sábado, 8 de setembro de 2012

MORRO DA PRAINHA

Barra dos Pescadores
Boca da Barra do Rio Grande de Ubatuba
              Com estes dois panoramas a partir do Morro da Prainha, o Curuçá dos tupinambás, eu apresento mais uma pérola do Eduardo Souza, que tem o talento de descrever preciosos detalhes desta cidade (Ubatuba) e de seus moradores, dando-nos a conhecer o que era uma vida simples num espaço onde todos se conheciam, trabalhavam e se divertiam enquanto o progresso se dilatava no prazo para chegar.
             Hoje, graças ao O Guaruçá, podemos ler e reler as narrativas deste caiçara que presenciou todas as transformações vivendo como menino do Centro da cidade.

             

        Você pode imaginar alguma criança, algum adolescente que tivesse quase uma cidade inteira como quintal para brincar? Eu tive, os da minha geração tiveram. Nesse quintal, há uma área que me traz muitas recordações daqueles tempos, circunscrita pela Praia do Cruzeiro, a boca da barra do Rio Grande da cidade, o morro Curuçá ou Morro da Prainha (conhecida nos tempos atuais como Prainha do Matarazzo).

        Esse morro era uma espécie de posto avançado na baía da cidade, de atalaia para o enfrentamento de quem ousasse, vindo pelo mar, atacar a então Villa de Ubatuba. No alto, em sua vertente, há uma valeta que a percorre no sentido da Praia do Perequê-Açú. Disseram-me tratar-se de uma trincheira. Aquela gruta que há defronte à Avenida Felix Guisard, dizem ter sido um túnel que sairia na Praia do Perequê-Açú.

        A Prainha do Matarazzo, no sopé do Morro Curuçá, foi porto para escoamento do café proveniente do Vale do Paraíba, café trazido em jacás, no lombo de burros. Deve haver ainda vestígios do cais que lá havia. Cheguei a conhecer as ruínas dos prédios da alfândega no canto direito da praia, convivendo com ranchos de canoas. O caminho pedregoso (talvez seja daí o nome Curuçá) que nos leva da Felix Guisard até a Prainha era cercado de amoras silvestres rasteiras, uma amorinha preta deliciosa, e urtigas terríveis.

         Meu tio Álvaro, irmão de meu pai, quando vinha do Rio de Janeiro nas temporadas de verão, levava a sobrinhada para tomar banho de mar na Prainha. A Praia do Cruzeiro não era aconselhável ao banho por ser brava e cheia de peraus traiçoeiros.

         No sopé do morro Curuçá havia também a casa do pescador Sidônio, pai do Toninho Sidônio, um amigo de infância que, assim como eu, era fã de gibis, álbuns de figurinhas e assistir, no Cine Iperoig, aos filmes de faroeste com o Randolph Scott ou com o Audie Murphy. O que assistíamos nas matinês estimulava nossas brincadeiras de mocinho e bandido nos lugares acima mencionados.

        Certa feita, a prefeitura meteu uma máquina de terraplenagem no alto do morro (no local onde recentemente funcionou a casa noturna “Tribo”) abriu uma clareira lá em cima. O saibro, o barro, desceu morro abaixo. Se não me engano, na época, disseram que era para construir uma caixa d’água que iria abastecer a cidade. Não fizeram merda nenhuma. Aquilo tudo ficou para nós brincarmos. Para os mais velhos, uma ferida no morro; para nós, um enorme escorregador proporcionado pela prefeitura. Apanhei muito de timbopeva por causa desse escorregador. Não havia calção que aguentasse. Vinha sempre com a bunda do calção suja de barro. Quando dava, sentávamos em papelão ou na bainha da folha seca da palmeira imperial que pegávamos na Praça da Matriz. Inesquecível.

        O Toninho Sidônio contou-me que viu assombração no caminho que leva à Prainha. Usavam uma túnica com capuz e cada qual segurava uma vela. Desapareceram de repente. Quando ouvi, arrepiei-me todo. Toninho disse-me que naquela pedra grande em que há um argola de ferro fixada, lá nas proximidades da estátua de São Pedro, era onde os escravos, que vinham nos navios, ficavam acorrentados... O medo naqueles tempos educava, era formador de homens, colocava limites. O medo do Inferno, penso eu, era o pior deles. Hoje em dia, as crianças não têm medo de nada e também não têm limites.

          Morro Curuçá. Morro da Prainha. Atalaia de muitas histórias da minha vida, da minha geração. Tempos em que esta cidade era nossa, literalmente nossa e a gente só tinha que brincar.


Nota do Editor: Eduardo Antonio de Souza Netto é caiçara, 60, prosador (nas horas vácuas) de Ubatuba, para Ubatuba et orbi.

(Fonte: O Guaruçá)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A PRAÇA É...



                Para acrescentar algo mais ao texto do Magalhães publicado ontem, escolhi uma fotografia do meu irmão Wagner “Guinho” como ilustração da minha contribuição no tema (sobre nomes de logradouros). Era o ano de 1983. Ao fundo se vê a imobiliária do primo Benedito Oliveira. Ao seu lado nasceu o Maré Hotel. Progresso, gente!

                Em 1970, para chegar até o bairro da Estufa, partindo da praia, era preciso enfrentar a Rua Taubaté com mato por todo lado. É lógico que denominação é em homenagem à cidade vizinha! Afinal, quem loteou a Estufa inteira, sob o nome de Jardim Gurilândia Caiçara , em 1952, foi o taubateano Lycurgo Querido! Na verdade era um caminho no meio do mato. A impressão que se tinha era de estar se dirigindo a um sertão longínquo. Até se duvidava que houvesse gente morando por ali. Mas tinha!

                A minha bisavó Zulmira Cabral morava “logo ali”, perto do Morro da Mina, juntamente com as minhas tias Sebastiana, Tereza e Apolônia. Todas caiçaras nascidas na praia do Pulso. A gente andava muito para visitá-las. (Depois de desembarcar do Expresso Rodoviário Atlântico, na orla da praia).

                A Praia do Itaguá era o que é hoje, mas com águas límpidas e limpas, onde as pessoas davam as suas redadas. Os ranchos estavam por ali mesmo, no jundu, pela beira do rio... Será que alguém ainda se lembra do Ponto do Wilson (um rancho de canoa com um bar anexado, bem na beira da Barra da Lagoa)? Parecia uma fruteira: sempre com "passarinhos" em torno da "branquinha".

                No final da década de 1970, quando foi concluída a BR-101, ganhou destaque o trecho que atravessou o bairro da Estufa, cortando-o ao meio (Estufa I e II). Foi quando nasceu a Praça Santos Dumont, na Praia do Itaguá, bem no ponto de partida da Rua Taubaté.  Depois, mediante a ação de um vereador, ela foi renomeada em Praça Alberto Santos. Hoje, devido à atrativa ossada de um cetáceo encalhado, há coisa de quinze anos na praia Grande, me parece que vai virar a Praça do Esqueleto. Isto já é contribuição do pessoal do Aquário que está na outra margem da barra. Certamente que as fotografias deste ponto turístico em Ubatuba já ganharam o mundo.

                Só não me pergunte onde foi parar o busto do inventor do avião. Creio que era de bronze.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

CARTA DA ILHA GRANDE

Saco do Céu: a natureza que inspira o Magalhães.


                 Eu gosto de ler. Ao apreciar um texto, presto atenção nas inspirações, no olhar sobre a natureza e o homem, sem me descuidar da concepção do bem e do mal, mas com um detalhe: a moral tem diferentes faces porque ninguém tem acesso absoluto a ela.  Por isso, ao ler o escrito do Magalhães Netto, me recordei das acolhidas que os caiçaras faziam em outros tempos aos visitantes que se encantavam com as inigualáveis praias, com a limpidez das águas do mar e dos rios.

                Eram atitudes cativantes para retornos futuros, capazes de justificar horas de viagens em péssimos acessos. Ou seja, o povo caiçara, por si mesmo,  era um importante chamariz. Só assim dá para entender porque muitos, depois de um primeiro contato, não conseguiram mais viver desapegado desse ambiente natural e cultural. Influência semelhante tem o Saco do Céu ao nosso autor de hoje.

              CARTA DA ILHA GRANDE

              Saco do Céu, 30 de julho de 2012.

                BRUNO & BIANCA,  E VINÍCIUS.

               Faz parte da cultura (?) brasileira o desprezo por tudo que é antigo, velho,   tradicional, em suas diversas variantes. É uma característica negativa de nosso povo, diametralmente contrária ao que acontece em muitos outros  países, sobretudo nos europeus e asiáticos, herdeiros de civilização mais evoluída. Cada geração esmera-se em minimizar a importância ou simplesmente esquecer as coisas do passado, sem lembrar que assim agindo será também esquecida pelos que virão depois. Poder-se-ia exemplificar à larga  essa falha de procedimento em muitos outros aspectos, mas, para não me alongar   demais, vou ater-me apenas ao desrespeito que mostramos em relação aos nomes históricos de logradouros públicos e dos acidentes   geográficos.

                No assunto, um fato marcante ficou em minha memória. Em certa fase dos tempos passados, aluguei um pequeno, modesto apartamento numa esquina da  Rua da Consolação, na capital paulista. Não no setor movimentado, comercial, que liga o centro da cidade à Avenida Paulista, mas naquele trecho aprazível,  à época quase que somente residencial, na qual ela desce da Paulista até encontrar seu final na Rua Estados Unidos. Certo dia, reparei num pessoal da prefeitura municipal retirando as velhas, enferrujadas placas indicativas   do local. A intenção não era substituí-las respeitosamente por outras mais  legíveis: o nome nas novas, reluzentes placas era outro. Rua Padre Donizetti Tavares de Lima. Vereadores ansiosos por captar votos dos admiradores do padre milagreiro, ou o próprio prefeito, acharam por bem modificar o nome de   parte da tradicional via pública. Quando não há disponível uma rua ou avenida com nome sem importância histórica, adequada a uma alteração sem   maior oposição pública, ou uma avenida arterial  ainda não batizada   em novo loteamento, é o que fazem os políticos paroquiais: dividem uma   via importante ao meio de sua extensão, e lascam num dos trechos resultantes o  nome do homenageado.

                Só que, em nosso caso, calcularam mal o ânimo tradicionalista,   preservacionista dos moradores. Já no dia seguinte surgiram,  esticadas nas fachadas de residências próximas às chamativas placa novas, faixas com dizeres que traduziam a revolta da população local. Lembro em particular de uma delas: " A Rua da Consolação será sempre Rua da Consolação". E houve quem chegasse a atitudes mais drásticas, arrancando das paredes das esquinas as   ditas novas placas ali pregadas.

                 Apesar de a esse tempo meio alienado em relação a coisas distantes de meu   interesse principal - seja a sobrevivência econômica e o estudo - e   não me dizendo diretamente respeito o fato, já que tinha ali um   residência provisória, ainda assim a atitude dos governantes municipais me havia desagradado profundamente. Se fossem formados piquetes populares para mostrar nossa disposição, eu certamente me incluiria neles. Mas não foi necessária essa modesta adesão: as autoridades voltaram atrás, e a Rua   da Consolação continuou sendo Rua da Consolação em toda a sua extensão.  

                  Ao meritório prelado, cuja beatificação foi acelerada pelo atual dirigente máximo da Igreja Católica, ficaram ao que verifiquei muitas outras homenagens   toponímicas em vias importantes de cidades espalhadas pelo nosso   território. Talvez mesmo tenham os políticos achado na própria capital  estadual  outro local, com moradores menos aguerridos, para ali mostrar   sua (duvidosa) veneração.

                 A vitória obtida nesse entrevero não é a regra, foi a exceção dela.   Normalmente os donos do poder de mudar mudam sem problemas. Mas vamos a casos   mais proximamente relacionados com nosso interesse pelo litoral, pelo mar. Já   mencionei ("Caranguejo de Praia", capítulo "Viagem Sentimental") um exemplo típico de outras motivações menos religiosas para alteração de nomes   de logradouros públicos. Em Itanhaém, litoral paulista, havia em tempo   antanho a Praia do Meio. Era a praia de banho dos poucos veranistas que ali  chegavam no trenzinho sacolejante que partia diariamente de Santos, ou enfrentavam as incertezas de varar com seu veículo as muitas dezenas de quilômetros rodando sobre as areias traiçoeiras da Praia Grande. E não é que algum hoteleiro ou dono de restaurante achou sem graça esse nome, não era   suficientemente chamativo para atrair o turista, aumentar-lhe a freguesia, e   inventou uma tal Praia do Sonho? O nome bobo pegou, e é como a praia do Meio é conhecida desde essa época.

                O curioso é que os nomes antigos quase sempre são, mesmo no aspecto   turístico, mais interessantes do que aqueles que os mudancistas  interesseiros criam. Normalmente estão relacionados com características próprias do local, ou a atividades que ali eram exercidas em tempos perdidos na memória. Soam, via de regra, simpáticos em sua simplicidade. Rua da   Pimenta,  Ladeira do Escorrega , Largo da Passarada, Beco do Ferreiro   - não são nomes de muito maior força do que aqueles que tomarão seu lugar? Mesmo assim serão logo substituídos, salvo talvez o último  - um   beco será considerado muito pouco importante para lembrar um falecido ou   para constar de roteiro turístico.

                Em Ubatuba também anotei vários casos de modificação tola, injustificável de  nomes consagrados pelo longo uso. Quando comecei a frequentá-la, havia a Rua  da Praia, também chamada Estrada da Praia, que ligava o   reduzido amontoado de casas que constituíam o centro urbano à Praia   Grande, esticando-se depois até a Enseada, por onde se fazia o embarque do necessário à manutenção do Presídio da Ilha dos Porcos. Casas  muito rarefeitas, uma verdadeira estradinha vicinal. Com o passar dos  anos, essa Rua da Praia ganhou o status de avenida quando foi calçada e   alargada, e finalmente veio a chamar-se Leovigildo Dias Vieira.  

                É onde se situa, em seu canto  direito, nosso pequeno clube náutico. Resultado: tenho grande  dificuldade quando pronuncio esse nome para preenchimento de nosso   endereço nas notas fiscais das compras que fazemos. Já descobri que a única maneira de me fazer entendido, sem precisar soletrar trabalhosamente o nome   complicado, é decompô-lo. Leo-vi-gildo. Todo mundo conhece um Léo, e Gildo também não é nome incomum, então meu interlocutor consegue escrever certo o  conjunto. Sem fazer pouco do homenageado, do qual não tenho informação alguma, acho que quem carrega um nome assim devia pagar mais imposto. Inclusive o conhecido e competente Junior, flamenguista de antiga cepa, agora jogando somente entre veteranos e atuando como comentarista futebolístico, a quem   os pais pespegaram tal prenome.

                E a Ilha dos Porcos, mencionada acima? Quando a visitei pela primeira vez, havia realmente porcos por lá. Cliquei nesses dias uma boa fotografia em preto e branco das árvores à beira d’água, ao lado do semidestruído edifício  do presídio onde ocorreu a célebre revolta dos internados. Com muitos porcos  refugiados à sombra delas, justificando a denominação. Mas virou Ilha  Anchieta, apesar de que como nossa Marinha é também conservadora, a carta   náutica da região ainda consagra o nome antigo.  Nada contra homenagear o padre,   pacificador dos belicosos índios Tamoios, mas há que se respeitar a memória, o   desejo dos que primeiro a nomearam.

                Não é a única com esse nome no município. Ao norte, a caminho de Paraty, está   plantada outra ilha com igual denominação. Bem menor, foi usado para  diferenciá-la o nome de Ilha dos Porcos Pequena. Com o passar do tempo, veio   a corruptela: Ilha dos Porcos Pequenos. Esse nome pouco atraente, esse detalhe foi, por estranho que pareça, determinante  de meu abandono da ideia de adquiri-la. Quando ensinava os segredos do mergulho em aulas na Associação Cristã de Moços paulistana, dando-me conta da necessidade de criar   meios para evitar a dispersão dos alunos depois de terminados os   cursos, propus a uma das centena e meia de turmas, talvez a mais   animada delas,  a compra dos   direitos de ocupação da ilha, que estavam à venda.    Havia nela uma praia bonita, oferecia bom abrigo para desembarques, sua costeira de água limpas favorecia o mergulho.

                Foi então que um de meus alunos, engenheiro e depois reitor da Universidade Mackenzie, e que já ocupava uma certa liderança no grupo, veio com uma objeção lamentosa, julgada pelos demais importante: "Diabo, Magalhães, você não pode nos arranjar uma ilha com outro nome? Ilha dos Porcos Pequenos ... Ilha dos Porcos Pequenos ... se formarmos   um clube de mergulho nela, logo ele passaremos a ser conhecidos como Clube dos  Porquinhos !!!"

                E com isso a coisa esfriou. Anos depois a ideia de criar uma entidade   esportiva para congregar meus ex-alunos se concretizaria em terra continental, na citada avenida Leovigildo. E a ilha em questão terminaria em mãos de um de nossos associados, que ergueu ali uma bela e espaçosa   vivenda. Uma de suas providências foi procurar mudar o nome comprometedor.   Passou a designá-la Ilha da Almada, o mesmo de uma das praias próximas. Creio que a próxima geração já terá esquecido o desagradável toponímico original.

                Mas, saindo das praias paulistas, vamos finalmente ao que motiva estas   escrevinhações.  Há vinte e seis anos comprei esta propriedade na Ilha   Grande. Trezentos e tantos metros de frente para águas encalmadas e  transparentes, um local de beleza rara, com uma pequena praia   encastoada na montanha coberta do verde de uma floresta densa e alta. Na  verdade havia ali em tempos muito distantes um sítio,  criava-se   animais numa várzea à meia altura, e plantava-se cana e uma agricultura de   subsistência. Depois, com a saída dos antigos proprietários e o relativo abandono a que o releguei, a floresta voltou a avançar firme, cercando a   pequena casa, um rancho erguido no aterro centenário protegido do mar por muro   de pedra.

                O nome da praia, que consta inclusive de antigas escrituras, confirma as histórias ouvidas sobre piratas que ali se escondiam para surpreender as   naus que levavam de Paraty para o Rio e para a metrópole lusitana o ouro   de Minas Gerais e os produtos da agricultura regional. Praia da Aguada. Aguada, o local em que se abastecem de água as embarcações. Era ali, naquele remanso no qual o líquido cristalino caia da montanha junto ao mar e   escorria pela areia, o ponto mais indicado para servir de refúgio às   embarcações rapinantes. Praia da Aguada.

                Porém não interessa respeitar a tradição, quando se visa lucro. E, com o   desenvolvimento súbito, desenfreado, do turismo náutico na Ilha   Grande, novos nomes de acidentes geográficos foram imaginados para atrair   os visitantes aos passeios embarcados. Surgiu uma tal Lagoa Azul, depois veio   a Lagoa Verde. E até a pequena praia sobre a qual se encarapita meu rancho,  trinta e poucos metros de areia junto à mata exuberante, já   normalmente, pela sua beleza, visitada antes por um número apreciável de   embarcações, também ganhou um novo nome. Praia do Amor.

                Até nos roteiros turísticos, nos mapas da ilha pintados em locais públicos,   aparece o novo designativo. Praia do Amor. Existe algo mais cafona? E não ficou nisso, não bastou isso. Logo foram espalhada uma estória que os agentes e os pilotos das embarcações de turismo esmeram-se em contar   a seus passageiros. Criou-se uma lenda pouco imaginativa, mas bem comercial, pela qual nomes de enamorados, se escritos na areia naqueles metros de   praia, resultarão em uniões felizes e duradouras a seus portadores. E então desembarcam das lanchas e escunas dezenas de garotas esperançosas, seus bumbuns desvestidos pelo fio dental à mostra quando se inclinam para   escrever com os dedos ou com um graveto ali achado, dentro dos traços do   tradicional coração estilizado, as iniciais ou os nomes completos dos   candidatos à felicidade amorosa.

                De início, nesse novo período de ocupação da casinha, irritei-me com a frequência maior de visitantes e com a bobagem dos nomes rabiscados na areia.   A alguém que me perguntava se era ali a Praia do Amor, respondia: "Não, a do Amor fica depois da próxima esquina. Aqui é a Praia do Ódio.” Realmente, mesmo   não chegando a odiá-los, causavam-me aversão os farofeiros que se achegavam a   este paraíso com sons em volume máximo e se jogavam à areia com uma garrafa de   cerveja à mão.  Mas além de reconhecer-lhes o direito ao desembarque,  percebi com o tempo   que começavam a me respeitar, as escunas já não colocavam seus alto-falantes a   plena potência, abaixavam o som quando eu lhes fazia sinal. E acabei por constatar que, desde que não me invadissem o entorno da casa e minha   privacidade, não faziam estrago - só uma lata de cerveja eu recolhi da praia   nestas últimas excursões à ilha. Acostumei-me ao movimento maior de forasteiros nos finais de semana e dias feriados, e até a entreter conversa,   esclarecendo sua curiosidade, com  alguns deles que se acercavam de forma   respeitosa.

                Mas não aderi à nova denominação de minha querida prainha. Para me contrapor àquelas invencionices de caráter mercenário, fiz mais: confeccionei em Ubatuba uma placa com o nome verdadeiro a praia, na intenção de prendê-la a uma das palmeiras que se debruçam sobre a areia. Ficou bonita, recebeu um fundo sugestivo, achei que merecia uma   moldura. E ontem no início da tarde estava justamente terminando a pintura dessa moldura, elaborada, carpinteiro amador que sou, com uns sarrafos sobrantes da reforma do rancho, quando uma lancha turística aproximou-se.  

                Já fora do período de férias, era a única visitante, apesar do sol hibernal que, devido à limpeza da atmosfera,   ardia mais do que o dos meses quentes. Não lhe dei maior atenção até que um  rapaz de seus trinta ou trinta e cinco anos, alto, com fisionomia agradável, e   que tinha desembarcado sozinho,  virou-se para a lancha, ancorada a   uns trinta metros, e gritou a plenos pulmões, entusiasmado, sem notar ou se   incomodar com minha presença no terraço:

                - Querida, querida! Pra provar meu amor por você, vou escrever nosso nome na   areia. Pra provar meu amor por você!"

                Parei meu serviço, olhei para a embarcação. Nela, além do barqueiro, que  certamente contara a seus passageiros sobre a tal crendice oportunista, estava uma moça, uma bonita moça, cuidando de duas crianças. Achei simpática a sem-cerimônia, a espontaneidade do rapaz, num contexto em que o verdadeiro   romantismo já quase não existe mais, soçobrou no   materialismo vigente. Mas não deixei passar a oportunidade de fazer graça. Quando ele, arcado em sua altura, terminou de escrever o que se   propunha, usando os dedos, levantei o pincel e disse, sentencioso:

                - Desculpe-me a intromissão, mas me deixe esclarecer isso que você deve   ter ouvido por aí. Na verdade,  na verdade, o amor escrito nessas areias   terá realmente alguma duração. Terá duração até a próxima maré alta que vai   lavá-lo!

                O visitante hesitou alguns segundos, olhando-me fixamente. E então soltou uma   longa, sonora, gostosa gargalhada. Não esperava tal receptividade a meu   comentário jocoso, ele poderia ter sido tomado como uma atitude descabida ou   até provocativa de um estranho. Senti-me animado a  animá-lo:

                - Mas não fique decepcionado com isso não, o que vale não é a duração, é a   intensidade do sentimento. Lembra aquele final do Vinícius de Morais em seu   Soneto de Fidelidade? Aquele poeminha famoso, uma obra  prima   dele?

                   E declamei, a memória de dias já idos me voltando nos versos antes tão mentalmente   repetidos:

                "... Eu possa me dizer do amor   (que tive)

                Que não seja imortal, posto que é   chama

                Mas que seja infinito   enquanto dure."


      O cidadão ouviu, ficou pensativo, pareceu mergulhar na profundidade do   pensamento do poeta. Aí, virou-se novamente para o barco, e gritou, gritou   novamente, mais entusiasmado ainda:

                 - Querida! Querida! Além de tudo, meu amor por você é infiniiito! E   imortal!!!

                 Fiquei surpreso. Não pude evitar um sorriso largo. O rapaz não entendera nada,  não compreendera nada da intenção do Vinícius. Cocei a cabeça, divertido, e voltei à minha pintura. Depois que eles se foram, e meu trabalho terminado, desci à praia e fui ver o que ele tinha escrito. Bruno e Bianca. A preamar da noite não atingiu os nomes rabiscados na areia, mas eles não resistiram à do dia seguinte.

                Espero, sinceramente, ter estado errado em meu vaticínio. E que o simpático  Bruno e a bela Bianca continuem juntos, e felizes. Felizes um com o outro.   Para todo o sempre.

                                                                                                                                                                                                                       Magalhães Netto

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

AH! SE A MARIA VISSE!


Eis o tio João Nanico sempre bem acompanhado!

                Duas festas continuam – ainda! -  na tradição da praia Grande do Bonete, em Ubatuba: São Sebastião, comemorado em janeiro, e, Sant’Ana, cujas honrarias ocorrem em julho, logo depois do tempo da tainha. Nessas ocasiões as pessoas do lugar se mobilizam para apresentar o que têm  de melhor aos visitantes. Um exemplo é a famosa Consertada, um licor dos antigos.

                Hoje, muitos dos frequentadores dos festejos são turistas, devido ao tempo de férias. Porém, em outros tempos, um mundaréu de caiçaras vinha de todos os lugares, até de bairros e de ilhas relativamente longe dali.

                As comemorações aconteciam em dois momentos: o primeiro era a dimensão sagrada com momento de oração na capela, seguido de comes e bebes e um leilão beneficente; depois, a parte profana, consistia em danças (bate-pé, ciranda, baile...) que aconteciam na casa de alguém disposta a ceder com muita boa vontade um modesto espaço, onde os casais se expunham, tinham “contatos mais ousados” etc. Também era um espaço para apreciar os dons artísticos do povo caiçara através dos instrumentistas, músicos, declamadores, coreógrafos e outros.

                Um desses bailes, ainda na década de 1960, foi na casa do finado tio João da Vargem. Nem tinha passado uma hora, mas os casais estavam eufóricos, com os músicos no maior fôlego e suor. Festa boa! De repente alguém cisma de fazer uma brincadeira:  foi atrás da casa, onde ficavam os ninhos das galinhas, abaixou um dos balaios que servia de chocadeira e ali defecou apressadamente. Bosteou tudo! É lógico que imediatamente a galinha aprontou a maior barulheira. O dono da casa, munido de um flashlight (lanterna), ao deparar-se com o inusitado troço entre os ovos, ficou raivoso:

                -  O baile tá acabado. É muita bandalheira num divertimento que ia tão bem, com tanta gente comportada.

                E continuou o sermão:

                - Vocês me conhecem bem. Sabem que eu não sou de xingar  ninguém. A sorte de vocês é que a minha mulher, a Maria, tá dormindo. Tivesse ela acordada que  vocês escutariam coisas medonhas. Ela é parente do Mané Bento! Com ela não tem esse negócio de pensar muito e de se conter para não destratar ninguém. É  isto que eu digo: se ela tivesse acordada, metia a boca que acabava!

                Por fim, encerrando a falação:

                - Agora vão embora. É sorte de vocês que a Maria tá dormindo!

                Quem me contou este fato, rindo muito, foi o saudoso tio João Nanico.

                Ah! Se a tia Maria visse aquilo!

terça-feira, 4 de setembro de 2012

CAMINHO DO PIABIRU


Laudelino Mesquita viveu como pescador e roceiro.

                Ao encontrar um documento antigo, onde o meu pai, no segundo ano escolar, com outros  – poucos! – foi promovido, me deparei com um termo diferente.  Trata-se da classificação de conservado para os alunos retidos. Engraçado, né?

                Naquele tempo tinha um exame final. As provas, que davam a comprovação de promovido ou conservado, eram aplicadas por outra autoridade. O mestre do cotidiano só ficava na assistência.  Ah! Isso era o ano de 1949, na Escola Masculina da Maranduba. A professora substituta era Nelly Maria Alves de Melo. Alguém sabe mais sobre ela, quem são seus familiares etc.?

                Dei essa introdução só para que entendam outro assunto: o Caminho do Piabiru. É que, olhando a lista dos colegas do papai naquele tempo escolar, me recordei do Caetano da Ponta Lisa, no caminho que conduz ao Saco das Bananas. Foi no terreiro dele, numa roda de prosa, por volta de 1980, que alguém citou o velho Laudelino Mesquita.

                De acordo com a prosa, o Laudelino, que na época já era falecido, descendia de um caminhante do Piabiru. Ao especular mais do assunto, fiquei sabendo de história de muito tempo. “Do tempo d’ante”!

                Pelo que eu entendi, o Caminho do Piabiru era em São Vicente. Ou melhor: saía desta cidade, na Baixada Santista, e seguia para os sertões. Até juraram pelo defunto: “Era um caminho que atravessava o Brasil inteiro e outros países, chegando no outro lado, onde também tinha mar”. Quem lhe afiançava isso era o seu pai que escutou de seu avô. Este transmitia uma história de família, do tempo onde um dos antigos Mesquita fez parte de um grupo que entrava pelos matos para capturar índios e vender como escravos. Deduzo então que, de andanças em andanças, assim veio parar na costeira da Ponta Lisa um descendente de caçador de índios, do tempo do Brasil Colonial.

                Portanto, a oralidade é uma importante fonte histórica. Só que ela exige técnicas diferenciadas que permitam reconstituir o passado.

                Questão: nós temos noção da importância dos mais velhos para ativar o passado às novas gerações?

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O BICHO DA PONTA GROSSA



                     Enquanto não chega um tempo propício para outras revelações da amiga Fátima, vamos apreciando um material já registrado pelo Luiz Moura, d' O Guaruçá.



             No tempo da colonização feita pelos portugueses, a região da Ponta Grossa, aqui em Ubatuba, que nada mais é que uma belíssima península junto à cidade, foi uma das regiões mais habitadas. Conta-se que até uma enorme fazenda vinícola foi erguida naquele lugar. Segundo testemunhos orais, o português Barroso era o proprietário desta fazenda. Até hoje seus descendentes ainda vivem no bairro do Itaguá. Mas antes disso, conta-se que essa região era um lugar quase inóspito. Era somente pedregulhos, um solo arenoso e seco, onde somente os rústicos capins se atreviam a brotar. Pois foi este lugar que o rico fazendeiro ofereceu a seu compadre pobre que um dia lhe bateu à porta, pedindo não esmolas, mas um pedacinho de terra onde pudesse plantar para o sustento de seus filhos.

           Para lá foi o esperançoso homem trabalhar, sonhando prover pelo menos alimentos para seus dois filhos e esposa. A semana se passava. Era doloroso capinar sob o sol quente a árida terra. Sentava-se para comer um naco de carne seca e farinha junto à boca de uma gruta.

          Um dia, ao olhar desanimado para o eito que nada prometia, cismou por comer seu jabá e não pensar coisas ruins, quando ouviu uma ressonância, um resfolegar, um bafo quente e fétido. Adentrou a gruta devagarzinho, e deu de cara com um monstro, um bicho que lhe fez ouriçar os cabelos, e faltar-lhe o ar. O bicho então falou:

        - Hei, você aí, me coloca pra fora dessa gruta, preciso tomar sol.

        O homem meio desnorteado, mas com muito cuidado e medo, puxou o bicho para fora da toca. Quando foi à tarde voltou para recolher o bicho.

       O tempo foi passando, e o homem já fazia aquilo pela grande amizade que fez com o bicho. Pois esse monstro era o único que ouvia as suas agruras. Cansado de ver o seu querido amigo sofrer, o bicho deu um horroroso rugido e abriu a bocarra, pediu ao homem que metesse a mão dentro de sua boca retirasse o que havia lá. Receoso, mas não tinha nada a perder mesmo, fez o que o bicho mandou. Em sua goela estava um pote de ouro chapado.

       A vida do homem pobre mudou.  Vendo a mudança do compadre, o homem rico foi indagar a origem da fortuna. O homem pobre lhe contou a respeito da gruta que ele denominou de Barroca, e o que se venturou lá. Mais que depressa o homem rico foi ao local e sem dó nem piedade arrastou o bicho para dentro, e arrastou o bicho para fora. Forçou a boca do bicho, que numa só mordida arrancou-lhe o braço.

         Dizem que o jorro do sangue do homem rico corre até hoje lá em forma de uma bica de água dentro da Barroca. A terra se fertilizou, até plantação de uva teve lá, uvas eram cor de sangue.

          Segundo dona Miminha, que hoje habita ao lado do Senhor, aquelas terras um dia foram terras prósperas, onde se cultivava uva para o fabrico do vinho. Tempo depois um alambique foi instalado. Antes das terras dos Barrosos serem vendidas. O início do bairro do Itaguá que conhecemos hoje, se deu com a maioria dos moradores provindos de famílias da Ponta Grossa e adjacências que vieram trabalhar na fazenda dos Barrosos.




Nota do Editor: Fátima Aparecida Carlos de Souza Barbosa dos Santos, ou simplesmente Fátima de Souza, é, sem dúvida, a primeira caiçara da sua geração a escrever sobre temas do cotidiano local. É autora de Arrelá Ubatuba.
(FONTE: O GUARÛÇÀ)


sábado, 1 de setembro de 2012

ACIDENTE NO MAR



O homem de cabeça branca e as ostras da costeira do Acarau.

                De vez em quando acontece acidente no mar. E dos graves!

                Em junho de 2003, em São Sebastião, num acidente com um navio petroleiro, milhares de litros de óleo foram parar no mar. Causaram um estrago danado!

                Quando o assunto é preservação ambiental, dificilmente ocorre outra reflexão que subjaz dentro deste tema, ou seja, em torno dos autores da preservação. Melhor dizendo: se preocupam – justamente! -  pelos seres marinhos, aves conjunto de ecossistemas etc., mas se omitem a respeito dos seres humanos que dependem diretamente desta natureza,  que aprenderam a conservá-la por sua função vital que gerou uma simbiose secular, milenar, sei lá o que mais.

                Não tenho nenhum receio em dizer que se deve muito ao caiçara pelo bom estado de conservação da natureza. O nosso entorno, que atrai tantos turistas e investimentos, está ainda em estado razoável porque existe – ainda! – uma cultura a viver em interdependência com o meio circundante.  Assim, neste espaço geográfico, homem, mato, mar, rio e demais seres se completam. Os desvios perversos encontrados são, parafraseando o autor evangélico, “sementes de joio que o inimigo espalhou na plantação de trigo”. É gente sem escrúpulos, traidores de uma tradição cultural que se pauta pela conservação ambiental. Afinal, dela depende a vida de todos!

                Por ocasião daquele acidente, fiz a seguinte pergunta:

                Quem vai indenizar os pescadores pelos estragos nas costeiras, nas praias e no mar?

                Certamente que, ao afetar toda a cadeia alimentar, também causaria desequilíbrio na sobrevivência de muitas famílias caiçaras que possuem laços estreitos com o mar.

                Pensei em tudo isso porque é a minha convicção: as comunidades tradicionais devem estar conscientes de seus direitos e de seus deveres. Em casos similares, ou em outro acidente  mais pavoroso, os responsáveis devem ser acionados para um desembolso regular até o restabelecimento das condições naturais. As costeiras devem ficar limpas de qualquer material estranho que perturbem tudo aquilo que delas dependem. As empresas envolvidas direta ou indiretamente com os sinistros devem financiar projetos dos grupos organizados e apoiar a Colônia de Pesca em seus esforços para abrandar os prejuízos causados aos trabalhadores do mar.

                Por isso é importante um cadastro municipal do número de pessoas em conexão direta às atividades econômicas ligadas ao mar. Inúmeras são elas: pescador, mitilicultor, aquicultor, coletor de limo, mariscador etc. Eles estão espalhados desde as Galhetas, na divisa com o município de Caraguatatuba, até o Camburi, fronteira com o Estado do Rio de Janeiro.

                Não foi a primeira e nem a última vez que Ubatuba foi afetada por um vazamento de óleo, devido à nossa localização próxima do porto de São Sebastião. Qualquer praiano já testemunhou “tapete  de pixe” em nossas praias, já teve que recorrer ao querosene para remover as resistentes  manchas pretas, sobretudo dos pés. Se alguém perguntar aos moradores mais antigos da praia do Puruba a respeito do sumiço das grandes ostras de seus rios, a resposta será uma só: “Foi depois de uma maré de óleo que isso aconteceu; ela invadiu tudo e depois disso ficamos nesse estado, nunca mais voltou a ser como era”.
               Agora, com a ativação da extração de petróleo tão próxima de nós, as coisas podem se complicar.