sábado, 28 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (X)

 

Um dia distante no Puruba - Arquivo JRS

 Viva os 15 anos do blog!

       Nesta terceira parte apresentada pelo Rogério, me vem à memória o saudoso Pedro Brandão, mestre folião do Sertão do Puruba (região norte de Ubatuba), mas que terminou sua jornada no bairro da Estufa. Nos idos de 1980, na praia da Ponta Aguda (extremo sul), ouvindo o tocador Aristeu Quintino num momento de cantoria, eu quis saber como ele sabia tantas músicas do nosso povo, da Folia. Eis a resposta: "Eu aprendi com o Pedro Brandão. Era ele que fazia a Corrida da Bandeira do Divino desde quando eu era ainda criança. Fui escutando a cada ano e assim sei cantar essas modas". 

      Pedro Brandão, Nei Martins, Otávio "Paratiano", Vitória, Beto, Ophélia e tanta gente mais fizeram mais do que as suas partes na preservação de nossa cultura. Rogério segue no mesmo caminho. Parabéns, amigo!


Parte 3

    As Folias de Santos Reis em Ubatuba representam um dos mais profundos patrimônios imateriais da religiosidade popular e da cultura tradicional caiçara. Mais do que manifestações festivas, elas constituem verdadeiros arquivos vivos da memória coletiva, responsáveis, em tempos históricos de escassez da presença clerical, por assegurar a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a saudação ao Menino Jesus, a devoção aos Reis Magos e a transmissão de cantorias seculares que narram a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, pobre, sem palácio, o Rei dos Reis.

     Durante décadas, essas tradições foram mantidas graças ao compromisso de mestres, violeiros, cantadores e comunidades inteiras. Contudo, sua continuidade também foi profundamente fortalecida por ações públicas sensíveis e comprometidas com a cultura popular, como as desenvolvidas por Nei Martins, grande entusiasta e defensor da cultura caiçara. À frente de iniciativas dentro da FUNDART, Nei Martins iniciou um trabalho estruturante de valorização das Folias de Reis, que consistia em identificar mestres, favorecer a transmissão dos saberes entre gerações, fortalecer os grupos existentes e coordená-los conforme suas necessidades reais.

     Foi sob sua articulação que se consolidou o Encontro de Folias de Santos Reis em Ubatuba, bem como as romarias e visitas às capelas de norte a sul da cidade. Durante o mês de dezembro, as folias eram destinadas às comunidades com o devido transporte, zelo e profundo respeito aos grupos e ao sagrado, sempre em parceria com a Paróquia Exaltação da Santa Cruz. As comunidades acolhiam e prestigiavam as folias, reconhecendo nelas não apenas um ato religioso, mas um momento de pertencimento, memória e celebração coletiva.

    O ápice desse ciclo devocional acontecia no dia 6 de janeiro. O grande encontro iniciava-se com a missa, na qual cada capela vinha representada por um estandarte identificando o bairro visitado e seu padroeiro. Após a celebração, formava-se uma grande procissão em direção ao Sobradão do Porto, onde, diante de um belo presépio armado, as folias realizavam suas cantorias e reverências. O momento era coroado por uma farta mesa de alimentos caiçaras e, por fim, mestres e violeiros encerravam com um baile de fandango — em algumas edições realizado também na Praça da Matriz —, simbolizando a união entre fé, cultura e tradição.

     Infelizmente, em 2007, Nei Martins veio a falecer, deixando um legado inestimável e uma lacuna na condução institucional dessas ações. Em 2008, aguardava-se alguma iniciativa da FUNDART em torno das Folias e do tradicional encontro, o que não ocorreu. Diante desse vazio, em 2009, Rogério Estevenel, então coordenador da Pastoral Fé e Cultura, propôs a retomada do Encontro de Folias de Santos Reis, mesmo sem o apoio da FUNDART. A partir de então, o encontro passou a ser realizado dentro da Igreja Matriz, após a missa, e assim se manteve de forma ininterrupta até 2025, sustentado quase exclusivamente pela dedicação voluntária, pelo zelo pastoral e pelo profundo compromisso com a preservação da tradição.


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