quinta-feira, 4 de junho de 2026

A BANALIDADE DO MAL

 


Desarranjos - Arquivo JRS 



      Eis o título de um livro da filósofa Hannah Arendt definido após assistir ao julgamento de um nazista, em Israel, no século passado. Deste conceito (banalidade do mal) nasceu a afirmação de que o mal não surge apenas em gênios ruins, mas também em pessoas simples que optaram por não pensar, não refletir. Deste modo vão cumprindo e/ou desenvolvendo as piores maldades que estão sendo regadas em suas consciências.

    Agora, assistindo o vídeo de um candidato à presidência do nosso país, brindando com um copo de leite junto a corregionários, me pergunto: seus admiradores, eleitores, sabem que isto (de fazer brinde com leite) é um gesto racista dos nazistas amplamente divulgado pelos adeptos da seita Klu Klux Klan? Preocupado com isso, com gente que eu estimo, recorro a uma frase luminosa do cientista político Jessé Souza: 

   "O racismo geralmente se apresenta de forma explícita. Muitas vezes ele opera por símbolos, códigos e mensagens que parecem inofensivas para uns, mas são perfeitamente compreendidas por quem compartilha determinada visão de mundo".  Concluo agora: assim, sobretudo entre os mais oprimidos, a real ameaça neonazi avança, vence por falta de inteligência e ausência de caráter. Eis a estratégia para se manifestar e atualizar a banalidade do mal. Depois disto, apedrejamento de empobrecidos será "a regra mais suave".

    Acordemos! É a alma da nação que está em jogo!


quarta-feira, 3 de junho de 2026

TODO MUNDO DANÇAVA

 

Milho aos pombos - Arquivo JRS 

     Os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas etc.) e a religião muito influenciaram o fazer cultural no chão caiçara. Em qualquer lugar, né? Senti isso na minha infância quando alguns colegas não se divertiam no carnaval, não assistiam shows e estavam sendo direcionados à  cantoria apenas de hinos religiosos. Chegou a juventude e eu passei a encarar isso com mais seriedade. Gente nossa falava mal dos bailinhos que aconteciam nos fins de tarde, aos domingos, criticava os bate-pés e se julgava melhor que os demais caiçaras. O ápice disso tudo foi quando, em 1992, em entrevista ao Zé Pedro, mestre cirandeiro na Fazenda da Caixa, lhe perguntei a razão da dança da ciranda ter se acabado na Vila da Picinguaba. Está foi a sua resposta: 

     - Veja bem, antes só tinha a capela católica, todo mundo dançava. Depois foram chegando outras igrejas diferentes, dessas protestantes que diziam que era pecado dançar, que era coisa do capeta e mais coisas piores. Você imagina o estrago que fizeram essas igrejas repetindo a mesma coisa, que era coisa ruim, que Deus não queria isso, não aprovava aquilo? Com todas elas pregando que tudo era pecado, não demorou nada para a ciranda e mais outras manifestações do lugar desaparecerem, só ficarem em nossas lembranças. Tenho pena da criançada nova que não sabe de nada que tinha antes e de como a gente se divertia.

    Pois é! Na comunidade da Enseada, diziam os mais antigos, dois espaços de função ficaram marcantes em meados do século passado: a casa dos Góis e a casa do João Emboaba. Este, até quando a saúde permitiu, acolhia a todos que desejavam dançar, se divertir. Já o casal Góis, que vivia promovendo animados bate-pés em casa, se apagou após a conversão à Congregação Cristã.

     Meu pai também contava de um músico, antes católico, mas que "mudou da água para o vinho" ao passar seguir outra, a Quadrangular. Lá o missionário baixou a proibição de qualquer prática musical que não fosse dedicada aos hinos da igreja. Na verdade, estava incutindo a ideia de que a música, da cultura da terra, estava ligada ao pecado, era sensual.

     Outro fato bem marcante para mim foi quando Roberto, mestre de capoeira, se tornou evangélico e repudiou todo seu talento na musicalidade e no gingado. Dele eu herdei o atabaque com o qual fazíamos a puxada de rede e o maculelê.

      Evoluímos ou nos afogamos na miséria cultural, no analfabetismo político? E, no fim, "todo mundo dança."


          "Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos."


Em tempo: hoje sabemos qual país continua respaldando logística e financeiramente essa maré reacionária neopentecostal. 


terça-feira, 2 de junho de 2026

RAÍZES SERRA'CIMA(II)

 

Retalho preto - Arquivo JRS 

    Todo as pessoas citadas na primeira parte do presente título eram negros e negras, exceto o Dito Olho Azul e a vó Martinha. Sim, caiçaras de Ubatuba! No entanto, os traços culturais (danças, expressões, cantos, instrumentos, religiosidade...) dos afrodescendentes já estavam se apagando em Ubatubano século XX. Por quê

    Uma teoria é que, com a decadência cafeeira em Ubatuba, o grande maioria da população escravizada foi levada para o Vale do Paraíba e outras regiões, deixando a quase  totalidade das fazendas da zona costeira em situação de abandono. A crise, inevitavelmente, deslocou a maioria desses trabalhadores. É claro que foi junto uma grande bagagem cultural desse povo! Vamos lembrar que, em 1830, constituia-se os negros em 56%  da população nesse município litorâneo. Portanto, o que nos foi possível de alcançar até a década de 1970 (jongo, moçambique, congada, marimba etc.), era fôlego da incrível resistência. É  indiscutível este fato: menos negros e seus descendentes na faixa litorânea resultou em menos traços culturais deles neste espaço. Mariano, o velho, fundador da capela São Benedito, no bairro da Estufa, dizia que "tudo foi se perdendo quando o nosso povo foi levado daqui para sofrer em outras terras".

     Na prainha Deserta habitava o avô do Zé Teotônio, um antigo caiçara e solista de jongo. Eis uma lembrança dele (sempre ao compasso de palmas):


Rola o capurubu,

Chora eu, chora minha gente.

Segura pelo imbé;

Chora eu, choram vocês.

Segura pelo imbé.

Quem veio faz muita força;

Quem não veio é porque não quis.

Rola o capurubu, segura pelo imbé.

De onda em onda um dia vai rolar

Um cabo de cá e outro de lá.

E vamos descarregar.

Rola o capurubu, rola, rola, rolá.

Vai rolar na areia, minha gente.

Só não escuto gente de lá,

Minha gente, saravá.

sábado, 30 de maio de 2026

RAÍZES SERRA'CIMA

 

Mestre Neco - Arquivo JRS 

     Tudo em Ubatuba

  Nas décadas de 1960-1970, no bairro da Estufa, era forte o grupo de dança de moçambique. Também na Caçandoca havia muita gente empenhada nesta dança e no jongo. Quem me informou a esse respeito foi vovó Martinha, natural da praia do Pulso. Suas irmãs já moravam na Estufa já muito tempo.

    Benedito Correia Leite, o Dito Olho Azul, demostrou, numa ocasião, saber cantar pontos de jongo. Dizia que desde criança, no Ubatumirim, esse traço cultural era muito praticado. Ele era violeiro. Seu avô foi seu mestre. Estas informações foi que ouvi dele, em 1980.

    Modesto, morador dos arrebaldes da cidade, hoje zona central, era mestre de congada na minha adolescência. No bairro do Taquaral, esses mesmos aspectos culturais se perpetuavam, principalmente na residência da dona Maria Charleaux, a popular Maria Xana. Tal como Maria Vitória Jean, ela era mestiça de africano com francês.

    Bito Cristóvão dizia que era comum, na sua meninice no Morro da Berta, sempre ter pontos de jongo nos pitirões de roçados, em descidas de canoas de morros e em outras ocasiões. "Era um trabalho festivo, cheio de cantorias e bailados".

MÚSICA É VIDA

 

A rabeca do tio Dário - Arquivo JRS 

      

Aniversário em cantoria - Arquivo Thales

   

Fandangando - Arquivo Fundart

  Eu estava em casa, sossegado, passeando nas imagens de gente que eu gosto. De repente me deparo com uma postagem do Thales, da sua mãe, a Regina, filha nativa da praia da Fortaleza, prima da minha mãe. Seus pais, Nicomedes e Maria Tereza eram vizinhos do nhonhô Armiro e da tia Maria da Barra, moravam no lindo jundu de abricoeiros e amendoeiras, bem na metade da praia, perto da barrinha. Voltando à imagem: era um ambiente gostoso e Regina cantava. Certamente estava feliz junto de pessoas estimadas. Parabéns, Thales, pelo emocionante registro!

      Não sou músico, mas não consigo lavar uma louça sem escutar prazerosas canções, sobretudo MPB. Também não perco nenhuma oportunidade para prestigiar os cantadores e tocadores caiçaras.

      Imagino que esse viés da minha gente implique bons momentos de ensaios e confraternização entre si. É onde se intensifica a socialização e a solidariedade sustentada na paixão comum pela musicalidade, pela perpetuação dos nossos traços culturais. 

       Tenho comigo que, nesses momentos, entra em combinação muitas coisas. Exemplos: repertório tradicional, músicas novas, afinação de instrumentos, entrada de vozes, trajes de apresentação, roteiro de eventos, meios de transportes etc.

       Nesses momentos, que quero chamar de encontros musicais, tenho certeza que o mais importante é o fortalecimento das manifestações culturais dessa caiçarada querida.

     Ah! Enquanto a Regina canta, Nádia, a mana desta, segue firme nos fandangos. Que legal, né? Viva a música! Viva essa minha gente festiva!

sexta-feira, 29 de maio de 2026

UMA SÓ CONSCIÊNCIA

  

Shiva, a gatinha - Arquivo JRS 

      Há uma consciência muito maior do que a de cada um. Nela estamos nós e tudo que existe. Creio que é esta que denominam de consciência cósmica (que é a mesma nossa!). Sem dúvida alguma que a imensidão do espaço afeta a todos, mas também é atingida por mim, pela minha percepção.

     Tudo o que vemos, ouvimos falar, sentimos, nos apegamos etc., nos modificam. Energias chegam até nós, mas também partem de nós. Tomarei o seguinte exemplo: ao escrever uma crônica, em torno de determinado tema que mexeu comigo, na verdade estou demonstrando que ele segue me modificando. Um caso: dias atrás repassei para muita gente uma face marcante de uma determinada fase histórica do Brasil, vivida por mim na pequena escola mista do Perequê-mirim, em Ubatuba, um lugar desconhecido por muitos leitores do blog. No entanto, já disse que se trata de uma praia onde vivi grande parte da infância. Muita gente sabe o que é uma praia. Por outro lado, a minha experiência estabeleceu explicitamente uma conexão, pois a Mirtes (Harumi) foi afetada. E me afetou com seu texto e a contagiante alegria da irmandade em uma fotografia. Então aconteceu algo maior: parte dessa ampla consciência se faz presente por uma terceira pessoa. E, por intermédio da estimada filha do Sr. Honda e da Dona  Hamako, eis a sequência:


      Não consegui logar para comentar, mas adorei tua história! Também morei em Taubaté, quando criança. Estudei no colégio Olegário de Barros e tive a mesma impressão do prédio, dos corredores, das portas e janelas enormes. E de uma professora que era assim, tirana...

     Que lindeza de relato! A foto está maravilhosa! Ninguém respondeu o que era República durante a ditadura e ainda te colocou de castigo.


     Fechando, por enquanto, o assunto, uma atitude decorrente dessas interações diversas:

     Passei para frente, para os formadores de professores.

Em tempo: a fotografia das três crianças é mesmo demais! Sem dúvida que seus sorrisos estão em Renópolis, na Mantiqueira, deslumbradas com um mundo sendo de todos.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

VIRA, MAR VIRADO

 

Chegada na praia - Arquivo JRS 

    Fato desses dias: pescador da Maranduba, estando arrastando camarão por fora da ilha do Mar Virado, encontra mulher que estava desaparecida há quase dois dias. Ela e um companheiro saíram da Ilhabela numa motonáutica e não retornaram, nem deram notícias. Somente ela estava flutuando, graças ao colete salva-vidas, na imensidão do mar. Foi salva, mas o parceiro continua desaparecido. Ainda bem que um experiente caiçara estava buscando seu sustento por ali!


     "Com o mar não se brinca", repetiam os caiçaras mais velhos. 


     Numa ocasião, lá de longe, na costeira, eu e Fatinha olhávamos o movimento na praia. Mais algumas pessoas conhecidas estavam por ali, no nosso entorno, mas foram se dispersando ao notarem o tempo mudando. Nisso, uma lancha, dessas razoavelmente equipadas, surgiu na linha do jundu. Ela estava sendo empurrada por dois homens. Um deles era o Zé Roberto. Deduzi o óbvio: o meu amigo estaria indo à pesca. Afinal, ele se realiza quando está em pescaria no largo. De repente, do nada, o mar ficou enfurecido, com ondas imensas. Os dois companheiros já estavam embarcados, mas não conseguiam ultrapassar a zona de rebentação. 

      Eu me assustei quando vi uma onda maior, correndo de sul, ir carregando a lancha barra adentro. Ainda bem! Sem querer,  eles foram parar num lugar seguro. Nesse momento eu desci das pedras, fui até o local para conversar, convencer o Zé Roberto que, com aquele tempo, era impossível sair mar afora. Nenhum sinal facilitador era vislumbrado; ninguém deixaria o porto naquelas condições. De repente, nós dois nos viramos na mesma direção do Mar Virado. Céu turvo, ondas ainda maiores e tormenta de vento surrando forte. Foi naquele instante que o Zé concordou comigo, foi retirando as tralhas e se conformando em voltar para casa. "É, Zé, não vale a pena arriscar a vida".


Em tempo: o pescador que resgatou a moça é gente dos Quintino. Os mais antigos dele eram donos da ilha do Tamanduá, defronte a praia da Tabatinga.