segunda-feira, 4 de maio de 2026

SENTIDOS, MARESIA...

 


TUNICANA, a canoa - Arquivo JRS


    O veterano Bidinho pesca, cria mariscos e negocia outros produtos provenientes do mar. Dias desses fui lhe fazer uma visita. Uma estradinha simples desce da rodovia para a praia. No jundu, bem dizer na área de mangue, está a sua casa. Entrando na propriedade eu noto algumas mudanças no solo por estratégia desse pescador que resiste ao tempo: deitou madeiras, fez quadrados no chão para produzir verduras sem desmatar quase nada. Ali vai enterrando conchas, limo retirado das cordas, cisco da varredura do lagamar, cabeças e tripas de peixes. Era terra pouco fértil que vai sendo melhorada. Ao chegar na casa, bem na beira da barra, avisto água e o mangue preservado por ali. Sua esposa me atende, despacha mensagem de que eu havia chegado. Duas outras mulheres se apresentam, aparentam serem  irmãs da dona da casa. Enquanto aguardo o meu amigo, aprecio a movimentação de camaradas, parceiros dele, também pescadores resistentes. Uma caixa de vidro retangular relativamente comprida mantém espécies vivas que atraem curiosos e fregueses. Um comércio no jundu: fácil acesso a todos, dinamiza as vendas. Avisto o Bidinho na areia com outros parceiros: vêm trazendo, numa carretinha, uma canoa. Vou ao encontro deles. Chegaram da área das boias, do campo da maricultura no largo. Algumas cordas de mariscos estão dentro das canoas para serem debulhadas. Certamente que tem gente já aguardando os bonitos mexilhões cultivados por essa turma.

    Enquanto o meu amigo pescador dava orientações aos mais próximos, me postei contemplando as canoas do entorno: bonitas, com nomes significativos: Aurora, Pedra Redonda, Badejo, Brisa... Lembrei-me de outras: Tunicana, Rosinha, Mundé... Recorri, então, a um texto do estimado Santiago:

Um barco chamado Pedro: Os nomes dos barcos. Cada pescador batiza sua embarcação e anseia proteção nas águas. Nome de bicho, de árvore, nome de gente, de santo e de santa, nome inventado, nome antigo. Dar nome a uma embarcação é torná-la viva.

      Pois é! Assim, tal como a viração de fora daquele momento me envolvia com cheiro da maresia, esses fragmentos em nossos sentidos nos alimentam, compõem-se no nosso ser, na nossa cultura.

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