segunda-feira, 18 de maio de 2026

ALFREDINHO

 

Capa de livro - Arquivo JRS 

     Fredy Kunz, mais conhecido por padre Alfredinho, fez da sua vida uma total entrega aos mais sofredores. Era comum ele estar pelas ruas dividindo espaço com quem fosse encontrando, querendo ao menos poder conversar e partilhar suas esperanças.  Por exemplo, em 1995,  na estação ferroviária Prefeito Saladino, em Santo André, ele escreveu:

      A casa de convivência tinha sido fechada. Os moradores de rua que lá estavam abrigados foram retirados dali e jogados embaixo desse viaduto. Quando cheguei, percebi que no mesmo local seis tendas de ciganos haviam sido montadas. Enrolei-me num cobertor e me encostei num lugar perto deles. O tempo estava nublado e frio. Passei horas assim sem chamar a atenção de ninguém. Qualquer iniciativa deve começar por um olhar silencioso. Os homens usavam botas e chapéus grandes. As mulheres vestiam saias compridas e cheias de cores. A criançada, seminua, brincava. Depois de muito tempo aproximou-se uma mulher para conversar:
        - Você é parecido com o meu pai, que era assim velhinho. Vem se arranchar em nossa tenda. Lá você pode almoçar, jantar, dormir. Vou lavar as suas roupas. E depois você vai com a gente pro Paraná.
        Agradeci muito e fiquei no mesmo lugar. Pouco depois veio uma criança me chamar para tomar café. Dessa vez aceitei e fui. Aproveitando a minha saída, as crianças fizeram a mudança das minhas coisas guardando-as embaixo da tenda. Querendo ou não, eu seria acolhido por eles. Pouco depois apareceu um bom prato de comida. Ganhei um grande cobertor. À noite tomaram vinho e começaram a cantar. Coisa estranha. Nem conhecia a música, nem entendia as palavras. Dias depois fizemos o batismo de duas crianças no meio do acampamento. Rezamos o pai-nosso de mãos dadas. No fim as mulheres fizeram duas chaleiras de café.
        Dias depois voltei novamente. Não havia mais ninguém. O que aconteceu com eles? Não sei!

     Pois é! O que dizer de tantos cristãos, até mesmo parentes meus, que querem assar devotamente aquelas pessoas que abraçam as causas sociais? Nesta lógica, Alfredinho, por toda vida, seria muito perseguido. Eis um grande exemplo de verdadeiro pastor!

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