quinta-feira, 18 de junho de 2026

FOIAPÉ

    
Puxada de rede - Arquivo JRS 

   Jefinho, o "Foiapé", acabou de passar por mim a caminho da feira. Empurrava um carrinho, desses que serve para ajuntar sucatas pelas ruas. O apelido engraçado dele remete a uma pescaria de tainhas em algum inverno passado. 
    Os registros históricos em torno dessa atividade tão necessária à cultura litorânea, nessa captura desses peixes migratórios, são antigos. Hans Staden, no século XVI, já descreveu o embate de Tupinambá e Tupiniquim por causa das tainhas na Baixada Santista. Mais recentemente, por volta de 1945, o pesquisador Carlos Borges Schmidt informou o seguinte: "Moços, velhos, crianças, moradores da praia e inclusive os habitantes do sertão, na planície e nas vizinhanças do sopé da serra" se voltavam à pescaria desse pescado, dessa importante iguaria que, na metade do ano, segue se deslocando do sul litorâneo em busca de água mais quente para a desova. 
  Jefinho, geração nova de caiçaras da praia do Itaguá, faz décadas que mora espremido no pé-da-serra, bem depois da escola "Maestro Pedrinho". Só que ainda segue a tradição na época das tainhas encostando: se ajunta com uns dois ou três da vizinhança e dá um jeito de descer até a praia para conseguir as tão cobiçadas beiçudas. 
   O apelido de "Foiapé" nasceu numa dessas ocasiões, quando a condução do grupo pifou antes da chegada ao destino, ainda bem longe. O normal teria sido desistir do intuito e voltar para casa, mas Jefinho, gente dos Mesquita, firmou posição: "Quem quiser pode voltar, ir para cama mais cedo, mas eu seguirei até o fim nem que for a pé. Sem tainha eu não fico!".


Em tempo: ainda bem que "Foiapé" vive assim, mesmo que aos trancos e barrancos, mas honestamente segue tocando a vida! Considero de todos os males o melhor porque, nas últimas décadas, o aumento dos impostos na cidade de Ubatuba obrigou muitos nativos a deixarem a beirada das praias e rumarem à delinquência. Infelizmente, né? Tô mentindo?

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