quarta-feira, 8 de agosto de 2012

CÂNTICO ENTRE MALHAS


Apresentação dos alunos (Estufa- Ubatuba)
Puxada de rede na praia do Pulso (Ubatuba)

Mestre de rede aguardando companheiros (Camaroeiros - Caraguatatuba)

                A minha rede vai sair pro mar/
                Vou trabalhar, meu bem querer.
                Se Deus quiser quando eu voltar do mar/
               Um peixe bom eu vou trazer.
                Meus companheiros também vão voltar/
                E a Deus do céu vamos agradecer.

                Pescador que veio à pesca/ Pescador que veio pescar.
                Ele se senta na areia/ Esperando o tempo passar.


                Vem a noite/ Vem a noite.
                Olebaê, olebá.

                 A minha rede vai sair...

                Quem foi quem trouxe para levar/
                A dona Janaína lá pro fundo do mar.

                Pente de osso, laço de fita/
                A dona Janaína que era moça bonita.


                Ei nanoaiê, aiê caboclo/ Ei nanoaiê, aiê puxá.

                E puxa a rede de ioiô/ Aiê puxá.

                E puxa a rede de iaiá/ Aiê puxá.


                Puxa mar, marinheiro, puxa mar/

                E olha o vento como leva pela barra.

                E puxa mar, marinheiro, puxa mar


                Menina, não caia n’água.

                Menina, maré te leva.


                Aiê, cana-mirim/ Aiê, canavial.

                Cana que não dá açúcar/ Não fica no canavial.


                Aiê, pau doce/ Maracujê.

               
                Olha o peixe, olha o peixe.


                Bendito seja, ora, valei-me Mariá

                Graças a Deus, ora, meu Deus/

                Louvado  seja Deus, ora, meu Deus.



                Você é de lua/ Eu sou de maré.

                Com a rede fora d’água/ Eu vou dar no pé.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

PUXADA DE REDE



Por vários anos, desde 1990, os alunos da Escola "Aurelina", no bairro da Estufa II, apresentaram a Puxada de Rede. Hoje, a pedido do meu amigo Nerci, publico a introdução daquele espetáculo que marcou a história de muita gente.


Introdução:

Leitor 1:     Os atos humanos são possíveis de transformações, de receberem acréscimos para que fiquem mais agradáveis, com mais  movimentos etc. Enfim, tudo pode, com uma pitada de criatividade, ficar mais gostoso. Assim foi o que aconteceu com a vida de dureza, que é o trabalho do pescador, principalmente daquele que pesca artesanalmente.

Leitor 2:     Primeiramente é preciso imaginar os negros como escravos por mais de trezentos anos na história do Brasil. Depois, para quebrar a monotonia da pesca de rede puxada na praia, eles emprestaram aos movimentos dos homens do mar a graça do ritmo e da coreografia ao som de seus instrumentos, fazendo do cansaço na maresia uma alegria sem igual.

Leitor 3:    É uma forma de resistência. Provavelmente eles já traziam da Mãe-África essa singular arte. Afinal, muitos dos escravizados provinham do litoral do imenso continente negro. Aqui só receberam os ingredientes dos índios e dos portugueses pobres.

Leitor 1:      No Estado da Bahia, região em que  a fidelidade às raízes sempre foi muito forte, os negros cultivam com muito entusiasmo a Puxada de Rede. Por volta de 1978, através do trabalho desenvolvido pelo mestre de capoeira JEQUIÉ, esta arte foi trazida para Ubatuba, onde o pescado sempre foi uma base importante na cultura caiçara.

Leitor 2:      Nós, membros da escola local, há anos nos dedicamos nos ensaios e apresentações para que a iniciativa do mestre JEQUIÉ nunca esmoreça. É preciso que o povo tenha sempre viva-memória daquilo que brotou da criatividade da alma e da resistência à morte.

Leitor 3:      A pesca do xaréu, da tainha e de outros tantos é um espetáculo de poesia, de canto e de ritmo ligado ao mar, às ondas em sua inigualável força.

Leitor 1:    Para uma redada na praia são necessários muitos braços, muitos homens fazendo força no lagamar, os atadores, um mestre do mar, um mestre de terra e um mestre geral.

Leitor 2:      A rede é  tecida durante os meses em que o peixe deixa de passar. São necessários muitos metros de cordas, quilos e quilos de fios, um  mundão de cortiças e chumbeiros. Por fim, haja paciência!

Leitor 3:    É um trabalho sem fim, de fio a fio, pago por braças que vão se fazendo nos nós. As malhas grandes e os cabos de corda recebem banho de casca de aroeira ou de cajueiro, boias de cortiça, pesos suficiente na parte de fundo. Depois tudo isto vai ao mar.

Leitor 1:    É uma embarcação  enorme que carrega essa rede; tripulada por gente que conhece quase todos os segredos do mar. Ela atravessa a arrebentação como uma imensa tartaruga, desovando uma longa fileira de boias num grande semicírculo que cercará os peixes.

Leitor 2:    Não há viva alma nos ranchos do jundu. Todo mundo está na praia. Em pequenas embarcações os homens do mar sondam, calculam a quantidade de peixes no cercado.

Leitor 3:     O mestre do mar, agitando o chapéu e por assobios, transmite tudo ao mestre de terra. Do mestre geral vem a ordem de iniciar a puxada da rede. A areia é alva; os pescadores são escuros de nascença ou curtidos pelo sol abrasador. Da luz intensa da manhã sobe um cântico empolgante.

domingo, 5 de agosto de 2012

SEMPRE É POSSÍVEL!




                Revendo algumas fotografias encontrei de tudo um pouco: desde as antigas, lembrança do lambe-lambe (na época era a grande novidade tecnológica), em Aparecida, passando pelos monóculos, onde era obrigação fechar bem um olho para, contra o sol, enxergar os detalhes, e, até uma emocionante regata de canoas, com uma multidão de caiçaras às margens do rio Puruba. Isto já na era digital.

                Não faz tempo isso! A primeira pessoa que me vem à lembrança é o saudoso Ney Martins, que conseguia mobilizar as comunidades e os grupos, tinha um mínimo de apoio logístico da prefeitura. E lá, na segunda semana de setembro de cada ano, se encontravam os caiçaras. Tinha uma peixada; um pirão de causar gula até hoje só de recordar.

                As canoas eram parte de outro espetáculo: coloriam a margem de cima do rio. Remadores e remadoras se engalfinhavam nas diversas categorias de provas. Os melhores remadores caiçaras marcavam presença, suavam nas disputas, mas terminavam numa grande confraternização.

                Outros espetáculos eram: as corridas pedestres, onde os campeões eram os descalços, e, os grupos folclóricos dos diversos bairros completavam a da diversão. Finalmente, uma missa organizada pelos animadores do local (tia Baía e sobrinhada), encerrava os festejos da Exaltação da Santa Cruz.

                Sempre é possível resgatar o que é nosso!

sábado, 4 de agosto de 2012

SÓ PORCARIA!




                O menino Kiko, no primeiro semestre do ano letivo, certamente por preguiça e falta de estímulo, faltou muito às aulas. Praticamente desapareceu nos meses de maio e junho. Agora, na primeira  semana deste semestre, compareceu todos os dias.
                Na tarde de quinta-feira lá estava o Kiko na biblioteca. Passou rapidamente por algumas estantes. Parou nas prateleiras dos filmes. Parecia interessado nos títulos. Era quase certo que emprestaria alguns deles para levar e assistir em casa. É hábito dele. Quem não gosta de filmes?

                Ao avistar o  adolescente, a bibliotecária cumprimentou-o de forma afetuosa. É assim que deve ser! De supetão perguntou:

                - E aí, Kiko, agora vai pegar firme?

                A resposta dele?

                - Que nada! Tô vendo aqui, mas só tem porcaria!

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

EIS A REALIDADE! O QUE FAZER?

Em 26/12/2010, eu escrevi o seguinte texto para ser publicado no O Guaruçá. A pretensão era ser uma contribuição ao texto do Júlio (O professor e o parlamentar). Afinal, o cidadão conhecedor das condições docentes, não tem como discordar e deixar de sustentar a lamentação: uma classe responsável pelo alicerce da nação, padecendo tais agruras, não será capaz de realizar um efetivo trabalho para que este país seja realmente Nação.       







            Eu já escutei em diversas ocasiões que a profissão – ser professor - agora é de inclusão. Ou seja, dentre os muitos abnegados mestres, há os espertalhões, os providos de caráter duvidoso, empurrados para fora do Ensino Médio, que, ao se inscreverem em qualquer faculdade, já podem participar em atribuições de aulas. Há casos de personalidades medonhas trabalhando com a educação de nossas crianças. E os pais, acomodados ou confiados que são na escola, esperam muito de todos os professores, sem se preocuparem na fiscalização de seus trabalhos. Some-se a isso o fato de muitos pais terem terceirizados seus filhos (“A escola agora também tem que ser pai e mãe. Assim é fácil ter filhos!”). Para encurtar a conversa, neste contexto é fácil entender porque predomina, entre os cidadãos, uma cidadania apática; que reclama, no máximo, com os seus botões. O grande contingente, os não-cidadãos, formados (?) por professores e pais em lastimáveis condições, correm por fora, mas contagiam cada vez mais pessoas com a lei do “leve vantagem”. Assim sujam tudo, destroem a natureza, detonam riquezas culturais de séculos, ocupam as calçadas com os seus “pontos comerciais”, tiram vantagens através do puxa-saquismo, caluniam a vizinhança que é intransigente e correta, desprezam a família como principal formadora de cidadania, se empenham para “o quanto pior melhor”, se promiscuam em degradações possíveis e inimagináveis etc. Daí então, no quadro retratado pelo Júlio, aparece o verdadeiro professor: o idealista capaz de desejar, do fundo da alma, que a presente geração seja melhor do que a dele. Só isto tem sentido: se acreditamos na evolução do ser humano, só faz sentido educar para a superação. Os meus filhos e os filhos deste momento histórico devem ser melhores do que eu. E isso só se consegue através da educação!

            Só uma educação de verdade será capaz de desencadear, por exemplo, uma ação de todos contra a legislatura em causa própria da maioria dos políticos que aí estão. Imagine, diante de um aumento descarado, estratosfericamente fora da margem do reajuste do salário mínimo do trabalhador brasileiro, restaria, depois de tantas atitudes possíveis, uma posição: todos deveriam deixar de pagar impostos. Afinal, não é dessa fonte que os “vampiros do povo” se nutrem? Eis uma ação não violenta que qualquer educado é capaz de fazer para realizar a CIDADANIA. Portanto, esta palavra desgastada porque ideologizada em favor de uma elite, torna-se o rumo do bom professor. Parabéns ao Júlio porque dá linhas mestras e age por CIDADANIA. Que muitos professores - recebam aqui os meus sinceros parabéns! - continuem acreditando e fazendo bem além do possível para a educação de nossos filhos, pois só assim teremos uma sociedade melhor. A todos: tenham como rumo de proa para cada dia vindouro a CIDADANIA, sobretudo a partir da nossa realidade mais próxima, da nossa cidade que merece fazer importantes acertos de rota e vai precisar de muita gente boa para tal realização.


                                               

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

E POR FALAR EM FLORES...




                Não é que o nosso mato está cheio de maravilhas para compor moderníssimos arranjos florais!?

                Neste caso, o belo arranjo é  mais um elemento de acolhida aos professores e demais funcionários por parte da diretora da escola “Semíramis”, no Saco da Ribeira. Propaganda: ela –Márcia – é especialista em ikebana.

                “Essas helicônias”, eu expliquei ao pessoal, “vira um brinquedo que nós chamamos de marrequinho. Quando criança, o meu pai, nas suas andanças pelo mato, sempre trazia para nós esse afago. É só abrir o bico terminal para se deliciar com a voz de marreco”.

                Uma mestra japonesa ensina que a missão da flor é alegrar a vida, elevar o nível do sentimento humano e harmonizar o ambiente. Eu já sabia!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

MARDITA!


Manoel Rômulo explica o seu empreendimento.
Presentes do Antônio


                Muitos já sabem que não é nova a nossa tradição caiçara na produção de cachaça. Alguns documentos atestam mais de 25 engenhos no final do século XVIII. Para quem conhece a geografia do município de Ubatuba (SP- Brasil), não acredita que, em pontos tão reduzidos, os produtores se estabeleciam. Um exemplo é o Canto do Recife, na praia da Fortaleza.

                O meu tio Chico, falecido há mais duas décadas, chamava a cachaça de “mardita”. Nós, continuamos essa tradição. Difícil é achar alguém da minha terra que não goste de uma boa “mardita”.

                Na minha infância os tempos eram outros: os engenhos minguaram. Somente a Ubatubana fazia sucesso. Que mardita cheirosa! Só que não conseguiu competir com a produção industrial.

                Próxima de nós, na vizinha São Luiz do Paraitinga, o caridoso Manoel Rômulo Cembranelli, primo do nosso querido professor Hércules, mantêm a Cachaçaria Matodentro. Passa lá!

                Ontem, recebi um presente do amigo Antônio: cachaça da sua terra, lá do interior (Mirassol). Que presente! Os mais antigos diriam:
                "Isso é que é afago bom!"