quarta-feira, 17 de junho de 2026

VIVA A PESQUISA (II)

 

Tio Maneco, um dos rabequistas - Arquivo Kilza

      Todo e qualquer localidade tem suas características específicas, suas marcas singulares. Conforme a sensibilidade de quem a pesquisa, essas vão sendo reveladas ao público.  Às vezes escapam detalhes importantes ou são omitidos valores que não aparecerão em nenhum outro lugar.  Também podem surgir revelações que  ninguém esperava. Por exemplo, nos estudos acerca do litoral norte paulista, de 1951, realizados por Ary França, toda a região, exceto o porto de Santos, é classificada como "a mais pobre, vazia e arcaica das grandes unidades do Estado". O mesmo autor, ao ver o interesse dos especuladores abrindo loteamentos (Maranduba, Lagoinha, Itaguá, Perequê-Açu....), descobrindo novas possibilidades de exploração do chão caiçara, referiu-se ao nosso lugar de forma desanimadora: "Pode-se pensar assim que a melancólica história da decadência de Ubatuba a configure como uma cidade triste, estagnada e inexpressiva".  

      Depois de um hiato temporário nas pesquisas, eis que surge o trabalho da Kilza Setti recuperando as características culturais caiçaras via musicalidade. Recolhendo material entre 1977 e 1982, ela enxergou as marcas das raízes lusitanas se fundindo a outras. Diz lá: "A figura do músico medieval comparece a este trabalho com alguma frequência. Isso se justifica pelo fato de se considerar oportuno remeter ao músico andarilho da Idade Média grande parte desta reflexão sobre o músico caiçara atual. Esta ideia surgiu em virtude de se ter encontrado muita semelhança entre a visão que a sociedade teve do músico medieval e a que tem do músico de hoje. Daí a hipótese de aproximação das categorias jogral e trovador com as categorias cantador e versista do litoral paulista de hoje".

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