domingo, 7 de março de 2021

10 ANOS DE VIDA - MEMÓRIA



   

Memória - Arte da Maria Eugênia

       Ler e escrever são atividades prazerosas. Os assuntos aparecem,

 às vezes, sem nenhum aviso.  De  vez  em  quando  um  tema bate à

 porta em busca de um lugarzinho. Muitas  vezes  são  imagens  que

 pedem texto. Outras são causos que escuto do  meu  povo.  Eu,  nas

 minhas  limitações,  vou  investindo  despretensiosamente.  Quando

 vejo, já tem algo pronto, sendo publicado logo em seguida.

   

     Dando continuidade às comemorações do  décimo  ano  do  blog, hoje o texto é da querida Egléia,  uma pessoa  muito  comprometida com  uma  educação  transformadora.  Gratidão, amiga!     Também agradeço   à   Maria  Eugênia,  minha  filha  que,  após ler  o  texto, produziu o desenho para ilustrar.

Segundo o mestre Paulo Freire é preciso vigiar o opressor que se instala dentro de nós. Porém, como saber se fomos tomados pela invasão cultural, uma das estratégias utilizadas pelo opressor, se ao menos sabemos quem somos? Qual a nossa identidade? Facilita a invasão cultural, quando não sabemos quem somos ou de onde viemos, ou seja, estamos alienados de nós mesmos, de nossas raízes. É disso que se trata quando visitamos o blog “coisasdecaicara”. Um profundo mergulho nas origens da população caiçara de Ubatuba e região.  O blog cumpre importante função de registro e preservação do viver, fazer, sentir do povo caiçara e quando saímos do mergulho nesse universo, temos sempre a sensação de quero mais...


Parabéns pelos dez anos do blog! E que venham muitas outras décadas de compartilhamento das deliciosas e envolventes histórias.


Obrigada pela prosa fácil, encantadora e elegante que sai da pena do professor José Ronaldo.


E tem coisa melhor do que uma boa prosa?



Em tempo: mais um recorde: 940 acessos no dia de ontem. Que legal!

sábado, 6 de março de 2021

10 ANOS DE VIDA - FAROL CAIÇARA

  


O nosso estimado Jorge



         Hoje é aniversário do coisasdecaicara, deste blog. Parece que foi ontem que acatei a sugestão da minha querida Gal. Dez anos, pessoal. São 10 anos!

        No mês passado, que se findou há poucos dias, um recorde: 23.128 acessos. Nesses 10 anos, foram 416.668 acessos; 1.544 publicações deram satisfação aos leitores, sobretudo aos 188 seguidores que se manifestaram em 488 comentários. Nesta semana, desde hoje, feliz por todo mundo que lê as nossas coisas, fiz questão de convidar algumas pessoas muito especiais a escreverem como parte de nossa comemoração. A  primeira acolhida cabe ao texto do nosso estimado e talentoso Jorge Ivam. Gratidão, irmão!


     FAROL CAIÇARA

       
      Há exatos dez anos, nascia este blog, cujo nome – Coisas de Caiçara - alude a uma expressão que tem um viés preconceituoso e depreciativo na boca de forasteiros metidos a besta, que veem com desprezo os nativos de nosso litoral e, vez por outra, proferem-na com desdém, insatisfeitos diante de uma ação praticada por algum caiçara (ou não). Engana-se, porém, quem acha que o objetivo precípuo deste espaço é combater esse preconceito. Não é que ele não deva ser combatido, mas preconceito é uma forma de tolice, e contra tolice toda batalha é vã. Igualmente se equivoca quem julga que o blog professa bairrismo, pois nele não se encontra laivo algum de exaltação idealizadora que possa fazer crer que o povo caiçara seja superior a outros. 

       O responsável por este blog, Zé Ronaldo, é um homem com vasta formação humanista, que conhece parte dos estados brasileiros e um pouco dos países latino-americanos com todas as suas peculiaridades, passou um tempo na Europa e, com essa vivência, aprendeu que não há superioridade de um povo sobre outros ou mesmo de uma comunidade sobre outras. Há diferenças de hábitos, costumes, crenças, visões de mundo, mas não superioridade. Uma pessoa assim não cai, pois, em tais armadilhas. Seu blog quer, sobretudo, mostrar a cultura caiçara, resgatar seus saberes e valores, que estão se perdendo devido ao pseudoprogresso, que procura pasteurizar e englobar tudo numa cultura massificadora, que apaga as marcas locais, nativas, tornando-as um produto de consumo também. 

         Para alimentar este blog, Zé Ronaldo vale-se de muitos dos seus talentos. Um deles é ser bom de prosa e saber ouvir com atenção os mais velhos, coisa rara nesses tempos, em que pessoas idosas e de pouca escolaridade são tratadas como tolas ou desprovidas de conhecimento. Nosso amigo, isento dessa arrogância hodierna, sabe que esses senhores e essas senhoras possuem muita sabedoria, adquirida por experiência ou recebida de seus antepassados. Por isso e por seu enorme senso de camaradagem e de respeito, Zé senta-se ao lado deles, puxa conversa e se maravilha com o que escuta. Com sua alegria, com seu riso solto, contagia o interlocutor, e este, sentindo-se estimulado, desenrola o novelo da memória e daí surgem relatos engraçados ou testemunhais, que depois vêm parar neste blog, não por parecerem pitorescos, mas porque são exemplares, didáticos, isto é, podem nos ensinar muito sobre e para nossas vidas.

       O Blog, no entanto, não se ocupa só do passado, não. O presente figura nele em vários gêneros ou formas de arte. Aqui se podem encontrar entrevistas, relatos, memórias, crônicas, ensaios, causos, anedotas, fotografias e até desenhos feitos por Zé Ronaldo mesmo ou por seus filhos para ilustrar certos textos. De vez em quando, podem ser lidas aqui também críticas ácidas, destinadas aos mandatários do país, a autoridades estaduais e municipais ou a algum vizinho “sem noção” como Zé gosta de denominar indivíduos alienados, desprovido de ética e senso de coletividade. Também se podem encontrar poemas de autoria do próprio Zé ou do seu querido irmão Domingos Fábio dos Santos, o Mingo, e de outros poetas.

    Aos olhos de Zé Ronaldo nada escapa: filhotes num ninho, uma flor que teima em nascer em um lugar inusitado, um minúsculo sapo entre pedras à beira de um regato, fatos para os quais ele tem palavras cheias de lirismo, ou, ao contrário, uma praia infestada de lixo, cena que lhe causa uma enorme indignação. Além disso, Com uma percepção aguçada, própria de grandes artistas, Zé tem o dom de enxergar belezas, que passam despercebidas da maioria dos mortais. Sempre que possível registra-as com sua câmera ou na sua prodigiosa memória para depois transformar as imagens gravadas ali em belas obras de artes, já que são únicas, originais, mas que, por humildade, ele as chama de artesanato. Muitas fotografias dessas obras também são postadas aqui neste blog.

    Em suma, o papel desse canal de comunicação virtual é chamar atenção para a importância da cultura caiçara, estimular o conhecimento sobre ela, a qual vem se perdendo devido a muitos fatores, mas os principais são estes: a especulação imobiliária, trazida pela abertura da BR 101, o turismo, a presença ostensiva das igrejas evangélicas e a penetração dos meios de comunicação de massa, sobretudo da televisão, que acaba padronizando os gostos de norte a sul do país. Contra isso, este blog pode ser um farol para orientar aqueles que acham que podemos construir um mundo diferente deste, que é guiado pelo consumismo. Por isso eu sigo-o, recomendo-o e desejo-lhe vida longa.


Jorge Ivam Ferreira,

sexta-feira, 5 de março de 2021

CADÊ A MEMÓRIA ?

 

Quem sabe mais desse instrumento?  - Arquivo PMSS

Congada - São Sebastião 1959 - Arquivo PMSS


        Eu estava lendo um livro da história de São Sebastião, outro município do território caiçara, quando uma fotografia despertou a atenção. Pergunto aos curiosos e aos entendidos: que instrumento é esse?

       São Sebastião, tal como Ubatuba e outras cidades do  Brasil, possui herança cultural herdada dos índios, negros e portugueses. Conforme o território foi sendo ocupado, os povos domaram a terra e começaram a pensar no espírito, na eternidade.

        Primeiro se viraram com que a terra e o mar tinham a oferecer; depois o cultivo e a produção para consumir e negociar: peixe seco, farinha de mandioca, banana etc. Surgem as características: construções no estilo lusitano adaptadas ao clima e usando os materiais da região que já faziam parte do costume indígena, sobretudo a popular casa de pau-a-pique, onde madeira, barro e sapê bastava para uma modesta proteção.

        Supridas as necessidades mais básicas, surgiram as manifestações religiosas católicas, festivas, do santo padroeiro, as procissões, as cirandas, as Folias de Reis, as Festas Juninas etc. O destaque, sobretudo em São Sebastião, era a Congada em homenagem a São Benedito, uma manifestação da comunidade negra com influências medievais aliadas à riqueza cultural dos africanos trazidos para o trabalho escravo no nosso país.

      É isso: vai-se o homem; fica a memória. Só ela pode ser eterna na cultura humana. Cadê a memória?

     Ah! Achei a referência! É uma marimba. Vovó Martinha falava que os negros da Caçandoca também tocavam nas festas esse instrumento.

quinta-feira, 4 de março de 2021

HOMENAGEM ÀS PROFESSORAS PORRETAS

 

    Do mano Mingo para nós, sob a imagem da menina paquistanesa que recusou-se a permanecer em silêncio e lutou por seu direito à educação, foi baleada e quase perdeu a vida em 9 de outubro de 2012. Um exemplo para o mundo e profundos questionamentos ao machismo doentio de tanta gente.
















Todos os dias os jornais trazem notícias ruins
de violências covardes e assassinatos de mulheres.
E os culpados têm a cumplicidade
do juiz que perdoou o feminicida,
do idiota que quebrou a homenagem a Marielle Franco,
do político que homenageou o torturador de mulheres
e de quem, mesmo já antevendo o mal,
assim mesmo o elegeu.

Quanto tempo vai demorar para virar a página
e começar uma nova história
sem Joana D'Arc queimada,
sem Maria Madalena apedrejada
e sem Maria da Penha baleada?
Quando vai começar o novo capítulo
em que as mulheres tenham igualdade
no trabalho, no salário e nas oportunidades?

A nova história vai começar na consciência das pessoas
para não repetirem palavras de ódio;
para não acreditarem
que lugar de mulher não é na política;
para se somarem a quem está
na resistência contra os fascistas.

Quem tem essa sabedoria
sabe qual lado está no jogo da existência,
toma partido a favor da vida
e tem a consciência
que serão as novas Evas
que vencerão as forças das trevas.



quarta-feira, 3 de março de 2021

QUEM COMEU SE REGALOU

Olhando - Arquivo JRS


      Sentei-me logo depois do rio, no barranco.  O mar batia com toda vontade nas pedras, coisa comum no mês de agosto. Logo que me acomodo, avisto o tio Durval e o tio Dico se encaminhando em direção ao Canto Bravo. "Eles estão indo pescar garoupa". Como sei? Todos dizem que o tio Durval tem, desde novo, esse costume; é dele: só se atreve ir atrás de garoupa quando é tempo de mar revoltado, desses que lambem até as touceiras de caraguatás em cima das pedras, quase no morro. Logo passam por mim; balançam a cabeça em cumprimento. Sei que levam, no balaio, bonito passado para isca. "Que cheiro ruim, credo! Que fedor!".   Mas é a melhor isca para a pesca de garoupa. Cada um deles leva duas varas de bambu, linha forte e anzóis encastoados. Fico admirado pela disposição desses caiçaras de outras gerações. Nem chegaram à primeira pedra, mas já estão encharcados pelos borrifos das ondas batendo. Imaginei que, dentro de pouco tempo, o tio Durval não poderá mais fazer isso devido ao problema na visão. "Coitado do titio".

     Dez anos depois, de fato, o velho caiçara, morador do Puruba, nem podia se arriscar em ir sozinho até a beira do rio. Ficava por ali mesmo, sentado no terreiro, como se quisesse ser visto e cumprimentado pelos passantes, quase todos pedindo sua benção. "Bença, tio Durval". Ele, levantando o boné de corintiano, repetia muitas vezes: "Deus te abençoe, filho". De vez em quando, olhando pela janela, a tia Belinha verificava se estava tudo bem nos arredores. 

    Quantas vezes eu parei para uma prosa e um café com os dois, naquela paz do jundu do Puruba!? Foi na casa deles que eu provei, caprichado pela tia Belinha, um escaldado de ostra. Não tem como descrever a delícia desse prato! Nem tem mais ostras como antigamente naquelas águas do encontro dos rios Quiririm e Puruba com o mar. "Quem não comeu não comeu. Quem comeu se regalou".

 

terça-feira, 2 de março de 2021

CONTANDO E RECONTANDO DO NOSSO LUGAR

 

Outro dia - Arquivo JRS

      Um dos nossos divertimentos favoritos era participar de excursões escolares. Tínhamos sorte em viver num paraíso como Swat, com tantos lugares bonitos para visitar - cachoeiras, lagos, a estação de esqui, o palácio do wali, as estátuas de Buda, o túmulo de Akhund do Swat. Todos esses locais contavam nossa história, tão pitoresca. Conversávamos sobre as viagens durante muitas semanas antes de partir, e então, quando finalmente chegava o dia, vestíamos nossas melhores roupas e amontoávamos no ônibus, com marmitas cheias de frango e arroz para o piquenique. Algumas de nós possuíam câmeras e tiravam fotografias. No fim do dia meu pai nos levava a uma rocha e nos revezávamos para contar histórias sobre o que tínhamos visto.


       O trecho acima é do livro Eu sou Malala, escrita por Malala Yousafzai, uma garota paquistanesa que quase pagou com a vida por defender o direito à educação. Escolhi essa parte porque, assim como o nosso litoral paulista, sobretudo em Ubatuba, há todo um tesouro ambiental e mais um tanto de riqueza cultural nem tão evidente à maioria das pessoas moradoras e visitantes. Precisamos conhecer melhor, levar outras pessoas a terem contatos com tudo isso, contar e recontar o que vemos e aprendemos. Ações assim darão mais garantias para que esses tesouros continuem existindo, valendo para as gerações vindouras. No próximo dia 6, daqui a poucos dias, o coisasdecaicara.blogspot.com completará 10 anos. Eu continuo na minha preocupação de registrar coisas do nosso povo para que os outros conheçam. Diferente dos outros anos, as comemorações perdurarão por uma semana, com textos de amigos e amigas que sempre se mostraram no incentivo das nossas produções. Desde já agradeço o empenho dessa gente boa. São 10 anos, pessoal!

     Que exemplo bom  - e fácil! -  de ser aplicado: no fim dessas atividades: achar um local adequado para contar histórias acerca daquilo que vimos e vivemos. 

segunda-feira, 1 de março de 2021

POSIÇÃO DAS INJUSTIÇAS

 

Arte no muro (Arquivo JRS)

     Nicolau Montanaro, cuja saudação era "ou mais, viva!", tinha uns momentos estranhos, de falas enigmáticas. Seo Argemiro, cunhado do Antônio Julião, de vez em quando me parava para uns comentários depois de prosear com o Velho Nicolau. Era a década de 1970, tempo dos governos de generais militares.

   - Vós sabeis que eu desconfio que o "O mais" se esconde de alguma coisa? Nesse tempo em que o governo fiscaliza tudo, desde música até notícias de jornais, pode ser que ele tenha escapado de sua cidade, do seu lugar, para não sofrer punição por alguma coisa. A propósito, Zezinho, você sabe de onde ele veio?"

      Respondi que não sabia. Ninguém sabia porque ele não dizia; respondia enviesado quando inquirido a respeito. Mas por repetir sempre que era tio do jogador de vôlei, do famoso Montanaro, sempre desconfiei que ele fosse da capital paulista ou dali de perto. Seo Argemiro continuou:

  - Agorinha mesmo ele defendia a justiça contra essa gente que acumula posses e deixa tantas outras sofrendo, no aperreio da vida. Quase gritou assim: "O relógio está parado nessa posição de injustiça. É preciso acertá-lo, Argemiro!".