| TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS |
O
veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do
mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da
rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa.
Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse
pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para
produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo
retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes.
Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira
da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu
amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores
resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém
espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil
acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros
parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles.
Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de
mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem
gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.
Enquanto
o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando
as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda,
Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:
Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador
batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore,
nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma
embarcação é torná-la viva.
Pois é! Assim, tal como a viração de
fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em
nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.
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