sexta-feira, 9 de outubro de 2026

UM BURACO SE ABRIU

 

Içá no quintal - Arquivo JRS 


      Um buraco se abriu no território do Brasil. Nem de longe parece pequeno, mas vou me ater ao entorno da minha casa:

      Sabe aquele pequeno comerciante que é o socorro da vizinhança? Quem gasta ali são, sobretudo, os mais pobres, que recebem auxílio do governo federal!

       Sabe aquele posto de saúde, onde regularmente tem atendimento médico e dentário aos que mais precisam?

       Sabe aquele transporte escolar que vemos em vários horários do dia, levando e trazendo nossas crianças?

       Sabe esses idosos com suas aposentadorias e seus direitos mínimos assegurados num estatuto?

      Sabe essas possibilidades de estudos, esses programas aos filhos dos pobres, aos indígenas e afrodescendentes aprovados nas últimas duas décadas?

      Sabe esses avanços científicos, essas campanhas de vacinação, essas viaturas que prestam socorro nas adversidades dia e noite?

      Sabe aquele auxílio às pessoas com alguma deficiência, aquele salário que lhes é garantido?

      Pois é. Vou parando por aqui (para ficar apenas na beirada do buraco). Tudo pode desaparecer apenas com um aperto de tecla. Então voltaremos à penumbra, com mais gente sofrendo, implorando e perambulando pelo chão da nossa terra. Não será um senhor idoso o derrotado, mas sim toda uma nação que era a esperança mundial.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ARRELÁ!

 

Foto : arrelacoletivocaiçara


        Hoje, me sustentando numa imagem de resistência caiçara e no texto do Bruno, reconheço no que resulta desprezar a educação formal, desmerecer a escola e atacar os docentes. O resultado é essa onda reacionária, nos moldes do ditador alemão do século passado, varrendo o lagamar e o jundu. Pior que muitos pobres são os primeiros a caírem na arapuca. Alguém duvida que o filho pode ser pior do que o pai?


         Uma sociedade começa a adoecer quando passa a desprezar quem ensina, quem estuda, quem pesquisa e quem dedica anos da vida para adquirir conhecimento.

        Isso não significa que professores, médicos, cientistas ou intelectuais estejam acima de críticas. Pelo contrário. Autoridade não transforma ninguém em dono da verdade. Mas existe uma diferença entre questionar e desprezar.

      Hoje, muitas vezes, anos de estudo precisam disputar espaço com um vídeo de 30 segundos, uma teoria conspiratória ou alguém absolutamente convicto sobre um assunto que acabou de descobrir. E talvez esse seja um grande problema do nosso tempo: confundimos ter acesso à informação com possuir conhecimento.

       Democratizar a informação foi uma conquista. Desprezar quem dedicou a vida a estudá-la não é evolução. Pensamento crítico significa questionar sem desprezar o conhecimento. (Eu acrescento: sem ignorar, sobretudo, a geopolítica).


   Agradeço ao Bruno e espero que ele disponha seu conhecimento ao serviço do trabalhador, do povo que mais sofre. Faço questão de reafirmar isto: sabedoria está acima da informação e do conhecimento.



segunda-feira, 5 de outubro de 2026

TÁ FELIZ?

Colheita - Arquivo JRS 

 

            Tá feliz, pobre de direita? 

       Eu, ainda antes de ver as filas para as votações, me recordei de uma imagem do filme Tempos Modernos, daquele momento inicial das pessoas parecendo gado indo para o matadouro. As apurações confirmaram esta minha impressão. 

       Esses mais pobres, que dependem dos programas sociais, de um governante mais comprometido com justiça distributiva, includente, ao votarem nos piores quadros que tornará ainda pior o Congresso Nacional, agora confirmam a miséria cultural na qual estamos nos afogando. 

     Eu repudiarei qualquer um que disser que "é vontade de Deus". Lógico que é vontade do Diabo torcer para um mundo mais desigual, entregue à sanha dos ricaços! É claro que é de ordem diabólica essa política de findar com os programas sociais, privatizar praias, tirar toda a esperança da juventude etc.!

     O amanhã pode ser de ditadura e de perda da soberania nacional. Pode ser que, invés de gente aguardando atendimento no sistema único de saúde, tenhamos novamente fila para ganhar ossos, para sepultar os desvalidos. Pode ser o fim do Mais Médicos, da privatização total da Saúde e dos programas de apoio à Educação.

        Tá feliz você que votou contra você mesmo? Espera qual colheita?

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CULTURA E ELEIÇÕES

 

   

Mar de todos - Arquivo Santiago

        Eu me inspirei a escrever agora a partir da minha cultura caiçara, deste povo que precisou se inteirar com a natureza a partir dos povos originários que viviam nesta faixa litorânea (entre o sul do Rio de Janeiro e o norte do Paraná). Como vou achar normal que tenham votos entre nós aqueles candidatos que fazem pouco caso das questões ambientais, dos direitos trabalhistas duramente conquistados e custando vidas de tantas lideranças? Onde está a coerência de quem é agente da cultura popular (artesanatos, cantorias, bailados, saberes tradicionais etc.) e vai às urnas para eleger quem o desmerece? E o que dizer de caiçaras que se organizam em associações de remadores, de amigos do bairro, de quilombolas, de economia alternativa, de solidariedade indígena e tantas outras formas de resistência neste chão traçado pelo sofrimento de indígenas, negros escravizados e colonos pobres, mas estão desejando no poder político quem irá combatê-los?

     Corajosos são os discursos de minha gente que reconhece os avanços civilizatórios que tivemos a partir de 2002 neste Brasil. Fiquei muito contente ao ouvir o pessoal do fandango do outro extremo do território caiçara, "do sul", constatar o claro posicionamento de um mestre e seus parceiros nestas eleições: “Sem o presidente Lula não teríamos chegado aonde estamos. A cultura caiçara também depende de políticas públicas de inclusão. Graças aos programas sociais deste senhor nós agora até temos um veículo para nossos deslocamentos”.

    Ouvindo o encerramento da entrevista do Lula desafiando os jovens a se engajarem na política, pedindo para serem aquele político honesto que esperam ver atuando no Brasil, sinto o desafio que continua nas escolas de todo lugar: tornar a Educação Libertadora. Concluo com uma frase lida quase agora:

   Um conselho que ninguém pediu, mas que vale a pena ouvir: ESTUDEM. Conheçam nossa história, entendam a colonização, as desigualdades e as relações que moldaram a sociedade em que vivemos. Conhecimento também é consciência!

  Dito isto, no próximo domingo não basta eleger o Lula, esta liderança sindical que se tornou mundial, mais um sobrevivente da fome e da seca do Nordeste brasileiro. Precisamos também dar uma outra cara ao Poder Legislativo, derrubar esse Congresso Inimigo do Povo.

   Para não esquecer: a cultura caiçara também é uma resistência de séculos. Viva a nossa soberania!

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

A CASA SOMOS NÓS!

 

Tico-tico - Arquivo JRS 

   "Quando um espírito imundo sai de um homem, passa por lugares áridos procurando descanso, e, não o encontrando, resolve voltar para a casa de onde saiu. Quando chega, encontra a casa varrida e em ordem. Então ele chega acompanhado por outros sete espíritos piores do que ele. Entram e passam a viver ali. Ou seja, pioram muito aquele lugar, aquela casa".

 

    Estando bem próxima as eleições no Brasil, vemos esta manipulação recorrente de políticos: usar da religiosidade para enganar as pessoas. Isto pode lhes garantir plenos poderes para seguir explorando, viver às custas do suor de quem trabalha. Pior: pode inaugurar uma nova “guerra santa”, tal como as Cruzadas e outros movimentos históricos. É processo de desumanização!

    Toda gente religiosa, mas também quem não segue religião alguma, creio eu, parte do princípio que “tem de ser arrumada a casa”. (Ou será que existe algum discurso autêntico contra a purificação do ser humano?). Começa pelo próprio indivíduo que almeja a paz, a serenidade e a convicção de que ninguém é melhor do que ele, que todos são iguais, têm iguais direitos e deveres. A seguir, se identificando com outros neste mesmo rumo, surge a dimensão comunitária de querer essa “casa” (em última instância: a Terra) em ordem, para mais gente, um lugar de mais justiça e amor. “Um mundo para todos”, “Que todos tenham vida” etc. É o momento do surgimento da política, a arte de cuidar da cidade (que inclui bairro, cidade, país, mundo). A coletividade se torna essencial. Não cabe mais defender tal ou tal religião, perseguir quem não acredita em nenhum ser divino, taxar manifestações como primitivas etc. O Estado é decretado como laico, espaço onde moral deveria evoluir para ética. 

   Para concluir: se estamos fascinados ou desanimados por fulano que disse isso ou sicrano que prometeu aquilo usando princípios religiosos, é sinal de que a ética está falhando. Caso fulano ou sicrano ganhe, seu grupo religioso terá um status especial. E quem não compartilha de nada dessas posições morais? O que será dos grupos sempre marginalizados, perseguidos por manterem religiosidades ancestrais? O que pode acontecer com toda essa gente que vive uma espiritualidade satisfatória na sexualidade que lhe cabe desde a concepção? Já vislumbramos quais as consequências sociais (porque exemplos temos demais ao longo da civilização). Por isso que abraçar esses tipos de lideranças pode resultar nos espíritos piores se apoderando da “casa limpa” e a transformarem para pior, torná-la uma imundície só. A casa somos nós! Afundaremos, naufragará toda sociedade em seus passos vagarosos, duramente conquistados, de evolução; regride a humanidade? Isto é Inferno!

     Como serão nossas escolhas nas próximas eleições?

  

 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

A MESMA HISTÓRIA




       Bem cedinho eu resolvi escrever a partir das imagens feitas por duas pessoas: Mônica e Victor, partes da sobrinhada querida.

      Na primeira imagem, no alto da estrada que vai para a Caçandoca, onde muito antigamente havia plantações de mandioca do pessoal do Salomão, do vô Estevan (sim, vovô morou no Morro do Cemitério!), do tio Ezídio, dos Blac, do Chico Romão e tantos outras famílias caiçaras do canto esquerdo da praia da Maranduba, a Mônica observa como é discrepante o tratamento social: o rico pode ocupar à vontade todos os lugares, construir nos morros, no jundu etc. “Que lindo!”, dirão alguns.  Ele pode sugar água das nascentes, construir fossa no critério dele, desmatar ao redor etc. Já o pobre sequer tem o direito de cultivar um roçado em áreas dessas, fazer um rancho ou simplesmente ter um ponto privilegiado para apreciar o entorno. “Casa de pobre no morro é favela”, repetirão muitos. Já na segunda cena, assim que vi na postagem do Victor eu quis saber por onde ele andava: “Vermelha do Sul, tio! O córrego lá está todo contido por gabiões”.

    Gabiões são gaiolas de metal enchidas com pedras para conter desabamentos. É bastante comum avistá-los em beiras de estrada para contenção de terras em deslizamentos. No caso, é para deixar o rio sem alternativa de desvio. Isto é ruim? Péssimo! Aquela dinâmica da natureza, das correntes, acaba; é sacrificada para alguns ricaços se aproveitarem do jundu. Passei ao Victor uma informação vinda do saudoso vovô Armiro, da praia da Fortaleza: por ali, naquele ponto da praia, existiu um cemitério, mas quando vovô nasceu, por volta de 1910, ninguém mais era sepultado naquele jundu porque o nível do mar avançou (ou será a praia que abaixou?) e começou a revelar as ossadas. Então, todos os defuntos passaram a ser conduzidos para o cemitério da cidade, em redes carregadas aos ombros por uns 20 quilômetros. Um detalhe: recorria-se ao balseiro para a travessia do Rio Iriri (Praia da Barra/Dura). A aqui é o meu sobrinho quem fala: “O pai contou a mesma história quando estávamos lá. Isso é muito interessante, quem frequenta a praia cheia das mansões nem tem ideia de que era caiçara assim”.

    Na Praia Vermelha do Sul, cuja última família caiçara, do Bertolino, eu alcancei ainda criança, foi inaugurado um requintado loteamento no começo da década de 1970. Meu pai e tio Tonico foram os construtores de três grandes casas ali, tendo uma delas partes sobre o pequeno rio. “O dinheiro pode tudo!”. Para encerrar a prosa: um grande amigo, Carlos Lunardi, realizando uma pesquisa sobre edificações modernistas no chão de Ubatuba para o curso de arquitetura, visitou a dona desse loteamento erigido sobre posses caiçaras: Olga Sisla. “É uma grande casa no meio da mata, lá do alto se avista toda a beleza do entorno: mata, mar, praias e ilhas. Impressionante mesmo!”. Uma mansão para uma viúva. “Morreu, não levou nada”, completei.

Em tempo: já passou de meio século que pisei nas areias da praia Vermelha do Sul.

sábado, 26 de setembro de 2026

APRENDER PARA IGNORAR

 

Arte: Tom Cotrim - Arquivo Instagram 

       Eu apresento agora um comentário do amigo Carlos Lunardi, de Caraguatatuba, após ter apreciado o texto “CAMALEÃO CEGO”. Entenda porque uma reduzidíssima parcela da população determina os rumos sociais. No Brasil, mais de 40 milhões são analfabetos funcionais. Milhões de eleitores estão nesta categoria! Quem “faz a cabeça” deles? Como escapar da massificação cultural?

 

       O problema é mais grave do que parece. A associação civil sem fins lucrativos que atua nos campos da educação, cultura e juventude, na perspectiva dos direitos humanos, Ação Educativa (acaoeducativa.org.br), criou, em 2001, o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Sua função é realizar pesquisas periódicas para determinar o índice de alfabetismo funcional da população brasileira adulta. A pesquisa é realizada com amostras da população entre 15 e 64 anos, e seu objetivo é oferecer subsídios para orientar políticas públicas e mobilizar esforços da sociedade na superação desse desafio. Nessa pesquisa, é medida a capacidade das pessoas de compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais.
       O resultado não é nada animador. Na última edição, realizada em 2024, 30% das pessoas que participaram da pesquisa eram analfabetos funcionais, ou seja, não conseguem usar a leitura ou escrita de forma funcional ou conseguem ler palavras e frases simples, mas tem dificuldade para compreender textos curtos.
      Quando observado o número aproximado de pessoas que estão nessa faixa etária, o número ultrapassa 40 milhões de pessoas, considerando que a idade mínima para votar é 16 anos, podemos concluir que a grande maioria dessas pessoas são eleitores, e que essas pessoas podem decidir o futuro de um país inteiro, onde os maiores afetados são os mais vulneráveis.
      Em 1964, o golpe civil-militar levou à prisão de Paulo Freire e interrompeu o Plano Nacional de Alfabetização, que tinha como objetivo não apenas alfabetizar a população adulta, mas também promover a conscientização sobre seus direitos e seu papel na sociedade. De lá pra cá, uma frase do antropólogo, historiador e sociólogo Darcy Ribeiro define bem qual é o projeto das classes dominantes para a educação: "A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto."
       Não poderia encerrar este texto sem uma citação de Paulo Freire, de seu livro A importância do ato de ler: “Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.
     Mais Paulo Freire, menos pastores!

 

Repetindo: de acordo com o Inaf, alfabetismo funcional é mensurado pelas habilidades das pessoas em compreender, interpretar e utilizar informações escritas, numéricas e digitais no cotidiano e em diferentes contextos sociais.