domingo, 26 de julho de 2026

SERTÕES

 

Frei Vicente - Arquivo internet 

     De vez em quando eu, de geração da segunda metade do século XX, nascido no jundu do Sapê, me quedo no pensamento de que, naquele tempo, era clara a distinção entre quem morava nas praias e de quem estava nos "sertões distantes" (até no máximo seis quilômetros do lagamar). Eu me admirava de como os destas localidades se acostumaram viver tão "longe" de praia, dos recursos que o mar e as costeiras ofereciam. Será que o princípio dessas ocupações (Sertão da Quina, do Corcovado, do Perequê-mirim, do Puruba...) está no ciclo canavieiro? Não! Haja vista que os engenhos, conforme atestam as ruínas que resistem, estavam na beirada do mar. Talvez suas origens estejam na busca dos metais preciosos, quando homens mestiços e brancos, portugueses, se enfiaram mato a dentro. Pode sim!

      Na obra Boa Ventura!, Lucas Figueiredo abordando a corrida do ouro em nosso país registrou:

      De fato, a experiência mais ousada da colonização portuguesa no interior ainda era a vila de São Paulo (fundada em 1554). Por aí se tem dimensão da dificuldade do sertão: São Paulo está a míseros 70 quilômetros do litoral, mas a viagem até lá demorava três dias (...) Por enquanto, ainda que tivessem uma ou outra pepita de ouro e sonhos imensos, os cerca de 25 mil brancos que viviam no Brasil estavam condenados, como dizia frei Vicente do Salvador (1564-1635?) a viver "ao longo do mar, como caranguejos".

     Me resta concluir no provisório: na dificuldade de ir mais além na busca de riqueza minerais e não querendo se distanciar de uma sobrevivência garantida pelo mar, foram-se firmando os grupamentos aos pés da Serra do Mar, solidificaram-se nossos sertões caiçaras por volta do anos 1700. Tempos depois, os mais cobiçosos, mediante algumas notícias de exploradores, transpuseram barreiras maiores, ganharam vales e se estabeleceram nos verdadeiramente distantes sertões, viraram caipiras e deram sua contribuição na  demarcação do atual território nacional. Tudo pela ânsia de riqueza!


Em tempo: 
Frei Vicente do Salvador foi um historiador baiano que deixou a nós dois importantes documentos: Crônica da Custódia do Brasil e História do Brasil.

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