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| Gato na janela - Arquivo JRS |
Quando a gente vive num canteiro de obras, vê e escuta de tudo, mais tolices do que coisas sérias. Expedito foi um dos
companheiros de trabalho pesado que destoava muito dos demais. Era por volta de
meados dos anos 80. Em Brasília, naquele tempo, era discutida uma emenda para o
país voltar a ter eleições diretas para presidente, pois quem estava no comando seria o último ditador militar, aquele que dizia preferir o cheiro de cavalo do que o do
povo. Expedito era contra, repetia sempre que amava os fardados. “Brigar
por diretas-já é coisa de quem não tem o que fazer”.
Descrevo agora o tipo: era um baixinho
entrão em prosas alheias, que parecia não pensar bem e tinha muita dificuldade
para expressar com clareza. De um ponto de vista desencontrado, todos os seus
assuntos pareciam terríveis. Conversar com Expedito era cair numa armadilha e
já se angustiar por uma brecha escapatória. Certa vez ele veio com esta
exclamação: “Como é bom ler com imensa satisfação obras confusas de autores que
não dizem porcaria nenhuma!”. Naquele momento, se eu não fosse eu, pediria ao
mais próximo um café quente quinado com pinga, um “roxinho”, acompanhado de um
torresmo escorrendo gordura. Eu percebi a muito custo que ele insultava
autores russos. Pensei: “Deve ser assim, neste método expeditiano, que supostos
intelectuais bradam contra o comunismo”.
Dito Capixaba, conhecedor do Expedito de
outras paragens em tempo bem passado, jurava: “O destrambelhado vem da nobreza
rural, de gente rica que nunca faltou nada enquanto tinha escravos”. Eu acho que era
mesmo porque a sua maior paixão era o xadrez. (Difícil era encontrar na obra,
entre gente acostumada com betoneiras roncando, oportunidade para armar o tabuleiro). A peãozada,
notando a minha preocupação em não deixar o Expedito para escanteio, dizia: “Liga
não, Zé. Ele é zureta, mas não de tudo. O bom dele é ser engraçado demais”. Tião
Zoró, um servente que não perdia uma missa, repetia de tempos em tempos: “Pobrezinho,
é um bem-aventurado”.
Após muitos anos, sem saber se Expedito era
vivo ou morto – mas pensando nele! -, achei esta citação de Graciliano Ramos: “Apresento
uma sugestão aos homens inteligentes: deixem de escrever e entreguem a pena aos imbecis”. E eu? Eu apenas sigo
sendo indulgente com estes (que cortam chinelos, bebem detergente, oram para
pneu, não querem direitos trabalhistas, preferem lamber botas dos estrangeiros
etc.). Desconfio que Expedito pertenceria a este time.

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