sexta-feira, 26 de junho de 2026

GENTE QUE ADMIRO

 





Nise da Silveira 

        Na minha adolescência, quando estava lendo O Alienista, de Machado de Assis, pensei bastante em torno do nosso contexto caiçara de Ubatuba. Afinal, a narrativa tem como ambiente outra cidade litorânea: Itaguaí, no litoral fluminense. 

       A obra literária em questão me remetia aos casos de gente nossa que, claramente, tinha algum descompasso mental. Durvalino, Celestino, Zé Maria, Chiquinho, Filizardo, Isolete, Janguinho e outros seriam mirados primeiro pelo doutor Bacamarte? Certamente! Só mais tarde, lendo a respeito de Nise da Silveira, uma psiquiatra alagoana, compreendi que havia outras formas de tratamento aos doentes mentais. Mantê-los integrados na comunidade era o jeito normal caiçara, mas a Nise inovou porque incluiu a arte, a interação com animais e outros aspectos como tratamento. Por conta dela, um movimento renovador da psiquiatria se desenvolveu no Brasil bem antes de muitos países.  Mas essa postura inovadora, que tanto nos orgulha, resultou em  sofrimentos a essa grande mulher: foi perseguida  porque era suberversiva, queria uma forma de tratamento que não fosse a violência imposta pelo Estado. Na década de 1930 esteve enclausurada em presídio de segurança máxima, no Rio de Janeiro. Dela, no livro Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos registrou o choque ao se encontrarem presos, bem longe de sua terra natal: 

      "Noutro lugar o encontro me daria prazer. O que senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa. Rachel de Queiróz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia criatura mais simpática. O marido, também médico, era meu velho conhecido Mário Magalhães. Pedi notícias dele: estava em liberdade. E calei-me num vivo constrangimento".

     Quanta gente boa foi castigada por querer uma sociedade diferente, mais solidária e igualitária? Quanta gente nossa foi sacrificada por conta de ideais revolucionários? Quantas mulheres e homens seguem, no Brasil do presente, passando por martírios, sofrendo difamações na luta contra as injustiças?

   





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