terça-feira, 14 de novembro de 2023

PÉ NA ESTRADA








Flor no caminho - Arquivo JRS



         Mano Mingo nos faz relembrar da nossa capacidade de andar, conhecer pessoas e lugares; de guardar detalhes que ainda marcam nossa existência mesmo depois de tanto tempo. Andar é essencial, sobretudo quando o corpo começa a se recolher na jornada da vida.




A gente não parou mais

desde que nossos antepassados

nos longínquos planaltos da África

começaram a andar,

logo passaram a cavalgar, navegar,

pedalar e, por fim, voar,

cada vez mais rápido,

até ficar sem tempo de caminhar.


segunda-feira, 13 de novembro de 2023

BASTA UM NADA

 

Gaivotas no lagamar (Arquivo JRS)

      “Jesus, filho de Maria (Aparecida), era semita tostado pelo sol do Oriente Médio. Era judeu."  denominação mais antiga era hebreu. Hebreu era a grande massa, trabalhadores e trabalhadoras do Egito que deixaram aquela terra para escaparem à servidão. Portanto, hebreu era uma mistura de povos explorados pelos egípcios. "Se é verdade o que se escreveu dele, duvido que o mesmo aprovaria as perseguições ao povo palestino (semita), às minorias que estão em romaria perpétua pelo Brasil e no mundo afora. Que tal darmos as mãos a tanta gente que nem tem a alegria de uma companhia em suas vias sacras?”. 

 

    Resolvi pegar um trecho já escrito para escrever o meu presente texto, a minha reflexão de hoje. Apresentei-o ao amigo Esaú durante uma prosa no ônibus entre Ubatuba e Caraguatatuba. Nós dois íamos a consulta médica. “É, meu amigo: tem de se cuidar se quisermos viver um pouco mais, ter mais saúde!”.


   Esaú é filho de evangélicos tradicionais; estudamos juntos na escola Capitão Deolindo, em Ubatuba.. Seus irmãos – todos! – carregam nomes bíblicos. Torcedor fanático do Santos Futebol Clube, o meu amigo, caiçara da gema, estava me contando da irmã católica de mente entupida pelos discursos de algumas lideranças que abraçaram a causa fascista. Afirmei a ele que não é apenas “privilégio” dele esse tipo de “cristão”. “Na minha família há muitos. Mais de 70% dos ubatubenses votaram no genocida. Você sabe bem disso”. Duvido que eu consiga encontrar alguma família que não esteja vivendo tal dilema. “Não vamos sofrer por isso, Esaú! O que devemos fazer é argumentar para reverter isso. As pessoas têm de entender que apenas os pobres sofrem com essas ideias fascistas. Eu apenas sinto muito por tantos caiçaras e tantos migrantes explorados serem o combustível dessa engrenagem diabólica”. É a nossa gente alienada (caiçaras e migrantes “cabeça-gorda”) que está apoiando as privatizações, a eliminação dos direitos trabalhistas e outros absurdos maiores. É essa gente “cabeça-gorda” que sustenta políticas genocidas no Brasil e no mundo. É toda essa gente indisposta a uma ginástica mental. Não querem entender que as guerras sustentam a indústria bélica no mundo, cujo principal fornecedor são os Estados Unidos. Agora, uma grande guerra se apronta no Oriente Médio. É preciso um pretexto forte para usar o arsenal nuclear e dissolver a organização decorrente do BRICS, um agrupamento de países que atua no cenário internacional para enfrentar a hegemonia dos Estados Unidos, sobretudo os seus monopólios que exploram as nações mundo afora.

    “Tem muita gente que lucra com essas ideias, Zé!”. “Eu sei que tem, Esaú! Você acha que a sua irmã quer pagar os direitos para a empregada dela? Você acredita que o seu cunhado paga os impostos que deveria pagar? Pode ter certeza que nós pagamos bem mais do que o dobro! Esses empresários, mesmo sendo nada diante das grandes fortunas, também almejam não pagar nada além de viverem às custas do suor dos outros. O seu cunhado, a sua irmã e tantos outros se acham superiores. Por isso abraçam ideias absurdas, se põem contra a grande massa de empobrecidos, têm raiva de gente como nós que não assinam tais princípios fascistas. E pode ter certeza que, em todas as tendências religiosas, pedagógicas etc., há gente lucrando com isso. Daí a razão de produzir narrativas alienadoras. E digo mais: essa gente, parentes nossos, foi corrompida!”.


   Tudo isso, toda a nossa prosa rodou muito em torno da alienação do nosso povo relacionada às questões ambientais, das condições impróprias de nossas praias, de nossos rios, de nossas vias de acessos, de nossas matas etc. Creio que a cultura, nas suas infinitas manifestações (dança, cinema, teatro, pintura, artesanato...), pode ser a mística de partida para fazer um reerguimento da nossa razão de viver, de desconstruir mentes alienadas. Basta um nada para mudar tudo. Valeu, amigo!

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

NÃO BASTA LER

 

Colheita do dia no quintal - Arquivo JRS


     Dia chuvoso, favorável à leitura. Me abraço em reler o trabalho do Peter (A tradição pesqueira caiçara dos mares da Ilha Anchieta.... Peter Santos Németh) na intenção de captar mais coisas desse cidadão valeparaibano que se fez pescador, caiçara e pesquisador que muito nos orgulha. É muito importante ler obra de tal quilate, interpretar e lançar outras possibilidades que possibilitem o refazer de traços culturais essenciais à sobrevivência do nosso lugar (Ubatuba), da nossa cultura (caiçara) e do nosso meio ambiente que nos garante vida em abundância. Procure ler essa obra! Vale muito apena! Na  verdade, esses registros e tantos outros a serem feitos nos permitirão a desconstrução de um modelo, de uma mentalidade exploradora e escravizadora do ser humano. Recentemente vivemos a polêmica da demolição da capela de São José, na Praia do Félix. Porém, há quanto tempo aquele espaço estava esquecido, sem nenhum evento que envolvesse a comunidade local e a tradição caiçara? (Pior: um conhecido meu, nascido naquela praia, recentemente falecido, na sua simplicidade, se posicionava a favor dos ricos, do candidato a presidente que pregava abertamente contra os pobres, garantindo os privilégios de uma minoria. Votou nele!). Quem registrou as falas dos mais antigos a respeito da história daquela capela? Quem sabe que a última reforma significante (começo da década de 1970 - quando ganhou paredes de blocos), foi uma iniciativa saudoso do freio Pio, com tudo produzido no estaleiro do Ubatumirim? Quer pesquisar? Ainda estão vivas muitas das pessoas que colocaram a mão na massa nessa empreitada! Estamos diante do desafio de desconstruir um modelo de sociedade que vai nos levando ao fim, à extinção da espécie humana.

    A desconstrução nos leva ao direito e a justiça. O filósofo Derrida escreveu: “A desconstrução é justiça. (...) O direito não é justiça. O direito é o elemento do cálculo e é justo que haja lei, mas a justiça é incalculável”. E aqui eu emendo com a escrita do Peter, logo no começo da citada obra: “Nossa pesquisa investiga o significado sociocultural dos territórios de pesca para a comunidade da Praia da Enseada e as implicações sobre a reprodução do patrimônio pesqueiro tradicional desses pescadores, a partir da criação do polígono de Interdição à Pesca da Ilha Anchieta, instituição arbitrária unilateral que desconsiderou o direito consuetudinário dos pescadores locais, baseado no uso costumeiro ancestral e continuado desses espaços marítimos especiais”. De repente, desde a expulsão das famílias caiçaras da citada ilha no começo do século XX para a instalação do presídio estadual, os pescadores foram sofrendo injustiças após injustiças. Muitos nem chegaram a saber que, aqueles ossos, aqueles vestígios antigos naquele lugar eram bem antigos mesmo. Está comprovado: na ilha-irmã, no Mar Virado, o assentamento humano é atestado mediante o estudo de sambaqui encontrado, “se deu por um grupo pescador-coletor entre os anos 1546 B.P. a 550 d.C. com permanência mais ou menos de 900 a 1000 anos. Por volta do século X o sítio foi reocupado pelos Tupi permanecendo naquele local até o ano 1000 e no século XVI tivemos a chegada dos europeus. Do século XVIII até meados do século XX tivemos a presença marcada dos caiçaras. Trabalhos paralelos de etno-história e etno- arqueologia demonstram também a manutenção das populações pescadoras até os dias atuais” (UCHOA, 2009:p.7-8). Ou seja, a razão principal da desconstrução requer matriz ideológica, de gente que há muito tempo vive na interdependência ambiental. Não é de hoje que os caiçaras cuidam desse pedaço de chão que recebeu o título de município de Ubatuba. Portanto, resgatando as bases culturais saberemos traçar outro modelo de sociedade, de relações entre as pessoas e a natureza que permitiu essa cultura específica. Finalizo com a fala do professor Diegues, bem lembrada pelo Peter: “A história caiçara ainda está por ser escrita”. Poder escrevê-la do ponto de vista dos oprimidos é uma disposição política que implica escutar os caiçaras, o povo do lugar. Implica se engajar em movimentos combativos e indicar lideranças capazes de serem fiéis nas diversas instâncias dos poderes constituídos no Estado Brasileiro. “A justiça é o princípio regulativo do direito. Continua a ser o seu fim último, o substrato que lhe confere legitimidade e aceitação social”, como bem defendeu Rachel Nigro. Neste rumo, com um engajamento na cultura caiçara, encerro citando Peter como um bom exemplo: “Percebendo esse cenário caótico, resolvemos criar no ano de 2004 a Associação Pescadores da Enseada (APE) reunindo cerca de 15 famílias caiçaras locais com o intuito de defendermos nosso modo de vida através de uma participação maior e mais representativa na política municipal, estadual e federal. Outra iniciativa local de destaque da APE foi o Registro da canoa caiçara como patrimônio cultural imaterial do Brasil junto ao IPHAN, projeto que trouxe grande visibilidade para a importância da cultura tradicional pesqueira caiçara, atraindo apoiadores de todo o país”. Valeu o texto, caiçarada?

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

EM ROMARIA, DE MÃOS DADAS

 



Imagens da Via Dutra - Arquivo JRS


      Seguia eu e esposa pela Via Dutra, entre as cidades de Aparecida e Taubaté. Tempo bom, ensolarado, com muita gente em romaria. Afinal, dia 12 de outubro é feriado nacional, dia santo aos católicos (Dia de Nossa Senhora Aparecida).

     As imagens passavam voando pelo janela do carro, mas eu conseguia captar detalhes: andor enorme com imagem da santa, indivíduos carregando pequenas imagens apoiadas nas barrigas, gente carregando cruzes dos mais diversos tamanhos, pontos de apoio aos caminhantes, ciclistas com suas bandeiras etc. Porém, o que mais atraiu a minha atenção era o número de pessoas andando de mãos dadas: homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem... Hoje, provavelmente estão felizes em suas metas. Depois, retornam às suas cidades, às suas lidas. Felizes daqueles que têm casas para acolhê-los novamente. Como é bom estar de volta à casa depois de uma andança pelo mundo! Neste momento sinto as dores de um povo que está fadado a desaparecer: os palestinos. Os países poderosos, desde a metade do século passado, se omitiram em garantir a existência da pátria palestina. O que existiu desde então foi um campo de concentração entre o Mar Morto e o Mar Mediterrâneo. A imprensa dominante, tal como vivemos na experiência brasileira, omite os fatos e as verdades que podem favorecer, fazer justiça aos oprimidos. Assim, a maioria das pessoas continua se desinformando por mentiras que abundam nas redes sociais, nas pregações de púlpitos, em professores alienados ministrando suas aulas etc. Creio que o amigo Pires, nosso artista de Ubatuba, ontem, na Fonte da Amizade, resumiu bem: “O nível cultural da nossa gente regrediu muito! Me  enoja ainda ver tanta gente defendendo armas, apoiando genocida, querendo a volta dessa raça imbecil, cheia de maldades”.

    Voltando ao título deste, quantas pessoas portando bandeiras, camisetas com a santa estampada, cruzes etc. continuam discriminando homossexuais, prostitutas, gente preta, indígenas, pobres, moradores e andarilhos por este país afora? Quanto desses romeiros estão achando um espetáculo os bombardeios sobre a Faixa de Gaza agora? E o que dizer desses “cristãos” favoráveis ao Marco Temporal, ao fim da união civil entre pessoas de mesmo sexo, ao uso indiscriminado de agrotóxicos em nossos alimentos, à perseguição aos movimentos organizados da sociedade civil (MST, MTST, sindicatos etc.)? Pior ainda são aquelas pessoas ditas “patriotas”, apoiadoras de lideranças que defendem abertamente políticas excludentes, contra os oprimidos da NOSSA PÁTRIA, onde a referência é o homem branco e rico. Muito piores são aqueles que, na próxima semana, estarão em suas rotinas explorando quem convive consigo, quem trabalha em suas empresas, em suas fazendas etc.

    Ao ver essa gente caminhando de mãos dadas, imagino que levam como maior esperança a vitória de uma sociedade democrática, solidária, respeitosa, de iguais oportunidades independente de etnia, cor da pele, idade, opção sexual e religiosa. Espero que cada uma dessas pessoas reflita sobre o engajamento que só ela pode ter. Considerando a imagem preta salva das águas barrentas do rio Paraíba e tornada ícone nacional dos católicos, a batalha contra a discriminação pela cor da pele deveria ser a primeira bandeira de luta em nosso país. Afinal, por séculos, a mão de obra de escravizados negros garantiu a riqueza deste chão. Jesus, filho de Maria (Aparecida), era semita tostado pelo sol do Oriente Médio. Era judeu. Se é verdade o que se escreveu dele, duvido que o mesmo aprovaria as perseguições ao povo palestino (semita), às minorias que estão em romaria perpétua pelo Brasil e no mundo afora. Que tal darmos as mãos a tanta gente que nem tem a alegria de uma companhia em suas vias sacras?


quarta-feira, 20 de setembro de 2023

A CONSTRUÇÃO DO BRASIL

 

Imagem do blog do Mingo

       Mano Mingo, rodando por aí, segue escrevendo poemas das muitas andanças. Quer mais? Segue https://barbatuba.blogspot.com/



Antigamente o mundo era imenso

e as jornadas de um dia inteiro de viagem

levava a 50 km de distância

de Ubatuba a São Luiz, de São Luiz a Taubaté,

de Taubaté a Guaratinguetá

e assim a terra dos  bugres ia se enchendo de Pouso Alto, 

Passa Quatro, Pouso Alegre,

Bairro do Registro, Fazenda do Tropeiro...

Nas costas das mulas que se fez o país inteiro.

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

O BAIRRO DA FRUTA

    

Está florindo "Doce casal"- Arquivo JRS

   
Está florindo "Leninha"- Arquivo JRS

Dito do coqueiro - Arquivo JRS

Provérbio africano: “Se quiser ir longe, vá acompanhado”.


     Pontal da Cruz é um bairro, uma praia no município de São Sebastião. De acordo com Dito (do coqueiro), é o “bairro das frutas”. Há muitos tempo eu não pensava nesse lugar localizado na beira da rodovia – e do mar! -, onde morava uma das irmãs da estimada Vanda. Apenas uma vez eu estive lá na década de 1980. É um lugar bonito, emoldurado pelo azul do mar e pelo verde da mata. Mas quem é esse Dito do coqueiro?


      Conheci o Dito no hospital regional, em Caraguatatuba, enquanto continuamos acompanhando o meu sogro em internação. Falador como tantos outros caiçaras, logo soube que estava ali devido uma queda de um coqueiro: “Eu sou caiçara do Pontal da Cruz. Você conhece? O meu trabalho é de limpar coqueiros. Já tem bastante tempo que faço isso. Quer me encontrar por lá é só perguntar pelo Dito do coqueiro. De vez em quando acontece acidente, faz parte da vida, né? Dessa vez eu estava cortando uma folhas, tirando umas palhas velhas. De repente uma folha caiu, mas parou no meio do caminho, na rede elétrica, passou choque em mim. Eu caí de seis metros, quebrei um braço, a clavícula e uma costela que furou o pulmão. Fiquei mais de dez dias no hospital de São Sebastião antes de ser trazido para cá. Agora não sei por quanto tempo devo permanecer aqui. Ah! Não é a primeira vez que eu me acidentei nesse trabalho”.


     Nunca eu tinha imaginado alguém especializado em trepar e limpar coqueiros. Então... “O seu nome está justificado, Dito!”. Mas eu vou deixar que o protagonista fale mais, tá bom?

    “Sabe, Zé, eu sou caiçara mesmo. Estou com cinquenta e dois anos. A minha mãe era da praia do Bonete, da Ilhabela. O meu pai era caminhoneiro, natural da cidade de Roseira. Ele morreu muito cedo. Eu nasci em São Sebastião e nunca saí da beira do mar. A minha vida é no Pontal da Cruz, por ali trabalho e convivo. Vocês (eu e o meu sogro) precisam passar por lá, fazer uma visitinha. Vão conhecer o Bar do Badeco, tomar uma pinga com cambuci, experimentar uns salgadinhos, comer uma sirizada e outras gostosuras”.

     Ao saber que eu adoro plantas, sobretudo as frutíferas, o Dito desfilou uma sequência delas bem típicas do nosso mundo caiçara. Foi quando reafirmou que o lugar onde ele mora é o “bairro das frutas”. Dentre cambucás, bacuparis, cambucis,  mangas etc., ele me perguntou se eu conhecia fruta-pão. “É lógico que eu conheço!”. Então ele me apresenta uma novidade que movimentou o diálogo: “Da branca e da amarela?”. “Da amarela? Eu nunca imaginava que existia mais de uma espécie de fruta-pão!”. “A fruta-pão amarela é melhor que a branca, é mais doce. Se quiser mudas é só passar lá em casa que eu lhe dou”. Quer estímulo maior que uma quem gosta de plantas? Certamente que irei atrás dessa variedade, que plantarei e terei o prazer em desfrutar dessa iguaria formidável. Pode ter certeza que eu farei e repassarei mudas dessa fruta para outras pessoas!


    Não é maravilhoso descobrir novidades a cada dia, crescer em conhecimento convivendo com os caiçaras, com a diversidade cultural e étnica tão peculiar no nosso espaço?


     É isto: “Se quiser ir longe, vá acompanhado”.


Em tempo: Maria Eugênia, a minha filha, acabou de me informar que a estimada Jandira, uma mestra indígena da Boa Vista (Prumirim – Ubatuba), é quem cuida das orquídeas da aldeia.


    

  

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

TENDO CIÊNCIA NOS FATOS

 

Puxada de rede no Perequê-mirim - 1947       (Arquivo C.B. Schmidt)


      Já escreveu Laura Gutman: “É importante refletir e tentar aprender com os antropólogos, os historiadores, os arqueólogos, os filósofos, aqueles que examinam e refletem sobre a evolução do mundo e dos seres vivos para além do nosso lugar. Essa compreensão ‘ampliada’ nos oferecerá um ponto de vista realista sobre nossa pequena realidade cotidiana”.

     A introdução acima foi buscada porque me encontro diante do estudo do amigo Peter Santos Németh, que se fez caiçara com os caiçaras da praia da Enseada, em Ubatuba. Dali sentiu a necessidade de pesquisar mais, de lançar luzes no nosso viver, na nossa cultura.

     Eu sempre acreditei que as culturas são ferramentas que garantem a nossa sobrevivência e nos ajudam encontrar um propósito  de vida. Portanto, transmitir nossas raízes culturais são ensinamentos mais que necessários. O Peter, que se fez pescador com os pescadores, tal como o Roberto Ferrero e outros mais, no ano de 2016, sob o título A tradição pesqueira caiçara dos mares da ilha Anchieta: a interdição dos territórios pesqueiros ancestrais e a reprodução sociocultural local, apresentou a dissertação para obtenção do título de mestre em Ciência Ambiental, na USP (Universidade de São Paulo). Dentre outros, ele me cita como pesquisador local. Ele nem imagina o quanto me honrou o seu trabalho e o tanto de alegria em ver os seus esforços na empreitada. Parabéns mesmo! O que retransmito a seguir, com algumas adaptações entremeadas de comentários, faz parte dessa realização que deve muito à cultura caiçara, aos moradores da comunidade tradicional da praia da Enseada.

 

       O presente estudo analisa os saberes e técnicas patrimoniais utilizadas pela população dos pescadores caiçaras que atuam na região da Ilha Anchieta e Enseada do Flamengo, em Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo. Este corpo cumulativo de habilidades especiais, transmitidas oralmente, compõe o conhecimento tradicional pesqueiro local, patrimônio imaterial sobre o qual fundamentam sua reprodução sociocultural e o manejo de seus pesqueiros tradicionais.  Hoje, conforme preconiza o SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), Lei 9.985 de 18 de julho de 2000), as populações tradicionais que usam territórios dentro de unidades de conservação podem desempenhar um papel de maior destaque, sendo-lhes assegurado: o direito de uso dos recursos naturais necessários à subsistência, valorizados seu conhecimento e cultura; a participação efetiva na criação, implantação e gestão das unidades de conservação, considerando as necessidades das populações locais no desenvolvimento de técnicas de uso sustentável. Através de nossa pesquisa, localizamos as escrituras originais de “compra e venda” da Ilha Anchieta com os nomes de todos os “outorgantes” e/ou “transmittentes” (assim denominados nos documentos) e a listagem detalhada das benfeitorias “desapropriadas”. Após serem expropriados de suas posses em 1905 e 1906, essas famílias foram habitar, fora da Ilha, “praias próximas”, tais como Enseada, Toninhas, Perequê-Mirim, Saco da Ribeira, Lázaro, Flamengo e Sete Fontes.


        Quem me confirmou a informação acima foi o Seo Dito Coimbra, do Perequê-mirim, e a Dona Gertrudes, das Toninhas. Segundo esta saudosa caiçara, até a família Cabral Barbosa morava na Ilha Anchieta.


      Expulsos de seus territórios originais na Ilha Anchieta desde o início do século XX, posteriormente, por volta dos anos 1950, iniciou-se também um processo de expropriação de suas terras no continente pela especulação imobiliária que vorazmente avançava pelo litoral norte de São Paulo. “Perdendo suas terras, era todo o mundo caiçara que vinha abaixo”(MARCÍLIO, 1986: p.13). Sem mais terras para plantar e marginalizados pelos “biscates” proporcionados pelo crescente “turismo” dos anos 1950-1960, restou apenas o mar para esses originalmente pescadores-lavradores (DIEGUES, 1979: p.198-199), tornando-se a pesca artesanal seu principal meio de subsistência e último bastião da livre expressão cultural de seu modo de vida tradicional.


       Reconheço, neste parágrafo acima, o que eu pude testemunhar: quantas famílias conheci morando no continente, mas oriundos das ilhas? Alcides “Bambá”, Eugênio Inocêncio, Pedro “Vitoreiro”, Salete, Oscar e outros relembravam de seus pais e avós, de suas roças, de suas vidas relativamente isoladas, de como foram enganados, trapaceados, iludidos. No caso da Ilha Anchieta, o que houve foi uma retirada imediata da comunidade para tornar o espaço um presídio estadual. Depois, estando assentados, tendo recolonizados os espaços em terra, aparentemente estabilizados, veio a especulação imobiliária. Os espertalhões se apresentaram. Um caso que me abalou muito foi o relato da Dona Chica, esposa do Argemiro Nascimento: “A nossa família e a família do Gusto eram da praia da Santa Rita. Esse Maciel, o tal de Bráulio Santos e mais alguém que não me recordo o nome deram um jeito de negociar tudo aquilo, venderam ao Pirani. Até a capela de Santa Rita foi levada para a Enseada. Ou seja, até o padre se envolveu na negociação, no convencimento da retirada das pessoas e das suas marcas daquela praia”. Esse Pirani, citado pela Dona Chica, tinha loja no edifício Andraus (na capital paulista) atingido por um incêndio em 1972, quando eu era servente de pedreiro e trabalhava com o Seo Sebastião Honório, no Perequê-mirim. Me lembro dos comentários na obra assim que o rádio de pilha deu a notícia. Resumindo: de momento em momento, ao longo das décadas recentes, grande parte dos caiçaras foram cumprindo uma via sacra, se espremendo em áreas impróprias, sendo explorados, se corrompendo  e/ou se valendo dos saberes de outros tempos para sobreviverem. São estes saberes que fundamentaram a tese do Peter e tantos outros pesquisadores que nos acodem hoje nas muitas reflexões que lançam luzes no nosso viver. Gratidão a essa gente toda!