quinta-feira, 11 de junho de 2026

BEM-AVENTURADO

 

Gato na janela - Arquivo JRS 


      Quando a gente vive num canteiro de obras, vê e escuta de tudo, mais tolices do que coisas sérias. Expedito foi um dos companheiros de trabalho pesado que destoava muito dos demais. Era por volta de meados dos anos 80. Em Brasília, naquele tempo, era discutida uma emenda para o país voltar a ter eleições diretas para presidente, pois quem estava no comando seria o último ditador militar, aquele que dizia preferir o cheiro de cavalo do que o do povo. Expedito era contra, repetia sempre que amava os fardados. “Brigar por diretas-já é coisa de quem não tem o que fazer”.

     Descrevo agora o tipo: era um baixinho entrão em prosas alheias, que parecia não pensar bem e tinha muita dificuldade para expressar com clareza. De um ponto de vista desencontrado, todos os seus assuntos pareciam terríveis. Conversar com Expedito era cair numa armadilha e já se angustiar por uma brecha escapatória. Certa vez ele veio com esta exclamação: “Como é bom ler com imensa satisfação obras confusas de autores que não dizem porcaria nenhuma!”. Naquele momento, se eu não fosse eu, pediria ao mais próximo um café quente quinado com pinga, um “roxinho”, acompanhado de um torresmo escorrendo gordura. Eu percebi a muito custo que ele insultava autores russos. Pensei: “Deve ser assim, neste método expeditiano, que supostos intelectuais bradam contra o comunismo”.

   Dito Capixaba, conhecedor do Expedito de outras paragens em tempo bem passado, jurava: “O destrambelhado vem da nobreza rural, de gente rica que nunca faltou nada enquanto tinha escravos”. Eu acho que era mesmo porque a sua maior paixão era o xadrez. (Difícil era encontrar na obra, entre gente acostumada com betoneiras roncando, oportunidade para armar o tabuleiro). A peãozada, notando a minha preocupação em não deixar o Expedito para escanteio, dizia: “Liga não, Zé. Ele é zureta, mas não de tudo. O bom dele é ser engraçado demais”. Tião Zoró, um servente que não perdia uma missa, repetia de tempos em tempos: “Pobrezinho, é um bem-aventurado”.

     Após muitos anos, sem saber se Expedito era vivo ou morto – mas pensando nele! -, achei esta citação de Graciliano Ramos: “Apresento uma sugestão aos homens inteligentes: deixem de escrever e entreguem  a pena aos imbecis”. E eu? Eu apenas sigo sendo indulgente com estes (que cortam chinelos, bebem detergente, oram para pneu, não querem direitos trabalhistas, preferem lamber botas dos estrangeiros etc.). Desconfio que Expedito pertenceria a este time.

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