quarta-feira, 13 de maio de 2026

PÁTRIA LIVRE OU...

 

Nossa turma - 1971 -  Perequê-mirim - Arquivo Valda


      O ano era de 1972, eu estudava na terceira série primária, na aconchegante Escola Mista da praia do Perequê-mirim, bem na beira da rodovia que na época estava bem arborizada, com mínima edificação no entorno. Entre o edifício escolar e a estrada se encontrava o mastro da bandeira. Era onde, uma vez por semana, a bandeira nacional era hasteada. Nós, perfilados, cantávamos os hinos. Naquele ano escolar a minha turma começou aprendendo com o professor Oberdan, sendo logo substituído pelo professor Pedro Eurico. Ambos, bem como os demais mestres do minha fase primária (Olga, Valda, Osmildo) não eram naturais de Ubatuba como quase todos os que ensinavam naquele tempo. Apenas alguns anos depois foi aberto o curso de Magistério no colégio Capitão Deolindo.

    No ano de 1972 o país estava sob o regime dos governos militares. Nem perco tempo mencionando os nomes destes, mas tínhamos da saber de todos eles, inclusive os dos ministros, porque eram abordados em provas ou chamadas orais. A escola, distante uns 10 quilômetros da área urbana, foi convocada para o desfile no centro da cidade em comemoração aos 150 anos da independência do Brasil. Eram os festejos do sesquicentenário. Tudo se deu naquele ano na rua Coronel Domiciano. O percurso do evento tinha como ponto de partida o cruzamento entre o citado logradouro e a rua Professor Thomaz Galhardo e terminava na praça Nóbrega, na cadeia velha, o coração da cidade (onde estava o banco Novo Mundo, a rodoviária, o fórum, as lojas etc.). Bem cedo uma condução foi deslocada até o nosso bairro para nos levar ao evento. Em cada uma das crianças havia um misto de prazer pelo passeio e preocupação em cumprir bem a tarefa. Nenhuma delas deixava o encantamento para prestar atenção em qualquer discurso político. Somente as ordens do nosso professor importava. Nas nossas mãos, acenando sempre, uma bandeirinha da nação. Um grupamento do Exército, com alguns de seus equipamentos, se fazia presente no ato, se mostrava.

    Passou o tempo, cheguei ao ginasial. 1974, quinta série no Deolindo. Professores e professoras se revezavam nos horários das novas matérias. O regime militar estava em alta, sem nenhum arrefecimento. No  recinto, para manter a ordem, ser “os olhos dos homens”, estava postado o professor José Simeão. Diziam que era sargento do Exército, ensinava Educação Moral e Cívica e zelava pelo Centro Cívico (a “representação estudantil” permitida porque os Grêmios Estudantis deixaram de existir sob a ordem verde oliva vigente). Um hino patriótico dizia: “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Anos depois fui entendendo o que estava por detrás de tudo aquilo, daquele momento em que vivi, mas não era permitido enxergar.


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