terça-feira, 23 de junho de 2026

FANTASMAS AINDA RONDAM

 

Alô - Arquivo mano Mingo

     O jornalista Zé Alfredo autorizou que eu publicasse esta pérola encontrada depois de muito tempo. O Morro da Berta (Monte Valério), além do Edmauro, também acolheu Zabeu, Aglício, os "Irmãos Mecânicos" e outros que não aceitaram passivamente a ditadura militar, cujos fantasmas ainda perambulam por nossa terra.



   O terrorista que o tempo esqueceu de anistiar

   Já era começo da noite quando a informação chegou à redação da Rádio Costa Azul. O rádio da polícia anunciava uma grande operação: a prisão de um perigoso terrorista procurado pelos órgãos de segurança. Para um repórter, não havia o que pensar. Peguei meu bloco de anotações, a caneta e segui direto para a delegacia. A notícia parecia explosiva.

   Naquele momento, a investigação da polícia estava voltada para um esquema de fraudes nas linhas telefônicas. Utilizando uma técnica conhecida como “jumping”, os suspeitos desviavam linhas dos antigos orelhões públicos para realizar ligações interurbanas e internacionais sem pagar a conta. Depois de um trabalho de rastreamento, a polícia chegou a um suspeito e efetuou a prisão em flagrante. Mas a maior surpresa ainda estava por vir. Ao consultar a “capivara” — como os policiais chamavam a ficha criminal — surgiu o alerta: tratava-se de um “terrorista perigoso” procurado pelo DOPS.

  O preso era Edmauro, conhecido pelo codinome de “Pedrinho”, morador do Monte Valério, em Ubatuba. Seu nome aparecia ligado à luta armada contra a ditadura militar e à participação no sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, realizado em setembro de 1969 por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Naquele instante, a delegacia parecia ter voltado no tempo. O sistema de informações da polícia ainda enxergava como “terrorista perigoso” um homem que, anos antes, havia sido beneficiado pela Lei da Anistia e retornado ao Brasil legalmente.

   Quando consegui conversar com Edmauro, não encontrei o personagem ameaçador descrito nos registros policiais. Encontrei um homem preocupado em provar a sua situação legal. Ele me fez um pedido simples:

— Você poderia ir até minha casa e pegar uns documentos? Eles comprovam que eu sou anistiado.

    Confesso que aquele não era exatamente o tipo de missão que se aprende nas faculdades de jornalismo. Mas o repórter de rua também precisa compreender a dimensão humana da notícia. Fui até a casa de Edmauro e conheci Lídia, sua companheira. Procuramos os documentos e encontramos os papéis que comprovavam sua condição de anistiado.

   De volta à delegacia, a história começou a mudar. O “perigoso terrorista” dos arquivos policiais era, na verdade, um cidadão que havia sido alcançado pela reconciliação política promovida pela anistia. Curiosamente, a investigação que havia dado origem a toda aquela confusão — os “gatos” nos telefones públicos — acabou ficando em segundo plano. A manchete policial transformou-se em uma história sobre memória, esquecimento e os fantasmas que o passado ainda carregava em seus arquivos.

   Edmauro foi libertado. Depois daquele episódio, nasceu entre nós uma amizade. Foi por meio dele que conheci histórias importantes dos movimentos ambientais e políticos que mais tarde dariam origem ao Partido Verde, cujas primeiras sementes também encontraram solo fértil em Ubatuba.

       Gratidão, Zé Alfredo!

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