segunda-feira, 16 de novembro de 2020

FARRA DE CAUSOS (X)

 

Meu filho na trilha do Baguary (Arquivo JRS)

SEMANA SANTA

          Fomos todos para roça, estava uma noite muito bonita. Chegando lá ficamos conversando perto do fogão de lenha. Assamos carne e tomamos uma cerveja gelada.

          Meu irmão levantou-se e disse: "Vou no mato buscar um tatu". Minha mãe não gostou : "Não vai não, é semana santa, não pode caçar". "Eu não vou caçar, só vou buscar a gaiola. Se o tatu tiver lá eu trago, se não tiver nada eu venho logo", ele explicou. "Fica aqui com a gente, bobagem ir lá", a mãe insistiu. "Eu não vou demorar", disse ele e saiu.

         Ficamos lá e meu irmão, teimoso, foi. O tempo foi passando e já era tarde, quase uma hora da madrugada. Foi quando chegou o Almir, branco, carregando um bambu. Olhamos para ele e perguntamos: "O que aconteceu? Você está pálido!". "Vocês não vão acreditar no que vou contar! Eu subi no mato e quando cheguei perto da gaiola, a gaiola começou a mexer. Eu pensei que o tatu estava lá comendo, aí eu resolvi subir na árvore para esperar a porta da gaiola cair. Como estava demorando, subi num galho da árvore perto de um bambuzeiro. De repente o bambuzeiro começou a balançar e fez um barulho muito forte ali, igual a uma serra elétrica. Eu comecei a ficar com as pernas moles. Não ventava, era só ali no bambuzeiro, mas era de sujar as calças. Comecei a rezar e pedir para Deus ter piedade de mim, que aquilo parasse, que eu ia embora e soltava o tatu...eu quase chorei de pavor. Foram horas de barulho. A impressão que dava era que estava tudo caindo, e o bambu sendo serrado, um a um. Quando parei de rezar, o barulho parou. Desci correndo e larguei tudo. Vim embora".

        Minha mãe falou: "Falei para não ir lá, né?"

        Fomos dormir e, ao amanhecer o dia, fomos ao lugar e os bambus estavam todos retalhados, cheio de marcas, parecia trabalhado. Era incrível ver aquilo, ninguém acreditava no que a assombração fez em todos os bambus. Pegamos um e guardamos para mostrar.

       Meu irmão nunca mais conseguiu esquecer o que se passou. A gaiola ficou em mil pedaços. Nunca mais ele caçou. Todos que veem o bambu não acreditam.

(Autora: MCS)


domingo, 15 de novembro de 2020

CHEGOU O PÃO

Aquarela da Má (Arquivo JRS) 

               Escuto um falatório na rua, parece em frente ao portão da nossa casa. Ah! É de dia de eleições municipais!  Em toda ocasião dessa, um mundo de gente faz volume pelas vias, entrega papeis ("santinhos") de candidatos e quer convencer os eleitores que tal fulano é bom, precisa de seu voto etc. Pobre de quem se sujeita a isso. É usado, mas talvez nem queira saber disso. Dessas pessoas, diria o Velho Argemiro: "Vão se emburacando no buraco do tatu".

               Eu era criança quando o meu pai, simpático do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), outro partido político, além da Arena (Aliança Renovadora Nacional), no período da ditadura (1964-1985), fazia parte de tímidas e escondidas  manifestações. Era tempo torturante para quem enxergava o quadro horrível  e lutava pela democracia. Anos de chumbo. Vidas ceifadas. Juventude militante e aguerrida. Período de profundas marcas, sem justiça até hoje. Decorre disto o que vemos: torturadores e aliados daquele triste período no protagonismo atual, no poder federal. 

              Celino Carioca, cortador de pedra e caseiro do doutor John e da dona Tatinha, no Perequê-mirim, era o mais exaltado opositor do sistema que conheci, mas nunca se candidatou a nada. Ele, parando de vez em quando na roda da molecada, explicava um monte de coisas, nos politizava. "Vocês serão os eleitores do amanhã. Precisam saber que o modelo de governo que estamos engolindo agora não é certo. Como pode ser bom quem persegue e mata quem pensa diferente? Logo tem eleições municipais. No dia, vocês verão, vem condução aqui buscar os adultos para a votação. Cada candidato já está contratando caminhões para leva o pessoal até a cidade. Chegando lá, vocês acham que vão votar em quem? Lógico que naquele que ofereceu a condução! Como se chama isso? É compra de voto! Eu espero muito de vocês, da geração mais nova. Não deixem de usar os seus direitos. Não se deixem ser usados de tanto em tanto tempo por gente que não quer a verdadeira política. Não se vendam em troca de favores individuais. Está em vossas mãos vencer a opressão. Não sejam massa de manobra, não tenham vida de gado". A gente escutava porque o Celino era legal com todo mundo. Um pouco de tudo aquilo sempre entrava em nossas cabeças, formava nossos pensamentos e atitudes. Papai repetia de vez em quando: "O Carioca agora é caiçara".

            Hoje, a julgar pelo alarido lá fora, estamos bem longe de deixar de ser massa de manobra. O Velho Argemiro dizia que "política é coisa para ser ensinada desde as primeiras mamadeiras das crianças". Logo mais, se repetir os outros anos, passa alguém distribuindo pão com mortadela e refrigerante barato aos distribuidores de "santinhos". Debaixo da sombra das palmeiras da nossa calçada, eles parecerão esganados pela iguaria. Assim se escolhe os melhores para zelar pelos interesses da coletividade. Agora, acabei de escutar bem claro, acima das demais vozes: "Oba, chegou o pão, minha gente!"

              

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

FARRA DE CAUSOS (IX)

Outra açucena (Arquivo JRS)

          Meu pai me contou que quando ele tinha dezessete anos, foi pescar no rio do Ubatumirim com o cunhado dele.
          Era madrugada quando veio uma luz pequena e forte do tamanho de uma azeitona. Quanto mais a luz se aproximava, mais ela crescia. Um pouco distante deles havia várias árvores e a luz começou a subir em uma delas. Começou a pegar um fogaréu e a cair galhos e mais galhos.
         Eles ficaram tão assustados que até cortaram caminho para ir embora.
         No dia seguinte, ao amanhecer, o meu pai voltou ao local para ver como estaria o lugar. Quando chegou lá ficou impressionado: estava tudo como se nada tivesse acontecido. A árvore estava no lugar com todos os seus galhos e as folhas bem verdinhas.

(Autora: C)

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

PROSA NA BICA

 

Fonte da Amizade (Arquivo JRS)


                “Ainda não conheci ninguém que não anseia por uma boa talagada de água boa, fresquinha, límpida e pura como esta daqui, assim que se levanta da cama. Você conhece?”. Disto partiu a prosa, a nossa prosa (eu, Tarcísio e Afonso) enquanto enchíamos os vasilhames bem cedo, na Fonte da Amizade, acertadamente nomeada nos idos tempos pelo responsável da área entre nós conhecida por Horto Florestal. Gentil Godoi era o engenheiro da época. Aqui em Ubatuba ele começou como estudante, fazendo pesquisa nos canaviais da Fazenda Velha, onde era produzida a pinga Ubatubana. Nenê Chieus me afiançou que o Gentil era um dos jovens, na empreitada, da faculdade de Piracicaba. Eles queriam entender porque razão os pés de cana davam floradas vistosas, mas não desenvolviam sementes no clima do nosso município.

                Quem começou a prosa foi o seo Tarcísio.  De nós três, eu era o mais jovem. O “Velho” está com 82 anos. Em sua bicicleta bem usada ele fez uma armação com cabo de vassoura e corda capaz de aguentar 64 litros de água. As garrafas e garrafões são amarrados em pares, equilibrando a “máquina”.  Este tanto de água quase atura um mês inteiro para o velho aqui. Eu sou sozinho. Além de beber, uso também dela para fazer café”.

                Seo Tarcísio veio há muito tempo de Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba. Aqui criou dois filhos, envelheceu; agora, sozinho, diz que se vira. “Eu vivo bem. Sou aposentado. Cozinho apenas uma vez por mês. Congelo tudo em potinhos. Cada um é a conta certa de um dia. Assim economizo gás, tempo e mais outras coisas. Não deixo a minha casa além do portão se não houver precisão. Não assisto televisão, não possuo celular, não gosto de futebol e nem de política. Ainda bem que esse tempo acaba logo”. Neste momento eu entrei: “Desculpa aí, seo Tarcísio, mas o senhor não gosta é da politicagem, desse tempo que aparece um monte de gente no nosso bairro, no portão da nossa casa, fazem todo tipo de barulho e enchem tudo com uma montoeira de papel. Essa gente, com poucas exceções, está apenas querendo enganar a gente. Política é outra coisa. Por exemplo: este lugar (Horto) está sendo abandonado há mais de duas décadas pelo governo do Estado de São Paulo. O senhor acha certo isso? Se interessar para mudar isso é política. Porque política é isto: a arte de cuidar da cidade, do espaço coletivo. Politicagem é quando apenas os interesses de um pequeno grupo se destacam, apagando o que seria um bem comum, de mais gente. Politicagem está no lado oposto de interesse coletivo. Por isso que só em época de eleições essa gente surge, fazendo o jogo favorável aos poderosos. Um lugar deste, ainda bem público, está sendo abandonado para mais tarde ser entregue à iniciativa privada. Quando chegar nesse ponto, nós não entraremos mais aqui para pegar água na bica.  Por não se interessar por política, um bem público torna-se bem particular. Digo mais: está vendo essa sujeirada (garrafas, plásticos, lata de alumínio...) é falta de uma educação focada na política, no nosso dever em relação ao meio ambiente. A gente ajunta sempre, mas essa gente não deixa de continuar sujando”. Nessa altura da minha fala, o Afonso se intrometeu: “É isso mesmo! O que você está dizendo é certo mesmo, Zé. Sabe que na semana passada, quando eu estava esperando a minha vez de encher o garrafão, um indivíduo falava o tempo todo, defendia um candidato, acusava outro etc. Parecia ser um cidadão de verdade, entendido da política da cidade. Só que ao sair, já estava deixando um garrafão rachado ali, na natureza. Eu não aguentei e perguntei: ‘você vai deixar o seu lixo aqui?’ Ele ficou sem jeito, pegou aquela porcaria que veio da casa dele e saiu sem dizer mais nada. Mas quem me garante que ele não jogou logo adiante, no mato mesmo? Eu concordo que é preciso entender e aperfeiçoar a política. Tudo ao nosso redor depende da política. Que ela tem de se tornar uma boa política é verdade mesmo!”. O “Velho” Tarcísio só balançou a cabeça. Depois, com as cargas feitas, nos despedimos até a próxima prosa na bica.

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

AH, MARDITA!

 



Cacho de banana no meu quintal (Arquivo JRS)


                Parece que foi ontem que uma conhecida, daqui mesmo de Ubatuba, ao chegar da Argentina, onde cursava alguma especialidade na área de Pedagogia, foi logo dizendo que a imagem do nosso país estava muito ruim na nação vizinha por conta do governante atual [que, merecidamente, poderia ser chamado de desgovernante]. Eu escutei e acrescentei em pensamentos: “Não é só lá que a condição é essa. No mundo inteiro, onde os princípios civilizatórios predominam, nós estamos mal falados. O que vivemos agora, sob este governo, é uma crise civilizatória. Mas eu não me esquecerei nunca que você, pretensamente bem instruída, votou neste homem, neste monstro de esgoto que está no governo agora. Você fez a sua escolha para ele ser o líder máximo da Pátria”. Exclamariam os Galãs Feios: “Você votou no Excrementíssimo!”. Dos outros que estavam na roda de conversa, eu sabia de mais gente que participou do mesmo ato de pouca inteligência e de muita maldade.

                Hoje, refletindo sobre o descaso do presidente do Brasil pela ciência, impedindo a continuidade da pesquisa da vacina contra a epidemia do momento porque tem a participação da China, penso na dor, no fenômeno da dor. Muitos que não estão sentindo dor pela perda de pessoas queridas, de gente como nós, será que percebem a felicidade que é de não sentir dor?  Rubem Alves escreveu: “das grandes invenções da ciência, eu acho que a mais maravilhosa de todas foi o domínio da dor”.

                À referida conhecida e demais congêneres que apoiaram ou apoiam posições reacionárias, recomendo: reflitam mais, sobretudo nos momentos de dor, quando anseiam por remédios eficazes. Saibam que eles (médicos, remédios, aparelhos etc.) são os saberes da ciência. Então, que “lógica inteligente” é essa de escolher líderes declaradamente contra a ciência e contra a democratização dos bens para todos? “Ah, mardita! Você também foi criada com peixe e farinha como eu!”

 





terça-feira, 10 de novembro de 2020

A CULTURA DO MAR

 


                                                               Canoa Caiçara SSTA descansando em Brest. França (foto: Serge Santelli

A cultura do mar

Organização não-governamental do litoral paulista luta pela valorização das tradições caiçaras

ROBERTO HOMEM DE MELLO

Dois brasileiros despertaram especialmente a curiosidade dos visitantes do Encontro dos Marinheiros e Embarcações do Mundo, realizado em julho do ano passado na cidade francesa de Brest. Munidos apenas de machado, prumo e enxó (instrumento de cabo curto com chapa de aço cortante), Geovani Oliveira e Moisés de Souza transformaram, em oito dias de trabalho, um tronco de guapuruvu, trazido do Brasil, numa canoa de 7 metros de comprimento.

Ao dar forma exata à madeira bruta, sem o auxílio de compassos ou computadores, Geovani e Moisés estavam apenas utilizando o conhecimento e a técnica que lhes foram transmitidos por seus pais, também canoeiros (construtores de canoas), na praia do Bonete, em Ilhabela, litoral norte do estado de São Paulo. Nesse local, a canoa não é só instrumento da pesca, fonte principal de alimentos da comunidade. É também o único meio de transporte disponível. As pequenas embarcações levam regularmente peixe, banana e farinha de mandioca para vender em São Sebastião, a cidade mais próxima no continente, e trazem de volta arroz, sabão, sal e até sacos de cimento, tijolos e bujões de gás.

A praia do Bonete, embora esteja recebendo um número crescente de turistas, ainda resiste como uma das últimas comunidades tipicamente caiçaras, dependentes da pesca, da pequena agricultura e do extrativismo. Antes, comunidades como essa se espalhavam por todo o litoral e mantinham traços culturais comuns na faixa da costa entre Santa Catarina e o Rio de Janeiro. Hoje, devido à rápida transformação que o turismo e a febre imobiliária operaram em seu ambiente de vida, a identidade dessas populações está sendo cada vez mais diluída e suas tradições começam a ser esquecidas pelos próprios caiçaras, principalmente os mais jovens.

Cultura e sobrevivência

Mas há quem se preocupe em evitar o desaparecimento da cultura caiçara. O maior foco de resistência é justamente a organização cujo trabalho despertou a atenção não só dos franceses de Brest, mas também de instituições e universidades do Canadá, Chile, Cuba e outros países, além de ter tido ampla repercussão no Brasil. Trata-se do Projeto Cultural São Sebastião Tem Alma, sociedade civil sem fins lucrativos criada pela advogada e diretora teatral Teresa Aguiar em 1989.

Teresa e a antropóloga Ariane Porto, que coordenam o projeto, no início se dedicavam principalmente a registrar, recolher e estimular manifestações culturais como o artesanato, a música e as festividades tradicionais. Mas, numa ocasião em que se empenhavam pelo ressurgimento de uma dessas festas, a congada, que não se realizava no local há mais de 30 anos, elas escutaram de um antigo morador que, devido às dificuldades com a pesca artesanal, "ninguém estava mais com cabeça para essas coisas".

Esse depoimento somou-se a outros semelhantes, e reforçou uma ideia que passou a nortear o projeto: "É impossível trabalhar com recuperação cultural de uma população se ela está sendo descaracterizada em suas atividades fundamentais de economia e sobrevivência", diz Ariane.

A organização procurou então descobrir quais eram os principais obstáculos que afligiam os caiçaras. Com esse objetivo, promoveu em 1990 o Congresso Caiçara e o Encontro das Ilhas. Nesses eventos, foram reunidos pescadores, autoridades, ambientalistas, estudiosos e interessados em geral, que debateram - "de igual para igual", segundo Ariane - os problemas da região e elaboraram documentos com propostas para resolvê-los.

Medo da polícia

Um dos obstáculos levantados, por incrível que pareça, era a legislação ambiental, que, por estabelecer como crime inafiançável a retirada de qualquer espécie da Mata Atlântica, impedia algumas das atividades tradicionais e fundamentais dos caiçaras, como fazer roças de mandioca e construir canoas.

Os responsáveis pelo cumprimento dessas leis ainda conseguiam piorar a situação. A organização colheu depoimentos de canoeiros e artesãos que tinham sido "presos, algemados, alguns espancados, tratados como criminosos" pela Polícia Florestal, diz Ariane.

Isso deixou os caiçaras retraídos. Ariane procurou pessoas que sabia serem canoeiros, para convidá-los para atividades do projeto. Eles desconversavam, com medo.

A organização, aproveitando o contato proporcionado pelo Encontro Caiçara, fez acordos com o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e a Polícia Florestal, para que, mediante vistoria prévia, fosse autorizada a utilização de árvores caídas naturalmente ou condenadas - o guapuruvu, por exemplo, depois de cerca de 30 anos de idade costuma ser atacado por brocas e não demora a morrer, diz Ariane.

Apesar do avanço obtido com esses acordos, a burocracia permaneceu muito complicada. Ariane conta o caso de um canoeiro que a procurou "desesperado". Um jequitibá estava caído no seu terreno e ele queria usá-lo para fazer uma canoa. A árvore havia sido derrubada por um raio, mas ainda assim era necessária uma verdadeira via-crúcis para obter a autorização para utilizá-la: exigia-se um croqui (o morador não tinha ideia do que fosse isso) mostrando onde estava a árvore tombada, que deveria ser encaminhado ao Departamento de Proteção aos Recursos Naturais (DPRN). Depois disso, era preciso esperar uma autorização da Polícia Florestal e por fim uma vistoria do Ibama.

O projeto assumiu a causa, mas foi em vão. Depois de seis meses de vaivém burocrático, quando tudo enfim ia se resolver, o jequitibá já estava podre...

Esse esforço, porém, não foi em vão, pois representou o germe de um dos trabalhos de maior repercussão da entidade: a revalorização do ofício de canoeiro. Conhecidos os trâmites da burocracia, a organização repetiu o processo e conseguiu para si mesma um tronco de guapuruvu. Ele serviria para "levar o trabalho dos canoeiros para o espaço público", diz Ariane. Armou-se um abrigo para construir canoas em plena praça do fórum de São Sebastião, onde o canoeiro Antônio Pequeno, de 75 anos, começaria a esculpir uma canoa.

Os incidentes que ocorreram no lançamento dessa ideia provaram que ela era necessária. Os golpes do machado de Antônio Pequeno no tronco despertaram imediatamente a ira de pessoas reunidas por uma manifestação ecológica (era o Dia do Meio Ambiente). "Fomos chamados de assassinos", diz Ariane.

"Mas com o tempo", afirma ela, "conseguimos convencer a população de que não é o canoeiro que destrói a Mata Atlântica."

As atividades da organização, sempre documentadas em vídeo, começaram a ser veiculadas na mídia. A partir daí, a abrangência do trabalho, que já havia começado a aumentar, não parou mais. Depois do Encontro das Ilhas, a entidade organizou dois encontros nacionais e um internacional - "sem abandonar aquela mesma estrutura da primeira reunião, dando direito de voz a todos", diz Ariane - e hoje acumula as mais diversas iniciativas. Dentre elas, a que hoje mais empolga Teresa Aguiar é um ambicioso programa de repovoamento do mar, nos moldes de trabalhos internacionais bem-sucedidos. O objetivo é oferecer condições para que a fauna marinha se reproduza em proporções muito maiores que as de hoje e com isso contribuir para a recuperação da pesca artesanal.

Outro trabalho da organização é o apoio às comunidades isoladas da região - nas ilhas de Búzios, Vitória e Montão de Trigo e na praia do Bonete. Além de visitá-las periodicamente com equipes de assistência médica, odontológica, etc., o projeto reabriu a escola da ilha Vitória, onde também promoveu, durante dois meses, um "mutirão de alfabetização", em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.

Os novos caiçaras

Das múltiplas atividades em execução pela organização, talvez a mais regular seja a voltada aos alunos da rede pública municipal de São Sebastião, que se realiza desde 1990. Com patrocínio do Fundo Nacional do Meio Ambiente, a organização contrata entre os membros de cada comunidade professores para transmitir aos alunos de 14 escolas, como matéria optativa, as técnicas tradicionais da cultura caiçara. Entre elas o artesanato em caixeta, taboa e barro, a construção de canoas, a confecção de redes e a própria pesca, além de um curso de língua e cultura guarani, este destinado aos índios da reserva de Boracéia.

Essas aulas podem contribuir para derrotar uma das maiores ameaças à cultura caiçara: a apatia das novas gerações, que vivem em ambientes cada vez mais urbanizados, em relação ao legado cultural de seus pais.

Jaime Moreira da Silva, pescador da praia das Cigarras, em São Sebastião, reclama dos jovens, que em sua opinião não se interessam pela pesca artesanal. "Ninguém quer sujar a roupa, rachar o pé", diz.

Jaime não é o único a se queixar. Quando Ernesto de Sousa, pescador nascido na praia do Bonete, convida os rapazes que frequentam as rodas de pescadores para pescar, ninguém quer. "Eles têm medo. Acabou a coragem." Mas não é uma empreitada fácil, pois Ernesto é exigente. Para ele só se pode considerar pescador aquele capaz de passar dez, 15 dias seguidos no mar.

Na beira da maré

Mas o que é ser caiçara, afinal? Uma conversa com eles é uma boa oportunidade de saber quais as referências que utilizam para definir-se. Para Ernesto, caiçara é "quem mora na beira da maré". Mas o verdadeiro caiçara, assegura, se distingue "pela fala". Ernesto, usando o sotaque melódico a que se refere, conta que tem prazer em pescar e considera a vida no mar sinônimo de saúde. "Volto do mar com uma fome...", diz. Já foi remando de São Sebastião até Santos - uma distância de cerca de 100 quilômetros pelo mar, viagem que hoje, aos 76 anos, ainda pretende repetir - agora, com motor.

"Bato no peito que sou caiçara", diz o pescador Reinaldo dos Santos, 51 anos, do bairro de São Francisco, em São Sebastião. Como prova da identidade cultural de que se orgulha, Reinaldo cita um prato tradicional esquecido por muitos mas ainda presente em sua casa: pirão de peixe com banana verde. Nele estão presentes as principais riquezas alimentícias do litoral: o peixe, a farinha de mandioca e a banana, que é cozida no caldo do pescado. "É um prato forte", diz.

Jandira de Oliveira Santos (ver texto abaixo), pescadora da praia da Enseada, em São Sebastião, também oferece um motivo gastronômico para identificar-se como caiçara: "Não como filé. Só gosto de peixe com espinhas".


Aula prática

Jandira de Oliveira Santos é o nome de casada de Jandira Peixoto de Oliveira, hoje separada. Em 1991, aos 45 anos, operou uma grande transformação em sua vida: foi morar sozinha, na praia da Enseada, extremo norte de São Sebastião (SP), e adotou uma profissão: pescadora. Já trabalhava e pescava antes, mas hoje é diferente. Vive no mar, vive do mar. Tira de madrugada sua canoa do abrigo, coloca nela 300, 400 metros de rede e rema para o fundo. Lá está a solução de todos os problemas. "Quando chego a um lugar deserto, aquele marzão, a lua iluminando, olho para um lado, para o outro, não vejo nada, ninguém, penso: 'Este mar é meu'. Fico muito contente", diz Jandira. Às vezes dorme na canoa esperando a hora de puxar as redes. Às 7:30, 8:30 da manhã, chega à praia com os peixes quando outros pescadores, diz, ainda estão se preparando para sair.

Caminhando pela grande faixa de água rasa, pelos calcanhares, que caracteriza a praia da Enseada, ela conta como se iniciou na pesca. Criança, ganhou uma canoa "em que mal cabia", diz ela. Pescava com o pai, de linha e anzol.

De repente, Jandira interrompe a história. "Ali deve ter siri escondido", diz, ao ver uma lata de tinta tombada, semiencoberta pela água. Silêncio. Ela enfia a mão dentro da lata cheia de areia e de lá retira um siri. "Molinho, olha que beleza!", diz ela.

Como sabia? Muito simples: ela mostra ao lado da boca da lata um casco de siri. Ora, os siris, explica Jandira, precisam livrar-se da casca dura quando crescem. Nesse momento ficam ao mesmo tempo mais apetitosos e mais indefesos contra as bicadas das garças - havia, inclusive, uma por perto. Por isso precisam se proteger. Um casco de siri próximo a um bom esconderijo é uma charada fácil para os que, como Jandira, decifram o mar.

Uma lição puxa a outra. "Olha onde um siri grande está enterrado", diz, desta vez indicando uma área que aparenta ser exatamente igual às outras em torno. Mas não era. Ela tira de lá mais um siri e mostra a pista da descoberta. "Está vendo essa farinha branca?" Depois de certo esforço, orientado pela pescadora, é possível distinguir da areia também branca aquilo que ela chama de "farinha": outro subproduto da mesma transformação de siris pequenos e duros em grandes e moles.

Esses conhecimentos de Jandira seriam transmitidos apenas aos filhos ou às pessoas mais próximas se ela não tivesse realizado recentemente outra mudança em sua rotina. Agora, além de pescadora, ela é professora de pesca, no projeto São Sebastião Tem Alma.

(Transcrito de https://www.sescsp.org.br/online/artigo/9_A+CULTURA+DO+MAR, em 07/11/2020, seguindo o exemplo do Peter, http://canoadepau.blogspot.com/).

 

 

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O DENTE DO TONINHO

Uma arara (Arquivo JRS)

        Faz pouco tempo que o Toninho do Manelão morreu. Ele e seus irmãos eram fanáticos por futebol e tinham talento, se destacavam nas partidas aos domingos no nosso lugar. Ditão, outro que sempre gostou de esportes, me contou  que o Toninho era um dos melhores goleiros que Ubatuba já teve. 

        Numa manhã, conforme hábito, Ditão passou pelo meu portão para uma prosa. É madrugador o danado. Sempre tem um causo de gente que faz parte da minha história.

        "Você se lembra do Toninho, Zé? Ele morava na praia do Lamberto, era filho do Manelão (que me ensinou muita coisa sobre mecânica de máquinas e caminhões). A gente jogava bola juntos. Era goleiro dos bons. Naquele tempo, mais ou menos quarenta anos atrás, só tinha um dentista na cidade. Atendia ali, na rua da Liberdade, perto do campo de aviação. diziam que era bom, mas era careiro. Certa vez o Toninho estava com um dente muito ruim, precisando extrair. Foi quando ficou sabendo que, no Sertão da Quina, lá longe, tinha outro dentista, era bom e cobrava baratinho. Você sabe que o Toninho foi lá, atrás desse dentista? Embarcou no ônibus cedo, desceu no Sapê e andou até lá em cima, no Sertão. Chegou lá passando da hora do almoço. O dentista não estava em casa, mas o vizinho recomendou que ele esperasse um pouco. De fato, logo veio. Estava no bar porque gostava de uma pinguinha.  Escutou o caso e já foi mandando o Toninho sentar na cadeira. Errou a  anestesia, aplicou na língua. Pegou a ferramenta dele, engatou no dente e fez força. O Toninho disse que se mijou de dor, mas o dente foi extraído. Ele pagou e voltou para casa com a língua dura. A dor continuava na semana seguinte do mesmo jeito. O jeito foi apelar para o dentista da cidade. sabe o que aconteceu? O primeiro tinha arrancado o dente errado. Resumindo: ele perdeu dois dentes e gastou mais dinheiro. Mais tarde soubemos que o dentista do Sertão da Quina era bom mesmo, mas apenas na parte da manhã, quando ainda estava sóbrio. Depois que retornava do bar, ninguém mais tinha confiança em seu serviço. A gente vive cada situação, né Zé? Por isso que toda vez que a gente se encontrava, tinha a gozação: 'já tirou o dente, Toninho?'. Que Deus o tenha".