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| Garça - Arquivo Santiago |
Eu ia sossegado pela estrada, reparando nas tinticuias que já estavam sem as lindas flores, quando avistei a casa amarela. Agostinho mora ainda ali. Fala muito esse meu conhecido. Fala muito! Parece que a única pressa nele é falar, falar, falar... Por isso, quando estou angustiado, precisando resolver rápido alguma coisa, até me desvio do seu caminho, finjo que nem o enxerguei. Quem vence a loquacidade dele? Tenho pena da sua esposa. Coitada. O jeito é soltar-lhes as rédeas, deixar que bata pernas rua abaixo e rua acima. Me recordo dele agora, neste momento que sigo tentando chamar o sono.
Agostinho agora é aposentado. Fazia o quê mesmo? Ele já me contou, mas entre tanta falação, eu tenho o costume de me desligar. Um lampejo: já prestou alguns serviços ao bairro, fez essa ou outra obra por aí. Na sonolência tudo se embrulha na memória, mas quase nada de visões concretas. As costelas doem por conta de alguns movimentos exagerados no dia de ontem. Também, na última oportunidade, o Agostinho se queixava de "dor nas cadeiras". Eu, na intenção de encurtar o assunto, apenas afirmei que a nossa vida vai se diluindo, que é assim mesmo etc.
Logo vai amanhecer, penso. Porém eu continuo passeando entre farrapos de retalhos da realidade e de sonhos. Só me resta começar o dia antes da aurora. Um café há de cair bem enquanto a curruíra e outros passarinhos começam a festejar a claridade vindoura. Que café gostoso! Um galo próximo cantou; outros mais distantes responderam.
Acabei o meu café com barulhos só aumentando. Veículos bem barulhentos. Alguns sem-noção da vizinhança e com mínima educação têm um custo a cada despertar do meu ser: devo exibir uma aparência de alguém mais ou menos civilizado. Agora, dia de tudo, sigo arreliado.

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