quarta-feira, 3 de junho de 2026

TODO MUNDO DANÇAVA

 

Milho aos pombos - Arquivo JRS 

     Os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas etc.) e a religião muito influenciaram o fazer cultural no chão caiçara. Em qualquer lugar, né? Senti isso na minha infância quando alguns colegas não se divertiam no carnaval, não assistiam shows e estavam sendo direcionados à  cantoria apenas de hinos religiosos. Chegou a juventude e eu passei a encarar isso com mais seriedade. Gente nossa falava mal dos bailinhos que aconteciam nos fins de tarde, aos domingos, criticava os bate-pés e se julgava melhor que os demais caiçaras. O ápice disso tudo foi quando, em 1992, em entrevista ao Zé Pedro, mestre cirandeiro na Fazenda da Caixa, lhe perguntei a razão da dança da ciranda ter se acabado na Vila da Picinguaba. Está foi a sua resposta: 

     - Veja bem, antes só tinha a capela católica, todo mundo dançava. Depois foram chegando outras igrejas diferentes, dessas protestantes que diziam que era pecado dançar, que era coisa do capeta e mais coisas piores. Você imagina o estrago que fizeram essas igrejas repetindo a mesma coisa, que era coisa ruim, que Deus não queria isso, não aprovava aquilo? Com todas elas pregando que tudo era pecado, não demorou nada para a ciranda e mais outras manifestações do lugar desaparecerem, só ficarem em nossas lembranças. Tenho pena da criançada nova que não sabe de nada que tinha antes e de como a gente se divertia.

    Pois é! Na comunidade da Enseada, diziam os mais antigos, dois espaços de função ficaram marcantes em meados do século passado: a casa dos Góis e a casa do João Emboaba. Este, até quando a saúde permitiu, acolhia a todos que desejavam dançar, se divertir. Já o casal Góis, que vivia promovendo animados bate-pés em casa, se apagou após a conversão à Congregação Cristã.

     Meu pai também contava de um músico, antes católico, mas que "mudou da água para o vinho" ao passar seguir outra, a Quadrangular. Lá o missionário baixou a proibição de qualquer prática musical que não fosse dedicada aos hinos da igreja. Na verdade, estava incutindo a ideia de que a música, da cultura da terra, estava ligada ao pecado, era sensual.

     Outro fato bem marcante para mim foi quando Roberto, mestre de capoeira, se tornou evangélico e repudiou todo seu talento na musicalidade e no gingado. Dele eu herdei o atabaque com o qual fazíamos a puxada de rede e o maculelê.

      Evoluímos ou nos afogamos na miséria cultural, no analfabetismo político? E, no fim, "todo mundo dança."


          "Tudo isso acontecendo e eu aqui na praça dando milho aos pombos."


Em tempo: hoje sabemos qual país continua respaldando logística e financeiramente essa maré reacionária neopentecostal. 


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