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| Capa de livro - Arquivo JRS |
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| Capa de livro - Arquivo JRS |
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| Saco das Bananas - Arquivo JRS |
Depois de um dia de muita correria, com a minha querida filha hospitalizada devido a um tombo na rua, me detive na imagem acima que tem mais de três décadas. Na ocasião, eu me encontrava na praia do Saco das Bananas, era hóspede do saudoso casal Dito Madalena e Constantina. No mar estavam as embarcações usadas nas pescarias e no transportes em geral (banana, farinha, materiais de construção, turistas etc.). Um pouco mais longe eu divisava a praia do Simão, também conhecida como Brava do Frade. Nesse tempo já nenhum caiçara habitava a paisagem do Simão, apenas vestígios ficaram como restos de histórias. João Araújo, os irmãos Quintino e Luiz Januário se foram por últimos. Os descendentes dos Garcêz e da Maria Jacinta saíram mundo afora entre os primeiros. No Saco das Bananas até a escola deixara de ter quem ensinasse as primeiras letras. As poucas crianças agora precisavam andar longa distância num péssimo caminho até a praia da Caçandoca para receberem a instrução básica. Gregório Crispim levou toda família para habitar longe de sua origem, à margem do rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba. Teófilo e Palmira eram falecidos. Só a lembrança da acolhedora casinha deles entre bananeiras me deixava saudoso.
No dia distante dessa imagem, sem nenhuma companhia, fui até o Morro do Inhame para contemplar pela última vez os sinais, entre matos, de uma sala de aula, mas que também servia a outros eventos para a vizinhança (missa, bate-pé, reunião...). Uma carteira escolar, daquelas de dois lugares, ficara no capinzal como testemunha. Raras fotografias de uma comunidade que existia ali, preservadas por gente querida, me emocionarão pelo resto da vida.
Pois é! A experiência de cada pessoa é única! Tia Livina costumava repetir esta máxima: "Quem viveu viveu. Quem não viveu ouvirá contar".
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| Nossa turma - 1971 - Perequê-mirim - Arquivo Valda |
O ano era de 1972, eu estudava na
terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do
Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com
mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se
encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira
nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano
escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo
substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como
quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o
curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.
No ano de 1972 o país estava sob o
regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas
tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram
abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da
área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração
aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo
se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de
partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz
Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade
(onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem
cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento.
Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em
cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção
em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas
nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do
Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.
Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974,
quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava
postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava
Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação
estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem
verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou
morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo
aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.
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| Isaías Mendes, Jairo e João de Souza - Museu Caiçara - Arquivo Inês |
| Embarreamento do Rancho Caiçara - Arquivo JRS |
A minha
família morava na praia do Perequê-mirim, na década de 1970. Eu era criança de
tudo, estava no primeiro ano primário, aluno da professora Olga Ribas, quando ouvi uma
prosa bem interessante em torno de telhados. Os dois, Dico Barreto e Nequinho
Valentim, citavam algum conhecimento a respeito de telhas: para um deles a melhor
telha era a plana, a famosa telha francesa (fabricada no Vale do Paraíba, na
cidade de São José dos Campos, por Paulo Becker, um alemão naturalizado
brasileiro. Diziam os mais velhos que ele veio para o Brasil a fim de se curar
de um reumatismo. Não me perguntem como antigos caiçaras sabiam disso. Bem mais
tarde, um de seus descendentes veio a ser presidente da Fundação de Arte e
Cultura, em Ubatuba), já na opinião do Dico, as telhas mais antigas eram as
preferidas porque não necessitava de um enripamento rigoroso, pois elas não
tinham garras, bastava ir espalhando sem deixar brechas, ajeitando o
alinhamento só no beiral. “Tem também as telhas francesas que vêm de
Caçapava, dos irmãos Quirino. São boas também”, completou o Nequinho. E por
aí seguiu a prosa. Faz tempo que ambos, caiçaras estimados, são falecidos.
Hoje, recordando
dessa prosa ocorrida há mais de cinquenta anos, lembrei-me da tia Maria
Mesquita, do tio Genésio, quando contou do maior sonho de quem queria se casar:
ter uma canoa e uma casa de telha. Por quê? Porque a canoa, além de essencial
na atividade pesqueira dos caiçaras, também era um meio de transporte muito
necessário num tempo em que havia poucas estradas e quase nada de automóveis.
Já a telha, era a garantia de uma moradia mais segura. Antes os pobres usavam
apenas sapê como cobertura de suas
casas. Caso você encontre alguma fotografia aérea daquele tempo, até depois da metade
do século XX, será possível divisar um quadrado marrom bem discreto rodeado de
um terreiro. Era casa caiçara, com cobertura de sapê que durava no máximo
quatorze anos se fosse bem feita, com palhas bem escolhidas e amarradas em
madeiras devidamente selecionadas para resistir aos ventos e às chuvas tão
abundantes nas décadas passadas. A técnica básica da construção caiçara era pau a
pique e sapê, nossa herança tupinambá. Os moradores da praia da Fortaleza e
adjacências, de acordo com o finado tio Salvador, iam até o mangue da Praia
Dura para buscar as varas por serem mais resistentes. Outro recurso valioso
eram as ripas de jiçara. Imbé e timbopeva eram os cipós mais usados. “Hoje
os tempos são outros, tá tudo mais fácil”, dizem os bem vividos da nossa
terra. É mesmo!
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| Flores no quintal - Arquivo JRS |
Muitos dos brasileiros se vestem de verde e amarelo para se identificarem como
patriotas. Mas o que ser patriota? Ser patriota é defender a Pátria, o país que o acolheu. Ser patriota
é, sobretudo, identificar os inimigos internos, na “roupagem de patriotas”.
Inimigos
internos são, principalmente, os que elaboram e aprovam leis contrárias à
Pátria: facilitam que empresas estrangeiras se apossem dos nossos bens, destroem as leis
trabalhistas que garantem um mínimo de dignidade ao nosso povo, garantem mais
exploração àqueles que já vivem às custas do suor alheio, criam mentiras para
sustentar o domínio sobre a classe mais sofrida, defendem jogos viciantes, privatizam
serviços essenciais (água, luz, saúde, educação...), acabam com leis de
proteção ao meio ambiente, corrompem o poder judiciário, se apoderam de espaços
públicos (praias, praças, matas etc.), promovem ideias alienantes, alimentam paraísos fiscais, combatem
políticas de inclusão e justiça social, perseguem
as minorias sociais, elevam os desonestos, criminalizam ainda mais as periferias via polícia mal
preparada, milícia, organização criminosa
e mais outras coisas terríveis.
Os principais
inimigos internos têm muitos aliados entre os pobres! Fico triste em ver tanta
gente nossa ser envolvida numa onda perversa. Sob a designação de patriotas se situam muitos ingênuos úteis, mas também uma boa parcela maldosa. Quem reflete, percebe que esses “patriotas” precisam existir para serem usados por poucos
privilegiados? São esses “patriotas” que sustentam as ideias contrárias à
Pátria. Esse rebanho (iludido ou com más intenções) está contra a Pátria
Brasileira, mas veste verde e amarelo!
Foi no
desfecho da independência do nosso país que essas cores se tornaram marcas da
nação. De acordo com o historiador Paulo Rezzutti, no livro D.Leopoldina,
essas cores representariam as duas linhagens monárquicas: a portuguesa (D.
Pedro I) e a austríaca (D. Leopoldina). Foi no ato da coroação do primeiro imperador do Brasil que “se juntaria ao
verde heráldico dos Braganças o amarelo
dos Habsburgos, que ainda fazem parte das cores nacionais brasileiras. Foram
oficializadas em 18 de setembro de 1822”. Portanto, o simbolismo
verde-amarelo se sustenta em duas dinastias estrangeiras que se uniram em prol
de uma única possibilidade: tornar o BRASIL uma NAÇÃO.
Ainda segundo o citado pesquisador, o primeiro espetáculo nas cores verde e amarelo foi por ocasião da coroação de D. Pedro, onde “as mulheres vestidas de verde e amarelo jogavam de suas varandas flores à passagem dos novos soberanos”. Poético, né? Nada a ver com orações a pneu, sinais para alienígenas, marchas com políticos nada éticos, acampamentos estranhos e outras bizarras manifestações. Nada a ver com pregações religiosas que apoiam injustiças!
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| Canoa e canoeiros - Travessia Ubatuba-Santos - Arquivo internet |
Francisco Lopes é meu primo e compadre. Se aposentou como carpinteiro.
Sempre gostou muito de escutar histórias e também de contá-las. Ah! Foi aluno
do professor Joaquim Lauro, na escola do Itaguá.
Joaquim
Lauro, natural da cidade de Lorena, assim que se formou conseguiu emprego em Ubatuba.
Era metade do século XX, tempo de raros professores nativos da beira do mar.
Por isso esse mestre veio exercer a profissão e fixou moradia em chão caiçara.
Sua casa sempre foi ali, na entrada da praia do Tenório, próximo do rio Acaraú.
No portão havia uma placa: “Consulado de Lorena”. Os antigos alunos diziam que
ele era rigoroso, bravo, sempre disposto a dar um corretivo imediatamente.
Esse senhor que escolheu viver em Ubatuba pelo resto da vida é sempre lembrado por
incentivar as corridas de canoas caiçaras, cujo grande momento foi a longa
travessia Ubatuba a Santos, em 1973, para comemorar um fato histórico ocorrido
em 1563, no território Tupinambá: a contraditória “Paz de Iperoig”. Cinco remadores (Artur
Alexandrino, Carrinho, Jango, Barrosinho e Nilo Vieira) conduziram a canoa
Maria Comprida por mais de 200 quilômetros na linda costa atlântica. O ponto de
partida foi defronte a capela Nossa Senhora das Dores, no Itaguá. Depois disso
muitas outras provas aconteceram e muita gente se destacou nas remadas. Hoje
vamos conhecer, via Chico Lopes, um fato que se deu numa dessas ocasiões festivas do povo caiçara.
Era tempo de regata de canoas no Itaguá.
Importantes prêmios seriam distribuídos aos melhores classificados. Joaquim
Lauro era exigente, meticuloso nos detalhes e nas regras. Todas as embarcações
precisavam ter nomes bem legíveis. Martiniano, um dos competidores, sendo
analfabeto de tudo, recorreu ao Chico Preto, filho do Velho Rita, para marcar a
sua canoa emborcada logo ali. Assim ficou bem legível na proa: AURORA. Se aproximando o momento da prova, com algumas
canoas ainda sendo desviradas e puxadas do jundu, o professor Joaquim Lauro saiu conferindo
tudo. Ao chegar junto do Martiniano, perguntou:
- Qual o nome da sua canoa?
A resposta imediata foi:
- AURORA, o senhor não sabe ler?
Você
consegue imaginar a estrondosa gargalhada de quem estava por perto?
Explicação do mano Mingo: o nome da canoa foi escrito pelo Chico Preto quando ela estava emborcada. Ao ser desvirada, o nome AURORA ficou de ponta cabeça, difícil de decifrar. As risadas se deram porque era um analfabeto interpelando um professor.
| TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS |
O
veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do
mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da
rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa.
Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse
pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para
produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo
retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes.
Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira
da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu
amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores
resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém
espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil
acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros
parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles.
Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de
mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem
gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.
Enquanto
o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando
as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda,
Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:
Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador
batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore,
nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma
embarcação é torná-la viva.
Pois é! Assim, tal como a viração de
fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em
nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.