quarta-feira, 27 de maio de 2026

A ESQUINA DO PECADO (II)

 

Depois do muro - Arquivo JRS 

        Depois do muro é a Esquina do Pecado. Bem cedo, por ali se avista pinos de droga, preservativos, copos descartáveis, garrafas vazias etc. Porém, a característica primeira da esquina são as prosas, fofocas e argumentações políticas, futebolísticas e religiosas. Conforme avisto quem vem se aproximando, já sei qual será o assunto. Hoje foi a vez do Dedé, neto do finado Daniel, meu chapa. O pontapé inicial foi a dificuldade nos negócios, mas logo vazou para religião e política:

      - Esses pastores ganham muito dinheiro. Para você ter uma ideia, o salãozinho perto de casa, "Ministério X", fatura 60 mil por mês só de dízimo.

     - É assim mesmo, Dedé. Daí para pior. A pesquisa diz que entre os mais ricos do Brasil, 5 são pastores (Edir Macedo, Valdemiro, Malafaia, R.R. Soares, Estevam e esposa).

      - Será mesmo! Coisa estranha, né? Mas o que eu acho errado mesmo é ficarem falando de política nas igrejas. Religião não deveria se misturar com política.

      - Pois eu discordo. Cristo morreu apedrejado ou crucificado?

      - Crucificado, lógico!

      - Pois é. Naquele tempo só ia para a cruz quem era uma ameaça política. Era a punição imposta pelo sistema. O castigo religioso era o apedrejamento. Estevão, primeiro mártir dentre os seguidores de Cristo, foi apedrejado. Que morte horrível!

     - Quer dizer então que Jesus era uma ameaça política?

     - Sim, porque ele, pobre, tomou partido dos pobres, das pessoas marginalizadas. Então seria salutar se, nas igrejas que pretendem transmitir ensinamentos de Cristo, das primeiras comunidades cristãs, houvesse reflexão sobre a vida e em torno dos compromissos dos fiéis. Exemplos: Vai votar em quem faz leis contra os pobres? Vai escolher representantes que são contra os direitos trabalhistas? Vai aplaudir quem só deseja ampliar as desigualdades sociais? Vai eleger quem acha que exterminando os injustiçados a justiça prevalecerá?

      - É, neste sentido você tá certo. Mas é complicado.

     - Você, que conhece bem o nosso povo, as pessoas que nos rodeiam, me diga: Elas usam o posto de saúde, a Santa Casa e outros hospitais públicos? Seus filhos estão na escola pública?  Muitos deles não sobrevivem graças ao Bolsa Família? Não recorrem ao SAMU, à Farmácia Popular etc.?

     - Sim, quase todo mundo que eu conheço precisa disso tudo.

     - Diante dessa realidade, Cristo estaria mais na posição de quem é a favor da direita, contra os pobres, ou questionaria e seria crucificado porque ousaria defender os empobrecidos? Como deve se comportar politicamente quem quer se comprometer com Cristo, com a comunidade?

    Depois disso Dedé se despediu porque precisava ir "resolver uns negócios".  Não sei se voltará para outras prosas na Esquina do Pecado.

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