo rádio ou pela a vitrola e seus discos, continuando pelo relógio, pela corrente, pela jaqueta, por fim, na véspera do retorno, literalmente vendiam as calças para comprar as passagens. Voltavam cabisbaixos, já saudosos daquelas semanas no éden, fazendo planos para o próximo final de ano.

    Cresci e como filho de Deus, ou melhor, como filho de Iaçu, estava destinado a vir para São Paulo. Vim com meus pais e, por isso, não tinha motivo para imitar os conterrâneos que mencionei acima. Fui ficando aqui e me adaptando ao jeito paulistano, muito preocupado com o futuro e pouco festeiro. 

   Decorre daí meu espanto com um diálogo que ouvi quando retornava numa Van de Itapecerica da Serra para São Paulo. Dois homens conversavam no banco da frente quando um apontou para uma escola que ficava numa colina e disse ao outro: “Rapaz, eu quase peguei aquela escola para pintar. Ia ganhar dez mil reais.” Era tanto assim?” “Era! Imagina eu com essa dinheirama todo no bolso. Ia passar seis meses em Pernambuco só comendo água.” 

    Na hora, eu pensei: “se tivesse bom-senso, esse pintor pegaria essa soma, aplicaria e continuaria trabalhando para conseguir sua independência financeira. Ele, no entanto, está pensando na diversão que a posse dessa quantia ia proporcionar-lhe.” Era o ridículo espírito capitalista me incutindo a ideia de que eu era melhor do que aquele jovem hedonista. 

   Recordei aquela cena, que eu tinha presenciado há muito tempo, hoje, quando estava assistindo ao belo documentário de Marcelo Gomes, “Estou me guardando para quando o carnaval chegar.” O filme mostra moradores de Toritama confeccionando jeans em condições bastante adversas, mas orgulhosos de serem empreendedores, de, ilusoriamente, ganharem o quanto quiserem, ao contrário de um assalariado, cujo ganho é estipulado previamente. 

   Estranhamente, esses indivíduos de ambos os sexos mostram-se felizes de trabalharem em excesso. Um entrevistado confessa que até já desmaiou em consequência disso. Paradoxalmente, na semana que antecede o Carnaval, esses trabalhadores autônomos, ou empreendedores como alguns preferem ser chamados, são contagiados por um desejo tão grande de se divertir nas praias durante o Carnaval que aqueles que não têm dinheiro para realizá-lo vendem o que possuem: a máquina de costura com que ganham seu sustento, a única geladeira da casa, o celular, enfim qualquer coisa vendável. A cidade fica deserta. A agitação feroz dá lugar à quietude.

  A loucura do Carnaval chega chutando a ideologia do empreendedorismo e chamando os moradores de Toritama à razão, à era pré-capitalista.

    Que meus conterrâneos, de Iaçu ou de Toritama, não percam, como perdi, esse desejo de “curtir a vida adoidado” ainda que seja só por alguns dias, mas tanto melhor que seja por seis meses ou mais.


Jorge Ivam Ferreira

domingo, 8 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XIII)

 

Céu de desafios - Arquivo JRS 


Viva os 15 anos do blog!

 

    Acordei pensando, como sempre, na minha gente mais querida, nas tarefas do cotidiano, nos enfrentamentos que a vivência exige de cada ser humano. Sei que a grande parte das agruras impostas à quase totalidade dos viventes é decisão política. (Aqui eu incluo também os demais seres! Exemplo: liberar agrotóxico, usar “mata mato” é envenenar a terra, matar minhocas, passarinhos etc.). Daí a importância de atentar às mensagens e exemplos de quem desponta no cenário político. Nossos votos nas eleições têm muito compromisso com tudo aquilo que acontece depois. Podemos estar dando vida a monstros horríveis. Quando um grupo, lá em Brasília ou em Ubatuba vota contra os direitos trabalhistas, quem o elegeu  é corresponsável pelas agruras decorrentes disso. Quanta gente “inocente” votou nessa horda que persegue mulheres, indígenas, negros, meio ambiente etc.? Quanta gente miserável depositou nas urnas votos favoráveis a esses mercenários que só aumentam seus próprios privilégios, desviam verbas públicas a seu bel prazer e sentem prazer nas atrocidades que cometem? Quanta gente religiosa, próxima de nós, bate palmas para governantes que praticam genocídios e destroem países inteiros? Escolhi um texto do Nego Bispo para a nossa reflexão neste dia tão especial:

 

      Existem modos de vida fora da colonização, mas política, não. Toda política é um instrumento colonialista, porque a política diz respeito à gestão da vida alheia. Política não é autogestão. A política é produzida por um grupo que se entende iluminado e que, por isso, tem que ser protagonista da vida alheia. A democracia é uma coisa eminentemente humana. Os outros seres, os outros viventes no mundo, não exercitam esse movimento. Eles não têm vida parecidas com isso. Os bois, os porcos, as galinhas, os pássaros não têm essa estrutura de gestão. Só os humanos têm essa estrutura em que um vive para gerir a vida do outro verticalmente, para defender o direito dos outros. Entre as outras vidas, cada um se defende de forma segmentada para defender o território de forma integrada.  [...] Dentro do reino animal, só existe política na espécie humana. Nas outras espécies existe a autogestão. [...] Quando um enxame de abelhas está grande demais, sai uma rainha e constrói outro enxame. Quando uma casa de maribondos está grande demais, eles fazem uma nova casa. Quando um formigueiro está grande demais, as formigas fazem outro formigueiro. Por que não aprendemos que, na autogestão, o grupo tem que ser do tamanho necessário para se autogestionar?

 

      A autogestão tem de ser um caminho, uma maneira diferente de exercício político! Aquela rua que se uniu contra os esgotos lançados no rio é um exemplo. Aquele bairro que se organizou para determinar as prioridades locais é digno de ser imitado. E o que dizer daquela nossa gente que pescava uma vez por semana comunitariamente e fazia tantos serviços em sob forma de pitirão? Pois é! Foi este modelo  que nos garantiu a vida e os ideais que nos sustentam. Muito me honra a irmandade que se mantém nesse rumo!

sábado, 7 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XII)

  

Mano Mingo e mana Ana - Arquivo JRS 


Viva os 15 anos do blog!

     

   Ana Maria é a minha querida irmã. Chegou a vez dela atender ao meu apelo neste tempo de aniversário do blog.

  


    Você pediu para escrever sobre o blog, não tenho talento.

     - Quem disse que não? Tem demais! Prova maior é o seu lar, fruto de toda uma vida de batalhas, com todos os seus arranjos.

    Sou mesmo só parte da família.

    - Ainda bem que temos você, mana Ana! Certamente que a sua proximidade continuará sendo um porto seguro para os irmãos e toda a sobrinhada.

    O seu blog representa saudades de um tempo muito distante.

    - Muitos dizem que sim. A saudade nos faz recordar de tantos momentos que vivemos desde que nascemos há mais de sessenta anos, mas também nos dá forças para resistir às maldades que, na atualidade, se banaliza graças às mídias que se aproveitam do grande número de analfabetos funcionais, da ignorância até mesmo transbordante em gente da gente.

   Hoje achei revistas Tex nas coisas da Josi. Eu havia falado pra ela que aprendi a ler com elas na casa da vó Martinha.

   - Eu também lia muito na casa da vó, nos poucos livros dos tios. Que bom que nós tivemos essa oportunidade, né? Livros e revistas eram raros nos lares caiçaras de antigamente. Josi, a nossa querida, será eterna em nossas memórias e será sempre amada nas nossas “crianças” que nos animam a viver cada dia. Certamente que elas contam com a gente porque enfrentam um mundo com barreiras mais engenhosas a impedir a realização das pessoas. Você é muito importante para nossas crias: Carla, Maria Eugênia, Estevan, Paula, Victor, Régis, Mônica, Gabriela e Pedro.

   Lembro mais da minha infância quando morava na Maranduba. Naquele tempo também havia gente ruim, que queria se aproveitar da gente.

   - Ah, minha irmã! Quantas coisas foram amargas em nossas vida! Nós superamos, mas muitos dos nossos ficaram sem forças, desistiram no meio do caminho. Porém, fazem parte do meu ser, estão no meu espírito.

   Lembro-me também das brincadeiras nas areias em frente da casa da vó, do rio que aprendi nadar.

   - Eu também me lembro. Uma velha cicatriz na sobrancelha direita é daquele tempo, quando a base de uma folha de coqueiro quase furou o meu olho. Naquele areal nós conhecemos o caju, a batata e a cana assada na fogueira. Ali vovô plantava um pouco de tudo. No terreiro, debaixo de um abacateiro, existia um banco de madeira para a gente escutar histórias. Por ali nossos primos cresceram.

   Era um tempo de inocência, meu irmão, mas que tinha safados também de plantão. Nosso pai passou a beber e causar transtornos em casa.

   - Triste demais. Acho que mamãe, sentindo-se muito fragilizada naquela vizinhança e nos rumos incertos do marido, tomou a decisão mais acertada de irmos dali, morar na praia da Fortaleza, nas proximidades do pai, da mãe e dos demais parentes.

   Lembro-me do terremoto.

   - Eu também. Me lembro que acordei em casa no dia seguinte enquanto mamãe e vocês voltavam da capela, lá perto da Maria Balio. Desconfio que nosso pai, sob efeito do álcool, não deixou que me levassem. Mais pessoas do Sapê buscaram proteção divina, se achavam mais segura na capela. Naquele tempo aconteceu a catástrofe em Caraguatatuba.

   Me lembro dos desenhos feitos e pintados na luz da lamparina, que as folhas no outro dia amanheciam na cor azul.

   - E também tinha uma menina da vizinhança que montava um cineminha com caixas, com embalagens juntadas no entorno. O nome dela era Imaculada, filha da tia Santa. Pois é!

   Para mim você é pessoa generosa e divertida, com princípios culturais, humanos e políticos que emergem do blog. Beijos.

     - Gratidão demais pela irmã que você é, Ana!


segunda-feira, 2 de março de 2026

COMEMORAÇÕES (XI)

 

Sertão da Quina e Sapê presentes no coreto (Arquivo JRS)

Viva os 15 anos do blog!

    Muitas interferências tendem a acabar com alguns dos nossos traços culturais, algumas das marcas caiçaras ainda existentes em Ubatuba. Triste quando os gestores não percebem o valor e a riqueza possível por intermédio do turismo cultural. Porém, a nossa gente resiste e segue fazendo bonito em suas manifestações. Parabéns às lideranças que não esmorecem! É isso ai, pessoal! 


Parte 4

     Nos últimos anos, o encontro voltou a receber um apoio ainda tímido, restrito basicamente à sonorização. Em 2026, contudo, o encontro não foi realizado, embora aproximadamente cinco grupos tenham mantido suas atividades de forma independente. Esse cenário acende um sinal de alerta: as Folias de Santos Reis em Ubatuba vêm se enfraquecendo em virtude de inúmeras interferências externas, da falta de políticas públicas continuadas e da ausência de um projeto estruturado de salvaguarda. O risco de desaparecimento dessa manifestação é real e iminente.

     Diante desse contexto, é imprescindível reconhecer publicamente o considerável comprometimento, a defesa incansável e a atuação concreta de Nei Martins e Rogério Estevenel como referenciais na manutenção das manifestações culturais tradicionais caiçaras, especialmente das Folias de Santos Reis. Suas trajetórias demonstram que, quando há sensibilidade, diálogo com as comunidades e respeito ao sagrado e à tradição, é possível fortalecer identidades culturais e garantir a transmissão de saberes entre gerações.

     Assim, este texto se soma ao clamor das comunidades, dos mestres e dos foliões para encorajar os poderes públicos — em especial o município de Ubatuba, por meio de seus órgãos de cultura, educação e turismo — a assumir um compromisso efetivo com a salvaguarda das Folias de Santos Reis. Faz-se urgente a criação de um projeto de fortalecimento dos grupos e dos festejos natalinos, que contemple: apoio logístico permanente; registro e documentação das cantorias seculares; ações formativas para jovens; reconhecimento dos mestres como detentores de saberes tradicionais; e a institucionalização do Encontro de Folias de Santos Reis como evento oficial do calendário cultural da cidade.

    Preservar as Folias de Santos Reis não é apenas manter uma tradição religiosa: é proteger um patrimônio imaterial que expressa a alma caiçara, a fé popular e a história viva de Ubatuba. Sem ações concretas e continuadas, corre-se o risco de silenciar vozes que, por séculos, anunciaram em canto e devoção o nascimento daquele que veio pobre, sem palácio, mas coroado de amor — O Menino Jesus!


sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (X)

 

Um dia distante no Puruba - Arquivo JRS

 Viva os 15 anos do blog!

       Nesta terceira parte apresentada pelo Rogério, me vem à memória o saudoso Pedro Brandão, mestre folião do Sertão do Puruba (região norte de Ubatuba), mas que terminou sua jornada no bairro da Estufa. Nos idos de 1980, na praia da Ponta Aguda (extremo sul), ouvindo o tocador Aristeu Quintino num momento de cantoria, eu quis saber como ele sabia tantas músicas do nosso povo, da Folia. Eis a resposta: "Eu aprendi com o Pedro Brandão. Era ele que fazia a Corrida da Bandeira do Divino desde quando eu era ainda criança. Fui escutando a cada ano e assim sei cantar essas modas". 

      Pedro Brandão, Nei Martins, Otávio "Paratiano", Vitória, Beto, Ophélia e tanta gente mais fizeram mais do que as suas partes na preservação de nossa cultura. Rogério segue no mesmo caminho. Parabéns, amigo!


Parte 3

    As Folias de Santos Reis em Ubatuba representam um dos mais profundos patrimônios imateriais da religiosidade popular e da cultura tradicional caiçara. Mais do que manifestações festivas, elas constituem verdadeiros arquivos vivos da memória coletiva, responsáveis, em tempos históricos de escassez da presença clerical, por assegurar a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a saudação ao Menino Jesus, a devoção aos Reis Magos e a transmissão de cantorias seculares que narram a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, pobre, sem palácio, o Rei dos Reis.

     Durante décadas, essas tradições foram mantidas graças ao compromisso de mestres, violeiros, cantadores e comunidades inteiras. Contudo, sua continuidade também foi profundamente fortalecida por ações públicas sensíveis e comprometidas com a cultura popular, como as desenvolvidas por Nei Martins, grande entusiasta e defensor da cultura caiçara. À frente de iniciativas dentro da FUNDART, Nei Martins iniciou um trabalho estruturante de valorização das Folias de Reis, que consistia em identificar mestres, favorecer a transmissão dos saberes entre gerações, fortalecer os grupos existentes e coordená-los conforme suas necessidades reais.

     Foi sob sua articulação que se consolidou o Encontro de Folias de Santos Reis em Ubatuba, bem como as romarias e visitas às capelas de norte a sul da cidade. Durante o mês de dezembro, as folias eram destinadas às comunidades com o devido transporte, zelo e profundo respeito aos grupos e ao sagrado, sempre em parceria com a Paróquia Exaltação da Santa Cruz. As comunidades acolhiam e prestigiavam as folias, reconhecendo nelas não apenas um ato religioso, mas um momento de pertencimento, memória e celebração coletiva.

    O ápice desse ciclo devocional acontecia no dia 6 de janeiro. O grande encontro iniciava-se com a missa, na qual cada capela vinha representada por um estandarte identificando o bairro visitado e seu padroeiro. Após a celebração, formava-se uma grande procissão em direção ao Sobradão do Porto, onde, diante de um belo presépio armado, as folias realizavam suas cantorias e reverências. O momento era coroado por uma farta mesa de alimentos caiçaras e, por fim, mestres e violeiros encerravam com um baile de fandango — em algumas edições realizado também na Praça da Matriz —, simbolizando a união entre fé, cultura e tradição.

     Infelizmente, em 2007, Nei Martins veio a falecer, deixando um legado inestimável e uma lacuna na condução institucional dessas ações. Em 2008, aguardava-se alguma iniciativa da FUNDART em torno das Folias e do tradicional encontro, o que não ocorreu. Diante desse vazio, em 2009, Rogério Estevenel, então coordenador da Pastoral Fé e Cultura, propôs a retomada do Encontro de Folias de Santos Reis, mesmo sem o apoio da FUNDART. A partir de então, o encontro passou a ser realizado dentro da Igreja Matriz, após a missa, e assim se manteve de forma ininterrupta até 2025, sustentado quase exclusivamente pela dedicação voluntária, pelo zelo pastoral e pelo profundo compromisso com a preservação da tradição.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (IX)

 

Canoas do Mestre Neco - Arquivo JRS

Viva os 15 anos do blog!


    O amigo Rogério, conforme anunciado, prossegue agora apresentando os grupos de Folia de Santos Reis ou Reisado. Destaque para as crianças e muitos jovens que estão se compondo nesse nosso traço cultural presente no município de Ubatuba.


Parte 2

       Na região sul, em Maranduba e no Sertão da Quina, destaca-se a junção de duas folias antigas — Nova Geração e Zeca Pedro —, que hoje mesclam a tradição caiçara e mineira. Na Praia Grande do Bonete, preserva-se a genuína folia caiçara, agora com jovens engajados na manutenção desse lindo patrimônio. Na Praia da Enseada, a Folia Santa Rita, comandada por Ostinho e amigos, mantém viva a devoção.

     No bairro Bela Vista, a forte migração de Ladainha-MG, na década de 1970, trouxe moradores de profundo vínculo cultural, que realizam todos os anos seus festejos nos nove dias que antecedem 6 de janeiro, culminando em um grande almoço, terço cantado e cantorias aos Reis Magos. Incluem ainda uma música em homenagem aos mestres e devotos já falecidos, sob o nome Folia Mineiros de Ladainha.

     No centro da cidade, vale rememorar o coro da Igreja Matriz, composto exclusivamente por mulheres e liderado, à época, pela saudosa Dona Ophelia e por Dona Lígia — hoje querida voluntária da Santa Casa. Esse grupo, chamado Folia Exaltação, em alusão à padroeira da cidade, Exaltação da Santa Cruz, hoje está desativado. Também na área central, merece memória a antiga Folia do Mané Babirro, composta por caiçaras foliões e membros da Lira Padre José de Anchieta, que, com clarinetes, trombones e saxofones, davam grande harmonia às cordas e vozes da romaria. Hoje, a Folia São Miguel Arcanjo continua esse legado, com a presença de seu Manoel e família na manutenção da tradição.  Não se pode esquecer que, em 2025, uma folia que abrilhantava os encontros na praça perdeu seu baluarte: o querido Beto, cantor das missas e referência para a diocese com a Missa Sertaneja. Sua folia, a Sagrada Família, formada por membros do ECC, permanece como memória viva de sua dedicação.

    As crianças da equipe de liturgia Tijolinho de Jesus também marcaram presença nos períodos natalinos, visitando famílias com cantorias de repertório infantil, sob a liderança de Rodrigo e Guaracira. No bairro do Promirim, a Folia São Roque, do saudoso mestre Orlando, teve sua tradição repassada à comunidade por seu neto Lucianinho e pela mestra Lauriana. Embora atualmente não execute as cantorias, o grupo precisa de apoio para registrar seus repertórios seculares — assim como todos os grupos de Ubatuba, que correm sério risco de perder esse rico acervo imaterial de musicalidade caiçara e de outras regiões.

     A Folia São Geraldo, do Itaguá, mantém-se ativa mesclando componentes do próprio bairro e do Sertão do Poruba, reduto do grande mestre da Congada de São Benedito, fandangueiro e folião Dito Fernandes. A Companhia Cantamar, do amigo Julinho Mendes, busca na diversidade brasileira uma identidade rica e plural. O Grupo Consertada, embora não seja uma folia de reis, integra cantigas natalinas em seu repertório e sempre participou do tradicional Encontro de Folias de Reis realizado em 6 de janeiro.

     Por fim, é imprescindível lembrar os mestres fandangueiros que detêm vasto repertório ligado às Folias de Santos Reis: Mestre Neco, Mario Gato, Armindo (Tié), Dito do Estaleiro, Mestre Marinho e Mestre Pedrinho — verdadeiros guardiões de uma herança que une fé, música e pertencimento.