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| Nossa turma - 1971 - Perequê-mirim - Arquivo Valda |
O ano era de 1972, eu estudava na
terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do
Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com
mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se
encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira
nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano
escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo
substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como
quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o
curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.
No ano de 1972 o país estava sob o
regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas
tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram
abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da
área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração
aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo
se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de
partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz
Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade
(onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem
cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento.
Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em
cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção
em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas
nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do
Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.
Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974,
quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava
postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava
Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação
estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem
verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou
morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo
aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.

Esse ritual era igual em Iaçu e em todo o Brasil. Tempo de muita repressão, do qual muitos idiotas tem saudade.
ResponderExcluirInfelizmente, né Jorge?
ResponderExcluirNessa época, eu e minha família havíamos saído, ao meu entender, do paraíso. Vivíamos em Renópolis, um pequeno vilarejo encravado na Mantiqueira. Tinha os meus dias livres de criança que deslumbrava com o mundo sendo de todos. Meu pai lecionava japonês aos filhos dos colonos japoneses, vivíamos sem cercas ou porteiras. Onde dava frutas, comíamos, onde havia riacho, refrescávamos. Não havia maldade, cumprimentávamos os adultos com muito respeito e ainda voltávamos pra casa carregados de castanhas que ganháramos para levar aos pais. Tudo era simples. Papai (Ototian) achou que chegara a hora de dar aos filhos educação urbana e condizente com os novos tempos. Chegamos a Taubaté. Matriculada no centrinho de Taubaté, Grupo Escolar Lopes Chaves, linda construção hoje tombada pela Condephaat. Nunca tinha visto construção como aquela. As portas eram escuras e de uma altura que dava quatro de mim. Corredores gigantes com janelões imensos. Saíra de uma escola em Renópolis que era uma única sala com uma única professora, dona Conchita que vinha de Pinda de bondinho para dar aulas para o primeiro, segundo e terceiro anos, todos juntos, ainda éramos responsáveis pela horta. Dona Conchita colhia as verduras e levava para vender, como resultado recebíamos lindas escovas de dente, que podíamos escolher a da cor de preferência e de quebra aprendíamos o asseio bucal. Bem, retornando ao Grupo Escolar Lopes Chaves, santuário da aprendizagem. A professora, que reluto a lembrar, mas não consigo chegar ao nome. Que de olhos negros e grandes, me chama para avaliar meus conhecimentos e fui indagada, quem é o Presidente da República. Nunca soube disso, República? O que é? Mil indagações à frente. Não teve jeito, fiquei meia hora do lado de fora da sala cuja porta permaneceu fechada para mim. Findo o período que fiquei para pensar, enchi a lousa do início ao fim, EMÍLIO GARRASTAZU MÉDICE. Nunca me explicaram o que é República.
ResponderExcluirQue lindo, amiga! Posso publicar?
ExcluirSim, claro!
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