segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

COMEMORAÇÕES (VIII)

 

Foliões no coreto -  Arquivo Rogério 


Viva os 15 anos do blog!

      O estimado professor Rogério Estevenel, além de fandangueiro, também atua em outras frentes da nossa cultura. A partir de hoje, por quatro edições consecutivas, o tema trazido por ele é um dos aspectos da catolicismo em Ubatuba: Folia de Santos Reis. Como não agradecer pelo empenho deste caiçara nos eventos que fortalecem as nossas raízes? Gratidão, companheiro!


 Parte 1

     As Folias de Santos Reis em Ubatuba constituem um dos mais belos testemunhos da religiosidade popular e da resistência cultural caiçara. Em tempos em que a presença de padres era escassa e o acesso aos sacramentos limitado, foram os foliões que asseguraram a vivência da fé católica nas comunidades, levando de casa em casa a mensagem do nascimento de Jesus, a devoção aos Reis Magos e a esperança que brota da tradição. As Folias de Santos Reis em Ubatuba não são apenas manifestações festivas: são arquivos vivos da memória coletiva, expressões profundas da religiosidade católica popular e pontes entre gerações. Preservá-las é garantir que as vozes do passado continuem a ecoar no presente, anunciando, em canto e devoção, o nascimento daquele que veio pobre, sem palácio, mas coroado de amor: o Rei dos Reis.

      Desde o final de novembro, quando as cigarras iniciavam seus cantos, o povo já sabia: era o sinal de que as Folias de Reis deveriam dar início às suas romarias. Ao luar, muitas vezes guiadas pela chamas dos fifós, os grupos percorriam os caminhos saudando o Menino Jesus diante dos presépios, entoando cantorias seculares que narravam a profecia da vinda do Messias — nascido em manjedoura, em palhinhas deitado, filho da Virgem Maria e de São José, seu pai adotivo. Pobre, sem palácio, nascia o Rei dos Reis.

    Em Ubatuba, as folias sempre tiveram uma singularidade ímpar. Formadas por membros da própria comunidade, ao som de violas, violões, rabecas, adufos, chocalhos e caixas de folia, não possuíam roupagens identitárias padronizadas nem o uso de palhaços, como em outras regiões do Brasil. Essa sobriedade estética reforçava o caráter devocional da romaria, onde o essencial era a fé cantada, o encontro fraterno e o respeito aos lares visitados. Com o passar do tempo, a forte migração aproximou Ubatuba das realidades culturais do Vale do Paraíba e de Minas Gerais, enriquecendo ainda mais essa manifestação. Hoje, a cidade abriga inúmeros grupos que expressam essa diversidade.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário