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sábado, 22 de junho de 2019

AULA NO SERTÃO



Aula no sertão (Arquivo JRS)

            No dia 19 de junho de 2019, eu, a professora Alícia e a turma do 3ºA, da E.E. “Florentina M. Sanchez”, passamos uma tarde de aula muito diferente: fomos acolhidos no Ubatumirim pelo professor Elizamar e equipe local. Na verdade, fomos ao sertão da Sesmaria do Ubatumirim.  Lá chegando, me lembrei de um morador antigo, do Melentino, cujo primeiro contato eu fiz em 1981, por ocasião do censo agropecuário.

            Na ida, o motorista do ônibus, muito camarada, parou no mirante da estrada para uma sessão de fotografias. Parabéns pelo gesto! Na estrada para o sertão, Elizamar nos aguardava. Assim que desembarcamos, começamos a trilha monitorada pelo anfitrião. No início, na primeira parada, ouvimos a explanação sobre os aspectos geográficos do lugar: serras, planície, rios, mata ciliar etc. O destaque foi para as transformações constantes, pela força das águas, dos caminhos de servidão. Andamos por uma mata exuberante, ouvindo os pássaros; de vez em quando algumas casas... Beleza!

            Ao chegarmos ao acesso da área do Elizamar, outro parceiro já nos aguardava para explicar o trabalho extrativista, de plantio e de preservação ambiental desenvolvida por eles. Nesse momento valeu tudo: desde experimentar cacau até tentar subir na palmeira pupunha. Parabéns aos meninos pela empolgação. Após contato com os demais familiares, nova explicação sobre a horta, o cultivo sob a mata, a produção de energia, o banheiro de serragem, a compostagem etc. E logo ali um chiqueiro para os curiosos apreciarem, com direito a escorregão no morro.

            O momento tão aguardado foi o do lanche: polpa de jiçara (ou juçara), café, leite, bolo, mandioca, banana... Tudo delicioso! Prosas e prosas, mas o pessoal se lembrou do rio, do tão esperado banho. Alguns corajosos enfrentaram a água fria, mas logo estávamos nos despedindo para o retorno. Ainda deu tempo de uns ousados se agarrarem a uma corda e se jogarem no rio no meio do caminho. Elizamar, a companheira e a filhinha foram conosco até onde estava o motorista e o ônibus nos esperando. Muito bom mesmo! Ah! “Longe, né?!?”. Agora o pessoal sabe o porquê do professor Elizamar deixa de dar aulas algumas vezes.

            Aproveito, hoje, para dar outras informações a respeito do espaço visitado, o chamado sertão da Sesmaria do Ubatumirim. Quem se interessar, pode procurar mais detalhes no meu blog (coisasdecaicara.blogspot.com). Trata-se de uma entrevista antiga que fiz com dona Sílvia Pollaco Patural: ela e o marido, ainda jovens, vieram viver no Brasil, cultivar bananas em Ubatumirim. O título é:

Franceses sonhando em terras de Ubatuba

        De fato as terras do Ubatumirim, sobretudo as da Sesmaria, nos agradaram muito. Aí fomos acolhidos na casa da família do Manoel Leopoldo. Para a dormida nos dispuseram uma sala com esteiras e penico, onde havia um montão de sapê secando. Era um calorão de janeiro; baratas passeavam por todos os lados. Ao abrirmos a porta para a entrada de frescor, também entraram os cachorros. Mesmo assim, nós, de tão cansados, desmaiamos. No dia seguinte fomos conhecer a Sesmaria, dos Nunes Pereira. Gostamos muito. Ainda bem que a volta para a cidade foi de canoa.
        Chegando à cidade, logo procuramos nos informar sobre a situação legal daquelas terras. Quem nos deu segurança e nos garantiu da propriedade dos Nunes Pereira  foi o coronel Ernesto de Oliveira, pai do “Filhinho” (da farmácia). Satisfeitos e cansados embarcamos no ônibus para Taubaté. A viagem durava na média de quatro horas, mas o tempo tinha de estar bom, sem chuva, senão...
        Após um breve período fizemos a segunda viagem para o Ubatumirim. Desta vez a noite nos alcançou na praia da Itamambuca. Novamente pedimos pouso, mas as condições estavam tão críticas, enquanto que o luar e a noite estava tão convidativos, que acabamos pegando uma  humilde coberta que nos ofereceram e fomos dormir nas areias da praia. Jean-Pierre somente ajeitou os “travesseiros” com a própria areia. Só sei que acordamos no dia seguinte com o sol brilhando e a maré quase nos alcançando os pés. Chegando no Ubatumirim nos reencontramos com o Mané Leopoldo e compramos a Sesmaria do Ubatumirim, que era dos Nunes Pereira. Ela distava seis ou sete quilômetros da praia. Mais tarde nós compramos mais uma posse.     Logo iniciamos a plantação de bananeiras, alcançando a marca, em poucos anos, de trinta mil pés.
        A primeira dificuldade sentida era com relação ao deslocamento, pois se perdia muito tempo indo a pé desde a cidade até o Ubatumirim. Me parece que pelo mar a distância era de vinte e dois quilômetros, enquanto que por terra, seguindo o caminho usual dos caiçaras, perfazia trinta e seis quilômetros.
        Eu trabalhava lecionando francês em Taubaté, enquanto o meu marido se dedicava com exclusividade ao nosso empreendimento em Ubatuba, pois tínhamos camaradas que precisavam ser orientados e acompanhados em seus trabalhos, senão... Dessa necessidade surgiu a ideia de se fazer um barco. Foi quando o nosso quintal em Taubaté se transformou num mini-estaleiro, recebendo as madeiras e o motor de centro-modelo Ford alemão.

        
         Após anos plantando, com vários funcionários (Dito Rolim, Melentino...), a plantação estava em franca produção, começando a dar lucro. Surgiu a necessidade de aprimorar o transporte dos produtos. Era o ano de 1958 quando compramos, na Casa Granadeiro, em Taubaté, um trator. Questão: Como trazer o trator para Ubatuba, depois levá-lo até o Ubatumirim? Solução: Desmontá-lo todinho, transportar pela rodovia e pelo mar, e, remontá-lo na roça, onde ficou definitivamente.
        Aconteceu a melhoria na estrada da Sesmaria para o trânsito adequado do trator. Para levar o trator até o bananal, Jean-Pierre abriu uma estrada de sete quilômetros, sem máquinas, apenas com foices e enxadas. No local denominado “gurita” foi preciso fazer uma ponte de madeira que fosse bem resistente para que pudesse passar o trator puxando a carreta carregada de bananas. Ele ainda ensinou um empregado chamado Freitas a dirigir o trator, dando algumas noções de mecânica; pensava, num futuro próximo, ensinar outros rapazes e montar um curso para a formação de técnicos agrícolas. Foi uma grande novidade. Era gostoso ver o trator repleto de meninos, com o meu marido passeando com eles; lotavam a carroceria. Essa condução era atrelada a um carroção que escoava toda a produção para a praia, onde um barco grande, cujo nome era Manaus,  comprava tudo”. (Observação: a entrevistada disse que a compra das terras da Sesmaria se efetivou em 1954).

sábado, 11 de junho de 2011

Franceses sonhando em terras de Ubatuba (Parte III)

        
        De fato as terras do Ubatumirim, sobretudo as da Sesmaria, nos agradaram muito. Aí fomos acolhidos na casa da família do Manoel Leopoldo. Para a dormida nos dispuseram uma sala com esteiras e penico, onde havia um montão de sapê secando. Era um calorão de janeiro; baratas passeavam por todos os lados. Ao abrirmos a porta para a entrada de frescor, também entraram os cachorros. Mesmo assim, nós, de tão cansados, desmaiamos.
        No dia seguinte fomos conhecer a Sesmaria, dos Nunes Pereira. Gostamos muito. Ainda bem que a volta para a cidade foi de canoa.
        Chegando à cidade, logo procuramos nos informar sobre a situação legal daquelas terras. Quem nos deu segurança e nos garantiu da propriedade dos Nunes Pereira  foi o coronel Ernesto de Oliveira, pai do “Filhinho” (da farmácia). Satisfeitos e cansados embarcamos no ônibus para Taubaté. A viagem durava na média de quatro horas, mas o tempo tinha de estar bom, sem chuva, senão...
        Após um breve período fizemos a segunda viagem para o Ubatumirim. Desta vez a noite nos alcançou na praia da Itamambuca. Novamente pedimos pouso, mas as condições estavam tão críticas, enquanto que o luar e a noite estava tão convidativos, que acabamos pegando uma  humilde coberta que nos ofereceram e fomos dormir nas areias da praia. Jean-Pierre somente ajeitou os “travesseiros” com a própria areia. Só sei que acordamos no dia seguinte com o sol brilhando e a maré quase nos alcançando os pés. Chegando no Ubatumirim nos reencontramos com o Mané Leopoldo e compramos a Sesmaria do Ubatumirim, que era dos Nunes Pereira. Ela distava seis ou sete quilômetros da praia. Mais tarde nós compramos mais uma posse.     Logo iniciamos a plantação de bananeiras, alcançando a marca, em poucos anos, de trinta mil pés.
        A primeira dificuldade sentida era com relação ao deslocamento, pois se perdia muito tempo indo a pé desde a cidade até o Ubatumirim. Me parece que pelo mar a distância era de vinte e dois quilômetros, enquanto que por terra, seguindo o caminho usual dos caiçaras, perfazia trinta e seis quilômetros.
        Eu trabalhava lecionando francês em Taubaté, enquanto o meu marido se dedicava com exclusividade ao nosso empreendimento em Ubatuba, pois tínhamos camaradas que precisavam ser orientados e acompanhados em seus trabalhos, senão... Dessa necessidade surgiu a ideia de se fazer um barco. Foi quando o nosso quintal em Taubaté se transformou num miniestaleiro, recebendo as madeiras e o motor de centro-modelo Ford alemão.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O RABEQUEIRO


Ricardo, o rabequeiro do Ubatumirim (Arquivo  A Semana)
Tio Maneco e sua rabeca (Arquivo Kilza Setti)
Ricardo e as crianças  (Arquivo Kilza Setti)

                   Ao ler ou ouvir a respeito do Ricardo, logo me recordo dos nossos encontros, quando os herdeiros do Nunes Pereira se reuniam para lutar pelas terras do Ubatumirim. Eu cavava os momentos para prosear com ele a respeito da sua arte e da correria dos últimos tempos, quando se deslocava colhendo ostras para se garantir honestamente. Também não posso deixar de citar os vários momentos que presenciei de muita amizade entre esse grande rabequeiro e o meu Tio Maneco Armiro, um grande rabequista, ambos autodidatas do mundo caiçara. Desde já, agradeço a Eli Ana pela contribuição ao texto original.

Personagens caiçaras que marcaram época.


           O som da sabedoria caiçara “O verdadeiro rabequeiro de toda região foi de Ubatuba. Autodidata, o caiçara da praia do Ubatumirim aprendeu apenas no olhar a confeccionar as mais belas rabecas que os olhos já viram. O instrumento de um tronco, valorizado como objeto de arte pela população que pouco tem contato com as danças tradicionais como a Folia de Reis, isto só é possível porque existiu as mãos... do sr. Ricardo Nunes Pereira”
         Filho das terras do Ubatumirim, região norte de Ubatuba. Toda sua família sempre foi daquela localidade: Seu bisavô Cabral foi o primeiro proprietário de todas aquelas terras. Com o passar do tempo, as coisas mudaram e a dificuldade econômica reinou no lugar. Sua mãe, faleceu com seus 105 anos, nunca conheceu outro bairro ou praia. O Sr Ricardo teve com Dª Francelina Maria Pereira nove filhos e este foi um dos principais motivos que tanto trabalhou. Para o sustento, ele fez de tudo um pouco: pescaria, limpeza de roça, venda de ostras na praia da Enseada e Almada, fez artesanato de madeira e taquara e deu aula nos últimos anos de vida do ofício que mais se orgulhava e trouxe experiência de toda uma vida: a arte de fazer rabecas. Este instrumento é uma espécie de violino de som fanhoso. O Sr Ricardo escolhia carinhosamente a madeira que sua experiência lhe permitia e afirmava que as melhores eram a guairana e o cedro e as esculpia cuidadosamente, trabalhando primeiramente sua forma exterior e depois interior. Sua rabeca tinha uma durabilidade infinita, ele as afinava e pronto: já estava pronta para o próximo rabequeiro, o admirador do instrumento.
               O Sr Ricardo dizia que aprendeu apenas olhando a Folia na roça. “Quando o violinista ia andando, saía de uma casa e entrava na outra, ele ia olhando na rabeca dele. Aí, ele ia embora e ele entrava na mata, cortava uma madeira e fazia uma. Com dez anos de idade ele começou a fazer rabeca; ninguém ensinou, ele olhava o violinista da folia e recortava a madeira e fazia”, dizia ele.
         Suas rabecas foram até para o exterior (França e Portugal) adquiridas como obras de arte. Ele foi único rabequeiro oficial de Ubatuba que se teve notícias, ensinou está a arte para as crianças da fundação “O Menino e o Mar” e adultos na Fundart. Ele dizia que quando era convidado a estar nas danças folclóricas como a Xiba, São Gonçalo e Folia de Reis sempre participava tocando uma de suas rabecas, mas tocar não era seu forte.
          Sr Ricardo era muito querido na cidade de Ubatuba, deixou aqui muitas saudades para todos que o conheceram.
Nos deixou no ano de 2010.

FONTE:Jornal a Semana
Adaptação para data atual : Eli Ana De Oliveira Figueiró da Silva

sábado, 28 de abril de 2012

ELA HABITOU ENTRE NÓS




Sílvia, a jovem francesa em terras do Ubatumirim.
           

            Ontem, dia 27 de abril, aos 90 anos, a dona Sílvia Polacco Patural nos deixou após ter vivido um belo exemplo de cidadania. Quem não a conheceu, recomendo que leia o que eu pude registrar dessa mulher lutadora e corajosa (coisasdecaicara.blogspot.com – postagem em junho/2011).
             Eis um pequeno fragmento de sua fala. Ainda bem que eu tive essa oportunidade!

            “No ano de 1954,osse capaz de "m,  duas e a netinha Renata), agem do casal.  o qu nós partimos à procura de um lugar que, além de agradável, fosse capaz de oferecer as condições propícias de cultivo e de instalações. Meu marido era um empreendedor. O lado sul do município logo ficou fora de cogitação. Motivo: a abertura da rodovia Ubatuba-Caraguatatuba estava sendo concluída, fazendo com que os preços das terras daquele lado encarecessem muito. Então nos falaram do lado norte, das vastas áreas e de outras vantagens.

            Num final de semana, após deixarmos a Patrícia com alguém de muita confiança em Taubaté, começamos a nossa aventura para o lado norte do município. Por volta do meio-dia deixamos a cidade, seguindo sempre a pé.  Passamos o Perequê-açu, o Saco da Mãe Maria, a praia Vermelha com suas areias grossas, a praia do Alto - que até hoje é muito bonita -, a praia de Itamambuca. Imagine tudo isso a pé e com muito calor! Depois chegamos ao morrão da praia do Félix e, finalmente, paramos ao escurecer, na praia do Léo - aquela que, desde 1991, devido a um desabamento da estrada após forte chuva, está soterrada numa boa parte, se transformou em duas.

            Na praia do Léo batemos palmas numa casa e perguntamos se havia ali por perto alguma pousada ou coisa do gênero. Imagine só!!! Isso era comum na Europa. Disseram que não. O que puderam nos oferecer foi um pouso, numa cama simples com esteira de taboa. Foram muito gentis conosco.  No dia seguinte, já sabendo dos nossos motivos, disseram que para os lados do Ubatumirim e do Puruba é que tinha boas terras. E era mesmo! Pura verdade!

            No rio Puruba nós paramos e esperamos um bom tempo até que o balseiro aparecesse. Parece que ele estava almoçando, depois deve ter dormido um pouquinho. Nem me lembro mais direito deste detalhe. Só sei que ele apareceu e, assim alcançamos a praia da Justa. Finalmente, depois de um pequeno morro, estávamos no Ubatumirim.

            De fato as terras do Ubatumirim, sobretudo as da Sesmaria, nos agradaram muito. Aí fomos acolhidos na casa da família do Manoel Leopoldo. Para a dormida nos dispuseram uma sala com esteiras e penico, onde havia um montão de sapê secando. Era um calorão de janeiro; baratas passeavam por todos os lados. Ao abrirmos a porta para a entrada de frescor, também entraram os cachorros. Mesmo assim, nós, de tão cansados, desmaiamos.

            No dia seguinte fomos conhecer a Sesmaria, dos Nunes Pereira. Gostamos muito. Ainda bem que a volta para a cidade foi de canoa”.

terça-feira, 10 de março de 2015

AS FRANCISCANAS EM CARAVANAS

Frei Pio, alguns caiçarinhas, Maria, Iolanda, Antônia e outras religiosas, na escola da Almada. (Arquivo Iolanda)
       Que felicidade em receber o texto e as fotos da Irmã Iolanda! É inegável a importância do trabalho das religiosas Franciscanas Missionárias de Assis (FMA) no nosso município! Sinto-me honrado em publicar a todos este material. Agradeço de coração!

“Caravanas” de 1970 a 1974

Nos anos de 1970 a 1974, durante as férias escolares de julho e janeiro, nós Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis (que dávamos aulas) e mais alguns leigos que se dispunham, tirávamos de 18 a 20 dias, para ir a Ubatuba fazer uma espécie de missão com os caiçaras e pessoas do sertão de Ubatumirim.
Na época ainda não havia a estrada Rio-Santos. Aquele povo das praias e do sertão plantava mandioca, colhia, ralava e fazia farinha com grande sacrifício, inclusive, ‘lutando’ contra a “imundície” como chamavam a formiga saúva, que muitas vezes devastava as plantações. Quando conseguiam fazer a farinha, ensacavam-na para ir vendê-la na cidade. Este era outro grande sacrifício, porque tinham de ir a pé com o saco de farinha nas costas, atravessando praias e morros.
O padre Frei Pio Populin, franciscano, grande missionário de Ubatuba por mais de 30 anos, idealizou um barco que pudesse transportar o povo das praias e do sertão, para ir vender seus produtos na cidade, seja a farinha, como também artesanatos que muitos faziam de madeira ou palha, ou para irem a médicos, etc. Esse barco, construído pelo (na época frei Odorico) foi uma bênção para o povo. Os “timoneiros” eram os conhecidos Salvador e Nelson. E era do barco que também nós nos servíamos para chegar à praia Ubatumirim. Que medinho quando estava em alto mar! A travessia durava aproximadamente duas horas. Quando víamos ondas muito altas e fortes, olhávamos o rosto do Salvador para ver se estava preocupado ou tranquilo. Se estava tranquilo, também nós nos acalmávamos. Descíamos em Ubatumirim, e,  divididas em equipes,  uma equipe ia a pé para o sertão, outra atravessando um rio e depois um morro para a praia Almada e cada equipe durante o dia fazia visitas às famílias, levando uma boa palavra de amizade, um incentivo, uma bênção de Deus.  Muitas vezes comíamos o que nos ofereciam com tanto carinho aquilo que tinham: bananas, farinha doce, café com beiju: que gostoso! À noite, eram eles que vinham ali nas escolas onde ficávamos hospedadas para dormir e guardar nossas coisinhas. Então, pequenas catequeses, orações e depois brincadeiras, cantos com viola ou violão, e até “arrasta-pé”! Ô tempinho bom foi aquele! A última caravana foi em 1974 quando a Rio-Santos já estava adiantada e havia chegado até Ubatuba e mais para frente e logo não foi mais necessário o barco, porque os ônibus o substituíram. Ótimo! Porém, como sempre, ao lado do que é bom, o progresso traz também o que é ruim. Pelo fato de as praias de Ubatuba ser lindíssimas, aqueles que tinham e tem dinheiro, começaram a comprar os locais onde os caiçaras tinham suas casinhas simples, para construir seus casarões. E assim os caiçaras foram sendo empurrados para outros lugares mais isolados, ou não sei dizer para onde.
O fato é que a partir daí tudo mudou. E agora, Almada e outras praias por ali já são dos turistas.
            Envio algumas fotos desse belo tempo das inesquecíveis caravanas, que gostávamos tanto. As irmãs que sempre iam: Ir. Clara, Ir. Antonia, Ir. Maria, Ir. Redenta,Ir. Iolanda, e umas ou outras pessoas ou irmãs, uma ou duas vezes.


            Com saudade deste tempo   Ir. Iolanda

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Franceses sonhando em terras de Ubatuba (Parte VII)

       
        Chegamos à parte mais dolorosa da história de Jean-Pierre Patural e familiares. Em 1961 aconteceu o desastre. Numa véspera de embarque de bananas, Jean Pierre decolou para Ubatuba. Ao chegar ao Ubatumirim constatou que uma peça fundamental para que o trator funcionasse estava quebrada e, a urgência do serviço fez com ele  retornasse no mesmo dia para Taubaté. Estranhamos o seu retorno.
        Como sabíamos que ele tinha retornado? Era fácil, pois o hábito dele era, antes de aterrissar em Pindamonhangaba, dar um voo rasante sobre a nossa casa. Assim, calculávamos que após uma hora já estaria conosco. Era o tempo suficiente para acomodar a aeronave no seu devido espaço e tomar um ônibus que circulasse entre as duas cidades.
       Assim fez ele: providenciou a peça e retornou para o Ubatumirim. Tinha pressa porque o barco passaria no dia marcado, para fazer o embarque da grande carga bananeira prevista. Foi quando aconteceu o desastre.         Estranhamos a sua não chegada no dia esperado; nem no outro, nem no outro. Quando recebemos o telegrama do capitão do barco bananeiro dizendo que Jean-Pierre não havia estado no Ubatumirim e que não tinha encontrado nenhuma carga de bananas na praia, desconfiamos que o pior já tinha acontecido. Imediatamente entrei em contato com a fábrica CTI (em Taubaté) que tinha uma linha telefônica direta com Ubatuba. Assim confirmei que o meu amado tinha desaparecido. Com o auxílio de amigos, funcionários da Mecânica Pesada, chamamos o Batalhão de Exército de Pindamonhangaba. Assim foram iniciadas as buscas pela Mata Atlântica. Após uma semana só o avião foi encontrado: estava totalmente destroçado. As buscas continuaram sem nenhum resultado. Desesperada, chamei uma equipe de paraquedistas de São Paulo especializada nesse tipo de busca. Em vinte e quatro horas encontraram o corpo de Jean Pierre na beira de um rio, cuja distância era, aproximadamente, quatro quilômetros dos destroços do avião.   O avião, modelo “teco-teco”, provavelmente foi jogado na mata por uma dessas fortes rajadas de ventos, tão comum de ocorrer naquela época do ano. Foi essa a suposição de um comandante das buscas.  É quase certo que tenha sido assim mesmo”.
        O avião caiu não muito longe da estrada, numa distância média de cinco quilômetros. Ele se feriu e, segundo o laudo pericial, ainda sobreviveu uns cinco dias. Isso se deduziu pela grande distância entre os destroços do avião e o corpo desfalecido. É certo que teria se salvado se tivesse tomado a trilha certa: bastava seguir o lado da bifurcação que o conduziria à estrada em vez de  se enganar e acabar por embrenhar-se ainda mais na mata fechada. Mas... se é fácil de se enganar pelas veredas quando estamos sãos, imagine as grandes probabilidades para quem estava ferido e não estava ainda tão familiarizado com a Mata Atlântica. Talvez também tivesse sido socorrido pelos caçadores se fosse tempo de caçadas. Mas não era. 
       Entre o momento em que eu recebi o telegrama de Santos (do comprador das bananas) e o desfecho final (encontro do corpo), passaram-se vinte e um dias.  Era o ano de 1961; meu marido tinha trinta e dois anos.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

CANTO DOS DEFUNTOS

 

Cemitério do Ubatumirim (Arquivo Mendonça)


          Em outros tempos, quando a lonjura de tudo parecia maior em Ubatuba, havia estratégias diferentes até mesmo para sepultar nossos mortos. Além desses cemitérios atuais (Camburi, Ubatumirim, Maranduba, Centro, Ipiranguinha), existiam outros (Raposa, Cedro, Lagoinha, Praia Vermelha, Horto...). Hoje, a municipalidade de vez em quando despacha alguém para uma limpeza geral nesses locais que há tempos serve de abrigo aos finados. Nos mais centrais há ao menos dois funcionários permanentes, pois os enterros seguem numa regularidade. Era dizer do papai que "para nascer gente tem de morrer gente, senão não cabe neste mundo". 

          O Olympio, em 1975, recolheu a seguinte informação a respeito do cemitério do Ubatumirim: "está localizado no Canto do Saco [por isso era chamado também de Canto dos Defuntos], numa faixa de mangue aterrada até dois metros acima do nível do mar, com aproximadamente 900 metros quadrados. Segundo os mais antigos, esse aterro foi feito pelos escravos do capitão Cabral, na metade do século XIX. No Canto do Saco corre o rio Nhengui, o rio do cemitério".

          O saudoso Antônio Maior se referia sempre ao Canto dos Defuntos com o maior respeito: "Lá tem muita gente minha enterrada. O padre Pio de vez em quando se retira lá para rezar. É fácil de se chegar lá sim. Vai nessa direção, andando toda a vida, quando chegar no Canto dos Defuntos, na subidinha do morro, é o chão sagrado, onde enterramos nossos mortos. Sempre tem gente nossa zelando pelo lugar. O senhor, é quase certo, vai encontrar alguém por lá".

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Franceses sonhando em terras de Ubatuba (Parte VIII)


         Depois disso tudo ficou muito difícil. Imaginem uma viúva, com dois filhos pequenos, se deslocar de Taubaté para o Ubatumirim num tempo de péssimos transportes, quando nem se sonhava em estrada de rodagem para o lado norte do município. É bem lembrar que a BR-101 só vai se tornar realidade quinze anos depois da tragédia. No entanto, ainda eu estive alguns períodos de férias em nossas terras: uns dois ou três anos consecutivos. Depois tive que largar tudo, me dedicar ao trabalho e às crianças.
        Depois da morte de Jean Pierre tentei conservar as posses. Foi muito difícil, pois a eminência da abertura da rodovia provocou uma verdadeira loucura. Compradores de todas as partes surgiram com malas repletas de notas de pouco valor, mas que pareciam uma fortuna para os ingênuos caiçaras; assim adquiriram as posses. Não me sai da lembrança um caso, de 1965, que muito me chocou: foi a troca de uma belíssima posse entre a praia e o rio, no Ubatumirim, por uma casinha popular inacabada no bairro da Estufa II, num terreno sem qualquer documentação. Depois vieram os grandes grileiros, chegando a ocupar áreas com homens armados. Para uma mulher sozinha era impossível enfrentar esses jagunços. Assim, pensando nos meus filhos e já lecionando na Unitau, além de estar cansada de passar todas as minhas férias e alguns finais de semana nessa luta, deixei a casa da praia aos cuidados do Benedito Rolim. O Sertão da Sesmaria do Ubatumirim ficou sob os cuidados de outro empregado chamado Melentino.
        Quando o Dito Rolim se ausentou por questões particulares, a posse da praia foi invadida. Porém, graças à dedicação e competência do doutor Manoel Casal del Rey Aspera, após seis anos de processo, conseguimos reaver a área e, num acordo com o próprio advogado, a trocamos por uma casa no bairro do Tenório. Após reformas, nós a alugamos na temporada.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

CARAVANAS DE 1970 A 1974

Frei Pio e a turminha (Arquivo Iolanda)


Iolanda(agachada) em ação (Arquivo Iolanda)


Sempre é bom recordar de outros tempos e de outras pessoas que fizeram muito por Ubatuba. As Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis, no começo da década de 1980, fundaram com o frei Pio a Creche Francisquinho. Eu trabalhei na reforma/adaptação do espaço no bairro da Estufa. Até uns dias desses estava lá ainda partes dos brinquedos que eu fiz.

Nos anos de 1970 a 1974, durante as férias escolares de julho e janeiro, nós Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis (que dávamos aulas) e mais alguns leigos que se dispunham, tirávamos de 18 a 20 dias, para ir a Ubatuba fazer uma espécie de missão com os caiçaras e pessoas do sertão de Ubatumirim. 

Na época ainda não havia a estrada Rio-Santos. Aquele povo das praias e do sertão plantava mandioca, colhia, ralava e fazia farinha com grande sacrifício, inclusive, ‘lutando’ contra a “imundície” como chamavam a formiga saúva, que muitas vezes devastava as plantações. Quando conseguiam fazer a farinha, ensacavam-na para ir vendê-la na cidade. Este era outro grande sacrifício, porque tinham de ir a pé com o saco de farinha nas costas, atravessando praias e morros. 

O padre Frei Pio Populin, franciscano, grande missionário de Ubatuba por mais de 30 anos, idealizou um barco que pudesse transportar o povo das praias e do sertão, para ir vender seus produtos na cidade, seja a farinha, como também artesanatos que muitos faziam de madeira ou palha, ou para irem a médicos, etc. Esse barco, construído pelo (na época frei Odorico) foi uma bênção para o povo. Os “timoneiros” eram os conhecidos Salvador e Nelson. E era do barco que também nós nos servíamos para chegar à praia Ubatumirim. Que medinho quando estava em alto mar! A travessia durava aproximadamente duas horas. Quando víamos ondas muito altas e fortes, olhávamos o rosto do Salvador para ver se estava preocupado ou tranquilo. Se estava tranquilo, também nós nos acalmávamos.
Descíamos em Ubatumirim, e,  divididas em equipes,  uma equipe ia a pé para o sertão, outra atravessando um rio e depois um morro para a praia Almada e cada equipe durante o dia fazia visitas às famílias, levando uma boa palavra de amizade, um incentivo, uma bênção de Deus.  Muitas vezes comíamos o que nos ofereciam com tanto carinho aquilo que tinham: bananas, farinha doce, café com beiju: que gostoso! À noite, eram eles que vinham ali nas escolas onde ficávamos hospedadas para dormir e guardar nossas coisinhas. Então, pequenas catequeses, orações e depois brincadeiras, cantos com viola ou violão, e até “arrasta-pé”! Ô tempinho bom foi aquele! A última caravana foi em 1974 quando a Rio-Santos já estava adiantada e havia chegado até Ubatuba e mais para frente e logo não foi mais necessário o barco, porque os ônibus o substituíram. Ótimo! Porém, como sempre, ao lado do que é bom, o progresso traz também o que é ruim. Pelo fato de as praias de Ubatuba ser lindíssimas, aqueles que tinham e tem dinheiro, começaram a comprar os locais onde os caiçaras tinham suas casinhas simples, para construir seus casarões. E assim os caiçaras foram sendo empurrados para outros lugares mais isolados, ou não sei dizer para onde. O fato é que a partir daí tudo mudou. E agora, Almada e outras praias por ali já são dos turistas.

           Envio algumas fotos desse belo tempo das inesquecíveis caravanas, que gostávamos tanto. As irmãs que sempre iam: Ir. Clara, Ir. Antonia,  Ir. Maria, Ir. Redenta,Ir. Iolanda, e umas ou outras pessoas ou irmãs, uma ou duas vezes.

            Com saudade deste tempo   Ir. Iolanda

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

AS CARAVANAS (II)

Olha que carga preciosa no barco "Maria Silla"! (Arquivo Iolanda)


Hoje, recordando da importante presença das religiosas em nosso município, faço questão de oferecer aos leitores do blog a narrativa da Ir. Iolanda. Para quem não sabe, as FMA (Franciscanas Missionárias de Assis) iniciaram, em 1982, a Creche Francisquinho, no bairro da Estufa. Quando você passar por lá, repara num trenzinho de alvenaria que eu fiz. Continua dando alegria às crianças!
Agradeço muito à Iolanda pelo texto. Que beleza!

“Caravanas” de 1970 a 1974
Nos anos de 1970 a 1974, durante as férias escolares de julho e janeiro, nós Irmãs Franciscanas Missionárias de Assis (que dávamos aulas) e mais alguns leigos que se dispunham, tirávamos de 18 a 20 dias, para ir a Ubatuba fazer uma espécie de missão com os caiçaras e pessoas do sertão de Ubatumirim.
Na época ainda não havia a estrada Rio-Santos. Aquele povo das praias e do sertão plantava mandioca, colhia, ralava e fazia farinha com grande sacrifício, inclusive, ‘lutando’ contra a “imundície” como chamavam a formiga saúva, que muitas vezes devastava as plantações. Quando conseguiam fazer a farinha, ensacavam-na para ir vendê-la na cidade. Este era outro grande sacrifício, porque tinham de ir a pé com o saco de farinha nas costas, atravessando praias e morros.
O padre Frei Pio Populin, franciscano, grande missionário de Ubatuba por mais de 30 anos, idealizou um barco que pudesse transportar o povo das praias e do sertão, para ir vender seus produtos na cidade, seja a farinha, como também artesanatos que muitos faziam de madeira ou palha, ou para irem a médicos, etc. Esse barco, construído pelo (na época frei Odorico) foi uma bênção para o povo. Os “timoneiros” eram os conhecidos Salvador e Nelson. E era do barco que também nós nos servíamos para chegar à praia Ubatumirim. Que medinho quando estava em alto mar! A travessia durava aproximadamente duas horas. Quando víamos ondas muito altas e fortes, olhávamos o rosto do Salvador para ver se estava preocupado ou tranquilo. Se estava tranquilo, também nós nos acalmávamos. Descíamos em Ubatumirim, e,  divididas em equipes,  uma equipe ia a pé para o sertão, outra atravessando um rio e depois um morro para a praia Almada e cada equipe durante o dia fazia visitas às famílias, levando uma boa palavra de amizade, um incentivo, uma bênção de Deus.  Muitas vezes comíamos o que nos ofereciam com tanto carinho aquilo que tinham: bananas, farinha doce, café com beiju: que gostoso! À noite, eram eles que vinham ali nas escolas onde ficávamos hospedadas para dormir e guardar nossas coisinhas. Então, pequenas catequeses, orações e depois brincadeiras, cantos com viola ou violão, e até “arrasta-pé”! Ô tempinho bom foi aquele! A última caravana foi em 1974 quando a Rio-Santos já estava adiantada e havia chegado até Ubatuba e mais para frente e logo não foi mais necessário o barco, porque os ônibus o substituíram. Ótimo! Porém, como sempre, ao lado do que é bom, o progresso traz também o que é ruim. Pelo fato de as praias de Ubatuba ser lindíssimas, aqueles que tinham e tem dinheiro, começaram a comprar os locais onde os caiçaras tinham suas casinhas simples, para construir seus casarões. E assim os caiçaras foram sendo empurrados para outros lugares mais isolados, ou não sei dizer para onde.
O fato é que a partir daí tudo mudou. E agora, Almada e outras praias por ali já são dos turistas.
            Envio algumas fotos desse belo tempo das inesquecíveis caravanas, que gostávamos tanto. As irmãs que sempre iam: Ir. Clara, Ir. Antonia,
Ir. Maria, Ir. Redenta,Ir. Iolanda, e umas ou outras pessoas ou irmãs, uma ou duas vezes.

            Com saudade deste tempo.   Ir. Iolanda

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

CANOAS, REMOS E BRAÇOS


          O meu amigo Júlio está em consonância com a minha prima Joana. Ambos são caiçaras que se encantam com as manifestações que marcam a nossa cultura.
          A Joana, no dia seguinte, logo cedo, me procurou para narrar com muita empolgação um evento, ou seja, a regata de canoas que ajuntou tanta gente na praia do Ubatumirim. Porém, antes que eu escrevesse alguma coisa, dos sentimentos do filho da dona Alcina e do Isaías, o alfaiate, saiu esta joia.

E mais uma vez a tradição caiçara prevaleceu nas terras do Tamoio Coaquira e fazendo jus à região de muitas canoas, Ubatuba realizou mais uma prova de canoagem na praia de Ubatumirim. Semanas antes foi na praia da Barra Seca. E o fortalecimento dessa tradição e modalidade vem naturalmente acontecendo em função da vontade dos caiçaras pescadores e canoeiros, por parte das associações de bairros praianos, comerciantes e municipalidade.
Bacana! A festa, além de tudo, está se transformando num atrativo turístico. Vale a pena comparecer, prestigiar, participar, ver a emoção, a força, a luta e disputa entre os canoeiros que, com suas canoas, vêm de várias praias: Fortaleza, Enseada, Ribeira, Sete Fontes, Itaguá, Barra Seca, Perequê, Ubatumirim etc. A prova tem várias categorias envolvendo homens, mulheres e crianças que, em canoas, remam de um a quatro remos.
Duas coisas já são marcantes nesses eventos: uma é a presença do locutor Élvio Damásio que, com todo seu conhecimento e trejeitos, dá um toque caiçara num show de narração; a outra é a premiação que, em vez de troféus industrializados, são artesanatos que representam a nossa cultura. Ah! E o vidro de Biotônico Fontoura, que de forma satírica é entregue ao último colocado de cada categoria, para que os mesmos tomem e se fortifiquem para disputar a próxima corrida de canoa.
Parabéns a todos os canoeiros remadores de Ubatuba, aos organizadores e patrocinadores que mantêm viva a tradição.
Canoa minha de todo dia
Dorme no rancho da prainha
Acorda ao cheiro da maresia
E sobre o rolo de cacheta
Desliza ao lagamá
E beija o mar
E ao mar se lança
Seguindo meu pressentimento

Canoa minha de todo dia
É companheira de pescaria
De trajetar minha farinha
E me leva na praia da escolinha
Pra eu namorar a professorinha.
(FONTE: O GUARUÇÁ)

terça-feira, 30 de março de 2021

A ESCOLA DO TIÉ

 

Escola do Tié, no Sertão do Ubatumirim

     Agora abro uma lacuna no relato da Dona Virgínia para destacar a vivência de um homem que fez parte do projeto dessa mulher em Ubatuba.

    Acompanhando uma prosa entre o primo Ostinho e o Tié (Armindo Barbosa), logo agucei a atenção. Era um desdobramento das publicações feitas em torno do referido relatório.

 

Tié  (Arquivo Roberto)

    Bom dia, Ostinho. Bom dia, todos do grupo [de fandango]. Falando da Dona Virgínia, ali do Itaguá, o primeiro ano que eu entrei na escola, lá no Sertão do Ubatumirim, na escolinha coberta de sapê, ela foi a primeira pessoa que doou para nós os uniformes. Foi lá que eu vim conhecer o que era um short azul e uma camisa branca: uniforme da escola. Ela foi uma pessoa muito maravilhosa, demais para nós da época. E quem se evoluiu bem na leitura, ela teve o prazer de levar para São Paulo, para estudar lá, que nem o filho do..., irmão dessa turminha que mora aqui no sertão: do Mané Gusto, do Saturnino... Entende? Ela fez isso, essa doação pra nós. Afinal de contas: caderno, uniforme... era ela que presenteava pra nós. Era uma pessoa muito maravilhosa.

 

     No fim fiquei pensando nas pessoas que, assim como o Tié, continuam entre nós, foram alfabetizadas graças ao trabalho da Virgínia Lefèvre, da Dona Virgínia, há mais ou menos setenta anos. Essa gente precisa dar seu testemunho. É muito importante para a nossa história e à memória caiçara.

     E o caiçara, do Sertão do Ubatumirim, que foi levado para continuar os estudos em São Paulo: quem poderá dar notícias dele? Quem estiver mais próximo do Tié (e desse pessoal que teve a chance de frequentar uma escola graças ao trabalho dessa mulher valente), deve registrar tudo. Alguém já disse que “quando morre uma pessoa idosa, é como se tivesse queimado uma biblioteca”.

   É isto: vamos resgatar a memória oral dessa caiçarada, desse nosso povo que tem tanto conhecimento, tanta vivência a ser registrada! A nossa biblioteca precisa se avolumar mais em vez de ser queimada!

   E viva o Tié!

sábado, 15 de fevereiro de 2014

AOS NOVOS UBATUBENSES (I)

Avenida Iperoig - Ubatuba - 1972 (Arquivo JRS)


      Acordei pensando nas muitas pessoas que vieram morar em Ubatuba atraídos pelas atividades advindas com o turismo. “O nosso lugar cresceu”. É a luta pela sobrevivência que faz tantos deixarem suas terras para tentar a vida em outros lugares. Porém...não faz mal conhecer a história do lugar em que agora estamos, saber que, oficialmente, Jordão Homem da Costa foi o primeiro estranho neste chão de Iperoig. Enfim, uma adaptação cultural se faz necessário ao migrante que se desligou de seu torrão natal. Estava certo quem disse que “toda pessoa que passa por nossa vida leva um pouco de nós e deixa um pouco de si mesmo”.
 
     Lendo a tese de doutoramento do Olympio [Corrêa de Mendonça], de 1978, cujo título é O léxico do falar caiçara de  Ubatumirim, encontrei o seguinte:

       É fato notório que o sobrenome de muitas famílias antigas e representativas de Ubatuba é de origem francesa. Há os:
   “Bourget, Richer, Paviol, Giraud, Vigneron, Robillard Marigny, Charleaux e outros. Ignoramos se se trata de descendentes dos colonos franceses trazidos pelas diferentes companhias exploradoras de madeiras do litoral, entre estas a Compagnie Française de Bois Exotiques, ou de marujos de alguma fragata de piratas, naufragada nas costas de Ubatumirim. O fato é que, lá pela serra acima...há nome genuinamente gaulês, provenientes do surto da beira-mar”.

      Na região de Ubatumirim, encontramos apenas o nome de uma família francesa [Patural], cuja vinda para a região se fez ainda neste século e não chegou a se aculturar com os naturais. Os demais nomes são todos portugueses, com um ou outro sobrenome, talvez, espanhol, como Peres e Fernandes. Todavia encontra-se, aqui, muitas pessoas de pele e olhos claros, que fazem lembrar o europeu, mas não especificamente o português. Há, ainda, o musculoso mestiço índio, de olhos amendoados e tez bronzeada, cujo porte e força física causam admiração aos visitantes. A presença tamoia na região dispensa comentários.

   Apesar desses fatores esparsos de povoamento, a colonização organizada só se faz a partir de 1600, sendo donatária da Capitania de São Vicente, a Condessa de Vimiero e sendo o governador do Rio de Janeiro, Salvador Correia de Sá, quando Jordão Homem Albernaz, ou Jordão Homem da Costa estabeleceu-se com sua família e agregados na região onde hoje existe a cidade de Ubatuba. Não poucas vezes foram assediados pelos tamoios e seus associados franceses. Serviram de fortaleza para defesa de São Vicente e Piratininga.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A PENCA DE BANANA

 

Quereis uma penca? (Arquivo JRS)



         O estimado amigo José Carlos de Góis, além de valoroso profissional do Direito, é craque na escrita de poesias e causos. Eu desejo a ele, à Aládia e aos demais familiares Boas Festas sempre. Que em 2022 possamos apreciar mais contribuições desse caiçara da Enseada neste blog. Gratidão a essa gente boa! Quereis uma penca, amigo? 

 

Corria o ano de 2.002. Eu advogava no escritório do meu saudoso amigo Dr. Eduardo Barbosa Macedo. Havia me inscrito na assistência judiciária, Convênio Procuradoria Geral do Estado e Ordem dos Advogados do Brasil do Estado de São Paulo.

 

Um belo dia do mês de março atendi uma cliente enviada pela OAB. Era uma senhora de uns trinta anos de idade, muito simpática, que foi logo dizendo: Bom dia, dotô. O sinhô foi anumeado pela Óbê pra pegá uma causa minha. E me contou sua história: há seis anos o seu cunhado havia lhe cedido um terreno vizinho da casa dele no Bairro do Ubatumirim para ela construir uma casa e residir com o marido e três filhos pequenos. A casa foi precariamente construída com madeirite, chapas de zinco, telhas de amianto. O chão só ficou no contrapiso muito mal feito. Colocou água da serra na casa e fez o relógio de luz em seu nome com a instalação de energia elétrica pela Elektro. Agora a casa estava precisando ser reconstruída, pois as paredes estavam se desfazendo, o telhado vazava muito na época das chuvas e o chão do quarto estava se abrindo. Com muito sacrifício ela e o marido compraram o material, mas, quando o caminhão chegou para entregar, seu cunhado impediu que o motorista adentrasse o terreno, que ficava uns trezentos metros da BR-101. Conversou com o cunhado e ele lhe disse que ela tinha que desocupar o imóvel, que fosse procurar outro lugar para morar. E foi mais longe: pôs uns mourões de concreto e uma grossa corrente com cadeado para impedir o acesso de veículos até sua casa. Por isso ela tinha procurado a OAB, pois não tinha condições de contratar um advogado, e eu fui nomeado para defender seus interesses.

 

Ela falava muito, e, ao final de sua narrativa, me disse: Dotô, eu não tenho dinheiro pra lhe oferecê, mais meu pai tem uns terreno no Sertão do Ubatumirim e me disse que se o sinhô ganhá a minha causa ele vai lhe dá um terreno de déis metro de frente por quarenta metro de fundo.

 

Respondi-lhe que eu já estava sendo pago pelo Estado, mas ela insistiu que ia me dar o terreno por gratidão (mas, é claro, teria que ganhar a ação).

 

Lhe orientei a tirar umas fotos da casa, da frente, dos fundo, das laterais, do interior mostrando seu marido e seus filhos, a fissura do chão do quarto, bem como dos mourões e da corrente com o cadeado. Pedi também que ela trouxesse o comprovante de ligação da energia elétrica e a primeira conta quitada por ela.

 

No dia seguinte lá estava ela no escritório com os documentos que solicitei. Pelas fotos podia se ver que a casa precisava de reformas urgentes. Ingressei com uma ação de interdito proibitório e a Juíza da Vara para a qual foi distribuída deu a liminar, determinando a retirada dos mourões e da corrente, permitindo que ela reformasse a casa, sob pena de multa diária.

 

Quando ela retornou ao escritório e dei-lhe a notícia, exultou de alegria: Dotô, muito obrigado! Olhe, já vô falá pro papai marcá o terreno do sinhô, tá bão?”

 

E o processo prosseguiu: a parte contrária contestou o feito, houve uma audiência de tentativa de conciliação que restou infrutífera, e a Juíza marcou uma audiência de instrução e julgamento para ouvir testemunhas. Minha cliente me passou o nome de três testemunhas e seus respetivos endereços, e solicitei que na véspera da audiência ela levasse as mesmas no escritório para que eu pudesse conversar com elas, orientá-las sobre o andamento da audiência, etc..

 

Então, na véspera da audiência ela compareceu com as testemunhas, e após eu ter conversado com elas, e terem se retirado, minha cliente falou efusivamente: Dotô, minha causa já tá ganha, né dotô? Olha Dotô, meu pai já marcô o seu terreno: é uma belezura! Déis metro de frente por quarenta de fundo! Tem laranjeira, mixiriqueira, já dando fruta. E é plaininho, plaininho. O sinhô vai gostá muito Dotô!

 

Pois bem, houve a audiência, um mês depois saiu a sentença favorável à minha cliente, reconhecendo a posse dela sobre o terreno. A parte contrária não apelou sob a condição de ela cercar o terreno, mas deixando de fora um pé de jaca que era de sua estimação. Ela concordou, a Juíza homologou o acordo e a sentença transitou em julgado.

 

Ao retornar ao escritório, lhe entreguei a sentença, o acordo, a homologação e a certidão de trânsito em julgado. Ela então me disse: Ah Dotô, como Deus é bão!... Eu sabia que eu ia ganhá essa causa! Muito obrigado Dotô! Lá pro meio da semana que vem eu venho falá com o sinhô.

 

Não retornou. Passados mais ou menos uns dois meses, cheguei ao escritório de manhã e ao adentrar minha sala deparei-me com uma linda penca de banana nanica sobre a minha mesa. Fiquei intrigado e fui até a sala do Dr. Eduardo e indaguei-lhe quem tinha posto aquela penca de banana sobre a minha mesa. Ele me disse que foi uma senhora do Ubatumirim que havia me trazido. Que essa senhora lhe disse que eu tinha trabalhado numa causa dela, ficou muito contente com o meu trabalho e em gratidão me trouxe a penca de banana.

 

Comecei a rir às gargalhadas! O Dr. Eduardo não entendeu nada e perguntou se eu estava doido. Contei-lhe tintim por tintim o ocorrido e, então, juntos, rimos também às gargalhadas!

 

Vejam só que incrível metamorfose: O “meu terreno”, com quatrocentos metros quadrados, com laranjeiras, mexeriqueiras, planinho, planinho, se transformou numa penca de banana!

 

 

JOSÉ CARLOS DE GÓIS -  29/12/2021