quinta-feira, 19 de junho de 2014

A VIDA CURTA DE UMA ÁRVORE

Era assim em 21 de setembro de 1999...

Ficou assim...


  


Em 16 de junho de 2014 ficou assim.



“Um pé de cajá-manga adolescente ainda”

        Foi nossa a iniciativa de plantar algumas árvores no terreno da escola (EE Idalina, no bairro do Ipiranguinha- Ubatuba) para abrandar o calor em épocas quentes, oferecer sombras e frutos, dar mais equilíbrio no ambiente etc. Afinal, quem não prefere um espaço arborizado para quebrar a frieza ou feiura das nossas construções? Com um certo sacrifício, fomos buscar as mudas no Monte Valério.


        Um pé de jambo ficou perto do portão, em seguida vieram as amendoeiras perto de um pé de uva japonesa que já estava bem crescido. Decidi, juntamente com os finados José Aparecido e Cleuza,  que o nosso cajá-manga ficaria o mais protegido possível, perto da secretaria da escola. E ali foi plantado o ser que media 30 ou 40 centímetros. Era o dia 21 de setembro de 1999 marcando o início da primavera.


       Neste dia – 16 de junho de 2014 – o pé de cajá-manga e o velho tarumã que se  encostava no muro foram cortados. A alegação: ambas as árvores estavam afetando a estrutura do prédio escolar. Só sei dizer que vai fazer falta. A amiga Cida assim expressou: “Era um pé de cajá-manga adolescente ainda”.

DA CANOA À TRAMELA


Tirando canoa no Ubatumirim (Arquivo Chieus)

QUEM DISSE QUE CAIÇARA É PREGUIÇOSO? 
Esta é a questão apresentada por Mário Gato.


    "O camarada foi pro mato tirar um corte de canoa. Chegando lá encontrou uma imensa timbuíba-cedro de uns 20 metros de altura, passou a mão em um enchó (ferramenta em formato de U para confecção de canoas e outros objetos em madeiras) e um machado, e assim deu início à construção de uma canoa. Depois de um mês e meio bem trabalhado percebeu que tinha algo de errado naquela humilde embarcação que já estava pronta. Da popa ele olhou bem..., olhou bem a proa... e percebeu que tinha algo de errado - fez a canoa com a proa desbeiçada ( um lado maior que o outro). Assim ele falou: 'Não tenho preguiça!' Então, trabalhou mais um dia naquela canoa torta transformando-a em cocho, no qual serviria para dar comida aos animais. Levando cocho pra casa, mais uma vez ele percebeu que o cocho também não ficara bom. Então, ele falou: 'Não tenho preguiça!' Investiu em mais meio dia de trabalho transformando o  cocho  em  uma  linda  gamela (utensílio em madeira muito utilizado para lavagem de alimentos e em outras serventias), que por sua vez também não ficou boa. Novamente ele falou: 'Não tenho preguiça!' Pensou, pensou... já sei!!! Vou transformá-la e uma colher-de-pau! Passou a mão no enchó. Toc,toc de lá, toc,toc de cá. E não é que ele fez a bendita colher-de-pau? Entregou a colher-de-pau a sua mulher para fazer doces. E, não sendo diferente das outras coisas que também não tinha dado certo, mais uma vez a colher não foi aprovada por dona Maria, vossa esposa. No dia seguinte, cansado e sentado debaixo de uma jaqueira no terreiro de sua pequena e simples casa de pau-a-pique e com um só pingo de imaginação em sua cachola, olhou para mulher que da janela lhe observava há tempo e teve uma ideia. Passou a mão naquela bendita colher, cortou o cabo e a transformou em uma tramela (fechadura de madeira fixa ao batente da janela, que ao girá-la faz a função de trancar), para a mesma janela, que vossa esposa estava debruçada lhe observando. Depois de um desmedido desperdício de madeira saiu algo que preste! Olhando para sua esposa como se estivesse feito algo surpreendente, falou: 'Sou caiçara e não tenho preguiça!"

TEXTO: DOMÍNIO PUBLICO. ADAPTAÇÃO: MARIO GATO

quarta-feira, 18 de junho de 2014

QUEM PODE EXPLICAR?

      
Ilha do Mar Virado (Arquivo JRS)
               Olá, Gisele! Que bom que você está seguindo o meu blog! 

      São tantas as coisas que continuam sem explicações aos caiçaras!

        O meu querido tio Neco e tantos outros falam das luzes que pareciam brincar na Ilha do Mar Virado, na costeira. Era só começar a balançar um tição de fogo numa praia, longe dali, que uma daquelas luzes parecia vir pulando sobre o mar, se aproximando de onde estavam os provocadores. Ao dar um fim na brasa, aquilo retornava ao seu lugar.
        Na praia da Fortaleza, já contei em outra ocasião, havia a Luz do Oliveira. Também se deslocava frequentemente da Costeira do Recife para o jundu, causando muita angústia ao esposo da saudosa Filomena.
      O pessoal da Praia Grande do Bonete também se referia às luzes do Mar Virado, que se deslocavam e caíam em pontos distantes dali. “Era Mãe do Ouro. A gente sempre via. Na Prainha tem um buraco que atesta um dos lugares dessas quedas”.
      Agora eu conto a experiência vivida pelo Deolindo e Neco Pedro, na ponta entre as praias da Caçandoca e Pulso. Ou melhor, deixo que o próprio conte:

    “Era mês de setembro. O tempo estava bom para pescaria na pedra. Eu tinha isca de bonito, podre, própria para garoupa. Neco Pedro topou ir comigo. Juntos decidimos que a Ponta do Pulso era um bom lugar. Ao passarmos pela praia, um cachorro todo feliz, da gente do lugar, nos acompanhou.

       Logo a pescaria deu sinal de ser boa. Uma garoupa e dois sargos já estavam garantidos quando o cachorro deu um sobressalto do lugar onde estava deitado, se arrepiou todo, ganiu desesperado e sumiu na correria desesperada pelo caminho que viemos. Em seguida, no mesmo instante, uma luz incomparável tomou conta do lugar. A claridade era tão grande que se enxergava todo o fundo do mar, os peixes, os pindás e outros seres. Era como se fosse um dia muito radiante. Aquilo foi muito breve. Não houve barulho algum. Quase no mesmo instante tudo voltou ao normal. Nós ficamos sem entender nada. Por precaução, resolvemos acabar a pescaria por ali. Chegou de peixe! Bastava pelo que passamos! O que era eu não sei. Quem pode explicar uma coisa dessa?”.

sábado, 14 de junho de 2014

QUE COISA É AQUILO?

Papai trabalhando na sua última embarcação (Arquivo JRS)

        No céu de Ubatuba, de vez em quando, aparecem  coisas estranhas. Algumas delas têm  mais tarde explicações científicas. É o caso do dirigível Zepellin, na primeira metade do século passado. A saudosa mamãe dizia isto:
     “Eu era criança, lá na praia da Fortaleza, quando aquela coisa apareceu no céu. Ninguém sabia o que era. Logo achavam que era o fim do mundo. Foi um tal de correr morro acima, de procurar abrigo na Pedra da Igreja e de gritar  ‘ai, meu Deus’. Aquilo passou sobre nossas cabeças e sumiu atrás do morro. Bem mais tarde soubemos que era um balão-dirigível inventado no estrangeiro.”
        
     Quase na mesma época, quando os primeiros turistas construíam suas casas na praia da Lagoinha, outro fenômeno assustou o povo da praia Grande do Bonete. O meu parente Zezinho Rozendo é o mais indicado para narrar o fato:

         “Num certo dia ensolarado, quando eu entrava na adolescência, um barulho medonho vinha do céu, da direção da Ilha do Mar Virado. Era uma grande bola branca emitindo, de quando em quando, o som forte,  parecendo um estouro num plástico esticado. Todo mundo se desesperou. Gritavam e choravam achando que era o fim do mundo. A maioria das pessoas correu para rezar na capela. Outros, sobretudo os adolescentes,  ficaram acompanhando aquela coisa branca, já meio murcha. Viram que caiu no morro do Bonetinho, da prainha do Bonete, perto do lugar conhecido por nós como Morro do Jarobá. Eu também estava naquele grupo que viu a queda daquela coisa.
        No dia seguinte as pessoas ainda estavam com medo. Continuavam, de espaço em espaço, a escutar aquele som – flapt-flapt -  de vento ensacado batendo em plástico.  Foi quando eu e mais quatro amigos (Chichico, Piquico...), mesmo sob as advertências dos mais velhos, resolvemos ver de perto o que era aquilo. Pegamos facão, roçadeira e espingarda e subimos o morro. No caminho ainda matamos uma caça e uma jacutinga.
        Não demorou muito para chegarmos ao local. Aqueles morros a gente conhecia como a palma da mão. Num alto pé de jacatirão estava aquela coisa branca. Alguns logo subiram. Encontraram entre os galhos uma caixa niquelada, com dizeres em outra língua. Tinha marcadores e muitos sinais que ninguém sabia o que queria dizer.  Conseguimos retirar aquilo e trazer para o chão. Subindo mais um pouco vimos que o material era mesmo um plástico, mas do bem grosso, com quase dez centímetros de grossura. O vento, ao enfunar de um lado, provocava um estouro, mas já bem fraco, quase sem força devido às árvores que estavam em volta. Só sei dizer que pulamos nesse  plástico como se fosse um pula-pula.  Depois cortamos o que foi preciso e, com grande sacrifício, levamos para a nossa  praia tudo aquilo.
        Era um material muito bom. Cada um foi cortando um pedaço para aproveitar para alguma coisa: fazer galinheiro, cobrir rancho etc. Até o Eduardinho, da Enseada apareceu para levar uma peça para cobrir o pano do cerco. Não me admirarei se, ainda hoje,  em algum cisqueiro, for encontrado parte daquele material!
        A caixa, escrita numa linguagem estrangeira, ficou guardada com o Piquico. Depois, quando o seu patrão da Lagoinha veio nas férias, ele levou e entregou. Na ocasião ele prometeu que a venderia em São Paulo e daria a parte dos rapazes. Mas deu?!? Desapareceu. Logo vendeu a casa e nunca mais soubemos desse homem.
        Passados uns tempos, apareceram umas pessoas estranhas querendo saber do acontecido, quem tinha achado etc.  Também veio a polícia de Ubatuba. Nossos pais tiveram de ir na delegacia prestar depoimentos. Mais tarde soubemos que se tratava de um balão dos americanos, desses que são enviados em grandes alturas do céu para pegar informação.
        Depois, com os anos passando, o fato foi se transformando. Diziam por aí que um disco voador havia caído no Bonete. Era tudo mentira. Posso afirmar isso por que eu vivi tudo aquilo.”


    Então, para finalizar: apesar desses fatos devidamente explicados, ainda perduram aqueles sem explicações convincentes aos caiçaras que os presenciaram.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

É TEMPO DE TAINHA

          
Noitada de fartura - Foto: Giles Souza Junior

Tio Dico consertando peixe no Rio Puruba (Arquivo JRS)
             Seja bem-vinda, Solange Martins, uma caiçara da Ponta Grossa!

               Olhando a imagem da primeira grande pescaria de tainha deste ano, me recordo de tantas outras de anos passados, dos relatos dos mais antigos... Vovó Martinha dizia de como foi marcante a pescaria do seu avô:  “Era uma montanha de tainhas na praia do Pulso, onde todo mundo passou o dia e chegou à noite consertando peixe. No fim, passaram a só aproveitar as ovas”.

          O alemão Hans Staden, que na metade do século XVI escreveu o primeiro livro a respeito dos costumes dos tupinambás, os primeiros habitantes desse território, escreveu que os índios tinham motivos para brigar em duas ocasiões:


            “Em dois momentos do ano tínhamos que nos precaver especialmente, pois nessas épocas os selvagens invadem o território de seus inimigos com um ardor especial. Um dos momentos perigosos ocorre em novembro, quando determinados frutos ficam maduros. Esses frutos chamam-se, na língua deles, abati, de que fazem uma beberagem denominada cauim. [...] 

          Além disso, era  preciso estar especialmente alerta em agosto, pois é quando eles pescam determinado tipo de peixe. Esse peixe muda-se do mar para a água doce das bocas dos rios com o propósito de desovar. Chama-se na língua deles, pirati, e os espanhóis dão-lhe o nome de liesses.


            Nessa época, também costumam levar a cabo expedições de guerra, para juntar maiores provisões de alimentos. Capturam tais peixes com pequenas redes ou abatendo-os com flechas. Muitos desses peixes são levados para casa já assados, mas uma parte deles é usada para fazer uma farinha a que dão o nome de piracuí.

             Ou seja, está na alma caiçara saborear tainha. "Coitado daquele que não tem esse prazer". Já dizia o velho Bermiro, lá na Praia Brava, na década de 1970.

(Notas: 1- o abati (milho) era misturado à mandioca para resultar no cauim, uma espécie de cachaça; 2- As tainhas, em seus maiores cardumes, chegam na metade do ano, por ocasião das Festas Juninas. A maior delas, num cardume, a chamada de tara, era ofertada ao santo da devoção, da festa).

segunda-feira, 9 de junho de 2014

AS ÁRVORES...

Laurentina e Leovigildo,  em 1960 (Arquivo JRS)

        Há cinco anos sepultamos dona Laurentina, a nossa mãe. Agora, no dia 8 de junho,  a terra recebeu o nosso pai Leovigildo. Este que sempre repetiu para nós: “Para morrer basta estar vivo”. Em conjunto, a partir de 1960, essas árvores nos deram a existência (Ana, eu, Mingo, Jairo, Clóvis e Guinho). As árvores se foram... Os frutos delas vingaram nessa luta chamada VIDA. Hoje, essas outras árvores já têm frutos crescendo e amadurecendo. Colheitas vêm... colheitas vão...   "É a lei da vida”.
                Papai descendia de Estevan, da Caçandoca, e de Martinha, do Pulso. Mamãe era genuinamente filha da Fortaleza, uma das preciosidades de José Armiro e de Eugênia.  Estas praias (Caçandoca, Pulso e Fortaleza) estão em nós. Porém, eu e meus irmão começamos uma nova fase na praia do Sapê e fomos muito marcados pela convivência na praia do Perequê-mirim. Resumindo:  “a maresia está entranhada em nós.”
        Nossos pais se esforçaram para nos criar num padrão de moral adequado à sociedade. A simplicidade caiçara do papai dizia que mais valia era o trabalho honesto. Já a mamãe, além do trabalho honesto, sempre deu destaque ao respeito, à vida familiar, às atitudes coerentes e sem vícios. Já dizia naquele tempo, quando entrávamos na adolescência: “Não bebam, não tenham vícios, não desprezem as pessoas. Continuem corretos em seus ofícios. Não desperdicem dinheiro. Assumam suas famílias.  Sejam responsáveis e nunca apareçam em minha casa com filhos para eu criar”.
       Ao fim de um ciclo avaliamos as contribuições dos nossos pais e de tantas pessoas em nossas vidas. Tem um fato, a respeito de papai, que não me canso de relembrar. Eu era pequeno, tinha sete anos de idade. Vivíamos na Praia da Fortaleza, entre os roçados e o mar. Éramos bem pobres. Numa tarde, ao chegar do serviço, vendo um carrinho de plástico estragado  no terreiro da nossa casa, foi logo perguntando de quem era aquilo. Eu disse que havia achado na beira do caminho, “no bananal, perto da casa do Jorge”; que peguei e trouxe para brincar. No mesmo instante ele ordenou: “Se ninguém deu para você, isso não é seu. Leve agora mesmo e deixe no mesmo lugar onde encontrou. Mais pra frente eu compro um carrinho de plástico para você."  E foi o que eu fiz. Em outras ocasiões futuras, quando a cobiça aparecia em meu pensamento, eu me recordava dessa lição aprendida no morro, perto da Badeja, onde uma casa parecia apreciar toda a Baía da Fortaleza.
       Durante o velório, na parte da noite, os que lá permaneceram puderam partilhar de histórias e causos. Em ocasiões assim os caiçaras revivem tantas memórias!

      Agradeço, em nome de todos os irmãos, a todos que foram solidários nessa situação inevitável para qualquer vivente. Infelizmente não conseguimos avisar a todos os parentes e amigos desse homem mais conhecido por “Carpinteiro”.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

CANOA CAIÇARA: HISTÓRIA, VALOR E MEMÓRIA SOCIAL

Dito Grande no jundu da Enseada (Arquivo Peter, o Alemão)
                  Sempre é gratificante descobrir ou relembrar de outras pistas, de outros caminhos e de outras pessoas que vão dando consistência à nossa convicção de que devemos resistir à padronização de culturas e valores imposta por um sistema econômico globalizante.É isso aí, Peter!

            Já há algum tempo não escrevo sobre as Canoas Caiçaras, no último ano tenho me dedicado aplicadamente à pesquisa. Iniciei meu mestrado em Ciência Ambiental pelo Procam-USP o que tem me tomado muito tempo. Já tenho o esboço de alguns artigos sobre o Valor Econômico do Saber Tradicional Caiçara e também sobre A Pesca de Marcação em São Paulo, breve publicarei trechos.
Foi pesquisando para esses textos que me deparei no NUPAUB com a publicação: PESCADORES DE ITAIPU, de Kant de Lima e Luciana Pereira, EDUFF-1997.
Recomendo a leitura desse trabalho, de onde extraí o pequeno trecho abaixo que não entrou, mas deveria, no Dossiê Canoa Caiçara:

De qualquer forma, é interessante chamar atenção para um fato que talvez contribua para a determinação desse valor (exato valor das canoas), que não existe, por exemplo, nas referências ao valor monetário de seu produto no mercado. É que essas canoas, todas, têm histórias, vinculadas à história de seus proprietários anteriores e atuais, aos lugares de procedência, às condições específicas de sua aquisição e transporte, tornando-se quase que expressões não só das histórias das pescarias de Itaipu, como de todos os grupos de pescadores que com elas mantém ou mantiveram relações. (...)Essas canoas são, assim, mais do que objetos artesanais, verdadeiras memórias sociais.

           Esse trecho define muito bem o sentimento que tenho quando restauro uma canoa. Ao lixar sua madeira, diversas camadas de tintas superpostas se revelam, e fico a imaginar quantos donos anteriores, quantas esperanças, anseios, projetos, intensões foram depositadas a cada pintura, compondo nessa memória social a alma da Canoa. Já cheguei a contar 11 camadas diferentes, e nessa última que estou restaurando, tenho pensado em como preservar ao menos um pedaço que exponha todas essas camadas anteriores justamente para registrar esse aspecto singular.
FONTE: canoadepau.blogspot.com