Bem cedinho eu resolvi escrever a partir
das imagens feitas por duas pessoas: Mônica e Victor, partes da sobrinhada
querida.
Na primeira imagem, no alto da estrada que vai para a Caçandoca,
onde muito antigamente havia plantações de mandioca do pessoal do Salomão, do
vô Estevan (sim, vovô morou no Morro do Cemitério!), do tio Ezídio, dos Blac, do
Chico Romão e tantos outras famílias caiçaras do canto esquerdo da praia da
Maranduba, a Mônica observa como é discrepante o tratamento social: o rico pode
ocupar à vontade todos os lugares, construir nos morros, no jundu etc. “Que lindo!”, dirão alguns. Ele pode sugar água das nascentes, construir
fossa no critério dele, desmatar ao redor etc. Já o pobre sequer tem o direito
de cultivar um roçado em áreas dessas, fazer um rancho ou simplesmente ter um
ponto privilegiado para apreciar o entorno. “Casa
de pobre no morro é favela”, repetirão muitos. Já na segunda cena, assim
que vi na postagem do Victor eu quis saber por onde ele andava: “Vermelha do Sul, tio! O córrego lá está
todo contido por gabiões”.
Gabiões são gaiolas de metal enchidas com
pedras para conter desabamentos. É bastante comum avistá-los em beiras de
estrada para contenção de terras em deslizamentos. No caso, é para deixar o rio
sem alternativa de desvio. Isto é ruim? Péssimo! Aquela dinâmica da natureza,
das correntes, acaba; é sacrificada para alguns ricaços se aproveitarem do
jundu. Passei ao Victor uma informação vinda do saudoso vovô Armiro, da praia
da Fortaleza: por ali, naquele ponto da praia, existiu um cemitério, mas quando
vovô nasceu, por volta de 1910, ninguém mais era sepultado naquele jundu porque
o nível do mar avançou (ou será a praia que abaixou?) e começou a revelar as
ossadas. Então, todos os defuntos passaram a ser conduzidos para o cemitério da
cidade, em redes carregadas aos ombros por uns 20 quilômetros. Um detalhe:
recorria-se ao balseiro para a travessia do Rio Iriri (Praia da Barra/Dura). A
aqui é o meu sobrinho quem fala: “O pai
contou a mesma história quando estávamos lá. Isso é muito interessante, quem
frequenta a praia cheia das mansões nem tem ideia de que era caiçara assim”.
Na Praia Vermelha do Sul, cuja última
família caiçara, do Bertolino, eu alcancei ainda criança, foi inaugurado um
requintado loteamento no começo da década de 1970. Meu pai e tio Tonico foram
os construtores de três grandes casas ali, tendo uma delas partes sobre o
pequeno rio. “O dinheiro pode tudo!”. Para encerrar a prosa: um grande amigo,
Carlos Lunardi, realizando uma pesquisa sobre edificações modernistas no chão
de Ubatuba para o curso de arquitetura, visitou a dona desse loteamento erigido
sobre posses caiçaras: Olga Sisla. “É uma
grande casa no meio da mata, lá do alto se avista toda a beleza do entorno:
mata, mar, praias e ilhas. Impressionante mesmo!”. Uma mansão para uma
viúva. “Morreu, não levou nada”, completei.







