terça-feira, 13 de janeiro de 2015

ACERTAMO, HEIN VOVÔ!?!

João Zacarias, neto (Diógilei)  e bisneto (Isaac) (Arquivo DT)


            O vovô Estevan sempre gostou de pescar. Chegando a velhice, esse prazer não se arrefeceu. Ele, sem dúvida alguma, foi um parceiro fiel do João Zacarias até quando a saúde lhe permitiu. Era comum eu chegar na casa dos meus avós e escutar a vovó falar: “O vosso avô está puxando rede com o João Zacarias. Logo ele chega". A Praia do Sapê era o ponto de encontro deles. Ah! Quantas redadas eu presenciei e sou testemunho do tanto que era animada aquela turma!
            Hoje, é com muita alegria que apresento o texto do Diógilei Tadra, neto do saudoso João Zacarias. Espero que venha mais! Afinal, é um prazer saber e dar a conhecer mais coisas do meu povo. É um registro para nós e para as novas gerações.

 
            A minha infância e adolescência foi muito ligada ao mar, às pescarias, redadas de tainha e parati, pois meu avô, bisavô, tataravô... foram tradicionais caiçaras, pescadores natos, que viviam basicamente da agricultura familiar e principalmente da pesca. Meu avô, por exemplo, que eu "arcancei" (vivi com ele) tinha barco, redes de tainha e de parati, peixaria, enfim, vivendo em função do mar.
            Sempre íamos, de madrugada ainda, pra "beira do lagamá",  (praia) "espiá" (olhar) "os cardume de peixe". Na "épa" (época) da tainha, os olheiros ficavam de prontidão no ponto mais alto da "preia" (praia) para que, quando avistasse um cardume, dessem o sinal com uma camisa enrolada na mão, para lançar a canoa na água e cercar o peixe. Tudo tinha que ser muito rápido e em silêncio pra não "espantá" o cardume. Esse foi, por um bom período, minha vida, baixando o chumbo na praia ou soltando a tralha de chumbo na canoa.
            Certo dia, à tarde, veio a notícia de que na Praia do Pontal, na Lagoinha, tinha um enorme cardume de tainha que fazia um escuro de dar medo, na rebentação, a ponto de cerco. O mar calmo e a ocasião certa para "matá mais de cento" (pescar muito peixe). A buzina da caminhonete rural soou freneticamente para juntar os camaradas para ajudar a puxar a rede. Chegando lá, quase em frente a Ilha do Pontal, finalzinho da tarde, o cardumão foi avistado, ora boiava, ora afundava no mesmo lugar, uma redada de "lavar a égua". Cerca, não cerca, não é, é, uns diziam que era, outros diziam que não era, enfim, a rede foi lançada e o cardume cercado. O dia, quase escurecendo, começam a puxar a rede. Dali a pouco, começam a aparecer os primeiros peixes, um bagre aqui, outro ali, vem mais um e mais um...Uma redada de bagre gonguito!! Pra quem conhece, sabe que o bagre tem três ferrões e é dificílimo tirá-lo da rede, tem que quebrá-los, pois embola tudo; é fácil de entrar, mas difícil de arrancá-los. Por fim, ficamos a noite inteira tirando bagre da rede. Foram uns vinte tabuleiros (caixas) cheios e a rural lotada também!! Teve gente que comeu bagre o mês inteiro... Quando terminamos de embarcar a rede na canoa, já eram  7 horas da manhã.
       O meu irmão de São Paulo, jovem ainda, de férias em casa, estava também conosco na inesquecível redada, quando a rede encostou na praia com aquela enorme quantidade de peixes, disse ao vô Zacarias: "Acertamo, hein vovô!!!" A risadaria foi geral...Mal sabia ele que iríamos passar a noite inteira tirando ferrão de bagre da rede...
            Durante muito tempo, quando alguma pescaria não dava muito certo, tinha sempre alguém que dizia: "Acertamo, hein vovô!!"



sábado, 10 de janeiro de 2015

PRA ONDE FOI A ÁGUA DO RIOZINHO DA ENSEADA?

         
Praia da Enseada, a partir do morro do Perequê-mirim (Foto: Jorge Luiz de Oliveira) 
  
    

     Os últimos textos publicados versam a respeito da Praia da Enseada, cuja fama turística se consolidou na década de 1970. Primeiro veio a poesia da Maria Odila, depois o texto do Zé Carlos. Agora, relendo as páginas do blog canoadepau, do amigo Peter Németh, creio que é a ocasião de aprofundar nossas reflexões, sobretudo em torno do tema da etnobiodiversidade, da importância da cultura local na preservação do meio ambiente. Afinal, não é difícil encontrar, entre os cinquentões, esse consenso do atrativo dessa praia.  "Era a praia mais frequentada de Ubatuba, o paraíso dos sorveteiros. Nela surgiram os primeiros bares de praia, tais como o Rancho do Araca, Bar da Zenaide, do Luiz Servino". "Ali, no lagamar da Enseada, quase sempre tinha gente catando sapinhauá para comer". E o que é esse ambiente hoje? Em suma: um rio desapareceu, estradas surgiram, áreas naturais foram aterradas e edifícios tomaram conta do jundu e dos morros num período muito curto de tempo. Assim como, num breve espaço de tempo, ninguém mais fala do Armazém do Maciel, do Presídio da Ilha, do Bar dos Inocentes, da Capela Santa Rita etc. Disso tudo nascem os questionamentos:


        Entre as duas fotos abaixo, existem 57 anos de diferença. Ambas foram tiradas na mesma margem esquerda do Riozinho da Barra do Destacamento, na Praia da Enseada em Ubatuba.
        Em 1956, canoas faziam a carga e descarga dos barcos de cabotagem que traziam mantimentos da cidade de Santos. O porto ficava na Rua Luzia Maciel Leite, próximo ao número 97, na Praia da Enseada. Pescadores mais antigos relatam os pequenos cardumes de tainhas que podiam ser capturados na lagoa que o rio formava, camarões de água doce enormes (cafulas e pitus), robalos, etc. O rio tinha até barranca, de onde podia-se saltar na água morna que o perau represava. 
      Nesse tempo (antes da estrada) alguns caminhõezinhos que se aventuravam entre Ubatuba e Caraguá, tinham que usar a areia da praia como estrada e a molecada caiçara ficava esperando para ajudar a desatolar o corajoso fretista que ousasse enfrentar o rio na maré errada. São várias histórias de recompensas, às vezes ganhas, outras "ganhadas", pacotes de café, balas, cigarros. Mas a imagem campeã, é a de um bando de crianças flutuando no riozinho, cada um com a sua bola de mortadela!
       Hoje, o rio virou filete de água, ou melhor de esgoto. As tainhazinhas ainda resistem, mas são mini tainhas de 2 centímetros cada, lutando pela vida igualzinho às adultas, é incrível observá-las em seus mini-cardumes. (Breve farei um vídeo com essas mini-tainhas).
       Pra onde foi a água do riozinho?! Será que foi desviada lá na nascente para abastecer as caixas-d'águas de veraneio? Ou será que está canalizado pelo emissário submarino, nosso rio encanado?
       Muito brejo também foi aterrado para gerar terrenos comercializáveis e isso com certeza "imprensou" a água que não aflora mais. E não foi só na Enseada que isso aconteceu, nas Toninhas tinha a barra do Rio Jacundá, mas isso já é uma outra história, para um próximo post.


Fotos: Barra Nova - Cristina Prochaska; 

           Barra Velha - Paulo Florençano.
Fonte: canoadepau.blogspot.com

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ENSEADA (UM TEXTO DESPRETENSIOSO)

O menino do Fabiano, futuro doutor, catando sapinhauá (Arquivo JCG)

               No ano de 1970, justamente no final da Copa do México, quando o Brasil tornou-se tri-campeão no futebol, um grupo de caiçaras da Praia da Enseada se encontrova no terreiro da casa do Gastão, no lugar chamado de Pedra Branca, para torcer. Dentre eles, eu conheci o José Carlos de Góis. Morava ali, na Rua do Cruzeiro. Hoje, ele é um competente advogado e cheio de talento na escrita. Parabéns! Sou muito grato pelo presente texto que transpira tanto de caiçara! Um abraço, Zé!


     Quando nasci, na década de 50, Ubatuba era paradisíaca. Meu mundo era a Praia da Enseada, o quintal da mamãe cheirando manacá, arruda, alecrim, guiné, as flores das laranjeiras nevando o chão. O jundu, na praia, com sua vegetação nativa, as flores roxas do cipó de corvina, o rabo de bugio, os frutos cheirosos dos abricoeiros, as amêndoas dos chapéus-de-sol, os coquinhos jarobá... Quanta saudade!

     Papai subia o caminho do porto assobiando, os olhos refletindo todo o azul do mar, a fieira de peixe, o samburá de timbopeva cheio de sururu, aquele pé de moleque caiçara, cheirando a gengibre, que regalava eu e minha irmã Conceição.

    Mamãe na velha máquina de costura, cantando, completamente desafinada, músicas que ainda hoje estão na minha memória, como se estivesse ali, sentado no canto da sala, ouvindo sua voz forte de mulher caiçara: “Eu vi sobre o mar navegando, um barco floreando em flor/ Albertino em tu pensando, nada mais do que o amor”... E outra: “Vamos sambar minha gente, pelo sertão, pelo mar/Queremos ter na lembrança a dança do carnavá” (segundo ela, a música do carnaval era de autoria do padrinho Benedito Henrique, na época de sua mocidade, quando faziam blocos de carnaval para brincar na praia).

      O costão da Enseada, o meu velho e querido amigo Silvério Bastos de Ornelas, carinhosamente chamado de Sabá, na pesca da garoupa. Dele tenho gratas recordações. Quando ia pescar, já me chamava, alto e bom som: “Vamos Zé Calos?”  E era assim mesmo, sem a letra erre.  Eu não cabia em mim de contente. Pegava minha varinha mixuruca, com anzol de pegar amborê, e lá ia com o Sabá para a costeira do lado oeste da Enseada. No costão, a pedra onde ele ficava era a mesma. Só que não deixava eu ficar rente a ele. Mandava eu ficar em outra pedra afastado uns vinte metros donde ele estava, “pra mode não intrapalhá, não ispantá as garopa”. E lá ficava eu pegando meus amborés, às vezes um guaiá, enquanto o Sabá pegava uma ou duas garoupas. A isca que sobrava (sardinha ou bonito) ele jogava no mar, e dizia: “Zé Calos, isso é pra ingodá, quando a gente vortá aqui, despois de amanhã,  elas já vão istá isperando e nóis pega mais umas duas.” E era tão somente o que ele pegava. Era pura sabedoria. Pescava apenas o suficiente para o nosso sustento (ele sempre me dava postas das garoupas). Não tinha a ganância de hoje de pegar duas, três, dez, vinte..., na usura de vender e ganhar com a exploração desenfreada.

      Cabe aqui contar uma passagem que demonstra a sabedoria do Sabá: estava ele a pescar garoupa, eu, os amborés, quando percebi que sua linha havia enroscado. Ele com toda a paciência que lhe era peculiar firmou a vara numa reentrância das pedras do costão, de modo que a linha de pesca ficou retesada. Pegou algumas pedras pequenas (do tamanho de um punho fechado), pegou no samburá pedaços de linha, e foi amarrando nas pedras, deixando as pontas soltas; daí passava as pontas da linha amarrada na pedra ao redor da linha retesada, dava um nó e soltava: a pedra deslizava pela linha retesada, e “tchimbum”, afundava na água. Ele pegava a vara, experimentava, dando pequenos puxões; tornava a repetir a operação. Na terceira pedra, veio uma bela garoupa, de, pelo menos, três quilos. Fiquei admirado! Pedi pro Sabá me explicar como a linha tinha desenroscado e ele tinha pegado a garoupa. Me explicou com seu lindo sorriso: a garoupa quando é fisgada pelo anzol tenta desesperadamente entrar na toca; quando consegue ela se arrepia toda e as galhas ficam presas na pedra, e a linha fica enroscada; quando ele fez as pedras deslizarem pela linha retesada,  as mesmas bateram no focinho da garoupa. Primeira, segunda, na terceira ela já estava incomodada e saiu da toca. Daí foi só puxar! Ah, Sabá, eu tinha, então meus doze anos...

Da saudade da Enseada antiga, escrevi este poema (que musiquei à minha moda), em 2.013:

PRAIA DA ENSEADA

Praia da Enseada, que gosto me dá
Cantar para o mundo que eu nasci lá,
Filho de Fabiano e de Pitiá
Cresci embalado nos braços do mar,
Ouvindo as cantigas dos sabiás,
Curtindo a beleza dos caraguatás,
Sentindo o perfume dos manacás,
Em meio à pureza dos laranjais,
Infância-caiçara que não volta mais!

     Mudei da Praia da Enseada em 1.987. Vou lá sempre visitar minhas irmãs Zefa, Conce, Doca, e rever meus amigos. Gosto de ficar olhando o mar e vejo o garoto feliz, cabelos desenfreados ao vento, dorso nu, ouvindo o assobio que vem do passado, e sinto a leve carícia de papai nos meus ombros...


Ubatuba, 08 de janeiro de 2.015.

Em tempo: e que tal decifrar o caiçarês ?


1- UMA NIMBUIA NA GAMBÔA FAZENDO BULHA.

2- MININO, QUIDELE O TESTO QUI TAVA DE JÁ HOJE AQUI, JUNTO DA SERENGA?

BROTA POESIA

Lá vem o Sol, gente! (Arquivo JRS)

               Em meados da década de 1970, quando eu vivia no Perequê-mirim, descobri o mundo das letras. Os amigos mais próximos trocavam gibis e revistas, ou seja, todos liam tudo. Não era muito devido a nossa limitação financeira, mas ficávamos contentes. Em casa, tinha fila para quem iria ler na sequência: “Oba! Gibi do Fantasma! Eu primeiro, você depois”. “Agora é a Ana que tá lendo a revista Capricho [fotonovela], mas depois serei eu”. “Eu já tô lendo o gibi da Brotoeja, mas em seguida eu quero o do Topo Gigio”. Era um tempo em que tínhamos aulas até aos sábados. Na verdade, sábado era dia dedicado à leitura. Sábia professora que nos proporcionava isso!
               Os filhos e filhas do Dona Celeste e do Seo Zé Maia eram os que mais se dispunham a trocar tão valiosas mercadorias. O Odilon era o meu melhor parceiro de leituras. Era por isso que a distância entre as nossas casas, em torno de quinhentos metros, parecia até varrido de tanto que por ali passávamos. Papai dizia que era como “carreiro de formigas feito pela criançada”. Era nesse percurso que costumávamos rir com as lorotas do Zé Pretinho (ou Yêieca), com as trapalhadas do Janguinho da Jovina e com os conselhos da Dona Jacinta e do Seo Tomás. Ah! A Dona Maria Graça sempre nos presenteava com bananas maduras e jacas!
               Conversando num dia desses com a amiga Odila Maia, fiquei sabendo de suas participações nos primeiros concursos de poesia. Ótimas reminiscências! “Eu ainda tenho lá em casa cópias daquelas poesias, Zezinho!”. Imediatamente supliquei-lhe que desse um jeito. Desse modo, posso apresentar:

LEMBRANÇAS

Ah! Que saudade tenho
Das tardes ensolaradas!
Eu, criança ainda, a contemplar
Esta praia, este mar, esta paz que só você tinha.

Enseada, coração de Ubatuba,
Em que toda tarde eu ficava a te olhar.
O Velho Fabiano, esguio em sua canoa, a remar;
O Velho Chico Viola, com sua viola a cantar.

Era tudo simples e tão puro.
Tranquilidade era o que existia ali.
Já não existe mais cantador de viola,
Nem canoeiro a remar.
O progresso passou por aqui
E o que restou de ti, Enseada?

Simplesmente as lembranças das tardes ensolaradas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

ENCONTRO DAS FOLIAS

Mestre Dito Fernandes, o Homenageado dos Reis (Arquivo Júlio Mendes)

     Está na tradição da cidade de Ubatuba, assim como por todo o Brasil, a devoção aos Santos Reis, O nosso grande incentivador, na atualidade, é o jovem caiçara Rogério Estevenel. Foi quem conduziu o evento na Igreja Matriz. Dele é o texto abaixo:

        “Hoje, dia 06 de janeiro, é Dia dos Santos Reis. Aqui em Ubatuba se preserva a tradição das Folias de Reis que peregrinaram durante o mês de dezembro nas casas entre as praias e sertões. Finalizaram suas cantorias no tradicional Encontro de Folias da Igreja Matriz.

       É uma dádiva de Deus, diante do turismo, uma cidade manter suas tradições. Contudo, vários grupos estão necessitando de apoio das autoridades constituídas, pois diante do exposto em breve poderemos perder estas preciosidades da cultura popular.

     Comunidades, Paróquias (clero), Prefeitura, Câmara e Fundart – também é de vocês a responsabilidade de manter fortalecidos os grupos de cultura tradicional de nossa cidade”.



       Eu fui prestigiar o evento. Foi muito legal reencontrar com saúde e alegres as pessoas queridas, em especial o meu querido Tio Neco, a Ana Arcele, a Dona Vanilda e o Vitor Alexandre! Muitas outras deixaram um vazio por suas ausências! Eu esperava encontrar pessoas queridas da Praia do Sapê, do Sertão da Quina... Em vão busquei o amigo Hélio Chinelato, que está em Ubatuba por estes dias. Também senti a falta do Grupo Cantamar, do amigo Júlio e do pessoal da Aninha Fernandes que também percorreu casas nesse período.

    Aproximadamente nove grupos ainda se mantém, não perdem a ocasião para possibilitar um espetáculo singular, de longa tradição. Porém, apenas três se apresentaram na Igreja Matriz: o do Centro, da Paróquia Exaltação da Santa Cruz, sob o comando do Beto, o do Itaguá e o dos Mineiros de Ladainha, do bairro da Bela Vista. Lamentamos os fatores que provocaram a ausência dos demais grupos. Creio que o recado do Rogério foi dado e requer o empenho de todos. Afinal, além da devoção, também pode se tornar um evento que atrai turistas. 

      O turismo cultural pode e deve ser melhor trabalhado em nosso município. Não podemos nos esquecer do saudoso Ney Martins que foi o grande incentivador nessa direção. Agora... 

        Valeu, Rogério! Valeu foliões!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

OS HERDEIROS CAIÇARAS

Higino, Solange e Élder e a criação de mexilhões (Arquivo JRS) 

               Aproveitei esses dias para reler alguns papéis guardados. Geralmente são anotações de conversas, curiosidades, causos e histórias de gente que eu gosto. Entre as preciosidades também têm relatórios espontâneos, de pessoas que querem expressar suas experiências. Selecionei alguns que foram escritos por adolescentes. Eles são simples, mas guardei-os porque são reveladores de traços da nossa cultura caiçara. Hoje, pensando na comemoração do Dia dos Santos Reis, na tradição que continua entre os caiçaras, apresento três desses relatos.

              1-  “Meus avós sempre moraram na Praia da Almada. Meus pais e meus tios nasceram lá também. Eles têm uma dependência total de onde vivem por sempre viverem no mesmo lugar.
               O sotaque deles é muito diferenciado e muitas das palavras são “inventadas”, coisas que só os caiçaras entendem. Por exemplo: cóxa é dor de barriga, rumô é barulho etc.
               O padrão cultural é de uma vida bem simples. Muitas vezes comem o que o marido (pai de família) pesca. Comem peixe com banana, fazem pirão (que é feito com caldo de peixe). É basicamente no peixe que se baseia a culinária.
               Os caiçaras fazem redes e canoas para a pesca. As roupas são bem simples, andam sempre de chinelos e com calças arregaçadas (enroladas) até perto dos joelhos.
               As famílias são grandes, numerosas”.

            2-   “Os caiçaras são pessoas com uma cultura muito forte, que têm grande relação com a natureza que está à sua volta. Porém, estão se enfraquecendo, principalmente depois da chegada, em maior número, de pessoas de outros lugares, de gente que não pertence a esta cultura.
               Os caiçaras, no auge da sua cultura, viviam basicamente do convívio harmônico com a natureza. Traços desta cultura são a alimentação, que é muito baseada em peixes e frutos do mar, e, as brincadeiras que vêm desde antigamente.

               O sotaque caiçara é bem legal porque a fala é bem rápida”.

             3- “Ser caiçara vai muito além de apenar residir na pequena Ubatuba. São poucos os moradores que mantém e repassam a cultura, os costumes e as lendas folclóricas da região.
                A tranquilidade de raiz, o pé na areia, o dom da pescaria, peixe com banana, camarão e até mesmo o surf não são para qualquer um, e passam despercebidos no dia a dia.
                Caiçaras geralmente  são os de mais idade, os que conhecem as lendas locais. Se vestem de forma bem simples. Chapéu e chinelos fazem parte dessas pessoas que, quando crianças, brincavam de amarelinha, de passa anel, seis marias, bolinhas de gude...ao invés de viver conectado no mundo moderno da tecnologia.
                “Vosmicê” e outras palavras tão em desuso ainda aparecem entre os caiçaras. O pronome de tratamento “vós” sempre esteve presente no vocabulário da minha bisavó caiçara.

                Essa cultura, o jeito do pescador, o linguajar, atualmente, aos olhos dos jovens modernos, talvez chegue a ser engraçado. Assim, com o tempo, a cultura vai se perdendo e ficando nas lembranças dos caiçaras e nas bibliotecas”.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

QUE VENHA!

Praia Martim de Sá, onde morava o Tio Garcêz, na metade do século XX. (Arquivo histórico)

                Chegou o novo ano! Já estamos em 2015!
                Comecei o primeiro dia do ano com quem mais amo: a minha família! No meu espaço, assim que o dia amanheceu, fui cuidar das plantas e dar uma arrumada no quintal. Fiz podas, enterrei galhos e folhas, transplantei mudas, colhi algumas frutas e varri a calçada.
                A minha calçada, assim como muitas, tem árvores e outras plantas menores. Acredito ser muito importante a harmonia proporcionada pela natureza. E quem dos passantes não merece uma sombra em dias tão quentes?!? A cada vistoria que faço nos modestos canteiros da calçada, recolho um monte de lixo: são garrafas, sacos plásticos vazios ou com fezes de cachorros, copos descartáveis, latas de alumínio, tubetes de crack etc...etc... Ou seja, considerando a repetição ao longo do ano, deduzo que são contribuições da vizinhança, de pessoas sem educação e sem respeito ao(s) espaço(s) do(s) outro(s). A casa de gente assim deve ser igual o quê? Imagine a convivência com gente assim! E como fica a perspectiva de luta por um mundo melhor, tendo esse tipo de “parceria”? Resumindo: se nem com o próprio lixo conseguem um comportamento adequado, uma solução civilizada, como poderá decidir encaminhamentos políticos para a realidade desde o entorno? “Miséria cultural!”, exclamava o Mestre Américo. Nos idos de 1970, analisando os rumos dos negócios imobiliário, dos aterros dos terrenos, das ocupações de áreas impróprias e da destinação do lixo em nossa Ubatuba, ele anunciava a formação de uma mentalidade muito diferente da cultura que era natural daqui, a enxergar os recursos naturais de outra forma. Aqueles primeiros trailers e barracas que se instalavam na Praia Grande, segundo ele, eram “uma mostra do que virá nas próximas décadas”. E acrescentava: “Quem viver virá”. Essa mentalidade agora está posta! Parece que de pouca coisa valeram/valem as aulas e as propagandas esclarecedoras em torno do meio ambiente e do valor da vida.
                Muita gente não percebe a interdependência entre tudo (animais, rios, mar, restinga, mangue, homens...) que forma a diversidade na nossa terra. A devastação é encarada como normal e inevitável. A indústria também segue um modelo inconsequente. “O que importa é o lucro”, dizem muitos. Não foi assim que eu aprendi dentro da minha cultura caiçara. Lembro-me que até condimentos, especialmente pimenta, não eram usados no preparo dos frutos do mar devido à crença de que disso resultava a diminuição deles na natureza. E o que dizer do respeito aos ciclos dos animais e dos peixes?
                Contra pessoas que destoavam de um viver mais fraterno, que davam passos para provocar as desuniões, a saudosa Tia Izolina tascava: “Praga eu não rogo, mas bom fim não há de ter”. No fundo, era versão similar ao “Deus dará aquilo que merece gente assim. Ele é justo”. Eu não quero ser radical! Quem sabe não está certo pensar positivamente no bordão oficial anunciado neste primeiro dia do ano, ou seja, no “Brasil:  Pátria Educadora”?

                Vamos apostar na educação a partir da convivência nesse nicho ecológico (entre a serra e o mar) que possibilitou o nascimento da cultura caiçara! Se valendo da época, onde as Folias de Reis percorrem as casas e se preparam para o evento do próximo Dia dos Reis (06/01), não vamos fazer como Herodes e “ensinar às avessas do caminho”. Enfim, começo o ano de 2015 acreditando que devo fazer bem a minha parte a começar pela minha casa e arredores. É o que desejo a todos para a nossa própria felicidade. Que venha tudo de bom! Um abraço.