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sábado, 19 de setembro de 2020

SE NÃO HOUVER CHIFRE EM CASA

 

Coentro, hortelã, cebolinha...Nosso espaço (Arquivo JRS)


       De onde vem todo esse conhecimento de mato, de ervas, que a cultura caiçara tem? "Tem mato para tudo", diziam os mais antigos. "É sabedoria dos caiporas, dos pretos e da portuguesada". Assim como antigamente, as mulheres continuam à frente nesta particularidade de conhecer os matos e as suas funções na culinária e como medicamento. Em toda a minha vida eu conheci várias benzedeiras caiçaras, mas apenas um benzedor: o Velho Mariano, do Ubatumirim, que veio findar seus dias no bairro da Estufa. Após o ritual deles e as rezas, ninguém deixava o lugar sem levar uma braçada de mato para fazer remédio. A cura se completava assim

             Nossos quintais eram repletos desses matos, dessas plantas que não podiam faltar porque sempre havia precisão para usar na comida, fazer um chá, um emplasto etc. Quase sempre um cercado de bambu (ou de aproveitamento de pano de rede velha) protegia nossas ervas, sobretudo das galinhas ciscadeiras. Era o espaço das hortelãs (gordo e de bicha), dos coentros (miúdo e do mato) , da alfavaca, da melissa, do capim cidrão, do poejo, do guaco, da cidreira, do alecrim, do favacão, da arruda, do manjericão... Entre elas, ocupando o mesmo espaço se via couve, cebolinha, tomate, pimenta, salsa e por aí vai. Entre as flores do terreiro e pelos caminhos também abundavam dessas plantas que nasciam levadas pelo vento, por bichos e por nós também. Era comum avistar alguém fincando galhos ou jogando sementes nos locais das nossas andanças. E tinha toda aquela riqueza de plantas que abundavam na capoeira, depois do cisqueiro. A gente, a bem dizer, tropeçava em caninha do brejo, pariparoba, urtiga, aperta ruão, malícia, sete sangria, quebra pedra, gervão, melãozinho, prumera, boldo de todo tipo, erva baleeira, ervas diversas (cavalinha, de bicho, de São João, de Santa Luzia etc.).

               Nunca podia faltar algumas folhas de alfavaca no preparo de qualquer espécie de cação. Na carne de galinha, o sabor que realçava era do hortelã gordo. Coentro do mato entrava em quase todos os tipos de peixes que fossem cozinhados. "Zezinho, vá lá fora e me traga três folhas de coentro. Escolha das maiores". Assim, a partir da mãe, das avós e com tanta gente mais, fomos aprendendo disso tudo. De vez em quando se escutava frases do tipo: "Comadre, tendes aí hortelã, daquela de bicha [lombriga]? É que tenho reparado no Tãozinho que se encontra muito aíbo, empalamado. É só bater a vista que se nota. Deve ser ataque de bicha. Na semana que começa amanhã, irei preparar chá de hortelã com pó de chifre para ele beber de tarde". E por que tinha de ser na parte da tarde? Vovó Martinha me explicou: "É que, depois de atacar a comida do almoço, as bichas ficam desesperadas de sede, dando até coxa nas tripas. Só que, em vez de água, quem conhece faz elas tomarem chá de hortelã nas fuças. Se tiver fervido com um punhado de chifre torrado aí que resolve mesmo! Pode ser usado sementes de mamão moído se não houver chifre em casa e nem na vizinhança".

                    Talvez por tudo isso, eu, assim que me levanto a cada manhã, dou uma volta no quintal para apreciar as nossas ervas, o nosso mato. "Um pedaço da Mata Atlântica no terreno", conforme o dizer da mana Ana.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O MONO CAPELÃO


1984 - Ponta do Farol (Arquivo JRS)



              Em 1980, num meio dia de Sol ardido, eu estava no recenseamento na área da Ponta Grossa. Era outubro. Naquele dia o meu roteiro tinha se iniciado no canto da Praia Vermelha, na entrevista com o Dito Olho Azul, mestre da dança da fita da capela do Itaguá. Depois passei pelo povo da Anatilde, minha colega de escola, pela bica do morro onde era a casa do Ditinho Batatão e Hione. Logo alcancei as poucas casas do Cedro, onde o saudoso Zeca do Paru me guiou para os lugares dos parentes, às moradias dali. Ainda faltava a Ponta do Farol. A comadre Galdina apareceu por acaso, estava visitando alguém. A sua moradia era no Acaraú, vizinha da família Damásio, bem no meio do pessoal numeroso do Janguinho e Santana: caiçaras que marcaram a minha juventude. Ao vê-la, o Zeca, sempre com alguma tarefa em mente, pediu: "Gardina, faz o favor de acompanhar o Zé Ronaldo até as casas da Ponta, para fazer a pesquisa que é preciso". E assim subimos e descemos morros naquele calor bravo. No percurso encontramos um caminhão pipa. Ela me explicou: "A água dali é pouca. Por isso sempre vem um caminhão cheio de água para serventia dos moradores, de quem está por ali. É tudo turista, mas tem duas famílias que servem de caseiros. Se fosse só pobre, eu duvido que a prefeitura fizesse isso. Quem conseguiu esse serviço foi a dona da casa maior, gente do Abreu Sodré, que foi governador do nosso Estado. Hoje tem tem mais obras novas por lá, você vai ver mais construções. O caminhão tem vindo mais vezes por isso".
       
             De fato, recenseei apenas quatro casas. Vislumbrei para os próximos anos mansões por debaixo daquele mato todo. Após a última casa, a comadre me convidou: "Já que estamos aqui, vamos até o farol. Dizem que está reformado, mais bonito. Ainda não fui lá depois disso". Lógico que eu ansiava em ver a famosa Ponta Grossa do Farol, o tal farol. E lá chegamos: uma obra simples, de onde se avistava um mar imenso. O finado Dário Barreto, caso estivesse conosco, na certa exageraria: "Quando o tempo está bem limpo, sem nenhuma cerração lá longe, daqui a gente é capaz de avistar o outro lado, a terra dos africanos". Sentamos ali para prosear desfrutando da linda visão. De repente um barulho veio vindo pelo mato, balançando galhos mais altos das árvores. Novamente aquela maravilhosa mulher me acalmou: "É mono. De vez em quando tem um bando deles que passa por aqui. O povo daqui está acostumado. Papai, que Deus o tenha, dizia que eles vem de longe, da serra, porque sentem saudade do mar, do cheiro da maresia e do barulho das ondas na costeira. É sempre neste tempo, quando tem mais caraguatás maduros. Vamos ficar quietos, só reparando no jeito deles. Macaco parece com gente, né?". O bando chegou, mais de quinze deles entre grandes e pequenos. Um deles se destacava. Ao nos perceber, deu uns pulos na nossa direção para nos examinar melhor, de perto. Permaneceu ali alguns minutos, na distância de cinco metros, sobre uma pedra. Depois  soltou um som como se acalmasse os demais e foi tranquilamente se juntar ao bando que atacava os cachos de caraguatás. Impressionante! "Aquele que veio até nós é o capelão, quem comanda os outros. Repare que tem a barba a mais grande e bem ruiva, parecida galhada de aroeira madura. E olha aquele tamanho de gogó!". Fiquei devendo mais uma lição para a comadre Galdina. Quanto privilégio meu em conviver com essa gente toda!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

JARACUÇU AMARELO

Titio e o cará moela em formato de asa (Arquivo JRS)

               Tio Neco é muito querido por nós. Desde pequeno o que muito me impressionou nele foi um pé esquisito, faltando um dedo. “Foi picada de cobra, menino!”. Agora, depois de tantos anos, ele próprio explica:


               Em 1956, quando eu tinha oito anos, fui picado pela cobra. Foi assim: eu fui à roça com o papai [meu avô Estevan], como era costume. Lá chegando, armei a gaiola no lugar que mais tarde o Lúcio [outro tio] morou. Logo estava cheia de tiés. Na volta, pelo caminho da vargem, papai trazia nos ombros um cacho de bananas; eu seguia na frente, distraído, depenando passarinho. Não muito longe de casa, ao atravessar o Rio Ingá, pela baobeira que servia de ponte, bem na cabeceira, eu não vi uma jaracuçu amarelo.  Distraído que estava, pisei em cima da cobra. Aí ela se enrolou até a metade da minha canela e deu duas picadas em cima do pé. Eu a sacudi longe e atravessei a pinguela sem nem saber como consegui. O meu pai largou o cacho de banana, cortou um cambará e matou a cobra. Depois atravessou pela baobeira, viu o pé e a perna inchada. O veneno agia: bateu íngua na hora e inchou. Todas as picadas de borrachudos foram se abrindo e sangrando. Papai voou na pinguela, me carregando e eu chorando, preocupado com injeção (porque todo mundo tinha medo, né?). Bateu nervoso no velho, não conseguia me carregar. Foi correndo na frente em busca de ajuda; eu fui seguindo manquitolando, devagar. Quem me buscou foi o seu pai [Leovigildo] após a notícia.  Na época, o Mané Belo tinha uma carroça, vendia peixe. Alguém foi atrás dele para me levar ao Hipólito, que tinha um armazém no Sertão da Quina e entendia de farmácia, tinha remédio. O seu pai, que capturava cobras para o Instituto Butantan, amontoou as caixas  e meteu fogo nelas. Tudo desapareceu em cinzas.  A mamãe, vendo que demorava o carroceiro, me pôs nas costas e foi me levando para o Sertão. Ao chegar no Morro do Foge, dois quilômetros depois,  se encostou no barranco para tomar um fôlego e retomou a  caminhada. Bem em frente à casa do tio Antônio Amorim, onde é a hoje é a escola [Áurea Moreira Rachou], fomos alcançados pela carroça do Antônio Belo. Assim que chegamos, o Hipólito aplicou duas injeções, depois de fazer um teste nos olhos. Foi uma em cada braço. Nisso eu já estava com febre a variação. O Hipólito foi prender o gado e sofreu uma prensada na mangueira pelo touro reprodutor, quebrando as costelas. Ficamos os dois precisando de socorro.  Já era noite quando uma ambulância veio de Caraguatatuba para nos levar. Não sei se o Hipólito foi logo medicado, mas eu fiquei desprezado no hospital. No dia seguinte, quando o padrinho Antônio foi me visitar, ficou indignado me vendo naquela situação em que eu estava largado num banco do corredor. Ficou bravo.  Arrumou um táxi do Pacheco (Ford 50) e me trouxe para a Ana Cruz, no Sapê, que era enfermeira da prefeitura. Na casa dela eu fiquei quinze dias; o pé foi pretejando. Maria Cruz tinha a minha idade; Clemente era pequeno; João Paulo, o pai, ajudava no desempenho da mulher. Passando por lá o doutor Benedito, vendo a gravidade do caso, o pé gangrenado, imediatamente ordenou para que me levassem para a cidade, ao hospital de Ubatuba, onde fui examinado com mais atenção. Foi determinado o procedimento, mas não fiquei no hospital. Eu, mamãe e padrinho Antônio ficamos instalados na casa da prima Zica [Luzia], no final da rua Cunhambebe, próximo do matadouro. Ali moramos por oito meses.  O padrinho Antônio trabalhou para ajudar nas despesas da casa. A mamãe ajudava em tudo. O médico cortou a pelanca podre desde o pé até o tornozelo. “Começou a funilaria do pé”.  A Ana do Bastião Migué, mulher do Antenor disse assim: “Aí, Maneco, você parece mulher que ganhou nenê!” (Porque precisava de muito pano para enxugar o pé, saía muita água). O doutor Benedito e o enfermeiro Juscelino iam todos os dias para cuidar de mim. Era uma injeção de penicilina todo dia, lavavam o pé com água oxigenada, retiravam uma espécie de geleia que se formava todo dia no local, enchiam de pó antisséptico, tornavam a medicar e enfaixavam.  No total, tomei doze soros de cobra. O ano era 1956. Após a recuperação da carne, nas pontas dos dedos ajuntava um líquido que fedia demais. Quando estava bem cheio, até redondo, uma “boca” aparecia debaixo do dedo que ficou duro, apontando para cima, e vazava. Era um fedor só. Em 1956 passei por uma cirurgia na Santa Casa de São José dos Campos. O dedo foi amputado, nunca mais se formou aquele líquido horrível.

terça-feira, 23 de maio de 2017

A CURA VEIO DO CHIFRE

Praia (?) do Saco da Ribeira - Foto: Reinaldo Rodrigues
     


Praia do Saco da Ribeira - 1945 (Ubatuba Histórica)


De vez em quando, relendo uns textos antigos, acho por bem divulgá-los. É o caso deste que relata a importância da sabedoria popular, da vida difícil justificando que a necessidade é mãe da criatividade.

            Os mais antigos falam das dificuldades dos “tempos d’antes”. É comum ouvir algo sempre assim, ou parecido com isto: “Antigamente tudo era dificultoso; não tinha estrada. Pra ir por mar dependia do tempo”. Eu fico sempre imaginando a situação quando alguém ficava doente! Talvez fosse por isso que quase todo mundo sabia um monte de remédios caseiros; tinham na memória nomes de plantas, simpatias e outras coisas do gênero. Também havia elementos estranhos, bizarrices no dizer de hoje. Você já imaginou chá feito a partir do cupinzeiro? Ou do picumã e do colar de capiá? E o que dizer do fumo com urina para curar frieiras? Porém, o que mais me intrigava era ver em quase todas as casas, pendurado nas travessas, chifres. Eles eram muito usados: geralmente depois de torrado e raspado, o pó era usado para combater uma série de doenças, principalmente aquelas relacionadas a vermes. Na casa do meu avô Armiro tinha dois: um curtinho, queimado pela beirada; outro novinho, sem uso. Acho que servia como sobressalente, para substituir o primeiro que já estava próximo do fim.  Então, lá vai o causo: 
       Armindo, pescador do lado do Norte, num tempo de mar grosso, precisou vir às pressas na cidade. Além de ter de resolver algumas coisas, tinha um filho adoentado sem que nenhum chá fizesse efeito. Andava pelo centro apressado, cumprimentando os conhecidos e prestando atenção nas novidades. Nisso encontrou um compadre, justamente o padrinho do filho que não passava bem. Foi logo lhe informando:  “Ó compadre Zé Mesquita, foi bom encontrar o senhor! O seu afilhado está muito doente. Ainda agora estou indo para a farmácia do Filhinho para comprar um remédio. Tomara que ele tenha um bom, porque lá em casa, desconfio eu, já se tentou de tudo. A mulher já começa a ficar desesperada!”. O outro, meio sem jeito, se desculpou dizendo, como se devesse alguma coisa:  “Eu devo cortar banana nesta quinzena, mas antes do tempo da tainha eu vou até a vossa casa ver o menino. Por enquanto não posso fazer nada; só rezarei para que Deus olhe por ele, por nós todos”. Despediram-se; cada qual tomando o seu rumo.
            Depois de muitos meses, quando o Zé Mesquita, um bom pedreiro, morador da praia da Fortaleza, até tinha se esquecido do afilhado doente, novamente os dois compadres se encontraram perto da Mercearia Paulista. Era tempo de Festa do Divino, mas a tainha já nem era tanta. O coração da cidade era só enfeite: tudo tinha a cor encarnada e fitas coloridas. Na porta da igreja – a matriz - ficava a guarda da bandeira, onde os devotos paravam para beijar a pombinha, se demorando na admiração dos enfeites do interior do templo.  Dito Bento, consertando bicicletas ali perto, dizia: "É a beijação da pombinha sagrada, onde as pessoas prendem suas fitas. Tem fila o dia inteiro na porta da igreja". Ali se respirava o sagrado. O assunto dos dois compadres sobre a festa do momento logo se esgotou. Então, meio sem jeito, o compadre que morava mais perto da cidade perguntou do afilhado: “O menino está bom, melhorou bem?”. Todo entusiasmado o pescador respondeu:  “Está uma maravilha! Curadinho, com a graça de Deus!”.  “Ainda bem!” – Suspirou o padrinho desnaturado. E continuou:  “Quer dizer que o Filhinho acertou no remédio? Qual é o nome?”. De pronto o Armindo respondeu cheio de satisfação:  “Ah! Não foi o Filhinho não quem indicou o remédio”. Cheio de orgulho arrematou a conversa:  “Eu tirei da cabeça: peguei um chifre, torrei, raspei e dei na água morna para tomar. Foi tomar e curar; uma luz que se acendeu! Não se deve esquecer das coisas dos antigos, dos remédios que eles conheciam!”.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

MEU COMPADRE CHICO

O  Chico é como borboleta curiosa (Arquivo Marly Lopes)

                Tia Tereza Lopes, natural da Praia do Pulso, foi uma mulher lutadora. Maria, Aurora, Chico, Nini e Anastácio são seus filhos.
                Chico Lopes, meu compadre, se fez carpinteiro depois de cortar pedras e de passar por muitos ofícios. Na luta pela sobrevivência ele continua fazendo a sua parte, mas deduzo que, caso tivesse outras condições, ele iria pelos estudos no caminho da Antropologia.
                Como bom caiçara, agora morando no Ubatumirim, não longe da Praia da Justa, junto com a comadre Marly, o Chico sempre está atento a tudo, sobretudo aos aspectos da exuberante natureza, da Mata Atlântica. De repente, com um olhar azul inconfundível, parece estudar cada detalhe de um cipó, cada aroma que nota entre folhagens. “Tá sentindo esse cheiro, compadre? É embirana. Deve vir de uma folha partida e está bem perto. Será que foi algum bicho que passou desesperado entre a ramagem?”.
                Quantas vezes eu não vi o Chico, sem certeza em relação a uma planta, partir para provar frutos, cheirar folhas, quebrar um galho para apreciar alguns detalhes internos !?! “Tá vendo essa planta, compadre? Além das folhas miúdas, quebrando o galho e reparando na cor dá pra dizer que é cabreuva”. Ah! Então tá bom: o Chico seria botânico! É, pode ser mesmo. “É sujeito treinado em distinguir coisa que a gente nem enxerga” – dizia o papai – “Antigamente todo a nossa gente era assim". Quanto o mundo não ganharia se aos conhecimentos médicos se ajuntassem a sabedoria dos antigos em raízes, folhas, cipós e tantas outras coisas que nos acudiam nas necessidades? O Velho Machado de Assis, creio que nessa direção, assim expressou: “Nem tudo tinham os antigos, nem tudo temos os modernos; com os haveres de uns e outros é que se enriquece o pecúlio comum”. 
                Mas voltando ao início deste texto, ainda identifico o Chico com antropólogo. É que em muitas ocasiões, convivendo em outras comunidades, eu tive o prazer de observá-lo na interação total, sem reservas. Visitava tal como uma borboleta curiosa os ambientes de roçados, de pescaria e das prosas. Mais tarde tecia seus valiosos comentários. Como eu adorava esses momentos!

                Na verdade, ele mantinha uma “observação exaustiva” de tudo na comunidade em que era hóspede. “Você conhece semente de pacová, né compadre? Aprendi que ela é usada pela gente daqui como remédio para o coração”. 

sexta-feira, 16 de maio de 2014

É BOM DEMAIS!


Oliveira, aos 91 anos, no jundu. (Arquivo JRS).

Olhando bem naqueles olhos que espelham um céu limpo, sem nuvem alguma, perguntei:
- Bom dia, Oliveira! Tá me reconhecendo?
Ele, firmando bem a visão por causa da claridade da metade do dia, respondeu:
- Você é filho da Laurentina. É claro que sei quem é!

Assim começamos uma prosa no jundu do Perequê-mirim, juntamente com o Luiz Carlos e outro rapaz, neto do finado Hermínio. O Oliveira, agora com 91 anos, me conhece desde quando eu vivia os primeiros anos na praia da Fortaleza. Era um dos companheiros do vovô Armiro nas puxadas de rede na praia. “Bons tempos aqueles, né menino?”.

“Neste jundu, quantas vezes eu, o seu avô e outros mais puxamos a canoa, trazendo farinha de mandioca para negociar com o Pedro Cabral! E daqui a gente já ía para a cidade, a pé”.

As recordações do Oliveira vem do tempo em que vivia de favores dos outros: “Os meus pais se separaram...eu vivi pelas casas de outras pessoas. Até na Caçandoca, entre os negros, eu passei um tempo. Também vivi com um tio na praia da Ponta Aguda. Depois de muito maltratado, por volta dos dez anos, juntei as minhas poucas roupas e segui para Caraguatatuba, para conseguir um emprego na Fazenda dos Ingleses. Encontrei quem teve compaixão de mim e me acolheu. Consegui emprego. Até mandava um dinheirinho para a minha mãe”.
            A simplicidade do relato do Oliveira é comovente: “ A gente era pobre, se virava com as coisas que tinha em volta de nós. Para combater os vermes, por exemplo, a mamãe assava banana, depois abria e enchia de sementes de canema amassadas. A gente comia e logo sentia os efeitos. Tudo quanto era bicho saía. A gente sentia as forças voltando após um tratamento desse. Tudo estava na natureza. Por isso eu venho a cada dia na beira do mar para apreciar essa beleza que nós temos”.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ANJOS DA SAÚDE



Vovó Martinha, a parteira da mamãe e de muitas outras.
     
      
      Na série Anjos da Saúde, publicado no O Guaruçá, Nenê Velloso cumpre a sua tarefa de nos ensinar sobre a cultura local. Está correto! Afinal, alguém já disse que “uma história de vida não é feita para ser arquivada ou guardada numa gaveta como coisa, mas existe para transformar a cidade onde ela floresceu”.

      Hoje, lendo os envolventes escritos do Nenê, escolhi o relato da minha vizinha da Praia do Sapê, na década de 1960. A Maria recupera ações de mulheres caiçaras nas questões de saúde, inclusive da sua própria mãe e da minha vó Martinha, a parteira.

   
        Relato de Maria Cruz

        Nasci em 48 e estas pessoas povoaram minha infância: Dona Martinha, avó do Domingos, do Jairo, entre outras menos conhecidas, era parteira. Fez todos os partos na nossa região, desde que me entendi por gente. Até quando apareceu médico por aqui e as mulheres ficaram mais “prosas”, aí as parteiras se acabaram. Herdou o dom de Dona Maria Félix, santa criatura que me apresentou ao mundo em 1948. Era uma parteira da Caçandoca, e Dona Martinha que morou lá aprendeu certamente com ela o ofício.

        Dona Martinha morava no Sapé, depois foi para a Estufa, onde morreu. Também no Rio das Pedras, bairro antes da Tabatinga, havia Dona Ana, que doou a área para a igreja católica daquele bairro. Ela amparava nossa gente, por aqui, e igualmente era muito querida. Homeopatia era com a Dona Quinina (Joaquina), mulher do Seu João Pimenta, que tinha armazém no Sapé. Ela tinha um “livrão” que manuseava a procura da “dose” a cada doença que lhe contassem. Tinha e vendia as doses que preparava num vidrinho ou caçula de guaraná, e todos acorriam a ela e sua medicação de “dose”.

        Minha mãe, Ana Cruz, oficialmente Ana Rosa das Chagas, atuou nesta época de dona Quinina, e foi a primeira “enfermeira” daqui da região. E ainda hoje guarda seu “pedido-cópia” de remédios, que era endossado pelo Seu Filhinho, e seus livros de apontamentos. Quando prefeito o Dr. Alberto Santos, foi contratada através do Senhor Vivi. Fazia de tudo: curativos, aplicava injeções e comprimidos antigripais, dava “comprimido de ferro”, e outros remédios. Aplicava inclusive soro antiofídico, que também tinha em casa. Abria ou espremia furúnculos, ajeitava quebraduras, arrumava talas de bambu e tiras de pano usado e enfaixava até sarar, e ainda ensinava a fazer os famosos “emplastos” de mato, São Joãozinho e canema, que ajudava a curar o quebrado.

         Minha mãe só não fazia parto, isto era com Dona Martinha, e que, como todas as parteiras, fazia os remédios para tal ocasião, as famosas “queimadas”, remédio para as parturientes da época. Geralmente a parteira tomava a seus cuidados a parturiente e seu filho até a primeira semana de vida, que era a mais perigosa para o bebê, pelo mal de sete dias, que não me lembro ter ouvido acontecer. Lembro-me da “vacina lizada anti-piogênica”, contra picadas de insetos que geralmente traziam alergias. Tínhamos em nossa casa um armarinho cheio de remédios farmacêuticos e alguns instrumentos simples que ela usava em sua lide diária. Trabalhou durante treze anos, sem um dia de férias, a qualquer hora do dia ou da noite e onde precisassem dela, lá estava minha mãe, ou então atendia em nossa casa mesmo. Parou quando prefeito o Dr. Nélio, quis transferi-la para a ASEL, e mamãe não aceitou. Através de Lei 486/08/77, foi aposentada como pensionista, percebendo hoje um salário mínimo regional ou salário mínimo brasileiro. Jamais recebeu qualquer outro valor sobre seus tempos de serviço.

        Sobre as benzedeiras, não me perguntou, mas vou enumerar por primeiro as mais antigas que conheci:

1- Tereza Blaque, na Maranduba, xingava muito, mas todos a procuravam. Morreu quando eu ainda era criança.

2- Rosalina Félix, na Maranduba, descendente de escravos da Caçandoca.

3- Minha tia Tatãe, ou Cândida Antonia de Morais, do Sapé, benzia mais crianças.

4- Benedita Fermino, nossa amiga, do Sapé, todas no meu tempo de criança.

5- Olivina, que veio da Praia Grande do Bonete, bondade infinita.

6- Sebastiana Maria, do Sertão da Quina, inclusive fazia as famosas “garrafadas” e que hoje fazem, a meu ver, tanta falta, pois fé também cura.

       Somente as duas últimas benziam em meu tempo de adulta. Eram criaturas muito benquistas e eram procuradas por todos.

Nota do Editor: Francisco Velloso Neto, é nativo de Ubatuba. Seus ancestrais datam desde a fundação da cidade. Publicado no Almanak da Provícia de São Paulo para o ano de 1873. Envie e-mail para
thecaliforniakid61@hotmail.com.

quinta-feira, 24 de março de 2011

O chifre que cura

            Os mais antigos falam das dificuldades dos “tempos d’antes”. É comum ouvir algo sempre assim, ou parecido com isto: “Antigamente tudo era dificultoso; não tinha estrada. Pra ir por mar dependia do tempo”. Eu fico sempre imaginando a situação quando alguém ficava doente! Talvez fosse por isso que quase todo mundo sabia um monte de remédios caseiros; tinham na memória nomes de plantas, simpatias e outras coisas do gênero. Também havia elementos estranhos, bizarrices no dizer de hoje. Você já imaginou chá feito a partir do cupinzeiro? Ou do picumã e do colar de capiá? E o que dizer do fumo com urina para curar frieiras? Porém, o que mais me intrigava era ver em quase todas as casas, pendurado nas travessas, chifres. Eles eram muito usados: geralmente depois de torrado e raspado, o pó era usado para combater uma série de doenças, principalmente aquelas relacionadas a vermes. Na casa do meu avô Almiro tinha dois: um curtinho, queimado pela beirada; outro novinho, sem uso. Acho que servia como sobressalente, para substituir o primeiro que já estava próximo do fim.
             Então, lá vai o causo: Armindo, pescador do lado do Norte, num tempo de mar grosso, precisou vir às pressas na cidade. Além de ter de resolver algumas coisas, tinha um filho adoentado sem que nenhum chá fizesse efeito. Andava pelo centro apressado, cumprimentando os conhecidos e prestando atenção nas novidades. Nisso encontrou um compadre, justamente o padrinho do filho que não passava bem. Foi logo lhe informando:  “Ó compadre Zé Mesquita, foi bom encontrar o senhor! O seu afilhado está muito doente; ainda agora estou indo para a farmácia do Filhinho para comprar um remédio. Tomara que ele tenha um bom, porque lá em casa, desconfio eu, já se tentou de tudo. A mulher já começa a ficar desesperada!”. O outro, meio sem jeito, se desculpou dizendo, como se devesse alguma coisa:  “Eu devo cortar banana nesta quinzena, mas antes do tempo da tainha eu vou até a vossa casa ver o menino. Por enquanto não posso fazer nada; só rezarei para que Deus olhe por ele, por nós todos”. Despediram-se; cada qual tomando o seu rumo.
            Depois de muitos meses, quando o Zé Mesquita, um bom pedreiro, morador bem dizer do centro da cidade, até tinha se esquecido do afilhado doente, novamente os dois compadres se encontraram perto da Mercearia Paulista. Era tempo de Festa do Divino; a tainha já nem era tanta. O coração da cidade era só enfeite: tudo tinha a cor encarnada e fitas coloridas. Na porta da igreja –a matriz- ficava a guarda da bandeira, onde os devotos paravam para beijar a pombinha, se demorando na admiração dos enfeites do interior do templo. Ali se respirava o sagrado. O assunto dos dois sobre a festa do momento logo se esgotou. Então, meio sem jeito, o compadre da cidade perguntou do afilhado: “O menino está bom, melhorou bem?”. Todo entusiasmado o pescador respondeu:  “Está uma maravilha! Curadinho, com a graça de Deus!”.  “Ainda bem!” – Suspirou o padrinho desnaturado. E continuou:  “Quer dizer que o Filhinho acertou no remédio? Qual é o nome?”. De pronto o Armindo respondeu cheio de satisfação:  “Ah! Não foi o Filhinho não quem indicou o remédio”. Cheio de orgulho arrematou a conversa:  “Eu tirei da cabeça: peguei um chifre, torrei, raspei e dei na água morna para tomar. Foi tomar e curar; uma luz que se acendeu!”.
            Essa sabedoria caiçara até me assusta! Para encerrar, acho imprescindível a obra de Hans Staden -Duas viagens ao Brasil. Nela é possível reconhecer alguns conhecimentos que se perpetuam até hoje.
                                  
                                                              Boa leitura!
                                                              José Ronaldo dos Santos

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ovo cura

                       As cobras sempre constituíram um motivo de atenção aos caiçaras. Afinal, o que existia eram caminhos, trilhas e picadas para dar acesso a tudo (desde as roças até a casa do vizinho, por mais próxima que fosse). Ou seja, o mato beijava os nossos pés a todo instante.  Os acidentes (picadas de cobras) eram mais frequentes no tempo quente (verão). Tenho na lembrança os mais velhos a alertar sempre: “É bom prestar atenção no caminho. É tempo de cobra! Olhe bem!”.  Enfim, todo cuidado era pouco. Eu mesmo tenho tios e tias que foram picados; escaparam, mas tinham ou têm as sequelas para comprovação. Nunca vi um caiçara morrer de picada de cobra.
            As cobras mais temidas até hoje são: urutu cruzeiro, jararacuçu e coral.
            Na praia da Fortaleza, onde estão as minhas raízes por parte de mãe, existia o Buraco da Cobra. Isto eu conto em outra ocasião às pessoas que ainda não sabem.
            Em certa ocasião, logo pela manhã, numa roça de mandioca no Morro da Anta, enquanto estávamos trabalhando sob um lindo sol, escutamos o cachorro Peri latindo para alguma coisa no meio do capim-melado. Logo vovô disse:
            - É cobra. Vai ver de perto, Tião, senão, ela  pica o cachorro. Tira o Peri de lá. Depressa!
            Tio Tião bem depressa obedeceu a ordem, mas o cachorro já tinha ganido. Era uma coral das bravas. Logo estava esmagada. Morreu com o “olho” da enxada na cabeça.
            Enquanto eu dependurava a cobra num galho de timbuíba, tio Tião já estava com o Peri nos ombros. Em seguida mandou que eu descesse depressa e colocasse dois ovos para cozinhar bem. É preciso dizer que a dita roça era mais de meia hora da casa. Eu corri, rolei por barrancos. Nem vi os penhascozinhos. Fiz o que foi mandado. Quando o meu tio chegou, a água já fervia. Peri foi deixado  embaixo de uma aroeira; parecia morto.
            Depois de ferver mais uns dez minutos, meu tio achou que estava bom, no ponto de gema azulada de tanto cozer. Rapidamente o ovo foi descascado e cortado ao meio. A primeira metade foi presa por uma tira de pano sobre o local  da picada da cobra. Depois de esperar um breve tempo, o cachorro deu sinal de vida. A metade do  ovo foi trocada. Logo o cachorro estava sentado e latindo alegremente, mas mesmo assim o tio Tião ainda colocou a terceira metade sobre o local. Pronto! Peri estava curado! O nosso querido cachorro vinagre estava curadinho; abanando o rabo num ritmo de causar inveja a beija-flor. Morreu de velhice, por volta dos quatorze anos. O que o salvou? A sabedoria caiçara! Ainda hoje, conversando com o Pedro, da Ilha da Vitória, ele me disse que o ovo  bem cozido continua sendo o remédio deles por lá. “É desse modo que ninguém morre de picada de cobra”.
            Sugestão de leitura: Bom dia, Ubatuba, de Idalina Graça.
                                                                                   Boa leitura!
                                                                                   José Ronaldo dos Santos