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| Maré baixa - Arquivo Santiago |
Ao
compartilhar o texto COITADO DO BAGANA com o estimado Santiago, o escritor do Cambury, recebi a seguinte contribuição ao meu ser:
Quantos
caiçaras perderam seu caminho do mar para o caminho das ruas... Uma vez, estava
na casa que minha companheira morava, no Itaguá, escrevendo um trecho do
COIVARA [livro recente], uma parte que falava sobre caça. Tocaram a campainha
interrompendo o trabalho, mas eu parei e fui atender. Era um jovem com uma
pequena mochila. Contou que tinha sido destratado pouco antes ao contar sua
história e pedir algum dinheiro em troca de limpar o mato.
A
história: ele tinha acabado de ser solto da cadeia e estava voltando pra casa,
no Sertão do Ubatumirim. Caiçara. Contou que tinha sido preso por caça. Na
verdade nem foi pego com caça, mas com arma sem porte. Levaram. Falou vários
nomes do Ubatumirim, contou que o avô morreu na praia do Itaguá. Infarto. Ele
queria cinco reais pra pegar o ônibus e voltar. Enxotaram ele. Ele nem
precisava contar a verdade, mas fluía naturalmente no jeito caiçara de contar
as coisas, com sinceridade e até uma inocência. Sorria. Eu não lembro o nome
dele. Dei um café com biscoito, era o que tinha, mas ele nem pediu comida. Só o
dinheiro da passagem em troca do servicinho de limpar o mato da calçada. Depois
foi embora sorrindo. Eu fiquei pensativo. Estava escrevendo justamente sobre
caça, um pequeno trecho. Ele ficou um ano e pouco preso. Só queria voltar pro
seu lugar. Turistas o destrataram, xingaram. Ele não ligou. Saiu andando. Até
hoje penso sobre esse dia, esse momento. Sua crônica me fez lembrar desse dia.
Ele poderia ter se tornado outra coisa na cadeia por uma imposição violenta do
sistema que massacra culturas e relega às margens de seu próprio território.
Mas ele só queria voltar para casa... E mesmo sua casa já não era mais a mesma,
sofrendo essas agruras da desterritoriolização e invasão do capital
imobiliário.
Gratidão, Santi!






