domingo, 10 de maio de 2026

TELHADOS

 

Isaías Mendes, Jairo e João de Souza - Museu Caiçara - Arquivo Inês

Embarreamento do Rancho Caiçara - Arquivo JRS


    A minha família morava na praia do Perequê-mirim, na década de 1970. Eu era criança de tudo, estava no primeiro ano primário, aluno da professora Olga Ribas, quando ouvi uma prosa bem interessante em torno de telhados. Os dois, Dico Barreto e Nequinho Valentim, citavam algum conhecimento a respeito de telhas: para um deles a melhor telha era a plana, a famosa telha francesa (fabricada no Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, por Paulo Becker, um alemão naturalizado brasileiro. Diziam os mais velhos que ele veio para o Brasil a fim de se curar de um reumatismo. Não me perguntem como antigos caiçaras sabiam disso. Bem mais tarde, um de seus descendentes veio a ser presidente da Fundação de Arte e Cultura, em Ubatuba), já na opinião do Dico, as telhas mais antigas eram as preferidas porque não necessitava de um enripamento rigoroso, pois elas não tinham garras, bastava ir espalhando sem deixar brechas, ajeitando o alinhamento só no beiral. “Tem também as telhas francesas que vêm de Caçapava, dos irmãos Quirino. São boas também”, completou o Nequinho. E por aí seguiu a prosa. Faz tempo que ambos, caiçaras estimados, são falecidos.

    Hoje, recordando dessa prosa ocorrida há mais de cinquenta anos, lembrei-me da tia Maria Mesquita, do tio Genésio, quando contou do maior sonho de quem queria se casar: ter uma canoa e uma casa de telha. Por quê? Porque a canoa, além de essencial na atividade pesqueira dos caiçaras, também era um meio de transporte muito necessário num tempo em que havia poucas estradas e quase nada de automóveis. Já a telha, era a garantia de uma moradia mais segura. Antes os pobres usavam apenas  sapê como cobertura de suas casas. Caso você encontre alguma fotografia aérea daquele tempo, até depois da metade do século XX, será possível divisar um quadrado marrom bem discreto rodeado de um terreiro. Era casa caiçara, com cobertura de sapê que durava no máximo quatorze anos se fosse bem feita, com palhas bem escolhidas e amarradas em madeiras devidamente selecionadas para resistir aos ventos e às chuvas tão abundantes nas décadas passadas. A técnica básica da construção caiçara era pau a pique e sapê, nossa herança tupinambá. Os moradores da praia da Fortaleza e adjacências, de acordo com o finado tio Salvador, iam até o mangue da Praia Dura para buscar as varas por serem mais resistentes. Outro recurso valioso eram as ripas de jiçara. Imbé e timbopeva eram os cipós mais usados. “Hoje os tempos são outros, tá tudo mais fácil”, dizem os bem vividos da nossa terra. É mesmo!

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