domingo, 6 de setembro de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (II)

 

Anúncio - Arquivo Steve Duarte 

       Steve Duarte, na pesquisa da trajetória do seu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza, hoje nos apresenta mais um pouco da história, dos empreendimentos no ramo da navegação no século XIX. Ubatuba, lar desse pessoal, era o porto por onde escoava até café cultivado em Itajubá e outras paragens mineiras.

 

      No ramo da navegação, inicialmente a parceria era entre o nosso personagem principal e seu sogro. Posteriormente, ingressaram na sociedade seu cunhado Francisco Gonçalves Pereira e seu concunhado Joaquim Victorino da Cunha, passando a operar sob a razão social Pereira, Duarte & Comp., que se consolidaria como uma das casas comerciais de maior expressão da vila na segunda metade do século XIX. A sociedade entre Antônio José Duarte de Souza, seu sogro e os dois cunhados foi dissolvida amigavelmente mediante escritura pública lavrada no Tabelião Cruz, em 14 de abril de 1864. Na ocasião, Antônio José retirou-se da empresa com o propósito de constituir uma nova firma em associação com seu filho mais velho, Antônio Júlio. Os demais sócios permaneceram reunidos sob a razão social Pereira, Victorino & Comp. Pouco mais de um mês depois, em 18 de maio de 1864, foi lavrada, no 4.o Ofício de Notas da Capital do Rio de Janeiro, a escritura de venda do vapor nacional Innovador. A embarcação foi adquirida por Antônio José Duarte de Souza diretamente do Barão de Mauá, pela quantia de 16 contos de réis, passando então a denominar-se Trovador. O negócio foi acompanhado do pagamento do selo proporcional, no valor de 16 mil réis, sob o nº 142, na mesma data, e do registro nº 3.196 na Alfândega do Rio de Janeiro, onde foram recolhidos direitos de 5%, correspondentes a 800 mil réis. A aquisição do Innovador, rebatizado Trovador, marcou o início de uma nova etapa na trajetória empresarial de Antônio José Duarte de Souza, agora desvinculado da sociedade mantida com o sogro e os cunhados e associado diretamente ao filho na condução de seus negócios. Constituía-se, assim, a nova casa comercial sob a razão social Duarte & Filho. No entanto, o percurso da firma não esteve isento de infortúnios. Em agosto de 1867, Antônio José Duarte de Souza anuncia no Correio Mercantil o trágico falecimento precoce de seu prezado filho e sócio, Antônio Júlio Gonçalves Duarte, de apenas 23 anos.

     Apesar do revés que lhes acometera, a firma continuou a buscar expandir suas operações. No Jornal do Commércio de 28 de maio de 1868, anunciou-se um novo acordo envolvendo as casas comissárias de Caraguatatuba, passando o vapor Trovador a realizar três viagens mensais àquele porto. O que Duarte não contava é que, na madrugada de 24 de fevereiro de 1869, sofreria outra grande perda: o catastrófico naufrágio de seu Trovador, episódio posteriormente narrado na primeira página do Jornal do Commércio de 2 de março do mesmo ano.

  Após sucessivas adversidades, Antônio José Duarte de Souza anunciou no Jornal do Commércio, de 17 de dezembro de 1870, que reabrira seu estabelecimento para receber cargas, declarando esperar a coadjuvação de seus amigos e fregueses das províncias de São Paulo e Minas Gerais, marcando assim a retomada formal das atividades comerciais após o naufrágio do Trovador. Nessa nova fase de sua firma, Duarte, tendo como sócio seu segundo filho, José Bernardo, adquiriu um novo vapor com o apoio de Miranda Monteiro & C., que detinha porcentagem da embarcação. A aquisição do vapor Emiliana, de 120 toneladas, ampliava a capacidade de transporte em relação à embarcação perdida e demonstrava não apenas a recomposição de seus meios materiais, mas também firme disposição de reconstruir e reinvestir no tráfego costeiro que integrava o circuito cafeeiro responsável por ligar o Vale do Paraíba e o sul de Minas à praça comercial do Rio de Janeiro. A viagem inaugural do vapor, com partida da cidade do Rio de Janeiro, ocorreu três dias mais tarde, na manhã de domingo, 9 de julho, às sete horas, conforme anúncio publicado no Jornal do Commércio de 8 de julho de 1871. Nessa nova fase, ingressou também seu genro Alfredo Augusto da Silveira, agora sob a firma Duarte, Filho & Genro. Mais adiante houve a aquisição do vapor Pirahy, em 1878.

   

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O ESPÍRITO DA ESPERANÇA

 

Entre nuvens - Arquivo Mingo

    Estou na leitura do livro O espírito da esperança: contra a sociedade do medo, do filósofo Byung-Chul Han. Nele vai se afirmando que "apenas a esperança nos permite recuperar a vida que é mais que sobrevivência".  Então me localizei no texto e no contexto atual a alimentar uma onda reacionária que eu, caiçara, adepto da ética comunitária, nunca imaginaria uns anos antes. O autor é eficiente em sua análise. Assim, não tem como não transcrever o seguinte:

   O clima generalizado de medo sufoca qualquer broto de esperança. Com o medo se instala uma atmosfera depressiva. O medo e o ressentimento lançam as pessoas nos braços dos populistas de direita, que atiçam o ódio. Solidariedade, amistosidade e empatia se deterioram. O medo e o ressentimento causam o embrutecimento da sociedade como um todo. Isso, em última instância, ameaça a democracia.  

     Medo e democracia são incompatíveis. A democracia prospera apenas numa atmosfera de reconciliação e diálogo. Aquele que dogmatiza suas opiniões e não escuta os outros não é cidadão. O medo é um popular meio de dominação, pois torna as pessoas obedientes e suscetíveis à chantagem.

    Qual medo está na moda em nossa cidade? Tenho ouvido de muita gente sobre o medo dos sofredores de rua, dos que mendigam a sobrevivência. "Vi na internet isso", "Minha amiga me enviou tal situação" etc. O marginalizado, fruto de uma sociedade que jamais repartiu é o culpado? Por que esse medo não se volta contra os opressores, os que desejam seguir sugando vidas, vivendo do suor da classe trabalhadora? Por que não desbancamos de seus tronos aqueles que pretendem seguir produzindo essa massa de desvalidos? 

   Escolher os mais fracos como culpados é uma estratégia reacionária, da direita política! E o que dizer dos pobres que abraçam isto?

  

Instagram  iohana.estudantepsi

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

RAIZ DE NAVEGANTE (I)


Navegar é preciso - Arquivo JRS 


  Conforme eu anunciei há dias, Steve Duarte, descendente de gente ligada à navegação em outros tempos, me enviou detalhes de seu antepassado e de seus negócios. Adorei o material e repasso agora, por partes, aos público leitor do blog. Gratidão ao Steve pela valiosa contribuição! Seguimos - eu, ele e tanta gente colaboradora - à disposição para dar a conhecer a nossa história, as coisas de caiçara.


    Antônio José Duarte de Souza nasceu em 1819, na freguesia de São João Batista de Ponte da Barca, Viana do Castelo, Portugal. Em 19 de agosto de 1835, aos 16 anos de idade, obteve seu passaporte para deixar o Reino de Portugal com destino ao Brasil. Partiu da cidade do Porto a bordo da barca Amélia, chegando ao Rio de Janeiro em 1836. Algum tempo depois, estabeleceu-se na vila de Ubatuba, onde iniciou sua trajetória no Brasil como caixeiro do tenente-coronel Antônio José da Graça.

    Em 26 de agosto de 1840, na Matriz de Ubatuba, casou-se com Maria Gonçalves do Nascimento, prima de seu primeiro patrão e filha do então sargento-mor João Gonçalves Pereira e de D.Francisca Soares de Novais. O matrimônio inseriu Antônio José Duarte de Souza em uma rede de relações familiares que reunia alguns dos principais agentes do comércio e da navegação na vila.

    Tanto seu sogro quanto seu primeiro patrão estavam ligados ao tráfego costeiro e ao transporte de gêneros entre Ubatuba e Rio de Janeiro, Santos e outros portos intermediários. Naquele período, essas atividades eram realizadas predominantemente por embarcações à vela, entre as quais se encontravam as sumacas Doris, de 37 toneladas, e Flor de Ubatuba, de 41 toneladas, e as lanchas Santo Antônio Brasileiro, de 20 toneladas, Maria Thereza, de 24 toneladas, Aurora, de 28 toneladas, e Flor da Graça, de 27 toneladas.

    Foi nesse contexto de expansão das atividades comerciais e de crescente integração de Ubatuba às rotas de cabotagem que, em 10 de julho de 1851, Antônio José Duarte de Souza formalizou uma sociedade comercial com seu sogro, sob a firma Pereira & Duarte. Estabelecidos com casa comissária e armazém para recebimento de cargas, os sócios dedicavam-se ao transporte e à intermediação do café e de outros gêneros, cuja produção, proveniente de Minas Gerais e do Vale do Paraíba, era escoada pelo porto de Ubatuba com destino ao Rio de Janeiro. A frota era composta de ao menos, pelo vapor Duarte I, de 90 toneladas, com tripulação de 15 homens, e pelo patacho Hortense, de 102 toneladas, com 8 tripulantes.

    No Correio Mercantil de 23 de março de 1859, há um anúncio que, ao que tudo indica, comunicava o início das atividades do vapor Duarte I:

Anúncio - Arquivo Steve


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

ESTÁGIO TERMINAL

 



Destino - Arquivo JRS 

Passando a boiada - Arquivo internet 


   Poucos dias depois de eu comentar neste blog sobre a vergonha de um lugar denominado terminal rodoviário, no centro da nossa cidade (Ubatuba), mais uma ação deu uma piorada, fez um retoque: a única árvore que refrescava o local foi derrubada. Só mais uma prova de que tem gente partidária daquele pilantra que deu a ordem de "passar a boiada". 
     Naquele dia chuvoso, vendo as condições péssimas dos trabalhadores da empresa de ônibus, com água em suas dependências e goteiras por todo lado, sem banheiro aos usuários etc., constatei uma ruína em cidade turística, um local a ser evitado. Discordo daqueles que desmerecem os pobres do município e possíveis turistas que muitas vezes encontrei usando os mesmos  ônibus que nos socorrem. Quero lembrar que essa turma toda (Executivo, Legislativo e Judiciário) existe graças à contribuição da classe trabalhadora. Porém, esta fica no final das prioridades. Pior: tem pobre conformado com as injustiças e tem muitos dos nossos aliados aos praticantes descarados de toda forma de maldade. E seguirão votando neles!

Em tempo: avistei naquele horrível ambiente, dentre vários sofredores de rua, dois caiçaras. Um deles me chamou, mostrou o visor de um veículo e disse: "Tá errado. Não é Seis Marias. É Sesmarias e significa um sítio distante, um pedaço de terra". Foi aí que eu fotografei.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

QUE BOA SURPRESA!

 

Canoa caiçara - Arte do mano Guinho

     Sempre eu estou lendo os comentários de leitores do blog. É grande a satisfação em recebê-los. É muito bom porque sei que são verdadeiros e trazem contribuições valiosas, me edificam. Agora mesmo estou debruçado sobre um relativo à embarcação "Emiliana". (A postagem, a crônica feita há pouco tempo tem este título. Pode buscar aí). Atenção ao que escreveu o leitor Steve Duarte:

  

      Olá, tanto o vapor Emiliana quanto o Duarte I e, posteriormente,  o Pirahy, pertenceram às casas comerciais do meu tretavô, o português Antônio José Duarte de Souza. Ele também já foi proprietário do vapor Trovador. Tenho inclusive a escritura de compra desse vapor, que foi vendido ao meu tretavô em 18 de maio de 1864 na cidade do Rio de Janeiro pelo Barão de Mauá, o antigo proprietário. Possuo também diversos recortes de jornal sobre os navios que ele possuia e as atividades da firma no comércio de cabotagem de Ubatuba. Posso te enviar caso tenha interesse. Tenho inclusive uma suposição quanto à possível origem do nome da embarcação Emiliana.


     O que você acha que devo responder ao Steve?


terça-feira, 25 de agosto de 2026

CULTURA POPULAR TEM LADO

 

Mural em Caraguatatuba - Arquivo JRS 

     Uma colega de infância me perguntou de que lado eu estava, em quem votaria nas próximas eleições. Eu lhe disse que, desde 1982, só voto em quem concorre pela esquerda. Ela se indignou.

   Mediante os absurdos que já presenciei, sobretudo nos últimos tempos, não me arrependo de estar com gente que defende pautas favoráveis à vida (que preservam nossos direitos, investem na educação e saúde, promovem a cultura popular e a conservação de um meio ambiente saudável).  Deixo o outro viés (reacionário, maldoso e repleto de idiotices) aos gananciosos, que desejam golpear a democracia, a classe trabalhadora e a soberania. Por conta disso, das mentiras propagadas no intuito de aliciar os pobres, os sofrimentos aumentam. Por isto tudo eu sigo escrevendo e ciente de que estou do lado melhor. Cultura popular tem lado! Alguém dúvida?

     Primeiramente eu quero registrar muitas das coisas que são da tradição oral caiçara. Se hoje podemos saber das imemoriais lendas, de causos e histórias (geral ou particular) é porque alguém decidiu escrever, registrou imagens e sons; nos retransmitiu representações e outras formas lúdicas que servem à conscientização. E, com certeza, há um oceano infinito de histórias não escritas nos desafiando à navegação. Neste momento estou pensando na Harumi Honda que resgatou boa parte do legado de seu pai e produziu um pequeno acervo para o deleite do público. (Está, no momento, à disposição de visitantes no Teatro Municipal de Ubatuba). Eu, na minha modesta canoa, sigo dando remadas. A tecnologia evoluída desde as plaquinhas de barro dos assírios até o computador atual me auxiliam neste desejo de contribuição às nossas raízes caiçaras. Dito isto, como apoiar políticos que são autores de projetos para fechar praias e caminhos de servidão? Como desejar que mangues sejam destruídos por leis reacionárias? Como aplaudir quem está contra a natureza e os direitos básicos? Quem já se esqueceu de nossos sítios arqueológicos sendo enterrados e dando lugar aos loteamentos e condomínios fechados? 

  O que fazer? Votar em representantes políticos das causas que incluam os marginalizados pelo sistema reinante há muito tempo! 

     Eu sigo no sonho da minha infância de transformar dor em flor. À referida colega do início do texto, que se acomodou pensando ser da elite, só uma recomendação: procure um psiquiatra, leia mais para que seus olhos vejam com amor a beleza da nossa diversidade brasileira e volte a ser do lado das causas humanitárias.


segunda-feira, 24 de agosto de 2026

ONDAS NA HISTÓRIA

 

Ilhote chuviscado - Arquivo JRS 

    Quando viajamos, o baú, com tudo o que está lá dentro, vai junto. Quem disse isso foi Rubem Alves. Foi assim num dia chuvoso, quando precisei ir até a cidade vizinha de Caraguatatuba.

     Juba foi o primeiro caiçara que avistei. Estava triste, pois seu filho faleceu há duas semanas. O meu consolo foi apenas escutar o momento penoso, desejar a ele e Cláudia muita força para romper as ondas das lembranças carregadas de saudades.

     Estando na estrada, pelo vidro chuviscado, fui contemplado os lugares, as praias... Pessoas vieram à mente: desde colegas do tempo escolar até parentes que já se foram, mas seguem vivos na memória. Tio Francolino acenou na Praia Dura, Aquelau, Rui, tio Chico, Tidinho, Ninico, comadre Vitória, tia Balbina, meus avós e muitos outros se fizeram presentes entre a Lagoinha e Maranduba.

     Aquelau, anos atrás, sempre se deparava comigo dando cabeçadas, cochilando no ônibus entre o Sapê e Massaguaçu. Numa dessas viagens ele me presenteou com um frasco contendo sementes de especula. Quem dos dias atuais conhece especula? Seu mano Rui, falecido há mais tempo, era mudo. Só que eu entendia bem suas "falas". Interessante, né? Ele, com o costume de andar por todo lado e sempre se postar no banco da parada de  ônibus, quando me avistava queria me contar, por meio de tantos gestos e sinais, as novidades, as coisas que ele viu nos arredores. Antunes falou num certo dia isto: "O Rui da tia Santa é o maior fofoqueiro que eu já conheci". (Poderia de ser mesmo, mas competia com o Antunes!).

       Nessas ondas da história, onde tanta gente  vai nos deixando na embarcação, eu desejo muita força aos tios, primos e demais parentes.