segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Zombie walk

                Os pagãos, conforme classificaram os líderes cristãos dos primeiros séculos da Era Cristã, estão mais vivos do que se pensa. Explico melhor: na semana passada, no facebook e outras vias, corria um convite para o Zombie Walk. Não me perguntem a origem, nem a iniciativa, mas funcionou! Prova disso foi um considerável número de jovens que se encontraram e fizeram a caminhada na noite de sábado para domingo (29/30 de outubro). Por volta das 5:30 horas, no primeiro ônibus que segue para Caraguatatuba, testemunhei o embarque de uma dúzia deles bem caracterizados (corpos pintados e roupas esfarrapadas tingidas de vermelho). Voltavam para um merecido descanso em seus lares. Faço questão de sublinhar que tais jovens se comportaram muito bem, sem aquilo de querer “zoar no espaço”, de desrespeitar os demais passageiros.
                Zombie walk é uma atualização de uma festa primitiva: o Dia dos mortos. Podemos dizer que é uma versão alternativa ao Halloween. Enfim, isso é tão forte desde sempre que, para contrabalançar tal costume, a Igreja instituiu o Dia de todos os santos precededendo o Dia de finados. Ou seja, estratégia para atrair aqueles de hábitos e costumes primitivos para a religião católica. O mesmo que imposição cultural.
                Vamos comemorar! Dia do Saci, dia dos mortos, dia do folclore, dia dos reis etc...etc... Tudo isso é cultura!

sábado, 29 de outubro de 2011

Balthazar e Benedicta

                Ontem, no seu aniversário, Ubatuba ganhou um importante presente: o livro Balthazar e Benedicta, de Maria Helena T.C. de Barros.
                O livro aborda os donos do Sobradão do Porto, onde funciona uma parte da Fundart. A autora é descendente do comerciante português que, no começo do século XIX, em pleno ciclo cafeeiro, fez fortuna neste município. Quer prova maior do que o edifício na entrada do rio Grande (a Barra dos Pescadores)? Vale a pena conferir, sobretudo porque é uma tiragem pequena (300 exemplares).
                O desafio lançado pela autora: “Vocês precisam escrever mais sobre esta cidade. O que foi produzido até agora é muito pouco pelo muito que ela representou na história do Brasil. Tem muito ainda a ser feito; essas coisas não podem ficar escondidas ou desaparecerem de vez!”.
                Em tempo: o meu interesse era ouvir mais alguém falando da Benedicta, pois dela só tinha ouvido aquilo que o Mané Hilário contou e eu publiquei neste blog em 30 de abril deste ano.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Luz negra

(Festival da Mantiqueira - S.F. Xavier)
                                Na semana passada recebi uma incumbência da minha filha: comprar uma luz negra para uma experiência científica da escola (“Professor pede  cada coisa!”).
                Passei na loja Santista centro da cidade. Lá tinha. Peguei o produto,  vi   o   preço         (R$ 34,50) e aguardei o atendente apreciando o produto. Foi quando chegou o meu amigo Girdo Chicapá, natural da praia do Lamberto. Depois dos cumprimentos, ele se admirou da cor da lâmpada e foi logo querendo saber: “É bonita! Nunca tinha visto isso! Pra que serve essa lâmpada negra? É escura mesmo?”. Expliquei-lhe na maior seriedade que aquilo era uma maravilha, pena que tenham demorado tanto tempo para ser inventada etc. Ele insistiu: “Mas serve pra quê?”. “Ora, Chicapá! Serve para um monte de coisas! Eu estou comprando porque preciso descansar durante o dia. Depois de instalada, no lugar da lâmpada comum, que serve para clarear o ambiente, basta tocar no interruptor e tudo vira um breu, escuro como a Mata Fechada, entre a praia da Raposa e o Saco dos Morcegos! É isso! Como se virasse noite!”. Admirado, o Girdo completou: “Então é boa mesmo! A gente economiza cortina na janela, não precisa se preocupar com nenhuma frestinha de luz! Noutra ocasião eu também vou comprar uma dessa. A mulher nem vai acreditar quando eu contar isso! Vai ser uma maravilha para aqueles momentos, de vez em quando no meio da tarde, quando a gente pega a namorar! Mas tá meio cara, né?”.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

“Se tem sanduiche?”

(Estevan/ 2010 - Eu sou menos eu)
                       Na semana passada a minha filha chegou gargalhando da aula de inglês. Logo foi se explicando:
            -Hoje a aula foi prática. Eu e a professora fomos a um ponto comercial, na área mais nobre da cidade, próximo do aeroporto. O lugar é aconchegante, tem uma variedade de serviços, sobretudo de doces. Como é de praxe, toda aula é só conversação. Ao sentarmos no gostoso local, quando uma garçonete veio nos atender, logo escutou o “Do you speak english?”. Na hora, toda solícita, ela retrucou: “Se tem sanduiche? Tem sim! Qual?”. “No,no. Speak english?”. Aí ela percebeu do que se tratava. Imediatamente adentrou por uma porta; outra pessoa veio nos atender. Essa falava bem a língua inglesa! Então tivemos um atendimento a contento.
            Narro isso pensando no finado Zé da Nhãnhã, natural do Perequê-mirim, mas trabalhava num restaurante na praia da Enseada.  Eu o encontrava a cada manhã em sua caminhada Para impressionar, o seu cumprimento era assim: “Fronkisting, tit gromitiriam, titi on cambrê. Ion tian!”. Nunca ousei saber o significado de tais palavras. Só restava rir e dizer: “Bom dia, Zé da Nhãnhã!”. Em seguida ele sempre tinha alguma história antes de continuar a sua caminhada para o trabalho.

domingo, 23 de outubro de 2011

Cuidados de filha


Minha avó Roberta contava a história de um farmacêutico que passava de carro pela estrada de terra na área rural de Guaratinguetá, numa terra chamada “dos Corrêa”, quando viu uma menina na beira da estrada pedindo socorro. Ela dizia que sua mãe estava tão doente que não conseguia se levantar da cama. O homem resolveu atender o pedido da menina e a acompanhou até a casinha simples, onde ele encontrou a enferma.
Chegando na casa, a menina, que tinha cerca de oito anos, ficou brincando do lado de fora enquanto o homem tratou de cuidar da mulher, dando-lhe os remédios que carregava consigo e instruindo-lhe para o tratamento. Ao sair, prometeu voltar em breve, despediu-se da menina e foi embora.
Dias depois, o farmacêutico visitou a mulher doente e a encontrou praticamente restabelecida. Não vendo a menina por ali perguntou à mulher: “E sua filha, não está aqui?”. “Não senhor, não tenho filha, sou sozinha”, respondeu, “Mas uma menina me trouxe até aqui...”. “O senhor está enganado, o morador mais próximo fica quase a uma légua daqui”, e assim dizendo foi até a cozinha buscar um copo de água. O homem, confuso, olhou em volta e reconheceu num retrato na parede o rosto da menina que o havia abordado no outro dia. “Aquela menina me trouxe aqui”, disse à mulher que retornava. “Impossível, essa é minha filha que morreu há dez anos. Rezo todos os dias pela alma dela e...” “E graças a ela a senhora está salva”.

(Escrito por Gláucia, por ocasião de seu mestrado em Linguística Aplicada - Unitau)

sábado, 22 de outubro de 2011

“Ai minha rede! Ai minha canoa!”

                 O meu avó Estevan (1908 - 1990), natural da praia da Caçandoca, sempre primou pela honestidade, nunca deixou de trabalhar e de ser justo. Pescava e labutava na roça, num tempo em que não precisava muito para ser feliz. Também, como muitos da sua juventude, foi trabalhar nos bananais da Baixada Santista.
                O deslocamento para Santos, há quase 300 quilômetros de distância, era feito a pé ou de canoa. (A foto mostra uma embarcação munida de traquete, que podia ser um alívio ao corpo em condições favoráveis de vento). Ia quem sonhava em ganhar um pouco de dinheiro, adquirir aquilo que o regime de subsistência baseado na troca não permitia ter. Podemos dizer que era uma situação muito semelhante ao que vivemos desde 1970, quando Ubatuba tornou-se o máximo para o turismo, atraindo tantos migrantes para a construção civil, sobretudo dos cantões mais pobres de Minas Gerais e dos estados nordestinos.
                Bem depois dessa experiência nos bananais , cujo produto servia à exportação (Europa e Argentina), vovô Estevan se viu novamente em busca de emprego que lhe rendesse mais que a lavoura e a pesca artesanal. A Petrobras começava as suas instalações na cidade de São Sebastião: era a nova chama, o “El Dourado” da época. Abrindo valas, aterrando mangue, conduzindo cargas de tubos, roçando e carpindo: eis o trabalho do vovô por  vários anos. Toda vez que passo pela aquela imponente estrutura no coração da cidade vizinha, penso no trabalho dele.
                Ultimamente tenho encontrado o Dito Campista, um ex-colega do vovô do tempo da companhia de petróleo. Ele me disse isto: “Eu era moleque ainda, mas tembém fui buscá emprego na companhia. Foi onde conheci o vosso avô que me ensinô muita coisa. O seo Estevo sempre que olhava pro mar dizia: ‘Ai minha rede! Ai minha canoa!’. O meu amigão sentia muita saudade”.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Viajando e respeitando

                “A vida da gente é uma passagem, uma viagem com ponto certo para desembarcar. E não tem como comprar outro bilhete para outro ponto”. Esta fala do vô Estevan me fez recordar de uma pessoa recentemente falecida: Jorge Matsuoka, que trabalhava, na minha infância como cobrador de ônibus. Ele tinha uma espécie de alicate que picotava o bilhete (a passagem) de acordo com o lugar de desembarque. Explico melhor: naquele pedacinho de papel existiam demarcações (limites) de distâncias: conforme o lugar pretendido (o destino) havia um preço. Então, numa viagem de Ubatuba a Caraguatatuba, havia espaços para serem perfurados em quatro pontos ou cinco diferentes. Quer dizer que a viagem tinha preços diferenciados e não somente dois preços como hoje (Ubatuba – Maranduba – Caraguatatuba).
                É impressionante a força das imagens. Consigo ver o Jorge, depois de tanto tempo, se equilibrando pelos corredores durante o trajeto, marcando passagens, dando troco e sendo simpático com todo mundo. E ainda: trazia um quepe e uma farda marrom. De igual modo se trajava o motorista. Lembravam os patrulheiros rodoviários, mas sem revólveres na cintura. O impressionante é que tem uns jovens da atualidade que, ao ouvirem isso a eles, dizem; “Que coisa mais atrasada!”.
                É coisa atrasada viajar pagando de uma forma mais justa, ter um cobrador em cada ônibus nos sorrindo, dando informações? E o que me dizem de um cobrador e um motorista com autoridade e sendo respeitado por todos os passageiros? Só em casos extremos o condutor do coletivo dava sinal para alguma “baratinha” (carro da polícia) ou estacionava direto em frente a delegacia, onde o engraçadinho ficava recolhido.
                Coisa maravilhosa para as crianças: viajar de ônibus, ocupar o lugar perto da janela. Ficar quase o tempo todo em pé para enxergar mais longe pela janelinha e ver as belezas que não nos cansam jamais. Tempo bom!
 Em tempo: nasceu, ontem, mais um sobrinho: o filho do Guinho e da Maria Inêz. Viva!