segunda-feira, 7 de setembro de 2026

À DERIVA

 

Tiano em ação - Arquivo JRS 


"Um passado que se compartilha é um sacramento de solidariedade”.

(Rubem Alves)

 

    No século passado alguém escreveu que o mais indicado a fazer, no intuito de desfrutar de uma cidade, é andar à deriva. Assim eu fiz num dia desses nos arredores do centro da cidade de Ubatuba: saí pedalando num destino incerto. Avistei o mar, olhei partes do mangue, me detive num canto de praia. Seguindo pedalando, bem distraído, notei um amigo trabalhando em seu espaço. Aí não teve como não parar e prosear com o pintor Tiano!

   Cristiano, o Tiano Mendes, neto do Zeca Pão (da estátua do pescador na rotatória da rodovia Oswaldo Cruz), segue a trajetória do pai recentemente falecido. Ainda era cedo, mas ele já estava nos últimos retoques em nomes que estavam numa prancha de surfe. “É uma encomenda para enfeitar o local de um cliente”. Naquele espaço da avenida Padre Manuel da Nóbrega, no Perequê-açu, fui apreciando trabalhos em diferentes etapas desse artista caiçara que teve destaque, sobretudo na pandemia de 2020, quando ajuntava suas tintas, seu material e saía tornando mais agradáveis os nossos pontos de ônibus. Outros poucos artistas se animaram e também fizeram bonito. Eram obras artísticas, que mereciam ser retocadas. Foi uma iniciativa louvável a ser expandida! Porém as lindas pinturas foram apagadas e substituídas por coisa sem graça. O que dizer de gestores indiferentes aos esforços dos nossos talentosos artistas?


Tempo da pandemia - Arquivo Tiano


Ponto de ônibus hoje - Arquivo JRS 



   Tiano me disse que ele começou a pintar cedo: “Fui aprendendo com a minha tia Rosângela Vieira, irmã do meu pai. Ela pintava muito bem”. Eu a conheci em 1992; já estava doente, faleceu muito jovem. “Depois fui pintando letras e painéis com o meu pai. Por fim, após passar uns anos na capital paulista, resolvi voltar para Ubatuba, morar com a minha mãe. Então arrumei este espaço onde ensinava pintura, mas não deu muito certo porque os alunos faltavam demais. Hoje eu sigo produzindo aqui, mas sempre tenho uns trabalhos pelas ruas, pinto letras e mais coisas”. Ele ainda se recordou de momentos da sua infância: “Eu acompanhava a minha avó nas idas à costeira, na pescaria e na captura de caranguejos no mangue logo ali, depois da escola Esteves”. Por fim, ele confessou: “Eu gostaria de me encontrar mais vezes com gente nossa, que gosta de contar histórias e de recordar de tantas coisas que vivemos em outros tempos. Poderia ter um programa na rádio ou na internet abordando coisas da nossa Ubatuba. A minha finada avó conversava muito comigo, me ensinou muitas coisas”.

   Resumindo: a manhã, graças a minha opção de sair à deriva, proporcionou um feliz encontro com esse artista bem caiçara. Como é bom compartilhar momentos assim!

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